{"id":1806,"date":"2022-03-19T06:41:12","date_gmt":"2022-03-19T09:41:12","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1806"},"modified":"2025-12-01T13:14:05","modified_gmt":"2025-12-01T16:14:05","slug":"as-duas-mortes-de-ana-karenina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2022\/03\/19\/as-duas-mortes-de-ana-karenina\/","title":{"rendered":"AS DUAS MORTES DE ANA KARENINA"},"content":{"rendered":"<h6>CIRILO AUGUSTO VARGAS<strong><br \/>\n<\/strong>Defensor p\u00fablico, mestre em Direito pela UFMG<br \/>\ne aluno do Curso de Psican\u00e1lise do IPSM-MG.<br \/>\n<a href=\"mailto:cirilo.vargas@gmail.com\">cirilo.vargas@gmail.com<\/a><\/h6>\n<blockquote><p>\n<strong>Resumo:\u00a0<\/strong>A partir do cl\u00e1ssico\u00a0<em>Ana Karenina<\/em>, romance atemporal publicado por Liev Tolst\u00f3i em 1877, o artigo aborda o tema da puls\u00e3o de morte em seu entrela\u00e7amento com o gozo mort\u00edfero e o suic\u00eddio. Freud, ele pr\u00f3prio um mestre das letras, j\u00e1 apontava a utilidade de investigar personagens inventados por grandes escritores, dada a abund\u00e2ncia do seu conhecimento da alma. A experi\u00eancia destrutiva de uma melanc\u00f3lica capturada pelo espiral tr\u00e1gico da repeti\u00e7\u00e3o assume relev\u00e2ncia atual em um cen\u00e1rio pol\u00edtico-social de conflagra\u00e7\u00e3o e \u00f3dio.\u00a0<em>Ana Karenina\u00a0<\/em>convida \u00e0 reflex\u00e3o, ilustrando como a morte \u00e9 companheira insepar\u00e1vel do amor.<\/p>\n<p><strong>Palavras chaves<\/strong>:\u00a0literatura; puls\u00e3o de morte; gozo; melancolia; suic\u00eddio<\/p>\n<p><strong>THE TWO DEATH OF ANA KARENINA<\/strong><\/p>\n<p><strong>Abstract:\u00a0<\/strong>Based on the classic Ana Karenina, a timeless novel published by Leo Tolstoy in 1877, the article approaches the theme of the death drive, in its intertwining with the deadly jouissance and suicide. Freud, himself a master of letters, already pointed out the usefulness of investigating characters invented by great writers, given the abundance of his knowledge of the soul. The destructive experience of a melancholic woman, captured by the tragic spiral of repetition, assumes current relevance in a political-social scenario of conflagration and hatred. Ana Karenina invites to reflection, illustrating how death is an inseparable companion of love.<\/p>\n<p><strong>Keywords:\u00a0<\/strong>literature; death drive; jouissance; melancholy; suicide.<\/p><\/blockquote>\n<h6><em>Para Cristina Drummond<\/em><\/h6>\n<div id=\"attachment_1807\" style=\"width: 2208px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/018-2-1-scaled.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"2198\" data-large_image_height=\"2560\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1807\" class=\"wp-image-1807\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/018-2-1-879x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"601\" height=\"700\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1807\" class=\"wp-caption-text\">Desali, s\/t<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ana Arkadievna Karenina, imortalizada nas palavras de Liev Tolst\u00f3i, n\u00e3o abriu m\u00e3o de seu desejo e, assim como Ant\u00edgona, pagou um pre\u00e7o elevado: morreu duas vezes. A primeira, ao abandonar seu marido e filho para se entregar a uma aventura amorosa. A segunda morte aconteceu anos mais tarde, quando Ana se jogou sobre os trilhos em uma esta\u00e7\u00e3o de Moscou. De um lado, o perecimento social, que assumiu ares de morte civil. Do outro, a efetiva destrui\u00e7\u00e3o corp\u00f3rea. Na trag\u00e9dia russa, o objeto de amor \u00e9 o conde Alexei Vronski, jovem oficial da cavalaria, em rela\u00e7\u00e3o a quem Ana desenvolve, no decorrer da narrativa, os mais ambivalentes sentimentos: paix\u00e3o irrefletida, culpa, ci\u00fame e \u00f3dio delirantes que culminam no desejo de vingan\u00e7a.