{"id":1671,"date":"2021-03-19T06:40:14","date_gmt":"2021-03-19T09:40:14","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1671"},"modified":"2025-12-01T13:45:50","modified_gmt":"2025-12-01T16:45:50","slug":"racismo-corpo-e-trauma-na-clinica-psicanalitica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2021\/03\/19\/racismo-corpo-e-trauma-na-clinica-psicanalitica\/","title":{"rendered":"RACISMO, CORPO E TRAUMA NA CL\u00cdNICA PSICANAL\u00cdTICA"},"content":{"rendered":"<h6>NAYARA PAULINA FERNANDES ROSA<em><br \/>\n<\/em>Psicanalista. Advogada atuante em conflitos agr\u00e1rios no Mato Grosso. Pesquisadora do n\u00facleo PSILACS \u2014 Psican\u00e1lise e La\u00e7o Social no Contempor\u00e2neo, da Universidade Federal de Minas Gerais. Integrante do cartel \u201cPsican\u00e1lise e Segrega\u00e7\u00e3o\u201d, inscrito na Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, se\u00e7\u00e3o Minas Gerais |\u00a0<span id=\"cloakcbc1b31670c4fd74f65f2dbdb634565c\"><a href=\"mailto:paulinarosapsi@gmail.com\">paulinarosapsi@gmail.com<\/a><\/span><strong>\u00a0<\/strong><\/h6>\n<blockquote><p><strong>Resumo:\u00a0<\/strong>O presente artigo discorre brevemente sobre a incid\u00eancia dos efeitos ps\u00edquicos do racismo contra negros no \u00e2mbito da identifica\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria a partir da teoria do est\u00e1dio do espelho. Fragmentos de casos cl\u00ednicos ilustram a proposi\u00e7\u00e3o de que, no momento em que o sujeito \u00e9 nomeado negro pelo outro, se d\u00e1 conta de que esse significante conjuga a representa\u00e7\u00e3o de todas as imagens com as quais aquele que foi nomeado branco n\u00e3o deseja se identificar. Ao ser classificado como negro, o sujeito \u00e9 fixado em uma esp\u00e9cie de \u201cinferioridade epidermizada\u201d. A escuta desse tipo de sofrimento \u2014 que envolve corpo, cultura e palavra \u2014 envolve a sutileza na evoca\u00e7\u00e3o da singularidade da experi\u00eancia traum\u00e1tica aliada \u00e0 assertividade de n\u00e3o se recuar na luta antirracista, compreendendo-a como causa que concerne a tamb\u00e9m a n\u00f3s, analistas de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana.<\/p>\n<p><strong>Palavras chave<\/strong>: Imagem; corpo; trauma; identifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Abstract:<\/strong>\u00a0The author relies on the tale Bartleby, the scrivener of H. Melville, to develop the notion of stranger based on the singularity of the main character and indicates how the presence of this real opacity participates in all existence and in humanity itself. His analysis is divided into three times and perspectives \u2014 irony, ethical dimension and tragedy \u2014 highlighting Bartleby&#8217;s subjective position in relation to the social bond. Bartleby represents this real excluded from the symbolic dimension, which never ceases to be written, not without consequences, and ironically exposes the essential uselessness of existence and its condition of similarity that affects everyone\u00a0<strong>Abstract:\u00a0<\/strong>This article briefly discusses the psychic effects of racism against blacks in the context of imaginary identification, based on Jaques Lacan\u00b4s theory of the mirror stage. Some fragments of clinical cases illustrate the proposition that at the moment when the subject is named by the other as \u201cblack\u201d, he realizes that this signifier combines the representation of all images with which the white does not wish to identify himself. When being classified as \u201cblack\u201d the subject is fixed in a kind of epidermized inferiority. Listening to this type of suffering \u2014 which involves body, culture and words \u2014 involves subtlety in evoking the singularity of the traumatic experience coupled with the assertiveness of not retreating in the anti-racist struggle, understanding it as a cause that also concerns us, Lacanian analysts.