{"id":1687,"date":"2021-03-19T06:40:14","date_gmt":"2021-03-19T09:40:14","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1687"},"modified":"2025-12-01T13:50:02","modified_gmt":"2025-12-01T16:50:02","slug":"psicanalise-on-line-com-criancas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2021\/03\/19\/psicanalise-on-line-com-criancas\/","title":{"rendered":"PSICAN\u00c1LISE ON-LINE COM CRIAN\u00c7AS"},"content":{"rendered":"<h6>SUZANA FALEIRO BARROSO<em><br \/>\n<\/em>Psic\u00f3loga e psicanalista praticante. Membro da EBP-MG\/AMP. Doutora em Teoria Psicanal\u00edtica pela UFRJ e professora da Faculdade de Psicologia PUC-MINAS |<br \/>\n<span id=\"cloak5651a435c46539297cf9cd2b9a2dbb88\"><a href=\"mailto:suzanafaleirobarroso@gmail.com\">suzanafaleirobarroso@gmail.com<\/a><\/span><\/h6>\n<blockquote><p><strong>Resumo:<\/strong>\u00a0O artigo re\u00fane pontos abordados na XXIV Conversa\u00e7\u00e3o da Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica do IPSM-MG, em novembro de 2020. Discute o recurso aos dispositivos virtuais para sustentar a pr\u00e1tica anal\u00edtica com crian\u00e7as durante a quarentena; articula-os aos aspectos da dire\u00e7\u00e3o do tratamento, o manejo da transfer\u00eancia, o desejo e a presen\u00e7a do analista; aborda algumas vinhetas da cl\u00ednica do unheimlich a partir dos relatos de crian\u00e7as e adolescentes em an\u00e1lise e, por fim, verifica como o discurso anal\u00edtico \u00e9 aquele que pode acolher os efeitos do encontro com o estranho junto \u00e0s crian\u00e7as e adolescentes.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave:<\/strong>\u00a0crian\u00e7as em an\u00e1lise; discurso; Skype; desejo do analista; efeitos cl\u00ednicos do\u00a0<em>unheimlich<\/em><\/p>\n<p><strong>Abstract:<\/strong>\u00a0This article gathers some points that were raised in in the XXIV Conversation of the Clinical Section of IPSM-MG in November 2020. It discusses the use of virtual devices to sustain the analytical practice with children during quarantine; it articulates them with aspects of treatment direction, transference management, desire and presence of the analyst; addresses some vignettes of the unheimlich clinic through the reports of children and adolescents under analysis, and verifies how the analytical discourse is one that can accommodate the effects, on children and teenagers, of the encounter with the uncanny.<\/p>\n<p><strong>Keywords:<\/strong>\u00a0children in analysis; Skype; analyst&#8217;s desire; clinical effects of the unheimlich.<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_1688\" style=\"width: 2570px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/suzanabarrosincur-scaled.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"2560\" data-large_image_height=\"2534\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1688\" class=\"wp-image-1688\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/suzanabarrosincur-1024x1014.jpg\" alt=\"\" width=\"412\" height=\"408\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1688\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Jayme Reis<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na civiliza\u00e7\u00e3o em que o Nome-do-Pai se evapora, os objetos e as imagens pululam e saturam o cen\u00e1rio subjetivo, muitos dizem que o virtual chegou para ficar e acenam, com certo j\u00fabilo, para o \u201cnovo mundo\u201d p\u00f3s-pandemia, no qual a virtualidade reinar\u00e1. A subservi\u00eancia do\u00a0<em>falasser\u00a0<\/em>\u00e0 imagem, descrita na confer\u00eancia de 1974, \u201cA terceira\u201d, parece se impor como destino. A