{"id":1798,"date":"2021-07-19T06:40:41","date_gmt":"2021-07-19T09:40:41","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1798"},"modified":"2025-12-01T13:22:57","modified_gmt":"2025-12-01T16:22:57","slug":"da-escuta-do-sentido-a-leitura-fora-do-sentido-nossa-santa-interpretacao1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2021\/07\/19\/da-escuta-do-sentido-a-leitura-fora-do-sentido-nossa-santa-interpretacao1\/","title":{"rendered":"DA ESCUTA DO SENTIDO \u00c0 LEITURA FORA DO SENTIDO:\u00a0NOSSA SANTA INTERPRETA\u00c7\u00c3O[1]\u00a0\u00a0"},"content":{"rendered":"<h6>SILVIA BAUDINI<br \/>\nPsicanalista membro da EOL e da AMP |<br \/>\n<span id=\"cloak4d6d1b7d3ed2fe8914b9b47469fc3124\"><a href=\"mailto:sbaudini@yahoo.com.ar\">sbaudini@yahoo.com.ar<\/a><\/span><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/contrucoes7.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"600\" data-large_image_height=\"468\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1799 aligncenter\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/contrucoes7.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"468\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/contrucoes7.jpg 600w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/contrucoes7-300x234.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><\/p>\n<blockquote><p><strong>Resumo:\u00a0<\/strong>Em um primeiro momento dessa confer\u00eancia, a autora trabalha as no\u00e7\u00f5es de transfer\u00eancia e interpreta\u00e7\u00e3o quando sustentadas pelo simb\u00f3lico e pelo analista alojado em uma posi\u00e7\u00e3o de prest\u00edgio pelo suposto saber, para, em seguida, pens\u00e1-las em um mundo onde essa suposi\u00e7\u00e3o tem praticamente desaparecido e o simb\u00f3lico n\u00e3o \u00e9 o registro predominante. Atrav\u00e9s de alguns fragmentos de casos, a autora nos conduz por uma cl\u00ednica onde o Outro n\u00e3o existe e na qual a leitura do fora do sentido pode dar lugar a inven\u00e7\u00e3o de uma nova escrita.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave:<\/strong>\u00a0Interpreta\u00e7\u00e3o, transfer\u00eancia, cl\u00ednica, escrita.<\/p>\n<p><strong>FROM LISTENING TO THE MEANING TO READING THE NONSENSE:\u00a0<\/strong><strong>OUR SAINT INTERPRETATION<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Abstract:\u00a0<\/strong>In the first part of this conference, the author works on the notions of tranference and interpretation when sustained by the symbolic and by the analyst lodged in a position of prestige by the suppost subject of knowledge, to then think of these notions in a world where this supposition has practically disappeared and the symbolic is no longer the predominat register. Through some fragments of cases, the author leads us through a clinic where the Other does not exist and in which the reading of the nonsense can give way to the invention of a new writing.<\/p>\n<p><strong>Keywords:<\/strong>\u00a0Interpretation, transference, clinic, writing.<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Introdu\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>Irei come\u00e7ar utilizando uma cita\u00e7\u00e3o de J.-A Miller que tem me servido de suporte para esta confer\u00eancia. Miller est\u00e1 trabalhando, em seu curso \u201cEl ultim\u00edsimo Lacan\u201d, o Semin\u00e1rio \u201cMomento de concluir\u201d, de Jacques Lacan, e cita a seguinte frase: &#8220;Por que o desejo se converte em amor? Os fatos n\u00e3o permitem diz\u00ea-lo \u2014 sem d\u00favidas h\u00e1 efeitos de prest\u00edgio&#8221; (LACAN, 1975, tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/p>\n<p>Sua leitura da frase \u00e9 a seguinte:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">&#8220;Dificilmente se pode ir mais longe na degrada\u00e7\u00e3o discreta da vida amorosa (&#8230;). O mesmo acontece, a meu entender, quando se atreve a dizer da interpreta\u00e7\u00e3o, de nossa santa interpreta\u00e7\u00e3o, que \u00e9 tudo o que temos para operar em nossa tradi\u00e7\u00e3o l\u00e9xica, ao menos sem\u00e2ntica, que depende do peso do analista. Efeito de prest\u00edgio ali tamb\u00e9m. Esse movimento chega at\u00e9 o ponto de dobrar a interpreta\u00e7\u00e3o sobre a sugest\u00e3o,\u00a0<em>horresco referens<\/em><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/baudini#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a><em>&#8220;<\/em>\u00a0(MILLER, 2012, p. 186, tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/p>\n<p>Nessa cita\u00e7\u00e3o de Miller, extra\u00edda do seu curso \u201cEl ultim\u00edsimo Lacan\u201d (2012), se colocam em rela\u00e7\u00e3o dois rebaixamentos, o do amor e o da interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No\u00a0<em>Semin\u00e1rio, livro 8: a transfer\u00eancia<\/em>, Lacan se pergunta se nosso acesso ao paciente \u00e9 ou n\u00e3o atrav\u00e9s do amor e se interroga sobre o estatuto do amor em rela\u00e7\u00e3o a uma profunda discord\u00e2ncia e ruptura que questiona qualquer harmonia (LACAN, 1960-61\/2010).