{"id":1676,"date":"2021-03-19T06:40:14","date_gmt":"2021-03-19T09:40:14","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1676"},"modified":"2025-12-01T13:46:22","modified_gmt":"2025-12-01T16:46:22","slug":"um-retrato-do-psicanalista-quando-artista-a-interpretacao-no-ultimo-ensino-de-lacan","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2021\/03\/19\/um-retrato-do-psicanalista-quando-artista-a-interpretacao-no-ultimo-ensino-de-lacan\/","title":{"rendered":"UM RETRATO DO PSICANALISTA QUANDO ARTISTA:\u00a0 A INTERPRETA\u00c7\u00c3O NO \u00daLTIMO ENSINO DE LACAN\u00a0"},"content":{"rendered":"<h6>DERICK DAVIDSON SANTOS TEIXEIRA<em><br \/>\n<\/em>Professor e psicanalista em forma\u00e7\u00e3o. Doutorando em Estudos Liter\u00e1rios na linha de pesquisa Literatura e Psican\u00e1lise pela Universidade Federal de Minas Gerais e aluno do Instituto de Psican\u00e1lise e Sa\u00fade Mental de Minas Gerais |\u00a0<span id=\"cloak5c8f09ef2f7ddfb48a8c27ce4977fe37\"><a href=\"mailto:derick.davey@gmail.com\">derick.davey@gmail.com<\/a><\/span><\/h6>\n<blockquote><p><strong>Resumo<\/strong>: No pref\u00e1cio \u00e0 edi\u00e7\u00e3o inglesa do semin\u00e1rio 11, Lacan escreve que \u201ca psican\u00e1lise, desde que ex-siste, mudou\u201d. Sabe-se que essa mudan\u00e7a decorre, principalmente, de uma promo\u00e7\u00e3o do corpo e da escrita no interior da psican\u00e1lise. Da escrita po\u00e9tica chinesa \u00e0 obra de James Joyce, passando pelo corpo tomado por uma satisfa\u00e7\u00e3o pulsional que escapa \u00e0 articula\u00e7\u00e3o significante, Lacan reformula a interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica. \u00a0O presente texto trata dos desdobramentos da interpreta\u00e7\u00e3o na fase final do ensino de Lacan. Faremos um breve percurso pelo tema do \u201cmoterialismo\u201d e da emerg\u00eancia da letra na psican\u00e1lise. Nessa via, elucidamos os efeitos de uma interpreta\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se pauta apenas pelo sentido, mas que faz valer, tamb\u00e9m, um furo \u2014 a realiza\u00e7\u00e3o de um vazio sem\u00e2ntico \u2014, um efeito de sentido real.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: Psican\u00e1lise; letra; interpreta\u00e7\u00e3o; real.<\/p>\n<p><strong>Abstract<\/strong>: In the foreword to the English edition of Seminar 11, Lacan writes that \u201cpsychoanalysis has, since it has ex-sisted, changed\u201d. It is known that this change derives mainly from the promotion of the body and of the writing within psychoanalysis. From Chinese poetic writing to the work of James Joyce, passing through the body taken by a drive satisfaction that escapes the signifying articulation, Lacan reformulates analytical interpretation. This text deals with the unfolding of analytical interpretation in the final phase of Lacan\u2019s teaching. We will take a brief journey through the theme of \u201cmoterialism\u201d and the emergency of the letter in psychoanalysis. In this perspective, we elucidate the effects of an analytical interpretation that that is not only guided by meaning, but that also makes a hole \u2014 the realization of a semantic void \u2014 an effect of real meaning.<\/p>\n<p><strong>Keywords<\/strong>: Psychoanalysis; letter; interpretation; real.<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_1680\" style=\"width: 1067px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/derickdeumanova-1.