{"id":1745,"date":"2021-07-19T06:40:41","date_gmt":"2021-07-19T09:40:41","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1745"},"modified":"2025-12-01T13:25:35","modified_gmt":"2025-12-01T16:25:35","slug":"a-interpretacao-entre-a-escuta-e-o-que-se-le-1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2021\/07\/19\/a-interpretacao-entre-a-escuta-e-o-que-se-le-1\/","title":{"rendered":"A INTERPRETA\u00c7\u00c3O ENTRE A ESCUTA E O QUE SE L\u00ca\u00a0[1]\u00a0"},"content":{"rendered":"<h6><strong>TEREZA FACURY<br \/>\n<\/strong>Psicanalista, mestre em Estudos Psicanal\u00edticos pela UFMG |<br \/>\n<span id=\"cloakd949dd785afe008dae99b2b1ad6e8f77\"><a href=\"mailto:terezafacury@gmail.com\">terezafacury@gmail.com<\/a><\/span><\/h6>\n<blockquote><p><strong>Resumo:\u00a0<\/strong>A autora elege o texto de Miller \u201cLer um sintoma\u201d para abordar o tema da interpreta\u00e7\u00e3o. A leitura de um sintoma implica em uma defasagem entre a escuta e a leitura que se faz sobre o dito do sujeito. Para esclarecer essa diferen\u00e7a, aborda um caso relatado por Guilherme Ribeiro no N\u00facleo de Psican\u00e1lise e Medicina e o testemunho de passe de Gustavo Stiglitz: \u201cAqui hay gato encerrado. Sobre el fen\u00f4meno psicossom\u00e1tico\u201d.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave:<\/strong>\u00a0Escuta, leitura do sintoma, interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>INTERPRETATION BETWEEN LISTENING AND READING<\/strong><\/p>\n<p><strong>Abstract:\u00a0<\/strong>The author chooses Miller&#8217;s text \u201cReading a symptom\u201d to address the theme of interpretation. The reading of a symptom implies a gap between listening and reading of what the subject says. It also discusses a clinical case presented by Guilherme Ribeiro and Gustavo Stiglitz&#8217;s pass testimony \u201cHere there is a closed cat. About the psychosomatic phenomenon\u201d.<\/p>\n<p><strong>Keywords:\u00a0<\/strong>listening; reading a symptom; interpretation.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n<div id=\"attachment_1746\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/listras_5.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"600\" data-large_image_height=\"450\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1746\" class=\"wp-image-1746\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/listras_5.jpg\" alt=\"\" width=\"513\" height=\"385\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/listras_5.jpg 600w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/listras_5-300x225.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 513px) 100vw, 513px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1746\" class=\"wp-caption-text\">M\u00e1rio Azevedo, S\/T, 2020\/2021.<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Araceli Fuentes (2012), em seu texto \u201cO fen\u00f4meno psicossom\u00e1tico e o sintoma: diagn\u00f3stico diferencial\u201d, toca em um ponto que considero fundamental. Ela se refere ao fato de que n\u00f3s, psicanalistas interessados pela psicossom\u00e1tica, nos encontramos em um campo limite tanto para a psican\u00e1lise como para a medicina. E n\u00f3s s\u00f3 podemos abordar esse terreno limite, esse campo limite, por meio do discurso anal\u00edtico. O que nem sempre \u00e9 f\u00e1cil.<\/p>\n<p>Retomo Lacan no texto \u201cPsican\u00e1lise e medicina\u201d, citado por Fuentes (2012, p. 1):<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cO lugar da psican\u00e1lise na medicina \u00e9 extraterritorial devido tanto aos m\u00e9dicos como aos psicanalistas. A quest\u00e3o do gozo do corpo \u00e9 cont\u00edgua \u00e0s duas disciplinas.