{"id":1720,"date":"2021-03-19T06:40:14","date_gmt":"2021-03-19T09:40:14","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1720"},"modified":"2025-12-01T13:57:44","modified_gmt":"2025-12-01T16:57:44","slug":"psicanalise-e-esquecimento-pontuacoes-sobre-estes-tempos-estranhos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2021\/03\/19\/psicanalise-e-esquecimento-pontuacoes-sobre-estes-tempos-estranhos\/","title":{"rendered":"PSICAN\u00c1LISE E ESQUECIMENTO:\u00a0PONTUA\u00c7\u00d5ES SOBRE ESTES TEMPOS ESTRANHOS"},"content":{"rendered":"<h6>HENRI KAUFMANNER<br \/>\nPsicanalista. Membro da EBP-MG\/AMP\u00a0|<br \/>\n<span id=\"cloak9824058d35e8210be50957d30b6bf77d\"><a href=\"mailto:kaufmanner@gmail.com\">kaufmanner@gmail.com<\/a><\/span><\/h6>\n<blockquote><p><strong>Resumo:\u00a0<\/strong>Partindo da pergunta lan\u00e7ada por Lacan ao final do semin\u00e1rio XI, sobre uma poss\u00edvel impostura da psican\u00e1lise, pergunta-se o que o conduziu a tra\u00e7ar uma distin\u00e7\u00e3o entre a religi\u00e3o, a ci\u00eancia e a psican\u00e1lise sob a perspectiva da ideia de esquecimento. Sublinhando como o avan\u00e7o do discurso da ci\u00eancia em nosso tempo, com sua oferta indiscriminada de objetos de consumo, provocou o tamponamento da falta do sujeito barrado e afetou \u201cgravemente essa distin\u00e7\u00e3o entre esses campos em sua rela\u00e7\u00e3o com o esquecimento\u201d, faz-se recordar que, nesse mesmo semin\u00e1rio, Lacan j\u00e1 alertava quanto aos efeitos da chamada\u00a0<em>mass media,<\/em>\u00a0algo que hoje podemos traduzir como a era das tecnoci\u00eancias, a\u00ed implicada a virtualidade das nossas rela\u00e7\u00f5es<em>.\u00a0<\/em>Diante desse cen\u00e1rio, o que nos \u00e9 exigido \u00e9 a aud\u00e1cia da inven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave:\u00a0<\/strong>psican\u00e1lise, religi\u00e3o, ci\u00eancia, esquecimento, mundo virtual<\/p>\n<p><strong>Abstract<\/strong>: Starting from the question raised by Lacan at the end of seminar XI about psychoanalysis possible imposture, we ask what led him to make a distinction between religion, science and psychoanalysis through the idea of \u201cforgetfulness\u201d. Underlining how the advancement of the science discourse in our time, with its indiscriminate offer of objects of consumption, has caused the tamponing of the lack of the barred subject, and has \u201cgreatly affected this distinction between these fields and their relation to forgetfulness\u201d. In the same seminar, Lacan had already warned us about the effects of the so called\u00a0<em>mass media<\/em>, that today we can translate as the\u00a0<em>era of the technosciences<\/em>\u00a0implicating in the virtuality of our relations. In this scenario, the audacity of the invention is what is required of us.<\/p>\n<p><strong>Keywords:<\/strong>\u00a0psychoanalysis, religion, science, forgetfulness, virtual world.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n<div id=\"attachment_1721\" style=\"width: 710px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/imagemhenritrilha.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"700\" data-large_image_height=\"785\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1721\" class=\"wp-image-1721\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/imagemhenritrilha.jpg\" alt=\"\" width=\"362\" height=\"406\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/imagemhenritrilha.jpg 700w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/imagemhenritrilha-268x300.jpg 268w\" sizes=\"auto, (max-width: 362px) 100vw, 362px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1721\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Jayme