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"1057\" data-large_image_height=\"2268\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1680\" class=\"wp-image-1680\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/derickdeumanova-1-477x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"237\" height=\"509\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/derickdeumanova-1-477x1024.jpg 477w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/derickdeumanova-1-140x300.jpg 140w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/derickdeumanova-1-768x1648.jpg 768w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/derickdeumanova-1-716x1536.jpg 716w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/derickdeumanova-1-954x2048.jpg 954w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/derickdeumanova-1.jpg 1057w\" sizes=\"auto, (max-width: 237px) 100vw, 237px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1680\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Jayme Reis<\/p><\/div>\n<p>Em seu pref\u00e1cio a\u0300 edi\u00e7\u00e3o inglesa do semin\u00e1rio 11, Lacan escreve que a psican\u00e1lise, \u201cdesde que ex-siste, mudou\u201d (1976 \/2003, p. 567). Sabemos que essa mudan\u00e7a implica alguns desdobramentos: do inconsciente transferencial, estruturado como linguagem, passamos ao inconsciente real; da verdade, vamos a\u0300 varidade; da hist\u00f3ria, a\u0300 histoeria<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/retrato#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a>. Em suma, de uma primeira cl\u00ednica mais atenta ao funcionamento simb\u00f3lico, vamos em dire\u00e7\u00e3o a uma cl\u00ednica do real. Este texto pretende abordar, principalmente na fase final do ensino de Lacan, os desdobramentos de seu \u00faltimo ensino que concernem a\u0300 interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em seus primeiros semin\u00e1rios, Lacan dava primazia ao registro simb\u00f3lico desprendendo as formula\u00e7\u00f5es freudianas de seus conte\u00fados imagin\u00e1rios e reformulando-as a partir da lingu\u00edstica estrutural de Saussure. Pela brevidade desse percurso, uma an\u00e1lise aprofundada do lugar da interpreta\u00e7\u00e3o no primeiro ensino de Lacan n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel, no entanto, \u00e9 plaus\u00edvel dizer que, devido \u00e0 primazia do simb\u00f3lico, em seus primeiros semin\u00e1rios, Lacan det\u00e9m-se, sobretudo, na significa\u00e7\u00e3o da interpreta\u00e7\u00e3o: a nomea\u00e7\u00e3o do desejo, a sugest\u00e3o e o ponto de basta como momento em que o significante \u00e9 amarrado a um significado s\u00e3o exemplos de uma interpreta\u00e7\u00e3o que opera na via da fala e do sentido. Conforme escreveu \u00c9ric Laurent, embora leg\u00edtimos, os efeitos dessas interpreta\u00e7\u00f5es, por vezes, demonstram a \u201ccontamina\u00e7\u00e3o do discurso pelo sono\u201d (2018, p. 61).<\/p>\n<p>A partir do semin\u00e1rio 7, levando sua teoria do desejo em dire\u00e7\u00e3o ao gozo, Lacan introduz, gradualmente, o registro do real, o qual levar\u00e1 a uma tor\u00e7\u00e3o na sua teoria e na sua no\u00e7\u00e3o de sujeito. Desse momento, \u00e9 exemplar o dito de Lacan, segundo o qual a psican\u00e1lise, na sua ex-sist\u00eancia, mudou, pois Lacan situar\u00e1 a psican\u00e1lise, a um s\u00f3 tempo, dentro e fora de si mesma: dentro enquanto detentora de um saber discursivo sustentado pelo sentido, o que se elabora entre S1 e S2, e fora uma vez que lan\u00e7a um olhar para o avesso do sentido, para os furos, as opacidades sem\u00e2nticas. Surge, nessa perspectiva, a crucial orienta\u00e7\u00e3o para o real, registro do qual a ex-sist\u00eancia \u00e9 a \u201ccaracter\u00edstica fundamental\u201d \u2014 j\u00e1 ao imagin\u00e1rio caber\u00e1 a consist\u00eancia e, ao simb\u00f3lico, o furo (LACAN, 2007, p. 36). Nesse ponto, Lacan passar\u00e1 da primazia de um sujeito que s\u00f3 existe enquanto articulado ao significante a uma no\u00e7\u00e3o de sujeito que abarca, tamb\u00e9m, o corpo tomado por um tipo de satisfa\u00e7\u00e3o que escapa \u00e0 articula\u00e7\u00e3o dos significantes e aos poss\u00edveis sentidos, sendo essa a base da sua \u00faltima no\u00e7\u00e3o de sujeito: o\u00a0<em>falasser,\u00a0<\/em>o qual conjuga o sujeito do inconsciente e o corpo gozante.