{"id":1787,"date":"2021-07-19T06:40:41","date_gmt":"2021-07-19T09:40:41","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1787"},"modified":"2025-12-01T13:29:43","modified_gmt":"2025-12-01T16:29:43","slug":"nao-sem-os-corpos1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2021\/07\/19\/nao-sem-os-corpos1\/","title":{"rendered":"N\u00c3O SEM OS CORPOS[1]\u00a0"},"content":{"rendered":"<h6>BERNARD SEYNHAEVE<br \/>\nPsicanalista. Membro da ECF e da NLS (AMP) |<br \/>\n<span id=\"cloakc5647fb31bb131ad2e4417d5cebc13c0\"><a href=\"mailto:seynhaeve.bernard@gmail.com\">seynhaeve.bernard@gmail.com<\/a><\/span><\/h6>\n<blockquote><p><strong>Resumo:\u00a0<\/strong>O autor sustenta o lugar determinante que Lacan d\u00e1 \u00e0 presen\u00e7a dos corpos em uma an\u00e1lise: o do analista e do analisante. Em seu ultim\u00edssimo ensino, compreende-se que a interpreta\u00e7\u00e3o segue o rastro do\u00a0<em>falasser<\/em>\u00a0considerando que a fun\u00e7\u00e3o do inconsciente se completa pelo corpo \u2014 n\u00e3o pelo corpo simbolizado nem pelo corpo imagin\u00e1rio, mas pelo corpo que tem em si algo de real. Portanto, para al\u00e9m da decifra\u00e7\u00e3o, o que uma interpreta\u00e7\u00e3o visa \u00e9 perturbar a defesa, fazer ressoar o corpo afetado por\u00a0<em>lalangue<\/em>. Para tanto, n\u00e3o basta se ver ou se falar; a presen\u00e7a f\u00edsica tamb\u00e9m faz parte da interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave:<\/strong>\u00a0Interpreta\u00e7\u00e3o, corpo; gozo, sinthoma, lalangue.<\/p>\n<p><strong>NOT WITHOUT BODIES<\/strong><\/p>\n<p><strong>Abstract:\u00a0<\/strong>The author sustains the determining place that Lacan gives to the presence of bodies in an analysis: that of the analyst and the analysand. In his last teaching, it is understood that interpretation follows the trail of the speaking being, considering that the function of the unconscious is completed by the body, not by the symbolized body, nor by the imaginary body, but by the body that has something real in it. Therefore, beyond deciphering, what an interpretation aims at is to disturb the defense, to make the body affected by lalangue resonate. Therefore, it is not enough to see or speak, the physical presence is also part of the interpretation.<\/p>\n<p><strong>Keywords:\u00a0<\/strong>Interpretation, body, sinthome, jouissance, sinthome, lalangue..<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_1788\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/construes_4-1.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"600\" data-large_image_height=\"450\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1788\" class=\"wp-image-1788 size-full\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/construes_4-1.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/construes_4-1.jpg 600w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/construes_4-1-300x225.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1788\" class=\"wp-caption-text\">M\u00e1rio Azevedo, S\/T, 2020\/2021.<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tento avan\u00e7ar com as quest\u00f5es que me tocam.<\/p>\n<p>Gostaria de tentar precisar por que uma psican\u00e1lise lacaniana necessita, exige a presen\u00e7a dos corpos: o do analisante e o do analista.<\/p>\n<p>Isso pode parecer evidente \u00e0 primeira vista, mas n\u00e3o \u00e9. Dessa forma, uma quest\u00e3o que eu n\u00e3o esperava surgiu num grupo da New Lacanian School (NLS). Um colega disse: \u201cVoc\u00ea ver\u00e1, senhor, que um dia haver\u00e1 AEs que ter\u00e3o feito suas an\u00e1lises por Skype\u201d. Essa quest\u00e3o, que \u00e9 pol\u00edtica, coloca-se em nossa Escola, a NLS. Aqueles que estiveram em Tel-Aviv na Assembleia Geral de 2019 se lembram de nosso debate acerca do uso da internet (Skype) na cura.<\/p>\n<p>Uma outra quest\u00e3o se coloca para mim na perspectiva de nosso pr\u00f3ximo Congresso, que acontecer\u00e1 em Gante, em junho de 2020<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/bernard-seynhaeve#_edn2\" name=\"_ednref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>, sobre a interpreta\u00e7\u00e3o nos tempos do\u00a0<em>falasser<\/em>, e n\u00e3o mais nos tempos do sujeito. Essa quest\u00e3o leva em considera\u00e7\u00e3o o ultim\u00edssimo ensino de Lacan, que visa perturbar a defesa.<\/p>\n<p>A defesa \u00e9 esse \u201cdispositivo ps\u00edquico\u201d que Freud, desde o come\u00e7o de sua obra, postula como sendo uma \u201cdefesa prim\u00e1ria\u201d, que bloqueia aquilo que chamou de\u00a0 \u201camea\u00e7as de desprazer\u201d (FREUD, 1895\/1980, p. 486) e que chamamos, com Lacan, de \u201co real do gozo\u201d, o impacto da l\u00edngua sobre o corpo. Para o \u00faltimo Lacan, a interpreta\u00e7\u00e3o visa perturbar a defesa na medida em que cuida de n\u00e3o desfazer o n\u00f3 de\u00a0<em>lalangue\u00a0<\/em>e do corpo, mas de faz\u00ea-lo ressoar.<\/p>\n<p>O que seria, portanto, um corpo impactado pela l\u00edngua?