{"id":1758,"date":"2021-07-19T06:40:41","date_gmt":"2021-07-19T09:40:41","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1758"},"modified":"2025-12-01T13:26:44","modified_gmt":"2025-12-01T16:26:44","slug":"a-psicose-e-a-maquina-de-interpretar1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2021\/07\/19\/a-psicose-e-a-maquina-de-interpretar1\/","title":{"rendered":"A PSICOSE E A M\u00c1QUINA DE INTERPRETAR[1]\u00a0"},"content":{"rendered":"<h6><strong>Mauricio Tarrab<br \/>\n<\/strong>Psicanalista, Membro da EOL \/AMP |<br \/>\n<span id=\"cloakadbba884c3455f6a350f0389d34a84f8\"><a href=\"mailto:mauricio.tarrab@gmail.com\">mauricio.tarrab@gmail.com<\/a><\/span><\/h6>\n<blockquote><p><strong>Resumo:\u00a0<\/strong>Neste texto o autor retoma e comenta outra publica\u00e7\u00e3o de sua autoria, \u201cA psicose e a m\u00e1quina de interpretar\u201d, e resgata a ideia de que o real, fora do sentido, coloca em funcionamento uma m\u00e1quina de produzir fic\u00e7\u00f5es e que a pr\u00f3pria psican\u00e1lise pode fazer funcionar essa m\u00e1quina de produzir sentido. Ele ressalva, no entanto, que, com o ensino de Lacan, \u00e9 poss\u00edvel ir al\u00e9m do campo ficcional, e \u00e9 esse al\u00e9m que o autor desdobra em seu texto.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave:<\/strong>\u00a0real, interpreta\u00e7\u00e3o, psicose.<\/p>\n<p><strong>Psychosis and the interpreting machine<\/strong><\/p>\n<p><strong>Abstract:<\/strong>\u00a0In this essay, the author revisits and comments on another publication of his, \u201cPsychosis and the interpreting machine\u201d, bringing back the idea that the real, being outside of meaning, puts into operation a machine that produces fictions and that psychoanalysis itself, can make this machine of meaning production work. He points out, however, that with Lacan&#8217;s teaching, it is possible to go beyond the fictional field and it is this beyond that the author unfolds in his text.<\/p>\n<p><strong>Keywords:<\/strong>\u00a0real, interpretation, psychosis.<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_1759\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/listras_8.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"600\" data-large_image_height=\"441\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1759\" class=\"wp-image-1759 size-full\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/listras_8.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"441\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/listras_8.jpg 600w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/listras_8-300x221.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1759\" class=\"wp-caption-text\">M\u00e1rio Azevedo, S\/T, 2020\/2021.<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em raz\u00e3o do convite que me fizeram, voltei a ler, com certa dist\u00e2ncia, meu texto \u201cAs psicoses e a m\u00e1quina de interpretar\u201d (TARRAB, 2018) para retomar uma tem\u00e1tica que sempre me pareceu apaixonante. O texto extrai consequ\u00eancias de uma pontua\u00e7\u00e3o de Jacques-Alain Miller.<\/p>\n<p>Miller faz essas pontua\u00e7\u00f5es em formula\u00e7\u00f5es de Lacan, que ele espreme, retorce, desenvolve, combina, separa, mas, de onde, fundamentalmente, extrai consequ\u00eancias. Ler e escrever est\u00e3o nesse \u201cm\u00e9todo\u201d que Miller coloca em jogo. L\u00ea-se a partir dessas pontua\u00e7\u00f5es e isso permite escrever algo novo. No argumento do semestre escrito por Cristiana Pittella, pude ver que trabalhar\u00e3o a partir da refer\u00eancia desse texto extraordin\u00e1rio de Miller, \u201cLer um sintoma\u201d (2016), e, de fato, em uma s\u00e9rie de Noites da Escuela de la Orient\u00e1cion Lacaniana (EOL) que organizei com Silvia Salman, trabalharemos algumas pontua\u00e7\u00f5es, uma delas sobre a interpreta\u00e7\u00e3o, e o que resta como um<em>\u00a0x<\/em>\u00a0mais al\u00e9m da interpreta\u00e7\u00e3o freudiana.<\/p>\n<p>O tema \u00e9 t\u00e3o fundamental que come\u00e7ou com a interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos&#8230; mas \u00e9 preciso centrar-se em um tema, fazer-lhe bordas, cerc\u00e1-lo, para que a fuga de sentido n\u00e3o nos extravie. O que me atrevi a dizer nesse texto, que voc\u00eas t\u00e3o amavelmente tomaram e que apresentei em uma Mesa Plen\u00e1ria no Congresso da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise em Paris, \u00e9 que \u201ch\u00e1 uma m\u00e1quina de interpretar\u201d e que essa m\u00e1quina de interpretar funciona porque h\u00e1 uma debilidade para afrontar o real. Parti de uma pontua\u00e7\u00e3o fundamental, que \u00e9 a de que\u00a0<em>a debilidade chamada mental consagra o corpo falante ao del\u00edrio<\/em>, ou seja, que o consagra \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o. Se a radicalizarmos, podemos dizer que n\u00e3o h\u00e1 outra possibilidade para o ser falante que delirar. O que faz tamb\u00e9m que, com isso, digamos que o del\u00edrio \u00e9 normal. Uma formula\u00e7\u00e3o que Lacan extrai de Freud mesmo.