pergunta de Lacan, n\u00e3o t\u00e3o familiar \u00e0 realidade dos anos setenta, torna-se inteiramente afinada com nosso tempo. Referindo-se ao futuro da psican\u00e1lise e \u00e0 ci\u00eancia, Lacan indagava: \u201cAs bugigangas, por exemplo, ser\u00e1 que realmente tomar\u00e3o a dianteira? Chegaremos a nos tornar n\u00f3s mesmos realmente animados pelas bugigangas\u201d? (LACAN, [1974] 2011, p. 34). Podendo alcan\u00e7ar a dignidade de um sintoma, o fato \u00e9 que os\u00a0<em>gadgets<\/em>\u00a0constituem recurso para o sujeito contempor\u00e2neo desamparado do Outro.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s um ano de pandemia devastadora, a psican\u00e1lise se v\u00ea \u00e0s voltas com sua sobreviv\u00eancia no mundo em que o futuro suposto por Lacan nos anos setenta parece j\u00e1 ter chegado. Podemos dizer que, n\u00e3o fossem os recursos propiciados pelos dispositivos on-line, o discurso anal\u00edtico teria cedido ao pior.<\/p>\n<p>A psican\u00e1lise com crian\u00e7as se interroga: quais seriam as condi\u00e7\u00f5es preliminares para atendermos as crian\u00e7as on-line? Como podemos considerar o manejo da transfer\u00eancia, a presen\u00e7a do analista?<\/p>\n<p><em>Nosso\u00a0<\/em>setting<em>\u00a0\u00e9 o discurso anal\u00edtico<\/em><\/p>\n<p>A psican\u00e1lise com crian\u00e7as, enquanto pr\u00e1tica de extens\u00e3o da psican\u00e1lise aplicada, fez das mudan\u00e7as no\u00a0<em>setting<\/em>\u00a0anal\u00edtico cl\u00e1ssico quest\u00f5es de t\u00e9cnica e de pol\u00edtica. Os seguidores de Melanie Klein e de Anna Freud protagonizaram esse debate. Anna Freud, como se sabe, realizava sess\u00f5es na casa das crian\u00e7as. Ela tinha uma concep\u00e7\u00e3o da especificidade da transfer\u00eancia da crian\u00e7a e tinha l\u00e1 suas estrat\u00e9gias de manejo da transfer\u00eancia negativa. Por exemplo, ela relata uma fantasia de transfer\u00eancia positiva de um menino obsessivo de seis anos como efeito de uma manobra transferencial, ou seja, visit\u00e1-lo em sua pr\u00f3pria casa e l\u00e1 permanecer durante seu banho da tarde. A crian\u00e7a lhe disse: \u201ca senhora me visitou no meu banho e da pr\u00f3xima vez que vier vou visit\u00e1-la tamb\u00e9m no seu banho\u201d (FREUD, A. 1971, p. 57). De fato, o que Anna Freud comemorou foi o sonho diurno que a crian\u00e7a teria feito antes de dormir e ap\u00f3s sua visita.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o atual, sobre a qual a psican\u00e1lise com a crian\u00e7a prop\u00f5e conversar, n\u00e3o \u00e9 a especificidade da t\u00e9cnica adaptada \u00e0 crian\u00e7a, tampouco a quest\u00e3o de um novo\u00a0<em>setting.\u00a0<\/em>Esse \u00faltimo foi um problema dos p\u00f3s-freudianos, um ponto h\u00e1 muito superado, tal como mostram as palavras de J.-A. Miller em\u00a0<em>Sutilezas anal\u00edticas<\/em>: \u201co\u00a0<em>setting\u00a0<\/em>\u00e9 um conceito barroco, que mistura dados de estrutura e dados secund\u00e1rios como o espa\u00e7o f\u00edsico, o n\u00famero de entrevistas, etc. N\u00e3o se trata, pois de\u00a0<em>setting,<\/em>\u00a0sen\u00e3o de discurso anal\u00edtico\u201d (MILLER, J.-A. 2011, p. 30\u201331).<\/p>\n<p>Uma refer\u00eancia importante para esta conversa \u00e9 a revista\u00a0<em>La cause du d\u00e9sir<\/em>, intitulada\u00a0<em>Internet avec Lacan<\/em>. Os artigos ali publicados orientam o psicanalista a se servir do on-line na sua pr\u00e1tica quando as circunst\u00e2ncias assim o requerem. No entanto, indicam que n\u00e3o h\u00e1 raz\u00f5es para nos contentarmos com esses recursos, visto que constituem uma limita\u00e7\u00e3o do encontro pela subtra\u00e7\u00e3o do corpo real na virtualidade. Em uma entrevista, \u00c9ric Laurent afirma: \u201c\u00e9 preciso se servir do Skype para em seguida dispens\u00e1-lo\u201d (2017, p. 18). Outras vozes se somam a essa.