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Se a medicina negligencia a incid\u00eancia do gozo no corpo ela desaparece nas tecnoci\u00eancias. Isto se ela n\u00e3o se esclarece pela psican\u00e1lise, existe essa possibilidade. Inversamente, se os psicanalistas n\u00e3o se preocupam por este campo do real, que seremos ent\u00e3o, sen\u00e3o psicanalistas medrosos?\u201d<sup><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/tereza-facury#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a><\/sup><\/p>\n<p>N\u00f3s n\u00e3o dispomos de outro meio que n\u00e3o a palavra para abordar um fen\u00f4meno que mant\u00e9m com ela uma rela\u00e7\u00e3o que pode ser de exclus\u00e3o ou de borda. A nossa aposta \u00e9 n\u00e3o confundir o fen\u00f4meno psicossom\u00e1tico (FPS) com o sintoma som\u00e1tico; \u00e9 manter aberta essa hi\u00e2ncia e investigar de que se trata a especificidade do FPS.<\/p>\n<p>O ponto de partida da psican\u00e1lise \u00e9 a palavra e, conforme nos diz Miller (2016), o psicanalista est\u00e1 invadido pelas cria\u00e7\u00f5es, pelas criaturas da palavra. O que distingue a psican\u00e1lise de outras pr\u00e1ticas terap\u00eauticas que tamb\u00e9m trabalham com a palavra \u00e9 o bem-dizer, pr\u00f3prio da psican\u00e1lise, que se funda no saber ler que, por sua vez, completa o bem-dizer. N\u00e3o s\u00e3o nada um sem o outro.<\/p>\n<p>Bom, deixemos de lado a quest\u00e3o do diagn\u00f3stico diferencial entre o sintoma e o FPS para nos determos no sintoma. Miller (2016) tenta nos aproximar do que ele chama de ler um sintoma. Enfatizar a quest\u00e3o da leitura em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 escuta subverte a pr\u00e1tica anal\u00edtica que faz uso da palavra, mas tamb\u00e9m cria uma dist\u00e2ncia entre falar e escrever. A psican\u00e1lise opera a partir dessa dist\u00e2ncia entre escuta e leitura, uma do lado do sentido, outra do lado do sem sentido. \u00c9 o pr\u00f3prio funcionamento da interpreta\u00e7\u00e3o que se modifica com a passagem da escuta do sentido \u00e0 leitura do fora do sentido.<\/p>\n<p>Podemos pensar essa dist\u00e2ncia como o espa\u00e7o que determina um entre, entre a escuta e a leitura do sintoma? Foi assim que fui remetida a outros \u201centre\u201d, como psican\u00e1lise e medicina, S1 e S2, sintoma e fen\u00f4meno psicossom\u00e1tico, etc&#8230;<\/p>\n<p>Lacan (1975\/1998) responde a uma pergunta que lhe foi feita, durante sua Confer\u00eancia em Genebra sobre o sintoma, quanto \u00e0 posi\u00e7\u00e3o do paciente psicossom\u00e1tico em rela\u00e7\u00e3o ao acesso ao simb\u00f3lico. Ele responde que se trata de um dom\u00ednio pouco explorado, mas que \u00e9 algo da ordem do escrito e que, em muitos casos, n\u00e3o sabemos l\u00ea-lo. Tudo se passa como se algo estivesse escrito no corpo. Por isso meu interesse em trazer este texto hoje para discutir com voc\u00eas.<\/p>\n<p>\u00c9 de uma hi\u00e2ncia que estamos falando, de um limite, um limite da estrutura e, portanto, de um incur\u00e1vel, tal como Freud nomeou os restos sintom\u00e1ticos em uma an\u00e1lise. H\u00e1 um x que resta mais al\u00e9m da interpreta\u00e7\u00e3o freudiana do sentido inconsciente dos sintomas, e Freud tentou se apropriar disso de diversas maneiras. Colocou em jogo a rea\u00e7\u00e3o terap\u00eautica negativa, a puls\u00e3o de morte, at\u00e9 dizer que o final de an\u00e1lise deixa sempre subsistir os restos sintom\u00e1ticos.