{"id":1715,"date":"2021-03-19T06:40:14","date_gmt":"2021-03-19T09:40:14","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1715"},"modified":"2025-12-01T13:56:30","modified_gmt":"2025-12-01T16:56:30","slug":"a-presenca-real-e-a-fugacidade-do-corpo1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2021\/03\/19\/a-presenca-real-e-a-fugacidade-do-corpo1\/","title":{"rendered":"A PRESEN\u00c7A REAL E A FUGACIDADE DO CORPO[1]\u00a0"},"content":{"rendered":"<h6>CATHERINE LACAZE-PAULE<br \/>\nPsicanalista. Membro da ECF\/AMP |\u00a0<span id=\"cloak32d5276b0f23fcf0a3a78deec1d3507a\"><a href=\"mailto:lacazepaule@gmail.com\">lacazepaule@gmail.com<\/a><\/span><\/h6>\n<blockquote><p><strong>Resumo:\u00a0\u00a0<\/strong>Catherine Lacaze-Paule aborda a atual experi\u00eancia de confinamento para refletir sobre suas repercuss\u00f5es na cl\u00ednica psicanal\u00edtica praticada virtualmente. Nesse contexto, ela indaga quais seriam \u201cas condi\u00e7\u00f5es para que um encontro seja real, para que uma presen\u00e7a se fa\u00e7a sentir, para que ela se experimente\u201d. A autora se serve da express\u00e3o lacaniana \u201cpresen\u00e7a real\u201d enodada ao desejo do analista e, dessa forma, d\u00e1 um passo al\u00e9m dos termos \u2014 presencial, a dist\u00e2ncia \u2014 que o discurso corrente faz uso.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave:<\/strong>\u00a0confinamento, presen\u00e7a real, objeto a<\/p>\n<p><strong>Abstract:\u00a0<\/strong>Catherine Lacaze-Paule addresses the current experience of confinement to reflect on its repercussions in the psychoanalytic clinic practiced virtually. In this context, she asks what would be \u201cthe conditions for a meeting to be real, for a presence to be felt, for it to be experienced\u201d. The author makes use of the Lacanian expression \u201creal presence\u201d that is rooted in the analyst&#8217;s desire and, in this way, takes a step beyond the neologisms \u2014 in person, at a distance \u2014 that current discourse makes use of.<\/p>\n<p><strong>Keywords:<\/strong>\u00a0confinement, real presence, object a<\/p><\/blockquote>\n<div id=\"attachment_1716\" style=\"width: 2390px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/trilhamentoscatherine-scaled.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"2380\" data-large_image_height=\"2560\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1716\" class=\"wp-image-1716\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/trilhamentoscatherine-952x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"522\" height=\"561\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1716\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Jayme Reis<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Durante o confinamento, experimentamos os corpos ausentes, a dist\u00e2ncia. Percebemos que as no\u00e7\u00f5es de proximidade, de dist\u00e2ncia, de fronteira entre si mesmo e do outro eram insuficientes para dar conta da presen\u00e7a. O pr\u00f3ximo, o distante, a dist\u00e2ncia social, o\u00a0<em>blurring<\/em>\u00a0\u2014 neologismo ingl\u00eas para designar a aus\u00eancia de fronteira entre o privado e o profissional \u2014 , o FOMO (<em>fear of missing out<sup><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/fugacidade#_edn1\" name=\"_ednref1\">[2]<\/a><\/sup><\/em>) \u2014 medo de perder algo nas redes sociais \u2014 ou o FOGO (<em>fear of going out<\/em>) \u2014 medo de sair de casa, que parece ser uma nuance da agorafobia \u2014 s\u00e3o os novos sintagmas que testemunham novas doen\u00e7as ligadas \u00e0 presen\u00e7a e aos efeitos das rela\u00e7\u00f5es com o outro, com o exterior, com o vizinho pr\u00f3ximo, com o \u00edntimo e com o \u00eaxtimo.