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Da necessidade da presen\u00e7a dos corpos<\/em><\/p>\n<p>Freud, no fim de sua vida, estava com esta constante: a an\u00e1lise \u00e9 intermin\u00e1vel. Para o ultim\u00edssimo Lacan, uma an\u00e1lise pode se concluir na medida em que o\u00a0<em>falasser<\/em>\u00a0encontra um saber-fazer com seu sinthoma, isto \u00e9, com o impacto da l\u00edngua sobre o seu corpo. Se a interpreta\u00e7\u00e3o visa perturbar a defesa, \u00e9 na medida em que tenta tocar esse real do corpo que se goza.<\/p>\n<p>Mas pergunto: para tocar esse real, a presen\u00e7a dos corpos, do analista e do analisante, \u00e9 necess\u00e1ria?<\/p>\n<p>Salientamos, a respeito disso, duas interven\u00e7\u00f5es de Jacques-Alain Miller. A primeira \u00e9 retirada de sua entrevista ao jornal\u00a0<em>Lib\u00e9ration<\/em>, em 1999.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cA tecnologia desenvolve modos de presen\u00e7a in\u00e9ditos. O contato a dist\u00e2ncia em tempo real se tornou comum ao longo do s\u00e9culo. Quer seja por telefone, agora celular, internet, videoconfer\u00eancia. Isso vai continuar, multiplicar-se, ser\u00e1 onipresente. Mas ser\u00e1 que a presen\u00e7a virtual ter\u00e1, afinal, um impacto fundamental sobre a sess\u00e3o anal\u00edtica? N\u00e3o. Ver-se e falar-se, isso n\u00e3o faz uma sess\u00e3o anal\u00edtica. Na sess\u00e3o dois est\u00e3o ali juntos, sincronizados, mas eles n\u00e3o est\u00e3o ali para se verem, como demonstra o uso do div\u00e3. A co-presen\u00e7a em carne e osso \u00e9 necess\u00e1ria, nem que seja para fazer surgir a n\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o sexual. Se sabotamos o real, o paradoxo desaparece. Todos os modos de presen\u00e7a virtual, mesmo os mais sofisticados, trope\u00e7ar\u00e3o a\u00ed&#8221; (MILLER, 1999, tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/p>\n<p>A segunda \u00e9 extra\u00edda de sua interven\u00e7\u00e3o no texto publicado \u201cUma fantasia\u201d, no Congresso da AMP em Comandatuba, em 2004. \u201cO inconsciente \u00e9 corporal?\u201d (MILLER, 2005, p. 17). O efeito de interpreta\u00e7\u00e3o se deve ao uso das palavras ou a sua jacula\u00e7\u00e3o? Al\u00e9m do mais, \u00e9 preciso colocar o tom. Aqueles que tiveram a oportunidade de relatar as interpreta\u00e7\u00f5es de Lacan sempre as repetem com o tom de Lacan. \u201cA po\u00e9tica da interpreta\u00e7\u00e3o (&#8230;) \u00e9 um materialismo da interpreta\u00e7\u00e3o. (&#8230;) \u00c9 preciso p\u00f4r o corpo para elevar a interpreta\u00e7\u00e3o \u00e0 pot\u00eancia do sintoma\u201d (<em>Ibid<\/em>.).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O que \u00e9 um corpo?<\/em><\/p>\n<p>Visto que se trata de delimitar o que constitui a jun\u00e7\u00e3o do corpo e da l\u00edngua, o que \u00e9, portanto, um corpo? O que \u00e9 um corpo falante, o corpo dos seres falantes, o\u00a0<em>falasser<\/em>?<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Na apresenta\u00e7\u00e3o do tema do X Congresso da AMP, em 2014, Miller apontou que se pode, sem d\u00favida, apreender o corpo como imagin\u00e1rio: \u201c(&#8230;) encontramos a seguinte equival\u00eancia formulada por Lacan:\u00a0<em>o imagin\u00e1rio \u00e9 o corpo<\/em>. E (&#8230;) seu ensino, em seu conjunto, testemunha a favor dessa equival\u00eancia\u201d (MILLER, 2014). Mas ele acrescenta que Lacan, ao final de seu ensino, enuncia outra coisa: o corpo \u201c<em>\u00e9 um mist\u00e9rio<\/em>\u201d (<em>Ibid<\/em>.). Ele diz isso no\u00a0<em>Semin\u00e1rio: livro 20: mais, ainda<\/em>: \u201co real (&#8230;), \u00e9 o mist\u00e9rio do corpo falante, \u00e9 o mist\u00e9rio do inconsciente\u201d (LACAN, 1985, p. 178).<\/p>\n<p>Tentemos especificar esse mist\u00e9rio. J.-A. Miller nos convida para fazer uma distin\u00e7\u00e3o entre o que chamamos um corpo e uma massa, um saco de \u00f3rg\u00e3os, ou seja, entre o corpo e a carne.<\/p>\n<p>\u201cNa distin\u00e7\u00e3o entre o corpo e a carne, o corpo se mostra apto para figurar, como superf\u00edcie de inscri\u00e7\u00e3o, o lugar do Outro do significante. (&#8230;) O que faz mist\u00e9rio, mas permanece indubit\u00e1vel, \u00e9 o que resulta do dom\u00ednio do simb\u00f3lico sobre o corpo. Para diz\u00ea-lo em termos cartesianos: o mist\u00e9rio \u00e9 sobretudo o da uni\u00e3o da fala com o corpo. Por esse fato de experi\u00eancia, pode-se dizer que ele \u00e9 do registro do real\u201d (MILLER, 2014).<\/p>\n<p>O ser falante tem, portanto, um corpo e o utiliza como um instrumento para falar. O que faz mist\u00e9rio \u00e9 a pr\u00f3pria amarra\u00e7\u00e3o da l\u00edngua e do corpo, \u00e9 que UOM (<em>LOM<\/em>) (LACAN, 1975\/2003) possa fazer uso de seu corpo para falar. E isso n\u00e3o se explica, \u00e9 um mist\u00e9rio, isso faz furo no saber e, consequentemente, d\u00e1 relev\u00e2ncia ao registro do real.