<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o entre transfer\u00eancia e interpreta\u00e7\u00e3o est\u00e1 colocada na cita\u00e7\u00e3o de Miller que nos diz que houve em Lacan uma invers\u00e3o entre transfer\u00eancia e Sujeito Suposto Saber. Primeiro Lacan localizou a rela\u00e7\u00e3o com o Sujeito Suposto Saber e disse &#8220;a quem lhe suponho o saber, eu amo&#8221; para logo invert\u00ea-lo, e, citando Miller, &#8220;o que faz existir o inconsciente como saber \u00e9 o amor&#8221; (MILLER, 2005, p. 18). N\u00e3o descartamos seu reverso, o \u00f3dio. Depois voltarei a esse ponto.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o estatuto da suposi\u00e7\u00e3o de saber fica afetado. Recordemos que Freud diz: \u201ctem-se de ter cuidado em n\u00e3o fornecer ao paciente a solu\u00e7\u00e3o de um sintoma ou a tradu\u00e7\u00e3o de um desejo at\u00e9 que ele esteja t\u00e3o pr\u00f3ximo delas&#8230;&#8221; ( 1913\/1996, p. 87). Vemos aqui que, para Freud, \u00e9 o pr\u00f3prio sujeito, o inconsciente que faz a interpreta\u00e7\u00e3o de seu sintoma.<\/p>\n<p>A suposi\u00e7\u00e3o de saber que alojava o analista em uma posi\u00e7\u00e3o de prest\u00edgio se movimenta. O discurso da ci\u00eancia e das leis do mercado tamb\u00e9m tocam a psican\u00e1lise. Como responder sem cair nas redes do discurso do mestre moderno? A psican\u00e1lise muda e essa mudan\u00e7a mina as ra\u00edzes do simb\u00f3lico como registro predominante na sua qualidade dial\u00e9tica e tamb\u00e9m a rela\u00e7\u00e3o S1-S2, opera\u00e7\u00e3o fundamental da interpreta\u00e7\u00e3o sem\u00e2ntica. Aquilo a que podemos chamar de causa significante.<\/p>\n<p>A orienta\u00e7\u00e3o lacaniana que JAM sustenta h\u00e1 muitos anos nos d\u00e1 os instrumentos para operar no mundo do Outro que n\u00e3o existe, onde a suposi\u00e7\u00e3o de saber praticamente desapareceu.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Tradi\u00e7\u00e3o sem\u00e2ntica<\/em><\/p>\n<p>O que \u00e9 a tradi\u00e7\u00e3o sem\u00e2ntica? Em primeiro lugar, tomo o termo tradi\u00e7\u00e3o, que Miller coloca em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 transmiss\u00e3o. A tradi\u00e7\u00e3o se coloca na linha do NP (Nome-do-Pai) e prov\u00e9m de uma ortodoxia. A transmiss\u00e3o implica o um por um, ou seja, o corpo. O NP n\u00e3o necessita do corpo, \u00e9 um significante; a transmiss\u00e3o, por outro lado, est\u00e1 encarnada. Por exemplo, o NP se veicula atrav\u00e9s de uma transmiss\u00e3o e quem encarna essa transmiss\u00e3o far\u00e1 uma coisa ou outra com esse significante.<\/p>\n<p>Lacan (1955-56\/1998) nos apresenta duas modalidades do significante:<\/p>\n<p>1) A cadeia subsiste em uma alteridade em rela\u00e7\u00e3o ao sujeito, t\u00e3o radical como os hier\u00f3glifos ainda n\u00e3o decifrados na solid\u00e3o do deserto.<\/p>\n<p>2) Tem a fun\u00e7\u00e3o de induzir no significado, a significa\u00e7\u00e3o, impondo-lhe sua estrutura. O que conhecemos como significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sem\u00e2ntica, sabemos que esta se refere ao estudo de diversos aspectos do\u00a0<a href=\"https:\/\/es.wikipedia.org\/wiki\/Significado\">significado<\/a>,\u00a0<a href=\"https:\/\/es.wikipedia.org\/wiki\/Interpretaci%C3%B3n\">sentido<\/a>\u00a0ou interpreta\u00e7\u00e3o de\u00a0<a href=\"https:\/\/es.wikipedia.org\/wiki\/Signo_ling%C3%BC%C3%ADstico\">signos lingu\u00edsticos<\/a>.