{"id":1753,"date":"2021-07-19T06:40:41","date_gmt":"2021-07-19T09:40:41","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1753"},"modified":"2025-12-01T13:26:19","modified_gmt":"2025-12-01T16:26:19","slug":"eu-nao-sou-de-falar-muito-eu-danco1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2021\/07\/19\/eu-nao-sou-de-falar-muito-eu-danco1\/","title":{"rendered":"\u201cEU N\u00c3O SOU DE FALAR MUITO, EU DAN\u00c7O\u201d[1]\u00a0"},"content":{"rendered":"<h6>M\u00c1RCIA MEZ\u00caNCIO<br \/>\nPsicanalista, membro da EBP e AMP, mestre em Psicologia (Estudos psicanal\u00edticos) pela UFMG |<br \/>\n<span id=\"cloakaad155045ff97ff243e8c59468eb3de7\"><a href=\"mailto:marciasouzamezencio@gmail.com\">marciasouzamezencio@gmail.com<\/a><\/span><\/h6>\n<blockquote><p><strong>Resumo:\u00a0<\/strong>Coment\u00e1rio do filme\u00a0<em>Inoc\u00eancia roubada<\/em>, narrativa ficcional sobre a experi\u00eancia infantil de abuso sofrido pela protagonista e suas tentativas de dar tratamento ao trauma. Interrogam-se os efeitos, para o sujeito, da interpreta\u00e7\u00e3o dada pelo discurso jur\u00eddico. Prop\u00f5e-se que o que a justi\u00e7a faz valer \u00e9 a responsabilidade do sujeito por seu dizer, por sair do sil\u00eancio e confessar o segredo.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave:\u00a0<\/strong>Interpreta\u00e7\u00e3o, acontecimento traum\u00e1tico, gozo, responsabilidade.<\/p>\n<p><strong>I\u2019M NOT MUCH OF A TALKER, I\u2019D RATHER DANCE<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Abstract:\u00a0<\/strong>Commentary on the movie &#8220;Les chatouilles&#8221;, a fictional narrative about an experience of child abuse suffered by the protagonist and her attempts to treat her trauma. The effects, for the subject, of the interpretation given by the legal discourse are questioned. It is proposed that what justice enforces is the subject&#8217;s responsibility of saying it, for leaving the silence and confessing the secret.<\/p>\n<p><strong>Keywords:\u00a0<\/strong>Interpretation, traumatic event, jouissance, responsibility.<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_1754\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/listras_3.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"600\" data-large_image_height=\"450\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1754\" class=\"wp-image-1754 size-full\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/listras_3.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/listras_3.jpg 600w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/listras_3-300x225.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1754\" class=\"wp-caption-text\">M\u00e1rio Azevedo, S\/T, 2020\/2021.<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Come\u00e7a com as c\u00f3cegas e termina com a labareda de gasolina. Tudo isso \u00e9, sempre, o gozo\u00a0<\/em>(LACAN, 1969-1970\/1992, p. 68)<sup><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/marcia-mezencio#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a><\/sup>.<\/p>\n<p><em>Inoc\u00eancia roubada<\/em>\u00a0(2018) \u00e9 um filme dif\u00edcil de assistir. O tema \u00e9 delicado e sabemos que n\u00e3o se trata de uma fic\u00e7\u00e3o, mas de uma narrativa ficcional sobre a experi\u00eancia infantil de abuso sofrido pela protagonista e suas tentativas de dar tratamento ao trauma que faz sintoma em seu corpo para produzir uma medida que o sustente. O pr\u00f3prio filme, antecedido por uma pe\u00e7a teatral,\u00a0<em>Les chatouilles ou la danse de la col\u00e8re<\/em>, bem como a parceria amorosa, se insere na s\u00e9rie de tratamentos que o sujeito empreende. \u00c9ric Metayer escreveu e dirigiu pe\u00e7a e filme juntamente com Andr\u00e9a Bescond, de quem tamb\u00e9m \u00e9 marido.