{"id":1794,"date":"2021-07-19T06:40:41","date_gmt":"2021-07-19T09:40:41","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1794"},"modified":"2025-12-01T13:22:34","modified_gmt":"2025-12-01T16:22:34","slug":"interpretacao-heretica-e-acontecimento-de-corpo-nas-psicoses1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2021\/07\/19\/interpretacao-heretica-e-acontecimento-de-corpo-nas-psicoses1\/","title":{"rendered":"INTERPRETA\u00c7\u00c3O HER\u00c9TICA\u00a0E ACONTECIMENTO DE CORPO NAS PSICOSES[1]\u00a0\u00a0"},"content":{"rendered":"<h6>S\u00c9RGIO LAIA<br \/>\nPsicanalista, Analista Membro da Escola (AME) pela EBP e AMP |<br \/>\n<a href=\"mailto:laia.bhe@terra.com.br\">laia.bhe@terra.com.br<\/a><\/h6>\n<blockquote><p><strong>Resumo:\u00a0<\/strong>O inconsciente \u00e9 int\u00e9rprete e, ao interpretar, cifra novamente tornando infinita a atividade interpretativa. Frente a esse excesso interpretativo do inconsciente que se imp\u00f5e nas psicoses como nas neuroses \u2014 embora, nestas \u00faltimas, de forma mais velada e sutil \u2014, este texto, na trilha das formula\u00e7\u00f5es de Lacan e Miller, argumenta que interpretar analiticamente \u00e9 fazer frente a esse trabalho interpretativo infind\u00e1vel pr\u00f3prio ao inconsciente, de modo que a interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica vire pelo avesso essa interpreta\u00e7\u00e3o infinita do inconsciente. A heresia em quest\u00e3o \u00e9 sustentar a interpreta\u00e7\u00e3o na contracorrente do inconsciente quando a concep\u00e7\u00e3o que, em geral, se tem da atividade anal\u00edtica \u00e9 de que ela o interpreta, ou ainda que, na cl\u00ednica das psicoses, n\u00e3o se deve interpretar. Tamb\u00e9m nessa perspectiva her\u00e9tica, este texto aponta para uma dire\u00e7\u00e3o poss\u00edvel ao tratamento das psicoses: encontrar ou mesmo montar, com cada psic\u00f3tico, outros enredos poss\u00edveis, nos quais alguma subjetiva\u00e7\u00e3o se processe, e com alguma conjuga\u00e7\u00e3o do corpo.<\/p>\n<p>P<strong>alavras chaves<\/strong>: Inconsciente, interpreta\u00e7\u00e3o, heresia.<\/p>\n<p><strong>HERETICAL INTERPRETATION\u00a0<\/strong><strong>AND EVENTS OF THE BODY IN PSYCHOSIS<\/strong><\/p>\n<p><strong>Abstract:\u00a0<\/strong>The unconscious is an interpreter and, when interpreting, it ciphers again, making the interpretive activity infinite. Facing this interpretive excess of the unconscious that imposes itself on psychoses, as well as on neuroses \u2014 although, in the latter, in a more veiled and subtle way \u2014, this text, following Lacan and Miller&#8217;s formulations, argues that to interpret analytically is to face this endless interpretive work that is proper of the unconscious in such way that analytic interpretation turns this endless unconscious interpretation inside out. The heresy in question is to sustain interpretation against the unconscious when the conception that is generally held of the analytic activity is that it interprets it, or even that, in the clinic of psychoses, one should not interpret. Still in this heretical perspective, this text points to a possible direction for the treatment of psychoses: to find or even set up, with each psychotic, others possible plots, in which some subjectivation is processed, and with some conjugation of the body.<\/p>\n<p><strong>Keywords:\u00a0<\/strong>Unconscious, interpretation, heresy<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_1795\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/construes_3.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"600\" data-large_image_height=\"457\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1795\" class=\"wp-image-1795 size-full\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/construes_3.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"457\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/construes_3.jpg 600w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/construes_3-300x229.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1795\" class=\"wp-caption-text\">M\u00e1rio Azevedo, S\/T, 2020\/2021.<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Considero muito feliz a escolha, realizada pelo N\u00facleo de Pesquisa em Psican\u00e1lise e Psicose do Instituto de Psican\u00e1lise e Sa\u00fade Mental de Minas Gerais (IPSM-MG), da express\u00e3o \u201cinterpreta\u00e7\u00e3o her\u00e9tica\u201d para abordar o que fazemos, gra\u00e7as \u00e0 psican\u00e1lise de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana, na cl\u00ednica com os psic\u00f3ticos. Tomando como refer\u00eancia as formula\u00e7\u00f5es de Miller (1996, p. 12) de que \u201co inconsciente interpreta, e quer ser interpretado\u201d e de que \u201cinterpretar \u00e9 decifrar\u201d tanto quanto \u201cdecifrar \u00e9 cifrar de novo\u201d, verificamos como os psic\u00f3ticos podem sustentar \u00e0 exaust\u00e3o a atividade interpretativa. Afinal, por mais que os enigmas sejam decifrados, insiste sempre uma cifra obscura, relativa ao que a psican\u00e1lise lacaniana chama de gozo e que, por ser avessa ao sentido, n\u00e3o deixa de exigir mais interpreta\u00e7\u00e3o, afetando desmedidamente os corpos dos psic\u00f3ticos que, perplexos, s\u00e3o assolados por uma ang\u00fastia insuport\u00e1vel. Frente a esse excesso interpretativo do inconsciente imposto sem entraves nas psicoses ou, de modo mais velado e sutil, tamb\u00e9m nas neuroses e pervers\u00f5es, Miller (1996, p. 13) prop\u00f5e-nos que interpretar analiticamente \u00e9 fazer frente ao trabalho interpretativo infind\u00e1vel pr\u00f3prio ao inconsciente, de modo que \u201ca interpreta\u00e7\u00e3o propriamente anal\u00edtica\u2026 funcione ao avesso do inconsciente\u201d. Logo, j\u00e1 \u00e9 uma heresia sustentar a interpreta\u00e7\u00e3o na contracorrente do inconsciente quando a concep\u00e7\u00e3o que em geral se tem da atividade anal\u00edtica \u00e9 de que ela o interpreta, e essa heresia se ressalta ainda mais ao contrariar outra <em>doxa<\/em>, ou seja, outra opini\u00e3o (tamb\u00e9m gen\u00e9rica e consolidada nos meios psicanal\u00edticos), de que n\u00e3o se deve interpretar os psic\u00f3ticos.<\/p>\n<p>Sabemos que\u00a0<em>heresia<\/em>\u00a0n\u00e3o indica apenas o que se coloca contra uma tend\u00eancia, um\u00a0<em>standard\u00a0<\/em>(padr\u00e3o) ou mesmo uma ordem ou uma norma. Conforme sublinharam Laurent (2011) e Miller (2017\/2018), em duas ocasi\u00f5es distintas, mas sempre se valendo da leitura de Joyce por Lacan (1975-1976\/2007, p. 16),\u00a0<em>heresia\u00a0<\/em>designa uma escolha, e uma escolha inaudita, pois remete-nos ao que os gregos chamavam de\u00a0<em>hairesis<\/em><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/sergio-laia#_edn2\" name=\"_ednref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>. Em outro texto, j\u00e1 tive oportunidade de tematizar a\u00a0<em>interpreta\u00e7\u00e3o\u00a0<\/em>como\u00a0<em>a heresia do analista<\/em>\u00a0(LAIA, 2019) a partir da constata\u00e7\u00e3o de que, no mundo do mestre contempor\u00e2neo, o sintoma, cada vez mais refrat\u00e1rio ao sentido, exige dos analistas \u201cinterven\u00e7\u00f5es capazes de incidir sobre o gozo e n\u00e3o apenas sobre o sentido\u201d, aproximando a interpreta\u00e7\u00e3o mais \u201cde um fazer que de um saber\u201d, e de um fazer que \u201catualiza, a cada vez\u201d, para o analista, \u201csua escolha pelo real\u201d (SOUTO, 2018) como o que, sem lei, se imp\u00f5e no avesso mesmo do sentido.