{"id":1749,"date":"2021-07-19T06:40:41","date_gmt":"2021-07-19T09:40:41","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1749"},"modified":"2025-12-01T13:25:58","modified_gmt":"2025-12-01T16:25:58","slug":"por-que-as-maes-de-hoje-nao-interpretam1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2021\/07\/19\/por-que-as-maes-de-hoje-nao-interpretam1\/","title":{"rendered":"POR QUE AS M\u00c3ES DE HOJE N\u00c3O INTERPRETAM?[1]"},"content":{"rendered":"<h6>MARGARET PIRES DO COUTO<br \/>\nP\u00f3s-doutorado em Teoria Psicanal\u00edtica pelo Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.<br \/>\nAderente da Se\u00e7\u00e3o Minas Gerais da EBP<br \/>\n<span id=\"cloak5b0cd820a17b78d21f21d98927f56e09\"><a href=\"mailto:coutomargaret@gmail.com\">coutomargaret@gmail.com<\/a><\/span><\/h6>\n<blockquote><p><strong>Resumo:<\/strong>\u00a0Neste artigo, investigam-se os embara\u00e7os dos pais, especialmente do Outro materno, em traduzir o mal-estar das crian\u00e7as, o que os leva a recorrer cada vez mais ao saber da ci\u00eancia por meio dos in\u00fameros especialistas da crian\u00e7a. Partindo da premissa que uma primeira interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 fundante do sujeito e que a dificuldade em interpretar a crian\u00e7a responde \u00e0 inexist\u00eancia do Outro, discute-se como o discurso anal\u00edtico instala o Outro retirando a crian\u00e7a da solid\u00e3o de seu gozo. Com essa opera\u00e7\u00e3o de restitui\u00e7\u00e3o do S2, a cadeia significante se produz com importantes efeitos de mobilidade para crian\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave:<\/strong>\u00a0Crian\u00e7a, Outro, interpreta\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p><strong>WHY MOTHERS OF TODAY DO NOT INTERPRET?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Abstract:<\/strong>\u00a0This essay investigates the difficulties of parents, especially the maternal Other, in translating the malaise of children, which leads them to increasingly resort to the knowledge of science through the countless child specialists. Starting from the premise that a first interpretation is the founder of the subject and that the difficulty of interpreting the child responds to the inexistence of the Other, we discuss how the analytic discourse settles the Other, removing the child from the solitude of its jouissance. With this restitution of the S2, the signifier chain is produced with important mobility effects for the child.<\/p>\n<p><strong>Keywords:<\/strong>\u00a0Children, Other, Interpretation.<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_1750\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/listras_7.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"600\" data-large_image_height=\"440\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1750\" class=\"wp-image-1750 \" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/listras_7.jpg\" alt=\"\" width=\"567\" height=\"416\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/listras_7.jpg 600w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/listras_7-300x220.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 567px) 100vw, 567px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1750\" class=\"wp-caption-text\">M\u00e1rio Azevedo, S\/T, 2020\/2021.<\/p><\/div>\n<p>O t\u00edtulo proposto para nossa mesa de hoje me remeteu imediatamente \u00e0s in\u00fameras situa\u00e7\u00f5es encontradas de forma cada vez mais frequente em nossa cl\u00ednica com crian\u00e7as: a dificuldade dos pais, especialmente do Outro materno, de traduzir o mal-estar das crian\u00e7as. Embara\u00e7adas diante das crian\u00e7as e das demandas surgidas, as m\u00e3es recorrem cada vez mais ao saber dos especialistas e ao Dr. Google, ou seja, lan\u00e7am m\u00e3o de um saber universal e an\u00f4nimo que dispensa o saber inconsciente.