{"id":1736,"date":"2021-07-19T06:40:41","date_gmt":"2021-07-19T09:40:41","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1736"},"modified":"2025-12-01T13:24:49","modified_gmt":"2025-12-01T16:24:49","slug":"neurose-obsessiva-um-dialeto-contemporaneo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2021\/07\/19\/neurose-obsessiva-um-dialeto-contemporaneo\/","title":{"rendered":"NEUROSE OBSESSIVA: UM DIALETO CONTEMPOR\u00c2NEO?"},"content":{"rendered":"<h6>MARCELA BACCARINI PAC\u00cdFICO GRECO<br \/>\nPsicanalista em forma\u00e7\u00e3o (IPSM-MG) | Psic\u00f3loga (Fumec) e Engenheira de Produ\u00e7\u00e3o (UFMG) |<br \/>\n<span id=\"cloak41668a833027c1c8da225f62900203fe\"><a href=\"mailto:mbpacifico@gmail.com\">mbpacifico@gmail.com<\/a><\/span><\/h6>\n<blockquote><p><strong>Resumo:\u00a0<\/strong>Este trabalho parte de um coment\u00e1rio feito por Lacan em 1978 para investigar como o discurso do mestre contempor\u00e2neo e suas incid\u00eancias podem privilegiar apresenta\u00e7\u00f5es sintom\u00e1ticas que se aproximam daquelas de que se vale a neurose obsessiva. Trata-se de discutir como determinados aspectos dessa forma de organiza\u00e7\u00e3o subjetiva, que foram apontados por Freud e retomados por Lacan, podem ser cotejados com a fenomenologia dos novos sintomas provocados pela decad\u00eancia da ordem simb\u00f3lica. Por fim, objetiva-se, tamb\u00e9m, levantar uma quest\u00e3o sobre a dire\u00e7\u00e3o do tratamento nesses casos.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave:<\/strong>\u00a0Neurose obsessiva, discurso do mestre contempor\u00e2neo, novos sintomas.<\/p>\n<p><strong>OBSESSIONAL NEUROSIS: A CONTEMPORARY DIALET:<\/strong><\/p>\n<p><strong>Abstract:\u00a0<\/strong>Based on a Lacan\u2019s comment made in 1978, this work investigates how the contemporary master discourse and its incidences can privilege symptoms that are close to those that obsessional neurosis presents. It discusses how certain aspects of this form of organization, pointed out by Freud and Lacan, can be compared with the phenomenology observed in new symptoms that are related to the decay of the symbolic order. Finally, it is also intended to raise a question about the direction of treatment in these cases.<\/p>\n<p><strong>Keywords<\/strong>: Obsessional neurosis, contemporary master discourse, new symptoms.<\/p><\/blockquote>\n<div id=\"attachment_1737\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/listras_2.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"600\" data-large_image_height=\"450\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1737\" class=\"wp-image-1737\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/listras_2.jpg\" alt=\"\" width=\"492\" height=\"369\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/listras_2.jpg 600w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/listras_2-300x225.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 492px) 100vw, 492px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1737\" class=\"wp-caption-text\">M\u00e1rio Azevedo, S\/T, 2020\/2021.<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Enquanto as manifesta\u00e7\u00f5es ruidosas que marcaram as hist\u00e9ricas de outrora n\u00e3o podem mais ser reconhecidas com frequ\u00eancia, os pensamentos obsedantes e atos compulsivos como os que atormentavam Ernst Lanzer parecem n\u00e3o ter perdido todo o seu espa\u00e7o na cl\u00ednica atual. Assim, as observa\u00e7\u00f5es de Freud (1909) sobre o Homem dos Ratos ainda constituem o paradigma da neurose obsessiva.