{"id":177,"date":"2023-08-15T19:24:18","date_gmt":"2023-08-15T22:24:18","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=177"},"modified":"2025-12-01T12:43:19","modified_gmt":"2025-12-01T15:43:19","slug":"psicose-ordinaria-paradigma-da-clinica-contemporanea","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2023\/08\/15\/psicose-ordinaria-paradigma-da-clinica-contemporanea\/","title":{"rendered":"Psicose ordin\u00e1ria: paradigma da cl\u00ednica contempor\u00e2nea?"},"content":{"rendered":"<h6><strong><em>Edwiges de Oliveira Neves<br \/>\n<\/em><\/strong>Psic\u00f3loga cl\u00ednica<br \/>\nMestre em Psicologia (PUC\/MG)<br \/>\nEx-aluna do Curso de Psican\u00e1lise do IPSM-MG<br \/>\n<a href=\"mailto:edwigespsique@yahoo.com.br\">edwigespsique@yahoo.com.br<\/a><\/h6>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Resumo:\u00a0<\/strong>H\u00e1 um consenso entre os analistas de que os sujeitos hipermodernos se apresentam na cl\u00ednica um tanto refrat\u00e1rios aos moldes de interven\u00e7\u00e3o tradicionais, de uma cl\u00ednica psicanal\u00edtica interpretativa, que tinha o \u00c9dipo como teoria central. Com a queda dos ideais, a transfer\u00eancia n\u00e3o opera da mesma forma, e os sintomas, n\u00e3o mais interpret\u00e1veis, v\u00eam rotulados como dist\u00farbios. Em tempos em que o Outro n\u00e3o existe, os sujeitos podem encontrar outras maneiras de se estabilizarem e de fazerem la\u00e7o social para al\u00e9m do Nome-do-Pai. Nesse sentido, nos questionamos: como a psicose ordin\u00e1ria pode contribuir para a cl\u00ednica contempor\u00e2nea?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Palavras-chave:<\/strong>\u00a0psicose ordin\u00e1ria; paradigma; cl\u00ednica contempor\u00e2nea.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ORDINARY PSYCHOSIS: PARADIGM OF CONTEMPORARY CLINIC?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Abstract:\u00a0<\/strong>It is a consensus among analysts that hypermodern subjects present themselves in the clinic somewhat refractory to the traditional intervention patterns of an interpretive psychoanalytic clinic, which had Oedipus as its central theory. With the fall of ideals, transference does not operate in the same way and the symptoms, no longer interpretable, come now labeled as disorders. In times when the Other does not exist, subjects can find other ways to stabilize themselves and to form a social bond beyond the Name-of-the-Father. Therefore, we ask ourselves: how can ordinary psychosis contribute to contemporary clinical practice?<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Keywords: ordinarypsychosis; paradigm; contemporary clinic.<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_178\" style=\"width: 810px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/psicose_ordinria.jpg\" data-dt-img-description=\"Imagem: Renata Laguardia\" data-large_image_width=\"800\" data-large_image_height=\"1063\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-178\" class=\"size-large wp-image-178\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/psicose_ordinria-771x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"771\" height=\"1024\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/psicose_ordinria-771x1024.jpg 771w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/psicose_ordinria-226x300.jpg 226w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/psicose_ordinria-768x1020.jpg 768w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/psicose_ordinria.jpg 800w\" sizes=\"auto, (max-width: 771px) 100vw, 771px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-178\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Renata Laguardia<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 um consenso entre os analistas de que os sujeitos hipermodernos se apresentam na cl\u00ednica um tanto refrat\u00e1rios aos moldes de interven\u00e7\u00e3o tradicionais, que a transfer\u00eancia n\u00e3o opera da mesma forma e que os sintomas se apresentam sob outras roupagens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em tempos em que o Outro n\u00e3o existe, os sujeitos podem encontrar outras maneiras de se estabilizarem e de fazerem la\u00e7o social, para al\u00e9m do Nome-do-Pai. Nesse sentido, questionamos se a psicose ordin\u00e1ria seria o paradigma da cl\u00ednica contempor\u00e2nea.