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Batalha de objetos\u00a0<\/em>a<\/p>\n<p>Na cl\u00ednica das psicoses, a heresia da interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica, a meu ver, se eleva a uma pot\u00eancia superior porque, por um lado, a foraclus\u00e3o \u2014 ressaltando nos psic\u00f3ticos a anula\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica de um significante fundamental, norteador (o Nome-do-Pai), e do significante do gozo (o Falo,\u00a0\u03a6) \u2014 j\u00e1 demarca a escolha her\u00e9tica pelo real do gozo que lhes toma obscura e enigmaticamente os corpos, mas, por outro lado, essa escolha apresentada nas psicoses n\u00e3o coincide ponto a ponto com a escolha pelo real, tamb\u00e9m her\u00e9tica, sustentada por um analista. Costumo dizer, a partir de minha cl\u00ednica com os psic\u00f3ticos, que travamos com eles uma esp\u00e9cie de batalha, de um duelo de Tit\u00e3s ou, evocando um brinquedo infantil que fazia bastante sucesso entre as crian\u00e7as anos 1990 e para o qual um garoto psic\u00f3tico que atendi sempre me convoca no in\u00edcio de cada sess\u00e3o, o tratamento psicanal\u00edtico das psicoses se faz como em uma \u201carena de\u00a0<em>blades<\/em>\u201d: cada um lan\u00e7a contra o outro seu\u00a0<em>blade,\u00a0<\/em>sua escolha pelo real, e o desafio \u00e9 verificar qual choque de um\u00a0<em>blade<\/em>\u00a0em outro vai fazer um deles parar de girar. Tomava os\u00a0<em>blades<\/em>, nesse caso que atendi, como uma esp\u00e9cie de forma do objeto\u00a0<em>a<\/em>\u00a0difundida pela proliferante ind\u00fastria de brinquedos infantis e da qual me vali, ao longo de muitas sess\u00f5es, para acolher um garoto psic\u00f3tico que tendia a recusar tudo e todos, mas que me deixava entrar em sua arena de disputa entre\u00a0<em>blades<\/em>.<\/p>\n<p>Ainda no contexto desse confronto entre as escolhas (her\u00e9ticas) dos psic\u00f3ticos e as escolhas (tamb\u00e9m her\u00e9ticas) dos analistas pelo que se resvala do sentido, considero importante lembrar que, por um lado, segundo Lacan (1967, p 24), \u201cos homens livres, os verdadeiros, s\u00e3o precisamente os loucos\u201d porque \u2014 diferente dos neur\u00f3ticos \u2014 n\u00e3o almejam o objeto\u00a0<em>a\u00a0<\/em>\u201cno lugar do Outro\u201d por o encontrarem \u201c\u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o\u201d, por terem \u201csua causa em seu bolso\u201d enquanto que n\u00f3s, analistas, por outro lado, nos valemos de um discurso que, no lugar do agente, apresenta o objeto\u00a0<em>a\u00a0<\/em>como causa do desejo (LACAN, 1969-1970\/1991, p. 43, 47-48):<\/p>\n<p>Quanto aos psic\u00f3ticos, <em>trazer o objeto\u00a0<\/em>a\u00a0<em>no bolso<\/em>\u00a0implica, conforme as express\u00f5es francesas\u00a0<em>dans la poche\u00a0<\/em>ou\u00a0<em>dans sa poche,\u00a0<\/em>t\u00ea-lo com facilidade, possu\u00ed-lo de um modo definitivo, assegurado, tendo-o \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o, inclusive, no sentido de domin\u00e1-lo ou, como dizemos em portugu\u00eas, \u201ct\u00ea-lo na m\u00e3o\u201d. Mas esse dom\u00ednio do objeto\u00a0<em>a,\u00a0<\/em>mesmo conferindo aos psic\u00f3ticos a liberdade de n\u00e3o terem de almejar ou demandar tal objeto ao Outro (como acontece com os neur\u00f3ticos), n\u00e3o os deixa propriamente \u00e0 vontade. Afinal, para os psic\u00f3ticos, essa\u00a0<em>possess\u00e3o<\/em>\u00a0do objeto\u00a0<em>a,\u00a0<\/em>embora o configure como uma esp\u00e9cie de propriedade particular, n\u00e3o os resguarda de modo algum de sua dimens\u00e3o arrebatadora e perturbadora. Tal possess\u00e3o chega mesmo a assol\u00e1-los com a\u00a0<em>identifica\u00e7\u00e3o com o dejeto,\u00a0<\/em>ostentada por muitos psic\u00f3ticos contra tudo e contra todos, inclusive contra si pr\u00f3prios, porque nem sempre eles t\u00eam uma liga\u00e7\u00e3o com o corpo capaz de torn\u00e1-los, como nas neuroses, sen\u00e3o adoradores do pr\u00f3prio corpo, certamente mais zelosos consigo e com o que lhes atinge os corpos.<\/p>\n<p>Por isso, Lacan (1967) l\u00ea, como psicanalista, a\u00a0<em>Hist\u00f3ria da loucura<\/em>, escrita por Foucault, ressaltando o quanto a segrega\u00e7\u00e3o dos psic\u00f3ticos nos manic\u00f4mios (que, sobretudo no passado, situavam-se\u00a0<em>fora\u00a0<\/em>das cidades) \u00e9 uma esp\u00e9cie de defesa frente \u00e0 ang\u00fastia que eles nos provocam. Em outros termos, por carregarem o objeto\u00a0<em>a\u00a0<\/em>no bolso, os psic\u00f3ticos provocam-nos ang\u00fastia, s\u00e3o exclu\u00eddos do conv\u00edvio com os outros e h\u00e1 toda uma tend\u00eancia de eles n\u00e3o serem suportados. Ainda que essa segrega\u00e7\u00e3o manicomial n\u00e3o tenha mais a mesma virul\u00eancia de outros tempos, ela insiste como um estigma indel\u00e9vel a ponto de que, atualmente, tornou-se at\u00e9 prestigioso afirmar \u201csou TDH\u201d, \u201csou bipolar\u201d \u201csou Asperger\u201d ou \u201csou trans\u201d, mas essa pot\u00eancia afirmativa (com o sentido ativista que esse adjetivo ganhou) n\u00e3o faz algu\u00e9m se declarar t\u00e3o enf\u00e1tica e orgulhosamente \u201csou psic\u00f3tico\u201d. Historicamente, embora o pr\u00f3prio Foucault (1961\/1972) tenha vacilado, em algumas passagens, em afirm\u00e1-lo, como fa\u00e7o aqui, os analistas e, sobretudo, eu diria, os analistas pautados na orienta\u00e7\u00e3o lacaniana de\u00a0<em>n\u00e3o recuar diante da psicose\u00a0<\/em>diferenciam-se porque s\u00e3o talhados para dar lugar (ou seja, n\u00e3o segregar) aos psic\u00f3ticos e enfrentar a ang\u00fastia que, ao modo do olhar da Medusa, eles imp\u00f5em ao mundo. Mais ainda, na batalha de\u00a0<em>blades<\/em>\u00a0que jogamos com os psic\u00f3ticos, n\u00e3o se trata propriamente de ostentarmos, como Perseu contra a Medusa, um escudo ao modo de espelho para cortar a cabe\u00e7a daqueles cujo olhar pode angustiar a ponto de petrificar, imobilizar, deixar em um estado no qual parece n\u00e3o haver o que fazer. Nosso desafio \u2014 diante do objeto\u00a0<em>a\u00a0<\/em>que o psic\u00f3tico traz em seu bolso \u2014 \u00e9 apresentar-lhe o objeto\u00a0<em>a\u00a0<\/em>que agencia o discurso anal\u00edtico, mas como em uma batalha de\u00a0<em>blades<\/em>: para desacelerar o giro interpretativo no qual muitas vezes os psic\u00f3ticos se fazem afogar, sufocar, cair, largar, ser evitados e segregados.