<\/p>\n<p>No artigo \u201cLembrar a psican\u00e1lise\u201d, Gil Caroz discute essa orienta\u00e7\u00e3o considerando que ela faz eco com o uso do Nome-do-Pai que Lacan prop\u00f5e ap\u00f3s o desvalorizar e o tornar puro semblante: prescindir do Nome-do-pai com a condi\u00e7\u00e3o de nos servirmos dele.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Skype e outros meios de comunica\u00e7\u00e3o \u00e0 dist\u00e2ncia,\u00a0<em>sinthomas<\/em>\u00a0da cultura de nosso tempo, podem ser considerados como uma ponte constru\u00edda sobre a n\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o sexual, com a condi\u00e7\u00e3o de que se possa, em seguida, prescindir dela, ou seja, com a condi\u00e7\u00e3o de que uma presen\u00e7a se torne poss\u00edvel em outro momento (MILLER, J.-A.\u00a02011, p. 250).<\/p>\n<p>A conversa por Skype n\u00e3o equivale ao encontro presencial, ela \u00e9 a sua evoca\u00e7\u00e3o. O psicanalista acrescenta que, se \u201cadmitimos que o real e o gozo s\u00e3o o resultado de um encontro entre o significante e o corpo falante, somos levados a constatar que a presen\u00e7a \u00e9 indispens\u00e1vel para tocar o real\u201d (CAROZ, G. 2020). Essas pontua\u00e7\u00f5es, que levam em conta a dimens\u00e3o do\u00a0<em>falasser<\/em>, traduzem a orienta\u00e7\u00e3o de Miller em\u00a0<em>Sutilezas anal\u00edticas<\/em>: \u201cquando pensamos que s\u00e3o todos sujeitos do significante, resulta simples, se faz an\u00e1lise por telefone\u201d (2011, p. 250).<\/p>\n<p>Consonante com essa ideia, cito palavras de M.-H. Brousse:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">(&#8230;) certamente, os meios oferecidos pela tecnologia permitem, por certo, e at\u00e9 mesmo encorajam, o recurso a uma densa rede de trocas de palavras virtuais, a um banho de imagens e mensagens proliferentes.\u00a0N\u00e3o s\u00e3o mais corpos que falam, \u00e9 um falado sem corpo.\u00a0\u00c9 \u00f3bvio que \u00e9 melhor que nada (BROUSSE, M.H.\u00a02020, p. 26).<\/p>\n<p>Servir-se do Skype para prescindir-se dele pode, portanto, ser articulado a dois operadores do discurso psicanal\u00edtico, a saber, o desejo do analista e a presen\u00e7a do analista.<\/p>\n<p>Mesmo durante a guerra, que afetava Freud diretamente, a psican\u00e1lise n\u00e3o recuou. Lacan, por sua vez, nos transmitiu, particularmente, no semin\u00e1rio 11, como a abertura do inconsciente depende da presen\u00e7a do analista. Ao falar do inconsciente como pulsa\u00e7\u00e3o sustentada pela causa do desejo, abertura e fechamento, das resist\u00eancias que fecham essa hi\u00e2ncia podendo obstaculizar a an\u00e1lise, diz: \u201cParadoxalmente, a diferen\u00e7a que garante a mais segura subsist\u00eancia do campo de Freud, \u00e9 que o campo freudiano \u00e9 um campo que, por sua natureza, se perde. \u00c9 aqui que a presen\u00e7a do psicanalista \u00e9 irredut\u00edvel, como testemunha dessa perda\u201d (LACAN, [1964] 1985, p. 122). \u00c9 nesse semin\u00e1rio tamb\u00e9m que Lacan enuncia o desejo do analista como operador maior da psican\u00e1lise. Temos, ent\u00e3o, dois operadores colocados no manejo da transfer\u00eancia \u2014 o desejo do analista e a presen\u00e7a do analista \u2014, com os quais podemos nos orientar no acolhimento das demandas das crian\u00e7as, de modo singular, em cada caso.