<\/p>\n<p>Para atenuar a aus\u00eancia, o digital se imp\u00f4s nas vidas inserindo-se profundamente. Dois termos passaram para a linguagem comum para circunscrever esse efeito, o \u201cpresencial\u201d<sup><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/fugacidade#_edn2\" name=\"_ednref2\">[3]<\/a><\/sup>\u00a0e o \u201ca dist\u00e2ncia\u201d. Com a tecnologia digital, tivemos acesso \u00e0 possibilidade de \u201cnos ver\u201d sem estar de forma presencial, \u201cnos ouvindo\u201d ao nos conectarmos, nos aproximarmos, mas a dist\u00e2ncia. Toda vez que o objeto\u00a0<em>a<\/em>\u00a0\u00e9 tocado, o ver se imp\u00f5e em detrimento do olhar, e a imagem especular torna-se o reflexo de si mesmo. A aus\u00eancia do corpo que n\u00e3o se enla\u00e7a, sem lastro, sem fazer mais uso da palavra, perde-se, esvazia-se de sentido e gozo. Consequentemente, efeitos de \u201cfadiga\u201d, de \u201ccorpo cansado\u201d e mesmo de \u201classitude\u201d, por vezes se fazem sentir. Nossos encontros se digitalizam. Nossos encontros se virtualizam. N\u00f3s tocamos a presen\u00e7a?<\/p>\n<p>Sem a presen\u00e7a dos corpos, sem a confronta\u00e7\u00e3o dos corpos, a presen\u00e7a se faz mais enigm\u00e1tica, mas necess\u00e1ria. Ser\u00e1 sempre assim? Quais s\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es para que um encontro seja real, que uma presen\u00e7a se fa\u00e7a sentir, que ela se experimente? Como se produz o sentimento da presen\u00e7a?<\/p>\n<p>As sess\u00f5es anal\u00edticas n\u00e3o escaparam desse problema e atestam em que a an\u00e1lise \u00e9 indissoci\u00e1vel de uma certa rela\u00e7\u00e3o aos corpos presentes. O que a aus\u00eancia dos corpos revelou \u00e9 que o corpo escapa. Lacan evoca a\u00a0<em>fugacidade<\/em>\u00a0(LACAN, 1960-1961\/ 1999, p. 229) do corpo em\u00a0<em>O semin\u00e1rio 8: a transfer\u00eancia<\/em>. Introduzamos o equ\u00edvoco da fuga, dos corpos ausentes e dos corpos que escapam para interrogar o que \u00e9 a presen\u00e7a real. Esta \u00e9 aquela que se faz \u201cem carne e osso\u201d?<\/p>\n<p>A express\u00e3o\u00a0<em>presen\u00e7a real<\/em>\u00a0(LACAN, 1960-1961\/ 1999, p. 240) aparece pela primeira vez no semin\u00e1rio sobre a transfer\u00eancia, em diversas ocasi\u00f5es e, tamb\u00e9m, como t\u00edtulo de cap\u00edtulo. \u00c9 atrav\u00e9s de sua negatividade, sua nega\u00e7\u00e3o, que frequentemente essa no\u00e7\u00e3o \u00e9 apreendida. Nesse semin\u00e1rio, \u00e9 sob a forma do insulto. O insulto \u00e0 presen\u00e7a real que Lacan localiza na cl\u00ednica de uma neurose obsessiva feminina. Seu sintoma consiste em ver, sem que se trate de uma alucina\u00e7\u00e3o, no lugar da h\u00f3stia, os \u00f3rg\u00e3os genitais masculinos. Esse insulto \u00e0 dimens\u00e3o sagrada do dogma religioso cat\u00f3lico \u00e9 como um insulto feito \u00e0 Eucaristia. Lacan se baseia nele para evocar a no\u00e7\u00e3o de presen\u00e7a real. Segundo S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino, a presen\u00e7a real \u00e9 subst\u00e2ncia. Ela n\u00e3o serve para designar uma coisa vis\u00edvel pelo \u201colho corporal\u201d, mas sim a realidade intelig\u00edvel de um ser. A presen\u00e7a real nomeia o corpo de Cristo. Ela n\u00e3o \u00e9 percept\u00edvel atrav\u00e9s de nenhum dos sentidos