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 aleat\u00f3rio o recurso a um \u00edcone da literatura para tratar do tema da trag\u00e9dia em torno da satisfa\u00e7\u00e3o do gozo mort\u00edfero. A alta sociedade russa pr\u00e9-revolu\u00e7\u00e3o, de certo modo como a brasileira contempor\u00e2nea, prescrevia um sistema r\u00edgido de normas morais inerentes aos arranjos familiares tidos como convenientes. E a personagem central, manancial de ambiguidades e contradi\u00e7\u00f5es, n\u00e3o encontrou conforto ou seguran\u00e7a, seja adequando-se \u00e0s leis sociais, seja obedecendo aos seus desejos.<\/p>\n<p>Ana Karenina \u00e9 uma subversiva que, regida pela puls\u00e3o de morte, transcende a fic\u00e7\u00e3o. E sua vida e mortes interessam \u00e0 psican\u00e1lise. Afinal de contas, qual \u00e9 a leitura poss\u00edvel do mal-estar e da desintegra\u00e7\u00e3o ps\u00edquica experimentada pela personagem de Tolst\u00f3i? O que a levou ao cometimento do que consideramos duplo suic\u00eddio? Como a realiza\u00e7\u00e3o de um desejo de amor transformou-se em ato de vingan\u00e7a? Vingan\u00e7a contra quem? E por qu\u00ea? Tentaremos apontar respostas ao longo deste trabalho.<\/p>\n<p><em>A aristocrata transgressora<\/em><\/p>\n<p>Ana Karenina pertencia \u00e0 alta sociedade de S\u00e3o Petersburgo, \u00e2mbito restrito de rela\u00e7\u00f5es sociais estabelecidas entre funcion\u00e1rios p\u00fablicos, intelectuais e aristocratas propriamente ditos, a \u201csociedade dos bailes, dos banquetes e dos vestidos elegantes\u201d. Enquanto p\u00f4de, transitou com naturalidade nesse universo, fazendo bom uso do que Freud chamou de \u201cautossufici\u00eancia\u201d da mulher bela (FREUD, 1914, p. 34). A beleza era apenas um de seus atributos narc\u00edsicos: o que causava fasc\u00ednio era a combina\u00e7\u00e3o de gra\u00e7a, intelig\u00eancia e desenvoltura. Sua personalidade misteriosa dava-lhe um ar quase inacess\u00edvel \u00e0s outras mulheres. Quando entrava em um sal\u00e3o, \u201co que vestia passava despercebido\u201d. Ana era uma sedutora. Que tirava proveito dessa condi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Revelava-se no seu \u00edntimo, todavia, profunda insatisfa\u00e7\u00e3o com a realidade. Al\u00e9m de considerar falsos aqueles \u00e0 sua volta, mantinha um relacionamento frio, protocolar com o marido, fruto de um casamento de conveni\u00eancia. E pelo filho nutria sentimento amb\u00edguo: o prazer \u201cquase f\u00edsico ao senti-lo junto de si\u201d n\u00e3o inibia o mesmo descontentamento que experimentava quando estava ao lado do marido.<\/p>\n<p>Nesse contexto de frustra\u00e7\u00e3o generalizada, Ana conheceu o militar Alexei Vronski, a quem seduziu e por quem se deixou seduzir publicamente, antecipando o esc\u00e2ndalo iminente. O amor clandestino, levado \u00e0s vias de fato, sedimentou o gozo da transgress\u00e3o, sempre perpassado por culpa, vergonha e alegria. Em sonho, Ana fantasiava Karenin e Vronski como seus maridos a lhe acariciar, num estado de j\u00fabilo. Despertava esmagada pela ang\u00fastia, no encontro com o real. Convicta da sinceridade de Vronski, Ana optou pela ruptura, ciente de que abandonar o marido, escravo da opini\u00e3o p\u00fablica, implicaria perder tudo: a honra e o contato com o