<\/p>\n<p>Assim, se, nas psicoses, encontramos uma\u00a0<em>identifica\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0<em>como o objeto a<\/em>, esse mesmo objeto, para o analista, n\u00e3o tem uma fun\u00e7\u00e3o identificat\u00f3ria. O analista faz uso desse objeto inclusive porque sua an\u00e1lise pessoal e as supervis\u00f5es servem-lhe de instrumentos decisivos para, em sua a\u00e7\u00e3o, ir al\u00e9m das identifica\u00e7\u00f5es. Nesse contexto, vale citar outra formula\u00e7\u00e3o de Miller (2010, p. 13) e na qual ele aplica, aos analistas, a opera\u00e7\u00e3o que o poeta Paul Val\u00e9ry concebeu como \u201csalva\u00e7\u00e3o pelos dejetos\u201d: \u201co que salva\u201d os analistas \u201c\u00e9 ter conseguido fazer da sua posi\u00e7\u00e3o de dejeto o princ\u00edpio de um novo discurso\u201d, ou seja, colocar o\u00a0<em>a<\/em>\u00a0como\u00a0<em>agente de um discurso<\/em>\u00a0e n\u00e3o como refer\u00eancia identificat\u00f3ria. Esse feito se d\u00e1 porque os analistas conseguiram \u201csublimar bastante sua decad\u00eancia para elev\u00e1-la \u00e0 dignidade de uma pr\u00e1tica, isto \u00e9, de um objeto de troca\u201d (MILLER, 2010, p. 13) \u2014 somos, como analistas, at\u00e9 mesmo pagos para exercer o que exercemos. Por\u00e9m, a a\u00e7\u00e3o anal\u00edtica tampouco se reduz a esse processo sublimat\u00f3rio porque, por exemplo, mesmo pagos para sustentarmos uma pr\u00e1tica a partir da posi\u00e7\u00e3o de dejeto, mesmo inseridos no circuito comercial da troca e da presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7o, nos \u00e9 decisivo continuar \u201csem documentos\u201d (<em>Ibid<\/em>.), ou seja, sem, por exemplo, um reconhecimento de nosso of\u00edcio por um Conselho Profissional ou por alguma lei promulgada pelo Estado.<\/p>\n<p>A posi\u00e7\u00e3o do analista como dejeto, como objeto\u00a0<em>a<\/em>\u00a0que agencia um discurso, implica tamb\u00e9m manter \u201co que, do gozo, permanece insocializ\u00e1vel\u201d (<em>Ibid<\/em>., p. 15). Logo, se \u201co discurso faz fun\u00e7\u00e3o de la\u00e7o social\u201d (LACAN, 1972\/1978, p. 51), os analistas ousam promover um discurso e, ao mesmo tempo, zelar pela dimens\u00e3o insoci\u00e1vel do gozo. Por sua vez, ao trazerem no bolso o objeto\u00a0<em>a<\/em>, os psic\u00f3ticos tamb\u00e9m testemunham o quanto o gozo \u00e9 insoci\u00e1vel, mas, na medida em que essa pregn\u00e2ncia do objeto\u00a0<em>a\u00a0<\/em>tem para eles um alcance identificat\u00f3rio, Lacan (1972\/2001, p. 490) lhes atribui a liberdade perturbadora e angustiante de se encontrarem \u201cfora do discurso\u201d. Portanto, n\u00e3o \u00e9 sem raz\u00e3o que a psican\u00e1lise possa interessar a alguns psic\u00f3ticos a ponto de eles tamb\u00e9m quererem fazer dela uma pr\u00e1tica: a psican\u00e1lise aloja o que h\u00e1 de sem la\u00e7o no gozo e, ao mesmo tempo, d\u00e1 lugar a um discurso, isto \u00e9, ao que faz la\u00e7o social. No contexto dessa proximidade da psicose e da psican\u00e1lise com o que do gozo n\u00e3o se consome e \u00e9 refrat\u00e1rio ao que se coletiviza socialmente, vale lembrar que Freud, no seu c\u00e9lebre texto sobre Schreber, j\u00e1 afirmava que a teoria psicanal\u00edtica da libido n\u00e3o era t\u00e3o diferente do que esse psic\u00f3tico apresentava em seu del\u00edrio:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cOs \u2018raios divinos\u2019 de Schreber, feitos de uma condensa\u00e7\u00e3o de raios solares, fibras nervosas e espermatozoides, n\u00e3o s\u00e3o outra coisa sen\u00e3o os investimentos libidinais concretamente representados e projetados para fora, e conferem ao seu del\u00edrio uma espantosa concord\u00e2ncia com nossa teoria (da libido)\u201d (FREUD, 1911\/2010, p. 103).<\/p>\n<p>Para ressaltar que tal proximidade, ou concord\u00e2ncia, n\u00e3o implica uma equival\u00eancia e que a atra\u00e7\u00e3o de alguns psic\u00f3ticos pelo exerc\u00edcio da pr\u00e1tica anal\u00edtica n\u00e3o os exime da liberdade angustiante e perturbadora de se encontrarem\u00a0<em>fora do discurso\u00a0<\/em>(e mesmo fora, acrescentaria, do discurso anal\u00edtico), considero oportuna a declara\u00e7\u00e3o feita por Lacan na Proposi\u00e7\u00e3o dedicada a discernir como se d\u00e1 a passagem do analisante a analista: \u201cretirem o \u00c9dipo, e a psican\u00e1lise em extens\u00e3o (ou seja: a pr\u00e1tica mesma da psican\u00e1lise)\u2026 torna-se inteiramente sob a jurisdi\u00e7\u00e3o do del\u00edrio do presidente Schreber\u201d (1967\/2001, p. 256). Nessa declara\u00e7\u00e3o, Lacan n\u00e3o deixa de fazer valer o complexo de \u00c9dipo como uma fun\u00e7\u00e3o que separa a pr\u00e1tica anal\u00edtica e o del\u00edrio psic\u00f3tico, mas tal valoriza\u00e7\u00e3o tampouco o impede questionar e criticar o amor incondicional \u00e0s refer\u00eancias paternas. Assim, na cl\u00ednica psicanal\u00edtica, diferentemente do que acontece aos psic\u00f3ticos (e sobretudo quando eles n\u00e3o est\u00e3o em um tratamento anal\u00edtico), a constata\u00e7\u00e3o da impostura do pai, ou seja, de que a lei paterna pode tomar a forma de um \u201cfa\u00e7a o que eu digo, mas n\u00e3o o que eu fa\u00e7o\u201d, implica que dispensar o pai n\u00e3o se efetiva sem que se possa servir-se dele.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O real de um efeito-sujeito<\/em><\/p>\n<p>Considerando os dois \u201c<em>blades<\/em>\u201d envolvidos na \u201carena\u201d psicanal\u00edtica com as psicoses, eu me valho de dois matemas. Do lado do psic\u00f3tico, a localiza\u00e7\u00e3o do objeto\u00a0<em>a<\/em>\u00a0em seu bolso me permitiu inventar o matema S(<em>a<\/em>), no qual o sujeito n\u00e3o dividido (S), por n\u00e3o almejar ao objeto\u00a0<em>a<\/em>\u00a0no Outro, traz esse objeto consigo, mas como algo heterog\u00eaneo a si pr\u00f3prio, conforme\u00a0 procurei demarcar pelos\u00a0 par\u00eanteses que,\u00a0 por sua vez,\u00a0 evocam a forma\u00a0 mesma de\u00a0 um bolso. Do lado do analista, recorto a linha superior do discurso anal\u00edtico,\u00a0 onde o objeto\u00a0<em>a<\/em>,\u00a0 no lugar de \u201cagente\u201d, como\u00a0 \u201ccausa do desejo\u201d (LACAN, 1969-1970\/1991, p. 122- 123), incide\u00a0 sobre\u00a0 o sujeito dividido (<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/images\/online27almanaque\/s_dividido.png\" alt=\"\" \/>)\u00a0localizado no lugar do \u201coutro\u201d (LACAN, 1970\/2001, p. 447):\u00a0<em>a<\/em>\u00a0<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/images\/online27almanaque\/seta.png\" alt=\"\" \/>\u00a0<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/images\/online27almanaque\/s_dividido.png\" alt=\"\" \/>.\u00a0No caso desse segundo matema, recortado do discurso do analista e aplicado por mim \u00e0s psicoses, \u00e9 preciso fazer a ressalva de que um psic\u00f3tico n\u00e3o \u00e9 um sujeito dividido (<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/images\/online27almanaque\/s_almanaque_online.png\" alt=\"\" \/>), ou seja, um sujeito que, por sofrer a a\u00e7\u00e3o constitutiva e mort\u00edfera do significante, ao mesmo tempo se encontraria e se esvairia no intervalo entre um significante (S<sub>1<\/sub>) e outro significante (S<sub>2<\/sub>). Por\u00e9m, justifico esse recorte pelo que Miller (1987-1988\/1991, p. 40) certa vez demarcou quanto ao modo como Lacan inverteu a perspectiva na qual a alucina\u00e7\u00e3o \u00e9 concebida, passando a dar ao\u00a0<em>perceptum<\/em>, ou seja, ao que \u00e9 percebido, \u201cum alcance causal\u201d com \u201cefeitos de divis\u00e3o que recaem n\u00e3o sobre um\u00a0<em>percepiens\u201d,\u00a0<\/em>sobre quem percebe no sentido de ter um dom\u00ednio sobre o que \u00e9 percebido e que ajustaria sua percep\u00e7\u00e3o \u00e0 chamada realidade, \u201cmas sobre um sujeito\u201d. Por essa invers\u00e3o lacaniana, na alucina\u00e7\u00e3o psic\u00f3tica, o objeto\u00a0<em>a<\/em>, como \u201c<em>perceptum<\/em>\u00a0alucinat\u00f3rio\u201d (MILLER, 1987-1988\/1991, p. 40), incide sobre o sujeito que, passivamente, \u201cpadece da alucina\u00e7\u00e3o como independente dele\u201d (MILLER, 1995). Assim, um objeto como o\u00a0<em>olhar<\/em>, ou a\u00a0<em>voz<\/em>, afeta o psic\u00f3tico a ponto de insult\u00e1-lo, lhe invadir a privacidade, n\u00e3o lhe conferir qualquer lugar no Outro, esmagando-o como sujeito (S) sem lhe dar a chance de se posicionar no mundo dessa forma inc\u00f4moda (mas pass\u00edvel de reconhecimento) que, na neurose, aparece como falta-a-ser (<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/images\/online27almanaque\/s_almanaque_online.png\" alt=\"\" \/>). Por\u00e9m, tal esmagamento do psic\u00f3tico como sujeito n\u00e3o impede \u00e0 psican\u00e1lise de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana apostar no que os psic\u00f3ticos podem testemunhar quanto \u00e0s suas posi\u00e7\u00f5es subjetivas.