<\/p>\n<p><em>As demandas que vivificam a psican\u00e1lise com crian\u00e7as<\/em><\/p>\n<p>A pandemia afetou a vida das fam\u00edlias e das crian\u00e7as. Para alguns pais, tem sido causa de ang\u00fastia desencadeada pela presen\u00e7a excessiva dos corpos confinados. Para outros, de modo surpreendente, a quarentena tem sido causa de descobertas no conv\u00edvio com os filhos. Verificamos que a demanda das crian\u00e7as \u00e0 psican\u00e1lise acontece! Cabe ao discurso anal\u00edtico reinventar seus meios para acolh\u00ea-la. Destacamos a demanda para atendimento de crian\u00e7as na primeira inf\u00e2ncia, na aurora da entrada no discurso, com sintomas do corpo sem o Outro, a exemplo de agita\u00e7\u00f5es, dificuldade para dormir, gritos, agress\u00e3o ao pr\u00f3prio corpo e ao corpo materno, irrup\u00e7\u00e3o de c\u00f3lera.<\/p>\n<p>Em alguns desses casos, pude verificar que o que estava em jogo era, fundamentalmente, os impasses na constitui\u00e7\u00e3o do lugar do Outro como int\u00e9rprete do que se passava com a crian\u00e7a. O temor maior dos pais era de que estivessem diante de uma crian\u00e7a autista. Estariam as crian\u00e7as de hoje ficando reais demais para o Outro? Ou as fun\u00e7\u00f5es de interpreta\u00e7\u00e3o e de transmiss\u00e3o atribu\u00eddas ao Outro parental estariam sendo debilitadas pela interven\u00e7\u00e3o do discurso do mestre contempor\u00e2neo? Diante disso, nada melhor do que viabilizar que a crian\u00e7a seja falada por seus pais e que o analista opere viabilizando o enla\u00e7amento do<em>\u00a0infans\u00a0<\/em>a seu Outro.<\/p>\n<p>A condi\u00e7\u00e3o para a constitui\u00e7\u00e3o do lugar do Outro \u00e9 a opera\u00e7\u00e3o de muta\u00e7\u00e3o do real em significante, o que requer a tradu\u00e7\u00e3o do Outro. Sem a media\u00e7\u00e3o do Outro, a crian\u00e7a permanece no estado de tens\u00e3o, sem contar com a a\u00e7\u00e3o do\u00a0<em>\u201cnebenmensch\u00a0<\/em>freudiano\u201d, a saber, o outro da a\u00e7\u00e3o espec\u00edfica, que \u00e9 a\u00e7\u00e3o de linguagem. Freud j\u00e1 nos dizia que o desamparo inicial dos seres humanos, que requer justamente o Outro, \u00e9 \u201ca fonte primordial de todos os motivos morais\u201d (FREUD, 1895\/1976, p. 422).<\/p>\n<p>No caso de Paulinho, o jogo do\u00a0<em>fort-da<\/em>\u00a0sob transfer\u00eancia traduziu seu engajamento nas opera\u00e7\u00f5es de constitui\u00e7\u00e3o subjetiva. Aos quinze meses de vida, ele buscava, n\u00e3o sem viol\u00eancia, extrair algo do Outro atrav\u00e9s de repetitivos atos agressivos contra o corpo do Outro materno, al\u00e9m do uso de pouqu\u00edssimas palavras e constantes gritos-demanda \u00e0 espera da a\u00e7\u00e3o espec\u00edfica. Ap\u00f3s contato virtual com a crian\u00e7a e a fam\u00edlia, na presen\u00e7a da analista, Paulinho inaugurou um movimento de oculta\u00e7\u00e3o, de ir e vir, que colocou em jogo o recurso ao objeto olhar. Interessando-se pelos brinquedos que lhe foram oferecidos, ele vai ensaiar um afastamento do Outro materno para se envolver com os objetos, n\u00e3o sem um chorinho endere\u00e7ado, que claramente podia ser lido como \u201cpode o Outro me perder?\u201d. Em seguida, Paulinho se volta para a analista com um significante: \u201cnen\u00e9m\u201d. Assim como o neto de Freud, o menino ilustra, com seu\u00a0<em>fort-da<\/em>, como a castra\u00e7\u00e3o imp\u00f5e a articula\u00e7\u00e3o da linguagem e faz com que uma palavra tenha que se articular a outra para produzir sentido, n\u00e3o sem uma perda de seu valor de gozo autoer\u00f3tico.