<\/p>\n<p>Se tomamos o primeiro ensino de Lacan, o simb\u00f3lico se institui como uma ordem, com leis, e o significante se define por seu valor diacr\u00edtico, ou seja, \u00e9 oposto a outro significante. A matriz \u00e9 S1-S2. Essa ordem simb\u00f3lica vem para pacificar a desordem no imagin\u00e1rio citando Lacan no\u00a0<em>Semin\u00e1rio, livro 2<\/em>: \u201cNo simb\u00f3lico nunca h\u00e1 encontro que seja um choque&#8221; (1954-55\/1985, p. 332). O significante induz, diz Lacan, no significado a significa\u00e7\u00e3o, quer dizer que esse significado alcan\u00e7a uma deten\u00e7\u00e3o gra\u00e7as \u00e0 opera\u00e7\u00e3o do significante. Por isso, nas psicoses, ao n\u00e3o se inscrever um significante especial, o Nome do Pai, essa fun\u00e7\u00e3o de limite n\u00e3o se encontra presente e o que h\u00e1 \u00e9 significa\u00e7\u00e3o de significa\u00e7\u00e3o. Por exemplo: um sujeito v\u00ea um carro vermelho e sabe que significa algo para ele, que est\u00e1 dirigido a ele, mas n\u00e3o sabe o que quer dizer, qual \u00e9 sua significa\u00e7\u00e3o. Essa significa\u00e7\u00e3o induzida pela presen\u00e7a do significante tem um car\u00e1ter mais ou menos universal; por outro lado, a significa\u00e7\u00e3o de significa\u00e7\u00e3o implica o que conhecemos como significa\u00e7\u00e3o pessoal, ou seja, est\u00e1 dirigido ao sujeito, com um car\u00e1ter mais ou menos amea\u00e7ador.<\/p>\n<p>Os anos 1994-1995 s\u00e3o um marco para a orienta\u00e7\u00e3o lacaniana. Miller ministra seu curso \u201cLa fuga del sentido\u201d (1994-95\/2012), curso que tive o prazer de traduzir. E tamb\u00e9m ministra duas confer\u00eancias, uma em Buenos Aires, nas Jornadas anuais da EOL, intituladas \u201cEl tiempo de interpretar\u201d. Essa confer\u00eancia foi intitulada &#8220;Adi\u00f3s al significante&#8221; (MILLER, 1995\/2009, p. 278) e Jacques-Alain Miller n\u00e3o quis public\u00e1-la durante muito tempo, at\u00e9 que autorizou sua publica\u00e7\u00e3o e atualmente pode ser lida nas \u201cConferencias porte\u00f1as: tomo II\u201d (2009). Essa confer\u00eancia teve diversos efeitos, perplexidade, mal-estar, entusiasmo. E nela Miller apresentou o intermin\u00e1vel de uma cura sustentada no modelo tradicional da interpreta\u00e7\u00e3o; disse que se a \u201cinterpreta\u00e7\u00e3o se for colocada em continuidade com o inconsciente, n\u00e3o \u00e9 mais que delirar com o paciente\u201d (MILLER, 1995\/2009, p. 278, tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/p>\n<p>Nas \u201cJourn\u00e9es d\u2019\u00e9tude da ECF\u201d de 1995, proferiu \u201cA interpreta\u00e7\u00e3o ao avesso&#8221; (MILLER, 1996) e, depois de 27 anos, ainda devemos seguir extraindo consequ\u00eancias desses textos e confer\u00eancias de Miller.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, na \u201cConfer\u00eancia sobre a interpreta\u00e7\u00e3o ao contr\u00e1rio\u201d, ele come\u00e7a dizendo que a era da interpreta\u00e7\u00e3o j\u00e1 passou, ou seja, que n\u00f3s (foi h\u00e1 27 anos) n\u00e3o estamos na era da interpreta\u00e7\u00e3o. Parece-me importante ressalt\u00e1-lo. Verificamos, por exemplo, nos casos, os pr\u00f3prios ou os que supervisionamos, um desejo, um anseio de ligar S1 e S2: o paciente n\u00e3o associa, fala pouco, n\u00e3o liga o que diz com nada, \u00e9 o que escutamos de n\u00f3s mesmos ou de nossos supervisionandos. Ent\u00e3o, afirmar que a \u00e9poca da interpreta\u00e7\u00e3o ficou para tr\u00e1s \u00e9 fundamental para escutar os sujeitos que v\u00eam nos consultar.<\/p>\n<p>Tomemos agora os dois maiores textos do primeiro ensino de Lacan, \u201cFun\u00e7\u00e3o e campo da fala\u00a0e da linguagem em psican\u00e1lise&#8221; (1953\/1998) e &#8220;A inst\u00e2ncia da letra no inconsciente ou a raz\u00e3o desde Freud&#8221; (1957-58\/1998). O que diz Miller sobre eles? &#8220;S\u00e3o iniciativas grandiosas de integrar o gozo \u00e0 estrutura da linguagem&#8221; (MILLER, 1996, p. 97).<\/p>\n<p>Diz\u00ea-lo assim nos permite entender que o \u00faltimo ensino e o ultim\u00edssimo ensino de Lacan s\u00e3o muito mais humildes em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 psican\u00e1lise e \u00e0 a\u00e7\u00e3o do analista. O trabalho do analista fica desprovido de qualquer ideia de grandeza e de toda esperan\u00e7a. E, ao mesmo tempo, \u00e9 muito mais leve, mais eficaz, temperado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A pr\u00e1tica<\/em><\/p>\n<p>Vou relatar um fragmento de um caso de uma paciente que atendo h\u00e1 10 anos; ela \u00e9 algu\u00e9m que n\u00e3o acredita no pai, o nomeia \u201cprogenitor&#8221; esclarecendo que ele n\u00e3o pode, em caso algum, ser chamado de pai. Tem um profundo desejo de morte formulado da seguinte forma: &#8220;subir no terra\u00e7o e me jogar&#8221;. Nada do que faz a satisfaz, mas, enquanto isso vive e tem um humor muito particular, faz dela uma amadora do\u00a0<em>stand up<\/em>. As entrevistas transcorrem entre sua declara\u00e7\u00e3o do sem sentido de sua vida e de seu desejo de dormir e seus relatos humor\u00edsticos. Numa ocasi\u00e3o, me entrega um papel no qual escreveu um sonho: &#8220;Sonho que entro na minha casa e fa\u00e7o isso abrindo uma fechadura que est\u00e1 na janela da varanda. N\u00e3o h\u00e1 cortinas, estou exposta, me veem. Os meus vizinhos est\u00e3o l\u00e1. Ontem \u00e0 tarde perdi a confian\u00e7a neles&#8221;.