<\/p>\n<p>Na via do falasser e do corpo falante, h\u00e1 um afastamento da lingu\u00edstica estrutural e uma promo\u00e7\u00e3o do escrito, conforme lemos em \u201cLituraterra\u201d. Conforme escreve Miller, Lacan fez entrar o corpo na psican\u00e1lise ao mesmo tempo em que fez entrar \u201co gozo da escrita\u201d (2015, p. 87). Com efeito, em \u201cVers un signifiant nouveau\u201d, comentando a interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica, Lacan retoma o tema da escrita chinesa, abordada em seu semin\u00e1rio 18, para dizer-nos que o significado, embora ressoe com a ajuda do significante, n\u00e3o vai longe. No entanto, segundo Lacan, poder\u00edamos ser \u201cinspirados por qualquer coisa da ordem da poesia para intervir\u201d (1979, p. 16)<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/retrato#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a>. Instigado pela escritura chinesa e pela escrita de James Joyce, Lacan visa a uma interpreta\u00e7\u00e3o que se aproximaria da poesia a partir de um novo uso do significante. A interpreta\u00e7\u00e3o, aqui, seria duplamente articulada: por um lado, um efeito de sentido e, por outro, um efeito de furo, de esvaziamento, o que a torna, conforme elucida Miller (2009), adequada ao gozo. Nessa via, vemos uma elabora\u00e7\u00e3o acerca da interpreta\u00e7\u00e3o como ato que visa, a partir de um efeito real de sentido, surtir efeitos no corpo. Vejamos, ent\u00e3o, como a escrita joyceana, estudada por Lacan, nos ajuda a pensar a interpreta\u00e7\u00e3o na fase final de seu ensino.<\/p>\n<p><em>O moterialismo e os efeitos da letra<\/em><\/p>\n<p>O leitor de<em>\u00a0Um retrato do artista quando jovem<\/em>\u00a0n\u00e3o poder\u00e1 deixar de notar uma instigante constru\u00e7\u00e3o textual logo nos primeiro par\u00e1grafos. Ao narrar a inf\u00e2ncia de Stephen, Joyce modula seu texto: ora\u00e7\u00f5es curtas, poucas subordina\u00e7\u00f5es, aus\u00eancias de pontua\u00e7\u00e3o e vocabul\u00e1rio infantilizado que se aproxima da lala\u00e7\u00e3o. \u00c9 buscando fazer a escrita juntar-se de forma indistinta ao cont\u00ednuo fluxo da vida, sobretudo no n\u00edvel da forma, da materialidade do texto, que a escrita se aproxima da inf\u00e2ncia da personagem. A narrativa segue como se a escrita amadurecesse junto com o corpo que ela quer fazer adentrar a narrativa. No entanto, Joyce n\u00e3o o faz pela simples via do significado, mas, sim, a partir de uma aten\u00e7\u00e3o concedida \u00e0 materialidade do significante. Est\u00e1 anunciado, destarte, o caminho que levar\u00e1 a\u00a0<em>Finnegans Wake<\/em>, livro em que o autor busca n\u00e3o mais a constru\u00e7\u00e3o imag\u00e9tica do sentido, mas seu escoamento devido ao cuidadoso trabalho com a materialidade da palavra.<\/p>\n<p>Em\u00a0<em>Finnegans Wake<\/em>, escrevendo \u201co que ha\u0301 de mais pr\u00f3ximo do lapso\u201d (LACAN, 2008, p. 20), Joyce faz neologismos que se apoiam menos na voz que na letra. A an\u00e1lise de qualquer frase de\u00a0<em>Finnegans Wake<\/em>\u00a0nos demandaria muitas linhas; peguemos, ent\u00e3o, de uma frase, apenas uma palavra: \u201cto watsch the future of his fates\u201d. \u201cWatsch\u201d \u00e9 um exemplo das famosas palavras-valise de Joyce. Embora impercept\u00edvel na pron\u00fancia, vemos, na grafia, que a palavra \u201c<em>Watch<\/em>\u201d cont\u00e9m a palavra \u201c<em>Wash<\/em>\u201d \u2014 uma condensa\u00e7\u00e3o a partir da qual a frase pode se desdobrar, no fio da equivocidade, em, no m\u00ednimo, dois significados distintos: \u201cpara lavar os tra\u00e7os de seu rosto\u201d (<em>to wash the features of his face<\/em>) ou \u201cpara assistir ao futuro de seu destino\u201d, (<em>to watch the future of his fate<\/em>).