<\/p>\n<p>Lacan o diz de muitas formas, por exemplo, que \u00e9 uma evid\u00eancia fundamental em uma an\u00e1lise perceber que se fala s\u00f3 no semblante&#8230; e para isso n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio ser psic\u00f3tico.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o del\u00edrio, ainda que normal, e isso j\u00e1 est\u00e1 em Freud, est\u00e1 do lado da resposta ao real, que, como tal, \u00e9 fora de sentido e \u00e9 o que faz colocar em marcha essa m\u00e1quina eficaz, \u00e0s vezes infernal, \u00e0s vezes tonta, de produzir sentido. Sejamos precisos&#8230; de produzir fic\u00e7\u00f5es. E essa ideia reabre o grande cap\u00edtulo da psicopatologia, desde as psicoses \u00e0 psicopatologia da vida cotidiana.<\/p>\n<p>Penso que, a partir de um certo momento, pode-se ler o alcance do ensino de Lacan como um modo de comprovar se seria poss\u00edvel ir um pouco mais al\u00e9m do campo ficcional. At\u00e9 chegar a formular a aspira\u00e7\u00e3o em termos condicionais sobre a possibilidade de um discurso que n\u00e3o fosse do semblante.<\/p>\n<p>O que existe de ficcional na pr\u00f3pria psican\u00e1lise impeliu Lacan at\u00e9 o final. Existem os discursos, sim, mas, no final, os discursos n\u00e3o s\u00e3o mais que uma articula\u00e7\u00e3o significante que governam as palavras e incidem nos corpos. Humpty Dumpty<sup><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/mauricio-tarrab#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a><\/sup>\u00a0sabia algo disso. Mas Lacan aponta para algo mais. Existem os discursos que giram, como ele diz, no\u00a0<em>Semin\u00e1rio 19<\/em>: \u201co gozo, a verdade, o semblante, o mais de gozar, ali gira a coisa. E ali est\u00e1 este suporte, o que ocorre ao n\u00edvel do corpo [&#8230;] o\u00a0<em>ground<\/em>\u201d (LACAN, 1971-72\/2012).<\/p>\n<p>O<em>\u00a0ground\u00a0<\/em>est\u00e1 ali, em ingl\u00eas,\u00a0<em>ground<\/em>, o solo, o solo dos discursos \u00e9 o corpo. E nesse\u00a0<em>ground<\/em>\u00a0passam coisas, ocorrem coisas nos corpos. Retomarei isso no final com algumas refer\u00eancias cl\u00ednicas que me interessa compartilhar com voc\u00eas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O\u00a0<em>ground<\/em><\/p>\n<p>Quando assinala que o \u201c<em>mat\u00e9rial-ne-ment<\/em>\u201d \u2014 s\u00f3 o material n\u00e3o mente \u2014, Lacan define sua pr\u00f3pria orienta\u00e7\u00e3o at\u00e9 um ponto certo, firme, que \u00e9 esse encontro entre o corpo e o significante que n\u00e3o s\u00f3 muda o corpo, mas que tamb\u00e9m muda o significante mesmo.<\/p>\n<p>Por outro lado, com sua indica\u00e7\u00e3o no\u00a0<em>Semin\u00e1rio 23<\/em>, de que \u00e9 preciso \u201creduzir toda inven\u00e7\u00e3o ao\u00a0<em>sinthome<\/em>\u201d (LACAN, 1975-76\/2007), ele assinala onde \u00e9 que esse\u00a0<em>ground\u00a0<\/em>se corporifica e diz, ao mesmo tempo, que isso poderia se \u201cencarnar\u201d em uma pr\u00e1tica poss\u00edvel, quando a psican\u00e1lise parecia encalhar na borda do desalento. A debilidade do saber, a debilidade do saber inconsciente, evidenciada como um fim de linha, for\u00e7a a passagem do inconsciente ao sintoma como \u00fanica via pratic\u00e1vel.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria psican\u00e1lise p\u00f5e em funcionamento essa m\u00e1quina ficcional. Se nos descuidamos, ela a estende em todas as dire\u00e7\u00f5es e, ent\u00e3o, em meio \u00e0s \u201ccriaturas das palavras\u201d que a psican\u00e1lise convoca, onde estaria o real? A quest\u00e3o deveria nos incitar, aos analistas, desde que tratemos de n\u00e3o nos perder na n\u00e9voa dos semblantes e na circula\u00e7\u00e3o dos discursos. A pergunta se sustenta: onde est\u00e1 o real? \u00c9 uma pergunta epist\u00eamica, j\u00e1 que implica o saber e faz girar seu ensino, e \u00e9 uma pergunta cl\u00ednica, j\u00e1 que determina de outro modo a orienta\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise, de sua cl\u00ednica e de sua pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Onde est\u00e1 o real? No gozo? No corpo? Na irrup\u00e7\u00e3o do trauma? No furo do sexo? No umbigo do sonho? No escrito? No sintoma?