<\/p>\n<p>Por outro lado, o falasser goza desse uso. O ser falante se goza de fazer uso de seu corpo enquanto falante. Portanto, n\u00e3o h\u00e1 somente o corpo que se imagina, h\u00e1 tamb\u00e9m o corpo que se goza. E esse gozo, o gozo do se gozar, \u00e9 autoer\u00f3tico, aut\u00edstico, como precisa Lacan. A percuss\u00e3o da l\u00edngua e do corpo faz furo (<em>trou<\/em>), ele diz mais, faz\u00a0<em>troumatisme\u00a0<\/em>(LACAN [1973-74], aula de 19\/2\/1974).<\/p>\n<p>A esse \u201ccorpo marcado por acontecimentos de gozo, por traumas de lal\u00edngua, vir\u00e3o, em seguida, efeitos inconscientes de sentido, assimilados por Lacan a efeitos de saber\u201d (LAURENT, 2016, p. 57), especifica Laurent. \u201cO gozo se experimenta: \u2018isso se sente\u2019. E \u00e9 ap\u00f3s essa prova pelo gozo que se produzem os efeitos de saber pr\u00f3prios aos efeitos significantes sobre o corpo\u201d (<em>Ibid<\/em>.), \u201c\u00e9 preciso, de in\u00edcio,\u00a0<em>ter<\/em>\u00a0um corpo, condi\u00e7\u00e3o para que o gozo (&#8230;) venha se inscrever nele\u201d (<em>Ibid<\/em>.).<\/p>\n<p>No come\u00e7o de seu ensino, Lacan desenvolveu as consequ\u00eancias de sua tese da primazia do simb\u00f3lico. O sintoma era ent\u00e3o considerado um retorno do recalcado inconsciente velando a verdade do sujeito, e a interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica consistia em tentar revelar a verdade oculta dos sintomas e do desejo inconsciente do sujeito.<\/p>\n<p>Nesse contexto, Lacan revisitou os conceitos freudianos \u2014 o inconsciente, a transfer\u00eancia, o sintoma e tamb\u00e9m a interpreta\u00e7\u00e3o \u2014 \u00e0 luz do simb\u00f3lico enfatizando a palavra, a linguagem e a letra. Essa tese de Lacan implica que existe um Outro, com O mai\u00fasculo, que \u00e9 correlativo ao conceito de fala. Isso implica tamb\u00e9m que a linguagem seja estruturada, ou seja, que \u201cos significantes est\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o entre si sob duas esp\u00e9cies, a da combina\u00e7\u00e3o e da substitui\u00e7\u00e3o, o sentido aparece como um efeito dessa combina\u00e7\u00e3o e dessa substitui\u00e7\u00e3o\u201d (MILLER [1995-96], aula de 31\/1\/1996, tradu\u00e7\u00e3o nossa). A interpreta\u00e7\u00e3o, nesse caso, n\u00e3o \u00e9 um problema. Ela se ocupa dos significantes. Ela responde \u00e0 quest\u00e3o do\u00a0<em>Che vuoi?<\/em>, Que queres?, e mesmo que seja sobre o desejo, ela continua a ser uma quest\u00e3o de sentido. Mas se, ao in\u00edcio de seu ensino, Lacan relia Freud definindo o inconsciente como sendo estruturado como uma linguagem, \u00e0 medida que seu ensino progride, ele extrair\u00e1 as consequ\u00eancias desse arranjo do corpo com a linguagem, isto \u00e9, do corpo que se goza. Portanto, as coisas mudam, observa J.-A. Miller.<\/p>\n<p>Para que a amarra\u00e7\u00e3o da linguagem e do corpo aconte\u00e7a, \u00e9 preciso que UOM (<em>LOM<\/em>) fa\u00e7a de seu corpo um instrumento de fala, UOM (<em>LOM<\/em>) fala atrav\u00e9s de seu corpo; para falar, \u00e9 preciso ter um corpo do qual se servir; UOM (<em>LOM<\/em>) deve consentir em ter um corpo para que a amarra\u00e7\u00e3o se produza. E \u00e9 esse n\u00f3 entre linguagem e corpo que constitui seu sinthoma. Esse n\u00f3 \u00e9 s\u00f3lido. A principal consequ\u00eancia dessa tese ser\u00e1 orientar a cura anal\u00edtica em dire\u00e7\u00e3o a esse n\u00f3, em dire\u00e7\u00e3o ao real do gozo produzido por essa amarra\u00e7\u00e3o para faz\u00ea-la ressoar.<\/p>\n<p>Lacan muda, ent\u00e3o, o vocabul\u00e1rio, como observa J.-A. Miller. Ele n\u00e3o utiliza mais os conceitos freudianos de inconsciente, sintoma e recalque, mas fala de\u00a0<em>falasser<\/em>, sinthoma e verdade mentirosa. Passa-se da linguagem \u00e0\u00a0<em>lalangue<\/em>, da palavra \u00e0 aparola (<em>apparole<\/em>), ou seja, ao aparelho de gozo, do sujeito do inconsciente ao\u00a0<em>falasser<\/em>.<\/p>\n<p>Para ilustrar essa mudan\u00e7a, J.-A. Miller toma de Michel Leiris um pequeno exemplo atrav\u00e9s do qual ele inicia sua \u201cRegra do jogo\u201d, tr\u00eas pequenas p\u00e1ginas que narram uma experi\u00eancia de crian\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cEnt\u00e3o, Michel Leiris \u00e9 uma criancinha que ainda n\u00e3o sabia ler nem escrever, ele brinca com seus soldadinhos. Um soldadinho cai. Ele deveria ter se quebrado, mas n\u00e3o se quebrou. E Leiris diz: \u2018foi tamanha minha alegria que me expressei dizendo: \u2018flismente\u2019 (<em>reusement<\/em>)!\u2019. Mas \u00e9 felizmente (<em>heuresement<\/em>) que ele deveria ter dito, sua m\u00e3e disse a ele. O pequeno Michel, quando estava indo tudo bem, acreditava que se dizia \u2018flismente\u2019 (<em>reusement<\/em>). Ele ent\u00e3o descreve minuciosamente o quanto ficou surpreso: para ele,\u00a0<em>reusement<\/em>\u00a0era muito mais expressivo que\u00a0<em>heureusement<\/em>.