{"id":174,"date":"2023-08-15T19:24:18","date_gmt":"2023-08-15T22:24:18","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=174"},"modified":"2025-12-01T12:41:22","modified_gmt":"2025-12-01T15:41:22","slug":"do-dom-de-mauss-ao-inominavel-da-pulsao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2023\/08\/15\/do-dom-de-mauss-ao-inominavel-da-pulsao\/","title":{"rendered":"Do dom de Mauss ao inomin\u00e1vel da puls\u00e3o\u00a0"},"content":{"rendered":"<h6><strong>Laydiane Pereira de Matos<br \/>\n<\/strong>Psic\u00f3loga<br \/>\nAluna do Curso de Psican\u00e1lise do IPSM-MG<br \/>\n<span id=\"cloak9915c5a4d7f4f4fea271b149f74b28b9\"><a href=\"mailto:laydianep.matos@gmail.com\">laydianep.matos@gmail.com<\/a><\/span><\/h6>\n<blockquote><p><strong>Resumo:\u00a0<\/strong>Este artigo visa revisitar as bases do conceito de dom na teoria de Marcel Mauss e articular sua l\u00f3gica com a transmiss\u00e3o de Freud e Lacan acerca da teoria de objeto. Para isso, contrasta a utilidade desse conceito na estrutura\u00e7\u00e3o da primeira cl\u00ednica lacaniana com sua discord\u00e2ncia fundamental, que reside na impossibilidade da determina\u00e7\u00e3o significante propiciada pelo acesso ao simb\u00f3lico em conseguir abarcar o real da puls\u00e3o, posto que seu car\u00e1ter \u00e9 sempre casu\u00edstico, utilizando-se do conceito de assentimento para sustentar tal argumento.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Palavras-chave:<\/strong>\u00a0dom; objeto; puls\u00e3o; Outro; assentimento.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>FROM MAUSS&#8217;S GIFT TO THE UNNAMEABLE OF THE DRIVE<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Abstract:<\/strong>\u00a0This article aims to revisit the foundations of the gift concept in Marcel Mauss&#8217; theory and articulate its logic with Freud and Lacan&#8217;s transmission about the object theory. To this end, it contrasts the usefulness of this concept in the structuring of the first Lacanian clinic with its fundamental disagreement, which resides in the impossibility of the significant determination provided by the access to the symbolic in being able to embrace the real of the drive, since its character is always casuistic, using of the concept of assent to support this argument.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Keywords:<\/strong>\u00a0gift; object; drive; Other; assent.<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_175\" style=\"width: 810px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/leydiane_matos.jpg\" data-dt-img-description=\"Imagem: Renata Laguardia\" data-large_image_width=\"800\" data-large_image_height=\"595\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-175\" class=\"size-full wp-image-175\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/leydiane_matos.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"595\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/leydiane_matos.jpg 800w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/leydiane_matos-300x223.jpg 300w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/leydiane_matos-768x571.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-175\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Renata Laguardia<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Introdu\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo Lacan, Freud referiu-se ao conceito de objeto em diversos momentos de sua obra, e sua import\u00e2ncia percorre toda a psican\u00e1lise. Com vistas a retornar a Freud e corrigir poss\u00edveis deturpa\u00e7\u00f5es desse conceito por psicanalistas p\u00f3s-freudianos, ele enfatiza que falar da rela\u00e7\u00e3o de objeto \u00e9 falar de sua falta, posto que esse objeto \u00e9 inapreens\u00edvel e que dele temos apenas no\u00e7\u00f5es parciais. Tendo entrado na dial\u00e9tica do dom, o objeto n\u00e3o \u00e9 de rela\u00e7\u00e3o harm\u00f4nica com o sujeito, mas, sim, de natureza enigm\u00e1tica, remetendo ao falo simbolizado enquanto significante do desejo do Outro (LACAN, 