{"id":181,"date":"2023-08-15T19:24:18","date_gmt":"2023-08-15T22:24:18","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=181"},"modified":"2025-12-01T12:43:45","modified_gmt":"2025-12-01T15:43:45","slug":"a-neurose-obsessiva-ao-redor-do-cheiro-do-ralo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2023\/08\/15\/a-neurose-obsessiva-ao-redor-do-cheiro-do-ralo\/","title":{"rendered":"A neurose obsessiva ao redor do cheiro do ralo"},"content":{"rendered":"<h6><strong>Paulo Henrique Assun\u00e7\u00e3o Rocha<br \/>\n<\/strong>Formado em Filosofia (UFMG) e em Teatro (CEFART\/Pal\u00e1cio das Artes)<br \/>\nAluno do Curso de Forma\u00e7\u00e3o em Psican\u00e1lise do IPSM-MG<br \/>\n<span id=\"cloakaf1817462dcfa0db86a352cc3f36f91a\"><a href=\"mailto:paulohassuncao@gmail.com\">paulohassuncao@gmail.com<\/a><\/span><\/h6>\n<blockquote><p><strong>Resumo:\u00a0<\/strong>No romance\u00a0<em>O Cheiro do Ralo<\/em>, de Louren\u00e7o Mutarelli, um homem sem nome, dono de uma loja de penhores, passa a ser assombrado pelo cheiro f\u00e9tido que sai do ralo do banheiro do seu trabalho, ao mesmo tempo em que fica obcecado pelas n\u00e1degas da atendente da lanchonete que frequenta diariamente. \u00c9 ao redor dessa trama que abordaremos aspectos significativos da neurose obsessiva, como sua posi\u00e7\u00e3o em d\u00edvida em rela\u00e7\u00e3o ao pai, os objetos em s\u00e9rie, a rela\u00e7\u00e3o entre o objeto anal e o olhar, a repeti\u00e7\u00e3o, a posterga\u00e7\u00e3o e o deslizamento meton\u00edmico dos pensamentos compulsivos.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Palavras-chave:\u00a0<\/strong>O Cheiro do Ralo; literatura; psican\u00e1lise; neurose obsessiva.<\/p>\n<p><strong>THE OBSESSIONAL NEUROSIS SURROUNDING THE SMELL OF THE DRAIN<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Abstract:<\/strong>\u00a0In the novel\u00a0<em>O Cheiro do Ralo<\/em>\u00a0(in literal translation: \u201cThe Smell of the Drain\u201d), written by Louren\u00e7o Mutarelli, a nameless man, owner of a pawn shop, starts to become haunted by the fetid smell that escapes the bathroom\u2019s drain at his shop, while also becoming obsessed with a lady\u2019s ass, a lady who works in the cafeteria he attends daily. It is from this plot that we intend to approach significant aspects of the obsessional neurosis, such as its debt position towards the father, the serial objects, the relationship between the gaze and the anal object, the repetition, as well as the postponement and the metonymic slide of compulsive thoughts.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Keywords:<\/strong>\u00a0O Cheiro do Ralo; literature; psychoanalysis; obsessional neurosis.<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_182\" style=\"width: 520px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/a_neurose_obsessiva.png\" data-dt-img-description=\"Imagem: Renata Laguardia\" data-large_image_width=\"510\" data-large_image_height=\"340\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-182\" class=\"size-full wp-image-182\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/a_neurose_obsessiva.png\" alt=\"\" width=\"510\" height=\"340\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/a_neurose_obsessiva.png 510w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/a_neurose_obsessiva-300x200.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 510px) 100vw, 510px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-182\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Renata Laguardia<\/p><\/div>\n<p>\u00c9 not\u00f3rio o campo aberto por Freud na aproxima\u00e7\u00e3o entre literatura e psican\u00e1lise, no interior da qual uma das suas perspectivas mais importantes se d\u00e1 pela possibilidade de que o texto liter\u00e1rio possa nutrir o campo psicanal\u00edtico. Lacan tamb\u00e9m constantemente utilizou-se de obras liter\u00e1rias e art\u00edsticas para, segundo ele, \u201ctomar a li\u00e7\u00e3o\u201d (LACAN, 1973-74, aula de 09\/04\/1974, tradu\u00e7\u00e3o nossa, s\/p).<\/p>\n<p>O romance\u00a0<em>O Cheiro do Ralo<\/em>, de Louren\u00e7o Mutarelli, parece assim ser uma obra instigante para examinar a quest\u00e3o da neurose obsessiva, como a posi\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao pai, os objetos em s\u00e9rie, a rela\u00e7\u00e3o entre o objeto anal e o olhar, a repeti\u00e7\u00e3o cerimonial, o deslizamento meton\u00edmico dos pensamentos compulsivos e o desejo postergado.