{"id":1790,"date":"2021-07-19T06:40:41","date_gmt":"2021-07-19T09:40:41","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1790"},"modified":"2025-12-01T13:30:15","modified_gmt":"2025-12-01T16:30:15","slug":"a-interpretacao-e-alem1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2021\/07\/19\/a-interpretacao-e-alem1\/","title":{"rendered":"A INTERPRETA\u00c7\u00c3O E AL\u00c9M[1]\u00a0\u00a0"},"content":{"rendered":"<h6>SOPHIE MARRET-MALEVAL<br \/>\nPsicanalista, membro da Escola da Causa Freudiana\/AMP |<\/h6>\n<blockquote><p><strong>Resumo<\/strong>: A pr\u00e1tica anal\u00edtica se estabelece entre o que se l\u00ea e o que se escreve, ancora-se numa decifra\u00e7\u00e3o que n\u00e3o visa o sentido e se regula pelo corte que separa S1\u00a0e S2, bem ali onde a palavra mostra o seu limite.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave:\u00a0<\/strong>interpreta\u00e7\u00e3o, leitura, escrita, inconsciente<\/p>\n<p><strong>INTERPRETATION AND BEYOND<\/strong><\/p>\n<p><strong>Abstract:\u00a0<\/strong>The analytical practice is established between what is read and what is written, anchored in a decipherment that does not aim at meaning and is regulated by the cut that separates S1\u00a0and S2 right where the word shows its limit.<\/p>\n<p><strong>Keywords<\/strong><strong>:\u00a0<\/strong>interpretation, reading, writing, unconscious<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_1791\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/construes_2.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"600\" data-large_image_height=\"450\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1791\" class=\"wp-image-1791 size-full\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/construes_2.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/construes_2.jpg 600w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/construes_2-300x225.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1791\" class=\"wp-caption-text\">M\u00e1rio Azevedo, S\/T, 2020\/2021.<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cO de que se trata no discurso anal\u00edtico \u00e9 sempre isto \u2014 ao que se enuncia de significante, voc\u00eas d\u00e3o sempre uma leitura outra que n\u00e3o o que ele significa\u201d.\u00a0Esse enunciado de Jacques Lacan aparece na terceira li\u00e7\u00e3o do Semin\u00e1rio\u00a0<em>Mais, ainda<\/em>, intitulada \u201ca fun\u00e7\u00e3o da escrita\u201d\u00a0<a href=\"https:\/\/www.cairn.info\/revue-la-cause-du-desir-2012-1-page-48.htm#no2\">(LACAN, 1972-73\/2008, p. 43):<\/a>\u00a0quase da ordem do \u00f3bvio, ele lembra que a experi\u00eancia anal\u00edtica tem sua origem na interpreta\u00e7\u00e3o, ou seja, em um uso do significante.\u00a0Suas implica\u00e7\u00f5es s\u00e3o, entretanto, maiores quando Lacan precisa a distin\u00e7\u00e3o entre letra e significante abrindo-se para uma pr\u00e1tica de interpreta\u00e7\u00e3o que vai al\u00e9m do alcance freudiano.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><em>O que se l\u00ea e o que se escreve<\/em><\/p>\n<p>\u201cNo discurso anal\u00edtico de voc\u00eas, o sujeito do inconsciente, voc\u00eas sup\u00f5em que ele sabe ler\u201d (<em>Ibid<\/em>., p. 43), continua Lacan, mas ele acrescenta: \u201cS\u00f3 que, o que voc\u00eas ensinam a ler, n\u00e3o tem, absolutamente, nada a ver, em caso algum, com o que voc\u00eas possam escrever a respeito\u201d (<em>Ibid<\/em>.). A experi\u00eancia anal\u00edtica \u00e9, desde ent\u00e3o, situada entre a leitura e a escrita.\u00a0A leitura \u00e9 aqui colocada em rela\u00e7\u00e3o ao significado, &#8220;o significado n\u00e3o tem nada a ver com os ouvidos, mas somente com a leitura, com a leitura do que se ouve de significante&#8221; (<em>Ibid<\/em>., p. 39), enquanto a escrita \u00e9 referida \u00e0 letra.\u00a0Lacan revisita os termos da lingu\u00edstica saussuriana afastando-se da abordagem do significante como &#8220;imagem ac\u00fastica do signo&#8221;.