\u00a0<em>Reusement<\/em>\u00a0\u00e9, sem d\u00favida, uma pura jacula\u00e7\u00e3o (&#8230;), uma jacula\u00e7\u00e3o de gozo que encontra seu significante adequado. Mas agora se produz (&#8230;), como diz Leiris, \u2018um rasgo no v\u00e9u, uma explos\u00e3o de verdade\u2019. Ele descobre que h\u00e1 um sentido da palavra, um sentido na l\u00edngua e que ele deve dizer felizmente (<em>heureusement<\/em>), como todo mundo. Sente-se que isso \u00e9 \u00fanico, que ele ser\u00e1 capaz de escrever interminavelmente sua pr\u00f3pria \u2018Regra do jogo\u2019. A regra do jogo \u00e9, justamente, que \u00e9 preciso dizer como todo mundo (que nos endere\u00e7amos ao Outro com O mai\u00fasculo) e que, nesse momento, a palavra se encontra inserida em uma sequ\u00eancia de significa\u00e7\u00f5es precisas (numa estrutura gramatical, lexical, sint\u00e1tica) e que aquilo que era antes, era realmente uma \u2018coisa minha\u2019 \u2014 ele diz. Esse pequeno exemplo impressionante, Leiris o desenvolve um pouco mais adiante. H\u00e1 um segundo fragmento de \u2018A Regra do jogo\u2019 que come\u00e7a com estas palavras: \u2018Quando ainda n\u00e3o sabemos ler\u2019. Ele tenta capturar o que seria a linguagem antes de come\u00e7armos a escrever e a ler. Ele se pergunta o que s\u00e3o as palavras quando as apreendemos apenas pela audi\u00e7\u00e3o\u201d (MILLER, 1995-1996, aula de 17\/1\/1996, tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Lalangue<\/em>\u00a0n\u00e3o \u00e9 uma estrutura, ela \u00e9 sem Outro, ela n\u00e3o obedece \u00e0s regras gramaticais e sint\u00e1ticas. Ela n\u00e3o se endere\u00e7a ao Outro, ela \u00e9 para si mesma \u201co que se sabe, consigo\u201d, como diz Lacan em seu \u00faltimo escrito (LACAN, 1976\/2003, p. 567). Ela n\u00e3o \u00e9 um querer dizer ao Outro, \u201cela n\u00e3o \u00e9 o sentido, mas o gozo\u201d (MILLER, 1995-96, aula de 31\/1\/1996, tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O que \u00e9 uma interpreta\u00e7\u00e3o no sentido do ultim\u00edssimo Lacan?<\/em><\/p>\n<p>No semin\u00e1rio\u00a0<em>O objeto da psican\u00e1lise<\/em>, Lacan retoma, como observa Laurent (2020), as primeiras frases de seu primeiro semin\u00e1rio ([1953-54], 2009, p. 9) sobre a a\u00e7\u00e3o do mestre zen:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201ctodos sabem que o exerc\u00edcio Zen tem alguma rela\u00e7\u00e3o, mesmo que n\u00e3o saibamos bem o que isso quer dizer, com a realiza\u00e7\u00e3o subjetiva de um vazio. (&#8230;) o vazio mental que se trata de obter e que seria obtido nesse momento singular, brusquid\u00e3o que sucede \u00e0 espera que se realiza \u00e0s vezes por uma palavra, uma frase, uma jacula\u00e7\u00e3o, at\u00e9 mesmo uma grosseria, uma zombaria, um p\u00e9 na bunda\u201d (LACAN, 1965-66, aula de 15\/12\/1965).<\/p>\n<p>O mestre zen coloca, portanto, seu corpo a\u00ed.<\/p>\n<p>O analista tamb\u00e9m coloca seu corpo em jogo, a interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica \u00e9, ela mesma, um arranjo de\u00a0<em>lalangue<\/em>\u00a0e do corpo do analista. J.-A, Miller esclarece:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cTudo esta\u0301 ligado ao acontecimento, um acontecimento que deve ser encarnado, que \u00e9 um acontecimento de corpo \u2014 definic\u0327a\u0303o de sinthoma dada por Lacan. O resto, digamo-lo, e\u0301 uma roupagem \u2014 uma roupagem necessa\u0301ria, na maioria dos casos. Mas o nu\u0301cleo (da an\u00e1lise) (&#8230;), e\u0301 esse instante, o instante da encarnac\u0327a\u0303o\u201d (MILLER, 2009, p. 76, \u00a0tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/p>\n<p>Mais adiante, com rela\u00e7\u00e3o ao sinthoma, J.-A. Miller assinala tamb\u00e9m:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cHa\u0301 um ni\u0301vel de defesa que \u00e9 mais tortuoso, mais paradoxal (&#8230;). Do ponto de vista do singular, do ponto de vista do sinthoma, como o que ha\u0301 de singular em cada um, na\u0303o vejo como evitar dizer \u2014 bem que eu gostaria \u2014, n\u00e3o vejo como evitar ao menos passar por essa proposic\u0327a\u0303o a fim de aferi-la: o inconsciente (transferencial), ele mesmo, e\u0301 uma defesa \u2014 sim \u2014, o inconsciente e\u0301 uma defesa contra o gozo em seu status mais profundo, que \u00e9 seu status fora de sentido\u201d (MILLER, 2009, p. 77, tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/p>\n<p>\u201cA orientac\u0327a\u0303o para o singular\u201d, ele continua, \u201cna\u0303o quer dizer que na\u0303o decifremos o inconsciente. Ela quer dizer que essa explorac\u0327a\u0303o encontra necessariamente um obsta\u0301culo, que a decifrac\u0327a\u0303o se interrompe no fora de sentido do gozo\u201d (MILLER, 2009, p. 78, tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/p>\n<p>Mas, \u201cdo lado do inconsciente\u201d, ele avan\u00e7a,<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cha\u0301 o singular do sinthoma, onde isso na\u0303o fala a ningue\u0301m (o mon\u00f3logo do\u00a0<em>falasser<\/em>\/<em>parl\u00eatre<\/em>, o autismo do sintoma). Raza\u0303o pela qual Lacan o qualifica de acontecimento de corpo. Na\u0303o se trata de um acontecimento de pensamento (&#8230;). E\u0301 um acontecimento de corpo substancial, aquele que tem consiste\u0302ncia de gozo\u201d (MILLER, 2009, p. 78, tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/p>\n<p>E, uma coisa importante a se lembrar, \u00e9 que a interpreta\u00e7\u00e3o que produz sentido, saber sobre o sintoma, n\u00e3o se relaciona com o acontecimento de corpo, com o sinthoma.