<\/p>\n<p>Conceber o sujeito (<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/images\/online27almanaque\/s_dividido.png\" alt=\"\" \/>) \u00a0como falta-a-ser \u00e9 conceb\u00ea-lo como \u201cefeito do significante\u201d (MILLER, 1983a\/1996, p. 156) n\u00e3o tomado pela alucina\u00e7\u00e3o, mas assolado por \u201cisso fala, no sentido de que isso fala\u00a0<em>dele<\/em>\u2026 antes que ele fale, antes que ele chame ou mesmo que ele grite\u201d. Assim, pelos significantes do Outro, um sujeito vem a ser como falta-a-ser porque, embora designado por esses significantes que o fazem ser, tais significantes n\u00e3o s\u00e3o literalmente\u00a0<em>seus\u00a0<\/em>e, portanto, mesmo que lhes sirvam para algum reconhecimento, n\u00e3o lhe s\u00e3o de todo concernentes. Por isso, o sujeito se divide quanto ao que ele \u00e9 e esse contexto evoca a c\u00e9lebre formula\u00e7\u00e3o lacaniana de que, antes de falar, o homem \u00e9 falado: falam de um beb\u00ea, por exemplo, antes mesmo de ele efetivamente existir. Nas psicoses, esse \u201cisso fala\u00a0<em>dele<\/em>\u201d aparece de modo diferente e at\u00e9 mais radical do que acontece nas neuroses, apesar de n\u00e3o reservar para o sujeito qualquer lugar no Outro. Afinal, essa fala irrompe \u201cde modo desagrad\u00e1vel\u201d, a ponto de atingir o extremo de um \u201cisso fala\u00a0<em>nele<\/em>\u201d ou, de modo ainda mais esmagador, como vai nos mostrar o \u201csujeito da dita esquizofrenia\u201d que \u201cisso n\u00e3o fala dele\u201d e, assim, em vez de um falado constitutivo e proveniente do Outro, teremos a presen\u00e7a de um real aniquilador, configurando a esquizofrenia como \u201ca subjetiva\u00e7\u00e3o de um puro real\u201d (MILLER, 1983a\/1996, p. 157).<\/p>\n<p>Nesse contexto, \u201ca escolha da psicose\u201d e \u2014 \u00e9 importante essa ressalva feita por Miller (1983a\/1996, p. 157) \u2014 \u201cn\u00e3o\u201d de \u201cquem a faz\u201d, \u00e9 essa \u201cescolha impens\u00e1vel de um sujeito que faz obje\u00e7\u00e3o \u00e0 falta a ser que o constitui na linguagem\u201d. Na psicose, temos uma escolha contr\u00e1ria \u00e0 aliena\u00e7\u00e3o aos significantes do Outro e, assim, a dimens\u00e3o her\u00e9tica dessa escolha \u00e9 bem mais decidida que aquela sustentada nas neuroses e nas pervers\u00f5es. Mas a ressalva feita por Miller entre\u00a0<em>essa escolha<\/em>\u00a0e\u00a0<em>quem\u00a0<\/em>a afirma \u00e9 esclarecedora porque, para\u00a0<em>quem<\/em>\u00a0faz\u00a0<em>a escolha da psicose<\/em>, mesmo que ela implique uma obje\u00e7\u00e3o \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o subjetiva na linguagem, n\u00e3o h\u00e1 propriamente um consentimento quanto ao n\u00e3o-lugar do qual se padece com rela\u00e7\u00e3o ao Outro. A meu ver, a sustenta\u00e7\u00e3o de um tratamento poss\u00edvel das psicoses tem, no n\u00e3o-consentimento a esse n\u00e3o-lugar destinado ao sujeito na escolha da psicose, uma chance decisiva: \u00e9 nesse n\u00e3o-consentimento, mesmo quando se coloca de modo muito sutil, que encontraremos vest\u00edgios do psic\u00f3tico como um sujeito, ainda que se trate de sujeito n\u00e3o dividido pelos significantes do Outro que, por sua vez, n\u00e3o lhe reserva qualquer lugar no mundo. A cl\u00ednica das psicoses pautada pela orienta\u00e7\u00e3o lacaniana d\u00e1 lugar ao psic\u00f3tico como sujeito contrapondo-se, por exemplo, tanto \u00e0 tend\u00eancia dos paranoicos de se colocarem como \u201ccausa de um desejo infinito\u201d, quanto \u00e0 entrega esquizofr\u00eanica \u201c\u00e0 derrelic\u00e7\u00e3o do des-ser\u201d (MILLER, 1983a\/1996, p. 160) e, assim, ela faz frente ao aniquilamento subjetivo acionado pelo objeto\u00a0<em>a\u00a0<\/em>que os psic\u00f3ticos trazem consigo,\u00a0<em>no bolso.\u00a0<\/em>Quando a liberdade implicada nesse modo de portar no corpo a heterogeneidade desse objeto toma uma dimens\u00e3o insuport\u00e1vel, a heresia da interpreta\u00e7\u00e3o sustentada pelos psic\u00f3ticos oferece alguma abertura para dar lugar \u00e0 heresia da interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica.<\/p>\n<p>Na busca por alguma subjetiva\u00e7\u00e3o frente ao peso aniquilador do objeto\u00a0<em>a<\/em>, \u00e9 importante lembrar que o discurso universit\u00e1rio tamb\u00e9m n\u00e3o deixa de ser atraente para muitos psic\u00f3ticos porque cabe a esse discurso \u201cproduzir um sujeito [<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/images\/online27almanaque\/s_dividido.png\" alt=\"\" \/>]\u2026 a partir de um dejeto (<em>a<\/em>), pelo vi\u00e9s de um saber (S<sub>2<\/sub>)\u201d (MILLER, 1983a\/1996, p. 156) separado do que o determina (S<sub>1<\/sub>):<\/p>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/f3_almanaque_on_line-1.png\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"379\" data-large_image_height=\"176\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-3252 aligncenter\" src=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/f3_almanaque_on_line-1-300x139.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"139\" \/><\/a><\/p>\n<p>Por\u00e9m, a opera\u00e7\u00e3o promovida pelo discurso universit\u00e1rio pode n\u00e3o ser a melhor em alguns casos de psicose porque o sujeito que nela \u00e9 produzido, al\u00e9m de ser barrado, dividido e mortificado, encontra-se no lugar \u00e0 direita e inferior designado por Lacan\u00a0 como \u201cprodu\u00e7\u00e3o\u201d (1969-1970\/1991, p. 106 e 1970\/2001, p. 447), mas tamb\u00e9m como \u201cperda\u201d. Assim, a algu\u00e9m identificado ao objeto\u00a0<em>a<\/em>\u00a0a ponto de anular-se subjetivamente, o que adiantaria ser a produ\u00e7\u00e3o e fazer valer um discurso que, no entanto, o coloca a perder, o descarta e o segrega justamente como sujeito?<\/p>\n<p>Para os psic\u00f3ticos, a posi\u00e7\u00e3o subjetiva promovida no discurso universit\u00e1rio, embora nem sempre de modo t\u00e3o avassalador como em uma alucina\u00e7\u00e3o ou em um del\u00edrio, pode n\u00e3o lhes reservar anula\u00e7\u00f5es muito diferentes daquelas de ser causa de um desejo infinito sempre avassalador (paranoia) ou de uma derrelic\u00e7\u00e3o do des-ser (esquizofrenia). Da\u00ed, a import\u00e2ncia de outro matema apresentado por Miller (1983a\/1996, p. 160) no final de um texto que, no pr\u00f3prio t\u00edtulo, indaga \u2014 \u201cProduzir o sujeito?