filho. Colocou-se, como disse Lacan, \u201c\u00e0 prova de um destino sem rosto, como um risco do qual o sujeito, tendo-se safado, encontra-se depois como que garantido em sua pot\u00eancia\u201d (LACAN, 1959-1960, p. 234). Paradoxalmente, o ato de coragem marcou a mudan\u00e7a do seu comportamento em rela\u00e7\u00e3o ao amante. Antes terna e servil, passou a dar sinais de ci\u00fame e beliger\u00e2ncia. Compreendeu que pagaria sozinha, como criminosa, o pre\u00e7o da aventura. Come\u00e7ou ent\u00e3o a sonhar com a pr\u00f3pria morte, certa da sua proximidade.<\/p>\n<p>Durante o autoex\u00edlio do casal na It\u00e1lia, Ana experimentou uma ilus\u00e3o fugaz de felicidade, facilitada pela busca in\u00fatil de Vronski pela satisfa\u00e7\u00e3o dos seus desejos. O t\u00e9dio logo os reconduziu \u00e0 R\u00fassia e Ana Karenina tornou-se ainda mais \u201cfria, irrit\u00e1vel e herm\u00e9tica\u201d. Injustificadamente, colocou em xeque o amor que recebia e passou a interpretar os menores atos para confirmar a suposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A parte final da obra descreve Ana em Moscou completamente absorvida pelo del\u00edrio de abandono. Refrat\u00e1ria a qualquer pondera\u00e7\u00e3o do amante, acirrou a postura persecut\u00f3ria, alheia \u00e0 realidade. Essa compuls\u00e3o fez com que as tentativas de pacifica\u00e7\u00e3o gerassem efeito oposto. Fez tamb\u00e9m com que sua morte se revelasse como \u00fanica alternativa para se vingar de Vronski e, simultaneamente, obter seu amor. Por derradeiro, quando ele vai \u00e0 casa da m\u00e3e para cumprir uma formalidade, ela, certa de que Vronski teria ido ao encontro de outra mulher, perde o controle dos seus atos e dirige-se \u00e0s cegas para a esta\u00e7\u00e3o, \u201cesquecida por completo aonde ia e porque raz\u00e3o\u201d. Antes de se atirar sobre o trilho, pensou: \u201cCastig\u00e1-lo-ei e livrar-me-ei de tudo e de mim mesma\u201d.<\/p>\n<p><em>O gozo do horror<\/em><\/p>\n<p>Ana Karenina \u00e9 introduzida no romance como Eros e T\u00e2natos fundidos em uma s\u00f3 pessoa. Ao mesmo tempo em que se apresenta em seu esplendor de mulher autossuficiente, agregadora, dela emerge forte est\u00edmulo destrutivo, provisoriamente recalcado. Nos cap\u00edtulos iniciais, ao desembarcar na esta\u00e7\u00e3o de trem de Moscou, para onde fora com o intuito de pacificar a rela\u00e7\u00e3o conjugal do irm\u00e3o, Ana se defrontou com a cena de um homem morto ap\u00f3s cair nos trilhos. Sob forte emo\u00e7\u00e3o, afirmou: \u201c\u00c9 mau press\u00e1gio\u201d. Pouco tempo depois, usou seus encantos para arruinar, com indisfar\u00e7\u00e1vel satisfa\u00e7\u00e3o, o noivado de Vronski. Aparentemente Tolst\u00f3i construiu sua personagem mais c\u00e9lebre a partir da ambival\u00eancia amor-\u00f3dio que ele pr\u00f3prio experimentou a certa altura da vida. Em\u00a0<em>Uma confiss\u00e3o<\/em>, autobiografia escrita ap\u00f3s finalizar\u00a0<em>Ana Karenina<\/em>, ele comenta:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cA for\u00e7a que me atra\u00eda para longe da vida era mais poderosa, mais completa do que uma vontade comum. Era uma for\u00e7a parecida com a antiga aspira\u00e7\u00e3o de vida, s\u00f3 que voltada no sentido contr\u00e1rio. (&#8230;) A ideia de suic\u00eddio me veio de maneira t\u00e3o natural quanto, antes, me vinham os pensamentos sobre o aperfei\u00e7oamento da vida\u201d (TOLST\u00d3I, 2017, p. 36).