&#8230; E isso, como se alcan\u00e7a? A pr\u00e1tica e a an\u00e1lise ensinam que n\u00e3o se trata de buscar o real como a verdade. A pr\u00e1tica e a an\u00e1lise ensinam que \u00e9 o real que nos encontra.<\/p>\n<p>Por isso digo que, ainda que as neuroses mesmas possam ser consideradas fic\u00e7\u00f5es dessa ordem, nada o ilustra melhor que os fen\u00f4menos intuitivos e interpretativos das psicoses, as ordin\u00e1rias e as outras. E \u00e9 nessa via que Lacan, muito cedo, formulou a ideia, um tanto descabelada, de que a psican\u00e1lise \u00e9 uma paranoia dirigida. \u00c9 uma paranoia porque, na an\u00e1lise, o analisante \u2014 n\u00e3o o analista, o analisante \u2014 n\u00e3o faz outra coisa que interpretar. O que lhe disse o analista, o que n\u00e3o lhe disse, porque esse tom ao diz\u00ea-lo, disse-me isso, mas queria dizer-me&#8230; porque esse ru\u00eddo detr\u00e1s do div\u00e3&#8230; Essa estrutura interpretativa faz aparecer na an\u00e1lise a dimens\u00e3o do desejo do Outro, ou seja, de sua intencionalidade. E \u00e9 um bom indicador sobre o momento que se atravessa na transfer\u00eancia localizar quando voc\u00eas interpretam a seus analistas. Prestem aten\u00e7\u00e3o e ver\u00e3o que n\u00e3o h\u00e1 muita escapat\u00f3ria. Lacan conservou o dispositivo freudiano e, ao mesmo tempo, n\u00e3o deixou de colocar \u201cpedras no caminho\u201d<sup><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/mauricio-tarrab#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a><\/sup>\u00a0nessa maquin\u00e1ria dif\u00edcil de se deter.<\/p>\n<p>O excesso de interpreta\u00e7\u00e3o, tribut\u00e1rio da fuga de sentido, fez Lacan mudar muitas vezes sua concep\u00e7\u00e3o de interpreta\u00e7\u00e3o e o seu alvo. E agora, no ponto em que estamos, o termo interpreta\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o nos convence, j\u00e1 n\u00e3o diz bem o que quer dizer a interpreta\u00e7\u00e3o para a psican\u00e1lise que praticamos.<\/p>\n<p>Tomei no texto essa frase preciosa de \u201cFun\u00e7\u00e3o e campo da fala e da linguagem\u201d, que demonstra como o ensino de Lacan n\u00e3o \u00e9 linear. N\u00e3o segue a flecha do tempo. O que est\u00e1 no final retoma o que j\u00e1 estava no princ\u00edpio como intui\u00e7\u00e3o e, tamb\u00e9m, como formaliza\u00e7\u00e3o porque \u00e9 uma frase, de longo alcance, que indica uma formaliza\u00e7\u00e3o sobre a interpreta\u00e7\u00e3o: \u201c\u2026 e ainda o suspiro de um sil\u00eancio basta para suprir todo um desenvolvimento l\u00edrico\u201d (LACAN,1953\/1998). \u00c9 uma indica\u00e7\u00e3o clara do que a interpreta\u00e7\u00e3o lacaniana deveria ter de contradelirante. \u201cO suspiro de um sil\u00eancio\u2026\u201d n\u00e3o h\u00e1 ali s\u00f3 um sil\u00eancio, que \u00e9 todo um cap\u00edtulo sobre a interpreta\u00e7\u00e3o. Nesse \u201cainda o suspiro\u201d est\u00e1 a presen\u00e7a mesma do psicanalista e de seu desejo.<\/p>\n<p>A interpreta\u00e7\u00e3o n\u00e3o necessitou esperar a psican\u00e1lise para se fazer um lugar, n\u00e3o s\u00f3 na psicopatologia, sen\u00e3o na pr\u00f3pria cultura. E a psican\u00e1lise, desde \u201cA interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos\u201d, se localizou nessa corrente cultural arriscando se perder na constru\u00e7\u00e3o de uma fic\u00e7\u00e3o sempre interpretativa, risco que Lacan denunciou ao final de seu ensino.<\/p>\n<p>Lacan produz uma ruptura tamb\u00e9m no campo da interpreta\u00e7\u00e3o. Separa a psican\u00e1lise daquilo que a inclu\u00eda em uma hermen\u00eautica e, ao tra\u00e7ar os limites do campo freudiano, reconhece os limites de Freud como tamb\u00e9m segue a orienta\u00e7\u00e3o secreta que acredita ler no pr\u00f3prio Freud: \u201cO que ele realmente executa, ali, sob os nossos olhos fitos no texto, \u00e9 uma tradu\u00e7\u00e3o pela qual se demonstra que o gozo [&#8230;] consiste propriamente nos desfiladeiros l\u00f3gicos (&#8230;)\u201d (LACAN, 1974\/2003 p.514).<\/p>\n<p>Isso muda as coisas para a interpreta\u00e7\u00e3o que se quer \u201canal\u00edtica\u201d. O tern\u00e1rio ed\u00edpico j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 causa, sen\u00e3o uma interpreta\u00e7\u00e3o, mas a servi\u00e7o do gozo. E quando se trata do gozo, n\u00e3o h\u00e1 uso comum nem sentido comum da interpreta\u00e7\u00e3o, o que a situa sempre um pouco fora de toda regra. Sua fun\u00e7\u00e3o alusiva, ilustrada pelo dedo apontando para o alto de S\u00e3o Jo\u00e3o de Leonardo da Vinci, localiza o horizonte da interpreta\u00e7\u00e3o mais al\u00e9m do marco do quadro, mais al\u00e9m do marco simb\u00f3lico.