<\/p>\n<p>Narrado todo em primeira pessoa, o protagonista do livro de Mutarelli, que n\u00e3o tem seu nome invocado em nenhum momento do romance, \u00e9 dono de uma pequena loja de objetos usados. As pessoas que v\u00e3o at\u00e9 o seu empreendimento est\u00e3o sempre em condi\u00e7\u00f5es financeiras deplor\u00e1veis e de extrema necessidade, oferecendo muitas vezes mercadorias singelas, que o personagem principal faz quest\u00e3o n\u00e3o apenas de comprar pelo menor pre\u00e7o, mas tamb\u00e9m de insultar quem as vende. \u00c9 a partir do momento em que \u00e9 afetado pelo cheiro que sai do seu banheiro, da aquisi\u00e7\u00e3o de um olho de vidro vendido por um cliente e da obsess\u00e3o com as n\u00e1degas da atendente da lanchonete, que ele tem seu previs\u00edvel cotidiano perturbado. Esses tr\u00eas objetos \u2013 o ralo, o olho e a bunda \u2013 s\u00e3o os pontos em torno dos quais o protagonista gira por toda a trama e que buscaremos desdobrar em nossa an\u00e1lise.<\/p>\n<p>Grande parte do romance se passa no empreendimento do protagonista, para o qual diversos clientes se dirigem para penhorar uma s\u00e9rie de artefatos, que podem ser de um violino, livros e vinis raros a objetos valiosos, mas frequentemente s\u00e3o apetrechos sem nenhum valor. Mais do que ser um colecionador, o personagem central busca retirar, por meio dos \u201cobjetos\u201d, a dignidade de seus \u201cclientes\u201d, incitando uma posi\u00e7\u00e3o de d\u00favida e aviltamento, oferecendo mais dinheiro por coisas banais ou uma mis\u00e9ria por artefatos valiosos. Procura constantemente humilh\u00e1-los ao ouvir suas hist\u00f3rias de vida e da rela\u00e7\u00e3o deles com esses objetos que levam para vender, e assim tentar arrancar sempre mais atrav\u00e9s dessa negocia\u00e7\u00e3o um a um, procedimento que parece enaltecer seu narcisismo e buscar aniquila\u00e7\u00e3o desse outro.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Voce\u0302 nunca me deu nada.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Eu sempre paguei.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">E\u0301. Tudo o que eu tinha eu vendi para o senhor.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Eu pedi para voce\u0302 me vender?<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Na\u0303o. Pedir na\u0303o pediu.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Enta\u0303o por que vendeu?<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Porque eu precisava.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Na\u0303o. Vendeu porque quis.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Foi ou na\u0303o foi?<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Foi.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Enta\u0303o diga, eu vendi porque quis.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Eu vendi porque eu quis.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Muito bem. (MUTARELLI, 2011, p. 96)<\/p>\n<p>Nessa cole\u00e7\u00e3o de objetos e nas inj\u00farias do narrador, uma s\u00e9rie se forma e vai se deslocando, como aquilo que Lacan caracterizou como uma \u201cmeton\u00edmia permanente\u201d do sintoma obsessivo (LACAN, 1960-61\/2010). Romildo do R\u00eago Barros (2015, p. 46) definiu como, na neurose obsessiva, \u201co sujeito se organiza contra a significa\u00e7\u00e3o, tornando potencialmente infinito o deslizamento das conex\u00f5es\u201d. J\u00e1 n\u00e3o importa mais para o protagonista quais s\u00e3o as bugigangas vendidas, as hist\u00f3rias que as pessoas contam, as humilha\u00e7\u00f5es que provoca, tudo se torna apenas uma infinita e intermin\u00e1vel lista de coisas a serem adquiridas.<\/p>\n<p>No momento em que come\u00e7a a ter problemas com o cheiro horr\u00edvel que exala do ralo no banheiro do trabalho, algo que acontece j\u00e1 na primeira p\u00e1gina do romance, o protagonista tem sua falsa normalidade abalada. Desse inc\u00f4modo constante com o ralo e do receio do cheiro ser associado a ele (\u201cS\u00f3 n\u00e3o quero que eles pensem que o cheiro do ralo \u00e9 meu\u201d), algo em sua vida passa a falhar, a sair do rumo ordin\u00e1rio que tentou construir e manter.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Aqui cheira a merda.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">E\u0301 o ralo.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Na\u0303o. Na\u0303o e\u0301 na\u0303o.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Claro que e\u0301. O cheiro vem do ralo.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Ele entra e fecha a porta.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">O cheiro vem de voce\u0302.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Olha la\u0301. Levanto e caminho ate\u0301 o banheirinho.