<\/p>\n<p>Dif\u00edcil de assistir, dif\u00edcil tamb\u00e9m de comentar, por abrir m\u00faltiplas vias que poderiam nos interessar e nos extraviar do tema proposto para nossa investiga\u00e7\u00e3o, como a rela\u00e7\u00e3o da menina com a m\u00e3e. N\u00e3o me deterei nela, apenas registro sua relev\u00e2ncia, bem como o impacto que nos provoca uma rea\u00e7\u00e3o de indigna\u00e7\u00e3o e incredulidade, mesmo advertidos da devasta\u00e7\u00e3o estrutural presente nessa rela\u00e7\u00e3o. Sem d\u00favida joga sua import\u00e2ncia na forma como a crian\u00e7a n\u00e3o encontra recursos nem defesa em rela\u00e7\u00e3o ao que lhe acontece.<\/p>\n<p>No tocante ao nosso tema trabalho \u201cA interpreta\u00e7\u00e3o: da escuta do sentido \u00e0 leitura do fora de sentido\u201d, a narrativa, grosso modo, aborda a interpreta\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio sujeito atrav\u00e9s da dan\u00e7a \u2014 e de muitas atua\u00e7\u00f5es perigosas que colocam seu corpo em risco \u2014, seguida pela interpreta\u00e7\u00e3o da psic\u00f3loga, que investe no restabelecimento da verdade e na busca de repara\u00e7\u00e3o, e conduz ao final, \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a, passando pelo aparelho policial (queixa) e judici\u00e1rio (julgamento e condena\u00e7\u00e3o). Aparentemente, essa \u00faltima interpreta\u00e7\u00e3o faz um ponto de basta e o sujeito se reconcilia com seu passado.<\/p>\n<p>Em psican\u00e1lise, a partir do momento em que se formula uma demanda, n\u00e3o se pode deixar de interrogar a interpreta\u00e7\u00e3o que ela veicula e n\u00e3o se pode tom\u00e1-la em sua literalidade. Tomando o filme sob a \u00f3tica da psican\u00e1lise, caberia ent\u00e3o perguntar: de que forma a psican\u00e1lise poderia interpretar e responder sem transigir de seus princ\u00edpios? Pode-se assinalar, no percurso apresentado pelo filme, o que teria enganchado o sujeito e lhe permitido avan\u00e7ar? Tratar-se-ia do al\u00edvio de falar? Ou da repara\u00e7\u00e3o da condena\u00e7\u00e3o? Que gozo se confessa ou se recusa? O sujeito, mesmo inocente, pode fazer-se respons\u00e1vel? Pelo menos daquilo que diz ou cala?<\/p>\n<p><em>Les chatouilles<\/em>, \u201cas c\u00f3cegas\u201d, esse \u00e9 o t\u00edtulo original e remete \u00e0 \u201cbrincadeira\u201d proposta pelo abusador. Logo de cara, pareceu-me infeliz a vers\u00e3o do t\u00edtulo para o portugu\u00eas.\u00a0<em>Inoc\u00eancia roubada<\/em>\u00a0coloca um acento sobre a posi\u00e7\u00e3o de v\u00edtima que, mesmo sendo um vi\u00e9s presente no filme, n\u00e3o ser\u00e1 a nossa via para abord\u00e1-lo. A tradu\u00e7\u00e3o literal, no caso,\u00a0<em>As c\u00f3cegas<\/em>, parece-me oferecer a possibilidade de se interrogar a resson\u00e2ncia desse significante sobre o corpo como marca do encontro traum\u00e1tico do sujeito com o sexual.<\/p>\n<p>Resenha do filme, publicada em\u00a0<em>Lacan Quotidien 867<\/em>, vai ao encontro dessa hip\u00f3tese. Cito: \u201cQuem n\u00e3o sucumbiu \u00e0s c\u00f3cegas (<em>aux chatouilles<\/em>) que lhe fez seu papai, seu titio, seu primo? \u00c9 uma palavrinha da linguagem da inf\u00e2ncia, tal como \u201ccosquinhas\u201d (<em>papouilles<\/em>), ainda mais pr\u00f3xima de lal\u00edngua, t\u00e3o corrente e t\u00e3o sugestiva\u201d<sup><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/marcia-mezencio#_edn1\" name=\"_ednref1\">[3]<\/a><\/sup>. (LECLERC-RAZAVET, 2020). Tamb\u00e9m em portugu\u00eas essa aproxima\u00e7\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, pois a lal\u00edngua igualmente se serve da forma diminutiva, que, em geral, \u00e9 utilizada para transmitir carinho ou intimidade. Algo do dizer que toca e ressoa no corpo, um dizer que faz acontecimento (MILLER, 2016, p. 28). Como afirma Miller em seu curso\u00a0<em>O ser e o Um\u00a0<\/em>(2011)<em>,<\/em>\u00a0o acontecimento de corpo \u00e9 a \u201cpercuss\u00e3o\u201d da l\u00edngua sobre o corpo, \u00e9 o traumatismo da l\u00edngua e \u00e9 da ordem de um real sem lei. Real sem sentido que surge do impacto das palavras sobre o corpo, que est\u00e1 na raiz do sintoma.