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Psicose ordin\u00e1ria<\/em>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fruto de um movimento iniciado em 1996, o termo criado por Jacques-Alain Miller, e que foi tornado p\u00fablico em 1998, questiona a cl\u00ednica estruturalista inicialmente proposta por Lacan e estaria em conson\u00e2ncia com seu \u00faltimo ensino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A express\u00e3o \u201cpsicose ordin\u00e1ria\u201d n\u00e3o possui uma defini\u00e7\u00e3o r\u00edgida. N\u00e3o se trata de um novo conceito, mas de um significante cuja aposta \u00e9 fazer eco na pr\u00e1tica cl\u00ednica. Uma tentativa de resposta diante da impossibilidade de classificar alguns casos dentro do binarismo neurose ou psicose.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na primeira cl\u00ednica, Lacan admite a met\u00e1fora paterna como a opera\u00e7\u00e3o que ir\u00e1 trazer uma estabiliza\u00e7\u00e3o ao registro imagin\u00e1rio no in\u00edcio da vida ps\u00edquica. Na segunda cl\u00ednica, a met\u00e1fora paterna perde o status de nomea\u00e7\u00e3o e ganha o lugar de predicado, passando a designar uma das muitas poss\u00edveis amarra\u00e7\u00f5es dos tr\u00eas registros. O sujeito pode nunca desencadear uma psicose fazendo uso de outras solu\u00e7\u00f5es que fazem as vezes do Nome-do-Pai.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse sentido, a introdu\u00e7\u00e3o da categoria cl\u00ednica \u201cpsicose ordin\u00e1ria\u201d tem, segundo Miller (2010) duas consequ\u00eancias em dire\u00e7\u00e3o oposta: por um lado, uma maior precis\u00e3o no diagn\u00f3stico da neurose e, por outro, uma generaliza\u00e7\u00e3o do conceito de psicose.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No que se refere \u00e0 primeira consequ\u00eancia, Miller (2010, p. 20) afirma:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px; text-align: justify;\">Voc\u00eas precisam de certos crit\u00e9rios para dizer \u201c\u00e9 uma neurose\u201d: uma rela\u00e7\u00e3o com o Nome-do-Pai, n\u00e3o um Nome-do-Pai; devem encontrar algumas provas da exist\u00eancia do menos-phi, da rela\u00e7\u00e3o com a castra\u00e7\u00e3o, com a impot\u00eancia e a impossibilidade. Deve haver \u2013 para utilizar os termos freudianos da segunda t\u00f3pica \u2013 uma diferencia\u00e7\u00e3o n\u00edtida entre Eu e Isso, entre os significantes e as puls\u00f5es; um supereu claramente tra\u00e7ado. Se n\u00e3o existe tudo isso e ainda outros sinais, n\u00e3o \u00e9 uma neurose, trata-se de outra coisa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto \u00e0 generaliza\u00e7\u00e3o do conceito de psicose, Miller (2010) nos esclarece que a concep\u00e7\u00e3o de Nome-do-Pai enquanto predicado implica em um apagamento das fronteiras entre neurose e psicose, uma vez que todo ordenamento \u00e9 delirante: todo mundo \u00e9 louco. Na neurose, a fantasia. Na psicose, o del\u00edrio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trata-se, ent\u00e3o, de que alguns sujeitos encontram em outro significante uma supl\u00eancia ao Nome-do-Pai, permitindo-lhes viver experi\u00eancias no la\u00e7o social com alguma estabiliza\u00e7\u00e3o. Neur\u00f3ticos ou psic\u00f3ticos, cada sujeito cria a sua solu\u00e7\u00e3o, uma inven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na perspectiva milleriana, seja na neurose, seja na psicose, o sujeito criar\u00e1 maneiras de se defender do real do gozo. Na neurose, o sintoma vem como supl\u00eancia \u00e0 insufici\u00eancia do pai real. J\u00e1 na psicose, a solu\u00e7\u00e3o vem em supl\u00eancia ao Nome-do-Pai.