<sup><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/retrato#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a><\/sup>\u00a0<em>Watsch<\/em>\u00a0vem, assim como o conhecido exemplo \u201cfamilion\u00e1rio\u201d (familiar + milion\u00e1rio), em uma dupla acep\u00e7\u00e3o \u2014 no entanto, com Joyce, a condensa\u00e7\u00e3o \u00e9 clara na materialidade do significante evidenciada pela grafia. O que h\u00e1 de novo? A passagem da voz para a letra expondo uma descontinuidade, um furo, entre som e sentido.<\/p>\n<p>Essa n\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o entre som e sentido que revela um furo entre ambos no mesmo movimento em que nos aponta a materialidade da palavra \u00e9 retomada por Lacan em \u201cConfer\u00eancia em Genebra sobre o sintoma\u201d (1975). Sem passar ao largo dos artif\u00edcios joyceanos, na confer\u00eancia, para se referir \u00e0 materialidade do significante e seus efeitos, Lacan cunha o neologismo \u201cmoterialisme\u201d, uma condensa\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>mot<\/em>\u00a0(palavra) e\u00a0<em>materialisme<\/em>\u00a0(materialismo).<\/p>\n<p>O efeito de furo que afasta som e sentido e a materialidade da letra s\u00e3o elaborados, com not\u00e1vel densidade metaf\u00f3rica, em \u201cLituraterra\u201d, texto que Lacan escreveu ap\u00f3s retornar de uma viagem ao Jap\u00e3o. Aqui, ele desdobra o que lhe ocorreu pensar no momento do sobrevoo pela plan\u00edcie siberiana ao observar as ravinas e os tra\u00e7os que o remetiam \u00e0 escrita. No texto, Lacan repensa a letra n\u00e3o mais como significante, mas como aquilo que, na l\u00edngua, opera fora do ve\u00edculo de sentido, o que constitui furo, sendo situada no litoral entre real e simb\u00f3lico. Em resumo, no texto, as nuvens aparecem como met\u00e1fora do semblante, o que constitu\u00eda forma, em oposi\u00e7\u00e3o aos riachos e as ravinas, como met\u00e1foras da letra que sulca a terra, como a escrita \u2014 primeiro \u201cgod\u00ea a estar sempre pronto a dar acolhida ao gozo, ou, pelo menos, a invoc\u00e1-lo com seu artif\u00edcio\u201d (LACAN, 2009, p. 118). Entre um estado e outro h\u00e1 ruptura \u2014 furo \u2014 figurada no texto atrav\u00e9s da precipita\u00e7\u00e3o: \u201ca escrita \u00e9, no real, o ravinamento do significado, aquilo que choveu do semblante como aquilo que constitui o significante\u201d (LACAN, 2009, p. 22). Da nuvem aos riachos e ravinas, algo permanece: \u201c\u00e1gua da linguagem\u201d, conforme a met\u00e1fora de Lacan na confer\u00eancia em Genebra, no entanto, na escrita, o que temos \u00e9 a \u00e1gua que choveu do semblante, isto \u00e9, restos do significante que dava forma \u2014 a letra. Lacan encontra um mote em Joyce que \u201cdesliza de\u00a0<em>a<\/em>\u00a0<em>letter<\/em>\u00a0para\u00a0<em>a litter<\/em>\u201d, de uma carta\/letra para lixo (LACAN, 2009, p. 106). Se, at\u00e9 ent\u00e3o, a letra era suporte do significante, materialidade que transportava significa\u00e7\u00e3o \u2014\u00a0<em>letter\u00a0<\/em>\u2014, como lemos em \u201cA carta roubada\u201d, de Poe, em \u201cLituraterra\u201d ela \u00e9\u00a0<em>litter<\/em>\u00a0\u2014 dejeto, materialidade manipul\u00e1vel.