<\/p>\n<p>E se, por isso, tem-se a impress\u00e3o de ser esse um tema exaustivamente abordado, a raz\u00e3o de um retorno encontra-se, aqui, apoiada no conhecido coment\u00e1rio de Lacan de 1978: \u201cQuero dizer, n\u00e3o \u00e9 muito certo que a neurose hist\u00e9rica ainda exista, mas certamente existe uma neurose, isso \u00e9 o que se chama neurose obsessiva\u201d. Entre os que seguiram nessa dire\u00e7\u00e3o, Gazzolla (2002) e Alvarenga (2019) afirmam que se trata mesmo da neurose contempor\u00e2nea por excel\u00eancia, resultado do decl\u00ednio do pai e de sua pot\u00eancia na cultura. Da mesma forma, a indaga\u00e7\u00e3o feita por Alvarenga (2019) sobre se haveria na contemporaneidade a tend\u00eancia de a histeria se apresentar sob a forma da neurose obsessiva, enquanto dialeto, \u00e9 tomada como mais um sinalizador da atualidade dessa discuss\u00e3o. N\u00e3o parece anacr\u00f4nico, portanto, retomar alguns aspectos que caracterizam essa organiza\u00e7\u00e3o subjetiva para compreender como e por que tal forma de apresenta\u00e7\u00e3o da neurose se tornaria privilegiada na \u00e9poca do decl\u00ednio da ordem simb\u00f3lica.<\/p>\n<p>Vale destacar que nos distanciamos de uma suposta interroga\u00e7\u00e3o sobre a preval\u00eancia da neurose obsessiva enquanto estrutura para nos aproximarmos da discuss\u00e3o sobre a apresenta\u00e7\u00e3o de sintomas e estrat\u00e9gias que, como ressalta Cottet (2011), podem ser observados em outras estruturas e n\u00e3o s\u00e3o suficientes para fazer do sujeito um obsessivo. Trata-se de pensar como a rela\u00e7\u00e3o que o sujeito estabelece com o discurso do mestre contempor\u00e2neo pode privilegiar apresenta\u00e7\u00f5es sintom\u00e1ticas que se aproximam daquelas de que se vale a neurose obsessiva.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O mestre contempor\u00e2neo e suas incid\u00eancias<\/em><\/p>\n<p>No Semin\u00e1rio 17, Lacan (1969-70\/1992) faz refer\u00eancia \u00e0 muta\u00e7\u00e3o no estatuto do discurso do mestre operada por certa modifica\u00e7\u00e3o no lugar do saber, que lhe confere o estilo capitalista. A passagem do mestre antigo ao senhor moderno associa-se a uma \u201ccuriosa copula\u00e7\u00e3o com a ci\u00eancia\u201d e \u00e9 apontada como aquilo que permite a manuten\u00e7\u00e3o e o sucesso desse discurso.<\/p>\n<p>Nesse contexto, em que a palavra vira carni\u00e7a, perdem for\u00e7a as institui\u00e7\u00f5es patriarcais e o valor universal do mestre, que se pulveriza atrav\u00e9s de representa\u00e7\u00f5es de um Outro sem consist\u00eancia. A decad\u00eancia da ordem simb\u00f3lica p\u00f5e em xeque o valor da significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica, denunciando a dificuldade de subjetiva\u00e7\u00e3o do falo enquanto significante capaz de orientar o sujeito pelo Outro. Com menos recursos para que o gozo possa ser metaforizado, a cl\u00ednica contempor\u00e2nea apresenta novos sintomas que, como indica Recalcati (2004), n\u00e3o manifestam o sujeito dividido, mas que se configuram pelo tratamento da divis\u00e3o atrav\u00e9s do objeto. Em conson\u00e2ncia, atrav\u00e9s de suas ag\u00eancias, o discurso capitalista trata de indicar e oferecer ao sujeito-<em>gadget<\/em>\u00a0aquilo que lhe falta, provocando uma demanda desenganchada da dial\u00e9tica do desejo (RECALCATI, 2004).