<\/p>\n<p>Alcan\u00e7ar, ou n\u00e3o, esse fora de sentido torna-se chave no ultim\u00edssimo ensino de Lacan, que havia come\u00e7ado com a exalta\u00e7\u00e3o dos \u201cpoderes da palavra\u201d e a promessa que oferece Ao\u00a0<em>plus-de-sens\u00a0<\/em>(mais-de-sentido). O devir da pr\u00f3pria pr\u00e1tica lacaniana evidencia que o sentido sempre est\u00e1 em fuga e que esse ponto fixo, que comanda a repeti\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se captura pelo sentido.<\/p>\n<p>E direi que aqui n\u00f3s topamos com a quest\u00e3o do ponto fixo, para diz\u00ea-lo, em termos de solo, do\u00a0<em>ground<\/em>, o ponto onde poder-se-ia ficar de p\u00e9. Essa \u00e9 a quest\u00e3o que justifica voltar a visitar Humpty Dumpty e, tamb\u00e9m, sobre o que as psicoses ensinam ao psicanalista. \u00c9 o que afirma Fernando Casula quando recorta esta frase de Miller em<em>\u00a0A<\/em>\u00a0<em>interpreta\u00e7\u00e3o pelo avesso<\/em>\u201d: \u201co avesso da interpreta\u00e7\u00e3o consiste em cercear o significante como fen\u00f4meno elementar do sujeito, como anterior a sua articula\u00e7\u00e3o enquanto forma\u00e7\u00e3o do inconsciente, que lhe d\u00e1 sentido de del\u00edrio\u201d (MILLER, 1996, p. 98).<\/p>\n<p>Subamos mais uma vez no muro com o famoso Ovo\u2026 Temos ali um divisor de \u00e1guas para a interpreta\u00e7\u00e3o: vamos do lado \u201chist\u00e9rico\u201d com Alice, fazer com que as palavras signifiquem outra coisa do que se quer fazer significar. Temos claro que, ao interpretar, n\u00e3o nos privamos disso com os analisantes, mas isso tem um horizonte que n\u00e3o se alcan\u00e7a nunca. A fuga de sentido \u00e9 incontrol\u00e1vel quando a m\u00e1quina de interpretar vai por esse caminho, especialmente nas psicoses. O sujeito corre o risco de precipitar-se em uma sidera\u00e7\u00e3o de sentido delirante que n\u00e3o se pode deter e que lhe resulta insuport\u00e1vel.<\/p>\n<p>O outro caminho \u00e9 o que indica o Ovo: trata-se de que h\u00e1 um mestre. Um mestre do jogo, com certeza, um mestre do discurso que decide sobre as palavras que podem ser ditas nesse discurso. Mas, tamb\u00e9m, e isso \u00e9 uma modula\u00e7\u00e3o fundamental, um mestre que decide sobre os corpos.<\/p>\n<p>Circund\u00e1-lo, localiz\u00e1-lo, sublinh\u00e1-lo, \u201cfaz\u00ea-lo notar\u201d, como diz Lacan em\u00a0<em>Estou falando com as paredes<\/em>\u00a0(LACAN, 1971-72\/2011), aponta para a deten\u00e7\u00e3o do deslizamento infinito e pode permitir estabilizar as significa\u00e7\u00f5es. Deter esse deslizamento e centrar o sujeito sobre os fen\u00f4menos elementares permite fazer com que o Outro gozador perca a consist\u00eancia recolocando-o no lugar de um semblante e, eventualmente, permitindo reordenar a rela\u00e7\u00e3o com o corpo, se \u00e9 que se tem um corpo.<\/p>\n<p>\u00c9ric Laurent sustenta que, na psicose, a interpreta\u00e7\u00e3o do sujeito est\u00e1 baseada em uma certeza (em um ponto fixo) e que o sujeito psic\u00f3tico &#8220;est\u00e1 pronto para imp\u00f4-la ao mundo&#8221; (LAURENT, 2017, p. 19). Por essa via, o inconsciente a c\u00e9u aberto da psicose n\u00e3o \u00e9 mais que uma m\u00e1quina interpretativa, cuja produ\u00e7\u00e3o \u2014 delirante \u2014 n\u00e3o cessa de traduzir os significantes de lal\u00edngua. E Laurent ensina que o analista deveria intervir no sentido de n\u00e3o permitir ao psic\u00f3tico se deixar levar pelo movimento delirante e voltar a centr\u00e1-lo nos fen\u00f4menos elementares, os S1 isolados que a ele se imp\u00f5em. O caso de Isabela, que eu menciono no texto, \u00e9 um grande ensinamento para n\u00f3s.<\/p>\n<p>Laurent toma como exemplo\u00a0<em>o milagre do uivo<\/em>, do caso Schreber. Imaginando um di\u00e1logo fict\u00edcio, ele lhe perguntaria: \u201cVoc\u00ea disse \u2018uivo\u2019, \u2018milagre do uivo\u2019? Diga-me um pouco mais. O que \u00e9 um \u2018milagre do uivo\u2019?&#8221;\u00a0(LAURENT, 2017, p. 21). Recorta o significante \u2018uivo\u2019, que nomeia um acontecimento de corpo, e convida o sujeito a falar sobre \u201ccomo se defende do milagre mediante uma inven\u00e7\u00e3o particular\u201d (<em>Ibid.