<\/p>\n<p>Tenha ou n\u00e3o car\u00e1ter autobiogr\u00e1fico, o romance retrata situa\u00e7\u00f5es vivenciadas pela protagonista que permitem a articula\u00e7\u00e3o de dois temas: a puls\u00e3o de morte e o gozo da transgress\u00e3o. Sobre a primeira, Freud apontou, em\u00a0<em>Al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer<\/em>, um elemento nuclear das puls\u00f5es, definido como\u00a0<em>compuls\u00e3o \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o<\/em>, recurso ps\u00edquico origin\u00e1rio e elementar que \u201crevelaria a efic\u00e1cia de uma puls\u00e3o de morte, cujo livre curso em dire\u00e7\u00e3o ao seu alvo encontra a barreira das puls\u00f5es sexuais e das puls\u00f5es do ego, reunidas e rebatizadas de puls\u00f5es de vida\u201d (SANTOS, 1991). Associada \u00e0 ideia de destrui\u00e7\u00e3o\/agress\u00e3o, a puls\u00e3o de morte freudiana constitui mecanismo biol\u00f3gico original (e necess\u00e1rio) do ser vivo \u2014 alheio \u00e0 dicotomia prazer\/desprazer \u2014 destinado a assegurar um regresso ao estado inanimado. \u201cA meta de toda vida \u00e9 a morte\u201d (FREUD, 1920, p. 137). \u00c9 o que se constata, por exemplo, no masoquismo, constitu\u00eddo pela revers\u00e3o da puls\u00e3o s\u00e1dica contra o pr\u00f3prio eu, admitindo-se o sadismo como pervers\u00e3o precedente (FREUD, 1914, p. 65).<\/p>\n<p>A trajet\u00f3ria de Ana Karenina \u00e9 definida por um gozo mort\u00edfero, fruto da reitera\u00e7\u00e3o de atos e pensamentos de autoagress\u00e3o, sobre os quais ela n\u00e3o exerce controle e que t\u00e3o somente fazem recrudescer seu sofrimento: autocoloca\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00f5es de expia\u00e7\u00e3o p\u00fablica e de humilha\u00e7\u00e3o perante o marido, atitudes persecut\u00f3rias direcionadas ao amante e sonhos traum\u00e1ticos. E \u00e9 justamente desse movimento repetitivo que ela retirava sua\u00a0<em>satisfa\u00e7\u00e3o paradoxal<\/em>, eis que sempre permaneceu latente o \u201csincero desejo de sofrer\u201d. S\u00f3 a imin\u00eancia do desastre lhe apaziguava.<\/p>\n<p>A literatura est\u00e1 a ilustrar um caso espec\u00edfico em que a compuls\u00e3o \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o desempenha papel dominante no processo de destrui\u00e7\u00e3o pessoal<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/duas-mortes-ana-karenina#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a>. Seria poss\u00edvel, ent\u00e3o, inferir que a puls\u00e3o greg\u00e1rio-conservativa (de vida) constitui elemento acidental da puls\u00e3o por excel\u00eancia, que \u00e9 a puls\u00e3o de morte? Lacan, no Semin\u00e1rio 11, sustenta a distin\u00e7\u00e3o entre puls\u00e3o de vida e puls\u00e3o de morte, por\u00e9m, n\u00e3o como esp\u00e9cies diversas do g\u00eanero puls\u00e3o, nos moldes do dualismo proposto por Freud, mas como\u00a0<em>dois aspectos<\/em>\u00a0desta\u00a0<em>konstante Kraft<\/em>\u00a0cujo destino \u00e9 contornar o objeto\u00a0<em>a<\/em>. Isso, ele pondera, desde que se possa<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201c(&#8230;) conceber que todas as puls\u00f5es sexuais se articulam no n\u00edvel das significa\u00e7\u00f5es no inconsciente, na medida em que, o que elas fazem surgir, \u00e9 a morte \u2014 a morte como significante, e, nada mais que como significante, pois ser\u00e1 que se pode dizer que h\u00e1 um ser-para-a-morte? Em que condi\u00e7\u00f5es, em que determinismo, a morte, significante, pode ela brotar toda armada na cura? \u00c9 o que s\u00f3 pode ser compreendido por nossa maneira de articular as rela\u00e7\u00f5es\u201d (LACAN, 1964, p. 249).