<\/p>\n<p>Sem ter \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o refer\u00eancias identificat\u00f3rias ligadas ao ideal, os sujeitos tendem, como destaca Alvarenga (2019), a se identificar e coletivizar sob certos S1 que nomeiam modos de gozo e visam a tamponar o buraco da castra\u00e7\u00e3o, impondo novas formas de compuls\u00e3o que acabam se revelando como imperativo de gozo. Como consequ\u00eancia, caem as possibilidades de que as manifesta\u00e7\u00f5es sintom\u00e1ticas sejam reduzidas ao regime significante, ao que se associa o que Recalcati (2004) chamou de expuls\u00e3o-anula\u00e7\u00e3o do sujeito do inconsciente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A neurose obsessiva e suas estrat\u00e9gias<\/em><\/p>\n<p>Como relembra Gazzolla (2002), as estrat\u00e9gias e sintomas obsessivos aparecem como resposta a impasses simb\u00f3licos relacionados a certa posi\u00e7\u00e3o subjetiva. Tais impasses se organizam ao redor de operadores que foram valorizados por Lacan e que, em parte, j\u00e1 haviam sido destacados por Freud (1909\/2013) no Homem dos Ratos.<\/p>\n<p>Freud localiza que seu paciente padecia de um conflito ps\u00edquico que tentava conjugar amor objetal com a vontade do pai e ao qual se relacionavam desejos e impulsos contr\u00e1rios. O \u00f3dio inconsciente direcionado ao genitor e \u00e0 dama venerada provocava desejos de morte e impulsos vingativos dos quais ele se defendia atrav\u00e9s de intensas recrimina\u00e7\u00f5es e autopuni\u00e7\u00e3o. Isso leva Freud a dizer que esses conflitos serviam como mola para suas constru\u00e7\u00f5es obsessivas (FREUD, 1909\/2013). Nesse caso, a d\u00edvida n\u00e3o saldada com o pai, o dom\u00ednio da d\u00favida que paralisa o sujeito, a rela\u00e7\u00e3o com a morte sempre \u00e0 espreita, os mecanismos de substitui\u00e7\u00e3o e deslocamento, o impulso de saber e at\u00e9 uma observa\u00e7\u00e3o sobre a forma do paciente fazer suas ora\u00e7\u00f5es s\u00e3o alguns dos aspectos encontrados no texto de Freud que contribuem para a compreens\u00e3o da modalidade de gozo do sujeito obsessivo e da sua rela\u00e7\u00e3o com o objeto, tal como Lacan trabalhou anos mais tarde.<\/p>\n<p>Para Lacan, o que est\u00e1 colocado para todo neur\u00f3tico \u00e9, fundamentalmente, uma quest\u00e3o sobre a exist\u00eancia aberta \u00e0 medida que a crian\u00e7a falta a ser o falo da m\u00e3e. O drama subjetivo no qual o sujeito se engendra a partir da\u00ed exige uma resposta que s\u00f3 pode ser buscada no campo do Outro. No Semin\u00e1rio 5, Lacan (1957-58\/1999) assinala que \u00e9 a\u00ed onde deve ser descoberto, pelo sujeito, o desejo e sua formula\u00e7\u00e3o poss\u00edvel. Mas, uma vez que o falo \u00e9 introduzido no conjunto de significantes, o Outro n\u00e3o deixa de ser, ele mesmo, marcado pelo desejo. Isso provoca dificuldades nas quais os sujeitos neur\u00f3ticos claudicam j\u00e1 que, como Lacan (1960-61\/2010, p. 273) assinala no Semin\u00e1rio 8, o desejo do Outro \u00e9 um enigma \u201cenla\u00e7ado com o fundamento