1956-57\/1995). \u00c9 esse Outro, fonte de dom, que propicia a transmiss\u00e3o de uma falta e o aparecimento do sujeito, efeito da imers\u00e3o do homem na linguagem e que existe ao pre\u00e7o de uma perda (SANTIAGO, 2008). Por\u00e9m, ainda que tenha se apoiado no conceito de dom \u2013 tema de pesquisa de Marcel Mauss \u2013, Lacan j\u00e1 dava sinais da insufici\u00eancia do simb\u00f3lico em dar conta da puls\u00e3o, apontando seu car\u00e1ter casu\u00edstico, que, articulada ao Outro da linguagem, n\u00e3o garante seu assentimento com a lei simb\u00f3lica (SALUM, 2009). Assim, este artigo visa percorrer o conceito de dom trabalhado por Mauss e sua articula\u00e7\u00e3o com a no\u00e7\u00e3o de objeto em Freud e Lacan, caminhando para o conceito de assentimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Dom em Mauss<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lacan, no Semin\u00e1rio 4, menciona por vezes o conceito de dom, remetendo-o \u00e0 rela\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica entre sujeito e objeto. Segundo ele, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel tomar o objeto de dom sob uma perspectiva harmoniosa, visto que ele se apresenta como a possibilidade de um objeto intermedi\u00e1rio que s\u00f3 surge no tensionamento que se abre quando a m\u00e3e, em sua rela\u00e7\u00e3o com o filho, se apresenta como pot\u00eancia real (LACAN, 1956-57\/1995). E por que Lacan o utilizou em seu ensino?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo o dicion\u00e1rio, a palavra \u201cdom\u201d se origina do latim\u00a0<em>dominus, i,\u00a0<\/em>que significa \u201csenhor de\u201d, e remete tanto \u00e0 posse de uma qualidade inata do sujeito, quanto \u00e0 um t\u00edtulo de honra a ele designado exprimindo homenagem e respeito. O dom seria uma esp\u00e9cie de d\u00e1diva, de presente, donde sua tomada de posse e usufruto faz do sujeito algu\u00e9m importante (DOM, 2023). Foi o etn\u00f3logo Marcel Mauss, com seu\u00a0<em>Ensaio sobre a d\u00e1diva<\/em>, que contribuiu para que o conceito tivesse maior consist\u00eancia nas ci\u00eancias sociais (MARTINS, 2012). Antes do surgimento da moeda, os servi\u00e7os, trabalhos e alian\u00e7as entre os indiv\u00edduos e seus cl\u00e3s eram pautados por um car\u00e1ter m\u00e1gico de comum acordo (SARTI; COUGO; TFOUNI, 2011), e Mauss exp\u00f5e um conjunto de pesquisas empreendidas sobre as caracter\u00edsticas do sistema de trocas em sociedades arcaicas (mais especificamente na Polin\u00e9sia, Melan\u00e9sia e Noroeste americano), nas quais o objeto de troca tinha seu valor delimitado n\u00e3o em sua utilidade, mas na cren\u00e7a universal de que o esp\u00edrito do doador ficava na coisa dada. Isso fazia com que os grupos obrigatoriamente se presenteassem e se endividassem, uma solidariedade for\u00e7ada pela qual quem recebia era obrigado a retribuir. O que era trocado n\u00e3o era apenas de ordem material, mas tamb\u00e9m se trocavam gentilezas, festas e feiras, evidenciando que a circula\u00e7\u00e3o das riquezas era apenas um dos termos de um contrato mais geral e mais permanente (MAUSS, 1923-24\/1950). Assim, esse contrato compartilhado pautado num significado oculto resultava na filia\u00e7\u00e3o e no funcionamento social entre coletividades, denotando o valor do simbolismo nas sociedades (SARTI; COUGO; TFOUNI, 2011).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Claude L\u00e9vi-Strauss \u00e9 quem escreve a introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 obra de Mauss, e nela aponta a relev\u00e2ncia de seu estudo para a psican\u00e1lise e demais \u00e1reas. Ele comenta que a recep\u00e7\u00e3o do trabalho de Mauss se deu de forma n\u00e3o acolhedora na \u00e9poca, visto que, enquanto escrevia, as ideias de Freud ainda n\u00e3o haviam chegado na Fran\u00e7a, e seu trabalho foi uma primeira manifesta\u00e7\u00e3o de evolu\u00e7\u00e3o objetiva nas ci\u00eancias psicol\u00f3gicas. Tomando como o marco de seu estudo o apontamento de que o inconsciente e a rela\u00e7\u00e3o