<\/p>\n<p>Como ler esses embara\u00e7os, cada vez mais frequentes, no trabalho de interpreta\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a? Minha hip\u00f3tese \u00e9 que essa dificuldade responde \u00e0 inexist\u00eancia do Outro<sup><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/margaret-couto#_edn1\" name=\"_ednref1\">[2]<\/a><\/sup>.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><em>A inexist\u00eancia do Outro e a crian\u00e7a n\u00e3o interpretada<\/em><\/p>\n<p>Ao longo do ensino de Lacan, passamos da apresenta\u00e7\u00e3o do Outro como um campo simb\u00f3lico, respons\u00e1vel pela inser\u00e7\u00e3o do sujeito na linguagem para sua inexist\u00eancia. O Outro \u00e9 um lugar de determina\u00e7\u00e3o onde o sujeito \u201cse reconhece e se faz reconhecer\u201d (LACAN, 1955-56\/1998, p. 193).<\/p>\n<p>Por meio da an\u00e1lise do fen\u00f4meno do chiste, Lacan evidenciar\u00e1 como o Outro funciona como um terceiro que autentica o sentido e a presen\u00e7a de um sujeito desejante. A partir do momento em que se endere\u00e7a a algu\u00e9m, existe um Outro, n\u00e3o como uma pessoa, mas como um lugar, como sede do c\u00f3digo e da Lei. Trata-se da exist\u00eancia do Outro do Outro e da cren\u00e7a no significante do Nome-do-Pai como aquele que funda a exist\u00eancia da Lei, que ordena a linguagem e instaura uma ordem simb\u00f3lica (LACAN, 1957-1958\/1999).<\/p>\n<p>N<em>o Semin\u00e1rio 6\u00a0<\/em>(1958-1959), Lacan revelar\u00e1 o grande segredo da psican\u00e1lise ao lan\u00e7ar sua f\u00f3rmula \u201cN\u00e3o h\u00e1 Outro do Outro\u201d. Indica que ao Outro falta um significante que possa responder ao sujeito sobre seu ser e sua ess\u00eancia de verdade.<\/p>\n<p>Essa f\u00f3rmula ser\u00e1 retomada no<em>\u00a0Semin\u00e1rio 16<\/em>\u00a0(1968-1969), quando Lacan inscreve a rela\u00e7\u00e3o da inconsist\u00eancia do Outro por meio da elabora\u00e7\u00e3o do objeto\u00a0<em>a\u00a0<\/em>que poder\u00e1 ser dele extra\u00eddo.<\/p>\n<p>Apesar de, por muito tempo, a psican\u00e1lise ter enfatizado a explora\u00e7\u00e3o do Outro como tesouro do significante e lugar da verdade, Lacan propor\u00e1, a partir do\u00a0<em>Semin\u00e1rio 20\u00a0<\/em>(1972-1973), uma b\u00e1scula decisiva com o tema da subst\u00e2ncia gozante. Define o gozo como uma esp\u00e9cie de fundo informe que pode inclusive transbordar. Trata-se de um gozo imposs\u00edvel de ser negativado pela opera\u00e7\u00e3o da castra\u00e7\u00e3o que perturba e afeta o corpo.<\/p>\n<p>Importantes reformula\u00e7\u00f5es conceituais ser\u00e3o operadas no ensino de Lacan ao dar primazia ao gozo, entre eles, o conceito de\u00a0<em>falasser<\/em>. A principal consequ\u00eancia do conceito de\u00a0<em>falasser<\/em>\u00a0\u00e9 esclarecer que o sujeito surge n\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o com o significante, como definido em seu primeiro ensino, mas da rela\u00e7\u00e3o indiz\u00edvel com o gozo. Se o sujeito surge de uma rela\u00e7\u00e3o com o gozo indiz\u00edvel, n\u00e3o podemos escrev\u00ea-lo de sa\u00edda. H\u00e1, desse modo, dois tempos distintos da produ\u00e7\u00e3o de um sujeito: o da rela\u00e7\u00e3o com o gozo e o da rela\u00e7\u00e3o com o Outro (MILLER, 2008).