<\/em>). Podemos ler no livro\u00a0<em>Conversa\u00e7\u00f5es Cl\u00ednicas de UFORCA<\/em>\u00a0(UFORCA, 2020) uma apresenta\u00e7\u00e3o de pacientes realizada por Miller que coloca em ato essa orienta\u00e7\u00e3o de maneira esclarecedora. Diferentemente de Humpty Dumpty, a psican\u00e1lise nos ensina que h\u00e1 um mestre mais al\u00e9m do significante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O que responde e o que n\u00e3o responde<\/em><\/p>\n<p>O inconsciente interpreta porque o inconsciente \u00e9 essa parte do sintoma que responde, e isso permite a dial\u00e9tica cifra\u00e7\u00e3o-decifra\u00e7\u00e3o (LACAN, 1975-76\/2007). Mas como tocar com a interpreta\u00e7\u00e3o aquilo que n\u00e3o responde do sintoma e produzir uma resson\u00e2ncia que n\u00e3o seja de sentido? \u00c9 o problema que traz \u00e0 pr\u00e1tica do analista a aspira\u00e7\u00e3o de Lacan de reduzir o sintoma a seu real. Estamos diante do que se pode decifrar do trabalho interpretativo do inconsciente e do que se pode captar do gozo opaco do\u00a0<em>sinthome<\/em>. E como se capta isso? Miller d\u00e1 o exemplo da alucina\u00e7\u00e3o do dedo cortado do Homem dos Lobos. Por que comparar a emerg\u00eancia do Um sozinho com uma alucina\u00e7\u00e3o, sen\u00e3o para dizer que, como isto est\u00e1 cortado de toda cadeia, n\u00e3o retorna tal como retorna o recalcado?<\/p>\n<p>&#8220;Se h\u00e1 retorno, (&#8230;), n\u00e3o \u00e9 na hist\u00f3ria, mas no real&#8221; (MILLER, 2009, p. 34). \u00c9 uma emerg\u00eancia, uma intrus\u00e3o, como o \u00e9 uma alucina\u00e7\u00e3o. Por isso tem tamb\u00e9m o valor de ser prova de um real. Esse Um sozinho n\u00e3o se conecta ao Outro nem ao sentido. N\u00e3o se decifra, pois \u00e9 capturado, \u00e9 testemunha dessa emerg\u00eancia. Talvez isso responda ao que, entre outras coisas, as psicoses ensinam \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o lacaniana.<\/p>\n<p>&#8220;Se h\u00e1 retorno, (&#8230;), n\u00e3o \u00e9 na hist\u00f3ria, mas no real&#8221; (MILLER, 2009, p. 34). E onde se pode captur\u00e1-lo, se n\u00e3o retorna como o retorno do recalcado? \u00c0s vezes, pode-se captur\u00e1-lo na an\u00e1lise, n\u00e3o como saber, sentido ou verdade, mas como acontecimento, como surpresa, para o analisante e para o analista. Muitos testemunhos de Passe testemunham essa conting\u00eancia final em torno de um acontecimento de corpo como um peda\u00e7o de real. O acontecimento de corpo torna-se ent\u00e3o \u2014 f\u00f3rmula paradoxal \u2014 um fen\u00f4meno elementar que se pode ler. S\u00e3o requeridas, para isso, as chaves de leitura que o analisante p\u00f4de extrair ao longo de toda sua an\u00e1lise. Por vezes, um testemunho de passe consiste em apresentar essas chaves de leitura para ler o Um sozinho. L\u00ea-lo \u00e9 extrair desse real um sentido na encruzilhada do fora do sentido, do acaso e da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Mas voltemos \u00e0 quest\u00e3o do Mestre. Lembrem-se do escrito \u201cA dire\u00e7\u00e3o do tratamento e os princ\u00edpios do seu poder\u201d (LACAN, 1958\/1998), no qual se mostra claramente a intencionalidade pol\u00edtica que Lacan d\u00e1 ao tratamento anal\u00edtico, pois n\u00e3o se trata somente da dire\u00e7\u00e3o do tratamento, mas dos princ\u00edpios de seu poder. E se estamos metidos nessa ordem pol\u00edtica do tratamento, n\u00e3o podemos falar da interpreta\u00e7\u00e3o sem situar a quest\u00e3o dos princ\u00edpios de seu poder. Lacan mesmo o fez, de forma en\u00e9rgica em sua \u00e9poca, para questionar, na psican\u00e1lise daquele momento, a intrus\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 do discurso universit\u00e1rio, mas, em especial, do discurso do mestre na psican\u00e1lise e na pr\u00e1tica da interpreta\u00e7\u00e3o que se encarnava como o analista mestre.<\/p>\n<p>O que se passa hoje conosco \u00e9 que estar\u00edamos curados por Lacan ter escrito sobre isso em 1956? Podemos dizer que estamos curados, estamos a salvo de seguir encarnando, n\u00e3o somente o analista universit\u00e1rio, mas tamb\u00e9m o analista mestre?<\/p>\n<p>A boa pergunta para o analista seria: quem \u00e9 o mestre na psican\u00e1lise que eu conduzo? Como evitar essa pergunta sobre quem \u00e9 o mestre? Por exemplo, se a evitamos, a resposta e o mestre do jogo em uma an\u00e1lise v\u00e3o entrar de alguma maneira surpreendente e ser\u00e1 o momento no qual iremos pedir uma supervis\u00e3o. Assim, enquanto a coisa funcionava de uma certa maneira, h\u00e1 algo que, prontamente, entra em jogo e n\u00e3o se sabe o que fazer com isso. Sempre h\u00e1 que se buscar um mestre em um caso. E voc\u00eas sabem muito bem a import\u00e2ncia que tem em uma an\u00e1lise capturar, por exemplo, um significante que seja uma chave de leitura, os efeitos que isso tem para um analisante.