com o outro s\u00e3o o que explicam os fatos sociais, ele chega a referenciar um artigo de Lacan \u2013\u00a0<em>L\u2019agressivit\u00e9 en psychanalyse<\/em>, de 1948 \u2013 para apoiar tal concep\u00e7\u00e3o. Mais \u00e0 frente, aponta para o papel da linguagem na articula\u00e7\u00e3o entre o eu e o outro, sendo poss\u00edvel apenas atrav\u00e9s dela que o pensamento simb\u00f3lico se exer\u00e7a. Para Strauss, o social \u00e9 uma realidade aut\u00f4noma, em que o significante precede e determina o significado. No que remete ao trabalho de Mauss, ele inova dizendo que o que est\u00e1 em jogo na d\u00e1diva que obriga a dar, receber e retribuir n\u00e3o \u00e9, como Mauss apontou, o esp\u00edrito da coisa que ainda paira sob ela, mas, sim, que esta \u00e9 a forma consciente pela qual a sociedade p\u00f4de apreender algo que est\u00e1 al\u00e9m, no campo do inconsciente (MAUSS, 1923-24\/1950).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Dom e o objeto em psican\u00e1lise<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Santiago (2008) aponta que a import\u00e2ncia do dom para a psican\u00e1lise vem da forma como Lacan o p\u00f4de apreender na pesquisa de Mauss enquanto sistema de trocas simb\u00f3licas. O que importa \u00e9 que o simb\u00f3lico suprime o gozo sob o objeto, passando a denotar seu car\u00e1ter m\u00edtico. Da perda de gozo, assume-se o significante do desejo do Outro, enigm\u00e1tico, e essa \u00e9 a dimens\u00e3o essencial do objeto na experi\u00eancia anal\u00edtica. Em Lacan (1956-57\/1995), temos que toda rela\u00e7\u00e3o objetal \u00e9 fundamentalmente imagin\u00e1ria, e que desde o in\u00edcio das origens dos objetos eles j\u00e1 s\u00e3o considerados outra coisa para al\u00e9m do que s\u00e3o: s\u00e3o objetos trabalhados pelo significante, cuja estrutura \u00e9 imposs\u00edvel de se extrair.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Associando com o conceito de objeto em Freud, o car\u00e1ter de mais al\u00e9m da coisa referenciado no dom equipara-se com o objeto que est\u00e1 para sempre perdido, o objeto das primeiras satisfa\u00e7\u00f5es, que sempre deixa uma hi\u00e2ncia entre o que se procura e o que se encontra. No primeiro ensino de Lacan (1956-57\/1995), o objeto associa-se ao falo, objeto imagin\u00e1rio privilegiado, que perpassa a rela\u00e7\u00e3o dual entre m\u00e3e e filho. A passagem do objeto de necessidade para o objeto de dom pode ser ilustrada no exemplo da m\u00e3e que alimenta o filho com o objeto seio. A m\u00e3e, submetida \u00e0 sua pr\u00f3pria falta, nutre um interesse particular pela crian\u00e7a e lhe oferta o seio como objeto simb\u00f3lico, de dom, visando mais al\u00e9m da necessidade. Por\u00e9m, a essa m\u00e3e simb\u00f3lica contrapor-se-\u00e1 a m\u00e3e real, que \u00e9 a face da m\u00e3e que amea\u00e7a no filho sua possibilidade de querer, tomando-o como sutura daquilo que lhe falta (SANTIAGO, 2008). Miller (2014) sinaliza que frente \u00e0 pot\u00eancia devoradora da m\u00e3e, a crian\u00e7a ou a preenche, ou a divide. Preench\u00ea-la significa suturar sua falta e anul\u00e1-la enquanto mulher, ao passo que a dividir seria o seu oposto, n\u00e3o ser o falo que lhe falta e se deparar com a insufici\u00eancia em dar conta de seu desejo. Quando a crian\u00e7a n\u00e3o sutura a falta em que se apoia o desejo da m\u00e3e, abre-se espa\u00e7o para que os objetos dessa rela\u00e7\u00e3o tomem forma de dom.