<\/p>\n<p>At\u00e9 aqui o que escreveu. Digo: Ah! Mas voc\u00ea tem recursos, quando n\u00e3o pode entrar pela porta, entra pela janela!<\/p>\n<p>Pouco tempo depois, chega, senta-se e me diz: &#8220;v\u00ea aquela pasta verde&#8221; \u2014 de fato sa\u00eda de uma sacola uma pasta dessa cor \u2014, &#8220;s\u00e3o os pap\u00e9is para que assinem a doa\u00e7\u00e3o da casa de minha av\u00f3&#8221;, \u00fanico la\u00e7o dessa paciente com algu\u00e9m que respeitava e acabava de falecer. Ela se negava sistematicamente a fazer uso dessa propriedade.<\/p>\n<p>Acrescenta: &#8220;Isso, eu tenho que agradecer a voc\u00ea e a Maria&#8221; (sua analista anterior). Esse recurso, n\u00e3o sem a psican\u00e1lise, torna poss\u00edvel para ela dois movimentos: um de vitaliza\u00e7\u00e3o do mort\u00edfero, que tem sido seu la\u00e7o com o Outro, e outro que inaugura um endere\u00e7amento a um Outro a quem possa agradecer.<\/p>\n<p>O sonho diz literalmente e ela passa do desejo de jogar-se no vazio, que indica que n\u00e3o havia para ela a moldura da fantasia, a uma janela que, emoldurada pela an\u00e1lise, j\u00e1 que ela escreve o sonho para sua analista, lhe permite abrir a porta de uma casa que poderia melhorar suas prec\u00e1rias condi\u00e7\u00f5es de vida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Uma pr\u00e1tica p\u00f3s joyceana<\/em><\/p>\n<p>Se tomamos a cita\u00e7\u00e3o do texto &#8220;De uma quest\u00e3o preliminar a todo tratamento poss\u00edvel da psicose&#8221;, que mencionei, o significante tem a fun\u00e7\u00e3o de induzir no significado a significa\u00e7\u00e3o impondo-lhe sua estrutura. Essa estrutura imposta \u00e9 a que abreviamos escrevendo S1-S2 e a opera\u00e7\u00e3o anal\u00edtica \u00e9 a pontua\u00e7\u00e3o, ou seja, reproduz a estrutura significante, a do significante privilegiado, a do Nome-do-Pai. Por isso Miller diz que entre inconsciente e interpreta\u00e7\u00e3o h\u00e1 uma equival\u00eancia, e isso \u00e9 o que se diz sob a forma do Sujeito Suposto Saber (MILLER, 1996).<\/p>\n<p>\u00c0 pontua\u00e7\u00e3o se op\u00f5e o corte. Em &#8220;Fun\u00e7\u00e3o e campo da fala e da linguagem em psican\u00e1lise&#8221; encontramos uma cita\u00e7\u00e3o de Lacan que diz que o corte, &#8220;a suspens\u00e3o da sess\u00e3o, que a t\u00e9cnica atual transforma numa pausa puramente cronom\u00e9trica [&#8230;] indica libertar esse termo (o da sess\u00e3o) de seu contexto rotineiro&#8221; (LACAN, 1953\/1998, p. 253). Em seu ultim\u00edssimo ensino, Lacan vai dizer que h\u00e1 que elevar o corte \u00e0 dignidade da cirurgia. Penso que essa passagem em Lacan sobre libertar o final da sess\u00e3o de seu contexto rotineiro ao corte cir\u00fargico marca a incid\u00eancia do corpo no ato anal\u00edtico.<\/p>\n<p>Que Jacques-Alain Miller diga que a interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 tudo o que temos em nossa tradi\u00e7\u00e3o sem\u00e2ntica nos deixa a porta aberta para pensar algo que vai mais al\u00e9m dessa tradi\u00e7\u00e3o, digamos, religiosa.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, pensar a neurose a partir da psicose se torna imprescind\u00edvel na pr\u00e1tica de nosso tempo. A psicose n\u00e3o tem tradi\u00e7\u00e3o, Lacan diz que n\u00e3o h\u00e1 psicose infantil, marcando, com isso, que n\u00e3o h\u00e1 uma hist\u00f3ria, um romance. A psicose transcorre em um tempo sem &#8220;contexto rotineiro&#8221;.<\/p>\n<p>A neurose, com seu romance lido a partir do \u00faltimo ensino de Lacan, nos liberta do contexto rotineiro.<\/p>\n<p>Por outro lado, se a entrada do significante no corpo se faz por efra\u00e7\u00e3o, de maneira disruptiva, isso nos d\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o com o significante que nada tem a ver com a ideia de um simb\u00f3lico ordenado. O simb\u00f3lico \u00e9 ent\u00e3o um buraco, o significante perfura, traumatiza o organismo vivo que n\u00e3o ser\u00e1 natural nunca mais.