{"id":1728,"date":"2021-07-19T06:40:41","date_gmt":"2021-07-19T09:40:41","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1728"},"modified":"2025-12-01T13:24:06","modified_gmt":"2025-12-01T16:24:06","slug":"o-real-do-inconsciente-e-a-gaia-ciencia-saber-fazer-com-lalingua1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2021\/07\/19\/o-real-do-inconsciente-e-a-gaia-ciencia-saber-fazer-com-lalingua1\/","title":{"rendered":"\u00a0O real do inconsciente e a gaia ci\u00eancia: saber fazer com lal\u00edngua[1]\u00a0"},"content":{"rendered":"<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6>BERNARDO MARANH\u00c3O<br \/>\nPsic\u00f3logo. Advogado. Mestre em Teoria do Direito pela PUC-Minas. Doutorando em Estudos Psicanal\u00edticos na UFMG. Professor na Escola do Legislativo de Minas Gerais |<br \/>\n<span id=\"cloak8dc57a793c37848aa0f242fed8ee64ff\"><a href=\"mailto:maranhao.bernardo@gmail.com\">maranhao.bernardo@gmail.com<\/a><\/span><\/h6>\n<blockquote><p><strong>Resumo:\u00a0<\/strong>Este artigo discute o trecho de \u201cTelevis\u00e3o\u201d em que Lacan faz men\u00e7\u00e3o \u00e0 gaia ci\u00eancia, o saber alegre dos trovadores medievais. O que se pretende interrogar \u00e9 em que medida esse saber pode ser tomado como um referencial, entre outros simultaneamente poss\u00edveis, para a interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica, num contexto em que o inconsciente \u00e9 concebido, com Lacan, como \u201co mist\u00e9rio do corpo falante\u201d.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave:\u00a0<\/strong>inconsciente, gaio saber, lal\u00edngua.<\/p>\n<p><strong>THE REAL OF THE UNCONSCIOUS AND THE GAY S\u00c7AVOIR:<\/strong><\/p>\n<p><strong>SAVOIR-Y-FAIRE WITH LALANGUE<\/strong><\/p>\n<p><strong>Abstract:\u00a0<\/strong>This article discusses the sketch of \u201cTelevision\u201d, in which Lacan mentions gai savoir, the joyful knowledge of medieval troubadours, in order to interrogate to which extent this knowledge can be taken as a reference, among others equally possible, to psychoanalytic interpretation, in a context in which the unconscious is conceived, with Lacan, as \u201cthe mystery of the speaking body\u201d.<\/p>\n<p><strong>Keywords:\u00a0<\/strong>unconscious, gai savoir, lalangue.<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_1729\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/listras_1-1.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"600\" data-large_image_height=\"450\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1729\" class=\"wp-image-1729 size-full\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/listras_1-1.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/listras_1-1.jpg 600w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/listras_1-1-300x225.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1729\" class=\"wp-caption-text\">M\u00e1rio Azevedo, S\/T, 2020\/2021.<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nos anos finais do ensino de Lacan, a concep\u00e7\u00e3o do inconsciente estruturado como uma linguagem cede espa\u00e7o \u00e0 do inconsciente como corpo falante. A leitura em perspectiva desses remanejamentos conceituais, tal como empreendida por Miller, possibilita que a proposi\u00e7\u00e3o lacaniana \u201co inconsciente \u00e9 o mist\u00e9rio do corpo falante\u201d (LACAN, 1972-73\/1985, aula de 15 de maio de 1973) seja reformulada nos seguintes termos: \u201co real do inconsciente \u00e9 o corpo falante\u201d (MILLER, 2015, p. 34). E \u00e9 precisamente lal\u00edngua, tomada como o real da l\u00edngua e como o elemento de gozo que h\u00e1 no uso da palavra, que corresponde, nesse corpo falante, ao ponto de amarra\u00e7\u00e3o entre a fala e o corpo<em>.