\u00a0Ele descarta a no\u00e7\u00e3o de refer\u00eancia que religaria a linguagem a uma realidade pr\u00e9-discursiva lembrando, ali\u00e1s, que &#8220;os homens, as mulheres (&#8230;) n\u00e3o s\u00e3o mais do que significantes&#8221;\u202f(<em>Ibid<\/em>., p. 38): \u201cA palavra\u00a0<em>refer\u00eancia<\/em>,\u00a0na ocasi\u00e3o, s\u00f3 se pode situar pelo que constitui como liame o discurso.\u00a0O significante como tal n\u00e3o se refere a nada, a n\u00e3o ser (&#8230;) a uma utiliza\u00e7\u00e3o da linguagem como liame\u201d\u202f(<em>Ibid<\/em>., p. 36). Ele privilegia, ent\u00e3o, a no\u00e7\u00e3o de &#8220;discurso&#8221;, da linguagem como la\u00e7o, no qual se localizam dois efeitos: o significado de uma parte (&#8220;O significado \u00e9 efeito do significante. Distingue-se a\u00ed algo que n\u00e3o passa de efeito do discurso [&#8230;], quer dizer, de algo que j\u00e1 funciona como liame&#8221;\u202f[<em>Ibid<\/em>., p. 39]), a letra e a escrita de outra (&#8220;A letra, radicalmente, \u00e9 efeito de discurso. [&#8230;] \u00c9 que, o que eu digo anteriormente ganha sentido depois&#8221; [<em>Ibid<\/em>., p. 41]), mas tamb\u00e9m &#8220;tudo que \u00e9 escrito parte do fato de que ser\u00e1 para sempre imposs\u00edvel escrever como tal a rela\u00e7\u00e3o sexual. \u00c9 da\u00ed que h\u00e1 um certo efeito do discurso que se chama a escrita&#8221; (<em>Ibid<\/em>., p. 40). A imposs\u00edvel escrita da rela\u00e7\u00e3o sexual se segura, por um lado, ao que &#8220;Um homem procura uma mulher (&#8230;) a t\u00edtulo do que se situa pelo discurso&#8221; (<em>Ibid<\/em>., p. 38), quer dizer, que ele n\u00e3o goza do corpo de sua parceira como tal, mas que o gozo parte dos tra\u00e7os sobre o corpo, do significante f\u00e1lico, e que ela depende do objeto\u00a0<em>a\u00a0<\/em>que a causa, assim como Lacan o precisa no in\u00edcio desse Semin\u00e1rio.\u00a0Por outro lado, ela se segura \u00e0 inexist\u00eancia do significante de\u00a0<em>A<\/em>\u00a0mulher, que torna imposs\u00edvel a escrita de uma rela\u00e7\u00e3o l\u00f3gica entre os sexos (ou seja, entre dois significantes se o segundo existisse).<\/p>\n<p>A letra \u00e9 efeito de discurso.\u00a0Lacan situa sua fun\u00e7\u00e3o na barra entre o significante e o significado, sem a qual &#8220;nada, dos efeitos do inconsciente, tem suporte&#8221; (<em>Ibid<\/em>., p. 40).\u00a0\u201cA barra \u00e9 precisamente o ponto onde, em qualquer uso da l\u00edngua, se d\u00e1 a oportunidade de que se produza o escrito\u201d (<em>Ibid<\/em>., p. 40). Se seguirmos a l\u00f3gica desse cap\u00edtulo, dois eixos v\u00eam \u00e0 tona.\u00a0A primeira: o\u00a0<em>que se l\u00ea<\/em>, o significado como efeito do significante e que se baseia de uma aus\u00eancia de rela\u00e7\u00e3o com o significante, o que se materializa pela barra da arbitrariedade saussuriana, do qual \u00e9 deduzida tamb\u00e9m a imposs\u00edvel escrita da rela\u00e7\u00e3o sexual, que se situa no registro dos efeitos do discurso corrente, do la\u00e7o entre os significantes.\u00a0O segundo: o\u00a0<em>que se escreve<\/em>, o que n\u00e3o \u00e9 para ser compreendido, e &#8220;parte do fato de que ser\u00e1 para sempre imposs\u00edvel escrever como tal a rela\u00e7\u00e3o sexual&#8221;\u202f(<em>Ibid<\/em>., p. 40), o que marca tamb\u00e9m a materialidade da barra.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><em>Uma outra leitura<\/em><\/p>\n<p>Dar &#8220;uma leitura outra que n\u00e3o o que significa&#8221; ao &#8220;que se enuncia de significante&#8221; (<em>Ibid<\/em>., p. 43) n\u00e3o pode mais se orientar, portanto, a uma pr\u00e1tica de interpreta\u00e7\u00e3o que visaria \u00e0 verdade, \u00e0 reabsor\u00e7\u00e3o da barra, do que se escreve.\u00a0A pr\u00e1tica da interpreta\u00e7\u00e3o convoca, sobretudo, a inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual, que n\u00e3o cessa de n\u00e3o se escrever.