<\/p>\n<p>J.-A Miller assinala, ent\u00e3o, o lugar determinante que Lacan d\u00e1 \u00e0 presen\u00e7a e, mais especificamente, ao corpo do analista no segundo tempo da an\u00e1lise:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201co ponto de vista do sinthoma consiste em pensar o inconsciente a partir do gozo. Pois bem, isso tem consequ\u00eancias para a pra\u0301tica, especialmente para a pra\u0301tica da interpretac\u0327a\u0303o. A interpreta\u00e7\u00e3o na\u0303o e\u0301 apenas a decifrac\u0327a\u0303o de um saber, e\u0301 fazer ver, \u00e9 elucidar a natureza de defesa do inconsciente. Sem du\u0301vida ali onde isso fala, isso goza, mas a orientac\u0327a\u0303o para o sinthoma enfatiza o seguinte: isso goza ali onde isso na\u0303o fala, isso goza ali onde isso na\u0303o faz sentido. Como Lacan p\u00f4de convidar o analista a ocupar (anteriormente) o lugar do objeto pequeno a, em seu Semina\u0301rio\u00a0<em>O Sinthoma<\/em>, ele formula: O analista e\u0301 um sinthoma. Ele e\u0301 suportado pelo na\u0303o-sentido, ent\u00e3o perdoamos-lhe suas motivac\u0327o\u0303es, ele na\u0303o se explicara\u0301. Preferira\u0301, antes, dar-se ares de acontecimento de corpo, de semblante de traumatismo. E tera\u0301 muito a sacrificar para fazer jus a ser, ou a ser considerado um peda\u00e7o (<em>bout<\/em>) de real\u201d (MILLER, 2009. p. 79, tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/p>\n<p>J.-A. Miller nos d\u00e1 aqui uma indica\u00e7\u00e3o precisa sobre o que seria a interpreta\u00e7\u00e3o em uma cura orientada para o sinthoma.<\/p>\n<p>Prosseguirei com dois exemplos cl\u00ednicos em que a interven\u00e7\u00e3o do analista toca o mais \u00edntimo, o mais singular do ser do analisante, a saber, o sinthoma que orientou e decidiu seu destino. Recorrerei a excertos de dois testemunhos, os de Monique Kusnierek e de Bernard Porcheret, que me tocaram profundamente, me marcaram pessoalmente e que, no que concerne a essa articula\u00e7\u00e3o do corpo e de\u00a0<em>lalangue<\/em>, s\u00e3o claros e precisos.<\/p>\n<p>Aqui est\u00e1 o que Kusnierek diz:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cA sess\u00e3o acabara de terminar. Ela sa\u00eda do consult\u00f3rio de seu analista, estava no corredor, ele fazia sombra e, de repente, ela ouve atr\u00e1s dela um barulho de um bicho feroz. Ela n\u00e3o acredita em seus ouvidos. Ela se vira para verificar com seus olhos o que havia ouvido. \u00c9 quando v\u00ea seu analista que gesticula como um bicho feroz pronto para se lan\u00e7ar sobre sua presa. Ela fica surpresa e ri.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Que essa pantomima barulhenta fez interpreta\u00e7\u00e3o, suas consequ\u00eancias o provam. A analisante entendeu, antes de tudo, que, na rela\u00e7\u00e3o transferencial, n\u00e3o havia apenas uma demanda de amor e um abandono, mas tamb\u00e9m uma puls\u00e3o oral, que fazia sentir a sua presen\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Ela, ent\u00e3o, come\u00e7a a buscar como pensar isso em termos de transfer\u00eancia, como integrar essa puls\u00e3o, devorante, \u00e0 \u00fanica coisa que ela vinha fazer em an\u00e1lise, que era falar, isto \u00e9: colocar em jogo a rela\u00e7\u00e3o que ela tinha com o saber, expor-se, cair sobre o que ela n\u00e3o sabia.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Ela encontrou, ent\u00e3o, uma f\u00f3rmula que lhe pareceu ideal e que estava no limite do que ela poderia elaborar sobre o que era, para si, o fato de falar. Foi a seguinte f\u00f3rmula: \u2018Se n\u00e3o estou \u00e0 altura, ent\u00e3o me morda!\u2019.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Esse \u2018me morda!\u2019 era, sem d\u00favida, a f\u00f3rmula de um imperativo pulsional. Ela entendeu, ent\u00e3o, que essa era a motiva\u00e7\u00e3o louca que a levava a cada semana \u00e0 an\u00e1lise e que esse imperativo estava articulado nela \u00e0 divis\u00e3o gerada pelo pr\u00f3prio fato de falar (&#8230;).<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Essa interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 sem palavras. Consiste apenas em um som e um gesto. Comporta um som, um barulho de bicho feroz, um \u2018grr\u2019, como uma esp\u00e9cie de n\u00facleo da fala que, de repente, se faz ouvir. E, ao mesmo tempo, um gesto igualmente intempestivo se faz ver, o do bicho feroz pronto para lan\u00e7ar-se sobre sua presa.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">A interpreta\u00e7\u00e3o (&#8230;) (produz) uma montagem c\u00eanica que se inspira muito diretamente no pesadelo. Essa montagem \u00e9 usada para trazer \u00e0 cena da transfer\u00eancia a devora\u00e7\u00e3o. A devora\u00e7\u00e3o torna-se um semblante, uma pe\u00e7a com a qual se joga.