<\/em><\/p>\n<p>A metaf\u00edsica cartesiana, observa Bassols (2015), conserva inquestionado o mist\u00e9rio da uni\u00e3o entre a alma e corpo. J\u00e1 na perspectiva lacaniana detalhada por Bassols e por Miller, a uni\u00e3o entre a\u00a0<em>res cogitans\u00a0<\/em>e a\u00a0<em>res extensa,\u00a0<\/em>ou seja, entre a subst\u00e2ncia pensada e a subst\u00e2ncia corp\u00f3rea, constitui uma terceira subst\u00e2ncia, uma subst\u00e2ncia gozosa, que corresponde a isso que Lacan denomina \u201co mist\u00e9rio do corpo falante\u201d e que Miller designa como o real do inconsciente. \u00c9 essa subst\u00e2ncia gozosa, diz Bassols, que se encontra no ensino de Lacan, a partir do Semin\u00e1rio XX,\u00a0<em>Mais, ainda<\/em>, como o significante que se transforma cada vez mais em letra e que, no mesmo passo \u2014 ousamos acrescentar \u2014, vem a ser progressivamente tomado como pertinente n\u00e3o \u00e0 linguagem, mas a lal\u00edngua. A respeito dessa subst\u00e2ncia gozosa, observa Bassols (2015, p. 14): \u201c\u00c9 a\u00ed que se coloca o problema do real da linguagem, que amarra o corpo imagin\u00e1rio e o simb\u00f3lico da realidade ps\u00edquica. \u00c9 o real como terceiro que, n\u00e3o obstante, produz uma amarra\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m a partir desse real da linguagem que se forma o sintoma, concebido como acontecimento de corpo, num arranjo que resulta da maneira singular como o ser falante \u00e9 afetado em seu corpo pelos sedimentos de lal\u00edngua. Ao analista, incumbe saber ler o sintoma (MILLER, 2016a), n\u00e3o segundo uma visada hermen\u00eautica, atrelada aos sentidos convencionados do significante, mas de uma maneira que presta aten\u00e7\u00e3o \u00e0 materialidade gr\u00e1fica e f\u00f4nica do significante, ou seja, \u00e0 sua dimens\u00e3o de letra e \u00e0s resson\u00e2ncias produzidas no corpo do sujeito pela mat\u00e9ria do significante, constelada na gal\u00e1xia de lal\u00edngua. Ao analisante, toca-lhe a tarefa de \u201cinventar o saber\u201d (LACAN, 1973\/2003, p. 315) que lhe conv\u00e9m quanto a esse seu modo singular de gozo. Dito de outro modo, o que est\u00e1 em jogo numa an\u00e1lise \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o de um modo espec\u00edfico de saber, que Lacan (1976-77, aula de 15 de fevereiro de 1977) nomeia com a express\u00e3o\u00a0<em>savoir-y-faire<\/em>. Trata-se de um saber que aponta para a aproxima\u00e7\u00e3o entre o fazer do psicanalista e o do artista, um saber que valoriza a diferen\u00e7a entre o universal e o singular. O\u00a0<em>savoir-y-faire<\/em>, tal como o toma Lacan, observa M\u00e1rcia Mello de Lima (2009, pp. 26\u201327), pode ser traduzido como um saber se virar com isso que o sujeito tem de surpreendente, com isso que o conduz \u00e0 singularidade de seu ato.<\/p>\n<p>O trato com o real do gozo de lal\u00edngua, com os efeitos por ela produzidos no corpo \u2014 efeitos que s\u00e3o afetos (LACAN, 1972\u201373\/1985, aula de 26 de junho de 1973) \u2014, \u00e9 algo cultivado refinadamente pelos trovadores da Idade M\u00e9dia, os quais instituem, a partir desse\u00a0<em>savoir-y-faire<\/em>, um campo particular do saber, a\u00a0<em>gaia ci\u00eancia<\/em>. Em \u201cTelevis\u00e3o\u201d, Lacan (1974\/2003) aproxima esse saber do poeta ao do analista e caracteriza a gaia ci\u00eancia, ao mesmo tempo, como um afeto \u2014 trata-se, afinal, de um saber alegre \u2014 e como uma virtude, em oposi\u00e7\u00e3o ao afeto da tristeza, que ele, evocando Dante e Spinoza, qualifica como uma falha moral. Nesse passo, Lacan coloca em curto-circuito a acostumada oposi\u00e7\u00e3o entre afeto e intelecto ao indicar que o afeto deriva do pensamento, e, conforme veremos mais detalhadamente a seguir, p\u00f5e o problema das depress\u00f5es a salvo de uma abordagem biologizante ao enquadr\u00e1-lo na moldura de uma \u00e9tica do bem-dizer.