\u201d:<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/a_sobre_s.png\" alt=\"\" width=\"65\" height=\"62\" \/><\/p>\n<p>Esse matema \u00e9 um recorte do lado direito do discurso universit\u00e1rio, mas Miller (1983a\/1966, p. 160) me parece diferenci\u00e1-lo do que se processa nesse discurso ao inserir essa seta (\u2193) que faz o objeto\u00a0<em>a<\/em>\u00a0incidir sobre o sujeito (<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/images\/online27almanaque\/s_dividido.png\" alt=\"\" \/>), em vez de simplesmente segreg\u00e1-lo e isol\u00e1-lo, sob a barra (__), no lugar da produ\u00e7\u00e3o-perda.<\/p>\n<p>Demarcar assim, na psicose, a incid\u00eancia do objeto\u00a0<em>a\u00a0<\/em>sobre o sujeito \u00e9 reiterar o esfor\u00e7o de Lacan para \u201cfazer da psicose uma quest\u00e3o de sujeito\u201d porque \u201co sujeito tem de contentar-se com o que o determina\u201d (MILLER, 1983b\/1991, p. 164) e, para os psic\u00f3ticos, essa determina\u00e7\u00e3o vem do objeto\u00a0<em>a<\/em>\u00a0que, n\u00e3o sem inc\u00f4modo e ang\u00fastia, ou seja, n\u00e3o sem algum sinal de efeito-sujeito, eles trazem no bolso. Nesse contexto, vale lembrar que Lacan (1955-1956\/1981, p. 330), no\u00a0<em>Semin\u00e1rio III<\/em>\u00a0e, portanto, muito antes de formular o objeto\u00a0<em>a<\/em>, j\u00e1 ensinava que, na aus\u00eancia dessa \u201cgrande-rota\u201d pavimentada como o pr\u00f3prio grande Outro, \u201ca\u00ed onde o significante n\u00e3o funciona\u201d como norteamento, \u201ca fun\u00e7\u00e3o das alucina\u00e7\u00f5es auditivas verbais\u201d, ou seja, do que se imp\u00f5e como objeto\u00a0<em>a<\/em>, pode muito bem ser a de \u201cletreiros\u201d, \u201cplacas de sinaliza\u00e7\u00e3o\u201d e, portanto, de determina\u00e7\u00f5es para os psic\u00f3ticos orientarem-se em seus caminhos\u00a0<em>off road<\/em><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/sergio-laia#_edn3\" name=\"_ednref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>. A incid\u00eancia de\u00a0<em>a<\/em>\u00a0sobre o sujeito, tal como modulada pela orienta\u00e7\u00e3o lacaniana do tratamento poss\u00edvel das psicoses, poder\u00e1 dar lugar, acolher, modular e cingir o que eu chamaria, ent\u00e3o, de\u00a0<em>o real de um efeito-sujeito<\/em>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Fantasia\u00a0<\/em>\u00e9clat\u00e9e\u00a0<em>(<\/em><em>explodida)<\/em><\/p>\n<p>Nas neuroses e, com suas singulares diferen\u00e7as, tamb\u00e9m nas pervers\u00f5es, o sujeito procura compensar sua falta-a-ser com o objeto\u00a0<em>a<\/em>\u00a0que, por condensar a libido, lhe faz as vezes de ser, mas ser que n\u00e3o deixa de lhe escapar devido \u00e0 sua proveni\u00eancia, sua extra\u00e7\u00e3o, do campo do Outro e, portanto, de seu alheamento quanto ao sujeito. \u00c9 o que Lacan formalizou com o matema da fantasia \u00a0<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/images\/online27almanaque\/s_dividido.png\" alt=\"\" \/>\u00a0\u00a0\u25ca\u00a0<em>a<\/em>\u00a0\u2014 busca-se compensar a falta-a-ser (<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/images\/online27almanaque\/s_almanaque_online.png\" alt=\"\" \/>) com o objeto\u00a0<em>a<\/em>\u00a0que, como condensador de gozo, ou seja, de satisfa\u00e7\u00e3o pulsional, faz as vezes de ser, aparece como se fosse ser, parece-ser. Por sua vez, se, para os psic\u00f3ticos, o objeto\u00a0<em>a\u00a0<\/em>encontra-se no bolso \u2014 S (<em>a<\/em>) \u2014, \u00e9 porque ele n\u00e3o foi extra\u00eddo do campo do Outro. Essa n\u00e3o-extra\u00e7\u00e3o o impede de apresentar-se propriamente como condensador de gozo e, assim, nas psicoses, o objeto\u00a0<em>a<\/em>\u00a0prolifera, por exemplo, sob a forma de vozes, olhares, dejetos ou, ainda, no que se acumula, se corta, se ejeta sem que se consiga propriamente fazer sair ou, tamb\u00e9m, no que, quando sai, tem uma evas\u00e3o dif\u00edcil de manejar. Essa prolifera\u00e7\u00e3o explosiva de objetos\u00a0<em>a,\u00a0<\/em>mesmo quando consideramos sua fun\u00e7\u00e3o de \u201cletreiros\u201d e \u201cplacas de sinaliza\u00e7\u00f5es\u201d, exp\u00f5e os corpos dos psic\u00f3ticos \u00e0 desmedida, bem como os submete a terr\u00edveis dilacera\u00e7\u00f5es subjetivas porque, nas psicoses, em vez de concentra\u00e7\u00e3o, h\u00e1 \u201ctransporte\u201d do objeto\u00a0<em>a\u00a0<\/em>para um \u201cponto no infinito\u201d (MILLER, 1983a\/1991, p. 153) no qual o sujeito nem sempre consegue situar-se, encontrar-se.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 incomum e, nos nossos dias, tem sido at\u00e9 frequente, psic\u00f3ticos procurarem valer-se de alguma composi\u00e7\u00e3o que, ao lhes fazer as vezes de fantasia, possa lastrear o gozo que, de modo proliferante e perturbador, lhes tomam os corpos a ponto de \u2014 recusando-lhes qualquer apropria\u00e7\u00e3o \u2014 nunca estarem onde se tenta alcan\u00e7\u00e1-los. Busca-se, ent\u00e3o, atingir o corpo para faz\u00ea-lo acontecer<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/sergio-laia#_edn4\" name=\"_ednref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>\u00a0e permitir ao sujeito, sen\u00e3o uma ader\u00eancia ao corpo, certamente algum tipo de alinhavo pelo qual lhe seja vi\u00e1vel ligar-se ao pr\u00f3prio corpo, dedicar-lhe algum cuidado, algum investimento, mesmo depois de lhe impor desgastes muitas vezes atrozes e que anulam ainda mais qualquer tipo de subjetiva\u00e7\u00e3o. Por isso, \u00e0 prolifera\u00e7\u00e3o do objeto\u00a0<em>a\u00a0<\/em>que lhes dilacera os corpos por n\u00e3o se ater ao \u201cbolso\u201d que os carrega, muitos psic\u00f3ticos contrap\u00f5em uma multiplica\u00e7\u00e3o de cortes pelos corpos; uma procrastina\u00e7\u00e3o pela qual a nega\u00e7\u00e3o para realizarem qualquer ato \u201ccatatoniza\u201d-lhes infinitamente a vida; um uso indiscriminado de drogas; uma incessante deambula\u00e7\u00e3o sexual ou, ao contr\u00e1rio, uma nega\u00e7\u00e3o \u2014 n\u00e3o menos insistente \u2014 do que poderia convocar-lhes a sexualidade; uma ades\u00e3o a um enxame de palavras-de-ordem ou protocolos que lhes acenam com as possibilidades de apresentarem-se como \u201cmulher\u201d, \u201chomem\u201d, \u201crealizado(a) profissionalmente\u201d, etc.<\/p>\n<p>Tenta-se compor uma fantasia como resposta \u00e0 anula\u00e7\u00e3o experimentada com rela\u00e7\u00e3o a um lugar no Outro e que poderia acolher (como acontece nas neuroses e pervers\u00f5es), sempre por um triz, o sujeito. Afinal, parece-me que muitos psic\u00f3ticos \u2014 inclusive por se sentirem mais consonantes com o fora-da-ordem que caracteriza o mundo contempor\u00e2neo \u2014 sabem o quanto a fantasia \u00e9 um aparelho que organiza o gozo e promove essa identifica\u00e7\u00e3o pela qual um sujeito consegue, como nos elucida Miller (2010, p. 14), \u201cencontrar seu lugar em uma das muitas rotinas das quais a organiza\u00e7\u00e3o social \u00e9 feita e que t\u00eam como propriedade estabilizar a rela\u00e7\u00e3o do significante e do significado, a rela\u00e7\u00e3o do sujeito com as grandes significa\u00e7\u00f5es humanas\u201d, \u201csua inscri\u00e7\u00e3o sob um significante-mestre\u201d, mas tamb\u00e9m \u201cuma identifica\u00e7\u00e3o do gozo no lugar do Outro\u201d. Pela fantasia, um sujeito visa manter-se, minimamente que seja, frente \u00e0 perturba\u00e7\u00e3o obscura que o gozo imp\u00f5e aos corpos. O problema \u00e9 que, nas psicoses, esse resgate do ser pela via do objeto\u00a0<em>a,\u00a0<\/em>esse tratamento do real do gozo pela via do semblante, tem sua impostura muito mais intensa e rapidamente experimentada e denunciada. Por isso, mesmo que haja alguma emula\u00e7\u00e3o da fantasia nas psicoses (e sobretudo quando ela se d\u00e1 sem as parcerias que os psic\u00f3ticos podem encontrar nos analistas), a \u201cconstru\u00e7\u00e3o\u201d ou o \u201cfuncionamento\u201d<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/sergio-laia#_edn5\" name=\"_ednref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>\u00a0da fantasia para esses sujeitos se processa sempre de um modo para o qual n\u00e3o encontro palavra melhor que a francesa\u00a0<em>\u00e9clat\u00e9e<\/em>. \u00c9 uma fantasia\u00a0<em>\u00e9clat\u00e9<\/em>\u00a0n\u00e3o apenas porque ela \u00e9 explosiva a ponto de estilha\u00e7ar o sujeito e tudo que ela implica, mas tamb\u00e9m porque os estilha\u00e7os (<em>\u00e9clats<\/em>) por ela provocados comportam toda uma dimens\u00e3o de brilho (<em>\u00e9clat<\/em>) pela qual um sujeito, mesmo dilacerado por tal explos\u00e3o mort\u00edfera, insiste em fazer-se enredar.