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O filme<\/em><\/p>\n<p>Diferentemente da f\u00f3rmula das narrativas de hist\u00f3rias infantis \u201centrou por uma porta e saiu por outra\u201d, vemos, no in\u00edcio do filme, a menina Odette entrando por uma porta (reencontraremos essa porta no final do filme) pela qual n\u00e3o a vemos sair. Do lado de fora, j\u00e1 adulta, apresenta-se seu primeiro encontro com a terapeuta e a primeira vez que fala sobre o abuso que sofrera na inf\u00e2ncia, dos oito aos doze anos, por parte de um amigo pr\u00f3ximo de seus pais. Ela tem ent\u00e3o por volta de trinta anos e, depois de vinte anos de sil\u00eancio, o trauma fez seu retorno ruidoso.<\/p>\n<p>A dan\u00e7a \u00e9 a paix\u00e3o de Odette, para o melhor e para o pior. Percorre e costura a trama alternando-se com\u00a0<em>flashbacks<\/em>\u00a0de abuso, narrados em sess\u00e3o, entre literalidade e fantasia. Em dado momento, em uma situa\u00e7\u00e3o de trabalho degradada, sofre uma queda e um entorse no tornozelo. Desse acidente de trabalho, decorre um bom encontro com um osteopata, o amor se instala e, com ele, um apaziguamento provis\u00f3rio. Surgem melhores oportunidades de trabalho e o projeto de viverem juntos. Um desentendimento violento sobrev\u00e9m ao encontro do casal com os pais de Odette e o sujeito cai, abandonado. Pela m\u00e3e, sempre excessivamente exigente, e pelo companheiro, desgastado pela sombra de um meio-dizer da parte de Odette: \u201cescondendo as coisas de mim, voc\u00ea pode me perder. Estou sempre te esperando, sem saber se vai chegar e como. N\u00e3o quero mais isso\u201d, ele diz. A terapeuta a encoraja a falar com ele e tamb\u00e9m com os pais, revelar-lhes seu segredo e seu sofrimento, ao que ela se recusa inicialmente. Quando finalmente se decide a conversar com os pais, a m\u00e3e acusa a filha de mentir, coloca a aten\u00e7\u00e3o na gravidade da acusa\u00e7\u00e3o e desconsidera a gravidade do fato. O pai se revolta, se culpa e pede perd\u00e3o. \u00c9 o que permite a Odette prestar queixa. J\u00e1 a recusa da m\u00e3e em responder \u00e0 sua demanda de amor precipita a demanda ao parceiro, que a acolhe. O abusador \u00e9 levado ao tribunal e \u00e9 condenado.<\/p>\n<p>Na cena final, na \u00faltima sess\u00e3o, Odette enuncia seu desejo de ouvir da m\u00e3e uma palavra de acolhimento, um \u201ceu sinto muito\u201d. Entra novamente pela mesma porta do in\u00edcio e se \u201creencontra\u201d com Odette menina, desenhando. Ela diz ter abandonado a menina que foi e a convida a seguir consigo resgatando o fio da vida: \u201cN\u00e3o sou uma morta-viva\u201d. Se n\u00e3o p\u00f4de contar com a m\u00e3e, poder\u00e1 contar consigo mesma.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Sair do nevoeiro: \u201cJ\u00e1 falou com algu\u00e9m?\u201d<\/em><\/p>\n<p>Ao final da primeira entrevista, a psic\u00f3loga diz que vai encaminhar Odette a um colega especializado: \u201ca pessoa certa para ajud\u00e1-la\u201d. Odette responde que \u00e9 a primeira vez que falou sobre o que lhe aconteceu e que n\u00e3o vai falar com mais ningu\u00e9m: \u201cn\u00e3o sou de falar muito, eu dan\u00e7o\u201d. Diante da terapeuta que quer encaminh\u00e1-la a um \u201cespecialista\u201d, o sujeito recusa decididamente e a chama \u00e0 responsabilidade pela escuta: \u201cnunca falei antes com ningu\u00e9m! N\u00e3o vou falar com mais ningu\u00e9m!\u201d. A psic\u00f3loga tamb\u00e9m insiste no tratamento formal \u201cpara manter a dist\u00e2ncia\u201d. Odette quer ser chamada pelo seu nome pr\u00f3prio. A psic\u00f3loga consente com a decis\u00e3o do sujeito e assim se inicia o desenrolar das sess\u00f5es, nas quais ela n\u00e3o conseguir\u00e1 \u201cse manter a dist\u00e2ncia\u201d; pelo contr\u00e1rio, se faz presente, testemunha das rememora\u00e7\u00f5es, fantasias (no sentido de sonhos diurnos), constru\u00e7\u00f5es, como tamb\u00e9m faz oposi\u00e7\u00e3o ao risco em que Odette se coloca reiteradamente. Sua presen\u00e7a, fora de lugar e atrapalhada, ainda assim faz limite, o que permite ao sujeito dar contornos ao trauma. De certa forma d\u00f3cil a se deixar ensinar pelo saber do sujeito, aceitando abandonar todo saber pr\u00e9vio, ela aposta na fala como terap\u00eautica: \u201cfalar \u00e9 o princ\u00edpio da aceita\u00e7\u00e3o, do al\u00edvio da dor\u201d.