<\/p>\n<p>Cito Jacques-Alain Miller:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cO modo de entrada da experi\u00eancia inesquec\u00edvel do gozo que ser\u00e1 comemorada pela repeti\u00e7\u00e3o (&#8230;) \u00e9 sempre a efra\u00e7\u00e3o em todos os casos aos que se acede a ela por meio da an\u00e1lise. A efra\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a dedu\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 a inten\u00e7\u00e3o, tampouco a evolu\u00e7\u00e3o, mas sim a ruptura, a disrup\u00e7\u00e3o quanto a um ordenamento pr\u00e9vio, j\u00e1 feito, ou \u00e0 rotina do discurso, gra\u00e7as ao qual se mant\u00e9m as significa\u00e7\u00f5es, ou \u00e0 rotina que imaginamos como a do corpo animal&#8221; (2013, tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/p>\n<p>Essa leitura da entrada do significante como Um, que ingressa no corpo e o faz gozar, ou seja, que o afeta, tamb\u00e9m tem consequ\u00eancias no n\u00edvel da interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Dizemos que interpretar no sentido S1-S2 \u00e9 se identificar ao inconsciente, ent\u00e3o, qual seria a interven\u00e7\u00e3o anal\u00edtica se o significante \u00e9 Um sozinho e procede pela disrup\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Vou citar tr\u00eas fragmentos de casos que me ensinaram.<\/p>\n<p>1) Um homem delira sentado na cama de um hospital, fala dos horrores que sofre de forma monot\u00f4nica, del\u00edrios cenest\u00e9sicos, alucina\u00e7\u00f5es etc. O escuto e, em um momento, pegando no meu bra\u00e7o, digo &#8220;fiquei arrepiada&#8221;. Me olha pela primeira vez, cala-se e sorri.<\/p>\n<p>2) Uma jovem que chega depois de um acidente, vem confusa e com certo empuxo \u00e0s mulheres, dispersa at\u00e9 que algo se localiza em um aplicativo do celular, o Tinder. A partir dali marca encontros com mulheres, homens e casais. N\u00e3o vem \u00e0s entrevistas e, quando vem, relata suas atua\u00e7\u00f5es, o \u00e1lcool e as sa\u00eddas. Intervenho: &#8220;M., me d\u00e1 algo ao que me agarrar, n\u00e3o tenho nada para me agarrar&#8221;. Me diz &#8220;bom&#8221; e, a partir de ent\u00e3o, n\u00e3o falta mais a seu tratamento. Embora suas urg\u00eancias, atua\u00e7\u00f5es e seu empuxo persistam, pode registr\u00e1-los, fre\u00e1-los, como ela diz, e tamb\u00e9m se angustiar frente a uma viagem que planeja sem muita orienta\u00e7\u00e3o porque quer experimentar, ser livre. A an\u00e1lise a acompanha para localizar um espa\u00e7o e um tempo, para que seu fazer tome corpo e n\u00e3o fique exposta a uma fuga sem freios.<\/p>\n<p>3) Um homem chega para avaliar a medica\u00e7\u00e3o; seu pai acaba de morrer e v\u00e1rios de seus familiares est\u00e3o gravemente doentes. Nada disso o afeta. Somente o recha\u00e7o que tem por si mesmo e que se consuma na recusa a qualquer interven\u00e7\u00e3o m\u00e9dica ou de outra ordem. Meu fracasso \u00e9 completo e lhe digo que n\u00e3o posso ajud\u00e1-lo. Deixa a quem at\u00e9 esse momento \u00e9 seu analista e pede para vir duas vezes por semana. Segue seu recha\u00e7o. Como escreve poemas, lhe digo que os leremos, mais fracasso. Enfim&#8230;<\/p>\n<p>Chega a uma entrevista falando de v\u00e1rias coisas e, no final me diz: &#8220;Minha amiga me disse para ligar para fulano, que \u00e9 o analista dela, ligo e ele me diz que n\u00e3o pode me atender, e que vai me dar outro contato, e me deu o seu. \u00c9 o c\u00edrculo do inferno de Dante&#8221;.<\/p>\n<p>Digo-lhe: &#8220;claro, sou sua analista&#8221;. Carrego, ali com o inferno, esse real que o deixa em queda livre no buraco e do qual se defende com o recha\u00e7o fundamental ao\u00a0<em>altero<\/em>. Ent\u00e3o, desmontar a defesa \u00e9 a opera\u00e7\u00e3o, o inferno \u00e9 inferno e vamos circunscrev\u00ea-lo. O recha\u00e7o a todo la\u00e7o que inclua fam\u00edlia, parceira, trabalho, analista, \u00e9 a defesa do sujeito frente ao real, o real da melancolia, de se fazer o pr\u00f3prio dejeto.<\/p>\n<p>&#8220;A desmontagem da defesa sup\u00f5e que outra constru\u00e7\u00e3o venha no lugar do que foi esvaziado\u201d (GU\u00c9GUEN, 2014, p. 103) e permita manter o enodamento RSI. A analista marcada pelo inferno permite que o afeto se localize e lhe fa\u00e7a borda ao corpo.