Reis<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Proponho pensar os desafios que se imp\u00f5em \u00e0 psicanalise nestes tempos estranhos tomando como eixo alguns pontos que me parecem centrais, desenvolvidos por Lacan (1985) ao longo do semin\u00e1rio XI. Nesse semin\u00e1rio, realizado ap\u00f3s sua excomunh\u00e3o, Lacan intenta constituir um vi\u00e9s cient\u00edfico para a psican\u00e1lise. Ap\u00f3s a formula\u00e7\u00e3o do objeto\u00a0<em>a<\/em>, no semin\u00e1rio sobre a ang\u00fastia, ele se esfor\u00e7a por ir al\u00e9m de Freud, al\u00e9m do pai, deslocando-se da transcend\u00eancia do simb\u00f3lico ao acontecimento de corpo.<\/p>\n<p>Vale ainda ressaltar que tal desenvolvimento se faz em torno da l\u00f3gica da aliena\u00e7\u00e3o e separa\u00e7\u00e3o, que repercute as rela\u00e7\u00f5es do sujeito com o objeto nesse momento do ensino de Lacan.<\/p>\n<p><em>Religi\u00e3o, ci\u00eancia e psican\u00e1lise<\/em><\/p>\n<p>Ao concluir o semin\u00e1rio, em sua \u00faltima li\u00e7\u00e3o, Lacan interroga: como nos garantir que n\u00e3o estamos numa impostura?<\/p>\n<p>Na sequ\u00eancia, destaca a religi\u00e3o como impostura, pelo menos se tomada a partir das refer\u00eancias suscitadas no s\u00e9culo XVIII, s\u00e9culo do homem do prazer, do homem das luzes. Lacan acentua que n\u00e3o basta sair do registro da cren\u00e7a para se temperarem seus efeitos de aliena\u00e7\u00e3o, a simples descren\u00e7a diz, n\u00e3o \u00e9 suficiente para superar os efeitos sobre o ser do sujeito (LACAN, 1985, p. 256). O descrente, portanto, n\u00e3o experimenta necessariamente essa queda na representa\u00e7\u00e3o significante, esse vazio do saber da opera\u00e7\u00e3o de separa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A ci\u00eancia, por sua vez, seria indiferente a essa quest\u00e3o. De maneira distinta da religi\u00e3o, n\u00e3o se situa no campo da aliena\u00e7\u00e3o. \u00c9 num ponto preciso no campo da separa\u00e7\u00e3o que se sustenta o lugar do cientista. Sendo assim, \u201co corpo da ci\u00eancia, s\u00f3 conceberemos seu porte ao reconhecermos que ele \u00e9, na rela\u00e7\u00e3o subjetiva, equivalente ao que chamei aqui de\u00a0<em>a<\/em>\u00a0min\u00fasculo\u201d (LACAN, 1985, p. 257).<\/p>\n<p>J\u00e1 a psican\u00e1lise vai al\u00e9m da ci\u00eancia, embora tenha como esta o ponto de partida cartesiano. Como consequ\u00eancia desse mais al\u00e9m, ela \u00e9, por mais das vezes, aproximada e, por que n\u00e3o dizer, confundida com a religi\u00e3o.<\/p>\n<p>A \u00fanica maneira de abordar esse problema, diz Lacan, \u00e9 que a religi\u00e3o, como modo de \u201csubsist\u00eancia do sujeito que se interroga, se distingue por uma dimens\u00e3o que lhe \u00e9 pr\u00f3pria e que \u00e9 marcada por um esquecimento\u201d (LACAN, 1985, p. 257). A religi\u00e3o teria como recurso resgatar esse mais al\u00e9m como operat\u00f3rio e m\u00e1gico atrav\u00e9s do sacramento, na medida em que este tem como fun\u00e7\u00e3o encobrir a opera\u00e7\u00e3o de separa\u00e7\u00e3o pelo esquecimento.<\/p>\n<p>Em contraposi\u00e7\u00e3o, \u00e9 justamente nesse esquecimento que a psican\u00e1lise opera. Diferentemente da religi\u00e3o e tribut\u00e1ria das mesmas origens da ci\u00eancia, a psican\u00e1lise se ocupa desse furo, dessa hi\u00e2ncia presente nas rela\u00e7\u00f5es do sujeito com o Outro<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/psicanalise-e-esquecimeto#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a>. N\u00e3o h\u00e1 nada para a psican\u00e1lise esquecer, pois, para ela, n\u00e3o est\u00e1 implicado nenhum reconhecimento, nem mesmo da sexualidade, j\u00e1 afirmava Lacan.