\u00a0O enunciado convida para uma compreens\u00e3o quase literal.\u00a0Trata-se de se abrir a\u00a0<em>outra leitura<\/em>\u00a0que n\u00e3o uma pr\u00e1tica de sentido, que leve em conta os efeitos da barra.\u00a0Quando Lacan aponta ainda a disjun\u00e7\u00e3o entre leitura e escrita, ele parte da constata\u00e7\u00e3o de um hiato entre o que se enuncia da constru\u00e7\u00e3o na pr\u00e1tica anal\u00edtica e as letras com as quais ele convida para escrever a teoria (nesse caso, S(\u023a),\u00a0<em>a e<\/em>\u00a0\u03a6).\u00a0O que se pode escrever sobre isso est\u00e1 al\u00e9m do sentido.\u00a0Se ele permanece movido pela esperan\u00e7a de um apoio poss\u00edvel na matem\u00e1tica para escrever a teoria anal\u00edtica, nesse momento, ele faz, no entanto, claramente aparecer, situando a escrita como efeito de dizer, uma outra dimens\u00e3o da pr\u00e1tica anal\u00edtica,\u00a0aquela do sentido, sens\u00edvel no que se escreve sobre isso.\u00a0A\u00a0<em>pr\u00e1xis<\/em>\u00a0anal\u00edtica se situa entre o que se l\u00ea e o que se escreve, entre a abordagem da inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual e a incid\u00eancia da letra. A \u00eanfase \u00e9 deslocada sobre a fun\u00e7\u00e3o de borda de certos significantes que apontam em dire\u00e7\u00e3o ao objeto, como Lacan o evoca alguns meses mais cedo em &#8220;Lituraterra&#8221; (LACAN, 2003).<\/p>\n<p>Assim ele indica, no cap\u00edtulo seguinte:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">&#8220;Seguir o fio do discurso anal\u00edtico n\u00e3o tende para nada menos do que refraturar, encurvar, marcar com uma curvatura pr\u00f3pria, e por uma curvatura que n\u00e3o poderia nem mesmo ser mantida como sendo como a das linhas de for\u00e7a, aquilo que produz como tal a falha, a descontinuidade. Nosso recurso \u00e9, na al\u00edngua, o que a fratura&#8221; (LACAN, 1972-73\/2008, p. 50).<\/p>\n<p>Ou seja, a letra que ele indica que ela &#8220;revela (&#8230;) a gram\u00e1tica\u201d. Uma concep\u00e7\u00e3o da interpreta\u00e7\u00e3o se deduz disso que n\u00e3o negligencia a refer\u00eancia \u00e0 escrita porque, sublinha, \u201crecusar-se \u00e0 refer\u00eancia \u00e0 escrita \u00e9 proibir-se aquilo que, de todos os efeitos da linguagem, pode chegar a se articular\u201d (<em>Ibid<\/em>., p. 50). Por um lado, \u00e9 necess\u00e1rio visar o que se pode articular, por outro, como ele aponta, &#8220;Esta articula\u00e7\u00e3o se faz naquilo que resulta da linguagem o que quer que fa\u00e7amos, isto \u00e9, um suposto aqu\u00e9m, e um al\u00e9m&#8221; (<em>Ibid<\/em>., p. 50). Isso quer dizer que o uso da letra nos leva \u00e0 via do real, de acordo com as coordenadas que ele d\u00e1 anteriormente: o objeto\u00a0<em>a<\/em>\u00a0e a inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p>\u201cSe trata de ler o qu\u00ea?\u201d, ele precisa ainda um pouco mais longe, \u201cnada, sen\u00e3o os efeitos desses dizeres.\u00a0Esses efeitos, bem vemos no que \u00e9 que isto agita, comove, atormenta os seres falantes\u201d\u00a0(<em>Ibid<\/em>., p. 51). \u00c9 preciso ainda que a leitura desses efeitos sirva &#8220;a dar uma sombra de vidinha a esse sentimento dito de amor&#8221; (<em>Ibid<\/em>., p. 51). Ele precisa \u201coutra leitura\u201d que ele convoca: trata-se de fazer uso dos efeitos dos ditos para \u201ccivilizar\u201d o gozo pelo amor, que \u00e9 o que permite \u201cfazer sentido\u201d\u202f\u00a0<a href=\"https:\/\/www.cairn.info\/revue-la-cause-du-desir-2012-1-page-48.htm#no16\">(MILLER, 2004, in\u00e9dito, tradu\u00e7\u00e3o nossa), mas\u00a0<\/a>tamb\u00e9m de visar um desejo vivo.\u00a0\u201c\u00c9 preciso que, por interm\u00e9dio desse sentimento, isso chegue (&#8230;) \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o dos corpos\u201d (LACAN, 1972-73\/2008, p. 51-52).