<\/p>\n<p>Dias depois disse que, pela primeira vez, chorou a morte do pai, e ele nunca chora. Irrompe um sintoma: a ins\u00f4nia. Ent\u00e3o aceitou a medica\u00e7\u00e3o, lhe digo \u201ccom a ins\u00f4nia n\u00e3o se pode viver\u201d. Consente.<\/p>\n<p>Breton, citado por Jacques-Alain Miller em \u201cLa fuga del sentido\u201d, diz que devemos desviar a palavra de seu dever de significar (MILLER, 1995-95\/2012, p. 80).<\/p>\n<p>Lacan vai se basear na obra de Joyce para produzir seu conceito de sinthome. A escrita joyceana cumpre com essa indica\u00e7\u00e3o de Breton, Joyce desvia a palavra de seu dever de significar e faz ressoar a\u00a0<em>lal\u00edngua<\/em>\u00a0em sua escrita. N\u00e3o \u00e9 em v\u00e3o que Lacan diz que \u00e9 o melhor que se pode ler e inclui seus\u00a0<em>Escritos<\/em>.<\/p>\n<p>Efetivamente, a escrita joyceana \u00e9 disruptiva, perfura todo o conhecido e faz falar. Lacan postula, no\u00a0<em>Semin\u00e1rio, livro 23: O sinthome<\/em>, &#8220;um novo tipo de ideia&#8221; (1975-76\/2007, p. 127), mas o que quer dizer isso? Estamos habituados a pensar as ideias como algo ligado ao sentido, ao imagin\u00e1rio, mas recordemos que Lacan, no\u00a0<em>Semin\u00e1rio, livro 3<\/em>, toma o fen\u00f3meno anid\u00e9ico de Cl\u00e9rambault, que \u00e9 um elemento, estrutura m\u00ednima. Lacan esclarece o que quer dizer anid\u00e9ico, &#8220;n\u00e3o conforme a uma sequ\u00eancia de ideias&#8221; (1955-56\/1985, p. 14), e acrescenta que \u00e9 algo que se apresenta como ruptura e como incompreens\u00edvel. Ent\u00e3o, esse novo tipo de ideia que \u00e9 o traumatismo, dado que n\u00e3o \u00e9 conforme a uma sucess\u00e3o, \u00e9 o que vai dar a possibilidade da inven\u00e7\u00e3o, a inven\u00e7\u00e3o de uma nova escrita, o for\u00e7amento de uma nova escrita. Lacan diz que o real \u00e9 sua inven\u00e7\u00e3o e que t\u00ea-lo enunciado como uma escrita (do n\u00f3 borromeano) tem o valor de um traumatismo.<\/p>\n<p>\u00c9, ent\u00e3o, coerente falar de for\u00e7amento, dado que o significante procede por efra\u00e7\u00e3o, ou seja, rompe, faz disrup\u00e7\u00e3o. Portanto, esse for\u00e7amento de uma nova escrita \u00e9 hom\u00f3logo \u00e0 irrup\u00e7\u00e3o do significante no corpo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Corpo afetado<\/em><\/p>\n<p>Vemos, ent\u00e3o, a diferen\u00e7a entre a interpreta\u00e7\u00e3o orientada pela escuta do sentido ou pela leitura do fora do sentido: essa leitura n\u00e3o \u00e9 sem um for\u00e7amento que pode dar lugar \u00e0 inven\u00e7\u00e3o de uma nova escrita.<\/p>\n<p>Essa orienta\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m toca a posi\u00e7\u00e3o do analista e seu semblante de objeto. O analista orientado pelo real empresta o corpo no ato. Tomemos o testemunho de Rosine Lefort na entrevista que Judith Miller lhe faz.<\/p>\n<p>Chega em posi\u00e7\u00e3o de dejeto e encontra o horror da transfer\u00eancia. Diz que Lacan se queixou uma ou duas vezes da dificuldade do trabalho na transfer\u00eancia com ela. E acrescenta &#8220;se ele n\u00e3o tivesse infiltrado simb\u00f3lico mediante suas palavras, ou nas sess\u00f5es, jamais teria voltado&#8221; (LEFORT, 2013, p. 129, tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/p>\n<p>Penso que, no caso constru\u00eddo por Rosine Lefort, \u00e9 claro como o analista cumpre uma fun\u00e7\u00e3o civilizadora da disrup\u00e7\u00e3o. Tempera a viol\u00eancia que levava ao sujeito ao encontro com o horror, ao mesmo tempo que dava voz e corpo.<\/p>\n<p>Ela diz tamb\u00e9m que o analista n\u00e3o deixava de &#8220;manter a press\u00e3o&#8221;, por exemplo, pedindo-lhe que lhe trouxesse os objetos de sua autoagress\u00e3o ou as provas do maltrato infantil. M\u00e1xima redu\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio do espelho, que consistia em fen\u00f4menos psicossom\u00e1ticos graves \u2014 mutismo, sonambulismo \u2014 para produzir um imagin\u00e1rio que inclui o afeto (LACAN, 1975-76\/2007) e que a extrai de sua posi\u00e7\u00e3o de objeto. Ela diz: &#8220;o lugar de resto e de dejeto foi o g\u00e9rmen de meu trabalho como analista\u2026 afinal de contas, eu estava l\u00e1 para voltar (\u00e0 vida) eficiente&#8221; (LEFORT, 2013, p. 133, tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/p>\n<p>Lacan (1975-76\/2007) fala de um imagin\u00e1rio que inclui afeto depois de citar a cena de Joyce, na qual \u00e9 espancado e amarrado com arame farpado. Seu relato dessa cena \u00e9 desafetado, n\u00e3o