estrutural da sua castra\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>A esse impasse, as estruturas produzem respostas diferentes. Enquanto a hist\u00e9rica vai buscar seu desejo no desejo do Outro, colocando \u00eanfase na insatisfa\u00e7\u00e3o e encontrando apoio na identifica\u00e7\u00e3o com o outro imagin\u00e1rio, o obsessivo vai busc\u00e1-lo num al\u00e9m, visando ao desejo em sua constitui\u00e7\u00e3o como tal mesmo que, atrav\u00e9s desse movimento, ele seja levado a almejar a destrui\u00e7\u00e3o do Outro (LACAN, 1957-58\/1999).<\/p>\n<p>Empenhado nessa tarefa, sua rela\u00e7\u00e3o com o outro \u00e9 marcada por uma tend\u00eancia de redu\u00e7\u00e3o do desejo \u00e0 demanda que fica, ent\u00e3o, em posi\u00e7\u00e3o de preval\u00eancia. Trata-se de uma manobra que tenta n\u00e3o s\u00f3 livrar o obsessivo do enigma sobre o desejo, mas lhe afastar do encontro com a falta-a-ser e que est\u00e1 representada no matema da fantasia obsessiva formulado por Lacan (1960-61\/2010) como \u023a &lt;&gt; \u03c6 (a, a\u2019, a\u2019\u2019, a\u2019\u2019\u2019&#8230;). A f\u00f3rmula expressa como o sujeito coloca o pequeno\u00a0<em>a\u00a0<\/em>em s\u00e9rie e o acomoda sobre a medida do phi (\u03c6) para oferec\u00ea-lo ao Outro barrado. Esse movimento relan\u00e7a o obsessivo ao circuito primitivo da demanda, caracter\u00edstico do per\u00edodo pr\u00e9-genital, em que o sujeito se dirigia ao Outro para a satisfa\u00e7\u00e3o de suas necessidades. Essa elabora\u00e7\u00e3o \u00e9 importante para compreender a oblatividade enquanto uma das estrat\u00e9gias do obsessivo diante do problema do desejo.<\/p>\n<p>A no\u00e7\u00e3o de oblatividade enquanto m\u00edtica \u00e9 criticada por Lacan reiteradas vezes. Desde o Semin\u00e1rio 4, ele aponta para o fracasso de tom\u00e1-la como auge da matura\u00e7\u00e3o genital afirmando que o reconhecimento do desejo como tal \u00e9 imposs\u00edvel dada a hi\u00e2ncia fundamental da sua articula\u00e7\u00e3o. Isso o leva a dizer que a oblatividade n\u00e3o est\u00e1 situada nesse n\u00edvel e n\u00e3o passa de uma fantasia obsessiva (LACAN, 1957-58\/1999). O verdadeiro campo do dom enquanto objeto destinado a satisfazer \u00e9, como ele desenvolve, o da dial\u00e9tica anal, de forma que o \u2018tudo para o outro\u2019 que marca essa fantasia se associa \u00e0quilo que caracteriza a demanda nesse est\u00e1gio: os objetos (excrement\u00edcios) solicitados pelo Outro (LACAN, 1960-61\/2010). Atrav\u00e9s dessas formula\u00e7\u00f5es, ele se esfor\u00e7a para demonstrar como a submiss\u00e3o \u00e0 demanda do outro de forma altru\u00edsta equivale a n\u00e3o resolver o problema do desejo que, \u201cliteralmente, vai \u00e0 merda\u201d (LACAN, 1960-61\/2010, p. 255).<\/p>\n<p>Nesse ponto, n\u00e3o parece incabido relacionar essas estrat\u00e9gias obsessivas com a formula\u00e7\u00e3o de Recalcati (2004), segundo a qual a cl\u00ednica dos novos sintomas seria configurada mais al\u00e9m do princ\u00edpio do desejo. Ele chama a aten\u00e7\u00e3o para o estatuto contempor\u00e2neo da demanda que n\u00e3o se mant\u00e9m em rela\u00e7\u00e3o ao desejo, que n\u00e3o se orienta pelo que resta n\u00e3o satisfeito, mas que se guia pelo pr\u00f3prio objeto de gozo oferecido pelo discurso capitalista. Ora, se o obsessivo quer manter o desejo \u00e0 dist\u00e2ncia, a \u00e9tica do consumo parece n\u00e3o dificultar seu trabalho.