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Interpreta\u00e7\u00e3o pelo avesso<\/em><\/p>\n<p>Para esse fim, Lacan sublinha de que uso do sentido depende o discurso anal\u00edtico:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201ccom efeito, um discurso como o anal\u00edtico visa ao sentido.\u00a0(&#8230;) O que o discurso anal\u00edtico faz surgir, \u00e9 justamente a ideia de que esse sentido \u00e9 apar\u00eancia.\u00a0Se o discurso anal\u00edtico indica que esse sentido \u00e9 sexual, isto s\u00f3 pode ser para dar raz\u00e3o do seu limite.\u00a0N\u00e3o h\u00e1, em parte alguma, \u00faltima palavra, se n\u00e3o for no sentido em que \u00faltima\u00a0palavra\u00a0\u00e9\u00a0nem palavra, caluda\u00a0\u2014 j\u00e1 insisti nisto.\u00a0Sem resposta,\u00a0nem palavra, diz em algum lugar La Fontaine.\u00a0O sentido indica a dire\u00e7\u00e3o na qual ele fracassa\u201d\u202f(Ibid., p. 85).<\/p>\n<p>Ele precisa al\u00e9m disso: &#8220;o gozo s\u00f3 se interpela, s\u00f3 se evoca, s\u00f3 se suprema, s\u00f3 se elabora a partir de um semblante, de uma apar\u00eancia&#8221;\u202f(<em>Ibid<\/em>., p. 99).\u00a0\u00c9 por isso que a pr\u00e1tica lacaniana continua sendo pr\u00e1tica do significante.<\/p>\n<p>No entanto, Jacques-Alain Miller nos lembra que \u201cO tempo da interpreta\u00e7\u00e3o ficou para tr\u00e1s. Isso Lacan sabia, mas n\u00e3o o dizia: ele o deixava entender e s\u00f3 agora come\u00e7amos a ler&#8221; (1996, p. 96) especificando que \u201ca interpreta\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 outra coisa que o inconsciente, a interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 o pr\u00f3prio inconsciente\u201d (<em>Ibid<\/em>., p. 96), o que quer dizer que \u201co inconsciente fica (&#8230;) inteirinho na defasagem (&#8230;) que se repete no que quero dizer ao que digo\u201d (<em>Ibid<\/em>.), a interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica vem em segundo lugar. N\u00e3o obstante, ele fala \u201co inconsciente quer ser interpretado. Oferece-se para tanto. Se n\u00e3o o quisesse, se o desejo inconsciente do sonho n\u00e3o fosse, em sua fase mais profunda, desejo de ser interpretado (&#8230;), desejo de fazer sentido, n\u00e3o haveria analista\u201d (<em>Ibid<\/em>., p. 97).\u00a0Ele sugere compreender a interpreta\u00e7\u00e3o como decifra\u00e7\u00e3o. \u201cMas, decifrar \u00e9 cifrar novamente.\u00a0O movimento para somente numa satisfa\u00e7\u00e3o\u201d (<em>Ibid<\/em>.). Uma pr\u00e1tica do sentido que n\u00e3o ficaria &#8220;a servi\u00e7o do princ\u00edpio do prazer&#8221;\u202f(<em>Ibid<\/em>.), ou seja, que visa o\u00a0<em>sinthoma<\/em>, o ponto de conex\u00e3o entre linguagem e gozo, deve-se, portanto, distinguir de uma interpreta\u00e7\u00e3o do inconsciente.\u00a0Ele prop\u00f5e uma outra via, aquela da \u201cinterpreta\u00e7\u00e3o pelo avesso\u201d, que \u201cna outra via o S2 fica retido, para n\u00e3o ser acrescido ao objetivo de cercear S1. Trata-se de reconduzir o sujeito aos significantes propriamente elementares, com os quais delirou em sua neurose\u201d (<em>Ibid<\/em>., p. 98). Conv\u00e9m apoiar-se sobre uma \u201cdecifra\u00e7\u00e3o que n\u00e3o produz sentido\u201d (<em>Ibid<\/em>.) sobre o corte que separa S<sub>1<\/sub>\u00a0e S<sub>2<\/sub>, l\u00e1 onde a palavra designa o seu limite e conduz pela via do objeto, como uma janela sobre os limites do dizer.\u00a0\u00c9 ainda pela via de uma leitura que visa o que se escreve que se alcan\u00e7a o\u00a0que<em>\u00a0n\u00e3o cessa de n\u00e3o se escrever<\/em>, a inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual na medida em que resulta de uma precis\u00e3o das coordenadas do sintoma, ou seja, do que cada um goza.<\/p>\n<p>Podemos ainda enfatizar como, ao destacar a leitura do \u00fanico sentido para pontuar os limites, Lacan abria a via para a pr\u00e1tica anal\u00edtica das psicoses.\u00a0J.