<\/p>\n<p>A heresia que sustentamos, ent\u00e3o, na cl\u00ednica das psicoses, como analistas da orienta\u00e7\u00e3o lacaniana, \u00e9 a de encontrar ou mesmo montar, com cada psic\u00f3tico que atendemos, outros enredos poss\u00edveis, nos quais alguma subjetiva\u00e7\u00e3o se processe, e com alguma conjuga\u00e7\u00e3o do corpo. O alinhavo ao pr\u00f3prio corpo n\u00e3o deixa de me evocar a costura que Peter Pan precisava realizar para prender seu corpo \u00e0 sua sombra, mas, no caso das psicoses, trata-se muito mais de fazer do corpo uma sombra que \u2014 pela sutileza cambiante pr\u00f3pria \u00e0s sombras e diferente daquela do objeto que esmaga o sujeito<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/sergio-laia#_edn6\" name=\"_ednref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>\u00a0\u2014 d\u00ea lugar a alguma subjetiva\u00e7\u00e3o capaz de servir de companhia \u00e0 solid\u00e3o que o gozo n\u00e3o lastreado imp\u00f5e-lhes na vida. Nesse contexto, \u00e9 preciosa a indica\u00e7\u00e3o feita por Miller (2010, p. 15): \u201ctrata-se de destacar do gozo uma parcela que possa se fazer de objeto, e de in\u00edcio objeto de uma narra\u00e7\u00e3o, de um roteiro \u2014 como o roteiro da fantasia \u2014, de um\u00a0<em>storytelling<\/em>\u201d, ao modo \u201cde uma lenda, do que Lacan chamava de um \u2018mito individual\u2019\u201d, ou seja, de uma est\u00f3ria que se conta inclusive sem os atropelos desse \u201cpesadelo\u201d que Joyce (1922\/1986, p. 28) nomeou \u201chist\u00f3ria\u201d.<\/p>\n<p>Ora, na express\u00e3o\u00a0<em>mito individual<\/em>, Lacan (1952\/2007) quis conjugar o que se toma geralmente como coletivo, ou seja, o mito, e o que concerne, de modo mais espec\u00edfico, ao indiv\u00edduo, ao que nem sempre se experimenta como propriamente contemplado pelos processos de coletiviza\u00e7\u00e3o. Podemos tom\u00e1-la, ent\u00e3o, como um oximoro, ou seja, uma conjuga\u00e7\u00e3o paradoxal de palavras cujos sentidos s\u00e3o literalmente opostos e contradit\u00f3rios. Se, nas psicoses, temos contraposi\u00e7\u00f5es her\u00e9ticas ao que se apresenta como coletivo ou, tamb\u00e9m, um uso muitas vezes muito idiossincr\u00e1tico (e n\u00e3o menos her\u00e9tico) do coletivo, \u00e9 mesmo oportuno que o tratamento anal\u00edtico se apresente como um processo no qual um mito individual possa ser inventado, explorado e narrado. Afinal, se o discurso, segundo Lacan, faz la\u00e7o social na medida em que conjuga elementos heterog\u00eaneos, enredando a dimens\u00e3o significante (S<sub>1<\/sub>, S<sub>2<\/sub>\u00a0e\u00a0<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/images\/online27almanaque\/s_almanaque_online.png\" alt=\"\" \/>) com aquela do gozo (<em>a<\/em>), n\u00e3o me parece poss\u00edvel dizer que um\u00a0<em>mito individual<\/em>\u00a0d\u00ea lugar, necessariamente, a uma via discursiva, mas sua dimens\u00e3o de oximoro n\u00e3o deixa de contemplar a conjuga\u00e7\u00e3o dos mesmos elementos heterog\u00eaneos que comp\u00f5em os discursos.<\/p>\n<p>Destaco que, a meu ver, a montagem de um mito individual n\u00e3o se faz pelo encadeamento de um significante (S<sub>1<\/sub>) a outro (S<sub>2<\/sub>) para responder \u00e0 perplexidade que o gozo imp\u00f5e ao corpo e pode se condensar no objeto\u00a0<em>a<\/em>. Considero que essa tentativa de encadeamento significante \u00e9 muito mais o que encontramos no del\u00edrio psic\u00f3tico. Portanto, se o emparelhamento S<sub>1<\/sub>-S<sub>2<\/sub>\u00a0n\u00e3o d\u00e1 lugar, por si s\u00f3, \u00e0 montagem de um mito individual, \u00e9 porque este nos convoca a outro tipo de par ordenado: (S<sub>1<\/sub>,\u00a0<em>a<\/em>), no qual se conjugam um significante que, mesmo n\u00e3o sendo fundamental como o Nome-do-Pai, promove algum ordenamento (S<sub>1<\/sub>) e o que, localizando-se quanto \u00e0 dimens\u00e3o do gozo (<em>a<\/em>), d\u00e1 chances ao que chamei de\u00a0<em>o real de um efeito-sujeito.\u00a0<\/em>Por que \u00e9 poss\u00edvel contar uma est\u00f3ria \u2014 formular um\u00a0<em>mito individual<\/em>\u00a0\u2014 com um par ordenado em que um significante determinante (S<sub>1<\/sub>), em vez de convocar outro, conjuga-se a um objeto que \u00e9 refer\u00eancia de gozo (<em>a<\/em>)? Para responder a essa quest\u00e3o, me valho da seguinte formula\u00e7\u00e3o de Laurent (2005, p. 18): \u201ca pr\u00f3pria l\u00edngua significantiza o gozo, transformando-o em peda\u00e7os de gozo, tal como o objeto\u00a0<em>a\u00a0<\/em>que \u00e9 elemento de gozo, embora ao mesmo tempo se comporta como uma letra\u201d e \u201cpode entrar em cadeia\u201d, fazer \u201cs\u00e9rie\u2026 ser substitu\u00edvel, \u2026 estar no lugar de causa\u201d. Logo, a montagem de um mito individual se faz com elementos significantes determinantes para o sujeito e com o que pode lhe ser reduzido como uma marca que, ao modo de uma letra, referencia o gozo que lhe toma o corpo a ponto de impedir esse corpo de efetivamente acontecer, mas que \u2014 pela conjuga\u00e7\u00e3o (S<sub>1<\/sub>,\u00a0<em>a<\/em>) \u2014 pode dar lugar a um acontecimento de corpo no qual tamb\u00e9m podemos localizar\u00a0<em>o real de um efeito-sujeito<\/em>.<\/p>\n<p>Encontro, na quarta li\u00e7\u00e3o do\u00a0<em>Semin\u00e1rio III<\/em>\u00a0de Lacan (1955-1956\/1981, p. 55-68), um exemplo cl\u00ednico conciso e esclarecedor de como a conjuga\u00e7\u00e3o relativa ao par ordenado (S<sub>1<\/sub>,\u00a0<em>a<\/em>) pode tanto lastrear um gozo que se imp\u00f5e de modo invasivo quanto redimensionar a disrup\u00e7\u00e3o provocada por um significante insultante. \u00c9 importante nos atentarmos para o modo como Lacan, nesse contexto, se aproxima da paciente e lhe extrai o que, a princ\u00edpio, parecia n\u00e3o ter lugar algum. Essa forma de aproxima\u00e7\u00e3o, embora circunscrita \u00e0 brevidade de uma \u00fanica entrevista, n\u00e3o deixa de evocar, a meu ver, como a transfer\u00eancia e o tempo podem ser fatores decisivos para que um\u00a0<em>mito individual<\/em>, mesmo como um esbo\u00e7o inicial, possa ser montado. Trata-se do conhecido relato de uma \u201capresenta\u00e7\u00e3o de pacientes\u201d na qual Lacan (1955-1956\/1981, p. 59) teve contato com uma psic\u00f3tica que padecia de uma \u201ccadeia de interpreta\u00e7\u00f5es\u2026 da qual ela se sentia v\u00edtima\u201d inclusive porque tinha muitas refer\u00eancias do quanto era \u201cuma mulher encantadora e amada por todos\u201d. Ap\u00f3s enfrentar algumas dificuldades para abordar a paciente, Lacan (1955-1956\/1981, p. 59) \u2014 por ter mostrado, nesse enfrentamento, a meu ver, sua disposi\u00e7\u00e3o a escut\u00e1-la \u2014 aproxima-se \u201cdo centro do que ali estava manifestamente presente\u201d porque ela lhe confia o seguinte: \u201cum dia, no corredor, no momento em que sa\u00eda de sua casa, tinha tido de se haver com uma esp\u00e9cie de mal-educado, e com o qual ela n\u00e3o tinha por que ficar espantada\u201d, uma vez que se tratava do \u201cdesprez\u00edvel homem casado que era amante regular de uma de suas vizinhas de costumes levianos\u201d.