<\/p>\n<p>Interpretar\u2026 \u00e9 uma palavra aplicada a muitas coisas diferentes e, al\u00e9m disso, abarca campos t\u00e3o variados que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil saber o que dizemos ao us\u00e1-la. Por exemplo, aquele que toca um instrumento musical, interpreta uma obra, um ator ou uma atriz que interpreta um papel que est\u00e1 escrito, improvisa em alguma parte. Um compositor, nesse caso, um compositor e maestro muito pr\u00f3ximo a mim, meu irm\u00e3o, me explicava a import\u00e2ncia que se tem justamente de interpretar o que o compositor esperava que fosse lido de sua partitura, quer dizer, aquilo que, alguma vez, teria escrito. Essa interpreta\u00e7\u00e3o, ainda que se queira ser fiel, tem sempre algo que \u00e9 agregado por parte daquele que interpreta. Existe a obra e existe a interpreta\u00e7\u00e3o que, aquele que a executa, lhe agrega. Poder\u00edamos delirar com isso e dizer que a interpreta\u00e7\u00e3o faz a m\u00fasica existir, pois onde ela estaria antes de ser interpretada?<\/p>\n<p>Uma vez me convidaram para dar um semin\u00e1rio sobre a interpreta\u00e7\u00e3o em S\u00e3o Paulo e, quando cheguei, \u00e0 noite, me levaram para escutar m\u00fasica numa linda sala, a sala S\u00e3o Paulo, para escutar um concerto de Rachmaninoff. Enquanto o ouvia, certamente pensava no que teria que dizer no dia seguinte. E como o contexto me provocava um pouco a quest\u00e3o, enquanto soava um violino espetacular, eu me perguntei por que usamos a mesma palavra para dizer coisas t\u00e3o diferentes como o que fazemos em uma an\u00e1lise e como o que o violinista estava fazendo com sua arte naquele momento. E pensei que poderia haver uma vincula\u00e7\u00e3o que fosse mais al\u00e9m da mestria com um ou outro instrumento. Encontrei uma formula\u00e7\u00e3o da qual gostei. Pode-se dizer que aquele que executa um instrumento musical o faz, com maior ou menor mestria, de modo hom\u00f3logo ao que o analista faz com sua leitura:\u00a0<em>ambos fazem escutar o que est\u00e1 escrito.<\/em><\/p>\n<p>Pareceu-me uma boa f\u00f3rmula para a interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica, com a condi\u00e7\u00e3o de acrescentar que, em um e outro caso, o corpo est\u00e1 concernido, mais al\u00e9m das palavras. Havia uma can\u00e7\u00e3o que cantava Domenico Modugno, cantor italiano, que se chamava \u201cParoles\u201d, palavras, t\u00e3o somente palavras h\u00e1 entre os dois. Isso, poder-se-ia falar da situa\u00e7\u00e3o anal\u00edtica, na qual, supostamente, s\u00f3 h\u00e1 palavras entre os dois parceiros. E, entretanto, seguindo essa linha que percorro, o que h\u00e1 a dizer com todas as letras, para seguir a forte indica\u00e7\u00e3o de Humpty Dumpty, \u00e9 que analisar, analisar-se, interpretar, n\u00e3o \u00e9 um jogo de palavras. No primeiro lacanismo que conheci, tudo era jogo de palavras, at\u00e9 que chegou Miller com o Outro Lacan, nos anos 80, que permitiu abrir um campo novo, completamente mais al\u00e9m das palavras.<\/p>\n<p>Ao longo de seu ensino, Lacan formula, de maneiras distintas, como pensar a estrutura da interpreta\u00e7\u00e3o, ainda que n\u00e3o o fa\u00e7a de maneira expl\u00edcita. Mas pode-se ler em muitos desenvolvimentos a ideia latente de que h\u00e1 um esfor\u00e7o de redu\u00e7\u00e3o: \u201cainda o suspiro de um sil\u00eancio&#8230;\u201d.<\/p>\n<p>Nas conversas em Saint-Anne, publicadas como\u00a0<em>Estou falando com as paredes<\/em>\u00a0(LACAN, 1971-72\/2011), Lacan fala da interpreta\u00e7\u00e3o, em especial, na primeira dessas conversas, intitulada \u201cSaber, ignor\u00e2ncia, verdade e gozo\u201d. Toma os quatro termos, um por um; em princ\u00edpio, o saber, certamente o saber que n\u00e3o se sabe, o saber n\u00e3o sabido de que se trata em psican\u00e1lise, ou seja, o inconsciente. A import\u00e2ncia da primazia do saber em psican\u00e1lise \u00e9 o primeiro ponto disso que fa\u00e7o Lacan dizer, como estrutura da interpreta\u00e7\u00e3o. O segundo ponto vai diretamente no tema da interpreta\u00e7\u00e3o, ele diz:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cO segundo ponto, voc\u00eas n\u00e3o esperaram por mim para sab\u00ea-lo \u2014 dirijo-me aos psicanalistas pois ele \u00e9 o pr\u00f3prio princ\u00edpio do que voc\u00eas fazem, a partir do momento em que interpretam. N\u00e3o h\u00e1 interpreta\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se refira \u00e0 liga\u00e7\u00e3o entre aquilo que se manifesta de fala, no que voc\u00eas escutam e o gozo\u201d (LACAN, 1971-72\/2011, p. 26).