<\/p>\n<p>Da mesma forma que n\u00e3o h\u00e1 sujeito pr\u00e9vio, n\u00e3o h\u00e1 um Outro que existe a priori. O pr\u00e9vio e o absoluto est\u00e3o localizados do lado do gozo. O gozo prov\u00e9m do Um e n\u00e3o estabelece rela\u00e7\u00e3o com o Outro. Desse modo, a inexist\u00eancia do Outro nos conduzir\u00e1 \u00e0 consist\u00eancia do gozo e \u00e0 exist\u00eancia do Um totalmente s\u00f3. \u201cO Outro que n\u00e3o existe, quer dizer exatamente que o Um existe. O Outro que n\u00e3o existe \u00e9 uma outra maneira de dizer o que Lacan lan\u00e7ou como uma jacula\u00e7\u00e3o: Yad\u2019l\u2019Un (H\u00e1 o Um)\u201d (MILLER, 2011, p. 139).<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cSem d\u00favida, Lacan come\u00e7ou por ordenar a experi\u00eancia anal\u00edtica pelo campo do Outro, mas para demonstrar em seguida que, definitivamente, esse Outro n\u00e3o existe (&#8230;). O que existe \u00e9 o Um-sozinho.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">O Um-sozinho uma an\u00e1lise come\u00e7a por a\u00ed: quando algu\u00e9m n\u00e3o tem nenhum outro recurso sen\u00e3o confessar-se exilado, deslocado, indisposto, em desequil\u00edbrio no cerne do discurso do Outro. E \u00e9 para buscar na an\u00e1lise um \u2018outro\u2019 Outro, um Outro que algu\u00e9m tem o prazer de inventar \u00e0 sua medida, um Outro suposto saber o que atormenta o Um-sozinho\u201d (MILLER, 2013, p. 14).<\/p>\n<p>Como interpretar a crian\u00e7a em uma \u00e9poca em que o lugar do Outro como o lugar do c\u00f3digo, lugar da garantia da significa\u00e7\u00e3o, inexiste? Daniel Roy (2015) afirma que o problema se complica pelo fato que o Outro, ele mesmo, em suas encarna\u00e7\u00f5es, se encontra infiltrado pelas manifesta\u00e7\u00f5es de gozo em excesso e sem recursos para fazer face a ele. Da\u00ed a urg\u00eancia em dizer como e por quais vias eles interpretam a crian\u00e7a.<\/p>\n<p>A crian\u00e7a \u00e9 quem interpreta o mundo, e, ao mesmo tempo, ela \u00e9 interpretada, afirma Miller (2016). \u00c9 por meio do c\u00f3digo do Outro que se dominam e se neutralizam as necessidades, opera\u00e7\u00e3o que permite que aquilo que era do campo da necessidade se transforme em demanda inaugurando tamb\u00e9m um circuito de linguagem. Assim, uma primeira interpreta\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a \u00e9 fundante de um sujeito. Essa interpreta\u00e7\u00e3o viabiliza a constitui\u00e7\u00e3o subjetiva em sua rela\u00e7\u00e3o com um desejo n\u00e3o an\u00f4nimo (LACAN, 1969).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A interpreta\u00e7\u00e3o em sua vertente criacionista e o discurso anal\u00edtico<\/em><\/p>\n<p>Para Laurent (2017), Lacan se op\u00f5e \u00e0 defini\u00e7\u00e3o de um desejo inconsciente que j\u00e1 existiria previamente, bem como se op\u00f5e \u00e0 no\u00e7\u00e3o de interpreta\u00e7\u00e3o como uma linguagem que o decifraria colocando-o \u00e0 vista. Um inconsciente n\u00e3o \u00e9 uma coisa dada. Ele aparece ao longo da pr\u00e1tica da psican\u00e1lise, que torna poss\u00edvel o surgimento desse inconsciente insepar\u00e1vel do seu dito interpretativo. O discurso anal\u00edtico transporta com ele o lugar do Outro. Ao instalar e dar fun\u00e7\u00e3o ao Outro, permite-se a tradu\u00e7\u00e3o e a substitui\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a-objeto do discurso social ou familiar pela crian\u00e7a-sujeito de sua pr\u00f3pria tomada de palavra.<\/p>\n<p>Desse modo, o analista se encontra em posi\u00e7\u00e3o de validar o c\u00f3digo do Outro, validar as regras. Na cl\u00ednica com crian\u00e7as, o analista \u00e9 um instrumento que toma iniciativas, como uma esp\u00e9cie de GPS que permite a localiza\u00e7\u00e3o para cada\u00a0<em>falasser<\/em>\u00a0de sua posi\u00e7\u00e3o subjetiva (MILLER, 2016).