<\/p>\n<p>Podemos abordar essa quest\u00e3o por um outro vi\u00e9s, apoiando-nos em Miller em seu texto \u201cTri\u00e2ngulo dos saberes\u201d (2017, p. 261). Miller situa a psican\u00e1lise na falha que se apresenta entre a ret\u00f3rica e a ci\u00eancia. Com o avan\u00e7o da l\u00f3gica do consumo, n\u00e3o parece demasiado pensar que o discurso do capitalismo oblitera a falha, o que repercute como dificuldade para a psican\u00e1lise se assentar, na medida em que se exclui o encontro com o furo. A pr\u00e1tica com os adictos \u00e9 pr\u00f3diga em exemplos dessa dificuldade.<\/p>\n<p>Podemos assim diferenciar estes tr\u00eas campos: a religi\u00e3o no campo da aliena\u00e7\u00e3o; a ci\u00eancia, indiferente e que subsiste no campo do objeto, tomado aqui enquanto materialidade; e a psican\u00e1lise ocupando o furo. Lembremos que o objeto\u00a0<em>a\u00a0<\/em>\u00e9 uma consist\u00eancia l\u00f3gica que apenas eventualmente ganha materialidade, o que nos permite perceber a distin\u00e7\u00e3o entre o real da ci\u00eancia, que retorna sempre ao mesmo lugar, e o real da psican\u00e1lise, que \u00e9 contingente.<\/p>\n<p>Quais seriam as consequ\u00eancias do avan\u00e7o do discurso do capitalismo sobre a distin\u00e7\u00e3o entre esses campos?<\/p>\n<p>A oferta abusiva e indiscriminada de objetos de consumo, de uma materialidade insistentemente renovada dos\u00a0<em>gadgets<\/em>, cristaliza-se numa esp\u00e9cie de curto-circuito, representado por Lacan na rela\u00e7\u00e3o direta do objeto tamponando a falta do sujeito. Isso afeta gravemente essa dintin\u00e7\u00e3o entre esses campos em sua rela\u00e7\u00e3o com o esquecimento. Esse curto-circuito produz como que uma dilui\u00e7\u00e3o deles mesmos. Assim, o esquecimento da religi\u00e3o, a indiferen\u00e7a da ci\u00eancia e o furo, objeto da psican\u00e1lise, se apresentam n\u00e3o mais t\u00e3o facilmente dissociados.<\/p>\n<p>A profus\u00e3o imagin\u00e1ria de objetos em nossos tempos, sobretudo com o advento do mundo virtual da internet e redes sociais, invade os campos de exist\u00eancia do ser recobrindo a falha, onde a singular experi\u00eancia do\u00a0<em>falasser<\/em>\u00a0incidiria.<\/p>\n<p>Vimos acompanhando, ao longo da pandemia, como que religi\u00e3o e ci\u00eancia se imiscuem; testemunhamos os fen\u00f4menos que v\u00e3o do negacionismo ao misticismo mais fan\u00e1tico. N\u00e3o deixa de causar perplexidade acompanhar, por exemplo, a resposta da medicina e sua desorienta\u00e7\u00e3o neste momento particular do mundo, em que n\u00e3o encontra mais suporte na ci\u00eancia. Impressiona tamb\u00e9m a forma como os f\u00e1rmacos passaram a ocupar o lugar de objetos devo\u00e7\u00e3o, de utiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ou m\u00edstica.<\/p>\n<p><em>Transfer\u00eancia e sacrif\u00edcio<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 bem conhecida a afirma\u00e7\u00e3o que, para operar com a transfer\u00eancia, cabe ao analista fazer valer o semblante do objeto, que, no semin\u00e1rio XI, Lacan articula como causa do desejo. Por essa via, acontece a captura amorosa na medida em que o sujeito se oferece ao Outro na busca do encontro do desejo. Mas, na medida em que o objeto \u00e9 um semblante, um encobrimento do furo, o que o sujeito acaba encontrando na an\u00e1lise \u00e9 a falta do Outro, que o remete \u00e0 sua pr\u00f3pria falta.