<\/p>\n<p>Podemos ent\u00e3o ser inocentes como Alice e pensar que se trata de um jogo de palavras ou que, na transfer\u00eancia, que sustenta o la\u00e7o anal\u00edtico, trata-se s\u00f3 de palavras, mas aquilo com o que se encontrar\u00e3o \u00e9 que, o que dizem, concerne ao la\u00e7o entre as palavras e o gozo. E algumas coisas na pr\u00e1tica da an\u00e1lise, como no amor, \u00e9 melhor sab\u00ea-las logo, ent\u00e3o, para retomar Humpty Dumpty e contradizer um pouquinho sua arbitrariedade, o mestre, a quem ele se refere na an\u00e1lise, \u00e9 o gozo.<\/p>\n<p>Lacan diz que o la\u00e7o entre as palavras e o gozo n\u00e3o apareceu em Freud de imediato, pois, ele disse, houve uma \u00e9poca do princ\u00edpio do prazer em Freud \u2014 como tamb\u00e9m poder\u00edamos dizer isso de Lacan, pois tampouco apareceu em Lacan no princ\u00edpio \u2014, uma \u00e9poca na qual tudo se resumia ao significante. Podemos explicar o caminho mais claramente freudiano de uma psican\u00e1lise dizendo que vai da ignor\u00e2ncia de um saber que n\u00e3o se sabe e que faz sintoma \u00e0 verdade que a interpreta\u00e7\u00e3o revela, e que \u00e9 a chave \u00e9tica e curativa freudiana, e o que cai como saldo \u00e9 um saber.<\/p>\n<p>Claro \u2014 disse Lacan \u2014, um dia Freud mesmo foi surpreendido pelo fato de que, mais al\u00e9m do sentido desse programa, havia outra coisa, a repeti\u00e7\u00e3o, a insist\u00eancia de um benef\u00edcio de gozo que comanda a repeti\u00e7\u00e3o: ali temos o mestre. O mestre \u00e9 o que comanda a repeti\u00e7\u00e3o e, por outra parte, poder-se-ia dizer que, se n\u00e3o houvesse repeti\u00e7\u00e3o, o que interpretar\u00edamos? S\u00f3 a repeti\u00e7\u00e3o permite situ\u00e1-lo, ent\u00e3o temos a insist\u00eancia da repeti\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E ali Lacan formula seu terceiro ponto para essa estrutura da interpreta\u00e7\u00e3o dizendo: \u201cSe nossa interpreta\u00e7\u00e3o nunca tem sen\u00e3o o sentido de assinalar o que o sujeito encontra a\u00ed, o que \u00e9 que ele encontra? Nada que n\u00e3o deva ser catalogado no registro do gozo\u201d (1971-72\/2011, p. 28).<\/p>\n<p>Assinalar o que o sujeito encontra. A estrutura mesma da interpreta\u00e7\u00e3o lacaniana \u00e9 assinalar, assinalar o ponto de gozo. Depois, o como o fazemos assinalar: se cortamos a sess\u00e3o, sublinhamos, interrompemos, isso pode variar; o tema \u00e9 assinalar.<\/p>\n<p>O que encontra o sujeito que h\u00e1 que faz\u00ea-lo notar? O ponto de gozo da repeti\u00e7\u00e3o. Essa \u00e9 uma indica\u00e7\u00e3o maior para o praticante, em especial, \u00e9 uma indica\u00e7\u00e3o contra essa nova ferocidade do praticante que, muitas vezes, vem tomar o lugar da ferocidade curativa; quero dizer que, quando na pr\u00e1tica se passa da ferocidade curativa, \u00e9 porque se trope\u00e7ou com o imposs\u00edvel de curar nos tratamentos que algu\u00e9m conduz ou porque na pr\u00f3pria an\u00e1lise tenha encontrado tamb\u00e9m esse imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Muitas vezes se escuta, nas supervis\u00f5es, uma nova ferocidade, que \u00e9 a de fazerem-se buscadores da verdade, detetives do mist\u00e9rio do sofrimento sintom\u00e1tico, e Lacan vem agora dizer que se trata de \u201cassinalar o que o sujeito encontra\u201d. Recordem Isabela, \u201c<em>io sono sempre vista<\/em>\u201d (LACAN, 1962-63\/2005, p. 86). Isso j\u00e1 implica, ent\u00e3o, uma certa destitui\u00e7\u00e3o do analista como mestre da interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Resta ainda o quarto ponto em\u00a0<em>Estou falando para as paredes<\/em>, referido \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o. Ele se pergunta: \u201cOnde \u00e9 que isso habita, o gozo? Do que ele precisa? De um corpo\u201d (LACAN, 1971-72\/2011, p. 28).<\/p>\n<p>Com isso, voltamos a encontrar a refer\u00eancia inicial de meu texto, a frase que tomei como ponto de partida a respeito do del\u00edrio e do corpo falante. O gozo habita no corpo e \u201cos corpos est\u00e3o capturados pelos discursos\u201d. E sabemos que o corpo deve ser capturado pelo discurso para ser um corpo. Para regular-se como um corpo, para existir como um corpo, e para que algu\u00e9m tenha a chance de ter um corpo. O que abre todo o cap\u00edtulo do encontro, do mal encontro ou do desencontro entre os discursos e os corpos, que n\u00e3o poderei desenvolver com voc\u00eas, mas creio ser essencial para situar na cl\u00ednica a problem\u00e1tica que voc\u00eas v\u00e3o estudar este ano.