<\/p>\n<p><strong>Keywords<\/strong>: Image; body; trauma; identification<\/p><\/blockquote>\n<div id=\"attachment_1674\" style=\"width: 2306px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/novageracaonaiara-1-scaled.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"2296\" data-large_image_height=\"2560\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1674\" class=\"wp-image-1674\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/novageracaonaiara-1-918x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"592\" height=\"660\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1674\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Jayme Reis<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O objetivo do presente artigo \u00e9 discorrer sobre alguns aspectos dos efeitos ps\u00edquicos da discrimina\u00e7\u00e3o racial contra negros no Brasil abordando a dimens\u00e3o traum\u00e1tica do processo de identifica\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria desses sujeitos.<\/p>\n<p>Para tanto, valer-me-ei de fragmentos de casos atendidos em consult\u00f3rio particular nos anos de 2019 e 2020 a partir da abordagem lacaniana da constitui\u00e7\u00e3o do \u201ceu\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 corrente na fala de pessoas negras ouvidas em an\u00e1lise narrativas de sofrimento experimentado durante a inf\u00e2ncia, sobretudo em situa\u00e7\u00f5es vividas nas escolas e demais ambientes de conviv\u00eancia entre crian\u00e7as, professores e tutores, nas quais o sujeito foi impedido de representar determinados pap\u00e9is em brincadeiras ou encena\u00e7\u00f5es teatrais sob o argumento de que sua imagem corporal n\u00e3o condizia com as caracter\u00edsticas da personagem a ser representada.<\/p>\n<p>Alguns desses relatos dizem respeito \u00e0 impossibilidade de a crian\u00e7a interpretar, por exemplo, um anjo durante as celebra\u00e7\u00f5es crist\u00e3s, ou mesmo princesas e pr\u00edncipes em pe\u00e7as de teatro escolar. A principal justificativa dada tanto por colegas quanto por tutores \u00e9 que n\u00e3o existem anjos, pr\u00edncipes ou princesas negros.<\/p>\n<p>Essas experi\u00eancias eram narradas como momentos angustiantes em que os sujeitos eram acometidos por um forte sentimento de rebaixamento e humilha\u00e7\u00e3o que, com frequ\u00eancia, eram trazidos nas sess\u00f5es, como nos seguintes excertos cl\u00ednicos:<\/p>\n<p>A. 22 anos: \u201cEm casa a minha av\u00f3 me dizia que eu era bonita, mas na escola era diferente. Eu era feia. Riam do meu cabelo. No dia da formatura a professora pediu para eu molhar e prender meu cabelo para n\u00e3o atrapalhar a foto. Senti muita vergonha.\u201d<\/p>\n<p>I., 79 anos: \u201cQuando eu era pequena n\u00e3o me deixavam participar da coroa\u00e7\u00e3o de Maria. Onde j\u00e1 se viu anjo preto? Filho de negro \u00e9 urubu, diziam.\u201d<\/p>\n<p>A classifica\u00e7\u00e3o entre ra\u00e7as n\u00e3o tem qualquer embasamento biol\u00f3gico ou cient\u00edfico, mas funciona como um marcador social que determina quais lugares os corpos n\u00e3o brancos s\u00e3o autorizados a ocupar e a quais imagens tais corpos podem se identificar.<\/p>\n<p>Como podemos observar nas narrativas acima, desde as experi\u00eancias infantis, as imagens popularmente representativas de bondade, nobreza e pureza \u2014 como evocam as figuras de anjos e princesas \u2014 s\u00e3o retiradas do horizonte de identifica\u00e7\u00f5es imagin\u00e1rias de pessoas negras.<\/p>\n<p>Para nos debru\u00e7armos sobre o atravessamento racial na constitui\u00e7\u00e3o subjetiva a partir da orienta\u00e7\u00e3o lacaniana, na qual o eu \u00e9 uma inst\u00e2ncia eminentemente imagin\u00e1ria, tomaremos como referencial te\u00f3rico o est\u00e1dio do espelho.