nem pela imagina\u00e7\u00e3o, mesmo quando o vinho e o p\u00e3o (a h\u00f3stia) d\u00e3o forma imagin\u00e1ria para recobrir essa subst\u00e2ncia. Lacan se serve desse termo para dar conta da fun\u00e7\u00e3o do grande\u00a0<em>Phi<\/em>, a fun\u00e7\u00e3o do falo, o que simboliza a aus\u00eancia e a presen\u00e7a que ele designa como presen\u00e7a real. O grande\u00a0<em>Phi<\/em>\u00a0simboliza, ao mesmo tempo, a significa\u00e7\u00e3o e seu al\u00e9m, o intervalo entre dois significantes, como presen\u00e7a vazia, como n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o entre dois significantes (S1\/\/S2). \u201cPois ao signo que h\u00e1 para dar [pelo psicanalista], falta significante\u201d (LACAN, 1960 &#8211; 1961 \/ 1999, p. 232).<\/p>\n<p>Em cada intervalo se abre para o sujeito a quest\u00e3o do desejo do Outro, e algo do desejo se manifesta, mas nada que seja signific\u00e1vel. \u00c9 por isso que o obsessivo se dedica a conjurar o intervalo entre dois significantes toda vez que este se apresenta diante de si. Assim, no tratamento, a fun\u00e7\u00e3o que o falo simb\u00f3lico ocupa em seu lugar \u201c\u00e9 que n\u00e3o \u00e9 simplesmente signo e significante, mas presen\u00e7a do desejo. \u00c9 a presen\u00e7a real\u201d (LACAN, 1960 &#8211; 1961\/ 1992, p. 244).<\/p>\n<p>O falo, al\u00e9m de sua representa\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3o, al\u00e9m de toda representa\u00e7\u00e3o ou poss\u00edvel significa\u00e7\u00e3o, tem um status de signo. Mas esse signo \u00e9 presen\u00e7a real que o analista, em seu desejo e seu corpo, pode encarnar em carne e osso.<\/p>\n<p>Os objetos\u00a0<em>a<\/em>\u00a0s\u00e3o alojados no analista, ele os encarna. Distingamos com o ensino de Jacques-Alain Miller: o come\u00e7o do tratamento, momento em que a idealiza\u00e7\u00e3o \u00e9 apenas a m\u00e1scara do objeto\u00a0<em>a<\/em>, \u00e9 a etapa da revela\u00e7\u00e3o. Esta \u00e9 seguida pela repeti\u00e7\u00e3o: a an\u00e1lise que perdura. Enfim, o terceiro tempo, aquele da estagna\u00e7\u00e3o, o da gaiola do sintoma, sua in\u00e9rcia. Aquele do gozo bem real. De acordo com os momentos, os objetos da demanda e do desejo s\u00e3o sublinhados, acentuados, marcados ou, ao contr\u00e1rio, reduzidos a zero, subtra\u00eddos pelo analista. O manuseio do objeto \u00e9 o que funda o buraco real na linguagem e, ao mesmo tempo, o que o simboliza e o que cobre a falta sob seus v\u00e1rios disfarces. Quer o olhar seja firme, quer seja fugidio, aqui, o corpo do sujeito \u00e9, acima de tudo, o do narcisismo, reduzido \u00e0 imagem. Seja na idealiza\u00e7\u00e3o da verdade, seja do discurso e do significado, o analista encarna o Outro como lugar dos significantes e da verdade. Por outro lado, atrav\u00e9s de seu sil\u00eancio, ele indica a presen\u00e7a do gozo. O seu sil\u00eancio, ou sonoridade, \u00e9 o que convoca o objeto voz. A voz que n\u00e3o \u00e9 sonora, que n\u00e3o \u00e9 aquela da vocaliza\u00e7\u00e3o, mas a que surge cada vez que o significante cai sobre o que n\u00e3o pode ser dito, sobre o que \u00e9 indiz\u00edvel. \u00c9 a voz que se assemelha ao que despenca, ao que cai do corpo quando o significado se perde e foge. A palavra, sem o eco produzido pelo sil\u00eancio do analista, esvazia-se de significado e de gozo.