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, temos\u00a0<em>saber, ignor\u00e2ncia, verdade, gozo e um corpo\u00a0<\/em>onde se encarnam os discursos e, nesse caso, o que Lacan indica \u00e9 que a interpreta\u00e7\u00e3o deveria tocar o corpo. Quando, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o, se fala de resson\u00e2ncias, indica-se essa borda de onde se entrela\u00e7am um saber n\u00e3o sabido, mas articulado, o inconsciente, as palavras, o fora de sentido, os gozos e os corpos. Quando algu\u00e9m se analisa, sup\u00f5e que n\u00e3o est\u00e1 falando \u00e0s paredes, porque sup\u00f5e \u2014 porque assim o interpreta \u2014 que h\u00e1 um Outro a quem lhe fala e, tamb\u00e9m, porque o analista se localiza ali na transfer\u00eancia. E sobre esse dizer, feito de palavras e atos, \u00e9 que interpretamos. Em uma an\u00e1lise, circunscreve-se o discurso de tal maneira que pode-se dizer que, ao final, como o diz Lacan em\u00a0<em>Estou falando com as paredes<\/em>\u00a0(1971-72\/2011), n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o importante eu falar com ele, sen\u00e3o que falar com as paredes \u00e9 seguir n\u00e3o suas palavras, mas o circuito da reflex\u00e3o de sua voz. O analista pode bem ser essas paredes que cont\u00eam, em uma an\u00e1lise, o espa\u00e7o onde o mais singular do analisante tenha a oportunidade de ressoar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><strong>Tradu\u00e7\u00e3o:<\/strong>\u00a0Beatriz Esp\u00edrito Santo<\/h6>\n<h6><strong>Revis\u00e3o:<\/strong>\u00a0Renata Mendon\u00e7a<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1953) \u201cFun\u00e7\u00e3o e campo da fala e da linguagem em psican\u00e1lise\u201d. <em>In:\u00a0<\/em><strong>Escritos<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998, p. 253.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1974) \u201cTelevis\u00e3o\u201d.\u00a0<em>In:\u00a0<\/em><strong>Outros\u00a0<\/strong><strong>Escritos<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1958). \u201cA dire\u00e7\u00e3o do tratamento e os princ\u00edpios de seu poder\u201d.\u00a0<strong>Escritos<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. 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Barcelona, abril 2018.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/mauricio-tarrab#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a>\u00a0Texto apresentado no N\u00facleo de Pesquisa em Psican\u00e1lise e Psicose do Instituto de Psican\u00e1lise e Sa\u00fade Mental de Minas Gerais, em 19 mar\u00e7o de 2021.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/mauricio-tarrab#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a>\u00a0Humpty Dumpty \u00e9 um ovo antropom\u00f3rfico, fil\u00f3logo e especialista em quest\u00f5es lingu\u00edsticas. Para ele e seu racioc\u00ednio invertido, as palavras comuns significam o que quer que ele queira, enquanto nomes pr\u00f3prios devem ter significa\u00e7\u00e3o geral. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"about:blank\">https:\/\/thebloggerwocky.wordpress.com\/2011\/05\/28\/humpty-dumpty-o-sabe-tudo-prosopagnostico\/<\/a>. Acesso em: 22 maio 2021.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/mauricio-tarrab#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a>\u00a0(N.T.) A express\u00e3o \u201cpedras no caminho\u201d em portugu\u00eas equivaleria \u00e0 express\u00e3o \u201c<em>palos en rueda<\/em>\u201d (paus na roda) em espanhol, indicando a coloca\u00e7\u00e3o de obst\u00e1culos a algum movimento.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mauricio Tarrab Psicanalista, Membro da EOL \/AMP | mauricio.tarrab@gmail.com Resumo:\u00a0Neste texto o autor retoma e comenta outra publica\u00e7\u00e3o de sua autoria, \u201cA psicose e a m\u00e1quina de interpretar\u201d, e resgata a ideia de que o real, fora do sentido, coloca em funcionamento uma m\u00e1quina de produzir fic\u00e7\u00f5es e que a pr\u00f3pria psican\u00e1lise pode fazer funcionar&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57897,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[23],"tags":[],"class_list":["post-1758","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-27","category-23","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1758","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1758"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1758\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57898,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1758\/revisions\/57898"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57897"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1758"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1758"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1758"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}