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma vez que n\u00e3o ser\u00e1 a presen\u00e7a ou a aus\u00eancia do Nome-do-Pai que definir\u00e1 se um sujeito \u00e9 neur\u00f3tico ou psic\u00f3tico \u2013 mas, sim, sua posi\u00e7\u00e3o de gozo no mundo, bem como aquilo que pode grampe\u00e1-lo ao seu corpo e permitir-lhe localizar-se no la\u00e7o social \u2013, interessa-nos saber o que as psicoses ordin\u00e1rias podem nos ensinar sobre a dire\u00e7\u00e3o do tratamento psicanal\u00edtico dos sujeitos sob transfer\u00eancia em tempos em que o Outro n\u00e3o existe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Paradigma<\/em>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agamben (2009), ap\u00f3s vasta pesquisa sobre a utiliza\u00e7\u00e3o da terminologia \u201cparadigma\u201d por diferentes fil\u00f3sofos, define o conceito, aproximando sua pesquisa \u00e0 de Michel Foucault. O paradigma agambeniano seria um exemplo, um modelo que, ao mesmo tempo em que exp\u00f5e a categoria a qual pertence, n\u00e3o exclui sua particularidade. Exclui a dicotomia entre universal e particular. Trata-se de um m\u00e9todo (de pesquisa) que n\u00e3o \u00e9 dedutivo, nem indutivo, e que parte da singularidade em dire\u00e7\u00e3o a ela mesma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tratar um fen\u00f4meno como paradigm\u00e1tico seria conceb\u00ea-lo como uma figura epistemol\u00f3gica. Uma ilustra\u00e7\u00e3o que explica, por si s\u00f3, o conjunto do qual faz parte, sem, contudo, transform\u00e1-lo em regra geral ou em categoria replic\u00e1vel. Assim, o pan\u00f3ptico seria paradigma da sociedade de controle e o shopping center o paradigma da sociedade de consumo. Seria a psicose ordin\u00e1ria o paradigma de uma era que denuncia a fal\u00eancia do Nome-do-Pai?<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px; text-align: justify;\">O paradigma enquanto via alternativa que comporta um indecid\u00edvel entre o particular e o universal, pode se alojar no intervalo, na lacuna que marca a condi\u00e7\u00e3o de exist\u00eancia do sujeito freudiano. Como esclarece Miller [&#8230;], por sujeito entendemos o \u201cefeito que desloca, sem parada, o indiv\u00edduo da esp\u00e9cie, o particular do universal e o caso da regra\u201d. Se no reino animal cada indiv\u00edduo \u00e9 exemplar perfeito de sua esp\u00e9cie, realizando exaustivamente o universal, o ser atingido pela linguagem nunca realizar\u00e1 exaustivamente nenhuma classe nosol\u00f3gica. Se \u00e9 justamente ao efeito deste hiato que chamamos sujeito, consideramos que o paradigma, ao se afastar do positivismo que explora a ant\u00edtese entre o particular e o universal, resguarda o negativo que sustenta o sujeito do inconsciente. (CARVALHO, 2020, p. 60)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Inferimos que a psicose ordin\u00e1ria pode ser tomada como modelo paradigm\u00e1tico da cl\u00ednica contempor\u00e2nea, apoiados na seguinte declara\u00e7\u00e3o de Laurent e Miller (1998, p. 9):<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px; text-align: justify;\">Como operar todos os dias na pr\u00e1tica, sem inscrever o sintoma no contexto atual do la\u00e7o social que determina sua forma, na medida em que ele o determina na sua forma? Temos a inten\u00e7\u00e3o, Eric Laurent e eu, de afirmar este ano a dimens\u00e3o social do sintoma. Afirmar o social no sintoma, o social do sintoma, n\u00e3o \u00e9 contradit\u00f3rio com a inexist\u00eancia do Outro. Ao contr\u00e1rio, a inexist\u00eancia do Outro