<\/p>\n<p>Ora, foi justamente esse homem que, ao se cruzarem no corredor, a havia insultado com \u201cum palavr\u00e3o\u201d que ela n\u00e3o se dispunha sequer a repeti-lo para Lacan (1955-1956\/1981, p. 59) em fun\u00e7\u00e3o do tanto que isso \u201ca depreciava\u201d. Ressalto que, sens\u00edvel ao que essa indisposi\u00e7\u00e3o da paciente apresenta como uma esp\u00e9cie de vest\u00edgio de uma posi\u00e7\u00e3o de sujeito, tampouco Lacan (1955-1956\/1981, p. 59) insiste para que ela lhe diga qual era o palavr\u00e3o que, mais adiante, se revela como sendo \u201cPorca!\u201d. Essa disponibilidade de Lacan, sua \u201cdo\u00e7ura\u201d (como ele pr\u00f3prio diz) frente \u00e0 indisponibilidade da paciente \u00e9, portanto, decisiva para o modo como ela se desloca da condi\u00e7\u00e3o de objeto (<em>a<\/em>) de um insulto (S<sub>1<\/sub>) que, por vitim\u00e1-la, n\u00e3o lhe dava qualquer lugar como sujeito, e passa a experimentar o que chamei de\u00a0<em>real de um efeito-sujeito<\/em>, n\u00e3o sem antes ceder, \u00e0quele que a entrevistava, a marca mesma de um gozo que, diferentemente\u00a0do que a segregava como insultada, tamb\u00e9m tomava-lhe o corpo, mas de forma sutil e da qual ela n\u00e3o deixava de ter alguma participa\u00e7\u00e3o ativa. Vale aqui citar, mais uma vez, o pr\u00f3prio Lacan (1955-1956\/1981, p. 59):<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cUma certa do\u00e7ura que eu tinha colocado na aproxima\u00e7\u00e3o com ela, fez com que estiv\u00e9ssemos, ap\u00f3s cinco minutos de entrevista, em uma boa sintonia (<em>\u00e0 une bonne entente<\/em>), e assim ela me confessa, com um riso de concess\u00e3o, que ela n\u00e3o se encontrava naquele ponto totalmente inocente, pois ela mesmo disse alguma coisa ao passar\u201d.<\/p>\n<p>Diferentemente da posi\u00e7\u00e3o de \u00a0&#8220;insultada\u201d (e que n\u00e3o lhe dava qualquer lugar com sujeito), localizo no\u00a0<em>riso de concess\u00e3o\u00a0<\/em>manifestado em transfer\u00eancia pela paciente\u00a0<em>outro modo<\/em>\u00a0de ela experimentar como o gozo, n\u00e3o sem a dimens\u00e3o significante, impacta-lhe o corpo. Ao mesmo tempo, o que ela diz em seguida para Lacan lhe permite tamb\u00e9m destacar um S<sub>1<\/sub>, de um significante determinante e ordenador, mas que, diferentemente daquele do insulto, n\u00e3o deixa de iter\u00e1-lo numa modaliza\u00e7\u00e3o que, em vez de segreg\u00e1-la como sujeito, a inclui. Afinal, essa \u201calguma coisa\u201d que ela teria dito ao passar pelo tal \u201cdesprez\u00edvel homem casado\u201d e \u201camante da vizinha\u201d, Lacan (1955-1956\/1981, p. 59) nos apresenta com os seguintes termos: \u201cessa alguma coisa, ela a confessa mais facilmente que o que ela escutou\u201d, ou seja, que o palavr\u00e3o-alucinat\u00f3rio\u00a0<em>Porca!,<\/em>\u00a0\u201ce \u00e9 isto:\u00a0<em>Eu venho do \u2018linguiceiro\u2019<\/em><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/sergio-laia#_edn7\" name=\"_ednref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a><em>\u201d<\/em>. Assim, \u00e0 trama de interpreta\u00e7\u00f5es enfatizada a partir de um insulto escutado de forma alucinat\u00f3ria e que segregava a paciente (S<sub>1<\/sub>-S<sub>2<\/sub>,\u00a0<em>a<\/em>), a docilidade her\u00e9tica de Lacan permite-lhe contrapor o par ordenado (S<sub>1<\/sub>,\u00a0<em>a<\/em>), que faz para ela as vezes de um\u00a0<em>mito individual.<\/em><\/p>\n<p>Sublinho, nessa contraposi\u00e7\u00e3o, o quanto esse par ordenado (S<sub>1<\/sub>,\u00a0<em>a<\/em>) \u2014 diferente da trama interpretativa S<sub>1<\/sub>-S<sub>2<\/sub>,\u00a0<em>a<\/em>\u00a0\u2014 articula significante e gozo fora da vertente do sentido, porque, como elucida Miller (1987\/2006, p. 111), \u201co S<sub>1<\/sub>, quando \u00e9 separado de S<sub>2<\/sub>, aparece como sem sentido, e o objeto obt\u00e9m sua posi\u00e7\u00e3o por estar fora de sentido\u201d. Afinal, uma est\u00f3ria do tipo\u00a0<em>nonsense\u00a0<\/em>\u00e9 contada quando a pr\u00f3pria paciente acaba confessando que n\u00e3o \u00e9 de todo inocente quanto ao que havia escutado, mas n\u00e3o porque teria provocado o insulto ao considerar \u201cdesprez\u00edvel\u201d (ou mesmo \u201cum porco\u201d) aquele que a teria xingado de \u201cporca\u201d. Destacando ainda mais o que se apresenta como fora de sentido, temos o\u00a0<em>riso<\/em>\u00a0proveniente da confiss\u00e3o de que, ao passar pelo tal amante da vizinha, ela mesma teria dito que vinha do linguiceiro e, por esse acontecimento de corpo, ap\u00f3s tomar dist\u00e2ncia de sua posi\u00e7\u00e3o inocente sem ter de se fixar \u00e0quela de v\u00edtima, a obscuridade do gozo se apresenta n\u00e3o pela vertente segregativa e nefasta do insulto, mas por essa parte da est\u00f3ria que a paciente \u2014 at\u00e9 ser escutada por um analista \u2014 parecia negar-se, ela pr\u00f3pria, a contar, escutar e mesmo gozar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>BEEKES, R.; BEEK, L.\u00a0<strong>Etymological Dictionary of Greek<\/strong>. Leiden\/Boston: Brill, 2010.<\/h6>\n<h6>FOUCAULT, M. (1961)\u00a0<strong>Histoire de la folie \u00e0 l\u2019\u00e2ge classique<\/strong>. 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Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2021\/2021\/05\/27\/quando-o-corpo-acontece\/\">https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2021\/2021\/05\/27\/quando-o-corpo-acontece\/<\/a>\u00a0Acesso: 3 de junho 2021.<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9. \u201cInterpr\u00e9ter la psychose au quotidien\u201d.\u00a0<strong>Mental<\/strong>, Revue Internationale de Psychanalyse, Paris, n. 16, 2005, p. 9-24.<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9. \u201cLacan, her\u00e9tico\u201d.\u00a0<strong>Correio<\/strong>, Revista da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, S\u00e3o Paulo, n. 70, 2011, p. 43-55.<\/h6>\n<h6>MALHADAS, D., DEZOTTI, M. C. C. e NEVES, M. H. M.\u00a0<strong>Dicion\u00e1rio Grego-Portugu\u00eas<\/strong><em>.\u00a0<\/em>v. 1. S\u00e3o Paulo: Ateli\u00ea Editorial, 2006.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. (1983a) \u201cProduzir o sujeito?\u201d.\u00a0<em>In<\/em>: ____\u00a0<em>.\u00a0<\/em><strong>Matemas<\/strong><em>\u00a0I<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1996, p. 155-161.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. (1983b) \u201cDes-sentido para as psicoses!\u201d.\u00a0<em>In<\/em>: ____\u00a0<em>.\u00a0<\/em><strong>Matemas<\/strong><em>\u00a0I<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1996, p. 162-169.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. (1987) \u201cInsignia\u201d.