<\/p>\n<p>Ilumina-se, assim, a afirma\u00e7\u00e3o de Lacan, inspirada na obra de Appolinaire, de que n\u00e3o basta ao analista se fazer de Tir\u00e9sias, \u00e9 preciso que ele tenha mamas. N\u00e3o basta a mera presen\u00e7a do analista, a presen\u00e7a de seu corpo, \u00e9 preciso que ele fa\u00e7a reinar o semblante do objeto para que a puls\u00e3o seja assim capturada em seu percurso. O semblante n\u00e3o \u00e9 sem o furo, ele toca algo desse real que captura a puls\u00e3o. Cito Lacan (1985, p. 261):<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Quero dizer que a opera\u00e7\u00e3o e a manobra da transfer\u00eancia devem ser regradas de maneira que se mantenha a dist\u00e2ncia entre o ponto desde onde o sujeito se v\u00ea am\u00e1vel \u2014 e esse outro ponto em que o sujeito se v\u00ea causado como falta por\u00a0<em>a,\u00a0<\/em>onde esse\u00a0<em>a\u00a0<\/em>vem arrolhar a hi\u00e2ncia que constitui a divisa inaugural do sujeito.<\/p>\n<p>Inspirado nas elabora\u00e7\u00f5es freudianas, Lacan sempre indicou como importante para o surgimento da psican\u00e1lise esse distanciamento que Freud fez da hipnose, na qual o Ideal do eu e a imagem ideal se sobrep\u00f5em. Descolada da hipnose a transfer\u00eancia anal\u00edtica, constituiu-se um novo estatuto para a dimens\u00e3o amorosa presente na rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o Outro.<\/p>\n<p>N\u00e3o seria ent\u00e3o uma mera coincid\u00eancia que, na \u00faltima li\u00e7\u00e3o do semin\u00e1rio XI, Lacan tenha feito um r\u00e1pido coment\u00e1rio sobre os efeitos, j\u00e1 por ele observados, da chamada\u00a0<em>mass media.\u00a0<\/em>Ali, muito antes do advento do mundo virtual, a produ\u00e7\u00e3o excessiva e oclusiva do objeto a partir dos recursos tecnol\u00f3gicos da \u00e9poca j\u00e1 era motivo de alerta, por Lacan, da presen\u00e7a planet\u00e1ria invasiva da voz e do olhar. Como tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 de causar estranheza que, logo em seguida, ele se ocupe do tema do sacrif\u00edcio.<\/p>\n<p>Lacan faz uma cr\u00edtica contundente \u00e0 precariedade das leituras dominantes que tentam explicar o nazismo e o holocausto. Ressalta a ressurg\u00eancia da oferenda a deuses obscuros de um objeto de sacrif\u00edcio, situa\u00e7\u00e3o sob a qual poucos sujeitos poderiam deixar de sucumbir, tratando-se de uma \u201ccaptura monstruosa\u201d.<\/p>\n<p>Denuncia que a cr\u00edtica hist\u00f3rica a esses fen\u00f4menos \u00e9 tomada por certo fasc\u00ednio pelo sacrif\u00edcio<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/psicanalise-e-esquecimeto#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a>. Diz, contudo, que um olhar corajoso para esse mist\u00e9rio revelar\u00e1 que &#8220;o sacrif\u00edcio significa que, no objeto de nossos desejos, tentamos encontrar o testemunho da presen\u00e7a do desejo desse Outro\u201d, que \u00e9 ent\u00e3o chamado por Lacan de \u201cDeus obscuro\u201d (LACAN, 1985, p. 266).<\/p>\n<p>Discorrendo sobre esse tema, Zaloszyc (1994) retoma a passagem b\u00edblica do \u00caxodo, de quando Deus fala a Mois\u00e9s: \u201cDepois, quando eu tirar a m\u00e3o, me ver\u00e1s pelas costas; por\u00e9m a minha face n\u00e3o se ver\u00e1\u201d (XXXIII\/23).<\/p>\n<p>Segundo Zaloszyc, da forma como Deus fala a Mois\u00e9s, pode-se depreender que este somente teria acesso ao que Deus lhe depusesse: seus mandamentos, seu texto, suas prescri\u00e7\u00f5es. Mois\u00e9s jamais alcan\u00e7aria os fins em jogo naquilo que Deus lhe apresentava. Ele poderia apenas supor o sentido em jogo no texto divino, supor o saber desse que se apresenta a ele com seus mandamentos (ZALOSZYC, 1994, p. 10). Constata-se, assim, que houve um encontro de Mois\u00e9s com uma dupla face de Deus. N\u00e3o lhe \u00e9 poss\u00edvel alcan\u00e7ar as raz\u00f5es de Deus. Depreende-se assim que, mais al\u00e9m do saber, encontra-se o imposs\u00edvel de alcan\u00e7ar do desejo do Outro. A\u00ed se encontra sua dimens\u00e3o obscura. Essa obscuridade n\u00e3o h\u00e1 como ser reduzida pelo saber. Por mais que possamos constituir um Outro do saber, por detr\u00e1s deste, inevitavelmente, encontraremos uma obscuridade. Por mais expl\u00edcita e concreta que seja a fala do Outro, o desejo em jogo nos escapa. O desejo do Outro \u00e9 sempre uma opacidade.