<\/p>\n<p>Da mesma forma, o corpo do sujeito, como sustenta\u00e7\u00e3o do brilho f\u00e1lico ou depositado no div\u00e3 como uma casca, se confronta com o corpo vivo do analista, para al\u00e9m do que \u00e9, com o que existe. A presen\u00e7a real do corpo do analista como suporte \u00e9 tamb\u00e9m aquela que convoca o presente do dizer. \u201cTrata-se da oposi\u00e7\u00e3o do que chamarei de dizer do presente ao presente do dizer\u201d (LACAN, 1957 &#8211; 1958\/ 1999, p. 65), distingue Lacan em\u00a0<em>O semin\u00e1rio 5<\/em>:\u00a0<em>as forma\u00e7\u00f5es do inconsciente<\/em>. Ele especifica que n\u00e3o \u00e9 simplesmente um jogo de palavras, mas que a atualidade do presente permite localizar a atualidade do falante no n\u00edvel da mensagem, enquanto o presente do dizer abre o espa\u00e7o \u00e0 meton\u00edmia ou ao que se ouve. Acrescentamos: o que \u00e9 lido a partir do que \u00e9 dito, o que se goza de dizer. Quando o psicanalista \u00e9 presen\u00e7a, ele \u00e9, ao mesmo tempo, apoio velado de um desejo \u2014\u00a0<em>Che vuoi?\u00a0<\/em>\u2014 e suporte, atrav\u00e9s do objeto\u00a0<em>a<\/em>\u00a0em presen\u00e7a, do gozo.<\/p>\n<p>Pois, quando o desejo do analista se faz suporte de uma presen\u00e7a real como imposs\u00edvel, ele pode tamb\u00e9m encarnar, fazer interpreta\u00e7\u00e3o de um evento de gozo singular. Se o significante n\u00e3o \u00e9 tudo, a presen\u00e7a real enodada ao desejo do analista \u00e9 o index do real do gozo do corpo. Com a presen\u00e7a real, Lacan nos coloca na via da sess\u00e3o anal\u00edtica como objeto topol\u00f3gico, um real que n\u00e3o \u00e9 produzido pelo imposs\u00edvel, mas pelo n\u00f3, pelo manuseio do n\u00f3.<\/p>\n<h6><strong>Tradu\u00e7\u00e3o:<\/strong>\u00a0Luciana Silviano Brand\u00e3o<\/h6>\n<h6><strong>Revis\u00e3o:<\/strong>\u00a0Giselle Moreira<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1957\u20131958)\u00a0<strong>O semin\u00e1rio, livro 5: as forma\u00e7\u00f5es do inconsciente<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1999.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1960\u20131961)\u00a0<strong>O semin\u00e1rio, livro 8: a transfer\u00eancia<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1992.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/fugacidade#_ednref1\" name=\"_edn1\"><br \/>\n[1]<\/a>\u00a0Publicado originalmente em: lacan-universite.fr\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/ironik-42-Habeas-corpus.pdf<\/h6>\n<h6>[2] Cf. \u201cLe confinement et le fomo,\u00a0<em>fear of missing out\u00a0<\/em>sur les r\u00e9seaux sociaux\u201d, dispon\u00edvel em\u00a0<a href=\"http:\/\/www.nova.fr\/\">www.nova.fr<\/a>.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/fugacidade#_ednref2\" name=\"_edn2\">[3]<\/a>\u00a0Esse adjetivo qualifica uma maneira de funcionar em situa\u00e7\u00e3o real, no tempo presente, sem intermedi\u00e1rio nem m\u00eddia interposta. Se op\u00f5e ao \u201cvirtual\u201d ao \u201ca dist\u00e2ncia\u201d. Geralmente utilizado no contexto profissional. Dispon\u00edvel em\u00a0<a href=\"http:\/\/www.linternaute.fr\/\">www.linternaute.fr<\/a>.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CATHERINE LACAZE-PAULE Psicanalista. Membro da ECF\/AMP |\u00a0lacazepaule@gmail.com Resumo:\u00a0\u00a0Catherine Lacaze-Paule aborda a atual experi\u00eancia de confinamento para refletir sobre suas repercuss\u00f5es na cl\u00ednica psicanal\u00edtica praticada virtualmente. Nesse contexto, ela indaga quais seriam \u201cas condi\u00e7\u00f5es para que um encontro seja real, para que uma presen\u00e7a se fa\u00e7a sentir, para que ela se experimente\u201d. 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