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Essa interpreta\u00e7\u00e3o do analista diz respeito ao pr\u00f3prio analista como parceiro do sujeito. O analista se faz surgir na cena como um bicho-pap\u00e3o, como o Outro convocado pela montagem pulsional do sujeito. E, de repente, essa montagem na qual se fabricou um Outro fant\u00e1stico acaba se revelando ser apenas uma farsa burlesca. \u00c9 o que, depois de ter a surpresa, fez essa analisante rir.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Isso a levou, posteriormente, a tirar uma s\u00e9rie de conclus\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">O analista, ao se fazer de bicho feroz, ou seja, reduzindo o Outro da fantasia ao seu semblante, realizou, de fato, o que o terceiro sonho anunciava: a castra\u00e7\u00e3o do grande Outro\u201d (KUSNIEREK, 2002, p. 23-36, tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/p>\n<p>Eis aqui um curto trecho de testemunho de Bernard Porcheret que, em seu relato, evidencia seu fasc\u00ednio pela morte, o que se inscreve em toda a sua hist\u00f3ria. Aqui est\u00e1, como ele a chama, \u201ca interpreta\u00e7\u00e3o decisiva\u201d:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cNo caminho em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 porta de sa\u00edda, eu tiro meu casaco do cabide. Sil\u00eancio, nenhum barulho de ma\u00e7aneta para ir chamar o analisante seguinte. Viro-me, o analista, conting\u00eancia da interpreta\u00e7\u00e3o, neste dia, est\u00e1 vestido com um terno escuro, daqueles que vestimos para momentos solenes. Na penumbra do corredor, atr\u00e1s da porta da sala de espera, ele fica de frente para a parede, congelado, imitando o agente funer\u00e1rio. Siderado (&#8230;).<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Na rua, a alguns metros de dist\u00e2ncia, leve, eu rio. Um dizer surgiu: f\u00f4lego. Algumas palavras, como se sa\u00eddas de um buraco, se escrevem. Um salto aconteceu na sa\u00edda do tobog\u00e3. A interpreta\u00e7\u00e3o fez cair o significante mestre\u00a0<em>agente funer\u00e1rio,<\/em>\u00a0sob o qual eu estava esmagado. Imitando-o, em sil\u00eancio e sem olhar, o analista me separa dele. Eu era aquele olhar se olhando, aquela voz que se invocava. Quebra. Eu era aquela boca \u00e0 qual eu me oferecia como alimento para domestic\u00e1-la. A puls\u00e3o enoda a sexualidade no inconsciente e a morte\u201d (PORCHERET, 2012, p. 63, tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Para pontuar minha interven\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>Cito novamente J.-A. Miller.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cE correlativamente \u00e0 no\u00e7\u00e3o de interpreta\u00e7\u00e3o como perturba\u00e7\u00e3o, algo como o\u00a0<em>falasser\u00a0<\/em>(<em>parl\u00eatre<\/em>) deve ser introduzido, uma no\u00e7\u00e3o da ordem do que Lacan denomina que vai mais al\u00e9m do inconsciente. (&#8230;) e (o) que se inscreve nesse lugar: ele o chamou de falasser, no qual a fun\u00e7\u00e3o do inconsciente se completa com o corpo, mas n\u00e3o pelo corpo simbolizado, o corpo imagin\u00e1rio, sen\u00e3o com o que o corpo tem de real.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Assim, a interpreta\u00e7\u00e3o como perturba\u00e7\u00e3o mobiliza algo do corpo, exige ser investida pelo analista e, por exemplo, que ele forne\u00e7a (&#8230;) o tom, a voz, o sotaque. At\u00e9 o gesto e o olhar.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Pensando nessa interpreta\u00e7\u00e3o como perturba\u00e7\u00e3o, recordava uma observa\u00e7\u00e3o de uma passante (Kusnierek)<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/bernard-seynhaeve#_edn3\" name=\"_ednref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>\u00a0que referia, como AE, \u00e0 sua cura e o que havia sido para ela o ponto de viragem.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Tal como o contava, essa interpreta\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi todo um discurso: ela estava num longo corredor escuro depois da sess\u00e3o e, enquanto ia-se, viu-se levada a se virar, pois o analista lhe dirigia uma mensagem que, tal como ela a descreve, era feita de uma esp\u00e9cie de pantomima de devora\u00e7\u00e3o acompanhada de um vago rosnado, algo como um Grrr\u2026! (&#8230;). Como se assinalava muito precisamente, isso acontece (&#8230;) fora, na sa\u00edda (no corredor), j\u00e1 que a posi\u00e7\u00e3o padr\u00e3o n\u00e3o permite a opera\u00e7\u00e3o da vis\u00e3o, o olhar, etc. (&#8230;) (H\u00e1 a\u00ed) uma forma de colocar o corpo (&#8230;). N\u00e3o se pode trazer a puls\u00e3o oral ou a puls\u00e3o anal, mas podem-se trazer, por outro lado, as puls\u00f5es especificamente lacanianas, que s\u00e3o a puls\u00e3o esc\u00f3pica e a puls\u00e3o invocante.