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica lacaniana, n\u00f3s lidamos com a confronta\u00e7\u00e3o do sujeito com esses restos sintom\u00e1ticos. Trata-se de fazer um novo arranjo com eles<em>,\u00a0<\/em>por\u00e9m, n\u00e3o sem antes passar pela decifra\u00e7\u00e3o do sintoma. Com os restos sintom\u00e1ticos, Freud se deparou tamb\u00e9m com o real do sintoma, o que, no sintoma, \u00e9 fora de sentido. Importante dizer que Freud ainda caracterizou o sintoma a partir do que ele chamava satisfa\u00e7\u00e3o pulsional, \u201ccomo o signo e o substituto de uma satisfa\u00e7\u00e3o pulsional que n\u00e3o ocorreu\u201d (FREUD, 1926-1976, p.112), ou seja, algo que n\u00e3o se limitava \u00e0s lembran\u00e7as do sujeito.<\/p>\n<p>Lacan substituiu o aparato de interpretar de Freud, o tern\u00e1rio ed\u00edpico e sua produ\u00e7\u00e3o de sentido a partir do sintoma, por um tern\u00e1rio que n\u00e3o produz sentido, o do Real, do Simb\u00f3lico e do Imagin\u00e1rio. Por isso, ler um sintoma vai em dire\u00e7\u00e3o oposta \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de sentido; consiste, portanto, em privar o sintoma de sentido.<\/p>\n<p>A interpreta\u00e7\u00e3o como \u201cler de outro modo\u201d necessita do apoio da escrita, isto \u00e9, a refer\u00eancia a que os sons emitidos podem se escrever de modo distinto ao que se quis. A interpreta\u00e7\u00e3o sup\u00f5e a transmuta\u00e7\u00e3o da fala em escrita. Pensemos na homofonia: \u00e9 imposs\u00edvel jogar com a homofonia sem se referir \u00e0 ortografia, ela s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel se o que se pronuncia da mesma forma se escreve de modo diferente. Ler de outro modo n\u00e3o \u00e9 autom\u00e1tico, muito menos a verdade; pelo contr\u00e1rio, tem algo de arbitr\u00e1rio e aleat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Miller (2016) lembra que Lacan realizou a demonstra\u00e7\u00e3o do que se trata na escrita ao mostrar que a imagem on\u00edrica retida por Freud tem valor de significante despojado de significa\u00e7\u00e3o. Ele pode distinguir isso quando Freud afirma que o sonho se l\u00ea como enigma, o que equivale a dizer que a imagem n\u00e3o vale como figura nem como pantomima, mas sim como letra \u2014 \u201cesta parece ser apenas outro nome do significante, o nome deste quando se separa da significa\u00e7\u00e3o e que est\u00e1 a\u00ed, besta como tudo\u201d (MILLER, 2012, p.10). Ainda conforme Miller (2016), Lacan atribui um \u00fanico predicado para todos os significantes, a besteira. \u201cO significante \u00e9 besta, porque o significado, todas as significa\u00e7\u00f5es estando alhures, fica a\u00ed sem ter muito o que dizer dele mesmo\u201d (<em>Ibid.<\/em>).<\/p>\n<p>Um exemplo interessante que Miller (2016) nos oferece, no texto \u201cO escrito na fala\u201d, se refere \u00e0 experi\u00eancia de uma crian\u00e7a narrada por Michel Leiris no livro\u00a0<em>A regra do jogo<\/em>. \u00c9 uma crian\u00e7a que brinca com pequenos soldados e, quando um soldadinho cai e deveria se quebrar, n\u00e3o se quebra. Essa crian\u00e7a, que n\u00e3o lia nem escrevia, expressa o seu contentamento exclamando \u201cFlismente!