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 nesse jogo de presen\u00e7a e aus\u00eancia \u2013 em que a crian\u00e7a acredita que \u00e9 amada por si mesma, mas que na aus\u00eancia da m\u00e3e o objeto intermedi\u00e1rio sob forma de dom se apresenta \u2013 que o falo enquanto objeto imagin\u00e1rio, signo de dom, aparecer\u00e1 tanto do lado da m\u00e3e quanto do lado da crian\u00e7a, orientando a identifica\u00e7\u00e3o formadora do eu, e alienando n\u00e3o mais ao desejo da m\u00e3e, mas, \u00e0 cadeia significante (BARROSO, 2015). A partir dessa m\u00e3e real, amea\u00e7adora e n\u00e3o toda f\u00e1lica, a crian\u00e7a vai tecer sua quest\u00e3o sobre como saciar o desejo da m\u00e3e sem por ela ser devorada, e o seio, os excrementos e o falo entrar\u00e3o no circuito de mais al\u00e9m do objeto, permitindo o acesso \u00e0 realidade simb\u00f3lica e ao desejo (SANTIAGO, 2008). A partir da\u00ed, Miller (2014, p. 7) lembra que \u00e9 \u201co desejo de ser o falo a f\u00f3rmula constante do desejo neur\u00f3tico\u201d, desembocando em uma esp\u00e9cie de constru\u00e7\u00e3o delirante m\u00edtica acerca do enigma do desejo do Outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>O Outro e o assentimento<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tais associa\u00e7\u00f5es entre dom, objeto e falo v\u00e3o ao encontro do que Mauss e Strauss apontaram em seus trabalhos, no sentido que diante uma coletividade h\u00e1 uma organiza\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica inconsciente que n\u00e3o se reduz ao individual e ao concreto das a\u00e7\u00f5es, mas que remete \u00e0 uma submiss\u00e3o, a um mais al\u00e9m compartilhado. Esse mais al\u00e9m pode ser tomado aqui como a lei do Outro, que preexiste ao sujeito e que lhe veda, a partir da perda que h\u00e1 na articula\u00e7\u00e3o entre significante e significado, o acesso a uma rela\u00e7\u00e3o dual com a coisa (SARTI; COUGO; TFOUNI, 2011). Assim, ser\u00e1 a partir do Outro, que se particulariza em cada sociedade segundo sua vers\u00e3o imagin\u00e1ria, que as coisas ganhar\u00e3o valor na cadeia de trocas e onde a estrutura poder\u00e1 se desenrolar (SANTIAGO, 2008; SARTI; COUGO; TFOUNI, 2011), permitindo ao sujeito apoiar seu fantasma na parte de real que foi destacada deste, e fazer dela seu mito individual (SALUM, 2009).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, \u00e9 importante apontar que mesmo se utilizando do conceito de dom para pensar o acesso ao simb\u00f3lico e a rela\u00e7\u00e3o de objeto, Lacan j\u00e1 no in\u00edcio de seu ensino discordava dos estruturalistas apontando que n\u00e3o basta o Outro preexistente para garantir a admiss\u00e3o \u00e0 lei (SARTI; COUGO; TFOUNI, 2011). Al\u00e9m da estrutura significante, \u00e9 preciso levar em conta uma abertura para o real, pois o mito n\u00e3o o esgota e tem em seu correlato um sujeito com seu corpo, sua puls\u00e3o e seu gozo, que n\u00e3o se deixam abarcar por completo pelo significante (SALUM, 2009).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pensando a causalidade da puls\u00e3o em contrapartida com a determina\u00e7\u00e3o significante, podemos recorrer ao conceito de assentimento,<sup><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/do-dom-de-mauss-ao-inominavel-da-pulsao#nota1\">[1]<\/a><a id=\"refer1\"><\/a><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/do-dom-de-mauss-ao-inominavel-da-pulsao#_edn1\" name=\"_ednref1\"><\/a><\/sup>\u00a0definido aqui como a cren\u00e7a na estrutura combinat\u00f3ria significante que preexiste (cren\u00e7a no Outro). H\u00e1 primeiro um reconhecimento desse encontro com o simb\u00f3lico, mas \u00e9 preciso tamb\u00e9m que se tenha uma admiss\u00e3o inicial, o assentimento por parte do sujeito. \u00c9 a cren\u00e7a nessa inscri\u00e7\u00e3o que permitir\u00e1 a simboliza\u00e7\u00e3o, uma maneira de se estabelecer dentro da lei do Outro. Assentir \u00e0 causa \u00e9 sacrificar-se em nome de um Outro que n\u00e3o existe e que permitir\u00e1 alguma legaliza\u00e7\u00e3o do gozo (SALUM, 2009).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, na dial\u00e9tica do dar-receber-retribuir, n\u00e3o basta que o simb\u00f3lico se apresente para que o sujeito assinta em entrar nesse jogo. Existe nesse desenrolar o papel ativo tanto da puls\u00e3o quanto do arcabou\u00e7o simb\u00f3lico previamente constru\u00eddo, no qual o sujeito ser\u00e1 for\u00e7adamente inserido. H\u00e1 o Outro como suporte do significante, e neste ponto Lacan p\u00f4de recorrer a Mauss para se apoiar no conceito de dom em jogo nas trocas simb\u00f3licas, mas h\u00e1, tamb\u00e9m, o sujeito e seu inomin\u00e1vel da puls\u00e3o e do gozo, que pode assentir ou n\u00e3o com essa inscri\u00e7\u00e3o. Portanto, a estrutura significante do Outro e o assentimento do sujeito s\u00e3o suplementares, e n\u00e3o justapostos, e \u00e9 isso que Lacan aponta desde o in\u00edcio de seu ensino (SALUM, 2009).