<\/p>\n<p>Uma novidade se apresenta ent\u00e3o para a psican\u00e1lise. Ela se encontra diante de uma nova modalidade de apresenta\u00e7\u00e3o do gozo. O avan\u00e7o do discurso do capitalismo nos enreda \u00e0 experi\u00eancia de uma captura monstruosa, o sacrif\u00edcio \u00e0 dimens\u00e3o obscura do desejo do Outro.<\/p>\n<p><em>As neo-divindades<br \/>\n<\/em><em><br \/>\n<\/em>Ao comentar o ultim\u00edssimo Lacan, Miller (2010, p. 126) discorre sobre a mudan\u00e7a de rumos por ele efetuada deslocando-se da no\u00e7\u00e3o de simb\u00f3lico, e, portanto, de sentido, na medida em que este se articula na cadeia significante para valorizar o que seria da materialidade da palavra e sua rela\u00e7\u00e3o com o corpo \u2014 que Lacan busca expressar no conceito de\u00a0<em>lalangue.\u00a0<\/em>Tal\u00a0<em>moterialit\u00e9\u00a0<\/em>pode, a princ\u00edpio, parecer estranha, pois, ao afastar o sentido, Lacan parece aproximar o real da psicanalise do real da ci\u00eancia ao nos apresentar algo que retorna sempre no mesmo lugar, um contraponto \u00e0 conting\u00eancia com a qual lidamos em nossa pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>No esfor\u00e7o de exemplificar essa materialidade da palavra, Miller recorre \u00e0 experi\u00eancia que, naquele momento, j\u00e1 era bem comum \u2014 recorrer ao Google (MILLER, 2007). Quando fazemos uma busca, assinala, esta n\u00e3o \u00e9 feita por interm\u00e9dio de uma frase, tampouco uma prece. Trata-se apenas de um sinal, uma letra, uma cifra, e vamos de encontro a esse \u201cdeus virtual&#8221;.<\/p>\n<p>Na busca do saber, encontramos essa neodivindade incapaz de qualquer deciframento e que opera somente com a materialidade das palavras.<\/p>\n<p>Com o Presidente Schreber,\u00a0<em>avant la lettre<\/em>, aprendemos que esse Deus, esse Outro caprichoso n\u00e3o entende nada dos homens, somente os conhecendo em sua superficialidade, e que seu afastamento resultava numa humanidade de homens feitos \u00e0s pressas. O Deus Google, contudo, apesar da materialidade superficial que nos oferece, contrariamente ao Deus de Schreber, fala muito, responde muito, \u00e9 logorreico. \u201cEle alinha ainda mais a velocidade e a quantidade\u2026 no lugar do infinito, ele coloca a totalidade\u201d (MILLER, 2010, p. 127).<\/p>\n<p>O Google, lembra Miller, \u00e9, antes de mais nada, um avatar. Trata-se de uma empresa bilion\u00e1ria que busca a totalidade das cifras sem poder decifr\u00e1-las. Mas, nessa busca, produz uma demanda de saber insaci\u00e1vel, e assim recolhe globalmente as demandas de cada um que utiliza seus mecanismos de busca para seu pr\u00f3prios ganhos econ\u00f4micos.<\/p>\n<p>O GAFAM, acr\u00f4nimo que representa as gigantes da tecnologia digital (Google, Apple, Facebook, Amazon e Microsoft), povoou o mundo virtual e, com isso, nossas vidas, por meio de seus m\u00faltiplos avatares que, diferentemente das mamas de Tir\u00e9sias, da ordem do semblante, s\u00e3o cria\u00e7\u00f5es imagin\u00e1rias que nos remetem ao simulacro. O sacrif\u00edcio para encontrar o desejo do Outro reduz todos a objetos de consumo. A obscuridade do Outro assumiu novas formas nas redes sociais. N\u00e3o se trata de uma captura amorosa, mas de uma captura monstruosa. Do amor ao sacrif\u00edcio, a psican\u00e1lise se v\u00ea diante de um circuito aditivo, no qual o semblante \u00e9 substitu\u00eddo pelo simulacro.