<\/p>\n<p>No que a letra aqui evocada pode concernir \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o e ao corpo? Em \u201cLituraterra\u201d, Lacan tomar\u00e1 a letra como aquilo que constitui um litoral, entre saber e gozo, simb\u00f3lico e real. A letra \u00e9 o que faz furo evocando o gozo ao romper o semblante, indo em dire\u00e7\u00e3o, portanto, \u00e0 pulsionalidade do corpo. Segundo Laurent, nessa mudan\u00e7a da interpreta\u00e7\u00e3o, a antiga sugest\u00e3o d\u00e1 lugar \u00e0 jacula\u00e7\u00e3o: o \u201cimpacto do significante no corpo\u201d, que leva ao \u201ctratamento da disrup\u00e7\u00e3o do gozo\u201d, gra\u00e7as \u00e0 \u201cautoelabora\u00e7\u00e3o de uma fic\u00e7\u00e3o n\u00e3o-padr\u00e3o\u201d (2018, on-line). Esse ato conv\u00e9m, sobretudo, \u00e0 cl\u00ednica do falasser e do Outro que n\u00e3o existe. A antiga sugest\u00e3o e seus efeitos de sentido ficam, portanto, ligados a um sujeito suposto saber e \u00e0 \u201ccontamina\u00e7\u00e3o do discurso pelo sono\u201d (2018, on-line), contr\u00e1rio a um despertar. A jacula\u00e7\u00e3o, segundo Laurent, n\u00e3o \u00e9 uma enuncia\u00e7\u00e3o apoiada no imagin\u00e1rio ou no simb\u00f3lico; \u00e9, antes, o efeito de sentido real que visa a \u201cuma realiza\u00e7\u00e3o subjetiva do vazio\u201d (2018, on-line). Essa abordagem da interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 consonante, como vemos, com os efeitos da letra e do\u00a0<em>moterialismo\u00a0<\/em>elaborados por Lacan na fase final de seu ensino.<\/p>\n<p><em>Um psicanalista como artista<\/em><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Nessa inspira\u00e7\u00e3o pelo recurso po\u00e9tico, n\u00e3o se trata de uma exalta\u00e7\u00e3o do belo simplesmente, nada de uma est\u00e9ril estetiza\u00e7\u00e3o da cl\u00ednica; em rela\u00e7\u00e3o a isso, Lacan era claro: \u201cn\u00e3o temos nada de belo a dizer\u201d (1979, p. 23)<sup><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/retrato#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a><\/sup>. Tanto no poema quanto no matema, h\u00e1 rigor. Para manipular com o som o sil\u00eancio do furo, \u00e9 preciso, portanto, fineza na tomada da equivocidade inerente \u00e0 linguagem e uma aten\u00e7\u00e3o \u00e0 materialidade do significante.<\/p>\n<p>A respeito dessa face da interpreta\u00e7\u00e3o que vemos surgir no \u00faltimo per\u00edodo do ensino de Lacan, ha\u0301 uma cena, a meu ver, exemplar, no conhecido document\u00e1rio\u00a0<em>Um encontro com Lacan<\/em>, de Gerard Miller. Na cena, uma ex-analisanda de Lacan, que viveu os horrores da Segunda Guerra, relata uma interpreta\u00e7\u00e3o de Lacan que, atrav\u00e9s de uma escans\u00e3o, desliza de \u201c<em>Gestapo<\/em>\u201d para \u201c<em>geste a\u0300 peau<\/em>\u201d, de Gestapo para gesto na pele \u2014 separando, assim, atrav\u00e9s da materialidade da letra, som e sentido. Essa interpreta\u00e7\u00e3o segue a emerg\u00eancia da letra, conforme lemos em \u201cLituraterra\u201d. Lacan faz um furo, uma descontinuidade: de \u201c<em>Gestapo\u201d<\/em>\u00a0a \u201c<em>gest \u00e0 peau\u201d<\/em>, da nuvem, do significante como semblante, \u00e0 letra que dissolve, faz chover, e permite que algo se escreva de outra forma. Se tomarmos a imagem que guia \u201cLituraterra\u201d, podemos dizer que Lacan faz precipita\u00e7\u00e3o, faz chover diluindo o que antes era forma: acordar \u00e0s tr\u00eas da manh\u00e3 (o hor\u00e1rio em que a Gestapo passava pelas casas \u00e0 procura dos judeus) se torna, nas palavras da analisanda, \u201cqualquer coisa como um apelo \u00e0 humanidade\u201d. De um estado ao outro, ela diz, a dor \u00e9 o que permanece \u2014 assim como a \u00e1gua que chove das nuvens permanece nos riachos que ravinam a plan\u00edcie siberiana avistada por Lacan. Furado o semblante, no entanto, ainda que doa, algo se escreve de outra forma \u2014 e as \u00e1guas de um riacho t\u00eam mais mobilidade que as \u00e1guas im\u00f3veis nas nuvens.