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">E a interpreta\u00e7\u00e3o como perturba\u00e7\u00e3o conta especificamente com essa contribui\u00e7\u00e3o. Em todo caso, um dia seria necess\u00e1rio apreender que o que falha na no\u00e7\u00e3o de decifra\u00e7\u00e3o \u00e9 que, na an\u00e1lise, \u00e9 preciso que um e o outro coloquem o corpo\u201d (MILLER, 2011, p. 136, tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/p>\n<p>Para terminar, evocarei um momento do Col\u00f3quio organizado pela UFORCA em 2011, em Montpellier, acerca do\u00a0<em>Semin\u00e1rio, livro 23: o sinthoma<\/em>.<\/p>\n<p>\u00c9ric Laurent foi convidado para comentar um texto apresentado por Alfredo Zenoni, que citava uma frase de Lacan no\u00a0<em>Semin\u00e1rio, livro 21: os n\u00e3o-tolos erram<\/em>, dita em 1973, dois anos antes do\u00a0<em>Semin\u00e1rio, livro 23: o sinthoma<\/em>\u00a0(1975-1976\/2007). A frase era a seguinte: \u201co que voc\u00ea faz sabe o que voc\u00ea \u00e9\u201d (LACAN, 1973-74, aula de 11\/12\/1973, tradu\u00e7\u00e3o nossa). A frase completa est\u00e1 assim:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cIsso (a que) responde o discurso anal\u00edtico \u00e9 o seguinte: o que voc\u00ea faz, longe de ser o fato da ignor\u00e2ncia, \u00e9 sempre determinado, determinado j\u00e1 por alguma coisa que \u00e9 saber, e que chamamos o inconsciente. O que voc\u00ea faz, sabe (sabe, s.a.b.e), sabe o que voc\u00ea \u00e9: sabe de voc\u00ea!\u201d<\/p>\n<p>Tal debate merece ser seguido detalhadamente:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u00c9. Laurent: Alfredo Zenoni isolou uma frase do\u00a0<em>Semin\u00e1rio XXI<\/em>: \u201cO que voc\u00ea faz sabe o que voc\u00ea \u00e9\u201d. Nesse caso, o que voc\u00ea faz \u00e9 antes tomado na dimens\u00e3o daquilo que o inconsciente o faz fazer ou daquilo que o inconsciente, como saber, faz de voc\u00ea.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">J-A. Miller: Sim, mas h\u00e1 aqui uma esp\u00e9cie de materialismo do tipo: o que voc\u00ea faz, desde que voc\u00ea tenha um comportamento que se repete, bem, voc\u00ea \u00e9 isso (&#8230;). Voc\u00ea est\u00e1 atrasado. Voc\u00ea est\u00e1 atrasado e, portanto, voc\u00ea \u00e9 um retardat\u00e1rio. Voc\u00ea est\u00e1 o tempo todo atrasado, por causa disso ou daquilo, \u00e9 um ato falho, mas no fim das contas voc\u00ea \u00e9 um retardat\u00e1rio (&#8230;).<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">J-A. Miller: O psicanalista (ele tamb\u00e9m) \u00e9 s\u00f3 o que faz. \u00c9 isso. Ou seja, ele coloca seu corpo em jogo.<\/p>\n<p>Deduzo desse debate que, uma outra forma de dizer que \u201co psicanalista n\u00e3o pode se conceber a n\u00e3o ser como um sinthoma\u201d, \u00e9 dizer \u201co psicanalista, \u00e9 o\/isso que ele faz\u201d. Isso quer dizer que ele est\u00e1 presente com seu corpo, e sua interpreta\u00e7\u00e3o implica sua presen\u00e7a f\u00edsica.<\/p>\n<p>Uma interpreta\u00e7\u00e3o, segundo Lacan, visa, portanto, perturbar a defesa. Visa colocar \u201cum limite ao mon\u00f3logo autista do gozo\u201d (MILLER, 1995-96, aula de 31\/1\/1996 \u2013 tradu\u00e7\u00e3o nossa). E ela n\u00e3o pode ser considerada sem a presen\u00e7a dos corpos. Ela visa fazer ressoar no corpo algo que toque essa articula\u00e7\u00e3o do corpo e da l\u00edngua. Ela n\u00e3o implica necessariamente um enunciado, nem uma enuncia\u00e7\u00e3o (LACAN, 1974-1975, aula de 11\/2\/1975). Os meios utilizados para faz\u00ea-lo s\u00e3o diversos, mas para que ela fa\u00e7a acontecimento, \u00e9 preciso que o analista fa\u00e7a semblante do sinthoma do analisante \u2014 e \u00e9 dif\u00edcil ver como isso seria poss\u00edvel por Skype. Isso remete ao modo como o mestre zen o faz.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><strong>Tradu\u00e7\u00e3o:<\/strong>\u00a0Let\u00edcia Mello<\/h6>\n<h6><strong>Revis\u00e3o:<\/strong>\u00a0Michelle Sena<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas:<\/strong><\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1895) \u201cProjeto para uma psicologia cient\u00edfica\u201d.\u00a0<em>In<\/em>:\u00a0<strong>Edi\u00e7\u00e3o standard brasileira das obras psicol\u00f3gicas completas<\/strong>, Rio de Janeiro: Imago, v.1, 1980.<\/h6>\n<h6>KUSNIEREK, M. \u201cUne interpr\u00e9tation sans parole\u201d.\u00a0<em>In<\/em>:\u00a0<strong>Qui sont vos psychanalystes?<\/strong>. Paris: Seuil, Champ freudien, 2002, p. 23-26.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1953-54)\u00a0<strong>O Semin\u00e1rio, livro 1<\/strong>: os escritos t\u00e9cnicos de Freud. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2009.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1965-1966).\u00a0<strong>Le s\u00e9minaire, livre 13<\/strong>: l\u2019objet de la psychanalyse. 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(1976).\u00a0Pref\u00e1cio \u00e0 edi\u00e7\u00e3o inglesa do Semin\u00e1rio 11.\u00a0<strong>Outros escritos<\/strong>.\u00a0Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.