<\/p>\n<p>Partimos da materialidade das palavras com o Google e hoje chegamos tamb\u00e9m \u00e0 materialidade das imagens, est\u00e1ticas ou em v\u00eddeos, provocadas pela dissemina\u00e7\u00e3o mete\u00f3rica das redes sociais. A dimens\u00e3o do sacrif\u00edcio se explicita quando nos deparamos com os relatos de mortes em decorr\u00eancia da busca da\u00a0<em>selfie<\/em>\u00a0mais original ou ex\u00f3tica. Desalojadas da vergonha, as imagens proliferam e se multiplicam em dimens\u00f5es planet\u00e1rias na busca pelo encontro do\u00a0<em>like<\/em>, simulacro do desejo do Outro. Se nos atentarmos para a pr\u00f3pria estrutura da\u00a0<em>selfie<\/em>, perceberemos que \u00e9 uma imagem que tem como fun\u00e7\u00e3o sua simples exibi\u00e7\u00e3o. S\u00e3o imagens que, de forma circular, se fecham sobre si mesmas. N\u00e3o precisam do Outro nem mesmo para sua produ\u00e7\u00e3o. S\u00e3o imagens que, por sua padroniza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o representam aquele que saca as fotos; elas se fazem descoladas do corpo. Distribu\u00eddas a partir de uma tens\u00e3o exibicionista, acabam por serem esquecidas. No novo mundo virtual, os\u00a0<em>falasser<\/em>es sacrificam sua pr\u00f3pria representa\u00e7\u00e3o, sua diferen\u00e7a, abrindo m\u00e3o de sua singularidade atrav\u00e9s das oferendas que prometem encontrar esse desejo obscuro. Os simulacros assim produzidos se oferecem ao esquecimento. O mundo virtual e as redes sociais, mais al\u00e9m do Google, transformaram-se em portais de busca em que se busca sempre a mesma coisa \u2014 mesma coisa que n\u00e3o h\u00e1 como encontrar.<\/p>\n<p><em>A pandemia<\/em><\/p>\n<p>Esta realidade aumenta a import\u00e2ncia de esclarecer, no \u00faltimo ensino de Lacan, esse desvio em dire\u00e7\u00e3o a uma dimens\u00e3o material da palavra. Tal desvio aparentemente deslocaria a psican\u00e1lise do encontro com o real da conting\u00eancia. Essa apar\u00eancia se desfaz na medida em que o que est\u00e1 em jogo nesse \u201cmesmo\u201d, designado por Lacan como\u00a0<em>lalangue<\/em>, incide sobre Um corpo. Essa incid\u00eancia produz resson\u00e2ncias, acontecimentos contingentes de corpo.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia religiosa, com seus dogmas e sacramentos, exalta, por interm\u00e9dio da cren\u00e7a, um \u00fanico caminho para o tratamento desses acontecimentos de corpo. Convoca todos os seus seguidores ao esquecimento. Como vimos, a ci\u00eancia, em seu lugar de indiferen\u00e7a, sempre se ocupou da materialidade da experi\u00eancia. Indiferente ao gozo, foraclui o sujeito, que cai no esquecimento. No mundo virtual, presenciamos a oferta infinitizada ao desvario do gozo de forma aditiva. Neste mundo de avatares e realidade ampliada, reina tamb\u00e9m o esquecimento. A experi\u00eancia singular do\u00a0<em>falasser<\/em>, a afeta\u00e7\u00e3o de seu corpo n\u00e3o interessa \u00e0 voracidade capitalista de GAFAM. Vivemos a chamada cultura do cancelamento.