<\/p>\n<p>Essa proposi\u00e7\u00e3o se baseia em experi\u00eancias empreendidas no campo da \u00f3tica tomando como refer\u00eancia o modelo dos espelhos c\u00f4ncavos. O espelho representaria o olhar do outro materno, uma vez que, entre esse outro e o beb\u00ea, h\u00e1 uma esp\u00e9cie de sincronia corporal (LACAN, [1966], 1998):<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">O espet\u00e1culo cativante de um beb\u00ea que, diante do espelho, ainda sem ter o controle da marcha ou sequer da postura ereta, mas totalmente estreitado por um suporte humano ou artificial (o que chamamos, na Fran\u00e7a, um\u00a0<em>trotte-b\u00e9b\u00e9<\/em>, um andador), supera, numa az\u00e1fama jubilat\u00f3ria, os entraves desse apoio para sustentar sua postura, numa posi\u00e7\u00e3o mais ou menos inclinada e resgatar, fix\u00e1-lo, um aspecto instant\u00e2neo da imagem.<\/p>\n<p>De maneira bastante sint\u00e9tica, podemos afirmar que o est\u00e1dio do espelho \u00e9 constitu\u00eddo por tr\u00eas tempos. Em um primeiro momento, a crian\u00e7a olha para a imagem refletida no espelho e experimenta um estranhamento, pois a imagem visualizada n\u00e3o corresponderia \u00e0 imagem de si mesmo, mas a outro beb\u00ea, dado que seu n\u00edvel de matura\u00e7\u00e3o ps\u00edquica n\u00e3o permite ainda a apreens\u00e3o da imagem virtual como correspondente ao corpo pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>J\u00e1 o segundo momento \u00e9 marcado pela confus\u00e3o entre a imagem refletida e a pr\u00f3pria crian\u00e7a. Seu corpo \u00e9 contemplado atrav\u00e9s de partes dissociadas, prevalecendo certo transitivismo entre o reflexo e o eu pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>No terceiro tempo a crian\u00e7a \u00e9 capaz de perceber a correspond\u00eancia entre a imagem refletida no espelho e seu corpo, apreendendo o valor simb\u00f3lico da imagem como representativa de si, havendo, enfim, a integra\u00e7\u00e3o entre a imagem virtual e a imagem real (LACAN, [1966], 1998):<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">A fun\u00e7\u00e3o do est\u00e1dio do espelho revela-se para n\u00f3s, por conseguinte, como um caso particular da imago, que \u00e9 estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o do organismo com sua realidade \u2014 ou, como se costuma dizer, do Innwelt com Umwelt. Mas essa rela\u00e7\u00e3o com a natureza \u00e9 alterada, no homem, por uma certa deisc\u00eancia do organismo em seu seio, por uma discord\u00e2ncia primordial que \u00e9 tra\u00edda pelos sinais de mal-estar e falta de coordena\u00e7\u00e3o motora dos meses neonatais. O est\u00e1dio do espelho \u00e9 um drama cujo impulso interno precipita-se da insufici\u00eancia para a antecipa\u00e7\u00e3o. Desde uma imagem despeda\u00e7ada do corpo at\u00e9 uma forma de sua totalidade que chamaremos de ortop\u00e9dica. O rompimento do c\u00edrculo do Innwelt para o Umwelt gera a quadratura inesgot\u00e1vel dos arrolamentos do \u201ceu\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 relevante considerar que a integra\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica da imagem depende do olhar do outro materno como confirma\u00e7\u00e3o do reflexo visto no espelho pela crian\u00e7a. \u00c9 atrav\u00e9s do olhar do Outro que a crian\u00e7a se reconhece, pelo que a alteridade \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o fundamental de constitui\u00e7\u00e3o do eu enquanto inst\u00e2ncia imagin\u00e1ria.<\/p>\n<p>Os excertos das narrativas dos pacientes descritos acima dizem respeito ao valor simb\u00f3lico da imagem corporal apreendido ap\u00f3s o est\u00e1dio do espelho. Esses acontecimentos s\u00e3o vividos pelos analisandos como momentos de intensa ang\u00fastia, em que a imagem pr\u00f3pria adquirida pelo sujeito \u00e9 tida como incompat\u00edvel com a representa\u00e7\u00e3o de certos pap\u00e9is que estariam reservados para indiv\u00edduos de pele branca.