implica e explica a promo\u00e7\u00e3o do la\u00e7o social no vazio que ela abre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>Cl\u00ednica contempor\u00e2nea<\/strong><\/em><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Miller (2005, p. 7) considera que haveria um consenso entre os psicanalistas de que \u201cos sujeitos contempor\u00e2neos, p\u00f3s-modernos e at\u00e9 mesmo hipermodernos s\u00e3o desinibidos, neo-desinibidos, desamparados, desbussolados\u201d e que, na tentativa de identificar um marco para o in\u00edcio deste desbussolamento ele acabou por levantar uma segunda quest\u00e3o: ser\u00e1 que n\u00e3o temos b\u00fassola ou temos outra b\u00fassola? A partir dessa pergunta, ele levanta a hip\u00f3tese de que a b\u00fassola atual \u00e9 o objeto\u00a0<em>a<\/em>\u00a0e que, sendo assim, o discurso de nossa \u00e9poca remonta \u00e0 estrutura do Discurso do Analista, assim como o discurso do inconsciente remonta \u00e0 estrutura do Discurso do Mestre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Miller (2005), \u00e0 \u00e9poca de Freud, o mal-estar produzido pela civiliza\u00e7\u00e3o nos sujeitos vitorianos se devia \u00e0 imposi\u00e7\u00e3o de um recalcamento de gozo. Entretanto, o mal-estar que vivemos hoje diz respeito a um imperativo de gozo. A que se deve tal mudan\u00e7a? Segundo a hip\u00f3tese milleriana, institu\u00edda a psican\u00e1lise com Freud, antecipa-se, de alguma maneira, a ascens\u00e3o do objeto mais-de-gozar ao z\u00eanite social. A eleva\u00e7\u00e3o do objeto\u00a0<em>a<\/em>\u00a0ao status de b\u00fassola em nossos dias seria uma das repercuss\u00f5es de um s\u00e9culo de exerc\u00edcio da psican\u00e1lise.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As condi\u00e7\u00f5es de possibilidade para a cria\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise foi o sintoma hist\u00e9rico: um real que faz furo no discurso da ci\u00eancia. Dar sentido ao real do sintoma, tom\u00e1-lo como verdade foi o saber-fazer institu\u00eddo e transmitido por Freud. Entretanto, o sintoma n\u00e3o se apresenta mais da mesma maneira. Ali, o sintoma era o efeito de uma moral civilizada, o resto de uma opera\u00e7\u00e3o que tentava domar as puls\u00f5es. Se hoje o imperativo \u00e9 \u201cGoze!\u201d, os sintomas n\u00e3o se apresentar\u00e3o da mesma forma:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px; text-align: justify;\">Nos dias de hoje, acrescentando-se ao mal-estar da psican\u00e1lise, produziu-se uma cis\u00e3o do ser no sintoma. [&#8230;] O sintoma tinha algo a dizer. Era definitivamente a intencionalidade inconsciente que fazia consistir o sintoma. Pois bem, na palavra sintoma, o \u201csin\u201d se foi e s\u00f3 restou o \u201ctoma\u201d. Doravante, o sintoma foi reduzido a dist\u00farbio. (MILLER, 2005, p. 15)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo Laurent e Miller (1998), a subjetividade contempor\u00e2nea est\u00e1 submersa, em escala industrial, por semblantes, sob um movimento dif\u00edcil de ser resistido. Acrescentam que o simb\u00f3lico contempor\u00e2neo est\u00e1 escravizado pelo imagin\u00e1rio, submetido a ele. \u00c0 psican\u00e1lise resta convocar o real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se na era vitoriana havia uma identifica\u00e7\u00e3o vertical ao l\u00edder, \u00e0s institui\u00e7\u00f5es, o que vivemos no capitalismo tardio \u00e9 uma identifica\u00e7\u00e3o horizontal. Como \u201dsequelas da escalada do objeto\u00a0<em>a<\/em>\u00a0ao z\u00eanite social\u201d (LAURENT; MILLER, 1998, p. 15), temos homens e mulheres determinados pelo isolamento, cada um com seu gozo, bem como a prolifera\u00e7\u00e3o dos comit\u00eas de \u00e9tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se hoje \u201cpode-se dispensar o Nome-do-Pai enquanto real com a condi\u00e7\u00e3o de dele se servir como semblante\u201d (LAURENT; MILLER, 1998, p. 6) e se uma psicose pode estabilizar-se atrav\u00e9s de um substituto do Nome-do-Pai, entendemos que a cl\u00ednica pode se servir da psicose ordin\u00e1ria, em sua pluralidade de amarra\u00e7\u00f5es, como paradigma para o tratamento de sujeitos que apresentam sintomas decorrentes da queda do Pai.