<\/p>\n<p>A pandemia do coronav\u00edrus afetou diretamente a experi\u00eancia de corpo de cada indiv\u00edduo em nosso mundo. Sua dissemina\u00e7\u00e3o globalizada afetou o adormecimento provocado pela cultura do cancelamento. A amea\u00e7a de morte trazida pelo v\u00edrus levantou o v\u00e9u do esquecimento produzindo, num primeiro momento, ang\u00fastia e perplexidade. O infamiliar do encontro com o v\u00edrus trouxe o furo novamente \u00e0 cena. O n\u00e3o saber como experi\u00eancia dominante a partir da eclos\u00e3o da pandemia, seguido das diversas medidas de conten\u00e7\u00e3o social para evitar a propaga\u00e7\u00e3o do v\u00edrus, num primeiro momento, desalojou o saber indiferente da ci\u00eancia e convocou cada\u00a0<em>falasser<\/em>\u00a0a ter que se haver com o fazer com seu corpo. Presenciamos, com esse an\u00fancio da morte, a prolifera\u00e7\u00e3o das\u00a0<em>lives<\/em>, um significante bem apropriado ao momento, um esfor\u00e7o moment\u00e2neo diante do despertar do pr\u00f3prio esquecimento.<\/p>\n<p>Foi diante dessa realidade que n\u00f3s psicanalistas passamos a realizar atendimentos via remota, on-line. Trata-se de um momento preciso, uma janela de oportunidade para a presen\u00e7a do analista diante do desamparo provocado pelo retorno dos corpos \u00e0queles que &#8220;viviam&#8221; ultimamente de seus avatares. Foi um momento, um lapso de tempo no qual a ang\u00fastia precipitou a busca de sentido. Com o avan\u00e7o dos recursos cient\u00edficos para lidarmos com o v\u00edrus e do negacionismo m\u00edstico pol\u00edtico religioso, vemos um esvaziamento dessa solu\u00e7\u00e3o: as\u00a0<em>lives<\/em>\u00a0tamb\u00e9m come\u00e7am a cair no esquecimento.<\/p>\n<p><em>A aposta da psican\u00e1lise<\/em><\/p>\n<p>Ainda no semin\u00e1rio XI, Lacan esclarece a dissimetria entre Freud e Descartes. Ela n\u00e3o se d\u00e1 pelo fato de que haveria uma certeza fundada no sujeito. A diferen\u00e7a \u00e9 que, no que diz respeito ao inconsciente, diz Lacan, o sujeito est\u00e1 em casa.<\/p>\n<p>Na elabora\u00e7\u00e3o de Descartes, \u00e9 preciso um Deus n\u00e3o enganador para que esse encontro com o real possa se assegurar da verdade. A verdade colocada assim, nas m\u00e3os do Outro, abriu o campo para o avan\u00e7o da ci\u00eancia e suas f\u00f3rmulas.<\/p>\n<p>O que Descartes n\u00e3o sabia, afirma Lacan, e que n\u00f3s sabemos, \u00e9 que o inconsciente pensa antes de entrar na certeza.<\/p>\n<p>O que se trata para os psicanalistas n\u00e3o diz respeito a um Outro enganador, mas a um Outro enganado. Lacan distingue o sujeito da certeza, fundamental ao pensamento cartesiano, daquilo que, naquele momento, ele situava como procura da verdade. Descartes apreende seu \u201ceu penso\u201d a partir da enuncia\u00e7\u00e3o do \u201ceu duvido\u201d. N\u00e3o de seu enunciado, que carrega tudo desse saber a p\u00f4r em d\u00favida. J\u00e1 Freud, segundo Lacan, d\u00e1 um passo a mais quando integra, ao texto do sonho, o \u201ccolof\u00e3o da d\u00favida\u201d. Em Freud, a d\u00favida faz parte do texto. Isso faz com que Freud nos mostre, coloque sua certeza apenas na exist\u00eancia da cadeia significante, ressalta Lacan.<\/p>\n<p>Ele retorna a essa quest\u00e3o ao falar dos deuses obscuros e da grande dificuldade de se recusar ao sacrif\u00edcio. Afirma que, diante do sacrif\u00edcio eterno, ningu\u00e9m pode resistir, a n\u00e3o ser que se sustente em uma f\u00e9 muito dif\u00edcil. Diz que, nesse campo da f\u00e9, somente Spinoza teria conseguido formular de uma maneira plaus\u00edvel do que se trata. Para ele, Spinoza, acusado de pante\u00edsta, na verdade defendia que a universalidade de Deus somente poderia ser pens\u00e1vel atrav\u00e9s da fun\u00e7\u00e3o significante. S\u00f3 assim se alcan\u00e7aria um distanciamento sereno.<\/p>\n<p>Como vimos, a psican\u00e1lise opera no esquecimento, no furo, a partir de como ele aparece nas enuncia\u00e7\u00f5es do sujeito. Convocar a fala favorece o surgimento dos trope\u00e7os, dos equ\u00edvocos, das resson\u00e2ncias e, consequentemente, da significa\u00e7\u00e3o singular para cada\u00a0<em>\u00a0falasser<\/em>, desse efeito absolutamente singular de\u00a0<em>lalangue\u00a0<\/em>sobre o corpo, reverbera\u00e7\u00f5es da puls\u00e3o que n\u00e3o se deixam capturar e que insistem em n\u00e3o se fazerem esquecer.