<\/p>\n<p>O caso de Paulinho vivifica a psican\u00e1lise ao nos remeter ao cap\u00edtulo de \u201cAl\u00e9m do Princ\u00edpio do Prazer\u201d (1920) no qual Freud discutiu a observa\u00e7\u00e3o de seu neto de um ano e meio de idade. Ao situar-se como\u00a0<em>falasser<\/em>\u00a0na linguagem, o\u00a0<em>infans<\/em>\u00a0deve consentir com um primeiro modo de ex\u00edlio, a saber, a perda da sua simples natureza de um ser vivo. Para se constituir enquanto ser falante, inserido num discurso e num la\u00e7o social, h\u00e1 que se renunciar ao gozo primitivo do ser em troca da representa\u00e7\u00e3o pelas palavras do Outro. O ex\u00edlio inerente \u00e0 entrada na linguagem implica que o Outro primordial, que transmite a l\u00edngua e, com ela, a interpreta\u00e7\u00e3o das necessidades do\u00a0<em>infans<\/em>, transmite tamb\u00e9m um furo, ou um mal-entendido estrutural ligado \u00e0 pr\u00f3pria opera\u00e7\u00e3o de tradu\u00e7\u00e3o. A pr\u00f3pria equivocidade do significante introduz o mal-entendido no di\u00e1logo entre os seres falantes, o mal-entendido pr\u00f3prio da a\u00e7\u00e3o espec\u00edfica do Outro.<\/p>\n<p>\u00c9 bastante significativo o modo de Freud definir esse jogo infantil: \u201cgrande realiza\u00e7\u00e3o cultural da crian\u00e7a, a ren\u00fancia pulsional (isto \u00e9, a ren\u00fancia \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o pulsional) que efetuara ao deixar a m\u00e3e ir embora sem protestar\u201d (FREUD, 1920\/1976, p. 27). A observa\u00e7\u00e3o freudiana \u00e9 ilustrativa do acesso do\u00a0<em>falasser<\/em>\u00a0ao saber atrav\u00e9s da incorpora\u00e7\u00e3o da estrutura da linguagem, segundo a qual a oposi\u00e7\u00e3o de dois significantes, S<sub>1<\/sub>\u00a0e S<sub>2<\/sub>, inscreve repetidamente a perda do objeto inaugural do sujeito dividido. Trata-se do momento da humaniza\u00e7\u00e3o do desejo, aquele no qual a crian\u00e7a nasce para a linguagem.<\/p>\n<p>\u201cO jogo do carretel \u00e9 a resposta do sujeito \u00e0quilo que a aus\u00eancia da m\u00e3e veio criar na fronteira de seu dom\u00ednio \u2014 a borda do seu ber\u00e7o \u2014 isto \u00e9, um fosso, em torno do qual ele nada mais tem a fazer sen\u00e3o o jogo do salto\u201d (LACAN, 1964\/1985, p. 63). \u00c9 tomando apoio sobre os objetos da puls\u00e3o que a crian\u00e7a salta as fronteiras de seu dom\u00ednio, seja a com a voz, seja com o olhar, seja com objetos dos quais o sujeito poder\u00e1 fazer uma causa. \u00c9 com essa pequena coisa que se destaca do corpo, que o carretel representa, que o ser falante opera a separa\u00e7\u00e3o: \u201caquele carretel ligado a ele pr\u00f3prio por um fio que ele segura \u2014 onde se exprime o que, dele, se destaca nessa prova, a auto-mutila\u00e7\u00e3o a partir da qual a ordem da signific\u00e2ncia vai se p\u00f4r em perspectiva\u201d (LACAN, 1964\/1985, p. 63).<\/p>\n<p>Disso decorre a import\u00e2ncia de uma cl\u00ednica do\u00a0<em>fort-da<\/em>, isto \u00e9, uma cl\u00ednica das rela\u00e7\u00f5es do sujeito com o significante e com o objeto, particularmente, ali onde irrompe a ang\u00fastia de separa\u00e7\u00e3o junto \u00e0s crian\u00e7as na primeira inf\u00e2ncia. Para algumas crian\u00e7as, o discurso psicanal\u00edtico permite inscrever o S<sub>2<\/sub>\u00a0a partir do enla\u00e7amento transferencial. Para as fam\u00edlias confinadas, o\u00a0<em>fort\/da<\/em>\u00a0n\u00e3o seria orientador do tratamento da rela\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a ao espa\u00e7o, ao Outro? Esse jogo n\u00e3o seria operador ali, onde, devido ao confinamento dos corpos, o objeto a pode invadir a cena fantasm\u00e1tica, desconfigurando-a e desencadeando a ang\u00fastia? Considerando, sobretudo, a crian\u00e7a