<sup><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/tereza-facury#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a><\/sup>\u201d. Corrigem-no: \u201c\u00c9 felizmente que se diz\u201d. A crian\u00e7a pensava que era assim que se dizia quando algo dava certo, \u201cflismente\u201d, no qual se descobre a alegria, o contentamento e mesmo o j\u00fabilo em fun\u00e7\u00e3o do soldadinho que, ao cair com a espada, o fuzil n\u00e3o se quebra. \u201cFlismente\u201d \u00e9 uma jacula\u00e7\u00e3o. \u201cA jacula\u00e7\u00e3o \u00e9 um gozo que encontra um significante adequado\u201d, nos diz Miller (2016). Uma ilumina\u00e7\u00e3o, uma explos\u00e3o de verdade e um ponto muito importante: a meu ver, um \u201cdilaceramento de um v\u00e9u\u201d. A regra do jogo \u00e9 a necessidade de falar igual a todos, e o autor se interroga: \u201cO que s\u00e3o as palavras apreendidas apenas com a audi\u00e7\u00e3o?\u201d. Tenta capturar lal\u00edngua antes de ler e escrever. Ele nos fornece um ensaio de descri\u00e7\u00e3o do modo do ser falante na linguagem, justamente anterior ao alfabeto, antes que o sujeito se \u201calfabestice\u201d (s\u2019alphab\u00eatisse), uma refer\u00eancia a Lacan no posf\u00e1cio do Semin\u00e1rio 11.<\/p>\n<p>Michel Leiris se refere \u00e0s can\u00e7\u00f5es aprendidas quando somos crian\u00e7as, nas quais h\u00e1 um jogo entre a m\u00fasica e a fala e evocam a\u00ed o mundo povoado, pelo efeito dos nomes, dos objetos fantas\u00edsticos que s\u00f3 existem pelos mal-entendidos na audi\u00e7\u00e3o. Lal\u00edngua \u00e9 o que far\u00e1 a linguagem atrav\u00e9s da escrita que encontramos como tal, sujeita ao equ\u00edvoco, defin\u00edvel pelos equ\u00edvocos que ela permite.<\/p>\n<p>As cadeias significantes nas quais o sintoma est\u00e1 enla\u00e7ado n\u00e3o s\u00e3o de sentido, mas de sentido gozado. Escrevem-se como quiserem, por\u00e9m, em conson\u00e2ncia ao equ\u00edvoco que faz a lei do significante. S\u00e3o cadeias significantes feitas de gozo com o equ\u00edvoco que aparece quando se tenta escrever o que \u00e9 dito. \u00c9 um equ\u00edvoco que se manifesta na diferen\u00e7a entre o oral e o escrito.<\/p>\n<p>Segundo Laurent:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cA letra \u00e9<em>\u00a0perturba\u00e7\u00e3o l\u00f3gica<\/em>\u00a0e a escrita para Lacan \u00e9 o sistema de nota\u00e7\u00e3o das perturba\u00e7\u00f5es da l\u00edngua, do fato de que a l\u00edngua escapa \u00e0 linguagem, e que h\u00e1 sempre, no que diz, o que fica reservado, o que n\u00e3o chega a se dizer e que, no entanto, se escuta. A escrita permite levar isso em conta. Se ela parece mais prop\u00edcia a dizer o \u00edntimo, n\u00e3o \u00e9 porque \u00e9 primeira, mas sim porque pode notar o indiz\u00edvel\u201d (2016, p. 127).<\/p>\n<p>Trata-se menos de mostrar alguma coisa do que de uma aus\u00eancia, que \u00e9 de estrutura: o imposs\u00edvel de dizer.<\/p>\n<p>Pensei em trazer os pontos que nos interessam do depoimento de passe de Gustavo Stiglitz para que possamos discuti-lo em paralelo ao caso que Guilherme Ribeiro nos apresenta. Trata-se nos dois casos de um sintoma relacionado \u00e0s crises de asma e bronquite, fen\u00f4menos muito frequentes na cl\u00ednica que exigem, na maior parte dos casos, uma interven\u00e7\u00e3o m\u00e9dica e tamb\u00e9m de um psicanalista.