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, a leitura binarista da cl\u00ednica estrutural se mostra insuficiente para abordar os sujeitos hipermodernos e seus sintomas pulverizados. Laurent (2020) afirma que Lacan, em seu \u00faltimo ensino, nos deixa indica\u00e7\u00f5es para reinventar a psican\u00e1lise e compreendemos que nosso ponto de partida \u00e9, portanto, a cl\u00ednica borromeana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com Laurent (2020, p. 49, tradu\u00e7\u00e3o nossa), Lacan nos aponta que h\u00e1 \u201cuma estabiliza\u00e7\u00e3o da met\u00e1fora delirante gra\u00e7as a uma fic\u00e7\u00e3o n\u00e3o ed\u00edpica\u201d e que esse apontamento pode ser generalizado quando o relemos a partir da segunda cl\u00ednica. Se na psicose n\u00e3o existe um Outro bem constru\u00eddo, a dire\u00e7\u00e3o do tratamento dos sujeitos psic\u00f3ticos nos serve como baliza para o manejo cl\u00ednico psicanal\u00edtico dos sujeitos na contemporaneidade:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px; text-align: justify;\">A nota\u00e7\u00e3o do analista como aquele que segue o que o analisando tem a dizer, \u00e9 consonante com a descri\u00e7\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o do analista como testemunha ou secret\u00e1rio da elabora\u00e7\u00e3o que conduz o sujeito psic\u00f3tico, ap\u00f3s a fal\u00eancia do Nome-do-Pai. (LAURENT, 2018, p. 49)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se, na primeira cl\u00ednica lacaniana, a psican\u00e1lise s\u00f3 seria poss\u00edvel a partir da transfer\u00eancia, que, por sua vez, s\u00f3 existe com um Outro bem estabelecido, como a psican\u00e1lise pode operar em tempos em que o Outro n\u00e3o existe? Isso significa dizer que o saber n\u00e3o est\u00e1 suposto no analista e que este, ent\u00e3o, operar\u00e1 seguindo o saber do analisante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seguindo esta trilha, a posi\u00e7\u00e3o de sujeito suposto saber \u00e9 substitu\u00edda pela posi\u00e7\u00e3o daquele que segue o analisante. \u00c9 o analisante quem sabe. Essa mudan\u00e7a de estatuto da transfer\u00eancia, relacionada \u00e0 inexist\u00eancia do Outro, implica em irmos na contram\u00e3o da primeira cl\u00ednica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Baseado na f\u00f3rmula geral da comunica\u00e7\u00e3o, de que recebemos a pr\u00f3pria mensagem de maneira invertida, o analista ser\u00e1 esse Outro que produzir\u00e1 o efeito de retorno do saber que \u00e9 pr\u00f3prio do analisante. Entretanto, nos adverte Laurent (2020, p. 44, tradu\u00e7\u00e3o nossa), \u201cisso s\u00f3 pode funcionar na condi\u00e7\u00e3o de dar a esse saber seu alcance de singularidade radical. N\u00e3o se pode saber o que \u00e9 antes que esse saber chegue a ser recebido em sua forma invertida\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse sentido, necessita-se do analista para um acr\u00e9scimo de sentido que fa\u00e7a verdadeiro o trope\u00e7o. Uma significa\u00e7\u00e3o que provoque o despertar. Um significante novo. Assim, o analista secretaria o\u00a0<em>falasser<\/em>:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px; text-align: justify;\">Nos fazemos de destinat\u00e1rio do sujeito que nomeia o gozo n\u00e3o negativiz\u00e1vel. Procedemos destacando as nomina\u00e7\u00f5es mais singulares feitas pelo sujeito. [&#8230;] Onde havia a hi\u00e2ncia no Outro obstru\u00edda pelo objeto<em>\u00a0a<\/em>\u00a0n\u00e3o