<\/p>\n<p>Um outro exemplo pode ser contemplado no relato de passe de Ana Lucia Lutterbach Holck (2007), em que ela relata uma \u201cinterpreta\u00e7\u00e3o sem sentido do analista\u201d referente a um sonho em que um c\u00e3o surge defecando um pat\u00ea: \u201cesse pat\u00ea \u00e9 voc\u00ea\u201d, interpreta\u00e7\u00e3o a partir da qual se d\u00e1 o corte da sess\u00e3o produzindo um deslizamento de sentido: \u201cfazer-se \u2018pat\u00ea\u2019 (para ser tida), fazer-se \u2018pav\u00ea\u2019 (para ser vista), fazer-se \u2018pa cum\u00ea\u2019 (para ser comida), fazer-se \u2018pra tudo\u2019 e finalmente \u2018pastout\u2019 (2007, p. 36). Nessa passagem de um todo para o n\u00e3o-todo (pas-tout) do gozo feminino, a palavra tamb\u00e9m surge como materialidade evidenciando um furo entre som e sentido, desfazendo, assim, o semblante que constitu\u00eda forma.<\/p>\n<p>Segundo essa reelabora\u00e7\u00e3o, a interpreta\u00e7\u00e3o opera o ravinamento do semblante fazendo com que surja a\u00ed algo de real, um gozo tocado, um efeito de despertar, diferente do discurso contaminado pelo sono. Vemos, assim, a palavra tomada tanto como materialidade como aquilo que, tal qual o litoral, entre simb\u00f3lico e real, possuir\u00e1 uma face de sentido e uma de furo, um\u00a0<em>pas-de-sens<\/em><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/retrato#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a>\u00a0(passo de sentido e um sem sentido). No \u00faltimo ensino de Lacan, portanto, a interpreta\u00e7\u00e3o n\u00e3o opera mais somente com os semblantes, com um simb\u00f3lico impotente em rela\u00e7\u00e3o ao real, mas, sim, com um simbolicamente real. Nessa via, a palavra se aproxima do corpo atrav\u00e9s da sua materialidade. \u00c9 preciso, ainda, escutar \u2014 isso \u00e9 certo \u2014, mas, al\u00e9m da escuta, trata-se de ler o escrito.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/h6>\n<h6>HOLCK, A. L. L. \u201cRelato\u201d. In:\u00a0<strong>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/strong><em>\u00a0\u2013\u00a0<\/em>Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise, n\u00ba 50, 2007.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1969-1970).\u00a0<strong>Semin\u00e1rio livro 17:<\/strong>\u00a0o avesso da psican\u00e1lise. Trad. Ari Roitman. Rio de Janeiro: Zahar, 1992.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. \u201cVers un signifiant nouveau\u201d. In:\u00a0<em><strong>Ornicar?<\/strong><\/em><em>.<\/em>\u00a0n\u00ba. 17, 1979. p. 7\u201324.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. \u201cConfer\u00eancia em Genebra sobre o sintoma\u201d. In:\u00a0<strong>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana\u00a0<\/strong>\u2013 Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise, n\u00ba 23, 1998. S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00f5es Eolia, p. 10.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1976). Pref\u00e1cio \u00e0 edi\u00e7\u00e3o inglesa do semin\u00e1rio 11. In:\u00a0<strong>Outros Escritos<\/strong>. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar 2003, p. 567\u2013568.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1975-1976).\u00a0<strong>O semin\u00e1rio livro 23<\/strong>: o Sinthoma. Trad. S\u00e9rgio Laia. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1972-1973).\u00a0<strong>O semin\u00e1rio livro 20<\/strong>: mais, ainda. Trad. M. D. Magno. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1971).\u00a0<strong>O Semin\u00e1rio livro 18<\/strong>: de um discurso que n\u00e3o fosse semblante. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009.<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9. Disrup\u00e7\u00e3o do gozo nas loucuras sob transfer\u00eancia. In:\u00a0<strong>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/strong>, Revista Internacional Brasileira de Psican\u00e1lise, S\u00e3o Paulo, n. 79, 2018, p. 52-63. Dispon\u00edvel em: &lt;\u00a0<a href=\"http:\/\/lacanempdf.blogspot.com\/2018\/04\/disrupcao-do-gozo-nas-loucuras-sob.html\">http:\/\/lacanempdf.blogspot.com\/2018\/04\/disrupcao-do-gozo-nas-loucuras-sob.html<\/a>&gt; Acesso em agosto de 2020.