<\/p>\n<p>Da mesma forma, a oferta de objetos mercantilizados pela cultura, operada sob a l\u00f3gica de que s\u00e3o descart\u00e1veis e precisam ser permanentemente renovados, tamb\u00e9m parece se acomodar \u00e0 fantasia obsessiva. Isso porque a estrat\u00e9gia de seriar e falicizar os objetos oferecidos ao Outro envolve, como Lacan (1960-61\/2010) indicou, uma rela\u00e7\u00e3o meton\u00edmica com o objeto, de constantes substitui\u00e7\u00f5es, promovendo, por consequ\u00eancia, um afrouxamento das rela\u00e7\u00f5es objetais conforme j\u00e1 havia sido apontado por Freud (1926\/2014).<\/p>\n<p>Segundo Lacan (1960-61\/2010), a faliciza\u00e7\u00e3o dos objetos se d\u00e1 ao pre\u00e7o de uma degrada\u00e7\u00e3o do significante falo (\u03a6) ao phi min\u00fasculo (\u03c6), j\u00e1 que deixar emergir o \u03a6 na sua forma desvelada aponta para a presen\u00e7a do desejo, insuport\u00e1vel e de dif\u00edcil manejo. \u00c9 nesse sentido que Lacan afirma que o fundamento da rela\u00e7\u00e3o do obsessivo com o objeto \u00e9 menos a aboli\u00e7\u00e3o do Outro e mais a rejei\u00e7\u00e3o dos signos do seu desejo. Ele assinala que tal anula\u00e7\u00e3o s\u00f3 pode ser feita a n\u00edvel do significante e pode ser verificada no car\u00e1ter verbal da pr\u00f3pria estrutura dos seus sintomas. O que se anula \u00e9 o pr\u00f3prio falo enquanto signo do desejo do Outro, golpeado no plano imagin\u00e1rio (LACAN, 1960-61\/2010). Como resultado, o desejo do Outro, estruturalmente simbolizado e articulado pelo falo, \u00e9 provido do sinal \u2018<em>n\u00e3o\u2019 (d0)<\/em>, determinando o car\u00e1ter de impossibilidade associado \u00e0 sua manifesta\u00e7\u00e3o para esse sujeito (LACAN, 1957-58\/1999).<\/p>\n<p>Por\u00e9m, \u00e0 medida que, com suas estrat\u00e9gias, o obsessivo tenta destruir os signos do desejo do Outro para n\u00e3o ter que se haver com a sua falta de resposta, \u00e9 seu pr\u00f3prio desejo que, sem ponto de apoio, desaparece. Assim, atrav\u00e9s de um movimento contradit\u00f3rio e dial\u00e9tico, preservar a dimens\u00e3o do Outro em perp\u00e9tuo perigo de sucumbir, ou no m\u00ednimo isolar as partes do seu discurso que precisam ser conservadas, constitui visada preliminar no circuito do sujeito e que tamb\u00e9m s\u00f3 poder\u00e1 ocorrer numa certa articula\u00e7\u00e3o significante. Isso se manifesta no obsessivo atrav\u00e9s dos seus sintomas: pedidos intermin\u00e1veis de permiss\u00e3o, bem como, a coloca\u00e7\u00e3o do seu desejo como proibido pelo Outro, deixam o sujeito em posi\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia e servem, portanto, a restaur\u00e1-lo. No n\u00edvel da rela\u00e7\u00e3o com o outro, uma das vias escolhidas para se obter tal permiss\u00e3o s\u00e3o suas proezas. Sempre impossibilitado de gozar das f\u00e9rias a que teria direito por suas fa\u00e7anhas, o que est\u00e1 em jogo para o obsessivo \u00e9 preservar o Outro, que testemunha e registra tudo isso (LACAN, 1957-58\/1999).