<\/p>\n<p>Sustentar nossa pr\u00e1tica neste mundo que adv\u00e9m exigir\u00e1 a aud\u00e1cia da inven\u00e7\u00e3o. O mundo virtual veio para ficar. \u00c9 inquestion\u00e1vel que nossos atendimentos on-line produzem efeitos, mas \u00e9 inquestion\u00e1vel tamb\u00e9m que essa nova realidade interroga nossos dispositivos. Como faremos neste futuro que se avizinha \u00e9 uma pergunta j\u00e1 presente e que temos tido a chance de exercitar durante a pandemia. Abrir espa\u00e7o para que o\u00a0<em>falasser<\/em>\u00a0possa se haver com um pouco de sentido em sua exist\u00eancia, suportar a conting\u00eancia num mundo onde reina a obscuridade totalit\u00e1ria do saber, fazer valer o semblante onde domina o simulacro s\u00e3o quest\u00f5es com as quais estaremos envolvidos nos pr\u00f3ximos anos, mais intensamente do que j\u00e1 estamos. Enfim, creio que nossos problemas apenas come\u00e7aram. Mas \u00e9 animador saber, por exemplo, que o Pix, dispositivo banc\u00e1rio rec\u00e9m criado no Brasil, que tem como inten\u00e7\u00e3o a unifica\u00e7\u00e3o digital de todas as trocas financeiras no pa\u00eds, j\u00e1 vem sendo utilizado como meio de flerte por seus usu\u00e1rios. \u00c9 bom comprovar que, de fato, a puls\u00e3o insiste em n\u00e3o se deixar esquecer.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1964)\u00a0<strong>O semin\u00e1rio, livro 11<\/strong>: Os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise, 2\u00aa edi\u00e7\u00e3o. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. \u201cO tri\u00e2ngulo dos saberes\u201d. In:\u00a0<strong>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana Online<\/strong>. Ano 8, n\u00ba 24. Nov. 2017. Dispon\u00edvel em &lt;http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_24\/O_triangulo_dos_saberes.pdf&gt; Acesso em: Janeiro de 2021.<\/h6>\n<h6>ZALOSZYC, A.\u00a0<strong>Le Sacrifice au Dieu Obscur<\/strong><em>.\u00a0<\/em>Nice: Z\u2019\u00e9ditions. 1994.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A.\u00a0<strong>Perspectivas do semin\u00e1rio 23 de Lacan<\/strong><em>.\u00a0<\/em>Rio de Janeiro: Zahar. 2010.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/psicanalise-e-esquecimeto#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a>\u00a0Era como Lacan se referia na \u00e9poca.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/psicanalise-e-esquecimeto#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a>\u00a0O que se mostra presente na pr\u00f3pria discuss\u00e3o em torno da denomina\u00e7\u00e3o Holocausto, que carrega em si a ideia do sacrif\u00edcio, em contraposi\u00e7\u00e3o com a denomina\u00e7\u00e3o Sho\u00e1h, que traz consigo a no\u00e7\u00e3o de exterm\u00ednio. N\u00e3o podemos deixar tamb\u00e9m de assinalar a import\u00e2ncia de n\u00e3o se deixar esquecer como uma palavra de ordem repetida insistentemente quando se trata das lembran\u00e7as do nazismo e da Sho\u00e1h.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>HENRI KAUFMANNER Psicanalista. Membro da EBP-MG\/AMP\u00a0| kaufmanner@gmail.com Resumo:\u00a0Partindo da pergunta lan\u00e7ada por Lacan ao final do semin\u00e1rio XI, sobre uma poss\u00edvel impostura da psican\u00e1lise, pergunta-se o que o conduziu a tra\u00e7ar uma distin\u00e7\u00e3o entre a religi\u00e3o, a ci\u00eancia e a psican\u00e1lise sob a perspectiva da ideia de esquecimento. 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