tomada no autismo do gozo, isto \u00e9, crian\u00e7as sem o Outro, o\u00a0<em>fort\/da<\/em>\u00a0pode constituir uma orienta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em>Vinhetas da cl\u00ednica do\u00a0<\/em>unheimlich<\/p>\n<p>Falar de uma cl\u00ednica do\u00a0<em>unheimlich\u00a0<\/em>em tempo de pandemia parece at\u00e9 redundante, visto que estamos cotidianamente expostos aos efeitos do estranho. Tomando como refer\u00eancia a leitura do artigo de Freud \u201cO estranho\u201d (1919), com Lacan, no semin\u00e1rio 10, podemos ordenar os acontecimentos cl\u00ednicos em jogo no\u00a0<em>unheimlich<\/em>. Tal como proposto em<em>\u00a0Os objetos a na experi\u00eancia psicanal\u00edtica,<\/em>\u00a0trata-se de abordar \u201ca rela\u00e7\u00e3o objeto\u00a0<em>a-unheimlich\u201d\u00a0<\/em>(FURMAN, M. 2008, p. 347).<\/p>\n<p>Os efeitos de\u00a0<em>unheimlich\u00a0<\/em>surgem quando o objeto a, que j\u00e1 estava domesticado, enquadrado pelo cen\u00e1rio da fantasia \u2014 e que implica o que n\u00e3o pode ser dito pelo significante, o que carece de imagem especular \u2014 faz sua apari\u00e7\u00e3o. Essa presen\u00e7a revela o que a prefer\u00eancia pela imagem junto ao\u00a0<em>falasser<\/em>\u00a0costuma esconder. O objeto pulsional, separado do corpo e situado no campo do Outro, retorna ao campo do sujeito fazendo sua apari\u00e7\u00e3o ali onde deveria estar a castra\u00e7\u00e3o. Ocorre ent\u00e3o um preju\u00edzo da topologia da extimidade do objeto com rela\u00e7\u00e3o ao Outro, segundo a qual o objeto \u00e9 interior e exterior ao Outro, um furo. A perda da extimidade \u00e9 respons\u00e1vel por uma s\u00e9rie de perturba\u00e7\u00f5es na rela\u00e7\u00e3o com o corpo, com o espa\u00e7o e com o outro, que produzem efeitos de estranheza.<\/p>\n<p>Considerando que o objeto olhar se encontra, de maneira privilegiada, no \u00e2mago do campo virtual, recolho algumas vinhetas da cl\u00ednica do\u00a0<em>unheimlich<\/em>\u00a0para a conversa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em>A menina do \u201ccoronavista\u201d<\/em><\/p>\n<p>No princ\u00edpio da quarentena, tendo sua an\u00e1lise interrompida, Ana se entristece. N\u00e3o queria frequentar as aulas on-line. Curiosamente, essa recusa emerge no cen\u00e1rio o mais familiar de Ana, pois, aos 7 anos, ela j\u00e1 tinha seu canal no YouTube e cerca de 4.000 seguidores no Instagram<em>.<\/em>\u00a0Nesse canal, ela apresenta receitas para um tipo de intoler\u00e2ncia alimentar. Desde beb\u00ea, esse sintoma a colocou sob o olhar vigilante da m\u00e3e, devido aos riscos das iminentes crises de intoxica\u00e7\u00e3o. Na sess\u00e3o on-line, Ana reclama de n\u00e3o poder sair, ir \u00e0 escola, ver as amigas. Ela diz: \u201cn\u00e3o aguento mais esse \u2018coronavista\u2019\u201d. Para Ana, o olhar tratado pela fantasia e enla\u00e7ado ao Ideal do Outro foi uma constru\u00e7\u00e3o de sua an\u00e1lise. Ao retomar o trabalho, ela segue projetando sua carreira futura ao dizer que se prepara para ser uma influenciadora.<\/p>\n<p><em>O encontro\u00a0<\/em>unheimlich<em>\u00a0no autismo<\/em><\/p>\n<p>Sem a inser\u00e7\u00e3o num discurso estabelecido, a realidade \u00e9, constantemente, uma inquietante estranheza para os autistas. A linguagem os inquieta e lhes \u00e9 absolutamente estranha. Vou destacar, no caso de Jo\u00e3o, onze anos, os impasses de um autista com os encontros virtuais. Apesar da transfer\u00eancia ao lugar de suas sess\u00f5es, nomeado por Jo\u00e3o \u201clar doce lar\u201d, na quarentena, o trabalho sofreu impasses. No primeiro contato no Skype, ele ficou conectado por