<\/p>\n<p>Lacan (1957-58\/1999) associou essas estrat\u00e9gias para reconstitui\u00e7\u00e3o do Outro com as exig\u00eancias do supereu, inst\u00e2ncia que j\u00e1 havia sido apontada por Freud (1926\/2014) como tendo um importante papel na ang\u00fastia dessa estrutura. No contempor\u00e2neo, o supereu tamb\u00e9m aparece em posi\u00e7\u00e3o de comando, mas menos numa fun\u00e7\u00e3o de interdito e mais numa vertente de imperativo de gozo. Diante de uma ordem simb\u00f3lica em decl\u00ednio, o sujeito \u00e9 impelido a gozar por interm\u00e9dio dos objetos sob a promessa de que esses teriam o poder de preencher sua falta subjetiva e de desvi\u00e1-lo do encontro com a castra\u00e7\u00e3o. Isso n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 imposs\u00edvel como produz o que Brousse (2007, p. 4) apontou como \u201cexpans\u00e3o das patologias ligadas ao supereu\u201d.<\/p>\n<p>Sob essa \u00e9gide, localizam-se diversas formas de compuls\u00e3o e sintomas que comp\u00f5em a cl\u00ednica da neurose atual e que aparecem mais como amarra\u00e7\u00e3o do gozo do que como produ\u00e7\u00e3o de sentido (ALVARENGA, 2019). Efeito da dificuldade de subjetiva\u00e7\u00e3o do falo e, consequentemente, da capacidade de se orientar pelo Outro, essas manifesta\u00e7\u00f5es se afastam do modelo de sintoma metaf\u00f3rico ancorado no significante e que podia ser decifrado em fun\u00e7\u00e3o das viv\u00eancias do sujeito tal como Freud (1917\/2014) descreveu em \u201cO sentido dos sintomas\u201d<em>.<\/em>\u00a0Isso porque, como assinala Miller (1997), a produ\u00e7\u00e3o do sentido na forma\u00e7\u00e3o do sintoma pressup\u00f5e a tomada do Outro como interlocutor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O advir do sujeito<\/em><\/p>\n<p>Freud (1926\/2014) deixa claro que, ainda que as neuroses hist\u00e9rica e obsessiva tomem o mesmo ponto de partida para forma\u00e7\u00e3o dos seus sintomas, elas se distanciam quanto ao caminho percorrido. Ele j\u00e1 havia localizado que, no caso do sujeito obsessivo, observa-se uma tend\u00eancia geral que prioriza a satisfa\u00e7\u00e3o substitutiva, contando, para isso, com estrat\u00e9gias de anula\u00e7\u00e3o, isolamento, regress\u00e3o e forma\u00e7\u00f5es reativas (FREUD, 1926\/2014).<\/p>\n<p>Alvarenga (2019) destaca que esses mecanismos est\u00e3o associados ao apego do sujeito \u00e0 sua rela\u00e7\u00e3o com a realidade, sustentando a ilus\u00e3o de dom\u00ednio consciente, de sa\u00fade aparente e constituindo \u201cum fechamento em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 dimens\u00e3o transferencial do sujeito hist\u00e9rico\u201d (p. 78). Quando a defesa logra, o que se observa \u00e9 um recha\u00e7o do inconsciente que inibe o aparecimento de suas forma\u00e7\u00f5es. Parece ser justamente nesse sentido que Freud (1926\/2014) aponta para a dificuldade de o sujeito obsessivo obedecer \u00e0 regra psicanal\u00edtica fundamental. Em fun\u00e7\u00e3o do mecanismo de isolamento que despoja uma viv\u00eancia traum\u00e1tica de seu afeto e suprime suas rela\u00e7\u00f5es associativas, o obsessivo fia-se a dirigir o curso do seu pensamento, procurando evitar conex\u00f5es que levem \u00e0quilo que amea\u00e7a o Eu.<\/p>\n<p>A dificuldade de consentir com a abertura do inconsciente associada a esses modos de defesa n\u00e3o parece distante do que Recalcati (2004) nomeou de expuls\u00e3o-anula\u00e7\u00e3o do sujeito do inconsciente e que aparece na cl\u00ednica contempor\u00e2nea como efeito da rela\u00e7\u00e3o com os discursos do capitalista e da ci\u00eancia. Sem poder contar com um Outro capaz de interpretar e conferir sentido, s\u00e3o produzidos sintomas que n\u00e3o se reduzem ao regime significante e tendem a n\u00e3o manifestar a divis\u00e3o subjetiva, privilegiando leituras orientadas pela cogni\u00e7\u00e3o e comportamento.