<\/p>\n<p>Entendo que n\u00e3o se trata de se aferrar a esse efeito terap\u00eautico da fala nem a seu oposto, de considerar que as palavras n\u00e3o s\u00e3o necess\u00e1rias. Encontrei as duas vertentes nas cr\u00edticas sobre o filme. Se h\u00e1 aquela que considera que a \u201cnarrativa inteira serve de prepara\u00e7\u00e3o para a hora em que Andr\u00e9a ter\u00e1 palavras para falar\u201d (CARMELO,2018) e se decepciona com o recurso de encobrir a fala pela m\u00fasica e, ainda uma vez, pela dan\u00e7a, h\u00e1, por outro lado, o elogio \u00e0s<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cescolhas art\u00edsticas das cenas do desfecho, pois opta por sensibilidade, pelo n\u00e3o dizer com palavras \u2014 estas n\u00e3o s\u00e3o necess\u00e1rias. Odette n\u00e3o fala, Odette dan\u00e7a. Em cada movimento vemos sua hist\u00f3ria sendo expelida, as palavras que lhe foram roubadas, reprimidas, traduzidas na intensidade da sua arte\u201d (TEISTER, 2019).<\/p>\n<p>No que se refere ao \u201cfalar faz bem\u201d, a pr\u00e1tica da psican\u00e1lise esclarece que n\u00e3o se trata de qualquer palavra nem de qualquer jeito, pois, se as palavras parecem desnecess\u00e1rias, isso se deve a que, do que se trata no trauma, estas s\u00e3o sempre inadequadas e insuficientes para dizer. As palavras faltam para dizer o real. Sabemos, com Freud e Lacan, que o encontro do sujeito com o sexo \u00e9 traum\u00e1tico, \u00e9 antes um desencontro, pois o fracasso \u00e9 a regra. O sil\u00eancio \u00e9 a marca do encontro com o real,<em>\u00a0Troumatisme<\/em>, e n\u00e3o pode ser interpretado muito rapidamente.<\/p>\n<p>\u201cA pr\u00e1tica da psican\u00e1lise ensina que n\u00e3o se trata de buscar o real como a verdade. A pr\u00e1tica e a an\u00e1lise ensinam que \u00e9 o real que nos encontra\u201d (TARRAB, 2021) \u00e9 o que Maur\u00edcio Tarrab nos lembra perguntando \u201cO que o sujeito encontra que h\u00e1 que fazer notar? O ponto de gozo da repeti\u00e7\u00e3o\u201d. Observa ainda que \u201cfazer-se de buscadores da verdade, detetives do mist\u00e9rio do sofrimento sintom\u00e1tico\u201d, diante do encontro com um imposs\u00edvel de curar, constitui uma nova ferocidade que \u201cmuitas vezes vem tomar o lugar da ferocidade curativa\u201d. Tamb\u00e9m sabemos, com Lacan, que o sujeito n\u00e3o falar\u00e1 o trauma que \u00e9 falado no sintoma. Do real, n\u00e3o se diz que \u00e9 ininterpret\u00e1vel, indiz\u00edvel? Se o trauma se cala, o sintoma o repete e faz barulho. O que se pode, no\u00a0<em>apr\u00e8s-coup<\/em>, tentar apreender pela fala?<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cPara o analista, n\u00e3o se trata de for\u00e7ar que se diga tudo, tampouco de fazer uma promessa sobre o porvir. Trata-se de se oferecer como interlocutor, sustentando o que o sujeito possa dizer para circunscrever o acontecimento traum\u00e1tico na cena anal\u00edtica\u201d (URRIOLAGOITIA, 2020, p. 156).<\/p>\n<p>Apesar de n\u00e3o esclarecida, algo da presen\u00e7a da psic\u00f3loga e pelo menos uma interven\u00e7\u00e3o bastante precisa parecem ter operado e permitido ao sujeito circunscrever aquilo que toca o seu corpo. Recorto a cena em que a psic\u00f3loga vibra \u201cporque est\u00e1 ficando mais concreto\u201d (trata-se da narrativa n\u00e3o fantasiada de uma cena de abuso). Na sequ\u00eancia, Odette pergunta: \u201cPor que ele continuava se estava claro que eu n\u00e3o gostava?\u201d. A resposta \u00e9 direta:\u00a0<strong>\u201cPorque \u00e9 um estupro, vamos sair daqui\u201d<\/strong>.<\/p>\n<p>\u00c9 uma forma de nomear que faz borda ao real, ainda que a orienta\u00e7\u00e3o dada pela psic\u00f3loga seja de restabelecer a verdade e a fantasia seja tratada como uma fuga, como nas interven\u00e7\u00f5es: \u201cnos desviamos, vamos voltar\u201d ou \u201cv\u00e1 devagar com o mundo da fantasia\u201d. Em outro momento, ela admite que \u201ccontar na fantasia \u00e9 um primeiro passo para contar na realidade\u201d, mas sua refer\u00eancia segue sendo a verdade.