<\/p>\n<p>A instala\u00e7\u00e3o do lugar do Outro, bem como a extra\u00e7\u00e3o do sujeito, foi o efeito percebido na interpreta\u00e7\u00e3o de uma crian\u00e7a em tratamento. Com a queixa de problemas na escola, fruto de sua desorganiza\u00e7\u00e3o e dispers\u00e3o, S\u00e1vio chega ao tratamento sem que os pais estranhassem qualquer coisa no comportamento do filho. Eles nada t\u00eam a dizer sobre o garoto, o que indica a pobreza simb\u00f3lica em torno dessa crian\u00e7a. As entrevistas iniciais com os pais giram em torno dos problemas do casal, especialmente as situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia e amea\u00e7as. Tomados pelo pr\u00f3prio gozo, nada de interpreta\u00e7\u00e3o do sofrimento da crian\u00e7a pode ser colhido nesses encontros. Um esbo\u00e7o de interpreta\u00e7\u00e3o surge do lado de uma amiga da fam\u00edlia, que, ancorada no saber psicol\u00f3gico e psicopatol\u00f3gico, busca traduzir o sofrimento de S\u00e1vio com o diagn\u00f3stico de autismo e, assim, solicita o atendimento da crian\u00e7a. Na sess\u00e3o com a crian\u00e7a, ela me diz que fica \u201cconversando com vozes, com pensamentos que ficam dentro da minha cabe\u00e7a\u201d e que isso lhe deixava muito triste. Pensando em retir\u00e1-lo disso que considerei um mon\u00f3logo, digo-lhe: \u201cEnt\u00e3o, a partir de agora, voc\u00ea pode falar comigo\u201d. A partir desse momento, conversamos sobre seus jogos eletr\u00f4nicos preferidos e ele pode apresentar seu saber e suas habilidades em construir estrat\u00e9gias de sobreviv\u00eancia diante do invasor. S\u00e1vio vai tomando gosto pela palavra e uma conversa\u00e7\u00e3o se instala entre n\u00f3s. Relata que as vozes permanecem, mas n\u00e3o t\u00eam mais afetado seu corpo nem causado tristeza.<\/p>\n<p>O mon\u00f3logo com as vozes\/pensamentos a que S\u00e1vio estava submerso representava um \u00edndice de uma crian\u00e7a sem o Outro. Em \u201cO mon\u00f3logo da aparola\u201d, Miller (2012) discute como que no n\u00edvel da aparola n\u00e3o h\u00e1 di\u00e1logo, n\u00e3o h\u00e1 comunica\u00e7\u00e3o, h\u00e1 autismo. N\u00e3o existe a\u00ed o Outro com mai\u00fascula. A aparola n\u00e3o tem por princ\u00edpio o querer-dizer ao Outro ou a partir do Outro. A aparola \u00e9 no que se transforma a fala quando \u00e9 dominada pela puls\u00e3o, quando ela n\u00e3o garante a comunica\u00e7\u00e3o, mas o gozo.<\/p>\n<p>Nesse mesmo texto, Miller (2012) indica que \u00e9 preciso um limite ao mon\u00f3logo autista do gozo. Sendo assim, a interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica limita, faz limite e, por isso, se situa mais como uma conten\u00e7\u00e3o do que como um relan\u00e7amento. Teria sido esse um dos efeitos da interpreta\u00e7\u00e3o no caso de S\u00e1vio, uma conten\u00e7\u00e3o a esse gozo que parasitava seus pensamentos e seu corpo?<\/p>\n<p>As vozes que perturbavam S\u00e1vio revelam a dimens\u00e3o parasita da linguagem que produz nessa crian\u00e7a um mutismo. O \u00faltimo ensino de Lacan permite considerar que o significante sozinho, tomado como um fen\u00f4meno elementar, se imp\u00f5e ao sujeito e testemunha os fen\u00f4menos de gozo e seus efeitos no corpo. O fen\u00f4meno elementar evidencia, de forma particularmente pura, a presen\u00e7a do significante sozinho, suspenso, na espera de outro significante para lhe dar sentido. O automatismo mental torna manifesto a xenopatia fundamental da palavra e o estado original da rela\u00e7\u00e3o do sujeito com al\u00edngua, ou seja, a dimens\u00e3o parasita da linguagem, que parasita o corpo com um gozo intrusivo e transbordante (MILLER, 1996).