extra\u00eddo, se constr\u00f3i uma borda desse Outro pela s\u00e9rie de nomina\u00e7\u00f5es. A s\u00e9rie responde ao real sem lei. (LAURENT, 2020, p. 51, tradu\u00e7\u00e3o nossa)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na primeira cl\u00ednica, o analista se colocava como secret\u00e1rio do alienado no campo das psicoses; hoje, tal papel cabe tamb\u00e9m nas neuroses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Considera\u00e7\u00f5es finais<\/em>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vivemos em um momento em que as fronteiras entre neurose e psicose n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o claras. A horizontalidade das rela\u00e7\u00f5es no la\u00e7o social faz com que o analista n\u00e3o opere mais a partir do lugar de suposi\u00e7\u00e3o de saber, mas como aquele que secretaria o analisante, auxiliando-o a construir uma s\u00e9rie de nomea\u00e7\u00f5es que fa\u00e7am borda em sua defesa contra o real do gozo, seja ele neur\u00f3tico ou psic\u00f3tico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O analista, como aquele que devolve ao sujeito, de forma invertida, o que ele lhe diz, ser\u00e1 o destinat\u00e1rio que far\u00e1 um acr\u00e9scimo de sentido que eleve o saber do analisante \u00e0 sua singularidade radical, provocando-lhe um despertar, como um significante novo. Para cada sujeito, neur\u00f3tico ou psic\u00f3tico, a amarra\u00e7\u00e3o dos registros real, simb\u00f3lico e imagin\u00e1rio ser\u00e1 uma inven\u00e7\u00e3o absolutamente particular. \u00c9 o que nos ensinam os psic\u00f3ticos ordin\u00e1rios.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">AGAMBEN, G. \u00bfQu\u00e9 es un paradigma?\u00a0<em>Fractal: Revista de Psicologia<\/em>, n. 53-54, v. 14, 2009.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">CARVALHO, S. O caso paradigm\u00e1tico e a nosologia estrutural. In: TEIXEIRA, A.; ROSA, M. (Orgs.).\u00a0<em>Psicopatologia Lacaniana II<\/em>: Nosologia. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2020, p. 45-72.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">LAURENT, \u00c9. Disrup\u00e7\u00e3o do gozo nas loucuras sob transfer\u00eancia.\u00a0<em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana. Revista Internacional de Psican\u00e1lise<\/em>, n. 79, p. 52-63. jul. 2018.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">LAURENT, \u00c9. Tratamiento psicoanal\u00edtico de la psicosis e igualdad de las consistencias. In: MILLER, J.-A.; BRIOLLE, G.\u00a0<em>La conversaci\u00f3n cl\u00ednica<\/em>. Olivos: Grama Ediciones, 2020, p. 41-54.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">LAURENT, E.; MILLER, J.-A. O Outro que n\u00e3o existe e seus comit\u00eas de \u00e9tica.\u00a0<em>Curinga<\/em>, n. 12, p. 4-18, 1998.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">MILLER, J.-A. Uma fantasia.\u00a0<em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana. Revista Internacional de Psican\u00e1lise<\/em>, n. 42, p. 7-18, 2005.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">MILLER, J.-A. Efeito do retorno \u00e0 psicose ordin\u00e1ria.\u00a0<em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana On-line<\/em>, n. 3, 2010. Dispon\u00edvel em: www.opcaolacaniana.com.br\/nranterior. Acesso em: 14 set. 2021.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Edwiges de Oliveira Neves Psic\u00f3loga cl\u00ednica Mestre em Psicologia (PUC\/MG) Ex-aluna do Curso de Psican\u00e1lise do IPSM-MG edwigespsique@yahoo.com.br Resumo:\u00a0H\u00e1 um consenso entre os analistas de que os sujeitos hipermodernos se apresentam na cl\u00ednica um tanto refrat\u00e1rios aos moldes de interven\u00e7\u00e3o tradicionais, de uma cl\u00ednica psicanal\u00edtica interpretativa, que tinha o \u00c9dipo como teoria central. 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