<\/p>\n<p>Desde o Semin\u00e1rio X,\u00a0<em>A ang\u00fastia,<\/em>\u00a0Lacan j\u00e1 indica que o campo dos afetos \u00e9 atinente \u00e0 rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o Outro, rela\u00e7\u00e3o articulada pelo significante. A esses dois termos, o significante e o Outro, \u00e9 preciso, diz Miller (1986\/2016b, p. 108), acrescentar um terceiro: o gozo. Sob essa perspectiva, os afetos n\u00e3o derivam de uma rela\u00e7\u00e3o direta do sujeito com o mundo, mas de uma rela\u00e7\u00e3o mediada pelo desejo, e consistem em efeitos de gozo produzidos pela linguagem no corpo desse sujeito. Em s\u00edntese, diz Miller (1986\/2016b p. 109), \u201co que Freud denomina a separa\u00e7\u00e3o entre a cota de afeto e a ideia se torna, para n\u00f3s, a articula\u00e7\u00e3o do significante e do objeto\u00a0<em>a<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Em \u201cTelevis\u00e3o\u201d, Lacan inscreve expressamente os afetos no campo da \u00e9tica. Ao trat\u00e1-los como \u201cpaix\u00f5es da alma\u201d, na esteira de Plat\u00e3o, Arist\u00f3teles e Tom\u00e1s de Aquino, afasta-os das visadas psicol\u00f3gicas e psicofisiol\u00f3gicas pr\u00f3prias da contemporaneidade e, sem deixar de reconhecer que eles t\u00eam uma ancoragem no corpo, toma os afetos em considera\u00e7\u00e3o a partir da rela\u00e7\u00e3o que eles possam guardar com o problema do bem, ou mesmo do soberano bem. N\u00e3o se trata, pondera Miller (1986\/2016b), de transportar para a psican\u00e1lise a quest\u00e3o do soberano bem, t\u00e3o cara ao pensamento antigo e medieval, mas de indicar que \u201c\u00e9 nessa abordagem tradicional da quest\u00e3o que a psican\u00e1lise encontra sua orienta\u00e7\u00e3o\u201d (p. 109).<\/p>\n<p>\u00c9 eloquente, quanto a essa considera\u00e7\u00e3o dos afetos sob uma perspectiva \u00e9tica, o exemplo da oposi\u00e7\u00e3o evocada por Lacan entre a tristeza e o gaio saber. Essa oposi\u00e7\u00e3o \u00e9 amplamente lastreada nas doutrinas m\u00e9dicas e filos\u00f3ficas da Idade M\u00e9dia (AGAMBEN, 1977\/2007), que associam a tristeza ao pecado mortal da ac\u00eddia \u2014 posi\u00e7\u00e3o demission\u00e1ria do sujeito em face do soberano bem<sup><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/maranhao#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[2]<\/a><\/sup>\u00a0\u2014 e reconhecem no gaio saber \u2014 ramo da arte do bem-dizer \u2014 um rem\u00e9dio para esse mal que nem a religi\u00e3o, nem a filosofia, nem a medicina sabem curar.<\/p>\n<p>Desse par de opostos herdado da tradi\u00e7\u00e3o, Lacan faz uma apropria\u00e7\u00e3o \u00e0 sua maneira. A tristeza constitui para Lacan um problema \u00e9tico \u2014 e \u00e9 para dar evid\u00eancia a esse ponto que, nessa passagem de \u201cTelevis\u00e3o\u201d, ele recusa expressamente o termo depress\u00e3o, pr\u00f3prio ao campo sem\u00e2ntico de uma abordagem psicofisiol\u00f3gica dos afetos. Com apoio em Dante e em Spinoza<sup><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/maranhao#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[3]<\/a><\/sup>, caracteriza