<\/p>\n<p>Lacan, no cap\u00edtulo \u201cJoyce e as falas impostas\u201d, no\u00a0<em>Semin\u00e1rio<\/em>\u00a0<em>23<\/em>: o sinthoma ([1975-1976] 2007), afirma sobre esse parasitismo:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cComo \u00e9 que todos n\u00f3s n\u00e3o sentimos que as palavras das quais dependemos s\u00e3o, de algum modo impostas?<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u00c9 justamente por isso que o que chamamos de doente vai algumas vezes mais longe do que o que designamos como um homem saud\u00e1vel. A quest\u00e3o \u00e9 antes saber por que um homem dito normal n\u00e3o percebe que a fala \u00e9 um parasita, que a fala \u00e9 uma excresc\u00eancia, que a fala \u00e9 a forma de c\u00e2ncer pela qual o ser humano \u00e9 afligido. Como pode haver quem chegue inclusive a senti-lo?\u201d (LACAN, 1975, p. 92).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A interpreta\u00e7\u00e3o como a instala\u00e7\u00e3o de um Outro e extra\u00e7\u00e3o do sujeito<\/em><\/p>\n<p>O caso de S\u00e1vio nos ensina que a inven\u00e7\u00e3o, m\u00ednima que seja, do campo do Outro, por meio da extra\u00e7\u00e3o do gozo em excesso, permite ao\u00a0<em>falasser<\/em>\u00a0um pouco mais de mobilidade e menos petrifica\u00e7\u00e3o em uma determinada posi\u00e7\u00e3o. Sendo assim, diante da inexist\u00eancia do Outro, \u00e9 necess\u00e1rio inventar um Outro que possibilite retirar o ser falante da solid\u00e3o de seu gozo.<\/p>\n<p>O Outro, n\u00e3o sendo pr\u00e9vio, \u00e9 um lugar produzido por meio do apagamento do Um original. De acordo com Miller (2011), a f\u00f3rmula de Lacan indica que o Outro \u00e9 \u201cUm em menos\u201d, ou seja, \u00e9 somente com o apagamento do Um que se torna poss\u00edvel a constitui\u00e7\u00e3o do lugar do Outro e a produ\u00e7\u00e3o da cadeia significante. Sendo assim, na an\u00e1lise, busca-se restituir o dois, acrescentando ao Um sozinho o S2 que lhe permitir\u00e1, ao produzir a cadeia, fazer sentido e, posteriormente, se deparar com aquilo que n\u00e3o muda, insiste e itera (MILLER, 2011).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas:<\/strong><\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1972-1973)\u00a0<strong>O semin\u00e1rio, livro 20<\/strong>: mais, ainda. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1955-1956)\u00a0<strong>O semin\u00e1rio, livro 3<\/strong>: as psicoses. Rio de Janeiro: Zahar, 1988.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1957-1958)\u00a0<strong>O semin\u00e1rio, livro 5<\/strong>: as forma\u00e7\u00f5es do inconsciente. Rio de Janeiro: Zahar, 1999.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1969) \u201cNota sobre a crian\u00e7a\u201d. In:\u00a0<strong>Outros Escritos<\/strong>. Rio de Janeiro: Zahar, 2003. p. 369-370.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1975-1976)\u00a0<strong>O semin\u00e1rio, livro 23<\/strong>: o sinthoma. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1968-1969)\u00a0<strong>O semin\u00e1rio, livro 16<\/strong>: de um Outro ao outro. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1958-1959)\u00a0<strong>O semin\u00e1rio, livro 6<\/strong>: o desejo e sua interpreta\u00e7\u00e3o. Rio de Janeiro: Zahar, 2016.<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9. \u201cA interpreta\u00e7\u00e3o ordin\u00e1ria\u201d. In:\u00a0<strong>Arteira<\/strong>. Revista de Psican\u00e1lise n.09, 2017. pp. 11-26.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. \u201cA interpreta\u00e7\u00e3o pelo avesso\u201d.\u00a0<em><strong>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/strong><\/em>, S\u00e3o Paulo: Eolia, n.15, 1996. pp. 96-99.<\/h6>\n<h6>MILLER, Jacques-Alain.\u00a0<strong>Matemas I<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1996.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A.