<\/p>\n<p>\u00c9ric Guillot prop\u00f5e que em \u201cOs quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise\u201d h\u00e1 um \u201cnovo giro\u201d na abordagem da puls\u00e3o. Quando Lacan recorre ao simb\u00f3lico, \u201c\u00e9 a dimens\u00e3o significante da puls\u00e3o de morte que se adianta, e quando recorre ao registro do real para dar conta da libido freudiana, \u00e9 o gozo que \u00e9 considerado como indo no sentido da morte\u201d (GUILLOT, 2014). \u201cGozo\u201d torna-se nome lacaniano da puls\u00e3o de morte freudiana.<\/p>\n<p>Lembra-se, a partir das li\u00e7\u00f5es de Miller (2012), que, no Semin\u00e1rio 7, diferentemente do que foi elaborado no semin\u00e1rio sobre \u201cOs quatro conceitos&#8230;\u201d, \u201ctemos o gozo conectado ao horror e \u00e9 preciso passar pelo sadismo para compreender alguma coisa disso\u201d. Verifica-se nessa fase do ensino lacaniano que, \u201cQuando se est\u00e1 no lugar do gozo, algo da ordem de uma terr\u00edvel fragmenta\u00e7\u00e3o corporal se produz \u2014 e n\u00e3o basta, a Lacan, somente uma morte para dar conta disso: ele acrescenta uma segunda morte\u201d (MILLER, 2012). Alude-se \u00e0 trag\u00e9dia de Ant\u00edgona, que guarda semelhan\u00e7a com a de Ana Karenina. Em ambas, cai o semblante de bondade caracter\u00edstico das personagens, emergindo a crueldade. Isso em paralelo com a total indiferen\u00e7a ante as \u201cleis da cidade\u201d e o destino sacrificial reservado aos criminosos.<\/p>\n<p>\u00c9 justamente pelo paradigma do gozo como \u201ctransgress\u00e3o heroica\u201d, estabelecido em \u201cA \u00e9tica da psican\u00e1lise\u201d, que trabalhamos o percurso da personagem de Tolst\u00f3i. Ana Karenina n\u00e3o se identifica com o c\u00edrculo aristocr\u00e1tico ao qual pertence. Enxerga-se acima dos protocolos de falsidade que lhe envolvem. Reivindica o reconhecimento do Outro (opondo-lhe viol\u00eancia) pelo exerc\u00edcio de autonomia para, na condi\u00e7\u00e3o de mulher casada, vincular-se a um homem pela via do amor. Ent\u00e3o, despida do sentimento de igualdade ou altru\u00edsmo, goza tripudiando da moralidade hip\u00f3crita imposta pela alta sociedade. N\u00e3o se opera na sua consci\u00eancia o que Lacan denominou \u201clei de igualdade\u201d, freio para submiss\u00e3o \u00e0 vontade geral (inibindo o ato transgressor). Ao contr\u00e1rio. Seu prazer adv\u00e9m da agressividade incontrol\u00e1vel, cuja consequ\u00eancia \u00e9 a solid\u00e3o e a destrui\u00e7\u00e3o pessoal. O processo da pervers\u00e3o se consolida com a passagem do sadismo ao masoquismo, retornando o \u00f3dio ao ponto de origem.<\/p>\n<p><em>Da substitui\u00e7\u00e3o da realidade ao suic\u00eddio<\/em><\/p>\n<p>A ideia de suic\u00eddio tornou-se consciente para Ana Karenina quando a d\u00favida sobre o afeto de Vronski se fez acompanhar da fantasia de abandono. Ela n\u00e3o se limitou, nessa altura, a negar a realidade. Ana substituiu a realidade para sustentar o gozo de automart\u00edrio (\u201cNo seu ci\u00fame cego, via em todas as mulheres a rival\u201d). Um quadro ps\u00edquico delirante compat\u00edvel tanto com a neurose quanto com a psicose (FREUD, 1924, p. 221). O ci\u00fame projetado constitui mecanismo neur\u00f3tico atrav\u00e9s do qual a pessoa infiel reconhece a infidelidade do amante em lugar da sua pr\u00f3pria, mantendo-a recalcada, de maneira a aplacar a recrimina\u00e7\u00e3o (FREUD, 1922, p. 194).