<\/p>\n<p>Ribeiro nos apresenta, logo de in\u00edcio, o seu embara\u00e7o ao se referir ao fen\u00f4meno psicossom\u00e1tico e sua dissolu\u00e7\u00e3o. Fiquei me perguntando de que embara\u00e7o se trata e pensei que era desse mesmo embara\u00e7o sobre o qual falei no in\u00edcio do texto. Pensei que esse significante embara\u00e7o condensa um sentido e se aplica muito bem nesse campo tanto para n\u00f3s, enquanto psicanalistas \u2014 quando lidamos com essas encruzilhadas, muitas vezes te\u00f3ricas, na defini\u00e7\u00e3o desses termos \u2014, como para denunciar o embara\u00e7o de todo\u00a0<em>falasser<\/em>\u00a0nessa articula\u00e7\u00e3o do significante com o corpo. Mas o mais interessante \u00e9 que, \u201cindependente do sofrimento no corpo ter ou n\u00e3o uma causa puramente f\u00edsica, desde que o falasser demanda, ele o faz a partir do campo da palavra, ele o faz com significantes. Portanto, esse sofrimento est\u00e1 relacionado \u00e0 incid\u00eancia da linguagem no corpo do falasser\u201d, nos diz Guilherme Ribeiro<sup><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/tereza-facury#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a><\/sup>.<\/p>\n<p>G. faz uma demanda de atendimento a Ribeiro, inicialmente como psiquiatra, para tratar uma ang\u00fastia intensa acompanhada de falta de ar, que o impedia de viajar de \u00f4nibus quando ia visitar seu pai em outra cidade. Viajar para ver o pai significava deixar sua m\u00e3e, por quem ele se sentia respons\u00e1vel desde que ela se separara de seu pai \u2014 o que nos leva a perguntar tamb\u00e9m o que se passa com ele diante da possibilidade do encontro com o pai. Parece-me que, tanto ao lado do pai como ao lado da m\u00e3e, ele fica muito desconfort\u00e1vel. Assim como ele fica quando frequenta a fam\u00edlia da namorada. Sabemos, pelo relato de Ribeiro, que a m\u00e3e n\u00e3o o autorizava frequentar lugares aos quais ele n\u00e3o pertencia \u2014 uma fala frequente da m\u00e3e. N\u00e3o sair do dom\u00ednio materno! \u00c9 dessa forma que a m\u00e3e dava lugar a ele no seu desejo, desde que ele n\u00e3o sa\u00edsse do seu dom\u00ednio.<\/p>\n<p>Em uma sess\u00e3o surge o significante\u00a0<em>acatar<\/em>\u00a0e o analista interv\u00e9m escandindo-o\u00a0\u00a0<em>a&#8230;catar&#8230;ar<\/em>. Ao promover esse desarranjo com a escrita do significante, a palavra que estava congelada em um sentido fixo pode ressoar de outras formas, mesmo que n\u00e3o saibamos como isso se deu, pois, como Ribeiro mesmo disse, o sujeito n\u00e3o faz nenhum coment\u00e1rio sobre isso, por\u00e9m, n\u00e3o foi sem efeitos.<\/p>\n<p>Em seu testemunho, Stiglitz (2011) se prop\u00f5e a abordar um incur\u00e1vel, n\u00e3o exatamente do sintoma, mas de uma de suas arestas. Ele se refere ao fen\u00f4meno psicossom\u00e1tico tomado por ele como campo de investiga\u00e7\u00e3o sobre o S1; a como se enodam significante e corpo, uma vez que, no fen\u00f4meno psicossom\u00e1tico, um ponto de falta d\u00e1 conta dos impasses da incorpora\u00e7\u00e3o da estrutura.<\/p>\n<p>No relato de Stiglitz, podemos fazer um recorte do caso em sua dupla vertente: a primeira, da articula\u00e7\u00e3o significante, em que, a partir da cadeia S1-S2, articula-se um sentido no qual o sintoma se ancora; e a outra vertente, a da leitura do seu sintoma guiado n\u00e3o mais pelo sentido, mas pela literalidade do significante.<\/p>\n<p>Na primeira inf\u00e2ncia, a asma, entre lembran\u00e7a encobridora e novela familiar, que n\u00e3o produzia ang\u00fastia, e sim satisfa\u00e7\u00e3o de saber-se cuidado.<\/p>\n<p>A asma cede e a lembran\u00e7a desaparece at\u00e9 a irrup\u00e7\u00e3o do efeito psicossom\u00e1tico da rinite na segunda d\u00e9cada da vida. A asma fica reduzida \u00e0 marca de impasse no enla\u00e7amento do gozo e o significante. Trata-se aqui de um significante congelado, de uma fixa\u00e7\u00e3o de um significante incapaz de localizar o sujeito, pois n\u00e3o \u00e9 feito de recalque.