pouqu\u00edssimos minutos, aparelhando-se por meio de outra tela, a da TV, compartilhando um desenho animado. O segundo durou o tempo suficiente para uma pergunta sobre como estavam seus animais, referindo-se aos objetos-duplos que, no consult\u00f3rio, promovem a media\u00e7\u00e3o e a anima\u00e7\u00e3o de sua fala. Sem os recursos dispon\u00edveis antes da quarentena, o encontro virtual suscitou, de in\u00edcio, efeitos de<em>\u00a0unheimlich<\/em>. O espelho do autista \u00e9\u00a0<em>unheimlich\u00a0<\/em>devido \u00e0 n\u00e3o extra\u00e7\u00e3o do objeto olhar e \u00e0 falta da montagem do circuito da puls\u00e3o esc\u00f3pica, o que compromete a rela\u00e7\u00e3o ao virtual.<\/p>\n<p>Superadas as primeiras dificuldades, Jo\u00e3o consentiu com as sess\u00f5es on-line. De maneira surpreendente, ele se serviu do Skype para falar dos seus \u201csegredos\u201d, a saber, hist\u00f3rias do seu \u201cmundo escondido\u201d. At\u00e9 que, mediante seu pedido, a presen\u00e7a do analista foi reintroduzida.<\/p>\n<p><em>Conclus\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>Nem todo tratamento anal\u00edtico \u00e9 poss\u00edvel atrav\u00e9s dos dispositivos tecnol\u00f3gicos de conex\u00f5es, visto que o real da psican\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 o real da ci\u00eancia. Mas o encontro anal\u00edtico \u00e9 sempre uma possibilidade! O que se escreve mediante a conting\u00eancia dos encontros se torna decisivo para o manejo do desejo do analista e de sua presen\u00e7a em cada caso. Por fim, verificamos como o discurso anal\u00edtico \u00e9 aquele que pode acolher os efeitos do encontro com o estranho junto \u00e0s crian\u00e7as e a suas fam\u00edlias.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/h6>\n<h6>BROUSSE, M. H. \u201cSolid\u00e3o dos corpos\u201d,\u00a0<strong>Correio<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, n. 84, 2020, p. 25\u201334.<\/h6>\n<h6>CAROZ, G. (2020)\u00a0<strong>Lembrar a psican\u00e1lise<\/strong>, Correio Express. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.xn--escolabrasileiradepsicanlise-clc\/\">http:\/\/www.escolabrasileiradepsican\u00e1lise<\/a>. Acesso em 15 jan. 2021.<\/h6>\n<h6>FURMAN, M. \u201cUnheimlich\u201d In:\u00a0<strong>Scilicet:<\/strong>\u00a0<strong>Os objetos a na experi\u00eancia psicanal\u00edtica,\u00a0<\/strong>Rio de Janeiro: Contracapa, 2008.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1964)\u00a0<strong>O semin\u00e1rio<\/strong>, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise<em>.\u00a0<\/em>Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.<\/h6>\n<h6>______. \u201cA terceira\u201d,\u00a0<strong>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/strong>. S\u00e3o Paulo: E\u00f3lia. n\u00ba 62. 2011, p. 11-36<\/h6>\n<h6>LAURENT, E. \u201cJouir D\u00b4Internet\u201d,\u00a0<strong>La cause du d\u00e9sir<\/strong>. Paris: Navarin Editeur, n\u00ba 97, 2017, p. 11-21.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A.\u00a0<strong>Sutilezas anal\u00edticas<\/strong><em>.\u00a0<\/em>Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2011.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SUZANA FALEIRO BARROSO Psic\u00f3loga e psicanalista praticante. Membro da EBP-MG\/AMP. Doutora em Teoria Psicanal\u00edtica pela UFRJ e professora da Faculdade de Psicologia PUC-MINAS | suzanafaleirobarroso@gmail.com Resumo:\u00a0O artigo re\u00fane pontos abordados na XXIV Conversa\u00e7\u00e3o da Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica do IPSM-MG, em novembro de 2020. 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