sente nada nem guarda nenhum rancor. Ent\u00e3o, Lacan dir\u00e1 que n\u00e3o h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o entre o corpo e o inconsciente, \u00e9 o significante Um sozinho que permite que o corpo e o inconsciente se enodem. \u00c9 atrav\u00e9s da escrita\/leitura do significante como pura letra fora do sentido que o corpo se mant\u00e9m enodado. No caso de Joyce, essa fun\u00e7\u00e3o fracassada \u00e9 suprida pelo ego, uma megalomania de supl\u00eancia, ser o escritor que dar\u00e1 o que falar aos universit\u00e1rios por trezentos anos. Essa supl\u00eancia restitui a unidade do corpo. A inven\u00e7\u00e3o, o for\u00e7amento de uma nova escrita que d\u00e1 o que falar \u00e9 bem capturado nessa supl\u00eancia joyceana.<\/p>\n<p>Voltando \u00e0 transfer\u00eancia, pensar a interven\u00e7\u00e3o do analista em rela\u00e7\u00e3o com a leitura do fora do sentido coloca em jogo a transfer\u00eancia mais al\u00e9m do amor e da suposi\u00e7\u00e3o de saber. Em seu texto \u201cA negativa\u201d, Freud (1925\/1976) d\u00e1 conta da constitui\u00e7\u00e3o do eu a partir da expuls\u00e3o. Trata-se, como diz \u00c9ric Laurent em \u201cDisrup\u00e7\u00e3o do gozo nas loucuras sob transfer\u00eancia<em>\u201d<\/em>\u00a0(2018), da expuls\u00e3o fora do sujeito, o que constitui o real como o que subsiste fora da simboliza\u00e7\u00e3o. Essa expuls\u00e3o constitui aos Uns como outros Uns, e da\u00ed a possibilidade de amor e \u00f3dio e de sentimento, consequ\u00eancias da separa\u00e7\u00e3o dos outros Uns. &#8220;Aquilo que \u00e9 mau, que \u00e9 estranho ao ego, e aquilo que \u00e9 externo s\u00e3o, para come\u00e7ar, id\u00eanticos&#8221; (FREUD, 1925\/1976, p. 141) e se expulsam, diz Freud. Assim pode constituir-se o ego.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o \u00f3dio como afeto prim\u00e1rio, o horror de que fala Rosine Lefort, n\u00e3o devem fazer o analista recuar. \u00c9 nesse horror que o Um sozinho fora de todo sentido joga sua partida. Suportar e manejar o \u00f3dio de transfer\u00eancia e sua irrup\u00e7\u00e3o na cura \u00e9 a oportunidade para fazer existir uma satisfa\u00e7\u00e3o mais suport\u00e1vel para o sujeito.<\/p>\n<p>Uma jovem que atendi durante mais de quinze anos de maneira interrompida, logo ap\u00f3s um per\u00edodo de evidente progresso na sua vida, realiza uma passagem ao ato inesperada para mim, levando-me a pensar em n\u00e3o continuar a atend\u00ea-la pelas consequ\u00eancias que isso tem a n\u00edvel do \u00f3dio familiar dirigido a mim, mas fundamentalmente dirigido a ela. Fa\u00e7o uma supervis\u00e3o e recebo o seguinte: vai ter a coragem de deix\u00e1-la?<\/p>\n<p>Depois de algum tempo, ela me diz: &#8220;voc\u00ea vai ter que procurar um disc\u00edpulo, j\u00e1 est\u00e1 velha, parece cansada&#8221;. \u00c9 verdade, eu me queixava com ela das minhas costas e sustentava um semblante de cansa\u00e7o e envelhecimento. Isso produz nela uma vis\u00edvel satisfa\u00e7\u00e3o e amenizou sua mortifica\u00e7\u00e3o. Essa conting\u00eancia transferencial permitiu que ela continuasse mais tempo em sua an\u00e1lise e, consequentemente, com sua vida, da qual sempre recebo not\u00edcias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1913). \u201cSobre o in\u00edcio do tratamento (Novas recomenda\u00e7\u00f5es sobre a t\u00e9cnica da psican\u00e1lise I)\u201d.\u00a0<em>In<\/em>:\u00a0<strong>Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud<\/strong>. Rio de Janeiro: Imago, 1980, v. 12.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1925) \u201cA negativa\u201d.\u00a0<em>In<\/em>:\u00a0<strong>Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud<\/strong>\u00a0Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1980, v. 19.<\/h6>\n<h6>GU\u00c9GUEN, P.-G. \u201cDefesa (desmontar a)\u201d.<strong>\u00a0Um real para o s\u00e9culo XXI, Scilicet.<\/strong>\u00a0Belo Horizonte: Scriptum, 2014.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1954-1955)\u00a0<strong>O Semin\u00e1rio, livro 2<\/strong>: o Eu na teoria de Freud e na t\u00e9cnica da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1955-1956)\u00a0<strong>O Semin\u00e1rio, livro 3<\/strong>: as psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1975-1976)\u00a0<strong>O Semin\u00e1rio, livro 23<\/strong>: o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007.<\/h6>\n<h6>LACAN, J.