<\/p>\n<p>Outro fen\u00f4meno ligado ao corpo foi a hipocondria, tomado por ele \u201ccomo del\u00edrio de S2\u201d. Falar de pensamentos sobre as doen\u00e7as velava as dificuldades com o corpo pr\u00f3prio e as voltas para abordar o corpo do Outro sexo.<\/p>\n<p>Ele chama de tempo 1 o tempo compreendido entre a asma e o efeito psicossom\u00e1tico da rinite e de tempo 2 o sentido hipocondr\u00edaco em que ele fala da hipocondria como um del\u00edrio de S2. Por que del\u00edrio de S2? Na aus\u00eancia de uma articula\u00e7\u00e3o significante entre S1-S2 que produzisse um sentido, onde seria poss\u00edvel localizar o sujeito (met\u00e1fora do sujeito), o sentido hipocondr\u00edaco delirante se apresenta como sa\u00edda para o impasse. Dessa forma, o S2 \u00e9 reintroduzido sob a forma da in\u00e9rcia do sentido fantasm\u00e1tico de morte.<\/p>\n<p>Anos mais tarde, em uma visita a sua fam\u00edlia, a irrup\u00e7\u00e3o de uma rinite al\u00e9rgica em fun\u00e7\u00e3o de pelos de gato \u2014 o gato amado e alerg\u00eanico, algo familiar que se torna estranho e molesto. Esse fen\u00f4meno passa a fazer parte da sua vida e da sua economia libidinal tornando-se causa do seu sofrimento.<\/p>\n<p>Em outra situa\u00e7\u00e3o, outro pa\u00eds, um gato negro passa por cima do seu corpo na cama. Era certo de que perderia o sono, mas o que surge \u00e9 um significante \u201c<em>Schartze cutter<\/em>\u201d, em \u00eddiche, \u201cgato negro\u201d, apelido do pai, um nome comum com valor de nome pr\u00f3prio. Dessa forma, se ligam o fen\u00f4meno e o pai em sua envergadura e fun\u00e7\u00e3o. O fen\u00f4meno se alojava na falha do la\u00e7o e da fun\u00e7\u00e3o, mas s\u00f3 teve estatuto de sintoma com a apari\u00e7\u00e3o do gato negro, nesse caso, uma fobia. Agora existia algo, algo podia fazer ponte entre o corpo e o significante do nome pr\u00f3prio do pai. O gato, enquanto figura imagin\u00e1ria, conectava o S1 (<em>Schartze cutter<\/em>) com a parte do corpo afetada. O gato e a fobia fazem borda, \u00edndice de que a puls\u00e3o est\u00e1 em jogo.<\/p>\n<p>Com a entrada do\u00a0<em>schartze cutter<\/em>\u00a0na an\u00e1lise, abre-se uma perspectiva para al\u00e9m do imagin\u00e1rio. At\u00e9 aqui ainda estamos na vertente da interpreta\u00e7\u00e3o pelo sentido, ou melhor, de uma constru\u00e7\u00e3o de sentido que finalmente permite uma articula\u00e7\u00e3o significante e permite tamb\u00e9m ao sujeito se localizar.<\/p>\n<p>O analista questiona a interpreta\u00e7\u00e3o de Stiglitz de que a express\u00e3o\u00a0<em>schartze cutter<\/em>\u00a0significava gato negro e o convida para ir ao dicion\u00e1rio. E o resultado foi\u00a0<em>Schartze<\/em>: negro;\u00a0<em>Cutter<\/em>: corte;\u00a0<em>Katter<\/em>: gato.<\/p>\n<p>Uma interven\u00e7\u00e3o que aponta ao real, de uma letra a outra, de um escrito ao outro e um passo de sentido. Gato negro transformou-se em corte negro; desaparece a figura imagin\u00e1ria do gato e um vazio toma seu lugar.<\/p>\n<p>Entre gato e corte existe um espa\u00e7o para que o sujeito apare\u00e7a no lugar do efeito psicossom\u00e1tico. Agora era poss\u00edvel interpretar e o inconsciente trabalhar. A rinite deixou de ser um hier\u00f3glifo que estava ali para mostrar algo \u2014 uma falha \u2014 para n\u00e3o ser lido. O desejo do analista, tal como Champolion no deserto, introduz um vazio, um intervalo, que ser\u00e1 a condi\u00e7\u00e3o de possibilidade de uma nova escrita, dessa vez, para ser lida, decifrada e reduzida. Ele diz: \u201cEra quest\u00e3o de cernir o truque de sentido pelo qual se poderia ir mais al\u00e9m do sentido fixado, ou melhor, do fora de sentido do qual padecia meu nariz com seu gozo desregulado\u201d (STIGLITZ, 2011, s\/p).