<\/h6>\n<h6>LAURENT. \u00c9.\u00a0<strong>O avesso da biopol\u00edtica: uma escrita para o gozo<\/strong>. Rio de Janeiro: Contracapa, 2016.<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9. \u201cA interpreta\u00e7\u00e3o: da verdade ao acontecimento\u201d.\u00a0<em>In<\/em>:\u00a0<strong>Curinga<\/strong>, n. 50. Belo Horizonte: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise &#8211; Se\u00e7\u00e3o Minas, jul-dez 2020, p. 168-188.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. (1995-1996)\u00a0<strong>L\u2019orientation lacanienne.\u00a0<\/strong><strong>La fuite du sens<\/strong>. In\u00e9dito.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. (1999)\u00a0<strong>Le divan. XXIe si\u00e8cle. Demain la mondialisation des divans ?\u00a0<\/strong><strong>Vers le corps portable<\/strong>. Lib\u00e9ration. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.liberation.fr\/cahier-special\/1999\/07\/03\/le-divan-xx1-e-siecle-demain-la-mondialisation-des-divans-vers-le-corps-portable-par-jacques-alain-m_278498\">https:\/\/www.liberation.fr\/cahier-special\/1999\/07\/03\/le-divan-xx1-e-siecle-demain-la-mondialisation-des-divans-vers-le-corps-portable-par-jacques-alain-m_278498<\/a>\u00a0Acesso em 12 de junho de 2021.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. \u201cUma\u00a0fantasia\u201d.\u00a0<em>In<\/em>:\u00a0<strong>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/strong>, S\u00e3o Paulo: E\u00f3lia, n. 42, 2005, p. 7-18.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. \u201cL\u2019inconscient et le sinthome\u201d.\u00a0<em>In<\/em>:\u00a0<strong>La cause freudienne<\/strong>, n. 71, jun. 2009, p. 72-79.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A.\u00a0<strong>La experiencia de lo real en la cura psicoanal\u00edtica<\/strong>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2011.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A.\u00a0<strong>O inconsciente e o corpo falante, confer\u00eancia de apresenta\u00e7\u00e3o do tema do X Congresso da AMP<\/strong>, 2014. Wapol. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.wapol.org\/pt\/articulos\/Template.asp?intTipoPagina=4&amp;intPublicacion=13&amp;intEdicion=9&amp;intIdiomaPublicacion=9&amp;intArticulo=2742&amp;intIdiomaArticulo=9\">https:\/\/www.wapol.org\/pt\/articulos\/Template.asp?intTipoPagina=4&amp;intPublicacion=13&amp;intEdicion=9&amp;intIdiomaPublicacion=9&amp;intArticulo=2742&amp;intIdiomaArticulo=9<\/a>\u00a0Acesso em 29 de maio de 2021.<\/h6>\n<h6>PORCHERET, B. \u201cLa pulsion est vorace\u201d.\u00a0<em>In<\/em>:\u00a0<strong>La cause du d\u00e9sir<\/strong>, n. 83, dez. 2012, p. 60-64.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6>UFORCA.\u00a0<strong>Journ\u00e9e UFORCA pour l\u2019UPJL, Autour du S\u00e9minaire XXIII<\/strong>, 21 e 22 de maio de 2011. Montpellier, 2011. In\u00e9dito.<br \/>\n<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/bernard-seynhaeve#_ednref1\" name=\"_edn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>\u00a0Texto originalmente publicado na revista\u00a0<em>Quarto,\u00a0<\/em>n. 126. Belgique: ECF, dez. 2020. pp. 40-45<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/bernard-seynhaeve#_ednref2\" name=\"_edn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>\u00a0Trata-se do Congresso da NLS \u201cA interpreta\u00e7\u00e3o: da verdade ao acontecimento\u201d que deveria ter ocorrido dias 27 e 28 de junho de 2020, mas foi cancelado por causa da pandemia.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/bernard-seynhaeve#_ednref3\" name=\"_edn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>Trata-se do testemunho de Monique Kusnierek, evocado anteriormente.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>BERNARD SEYNHAEVE Psicanalista. Membro da ECF e da NLS (AMP) | seynhaeve.bernard@gmail.com Resumo:\u00a0O autor sustenta o lugar determinante que Lacan d\u00e1 \u00e0 presen\u00e7a dos corpos em uma an\u00e1lise: o do analista e do analisante. Em seu ultim\u00edssimo ensino, compreende-se que a interpreta\u00e7\u00e3o segue o rastro do\u00a0falasser\u00a0considerando que a fun\u00e7\u00e3o do inconsciente se completa pelo corpo&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57909,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[23],"tags":[],"class_list":["post-1787","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-27","category-23","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1787","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1787"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1787\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57910,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1787\/revisions\/57910"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57909"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1787"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1787"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1787"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}