<\/p>\n<p>Nesse contexto, alguns casos revelam como os sintomas contempor\u00e2neos engendrados ao discurso capitalista tentam negar a dimens\u00e3o da verdade do sujeito inconsciente valendo-se de S1s nesse lugar. Nesse ponto, a oposi\u00e7\u00e3o histeria-inconsciente e neurose-obsessiva-consci\u00eancia, j\u00e1 apontada por Freud (1926) e ressaltada por Godoy e Schejtman (2011), parece ajudar a entender a preval\u00eancia dessa forma de dialeto da neurose associada \u00e0 modifica\u00e7\u00e3o no lugar do saber do mestre.<\/p>\n<p>Essa perspectiva coloca em destaque a histeriza\u00e7\u00e3o do discurso como opera\u00e7\u00e3o preliminar da cl\u00ednica contempor\u00e2nea, j\u00e1 que tal passagem, formulada por Lacan (1969-70\/1992) como condicionante \u00e0 entrada em an\u00e1lise, faz valer a dimens\u00e3o de verdade do sintoma, submetendo a vontade de curar-se \u00e0 vontade de saber. Se Alvarenga (2019) aponta que, no caso da neurose obsessiva, trata-se de perturbar as defesas para sintomatizar os tra\u00e7os de car\u00e1ter que enrijecem e fecham o inconsciente em sua dimens\u00e3o transferencial, parece ser poss\u00edvel ampliar essa dire\u00e7\u00e3o para pensar que se trata de fazer advir o sujeito apagado pelo discurso do mestre contempor\u00e2neo, independentemente da sua estrutura. Dito de outro modo, se Lacan (1969-70\/1992) apontou que o que resta depois dessa muta\u00e7\u00e3o do lugar da verdade \u00e9 o \u2018n\u00e3o saber o que se quer\u2019 (posi\u00e7\u00e3o do antigo senhor), destaca-se o dever \u00e9tico do analista de fazer advir o sujeito movido pelo desejo de saber sobre aquilo que irrompe como algo que lhe diz respeito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas:<\/strong><\/h6>\n<h6>ALVARENGA, E.\u00a0<strong>A neurose obsessiva no feminino<\/strong>. Belo Horizonte: Relic\u00e1rio, 2019.<\/h6>\n<h6>BROUSSE, M.-H. \u201cEm dire\u00e7\u00e3o a uma nova cl\u00ednica psicanal\u00edtica\u201d.\u00a0<em>In<\/em>:\u00a0<strong>Latusa digital<\/strong>, ano 5, n. 30, 2007. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.latusa.com.br\/pdf_latusa_digital_30_a1.pdf\">http:\/\/www.latusa.com.br\/pdf_latusa_digital_30_a1.pdf<\/a>.<\/h6>\n<h6>COTTET, S. \u201cA prop\u00f3sito da neurose obsessiva feminina\u201d. In: ___.\u00a0<strong>Ensaios de cl\u00ednica psicanal\u00edtica<\/strong>. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2011. p. 82-99.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1909) \u201cObserva\u00e7\u00f5es sobre um caso de neurose obsessiva\u201d (o homem dos ratos).\u00a0<em>In<\/em>:___\u00a0<strong>Obras completas<\/strong>. v. 9: observa\u00e7\u00f5es de um caso de neurose obsessiva [\u201cO homem dos ratos\u201d], uma recorda\u00e7\u00e3o da inf\u00e2ncia de Leonardo da Vinci e outros textos (1909-1910). S\u00e3o Paulo: Cia das Letras, 2013. p. 13\u2013112.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1917) \u201cO sentido dos sintomas\u201d. In: ___\u00a0<strong>Obras completas<\/strong>. v. 13: Confer\u00eancias introdut\u00f3rias \u00e0 psican\u00e1lise (1916-1917). S\u00e3o Paulo: Cia das Letras, 2014. p. 343-364.