<\/p>\n<p>Com a introdu\u00e7\u00e3o do S2, \u201ccorte\u201d, foi inaugurada uma cadeia significante que inscreveu um circuito pulsional ligado ao olhar. A mulher, o pai e a m\u00e3e participavam desse circuito. O olhar melanc\u00f3lico da m\u00e3e que o fazia dormir, olhar o pai enquanto ideal ou rival e fazer-se olhar por ele, e olhar e fazer-se olhar pelas mulheres. Gato designa tanto o pai como o olhar \u201cfelina\u201d, feminina.<\/p>\n<p>O trabalho com o inconsciente \u00e9 relatado por Stiglitz a partir de dois sonhos. Um deles nos interessa especialmente. Uma frase escrita no ar: \u201c<em>ud. Es um delinquente<\/em>\u201d. Delinquente era como o pai nomeava a alteridade, ou seja, aquilo do qual ele n\u00e3o compartilhava, por\u00e9m, o filho sim. E as letras u-d, que faziam ali, \u00e9 a pergunta do analista. Em associa\u00e7\u00e3o, Stiglitz responde: \u201cum e dois\u201d, \u201cum e outro\u201d. Acontece o corte de sess\u00e3o justamente no ponto em que a imagem escreve a separa\u00e7\u00e3o e o sujeito toma dist\u00e2ncia do \u201cUm do Ideal\u201d. A opera\u00e7\u00e3o anal\u00edtica reinventou o inconsciente como tratamento de uma fixa\u00e7\u00e3o de gozo enraizado no imagin\u00e1rio, tal como Lacan se expressa na Confer\u00eancia em Genebra sobre o sintoma.<\/p>\n<p><em>Shartze cutter\u00a0<\/em>marca um limite na incorpora\u00e7\u00e3o da estrutura da linguagem ao mesmo tempo como aquilo que o pai transmite e faz barreira \u00e0 m\u00e3e, mas nem todo gozo foi evacuado do corpo (<em>Katter<\/em>).<\/p>\n<p>\u00c0 sua pr\u00f3pria pergunta, sobre o lugar que o efeito psicossom\u00e1tico tem agora com rela\u00e7\u00e3o ao enodamento RSI, ele responde conferindo ao efeito psicossom\u00e1tico um marco, monumento que comemora a \u201cepopeia singular\u201d de fazer o n\u00f3.<\/p>\n<p>Miller, no \u201cUltim\u00edssimo Lacan\u201d (2014), nos fala que, com a teoria dos n\u00f3s, a dire\u00e7\u00e3o \u00e9 o dar voltas, e dar voltas tem uma estrutura, mesmo que n\u00e3o se trate de uma estrutura lingu\u00edstica. E, referindo-se \u00e0s demonstra\u00e7\u00f5es que Lacan faz com os \u201cobjetos matem\u00e1ticos\u201d, os quais ele usa nesse momento de seu ensino, afirma que \u201cas coisas\u201d sabem se comportar. Nesse sentido, as tentativas topol\u00f3gicas de Lacan s\u00e3o figura\u00e7\u00f5es de que o analista corta. Figura\u00e7\u00f5es pelo corte, uma vez que tem o poder de mudar a estrutura das coisas. Aqui, n\u00e3o \u00e9 a palavra que faz as coisas, \u00e9 o corte o que muda a estrutura dos objetos representados. Com certeza, esse ponto nos ajuda a compreender melhor do que se trata nessa mudan\u00e7a da interpreta\u00e7\u00e3o do sentido ao sem sentido.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas:<\/strong><\/h6>\n<h6>FUENTES, A.<strong>\u00a0El Fen\u00f3meno Psicosom\u00e1tico y el Sintoma<\/strong>: el dian\u00f3stico. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"http:\/\/nucep.com.referencias\/El%20fenomeno%20psicosomatico.htm\">http:\/\/nucep.com.referencias\/El fenomeno psicosomatico.htm<\/a>. Acesso em 10\/2010.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1966) \u201cO lugar da psican\u00e1lise na medicina\u201d.\u00a0<em>In<\/em>:\u00a0<strong>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/strong>, 32, 2001, p. 8-14.