a tristeza como \u201classid\u00e3o moral\u201d, isto \u00e9, como um abandono, por parte do sujeito, em face de um dos deveres \u00e9ticos fundamentais. No entanto \u2014 e aqui se destaca o aspecto particular da leitura proposta por Lacan \u2014, esse dever ante o qual o sujeito se omite n\u00e3o \u00e9, como quereria o fil\u00f3sofo seiscentista, o de bem-dizer o supremo bem divino, mas o de encontrar seu pr\u00f3prio lugar na estrutura, ou seja, sua posi\u00e7\u00e3o em face do inconsciente (LACAN, 1974\/2003). Esse dever, em sua vers\u00e3o lacaniana, tamb\u00e9m se enquadra na \u00e9tica do bem-dizer e engaja a rela\u00e7\u00e3o entre o saber e o gozo. Nesse sentido, observa Miller (1986\/2016b, p. 111): \u201cA \u00e9tica do bem-dizer consiste em discernir, em circunscrever, no saber, aquilo que \u00e9 imposs\u00edvel de dizer. (&#8230;) Quando o saber \u00e9 triste, ele \u00e9 impotente para p\u00f4r o significante em resson\u00e2ncia com o gozo; esse gozo permanece exterior\u201d.<\/p>\n<p>J\u00e1 no que concerne \u00e0 gaia ci\u00eancia, virtude de um saber alegre que se encontra em oposi\u00e7\u00e3o ao v\u00edcio do saber faltoso da ac\u00eddia-tristeza, Lacan a considera n\u00e3o somente como a arte de entrela\u00e7ar com engenho as s\u00edlabas \u00e0s notas musicais e as palavras umas \u00e0s outras, mas como uma arte de \u201cgozar do deciframento\u201d (LACAN, 1974\/2003, p. 525), um modo de dar lugar ao gozo no exerc\u00edcio do saber, de propiciar alguma reconcilia\u00e7\u00e3o entre o saber o e gozo. Como observa Miller:<\/p>\n<p>\u201c[O] gaio saber admite a extimidade do gozo, ele admite que esse gozo n\u00e3o \u00e9, decerto, absorv\u00edvel no saber, mas que tampouco lhe \u00e9 exterior. Notemos, quanto a esse aspecto, que o saber alegre n\u00e3o \u00e9 o saber onipotente, mas aquele que faz passar da impot\u00eancia ao imposs\u00edvel. A tristeza \u00e9 a impot\u00eancia [do saber], ao passo que o gaio saber \u00e9 o imposs\u00edvel do saber. Por essa via, ele toca no real\u201d (MILLER, 1986\/2016b, pp. 110-11).<\/p>\n<p>De que maneira o saber alegre toca no real? As palavras de Lacan, no trecho de \u201cTelevis\u00e3o\u201d em que ele se refere ao gaio saber, propiciam o vislumbre de uma resposta a essa quest\u00e3o:<\/p>\n<p>\u201cNo polo oposto da tristeza existe o gaio issaber [<em>gay s\u00e7avoir<\/em>] o qual, este sim, \u00e9 uma virtude. Uma virtude n\u00e3o absolve ningu\u00e9m do pecado \u2014 original, como todos sabem. A virtude que designo como gaio issaber \u00e9 o exemplo disso, por manifestar no que ela consiste: n\u00e3o em compreender, fisgar [<em>piquer<\/em>] no sentido, mas em ro\u00e7\u00e1-lo t\u00e3o de perto quanto se possa, sem que ele sirva de cola para essa virtude, para isso gozar com o deciframento, o que implica que o gaio issaber, no final, fa\u00e7a dele apenas a queda, o retorno ao pecado\u201d (LACAN, 1974\/2003, p. 525).<\/p>\n<p>A partir desse dito de Lacan, \u00e9 poss\u00edvel, ainda, considerar que o gaio saber fornece um paradigma para a escuta anal\u00edtica: \u201cn\u00e3o compreender, fisgar no sentido, mas ro\u00e7\u00e1-lo t\u00e3o de perto quanto se possa\u201d. Essa divisa nos parece articul\u00e1vel, do lado da interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica, \u00e0quilo que \u00c9ric Laurent (2018) recorta do ensino de Lacan sob a rubrica da interpreta\u00e7\u00e3o como jacula\u00e7\u00e3o. A partir das indica\u00e7\u00f5es dadas por Laurent, \u00e9 poss\u00edvel supor