<em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Conclus\u00e3o<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As men\u00e7\u00f5es de Lacan ao conceito de dom no que se refere \u00e0 rela\u00e7\u00e3o de objeto parecem encontrar apoio no que se pode chamar de mais al\u00e9m da coisa. No estudo de Mauss, o que est\u00e1 em jogo entre os povos \u00e9 a cren\u00e7a de que o esp\u00edrito do doador fica na coisa dada, levando, atrav\u00e9s da obriga\u00e7\u00e3o consentida de dar-receber-retribuir, \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de la\u00e7os e contratos sociais firmados sob um pacto simb\u00f3lico. Strauss amplia essa vis\u00e3o ao comentar que, mais al\u00e9m do esp\u00edrito do doador sempre presente na coisa dada, o que est\u00e1 em jogo nessa din\u00e2mica \u00e9 o qu\u00ea de inconsciente os povos apreendem sob a forma consciente do esp\u00edrito, assinalando o car\u00e1ter de primazia do significante na constru\u00e7\u00e3o da realidade e dos fatos sociais (MAUSS, 1923-24\/1950). J\u00e1 em Freud e em Lacan, o que est\u00e1 em jogo na dial\u00e9tica do dom \u00e9 a nostalgia do objeto perdido, restando dele apenas uma marca, um resto de real que o sujeito circundar\u00e1 em sua cren\u00e7a e em sua busca sem sucesso (LACAN, 1956-57\/1995).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar da aproxima\u00e7\u00e3o com o conceito de dom, aponta-se que j\u00e1 no in\u00edcio de seu ensino Lacan diverge de estruturalistas como L\u00e9vi-Strauss ao defender que h\u00e1 no sujeito algo para al\u00e9m da determina\u00e7\u00e3o significante, n\u00e3o totalmente abarcado pelo simb\u00f3lico, e a isso nomeia de real (SALUM, 2009). Segundo Lacan (1956-57\/1995, p. 92), \u00e9 o real que \u201coferece sempre, no momento exato, tudo aquilo de que se necessita quando se foi, enfim, regulado pelos bons caminhos, \u00e0 dist\u00e2ncia correta\u201d. Portanto, \u00e9 ao real que o simb\u00f3lico se constitui como resposta, e n\u00e3o, como totalidade (SALUM, 2009).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De Mauss at\u00e9 hoje, o discurso do Outro mudou. Se antes o ideal e a cren\u00e7a num Outro m\u00edtico organizavam o mundo, hoje estamos no tempo do Outro que n\u00e3o existe, em que o assentimento declina e o aparecimento do sujeito vacila frente ao excesso de objetos de gozo ofertados. N\u00e3o pretendendo apelar para o saudosismo, \u00e9 preciso verificar como o sujeito se relaciona com esse Outro da contemporaneidade, sem eximi-lo de ser respons\u00e1vel por sua posi\u00e7\u00e3o, mas, verificando como ele assim o faz (SALUM, 2009). Essa talvez seja a aposta da psican\u00e1lise: permitir que algo do singular, do real da puls\u00e3o e do gozo apare\u00e7am sem desconsiderar o universal da lei e do discurso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sob forma de abertura para o real que convoca ao saber fazer, convidamos o leitor ao fim deste artigo a pensar como se daria a leitura dos modos de subjetividade contempor\u00e2neos sob a \u00f3tica dos conceitos de dom, objeto, Outro e assentimento: estariam eles hoje sustentados pelas mesmas premissas descritivas?<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">BARROSO, S. F.\u00a0<em>A imagem e o imagin\u00e1rio<\/em>: quando o sujeito \u00e9 exclu\u00eddo do imagin\u00e1rio materno e permanece sem a ajuda de nenhuma imagem estabelecida. Instituto de Psican\u00e1lise e Sa\u00fade Mental de Minas Gerais, 2015. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/a-imagem-e-o-imaginario-quando-o-sujeito-e-excluido-do-imaginario-materno-e-permanece-sem-a-ajuda-de-nenhuma-imagem-estabelecida\">www.institutopsicanalise-mg.com.br<\/a>. Acesso em: 17 de set 2022.