<\/p>\n<p>Vemos que o recurso \u00e0 fantasia \u00e9 decisivo para Odette. Na fantasia diz a seu amigo Manu: \u201cN\u00e3o consigo tirar isso da cabe\u00e7a\u201d. Ao que ele responde: \u201c<strong>Ent\u00e3o n\u00e3o tente! Conviva com isso (<em>fais avec<\/em>)! Uma lembran\u00e7a n\u00e3o pode te comer viva!\u00a0<\/strong>(em lugar de conviva com isso, podemos escutar: se arranje, se vire, fa\u00e7a alguma coisa com isso).<\/p>\n<p>Questionando-me o que teria operado para que Odette sa\u00edsse do sil\u00eancio que a mortificava, deparei-me com essa \u201cautointerpreta\u00e7\u00e3o\u201d. Pensei que poder\u00edamos aproxim\u00e1-la do c\u00e9lebre aforisma \u201cpode-se prescindir com a condi\u00e7\u00e3o de servir-se (do Nome-do-Pai)\u201d. Quanto a servir-se do pai, tamb\u00e9m em uma \u201clembran\u00e7a fantasiada\u201d, a menina apela ao pai para ensaiar um primeiro n\u00e3o ao abusador: \u201cMeu pai vai chegar\u201d.<\/p>\n<p>Como fazer dessa lembran\u00e7a que a assombra algo que vivifique seu corpo? Esse corpo agitado pela raiva (<em>col\u00e8re<\/em>). Num workshop de dan\u00e7a, o professor diz que ela dan\u00e7a \u201csem t\u00e9cnica, mas com emo\u00e7\u00e3o.\u00a0<strong>\u00c9 o corpo de uma crian\u00e7a que sofre<\/strong>\u201d, interpreta. \u201cSua dan\u00e7a \u00e9 intensa, muito poderosa, mas voc\u00ea precisa sair do nevoeiro. J\u00e1 falou com algu\u00e9m? N\u00e3o quer falar com algu\u00e9m?\u201d.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>O que se confessa?<\/em><\/p>\n<p>Para Serge Cottet (2014), h\u00e1 dificuldade na atualidade para defender a vig\u00eancia da teoria freudiana do trauma, para a qual \u00e9 necess\u00e1rio considerar a import\u00e2ncia da presen\u00e7a do sexual na crian\u00e7a e que n\u00e3o haveria traumatizados se n\u00e3o houvesse satisfa\u00e7\u00e3o associada. A crian\u00e7a a experimenta sem poder traduzi-la. O trauma \u00e9 a marca indel\u00e9vel que fica, como um \u201ceco na vida de uma primeira vez\u201d (COTTET, 2014, p. 33). O fato de que a sociedade atual v\u00ea a crian\u00e7a como v\u00edtima potencial do adulto perverso n\u00e3o deixa espa\u00e7o para incluir a satisfa\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria da sexualidade infantil, reatualizada no segundo tempo do trauma.<\/p>\n<p>A esse respeito, outra cena do filme \u00e9 esclarecedora. Odette retorna de uma turn\u00ea \u2014 que lhe serviria para manter, segundo suas palavras, dist\u00e2ncia do passado ou para que o passado a esquecesse \u2014 devastada pelas drogas, pelas rela\u00e7\u00f5es m\u00faltiplas e ocasionais e pela solid\u00e3o. Na sess\u00e3o, a psic\u00f3loga insiste: \u201cfaz bem falar sobre o que houve, confessar\u201d. Ao que Odette responde: \u201cconfessar o qu\u00ea, eu sou inocente!\u201d. \u201cConfessar n\u00e3o foi uma boa palavra. Revelar, contar a algu\u00e9m\u201d, corrige a psic\u00f3loga. Nesse di\u00e1logo temos mais uma \u201cconfus\u00e3o de l\u00ednguas\u201d: a legenda traduz\u00a0<em>avouer<\/em>\u00a0(confessar) por contar, o que torna sem sentido a resposta \u201ceu sou inocente\u201d.<\/p>\n<p>Para Odette, contar aos pais seria destruir a vida deles. Tamb\u00e9m n\u00e3o podia contar para o homem que ama que foi abusada quando crian\u00e7a, pois ele fugiria. \u201cJ\u00e1 passou o tempo\u201d, ela diz (de que tempo se trata? da sess\u00e3o? da den\u00fancia? da fala?).<\/p>\n<p>Cabe perguntar, finalmente, a fun\u00e7\u00e3o e o efeito da apresenta\u00e7\u00e3o da queixa e do julgamento (resposta do judici\u00e1rio). Segundo Leclerc-Razavet (2020), a den\u00fancia seria a chave do filme e tornar p\u00fablico possibilitou ao sujeito \u201csair da\u00a0<em>omert\u00e1<\/em>, da vergonha, de uma posi\u00e7\u00e3o de v\u00edtima, com a necessidade de elaborar sua pr\u00f3pria resposta face a esse real que pode sempre ressurgir\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de esperar que a resolu\u00e7\u00e3o do trauma seja a repara\u00e7\u00e3o outorgada pela justi\u00e7a, mas de abrir o campo da responsabilidade atrav\u00e9s dela. O filme \u00e9 fiel a seu tempo e se engaja na esteira do #metoo. O acusado \u00e9 reincidente e \u00e9 de outra v\u00edtima que se mostra o depoimento na cena do julgamento. No entanto, como nos lembra Clotilde Leguil (2017), \u201co sintoma n\u00e3o \u00e9 formulado atrav\u00e9s de um (&#8230;) \u2018n\u00f3s, as v\u00edtimas\u2019 (&#8230;). Ele se formula a partir de um eu remetido \u00e0 pr\u00f3pria opacidade (&#8230;) que escapa ao sentido comum\u201d. O sujeito responde sozinho por ele.