que a jacula\u00e7\u00e3o se liga menos ao conte\u00fado sem\u00e2ntico de determinado significante que a \u201cum efeito de sentido real\u201d (LAURENT, 2018, p. 70) produzido pela maneira como esse significante \u00e9 veiculado pelo analista. Em suas palavras: \u201cEssa interpreta\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o acr\u00e9scimo de um significante dois com rela\u00e7\u00e3o a um significante um. Ela n\u00e3o visa \u00e0 concatena\u00e7\u00e3o ou \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de uma cadeia significante\u201d (LAURENT, 2018, p. 71). Trata-se, como explica Laurent mais adiante nesse mesmo texto, de um significante que seria novo em raz\u00e3o de sua capacidade de desencadear um despertar, o qual se conecta \u201c\u00e0 produ\u00e7\u00e3o de um efeito de sentido real como produ\u00e7\u00e3o de um evento de corpo\u201d (LAURENT, 2018, p. 71).<\/p>\n<p>Dentre os contextos de uso da ideia de jacula\u00e7\u00e3o recortados da obra lacaniana por Laurent, destacamos dois, por sua pertin\u00eancia \u00e0 discuss\u00e3o que aqui tecemos acerca do gaio saber. O primeiro deles diz respeito a\u00a0<em>Poordjeli<\/em>, palavra-valise inventada por Serge Leclaire de modo a formalizar, em final de an\u00e1lise, v\u00e1rios aspectos de sua fantasia. Lacan qualifica esse invento como \u201cuma jacula\u00e7\u00e3o secreta, uma f\u00f3rmula jubilat\u00f3ria, uma onomatopeia\u201d (LACAN, 1964-65, aula de 27 de janeiro de 1965). O segundo contexto \u00e9 o do uso do termo jacula\u00e7\u00e3o para dar conta da for\u00e7a do texto po\u00e9tico.<\/p>\n<p>As refer\u00eancias espec\u00edficas identificadas por Laurent neste segundo contexto s\u00e3o aquelas feitas \u00e0 poesia de P\u00edndaro e \u00e0 de Angelus Silesius. No entanto, podemos imaginar Lacan \u00e0s voltas com a raiz etimol\u00f3gica do termo \u201cjacula\u00e7\u00e3o\u201d, n\u00e3o muito distante, possivelmente, do latim\u00a0<em>joculator<\/em>\u00a0(de\u00a0<em>jocus<\/em>: jogo), termo que derivou, nos s\u00e9culos XI e XII, para o nome dado, em diversas l\u00ednguas latinas, a uma figura-chave da cultura dos trovadores medievais (ZUMTHOR, 1987\/2001, p. 56), o jogral, esse que em suas andan\u00e7as cantava coisas como:<\/p>\n<blockquote><p><em>Er vei vermeills, vertz, blaus, blancs, gruocs,<br \/>\n<\/em><em>vergiers, plais, plans, tertres e vaus;<br \/>\n<\/em><em>e&#8217;il votz dels auzels son&#8217;e tint<br \/>\n<\/em><em>ab doutz acort maitin e tart:<br \/>\n<\/em><em>so&#8217;m met en cor q&#8217;ieu colore mon chan<br \/>\n<\/em><em>d&#8217;un&#8217;aital flor don lo fruitz si&#8217;amors<br \/>\n<\/em><em>e jois lo grans e l&#8217;olors de noigandres<\/em><em>.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Um dos vest\u00edgios que nos chegaram da \u201ccatedral\u201d (AGAMBEN, 1977\/2007, p. 157) de versos e melodias constru\u00edda pelos trovadores medievais da Europa ocidental, essa estrofe do Canto XI de Arnaut Daniel (1150-1210) exemplifica bem um modo, pr\u00f3prio da gaia ci\u00eancia, de saber fazer com o gozo de lal\u00edngua. Ainda que a melodia tenha se perdido, ainda que a l\u00edngua nos seja estranha, \u00e9 poss\u00edvel perceber como esses versos se prestam a uma frui\u00e7\u00e3o que se d\u00e1 n\u00e3o s\u00f3 no pensamento, \u00e0s voltas com as camadas de decifra\u00e7\u00e3o do sentido, mas tamb\u00e9m no corpo, afetado pelo ritmo de cada verso, pela vibra\u00e7\u00e3o de cada palavra, pelo timbre de cada fonema.