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">DOM. In:\u00a0<em>Aulete Digital<\/em>. 2023. Dispon\u00edvel em: &lt; https:\/\/www.aulete.com.br\/dom&gt;. Acesso em: 25 maio 2023.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">LACAN, J.\u00a0<em>O Semin\u00e1rio, livro 4<\/em>: A rela\u00e7\u00e3o de objeto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1995. (Trabalho original proferido em 1956-57).<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">MARTINS, P. H. A sociologia de Marcel Mauss: d\u00e1diva, simbolismo e associa\u00e7\u00e3o.\u00a0<em>Revista Cr\u00edtica de Ci\u00eancias Sociais<\/em>, n. 73, 45-66, out. 2012. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"http:\/\/journals.openedition.org\/rccs\/954\">journals.openedition.org<\/a>.\u00a0Acesso em: 17 de set. 2022.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">MAUSS, M.\u00a0<em>Ensaio sobre a d\u00e1diva, com introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 obra de Marcel Mauss por Claude L\u00e9vi-Strauss<\/em>. Lisboa: Edi\u00e7\u00f5es 70, 1950.\u00a0(Trabalho original publicado em 1923-24).<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">MILLER J.-A. A crian\u00e7a entre a mulher e a m\u00e3e.\u00a0<em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana On-line<\/em>, n. 15, 1-15, 2014. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_15\/crianca_entre_mulher_mae.pdf\">www.opcaolacaniana.com.br<\/a>. Acesso em: 28 de set. 2022.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">SALUM, M. J. G. A psican\u00e1lise e o crime: causa e responsabilidade nos atos criminosos, agress\u00f5es e viol\u00eancia na cl\u00ednica psicanal\u00edtica contempor\u00e2nea.\u00a0 Tese (Doutorado em Teoria Psicanal\u00edtica), Departamento de Psicologia, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2009.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">SANTIAGO, A. L. Dom e oblatividade.\u00a0<em>Scilicet<\/em>. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria Ltda., 2008, p. 97-100.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">SARTI, M. M; COUGO, R. H. F. A; TFOUNI, L. V. O simb\u00f3lico, o imagin\u00e1rio e o dom.\u00a0<em>Intersec\u00e7\u00f5es<\/em>, v. 4, n. 2, 237-254, nov. 2011. Dispon\u00edvel em: r<a href=\"https:\/\/revistas.anchieta.br\/index.php\/RevistaInterseccoes\/article\/view\/1086\">evistas.anchieta.br\/<\/a>. Acesso em: 28 de set. 2022.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/do-dom-de-mauss-ao-inominavel-da-pulsao#refer1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><a id=\"nota1\"><\/a>\u00a0Difere do conceito de consentimento por n\u00e3o operar a partir da instaura\u00e7\u00e3o de um acordo com o campo do Outro, tendo como funcionamento a vertente do gozo (SALUM, 2009).<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Laydiane Pereira de Matos Psic\u00f3loga Aluna do Curso de Psican\u00e1lise do IPSM-MG laydianep.matos@gmail.com Resumo:\u00a0Este artigo visa revisitar as bases do conceito de dom na teoria de Marcel Mauss e articular sua l\u00f3gica com a transmiss\u00e3o de Freud e Lacan acerca da teoria de objeto. Para isso, contrasta a utilidade desse conceito na estrutura\u00e7\u00e3o da primeira&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57761,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[],"class_list":["post-174","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-31","category-26","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/174","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=174"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/174\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57762,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/174\/revisions\/57762"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57761"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=174"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=174"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=174"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}