<\/p>\n<p>O ci\u00fame n\u00e3o parece, todavia, ser o ponto chave para compreender o percurso da personagem ao autoexterm\u00ednio, mas sim seu estado melanc\u00f3lico, rea\u00e7\u00e3o \u00e0 perda imagin\u00e1ria do objeto de amor. Em \u201cLuto e melancolia\u201d, texto fundamental sobre o tema, Freud define melancolia (ou \u201cdel\u00edrio de pequenez\u201d) como abatimento doloroso acompanhado de \u201cdiminui\u00e7\u00e3o de autoestima, que se expressa em recrimina\u00e7\u00f5es e ofensas \u00e0 pr\u00f3pria pessoa e pode chegar a uma delirante expectativa de puni\u00e7\u00e3o\u201d (FREUD, 1915-1917, p. 173). Na tese de doutorado\u00a0<em>A dor moral da melancolia<\/em>, Maria da F\u00e1tima Ferreira, ao abordar caso cl\u00ednico envolvendo uma melanc\u00f3lica, percebe o predom\u00ednio de uma \u201cculpa maci\u00e7a\u201d e de um \u201cexcesso desafiante\u201d. E, exatamente como em Ana Karenina, as aventuras \u201cs\u00f3 serviam para agravar seu desespero e seu sentimento de humilha\u00e7\u00e3o\u201d (FERREIRA, 2014, p. 196).<\/p>\n<p>Quest\u00e3o que surge \u00e9 como esse quadro de empobrecimento do Eu pode se conciliar com a ideia de vingan\u00e7a, bem expresso no pensamento de Ana em rela\u00e7\u00e3o a Vronski: \u201cTudo acabar\u00e1 com a minha morte. E, quando eu estiver morta, ele h\u00e1 de arrepender-se da sua conduta, h\u00e1 de chorar por mim, amar-me-\u00e1\u201d. Freud observa que, na melancolia,<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cos doentes habitualmente conseguem, atrav\u00e9s do rodeio da autopuni\u00e7\u00e3o, vingar-se dos objetos originais e torturar seus amores por interm\u00e9dio da doen\u00e7a, depois de se entregarem a ela para n\u00e3o ter de lhes mostrar diretamente sua hostilidade. (&#8230;) Assim, o investimento amoroso do melanc\u00f3lico em seu objeto experimentou um duplo destino: parte dele regrediu \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o, mas a outra parte, sob a influ\u00eancia do conflito da ambival\u00eancia, foi remetida de volta ao est\u00e1gio do sadismo, mais pr\u00f3ximo desse conflito. Apenas esse sadismo nos resolve o enigma da inclina\u00e7\u00e3o ao suic\u00eddio, que torna a melancolia t\u00e3o interessante \u2014 e t\u00e3o perigosa\u201d (FREUD, 1915-1917, p. 184).<\/p>\n<p>O que se percebe ao final de\u00a0<em>Ana Karenina\u00a0<\/em>\u00e9 o\u00a0<em>acting out\u00a0<\/em>da protagonista, ato que, segundo J\u00e9sus Santiago, surge para tamponar a incapacidade do sujeito de falar ou simbolizar algo (<em>apud<\/em>\u00a0CAMPOLINA, 2020, p. 126). Um apelo, sob a forma de cena p\u00fablica, dirigido n\u00e3o apenas ao amante, mas principalmente \u00e0 alta sociedade russa, modeladora da lei e da cultura, em cujos par\u00e2metros a hero\u00edna transgressora optou por n\u00e3o se inserir. Uma demanda de amor que, ao fim e ao cabo, se revelou in\u00fatil, porque todo o amor poss\u00edvel j\u00e1 lhe havia sido dado. O \u201cganho secund\u00e1rio\u201d do suic\u00eddio hist\u00e9rico (vingan\u00e7a) culminou no aniquilamento do objeto de amor, impotente diante de uma for\u00e7a destrutiva que nunca conseguiu compreender. Ana, tal como na trag\u00e9dia de S\u00f3focles, passou ao imagin\u00e1rio popular na condi\u00e7\u00e3o de signo eterno.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>CAMPOLINA, A. \u201cO ato, o\u00a0<em>acting out<\/em>, a passagem ao ato\u201d. In: GRECO, M.; CARVALHO, D. e REGGIANI, N. (Orgs.)\u00a0<strong>Ponto final?<\/strong>\u00a0Indaga\u00e7\u00f5es em torno da quest\u00e3o do suic\u00eddio. Belo Horizonte: Associa\u00e7\u00e3o Imagem Comunit\u00e1ria, 2020.<\/h6>\n<h6>FERREIRA, M. F.\u00a0<strong>A dor moral da melancolia<\/strong>. Belo Horizonte: Scriptum, 2014.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1914)\u00a0<strong>Introdu\u00e7\u00e3o ao narcisismo<\/strong><em>.\u00a0<\/em>v. XII. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2010.