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1926) \u201cInibi\u00e7\u00e3o, sintoma e ang\u00fastia\u201d.\u00a0<em>In<\/em>: ___\u00a0<strong>Obras completas<\/strong>. v. 17: Inibi\u00e7\u00e3o, sintoma e ang\u00fastia, o futuro de uma ilus\u00e3o e outros textos (1926-1929). S\u00e3o Paulo: Cia das Letras, 2014. p. 13-123.<\/h6>\n<h6>GAZZOLLA, L. R.\u00a0<strong>Estrat\u00e9gias na neurose obsessiva<\/strong>. Rio de Janeiro: Zahar, 2002.<\/h6>\n<h6>GODOY, C.; SCHEJTMAN, F. \u201cLa neurosis obsesiva en el \u00faltimo per\u00edodo de la ense\u00f1anza de J. Lacan\u201d.\u00a0<strong>Anuario de Investigaciones<\/strong>, v. XVI, 2009, p. 91-95.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1969-70)\u00a0<strong>O semin\u00e1rio, livro XVII:<\/strong>\u00a0o avesso da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Zahar, 1992.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1957-58)\u00a0<strong>O semin\u00e1rio, livro V<\/strong>: as forma\u00e7\u00f5es do inconsciente. Rio de Janeiro: Zahar, 1999.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1960-61)\u00a0<strong>O semin\u00e1rio, livro VIII<\/strong>: a transfer\u00eancia. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1978) 9e Congr\u00e8s de l\u2019\u00c9cole Freudienne de Paris sur \u201cLa transmission\u201d Lettres de l\u2019\u00c9cole Freudienne de Paris, Paris, v. II, n. 25, 1979. p. 219-220.<\/h6>\n<h6>MILLER, J. A. Semin\u00e1rio de Barcelona sobre Die Wege der Symptombildung.\u00a0<em>In<\/em>:\u00a0<strong>Freudiana<\/strong>, n.19, Barcelona: EEP \u2013 Catalunya, 1997. p.7-57<\/h6>\n<h6>RECALCATI, M. A quest\u00e3o preliminar na \u00e9poca do Outro que n\u00e3o existe.\u00a0<em>In<\/em>:\u00a0<strong>Latusa digital<\/strong>, ano 1, n. 7, 2004. Dispon\u00edvel em http:\/\/www.latusa.com.br\/pdf_latusa_digital_7_a2.pdf.<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MARCELA BACCARINI PAC\u00cdFICO GRECO Psicanalista em forma\u00e7\u00e3o (IPSM-MG) | Psic\u00f3loga (Fumec) e Engenheira de Produ\u00e7\u00e3o (UFMG) | mbpacifico@gmail.com Resumo:\u00a0Este trabalho parte de um coment\u00e1rio feito por Lacan em 1978 para investigar como o discurso do mestre contempor\u00e2neo e suas incid\u00eancias podem privilegiar apresenta\u00e7\u00f5es sintom\u00e1ticas que se aproximam daquelas de que se vale a neurose obsessiva.&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57887,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[23],"tags":[],"class_list":["post-1736","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-27","category-23","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1736","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1736"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1736\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57888,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1736\/revisions\/57888"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57887"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1736"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1736"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1736"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}