<\/p>\n<p>Segundo os relatos, no instante em que eram confrontados com essa suposta incompatibilidade \u2014 enunciada tanto por outras crian\u00e7as quanto por alguns tutores \u2014, os sujeitos se davam conta de que portavam em seu corpo a materializa\u00e7\u00e3o de algo tido como indesej\u00e1vel: a pele escura, o cabelo crespo, o formato dos l\u00e1bios e do nariz passavam a ser tomados como caracter\u00edsticas representativas de um suposto excedente, do resto repulsivo e inconcili\u00e1vel com a imagem ideal da branquitude.<\/p>\n<p>Seguindo a perspectiva lacaniana, podemos considerar que o enunciado dessa suposta incompatibilidade entre o eu e o ideal imagin\u00e1rio representativo das personagens citadas adquire, para o sujeito, um valor traum\u00e1tico, na medida em que \u201co verdadeiro n\u00facleo traum\u00e1tico \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o com a l\u00edngua\u201d (MILLER, 1997). Com efeito, \u00e9 o choque entre o significante e o corpo do falasser que confere o valor traum\u00e1tico \u00e0s experi\u00eancias narradas.<\/p>\n<p>Nos fragmentos de casos anteriormente relatados \u00e0 nomea\u00e7\u00e3o de cada sujeito enquanto \u201cnegro\u201d, acarretou um problema central no caminho de suas identifica\u00e7\u00f5es, decorrente da disjun\u00e7\u00e3o entre a imagem especular e o real de seu corpo.<\/p>\n<p>O significante \u201ccor negra\u201d, em tais casos, evoca uma ang\u00fastia que retorna na forma de \u00f3dio sobre o corpo pr\u00f3prio e nas constantes tentativas de adequ\u00e1-lo ao ideal branco. Com isso, podemos nos indagar se a nomea\u00e7\u00e3o dada pelo outro exerceria um efeito de retroa\u00e7\u00e3o desintegradora \u00e0s primeiras fases do est\u00e1dio do espelho, pois os afetos experimentados pelo sujeito parecem incidir sobre seu corpo no limiar de uma ruptura. Ilustramos essa proposi\u00e7\u00e3o com o seguinte fragmento de caso:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil para mim, enquanto psicanalista, enumerar situa\u00e7\u00f5es em que pacientes, em suas sess\u00f5es, expressam esses fantasmas. Como M., que me dizia: \u201cPrecisava quando crian\u00e7a tomar v\u00e1rios banhos para tirar a minha sujeira\u201d. Ou C., uma secret\u00e1ria negra: \u201cPreciso estar sempre apresent\u00e1vel e ser eficiente, para que n\u00e3o me chamem de negra; n\u00e3o suportaria. Quando imagino essa situa\u00e7\u00e3o, sinto meu corpo rachando e sumindo no ch\u00e3o, como nos desenhos animados (NOGUEIRA, 1998).<\/p>\n<p>O sujeito se constitui atrav\u00e9s do olhar do outro, que lhe fornece o horizonte de identifica\u00e7\u00f5es poss\u00edveis. Para alguns sujeitos negros, esse horizonte de identifica\u00e7\u00f5es \u00e9 reduzido na medida que, desde a inf\u00e2ncia, lhe \u00e9 recusada a possibilidade de ocupar espa\u00e7os e representar pap\u00e9is que seriam exclusivos para pessoas de pele branca.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode negar a rar\u00edssima presen\u00e7a de pessoas negras em cargos de notoriedade e lideran\u00e7a nas institui\u00e7\u00f5es, nas campanhas publicit\u00e1rias e nos espa\u00e7os frequentados pela elite. Nesses locais, os poucos negros presentes na cena est\u00e3o geralmente numa posi\u00e7\u00e3o servil, uniformizados para se integrarem ao ambiente como parte do servi\u00e7o oferecido: manobristas, bab\u00e1s, faxineiras, gar\u00e7ons.<\/p>\n<p>Na conjectura econ\u00f4mica, pol\u00edtica e cultural brasileira, a palavra \u201cnegro\u201d remete n\u00e3o apenas a uma categoria social, mas tamb\u00e9m a uma categoria imagin\u00e1ria que passa a se confundir com o real na medida em que a cor da pele e o desenho de seus tra\u00e7os \u00e9 o estigma da diferen\u00e7a: a epidermiza\u00e7\u00e3o da inferioridade (FANON, 1952).