<\/p>\n<p>E embora a gaia ci\u00eancia medieval pare\u00e7a remota e inacess\u00edvel \u00e0 sensibilidade contempor\u00e2nea, pode-se dizer que ela encontra uma esp\u00e9cie de ressurg\u00eancia entre n\u00f3s, brasileiros, na can\u00e7\u00e3o que aqui se tem produzido, sobretudo na segunda metade do s\u00e9culo XX, como sugere Jos\u00e9 Miguel Wisnik (2004). Esse cancioneiro, observa o autor, constitui um espa\u00e7o de reflex\u00e3o e debate sobre os problemas do pa\u00eds, ao mesmo tempo que proporciona, em grande medida, a nossa \u201ceduca\u00e7\u00e3o sentimental\u201d, como o atesta o document\u00e1rio\u00a0<em>As can\u00e7\u00f5es,\u00a0<\/em>de Eduardo Coutinho (2011) \u2014 e tudo isso em formas nas quais se encontram ricamente articulados o erudito e o popular, o liter\u00e1rio e o oral, a fala e o canto, a poesia e a m\u00fasica. No que concerne particularmente ao discurso anal\u00edtico, a gaia ci\u00eancia brasileira parece oferecer, a quem se deixa tocar pelas v\u00e1rias vozes que a comp\u00f5em<sup><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/maranhao#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[4]<\/a><\/sup>, uma via r\u00e9gia para o real de lal\u00edngua.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas:<\/strong><\/h6>\n<h6>AGAMBEN, G. (1977).\u00a0<strong>Est\u00e2ncias<\/strong>: a palavra e o fantasma na cultura ocidental<em>.<\/em>\u00a0Belo Horizonte: Ed. UFMG. Tradu\u00e7\u00e3o: Selvino Jos\u00e9 Assmannn. 2007<\/h6>\n<h6>BASSOLS, M.. \u201cScilicet, le corps parlant de l\u2019AMP\u201d.\u00a0<em>In<\/em>: Association Mondiale de Psychanalyse.\u00a0<strong>Scilicet: Le corps parlant<\/strong><em>: Sur l\u2019inconscient au XXI<sup>eme<\/sup>\u00a0si\u00e8cle.\u00a0<\/em>Paris: ECF, 2015, p. 9-14.<\/h6>\n<h6>COUTINHO, E.\u00a0<strong>As can\u00e7\u00f5es<\/strong><em>.\u00a0<\/em>DVD. Petr\u00f3polis: Bretz Filmes. 2011.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1964-65).\u00a0<strong>O<\/strong>\u00a0<strong>Semin\u00e1rio, livro 12<\/strong>: problemas cruciais para a psican\u00e1lise. In\u00e9dito.<\/h6>\n<h6>______. (1972-73).\u00a0<strong>O Semin\u00e1rio, livro 20<\/strong>: mais, ainda<em>.\u00a0<\/em>Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. Tradu\u00e7\u00e3o: M. D. Magno, 1985.<\/h6>\n<h6>______. (1973). \u201cNota italiana\u201d.\u00a0<em>In<\/em>:\u00a0<strong>Outros escritos<\/strong><em>.\u00a0<\/em>Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. (Tradu\u00e7\u00e3o: Vera Ribeiro). 2003.<\/h6>\n<h6>______. (1974). \u201cTelevis\u00e3o\u201d.\u00a0<em>In:<\/em>\u00a0<strong>Outros escritos<\/strong><em>.\u00a0<\/em>Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. (Tradu\u00e7\u00e3o: Vera Ribeiro). 2003.<\/h6>\n<h6>______. (1976-77).\u00a0<strong>O<\/strong>\u00a0<strong>Semin\u00e1rio, livro 24<\/strong>: l\u2019insu qui sait de l\u2019une b\u00e9vue s\u2019aile \u00e0 mourre. In\u00e9dito.<\/h6>\n<h6>LAURENT, E. &#8220;L\u2019interpr\u00e9tation \u00e9v\u00e9nement&#8221;. In:\u00a0<strong>La Cause du D\u00e9sir<\/strong><em>,\u00a0<\/em>100(3), 2018, p. 65-73.<\/h6>\n<h6>LIMA, M. \u201cFreud, Lacan e a arte: uma s\u00edntese\u201d.\u00a0<em>In:<\/em>\u00a0LIMA; JORGE (orgs.).\u00a0<strong>Saber fazer com o real<\/strong>: di\u00e1logos entre psican\u00e1lise e arte. Rio: Companhia de Freud, (2009), p. 15-29.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. \u201cLe corps parlant: Sur l\u2019inconscient au XXI<sup>eme<\/sup>\u00a0si\u00e8cle\u201d.\u00a0<em>In<\/em>: Association Mondiale de Psychanalyse.