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse sentido que Leclerc-Razavet (2020) conclui:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cEssa marca traum\u00e1tica de gozo deve ser \u2018carregada\u2019 pelo sujeito, uma vez reconhecida sua posi\u00e7\u00e3o de v\u00edtima \u2014 um momento l\u00f3gico inevit\u00e1vel. O que ele far\u00e1 com isso? Isso \u00e9 o que lhe pertence, para se afastar dessa posi\u00e7\u00e3o de v\u00edtima, e assim recuperar seu desejo e seu orgulho\u201d.<\/p>\n<p>No julgamento, o abusador ainda declara: \u201cEla consentiu. Gostava, se oferecia. Eu deveria recusar? N\u00e3o faz sentido\u201d.<\/p>\n<p>Se se poderia falar em consentimento nessa situa\u00e7\u00e3o, seria de um consentimento, enfim, em dizer, em tornar p\u00fablico e sair do sil\u00eancio culpado de algu\u00e9m que, em nome de preservar os pais, renovava a culpa, ainda que n\u00e3o tivesse, na ocasi\u00e3o dos abusos, os meios de dizer n\u00e3o. Leguil prop\u00f5e o aforisma \u201cceder n\u00e3o \u00e9 consentir\u201d, que podemos parafrasear, em refer\u00eancia a um ditado bem conhecido, para sustentar que \u201ccalar n\u00e3o \u00e9 consentir\u201d, pois \u201co abuso \u00e9 aqui o poder que faz calar o sujeito sem que ele o perceba\u201d (LEGUIL, 2021).<\/p>\n<p>O que se confessa, afinal? H\u00e9l\u00e8ne Bonnaud (2021) articula que<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cH\u00e1, portanto, um gozo em calar-se que afeta a domina\u00e7\u00e3o do agressor, mas tamb\u00e9m a fala como segredo que mant\u00e9m o pacto, tacitamente ou n\u00e3o. O segredo sela a rela\u00e7\u00e3o do estuprador com a crian\u00e7a estuprada, uma condi\u00e7\u00e3o ainda marcada pela culpa. Se ent\u00e3o denunciar o segredo que protege o estuprador, permite n\u00e3o s\u00f3 liberar a palavra do segredo compartilhado, mas tamb\u00e9m da culpa ligada a ele. Sigilo e culpa formam uma parceria que aliena o sujeito ao Outro gozador, dando-lhe todo o poder e permitindo-lhe manter o v\u00ednculo perverso com seu objeto. (&#8230;) O segredo ent\u00e3o traz muita depress\u00e3o e culpa porque afeta a palavra que est\u00e1 a\u00ed, de fato, proibida e isso sob o pretexto de privacidade compartilhada\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E o que diz a lei?<\/em><sup><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/marcia-mezencio#_edn2\" name=\"_ednref2\">[4]<\/a><\/sup><\/p>\n<p>A partir desses recortes, localizam-se os pontos de contato e os de separa\u00e7\u00e3o entre psican\u00e1lise e direito. A interpreta\u00e7\u00e3o jur\u00eddica, ao apontar para a responsabilidade do adulto, desresponsabiliza o sujeito (por seu gozo, ainda que de sua posi\u00e7\u00e3o de v\u00edtima) sob o manto da incapacidade de discernimento, o que sinaliza a delicada posi\u00e7\u00e3o em que a psican\u00e1lise se sustenta. Proponho que o que a justi\u00e7a faz valer \u00e9 a responsabilidade do sujeito por seu dizer, por sair do sil\u00eancio e confessar o segredo.<\/p>\n<p>A reflex\u00e3o sobre a sexua\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as, tema da recente Journ\u00e9e de l\u2019enfant, na Fran\u00e7a, bem como a atualidade da quest\u00e3o trans, renova, para o direito, uma quest\u00e3o que gira em torno dos temas maioridade sexual, abuso de vulner\u00e1vel, consentimento (referido \u00e0 capacidade de discernimento) e prescri\u00e7\u00e3o. Temas que nos interessam diretamente em rela\u00e7\u00e3o ao desfecho da a\u00e7\u00e3o judicial no filme que estamos comentando.