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A.\u00a0<strong>Perspectivas do semin\u00e1rio 23 de Lacan<\/strong>: o sinthoma. Trad. Teresinha Prado. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A.\u00a0<strong>Perspectivas dos Escritos e Outros escritos de Lacan:\u00a0<\/strong>entre desejo e gozo. Trad. Vera Ribeir. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2011.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A.\u00a0<strong>O osso de uma an\u00e1lise<\/strong>. Rio de Janeiro: Zahar, 2015.<\/h6>\n<h6>RENDEZ VOUS CHEZ LACAN. Dir. G\u00e9rard Miller. 60 min. Cor. Fr. 2011.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/retrato#_ednref1\" name=\"_edn1\"><\/a><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/retrato#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a>\u00a0Uma an\u00e1lise detalhada de tais desdobramentos pode ser encontrada em\u00a0<em>Perspectivas dos Escritos e Outros escritos<\/em>, de Jacques-Alain Miller.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/retrato#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a>\u00a0Tradu\u00e7\u00e3o minha de \u201cEtre \u00e9ventuellement inspir\u00e9 par quelque chose de l\u2019ordre de la po\u00e9sie pour intervenir\u201d.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/retrato#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a>\u00a0Explorando as combina\u00e7\u00f5es poss\u00edveis do sintagma, ter\u00edamos diversas possibilidades:\u00a0<em>to watch the features of his face<\/em>;\u00a0<em>to wash the future of his fate<\/em>; t<em>o watch the future of his face<\/em>;\u00a0<em>to wash the features of his fate<\/em>;\u00a0<em>to watch the features of his fate<\/em>\u2026<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/retrato#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a>\u00a0Tradu\u00e7\u00e3o minha de \u201cnous n\u2019avons rien \u00e0 dire de beau\u201d.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/retrato#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a>\u00a0Em seu semin\u00e1rio 17, Lacan (1992, p. 59) joga com a ambiguidade da express\u00e3o\u00a0<em>pas-de-sens<\/em>, a qual, em Franc\u00eas, quer dizer tanto \u201csem sentido\u201d quanto \u201cpasso de sentido\u201d.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>DERICK DAVIDSON SANTOS TEIXEIRA Professor e psicanalista em forma\u00e7\u00e3o. Doutorando em Estudos Liter\u00e1rios na linha de pesquisa Literatura e Psican\u00e1lise pela Universidade Federal de Minas Gerais e aluno do Instituto de Psican\u00e1lise e Sa\u00fade Mental de Minas Gerais |\u00a0derick.davey@gmail.com Resumo: No pref\u00e1cio \u00e0 edi\u00e7\u00e3o inglesa do semin\u00e1rio 11, Lacan escreve que \u201ca psican\u00e1lise, desde que&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57935,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[22],"tags":[],"class_list":["post-1676","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-26","category-22","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1676","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1676"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1676\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57936,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1676\/revisions\/57936"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57935"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1676"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1676"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1676"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}