\u00a0<strong>O Semin\u00e1rio, livro 25<\/strong>: momento de concluir. 1975, in\u00e9dito.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1953) \u201cFun\u00e7\u00e3o e campo da fala e da linguagem\u201d.\u00a0<em>In<\/em>:\u00a0<strong>Escritos<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998, p. 238-324.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1955-56) \u201cDe uma quest\u00e3o preliminar a todo tratamento poss\u00edvel da psicose&#8221;,\u00a0<em>In<\/em>:\u00a0<strong>Escritos<\/strong>.\u00a0<em>op. cit.<\/em><\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1957-8). \u201cA inst\u00e2ncia da letra no inconsciente ou a raz\u00e3o desde Freud\u201d.\u00a0<em>In<\/em>:\u00a0<strong>Escritos<\/strong>.\u00a0<em>op. cit.<\/em><\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1960-61)\u00a0<strong>O Semin\u00e1rio, livro 8: a transfer\u00eancia<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2010.<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9. \u201cDisrup\u00e7\u00e3o do gozo nas loucuras sob transfer\u00eancia\u201d.\u00a0<strong>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/strong>, n. 79. S\u00e3o Paulo: Eolia, 2018.<\/h6>\n<h6>LEFORT, R. \u201c\u2018El camino de la cresta sobre la duna\u2019, Entrevista de Judith Miller a Rosine Lefort\u201d, In:\u00a0<strong>Revista Lacaniana<\/strong>, n. 14, Buenos Aires: Eol, 2013.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A.\u00a0<strong>El ultim\u00edsimo Lacan<\/strong>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2012.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. \u201cUma fantasia\u201d, In:\u00a0<strong>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/strong>, n. 42. S\u00e3o Paulo: Eolia, 2005.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. (1994-1995)\u00a0<strong>La fuga del sentido<\/strong>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2012.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. (1995) \u201cAdi\u00f3s al significante\u201d, In:\u00a0<strong>Conferencias Porte\u00f1as: tomo II Desde Lacan<\/strong>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2009, p. 265-282.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. \u201cA interpreta\u00e7\u00e3o ao avesso\u201d, In:\u00a0<strong>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Eolia, n. 15, 1996.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A., \u201cEl desnivel entre el ser y la existencia\u201d. In:\u00a0<strong>Freudiana, Revista de la Comunidad de Catalunya ELP<\/strong>, n.68, Barcelona, 2013.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/baudini#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a>\u00a0Confer\u00eancia apresentada em 01 de mar\u00e7o de 2021 na Aula inaugural: abertura das atividades do primeiro semestre\/2021 do Instituto de Psican\u00e1lise e Sa\u00fade Mental de Minas Gerais.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/baudini#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a>\u00a0\u201c<em>Tremo ao diz\u00ea-lo<\/em>\u201d, verso extra\u00eddo da<em>\u00a0Eneida<\/em>, do poeta Virg\u00edlio.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SILVIA BAUDINI Psicanalista membro da EOL e da AMP | sbaudini@yahoo.com.ar &nbsp; Resumo:\u00a0Em um primeiro momento dessa confer\u00eancia, a autora trabalha as no\u00e7\u00f5es de transfer\u00eancia e interpreta\u00e7\u00e3o quando sustentadas pelo simb\u00f3lico e pelo analista alojado em uma posi\u00e7\u00e3o de prest\u00edgio pelo suposto saber, para, em seguida, pens\u00e1-las em um mundo onde essa suposi\u00e7\u00e3o tem praticamente&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57883,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[23],"tags":[],"class_list":["post-1798","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-27","category-23","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1798","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1798"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1798\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57884,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1798\/revisions\/57884"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57883"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1798"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1798"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1798"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}