<\/p>\n<p>Deduz-se a maioridade sexual do limite de idade para a rela\u00e7\u00e3o consentida com um menor de idade (os termos s\u00e3o da lei francesa): \u201ccom menos de quinze anos, o menor n\u00e3o est\u00e1 em condi\u00e7\u00f5es de consentir em uma conduta sexual, ele ser\u00e1 obrigatoriamente considerado como n\u00e3o consentindo\u201d (FAYOL-NOIRETERRE, 2021). Considera-se a presun\u00e7\u00e3o de n\u00e3o-discernimento do estabelecimento desse limite. Cabia decis\u00e3o do juiz sobre esse limite, que, para alguns, deveria ser obrigat\u00f3rio e n\u00e3o discut\u00edvel. Essa modifica\u00e7\u00e3o foi, de fato, incorporada \u00e0 lei em abril de 2021.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 prescri\u00e7\u00e3o da punibilidade das infra\u00e7\u00f5es sexuais, contados a partir da maioridade da v\u00edtima, considerava-se o prazo de vinte anos para delitos e de trinta anos para crimes. O prazo \u00e9 consideravelmente maior em rela\u00e7\u00e3o aos demais crimes e ainda existe debate sobre a imprescritibilidade desses atos. Fayol-Noireterre considera que esse debate reflete uma sociedade \u201cvitim\u00e1ria\u201d, \u201conde as regras s\u00e3o definidas pelas supostas necessidades das v\u00edtimas de reconhecimento judicial, ou puni\u00e7\u00e3o\u201d. Esses prazos foram revistos e aumentados pela reforma de abril de 2021. E as puni\u00e7\u00f5es, em sentido id\u00eantico, tornaram-se mais duras<sup><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/marcia-mezencio#_edn3\" name=\"_ednref3\">[5]<\/a><\/sup>.<\/p>\n<p>Do filme, ecoa a quest\u00e3o: \u201ca dor prescreve?\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas:<\/strong><\/h6>\n<h6>BONNAUD, H. \u201cInceste et secrets de famille\u201d.\u00a0<strong>Lacan Quotidien<\/strong>, n. 910. 2021. Dispon\u00edvel em\u00a0<a href=\"https:\/\/lacanquotidien.fr\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/LQ-910.pdf\">https:\/\/lacanquotidien.fr\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/LQ-910.pdf<\/a>. Acesso em: 05 mai. 2021.<\/h6>\n<h6>CARMELO, B. \u201cA festa \u00e9 minha, eu fa\u00e7o o que eu quiser\u201d. 2018. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.adorocinema.com\/filmes\/filme-256702\/criticas-adorocinema\/\">https:\/\/www.adorocinema.com\/filmes\/filme-256702\/criticas-adorocinema\/<\/a>. Acesso em: 05 mai. 2021.<\/h6>\n<h6>COTTET, S. \u201cFreud et l\u2019actualit\u00e9 du trauma\u201d.\u00a0<strong>La Cause du d\u00e9sir<\/strong>. Paris: ECF, n\u00b0 86, 2014, pp. 27-33.<\/h6>\n<h6>FAYOL-NOIRETERRE, J.-M. \u201cMajorit\u00e9 sexuelle, consentement, prescription\u201d. 2021. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"https:\/\/institut-enfant.fr\/zappeur-jie6\/majorite-sexuelle-consentement-prescription\/\">https:\/\/institut-enfant.fr\/zappeur-jie6\/majorite-sexuelle-consentement-prescription\/<\/a>. Acesso em: 03 mai. 2021.<\/h6>\n<h6>INOC\u00caNCIA roubada. Dir. Andr\u00e9a Bescond e \u00c9ric Metayer. Fran\u00e7a. 103 min. Cor. Les Films du kiosque. 2018.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1969-70)\u00a0<strong>O Semin\u00e1rio, livro 17<\/strong>: o avesso da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992.<\/h6>\n<h6>LECLERC-RAZAVET, E. \u201cLes chatouilles ou la danse de la col\u00e8re\u201d.\u00a0<strong>Lacan Quotidien<\/strong>\u00a0867. 2020. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"https:\/\/lacanquotidien.fr\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/LQ-867.pdf\">https:\/\/lacanquotidien.fr\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/LQ-867.pdf<\/a>. Acesso em: 03 mai. 2021.<\/h6>\n<h6>LEGUIL, C. \u201cIlus\u00e3o do n\u00f3s, verdade do Eu (Je): abordagem lacaniana da identidade\u201d.\u00a0<strong>Op\u00e7\u00e3o lacaniana online<\/strong>\u00a0n. 22. 2017. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_22\/Ilusao_do_nos_verdade_do_eu_(je).pdf\">http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_22\/Ilusao_do_nos_verdade_do_eu_(je).pdf<\/a>. Acesso em: 05 mai. 2021.<\/h6>\n<h6>LEGUIL, C. \u201cLe consentement au nom de La familia grande<em>.