\u00a0<em>In<\/em>: ____.\u00a0<strong>Introducci\u00f3n a la cl\u00ednica lacaniana<\/strong>, Conferencias en Espa\u00f1a. Barcelona: Escuela Lacaniana de Psicoan\u00e1lisis\/RBA, 2006, p. 105-116.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. \u201cL\u2019interpr\u00e9tation \u00e0 l\u2019envers\u201d.\u00a0<strong>La Cause Freudienne<\/strong>, Revue de Psychanalyse, Paris, \u00c9cole de la Cause Freudienne, n. 32, p. 9-13, 1996.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. (1987-1998) \u201cCl\u00ednica diferencial de las psicoses\u201d.\u00a0<strong>Cuaderno de Res\u00famenes<\/strong>. Buenos Aires: Asociaci\u00f3n de Psicoan\u00e1lisis Simposio del Campo Freudiano, 1991 (Clase de 11 de junio de 1987).<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. \u201cLe salut par les d\u00e9chets\u201d.\u00a0<strong>Mental<\/strong>, Revue Internationale de Psychanalyse, Paris, n. 24, p. 9-15, 2010.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. (1995) \u201cA inven\u00e7\u00e3o do del\u00edrio\u201d.\u00a0<strong>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana online<\/strong>, n. 5. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/antigos\/textob.asp\">http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/antigos\/textob.asp#<\/a>\u00a0Acesso: 5 junho de 2021.<\/h6>\n<h6>MILLER, J. A. \u201cHeresia e ortodoxia\u201d.\u00a0<strong>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/strong>, Revista Internacional Brasileira de Psican\u00e1lise, S\u00e3o Paulo, n. 78, p. 34-46, 2018.<\/h6>\n<h6>SOUTO, S. \u201cO inconsciente e o mestre contempor\u00e2neo: o que pode a transfer\u00eancia\u201d. 2018. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"http:\/\/jornadaebpmg.blogspot.com\/2018\/03\/enxame-1-4-pingos-nos-is.html\">http:\/\/jornadaebpmg.blogspot.com\/2018\/03\/enxame-1-4-pingos-nos-is.html<\/a>\u00a0Acesso: 3 junho 2021.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6>[1]\u00a0Este texto retoma, com algumas modifica\u00e7\u00f5es e acr\u00e9scimos, uma apresenta\u00e7\u00e3o online realizada no N\u00facleo de Pesquisa em Psican\u00e1lise e Psicose do Instituto de Psican\u00e1lise e Sa\u00fade Mental de Minas Gerais (IPSM-MG), no dia 7 de maio de 2021, a convite de Fernando Casula (Coordenador desse N\u00facleo). Por ocasi\u00e3o dessa atividade, Cristiana Pittella (Coordenadora da Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica do IPSM-MG) fez um coment\u00e1rio do que ali apresentei. Agrade\u00e7o a esses colegas, bem como aos participantes dessa atividade e a Patr\u00edcia Ribeiro, a oportunidade para a realiza\u00e7\u00e3o desse trabalho e, agora, desta publica\u00e7\u00e3o.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/sergio-laia#_ednref2\" name=\"_edn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>\u00a0Por exemplo, no precioso\u00a0<em>Dicion\u00e1rio Grego-Portugu\u00eas\u00a0<\/em>(MALHADAS, DEZOTTI e NEVES, 2007, p. 23), encontramos \u03b1\u03ca\u03c1\u03b5\u03c3\u03b9\u03c2 como \u201ca\u00e7\u00e3o de tomar\u201d, \u201ctomada\u201d, \u201cconquista\u201d, assim como \u201cescolha\u201d e, j\u00e1 com refer\u00eancia \u00e0 cristandade, temos o termo \u201cheresia\u201d (\u03b1\u03af\u03c1\u03ad\u03c9). Por sua vez, o cl\u00e1ssico e incontorn\u00e1vel\u00a0<em>Etymological Dictionary of Greek\u00a0<\/em>(BEEKS; BEEK, 2009\/2010, p. 42) apresenta-nos o mesmo termo como \u201ccaptura, escolha, partido\u201d, relacionando \u201cheresia&#8221; a uma \u201cescola filos\u00f3fica\u201d, al\u00e9m de indicar que outras formas derivadas dessa mesma palavra designam tanto \u201cser escolhido, provocando abalos, rupturas\u201d, quanto \u201cquem escolhe\u201d. Agrade\u00e7o, aqui, Teodoro Renn\u00f3 Assun\u00e7\u00e3o, por ter me presenteado e indicado esses dicion\u00e1rios.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/sergio-laia#_ednref3\" name=\"_edn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>\u00a0Em outro texto (LAIA, 2006), pude trabalhar um pouco mais essa refer\u00eancia lacaniana das alucina\u00e7\u00f5es auditivo-verbais como \u201cplacas de sinaliza\u00e7\u00e3o\u201d ou \u201cletreiros\u201d \u00e0s margens dos trajetos que os psic\u00f3ticos fazem\u00a0<em>off road<\/em>, ou seja, fora da \u201cgrande-rota\u201d pavimentada, a partir do norteamento do Nome-do-Pai como grande Outro.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/sergio-laia#_ednref4\" name=\"_edn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>\u00a0Para o que me permite utilizar assim a no\u00e7\u00e3o lacaniana de \u201cacontecimento de corpo\u201d, ver o texto \u201cQuando o corpo acontece\u201d, destinado (LAIA, 2021) \u00e0 prepara\u00e7\u00e3o da XXV Jornada da Se\u00e7\u00e3o Minas Gerais (EBP-MG).<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/sergio-laia#_ednref5\" name=\"_edn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>\u00a0Com as aspas colocadas nas palavras \u201cconstru\u00e7\u00e3o&#8221; e \u201cfuncionamento\u201d, procuro ressaltar o quanto a fantasia, mesmo aparelhando gozo, n\u00e3o deixa de ser desconstru\u00edda e perturbada pelo que, na dimens\u00e3o mais obscura do gozo, excede o que ela tenta enquadrar. Esse fracasso da fantasia se apresenta nas neuroses e nas pervers\u00f5es, mas ganha um alcance ainda mais disruptivo nas psicoses.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/sergio-laia#_ednref6\" name=\"_edn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>\u00a0Para essa refer\u00eancia \u00e0 sombra do objeto que esmaga o sujeito, me valho da c\u00e9lebre formula\u00e7\u00e3o de Freud (1917\/2016, p, 107) sobre o que acontece nos casos de extrema melancolia: \u201ca sombra do objeto caiu sobre o Eu, que agora p\u00f4de ser julgado por uma inst\u00e2ncia especial, como um objeto, como o objeto abandonado\u201d.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/sergio-laia#_ednref7\" name=\"_edn7\"><sup>[7]<\/sup><\/a>\u00a0Em franc\u00eas, o termo original \u00e9\u00a0<em>charcutier<\/em>\u00a0e remete-nos \u00e0quele que prepara e vende carne de porco. O\u00a0<em>charcutier\u00a0<\/em>e sua \u201cloja\u201d (a\u00a0<em>charcuterie<\/em>) s\u00e3o refer\u00eancias comuns \u00e0 vida francesa. Na edi\u00e7\u00e3o brasileira do\u00a0<em>Semin\u00e1rio 3<\/em>,\u00a0<em>charcutier<\/em>\u00a0foi traduzido por \u201csalsicheiro\u201d e essa op\u00e7\u00e3o se repete em outras tradu\u00e7\u00f5es brasileiras nas quais h\u00e1 refer\u00eancia a essa apresenta\u00e7\u00e3o de pacientes relatada por Lacan (1955-1956\/1985, p. 55-69). Por\u00e9m, mesmo considerado que salsicha \u00e9 feita com carne de porco, preferi traduzir\u00a0<em>charcutier<\/em>\u00a0por \u201clinguiceiro\u201d, porque quem faz e vende lingui\u00e7a (tradicionalmente de carne de porco) est\u00e1 muito mais presente na vida brasileira e a salsicha \u00e9, de fato, um produto industrializado, n\u00e3o referenciado propriamente a algu\u00e9m que a produz.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00c9RGIO LAIA Psicanalista, Analista Membro da Escola (AME) pela EBP e AMP | laia.bhe@terra.com.br Resumo:\u00a0O inconsciente \u00e9 int\u00e9rprete e, ao interpretar, cifra novamente tornando infinita a atividade interpretativa. 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