-A. Miller e \u00c9. Laurent lembram que o inconsciente interpreta muito particularmente na psicose e que se trata, na maioria das vezes, de visar os pontos onde o sentido se interrompe, de &#8220;estabiliza\u00e7\u00e3o da met\u00e1fora&#8221;, ou seja, como prop\u00f5e Laurent, de introduzir v\u00edrgulas, de isolar, de separar os significantes\u202f(LAURENT, 2005, tradu\u00e7\u00e3o nossa). Como tantos grampos de gozo, os significantes podem igualmente servir a fins de nomea\u00e7\u00e3o e permitir uma amarra\u00e7\u00e3o, uma\u00a0<em>resolu\u00e7\u00e3o<\/em><sup><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/maleval#_edn1\" name=\"_ednref1\">[2]<\/a>\u00a0<\/sup>desta pelo sentido.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><strong>Tradu\u00e7\u00e3o:<\/strong>\u00a0Let\u00edcia Soares<\/h6>\n<h6><strong>Revis\u00e3o:<\/strong>\u00a0Let\u00edcia Mello<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1972-1973)\u00a0<strong>O semin\u00e1rio, livro 20<\/strong>: mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2008.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. \u201cLituraterra\u201d.\u00a0<em>In:\u00a0<\/em><strong>Outros escritos<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9. &#8220;Interpr\u00e9ter la psychose au quotidien&#8221;.\u00a0<em>In:<\/em>\u00a0<strong>Mental<\/strong>, n\u00b0 16, out. 2005, p. 17, 19 &amp; 20-24.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. \u201cA interpreta\u00e7\u00e3o pelo avesso\u201d.\u00a0<em>In:<\/em>\u00a0<strong>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/strong>, n\u00b0 15, abril 1996, pp. 96-99.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. &#8220;L\u2019orientation lacanienne. Pi\u00e8ces d\u00e9tach\u00e9s\u201d. Ensino pronunciado dentro do quadro do departamento de psican\u00e1lise da universidade de Paris VIII, li\u00e7\u00e3o de 24 novembro 2004, in\u00e9dito<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/maleval#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a>\u00a0Texto originalmente publicado em: La Cause du Desir, no. 80, 2012.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/maleval#_ednref1\" name=\"_edn1\">[2]<\/a>\u00a0Jacques-Alain Miller precisa assim a fun\u00e7\u00e3o da nomea\u00e7\u00e3o: \u201cSe o n\u00f3 como suporte do sujeito segura, n\u00e3o h\u00e1 necessidade alguma do Nome-do-Pai: ele \u00e9 redundante. Se o n\u00f3 n\u00e3o segura, o Nome exerce a fun\u00e7\u00e3o de sinthoma. Na psican\u00e1lise, ele \u00e9 o instrumento para resolver o gozo pelo sentido\u201d (MILLER, \u201cNota passo a passo\u201d, em Jacques Lacan,\u00a0<em>O Semin\u00e1rio<\/em>, livro 23:\u00a0<em>O sinthoma<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007, p. 238).<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SOPHIE MARRET-MALEVAL Psicanalista, membro da Escola da Causa Freudiana\/AMP | Resumo: A pr\u00e1tica anal\u00edtica se estabelece entre o que se l\u00ea e o que se escreve, ancora-se numa decifra\u00e7\u00e3o que n\u00e3o visa o sentido e se regula pelo corte que separa S1\u00a0e S2, bem ali onde a palavra mostra o seu limite. Palavras-chave:\u00a0interpreta\u00e7\u00e3o, leitura, escrita,&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57911,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[23],"tags":[],"class_list":["post-1790","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-27","category-23","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1790","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1790"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1790\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57912,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1790\/revisions\/57912"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57911"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1790"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1790"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1790"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}