\u00a0 \u201cA inven\u00e7\u00e3o psic\u00f3tica\u201d.\u00a0<strong>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/strong>, S\u00e3o Paulo: Eolia, n. 36, 2003. P. 6-16.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. \u201cUma leitura do Semin\u00e1rio: de um Outro ao outro\u201d.\u00a0<strong>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/strong>, S\u00e3o Paulo: Eolia, n. 51, 2008. pp. 9-41.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A.\u00a0<strong>O ser e o Um<\/strong>, 2011. In\u00e9dito.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. \u201cMon\u00f3logo da aparola\u201d.\u00a0<strong>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana on line<\/strong>, n. 9, 2012. pp. 1-25 Dispon\u00edvel em:\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<a href=\"http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_9\/O_monologo_da_aparola.pdf\">http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_9\/O_monologo_da_aparola.pdf<\/a><\/h6>\n<h6>Acesso em mar\u00e7o de 2021.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. \u201cFalar com seu corpo\u201d.\u00a0<strong>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/strong><em>,\u00a0<\/em>S\u00e3o Paulo: Eolia, n. 66, 2013. pp. 11-17.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. \u201cInterpretar a crian\u00e7a\u201d. In:\u00a0<strong>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/strong>, n\u00famero 72, 2016. pp. 13-19.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A.; LAURENT, \u00c9. (1996)\u00a0<strong>El Outro que no existe y sus comit\u00e9s de \u00e9tica<\/strong>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2005.<\/h6>\n<h6>ROY, D. \u201cIntroduction. \u00c9nigme et D\u00e9fi\u201d. In:\u00a0<strong>Interpr\u00e9ter l\u2019enfant<\/strong>. Paris: Navarin \u00c9diteur, 2015. pp. 7-12.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/margaret-couto#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a>Texto apresentado no N\u00facleo de Pesquisa em Psican\u00e1lise com Crian\u00e7as em 19 de maio de 2021.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/margaret-couto#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a>\u00a0A tese da inexist\u00eancia do Outro foi discutida por Jacques Allain Miller e \u00c9ric Laurent no semin\u00e1rio\u00a0<em>El Otro que no existe y sus comit\u00e9s de \u00e9tica<\/em>\u00a0([1996] 2005).<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MARGARET PIRES DO COUTO P\u00f3s-doutorado em Teoria Psicanal\u00edtica pelo Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Aderente da Se\u00e7\u00e3o Minas Gerais da EBP coutomargaret@gmail.com Resumo:\u00a0Neste artigo, investigam-se os embara\u00e7os dos pais, especialmente do Outro materno, em traduzir o mal-estar das crian\u00e7as, o que os leva a recorrer cada vez mais ao saber&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57893,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[23],"tags":[],"class_list":["post-1749","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-27","category-23","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1749","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1749"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1749\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57894,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1749\/revisions\/57894"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57893"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1749"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1749"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1749"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}