\u00a0<strong>Scilicet: Le corps parlant<\/strong>: Sur l\u2019inconscient au XXI<sup>eme<\/sup>\u00a0si\u00e8cle<em>.\u00a0<\/em>Paris: ECF, 2015, p. 21-34.<\/h6>\n<h6>______. \u201cLer um sintoma\u201d. Lacan XXI,\u00a0<strong>Revista Fapol online<\/strong>. v. 1. 2016a. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.lacan21.com\/sitio\/2016\/04\/16\/ler-um-sintoma\/?lang=pt-br\">http:\/\/www.lacan21.com\/sitio\/2016\/04\/16\/ler-um-sintoma\/?lang=pt-br<\/a>\u00a0(acesso em 25\/6\/2020).<\/h6>\n<h6>______. (1986). &#8220;Les affects dans l\u2019exp\u00e9rience analytique&#8221;.\u00a0<em>In<\/em>:\u00a0<strong>La Cause du D\u00e9sir<\/strong>, v. 93, n. 2, 2016b, p. 98-111.<\/h6>\n<h6>TEIXEIRA, A. \u201cDepress\u00e3o ou lassid\u00e3o do pensamento? Reflex\u00f5es sobre o Spinoza de Lacan\u201d.\u00a0<em>In<\/em>:\u00a0<strong>Psicologia Cl\u00ednica<\/strong>,\u00a0<em>20<\/em>(1), 2008, p. 27-41.<\/h6>\n<h6>WISNIK, J. M. &#8220;A gaia ci\u00eancia: literatura e m\u00fasica popular no Brasil&#8221;.\u00a0<em>In<\/em>:\u00a0<strong>Sem Receita<\/strong>: ensaios e can\u00e7\u00f5es<em>.\u00a0<\/em>S\u00e3o Paulo: Publifolha, 2004, p. 213-240.<\/h6>\n<h6>ZUMTHOR, Paul. (1987).\u00a0<strong>A letra e a voz<\/strong><em>.\u00a0<\/em>(Tradu\u00e7\u00e3o: Am\u00e1lio Pinheiro e Jerusa Pires Ferreira). Rio de Janeiro: Companhia das Letras. 2001.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>[1]\u00a0O autor agradece ao Prof. Ant\u00f4nio Teixeira pela orienta\u00e7\u00e3o na feitura deste artigo.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/maranhao#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[2]<\/a>\u00a0A ac\u00eddia corresponderia, numa perspectiva lacaniana, a uma posi\u00e7\u00e3o demission\u00e1ria do sujeito em face da causa do desejo. Ver TEIXEIRA, 2008.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/maranhao#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[3]<\/a>\u00a0Ver TEIXEIRA, 2008.<\/h6>\n<h6><u><\/u><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/maranhao#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[4]<\/a>\u00a0Entre as quais se reconhecem as do\u00a0<em>rap\u00a0<\/em>e do\u00a0<em>slam,<\/em> intensamente presentes sobretudo para a juventude perif\u00e9rica dos grandes centros urbanos do pa\u00eds.<\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>BERNARDO MARANH\u00c3O Psic\u00f3logo. Advogado. Mestre em Teoria do Direito pela PUC-Minas. Doutorando em Estudos Psicanal\u00edticos na UFMG. Professor na Escola do Legislativo de Minas Gerais | maranhao.bernardo@gmail.com Resumo:\u00a0Este artigo discute o trecho de \u201cTelevis\u00e3o\u201d em que Lacan faz men\u00e7\u00e3o \u00e0 gaia ci\u00eancia, o saber alegre dos trovadores medievais. O que se pretende interrogar \u00e9 em&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57885,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[23],"tags":[],"class_list":["post-1728","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-27","category-23","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1728","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1728"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1728\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57886,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1728\/revisions\/57886"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57885"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1728"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1728"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1728"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}