<\/em>\u201d In:\u00a0<strong>Lacan Quotidien<\/strong>\u00a0910. 2021. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"https:\/\/lacanquotidien.fr\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/LQ-910.pdf\">https:\/\/lacanquotidien.fr\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/LQ-910.pdf<\/a>. Acesso em: 05 mai. 2021.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A.\u00a0<strong>O ser e o Um.<\/strong>\u00a0Curso de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana, 2011. In\u00e9dito.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. \u201cO inconsciente e o corpo falante\u201d.\u00a0<strong>Scilicet<em>:\u00a0<\/em>O Corpo Falante \u2013 Sobre o inconsciente no s\u00e9culo XXI<\/strong>. S\u00e3o Paulo: EBP, 2016, p. 19-32.<\/h6>\n<h6>TARRAB, M. \u201cComent\u00e1rio sobre \u2018A psicose e a m\u00e1quina de interpretar\u2019 em Belo Horizonte\u201d.\u00a0<strong>Almanaque online<\/strong>, Belo Horizonte, IPSMMG, n. 27, 2021.<\/h6>\n<h6><strong>TEISTER, T. \u201c<em>Inoc\u00eancia roubada<\/em>: viagem dentro do trauma e da dor\u201d. 2019. Dispon\u00edvel em:\u00a0<\/strong><a href=\"https:\/\/cinemacomrapadura.com.br\/criticas\/561915\/critica-inocencia-roubada-2018-viagem-dentro-do-trauma-e-da-dor\/\">https:\/\/cinemacomrapadura.com.br\/criticas\/561915\/critica-inocencia-roubada-2018-viagem-dentro-do-trauma-e-da-dor\/<\/a><strong>.\u00a0<\/strong>Acesso em: 05 mai. 2021.<\/h6>\n<h6>URRIOLAGOITIA, G. \u201cO sonho traum\u00e1tico e a tiqu\u00ea<em>\u201d<\/em>.\u00a0<strong>Scilicet: O Sonho \u2013 sua interpreta\u00e7\u00e3o e seu uso no tratamento lacaniano<\/strong>. S\u00e3o Paulo: EBP, 2020, p. 155-156.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6>[1]\u00a0Texto apresentado no N\u00facleo de Pesquisa em Psican\u00e1lise e Direito do IPSMMG, em 14\/05\/2021.<\/h6>\n<h6>[2]\u00a0Agrade\u00e7o a Ludmilla F\u00e9res Faria a lembran\u00e7a dessa cita\u00e7\u00e3o de Lacan.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/marcia-mezencio#_ednref1\" name=\"_edn1\">[3]<\/a>\u00a0Essa tradu\u00e7\u00e3o, como as demais de refer\u00eancias em franc\u00eas, foi feita por mim.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/marcia-mezencio#_ednref2\" name=\"_edn2\">[4]<\/a>\u00a0Recolhi algumas informa\u00e7\u00f5es sobre a legisla\u00e7\u00e3o francesa, no que se refere \u00e0s infra\u00e7\u00f5es sexuais, no boletim eletr\u00f4nico da jornada citada, publicado em 21 de janeiro, em artigo de autoria de Jean-Marie Fayol-Noireterre, magistrado. A lei francesa foi modificada em abril de 2021. Agrade\u00e7o a Jos\u00e9 Xavier, advogado em Belo Horizonte, pela pesquisa sobre a legisla\u00e7\u00e3o, bem como pela participa\u00e7\u00e3o e esclarecimentos apresentados na discuss\u00e3o desse coment\u00e1rio na atividade do N\u00facleo de Psican\u00e1lise e Direito.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/marcia-mezencio#_ednref3\" name=\"_edn3\">[5]<\/a>\u00a0O entendimento transmitido por Jos\u00e9 Xavier consoa com o coment\u00e1rio de J.-A. Miller quanto \u00e0 docilidade do legislador ao clamor p\u00fablico. Se, por um lado, a extens\u00e3o dos prazos de punibilidade \u00e9 um avan\u00e7o ao incluir a considera\u00e7\u00e3o do tempo subjetivo e \u00eanfase na fun\u00e7\u00e3o reparadora da justi\u00e7a, o endurecimento das penas responde mais a um anseio popular por vingan\u00e7a, acentuando, ent\u00e3o, a fun\u00e7\u00e3o retributiva da justi\u00e7a.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00c1RCIA MEZ\u00caNCIO Psicanalista, membro da EBP e AMP, mestre em Psicologia (Estudos psicanal\u00edticos) pela UFMG | marciasouzamezencio@gmail.com Resumo:\u00a0Coment\u00e1rio do filme\u00a0Inoc\u00eancia roubada, narrativa ficcional sobre a experi\u00eancia infantil de abuso sofrido pela protagonista e suas tentativas de dar tratamento ao trauma. Interrogam-se os efeitos, para o sujeito, da interpreta\u00e7\u00e3o dada pelo discurso jur\u00eddico. 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