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1917[1915])\u00a0<strong>Luto e melancolia<\/strong><strong><em>.<\/em><\/strong>\u00a0v. XII. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2010.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1920)\u00a0<strong>Al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer<\/strong>. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2020.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1922)\u00a0<strong>Sobre alguns mecanismos neur\u00f3ticos no ci\u00fame, na paranoia e na homossexualidade<\/strong><em>.\u00a0<\/em>Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2016.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1924)\u00a0<strong>A perda da realidade na neurose e na psicose<\/strong><em>.\u00a0<\/em>v. XVI. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2011.<\/h6>\n<h6>GUILLOT, E. \u201cDa agressividade \u00e0 puls\u00e3o de morte\u201d.\u00a0<strong>Almanaque on-line\u00a0<\/strong>\u2013 Revista Eletr\u00f4nica do IPSM. N. 14. 2014.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1959-1960)\u00a0<strong>O Semin\u00e1rio, livro 7<\/strong>: a \u00e9tica da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1964)\u00a0<strong>O Semin\u00e1rio, livro 11:<\/strong>\u00a0os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. \u201cOs seis paradigmas do gozo\u201d.\u00a0<strong>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana online<\/strong>. Ano 3, n. 7, mar. 2012.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/2382878203911516\">SANTOS,<\/a>\u00a0T. C. \u201cA puls\u00e3o \u00e9 puls\u00e3o de morte?\u201d.\u00a0<strong>Tempo Psicanal\u00edtico<\/strong>. Rio de janeiro, v. 25, p. 69-83, 1991.<\/h6>\n<h6>T\u00d3LSTOI, L. N.\u00a0<strong>Ana Karenina<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, 1982.<\/h6>\n<h6>TOLST\u00d3I, L. N.\u00a0<strong>Uma confiss\u00e3o<\/strong><em>.<\/em>\u00a0S\u00e3o Paulo: Mundo crist\u00e3o, 2017.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/duas-mortes-ana-karenina#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a>\u00a0\u201cDizer que toda \u2018puls\u00e3o parcial \u00e9 por natureza puls\u00e3o de morte\u2019 n\u00e3o quer dizer, certamente, que toda puls\u00e3o vai at\u00e9 a morte.\u201d (GUILLOT, 2014).<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CIRILO AUGUSTO VARGAS Defensor p\u00fablico, mestre em Direito pela UFMG e aluno do Curso de Psican\u00e1lise do IPSM-MG. cirilo.vargas@gmail.com Resumo:\u00a0A partir do cl\u00e1ssico\u00a0Ana Karenina, romance atemporal publicado por Liev Tolst\u00f3i em 1877, o artigo aborda o tema da puls\u00e3o de morte em seu entrela\u00e7amento com o gozo mort\u00edfero e o suic\u00eddio. Freud, ele pr\u00f3prio um&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57851,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[24],"tags":[],"class_list":["post-1806","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-28","category-24","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1806","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1806"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1806\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57852,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1806\/revisions\/57852"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57851"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1806"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1806"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1806"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}