<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9. \u201cO avesso da biopol\u00edtica. Uma escrita para o gozo\u201d.\u00a0<em>In<\/em>:\u00a0<strong>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/strong>\u00a0n. 13, Rio de Janeiro: Contra Capa, 2016, p. 27.<\/h6>\n<h6>MILLER, J. A. \u201cA volatiza\u00e7\u00e3o da Fixierung freudiana\u201d.\u00a0<em>In<\/em>:\u00a0<strong>Silet<\/strong>: os paradoxos da puls\u00e3o de Freud a Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005, p. 188.<\/h6>\n<h6>MILLER, J. A. \u201cO escrito na fala\u201d. 2012. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/\">https:\/\/www.opcaolacaniana.com.br<\/a>. Acesso em 04\/2021.<\/h6>\n<h6>MILLER, J. A.\u00a0<strong>El ultim\u00edsimo Lacan<\/strong>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2014.<\/h6>\n<h6>MILLER, J. A. \u201cLer um sintoma\u201d, 2016. Dispon\u00edvel em: www.lacan21.com. Acesso em 04\/2021.<\/h6>\n<h6>STIGLITZ, G. \u201cAqui hay gato encerrado: sobre el fen\u00f4meno psicossom\u00e1tico\u201d.\u00a0<em>In<\/em>:\u00a0<strong>Freudiana:\u00a0<\/strong>Revista Psicoanal\u00edtica publicada em Barcelona bajo los ausp\u00edcios de la Escuela Lacaniana de Psicoanalisis. n. 61. Barcelona. 2011. Acesso em 04\/2021. Dispon\u00edvel em\u00a0<a href=\"https:\/\/freudiana.com\/\">https:\/\/freudiana.com<\/a>.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/tereza-facury#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a>\u00a0Texto apresentado no N\u00facleo de Pesquisa em Psican\u00e1lise e Medicina no dia 16\/04\/2021<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/tereza-facury#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a>\u00a0Tradu\u00e7\u00e3o nossa.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/tereza-facury#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a>\u00a0A crian\u00e7a exclama, em franc\u00eas, \u201c<em>reusement\u201d<\/em>\u00a0(traduzido para o portugu\u00eas como \u201cflismente\u201d), quando deveria pronunciar \u201c<em>heureusement\u201d<\/em>\u00a0(felizmente).<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/tereza-facury#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a>\u00a0Psicanalista, membro da EBP\/AMP.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>TEREZA FACURY Psicanalista, mestre em Estudos Psicanal\u00edticos pela UFMG | terezafacury@gmail.com Resumo:\u00a0A autora elege o texto de Miller \u201cLer um sintoma\u201d para abordar o tema da interpreta\u00e7\u00e3o. A leitura de um sintoma implica em uma defasagem entre a escuta e a leitura que se faz sobre o dito do sujeito. Para esclarecer essa diferen\u00e7a, aborda&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57891,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[23],"tags":[],"class_list":["post-1745","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-27","category-23","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1745","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1745"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1745\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57892,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1745\/revisions\/57892"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57891"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1745"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1745"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1745"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}