<\/p>\n<p>\u00c9 recorrente, portanto, que o sentimento de humilha\u00e7\u00e3o e de \u00f3dio contra o corpo pr\u00f3prio estejam presentes nessas narrativas do sofrimento desses analisandos.<\/p>\n<p>O que est\u00e1 em jogo \u00e9, sobretudo, a dimens\u00e3o traum\u00e1tica do choque entre corpo e significante. A nomea\u00e7\u00e3o \u201cnegro\u201d nos casos acima citados culminou na percep\u00e7\u00e3o do corpo pr\u00f3prio como inadequado, repulsivo, objeto de \u00f3dio e recusa.<\/p>\n<p>As experi\u00eancias de segrega\u00e7\u00e3o racial levam a um tipo de sofrimento bastante espec\u00edfico que envolve cultura, palavra e corpo e, no caso do racismo contra negros, especificamente, a marca da discrimina\u00e7\u00e3o \u00e9 vis\u00edvel aos olhos posto que concerne exatamente \u00e0 imagem de seu corpo \u2014 no que diz respeito \u00e0 dimens\u00e3o traum\u00e1tica do choque entre o corpo e o significante.<\/p>\n<p>Contudo, \u00e9 importante sublinhar a dimens\u00e3o da singularidade no processo de constitui\u00e7\u00e3o de cada sujeito na medida em que o significante tocar\u00e1 cada um de uma forma peculiar, diversa e \u00fanica. A psican\u00e1lise n\u00e3o se coaduna com postula\u00e7\u00f5es totalizantes e seria incorreto afirmar que, para todos os negros, a experi\u00eancia formativa da subjetividade se inscreve da mesma maneira.<\/p>\n<p>Ressaltar a dimens\u00e3o da singularidade da experi\u00eancia, todavia, n\u00e3o importa que a psican\u00e1lise desconhe\u00e7a que o racismo concerne a todos n\u00f3s enquanto sociedade, posto que seus efeitos delet\u00e9rios se inscrevem continuamente, no campo p\u00fablico e privado.<\/p>\n<p>Embora o setting psicanal\u00edtico n\u00e3o seja de modo algum um espa\u00e7o de milit\u00e2ncia e de repara\u00e7\u00e3o de identifica\u00e7\u00f5es fragmentadas pelo trauma, n\u00e3o se pode negar a pot\u00eancia revolucion\u00e1ria da palavra que d\u00e1 testemunho e permite desenhar novos destinos.<\/p>\n<p>Finalizo este artigo com uma precisa interpela\u00e7\u00e3o aos analistas, publicada na obra\u00a0<em>Racismo e o negro no Brasil: quest\u00f5es para a psican\u00e1lise<\/em>\u00a0(KON et al., 2017), que nos coloca frente aos impasses e \u00e0 urg\u00eancia em aliar a\u00e7\u00f5es antirracistas e a pr\u00e1xis psicanal\u00edtica:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u00c9 preciso a inaugura\u00e7\u00e3o de uma psican\u00e1lise brasileira comprometida com a constru\u00e7\u00e3o de uma cl\u00ednica que n\u00e3o recuse a realidade hist\u00f3rico-social de nosso pa\u00eds e que leve em considera\u00e7\u00e3o o impacto dessa hist\u00f3ria na constru\u00e7\u00e3o das subjetividades.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong>:<\/h6>\n<h6>FANON, Frantz. 1952.\u00a0<strong>Pele negra, m\u00e1scaras brancas<\/strong>. Salvador: EDUFBA. 2008.<\/h6>\n<h6>NOGUEIRA, Isildinha Baptista. \u201cSignifica\u00e7\u00f5es do Corpo Negro\u201d. Tese de doutorado em Psicologia. 174 p. Universidade de S\u00e3o Paulo. 1998.<\/h6>\n<h6>LACAN, Jaques. 1966. \u201cO est\u00e1dio do espelho como formador da fun\u00e7\u00e3o do Eu\u201d. In:\u00a0<strong>Escritos<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 1998.<\/h6>\n<h6>MILLER, Jacques-Alain. &#8220;<strong>Uno por uno&#8221;.\u00a0<\/strong><strong>Revista Mundial de Psicoan\u00e1lisis<\/strong>. n\u00ba 45, 1997.<\/h6>\n<h6>SILVA, Maria L\u00facia da. \u201cRacismo no Brasil: quest\u00f5es para psicanalistas brasileiros\u201d. In: KON, Noemi Moritz (org.)\u00a0<strong>O racismo e o negro no Brasil: quest\u00f5es para a psican\u00e1lise<\/strong>. 1\u00aa ed. S\u00e3o Paulo: Perspectiva, 2017.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>NAYARA PAULINA FERNANDES ROSA Psicanalista. Advogada atuante em conflitos agr\u00e1rios no Mato Grosso. 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