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Olha la\u0301, o cheiro vem do ralinho.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Ele ri co\u00e7ando a barba. Quem usa esse banheiro?<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Eu.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Quem mais?<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">So\u0301 eu.<\/p>\n<p>Ele continua com o sorriso no rosto, solta: E enta\u0303o, de onde vem o cheiro? (MUTARELLI, 2011, p. 16)<\/p>\n<p>\u00c9 Lacan quem magistralmente vai revelar sobre a \u201cevacua\u00e7\u00e3o da merda\u201d, afirmando que \u201co homem \u00e9 o \u00fanico animal para quem isso apresenta um problema, mas prodigioso&#8221; (LACAN, 1967-68\/2006, p. 74). Isso fica evidente para a neurose obsessiva, cuja rela\u00e7\u00e3o s\u00e1dico-anal \u00e9 apontada por Freud (1926\/1996) em<em>\u00a0Inibi\u00e7\u00f5es, sintomas e ansiedade<\/em>\u00a0como essencial para entender a escolha dessa neurose pelo sujeito. A regress\u00e3o da puls\u00e3o ocorre por meio de um conflito ps\u00edquico e da ambival\u00eancia, na qual as ideias contradit\u00f3rias sucedem-se e anulam-se. Al\u00e9m disso, se, no est\u00e1gio anal, a possibilidade de dar ou n\u00e3o algo ao Outro \u00e9 apenas uma possibilidade, para o obsessivo o imperativo de dar tudo ao Outro \u00e9 levado \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias. Se sentir \u201cum merda\u201d ganha equival\u00eancia com a merda com a qual o obsessivo metrifica o outro. Lacan afirma que o &#8220;tudo para o outro\u201d do obsessivo \u00e9 \u201ca perp\u00e9tua vertigem da destrui\u00e7\u00e3o do outro, ele nunca faz o bastante para que o outro se mantenha na exist\u00eancia&#8221; (LACAN, 1960-61\/2010, p. 255). Segundo Miller (1986, p. 140, tradu\u00e7\u00e3o nossa) em\u00a0<em>H\u00b2O<\/em>, h\u00e1 muito tempo os psicanalistas j\u00e1 haviam notado a afinidade do car\u00e1ter obsessivo com &#8220;a vertente do erotismo anal, o espirito da economia e at\u00e9 mesmo da avareza\u201d.<\/p>\n<p>Esse \u00edmpeto de destruir o Outro, ao mesmo tempo em que lhe d\u00e1 enorme consist\u00eancia, estabelece uma peculiar estrat\u00e9gia de rebaixamento dos seus pequenos outros. \u00c9 justamente essa a maneira como o protagonista de\u00a0<em>O Cheiro do Ralo\u00a0<\/em>lida com todos que o cercam, demonstrando uma incapacidade \u00edmpar para estabelecer v\u00ednculos afetivos. \u00c9 curioso que comece a se importar com os outros, seus semelhantes, somente na medida em que concebe incomod\u00e1-lo com o pr\u00f3prio cheiro. Talvez n\u00e3o estejamos t\u00e3o distantes de Lacan quando ele diz que &#8220;A civiliza\u00e7\u00e3o, lembrei l\u00e1 como premissa, \u00e9 o esgoto&#8221; (LACAN, 1971\/2003, p. 15). \u00c9 na sua n\u00e3o capacidade de acobertar o que tem de mais \u00edntimo, o que faz no \u00e2mbito privado (\u201co banheirinho\u201d), que nosso protagonista passa a se envergonhar com o olhar e a expectativa alheia: \u201cAcho que fiquei com vergonha de que ele pensasse que o cheiro vinha de mim\u201d (MUTARELLI, 2011, p. 9).<\/p>\n<p>O que se segue s\u00e3o in\u00fameras e desesperadas tentativas de tamponar o ralo, ele chega mesmo a retirar o vaso e concretar o buraco, tentando assim aniquilar o que lhe assombra. Sua rea\u00e7\u00e3o acaba por levar a um entupimento do cano do escrit\u00f3rio e a um aumento ainda maior do cheiro insuport\u00e1vel. A tentativa obsessiva de tamponar o furo acaba por entupi-lo com a pr\u00f3pria merda, a merda do seu ser, ou, como diz Lacan (1960-61\/2010), seu ser de merda.<\/p>\n<p>Refaz ent\u00e3o o buraco e passa a se deitar para aspirar o vapor que sai dele: \u201cRastejo ate\u0301 o banheirinho. Tiro a toalha do ralo. Cheiro, cheiro, cheiro&#8230;\u201d (MUTARELLI, 2011, p. 122). H\u00e1 claramente um gozo nisso, seu corpo goza com essa a\u00e7\u00e3o de agachar e inalar compulsivamente o vapor do ralo, algo proibido, excessivo e que deve ser feito apenas escondido, longe dos olhares de todos. \u00c9 nessa a\u00e7\u00e3o sem sentido, que faz envergonhado e solitariamente, que parece, enfim, se reconhecer:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Deitado de bruc\u0327os, inalo. Trago. Para ele o ralo sou eu. Observo, atento, o buraco. Nesta pose relembro o Narciso que Caravaggio pintou. So\u0301 que na\u0303o ha\u0301 o reflexo. So\u0301 ha\u0301 o escuro que sou. E isso e\u0301 tudo o que me resta para amar. (MUTARELLI, 2011, p. 176)<\/p>\n<p>Podemos notar tamb\u00e9m nas a\u00e7\u00f5es do protagonista de obstruir e reabrir o ralo que, mais que agir, o que ele faz \u00e9 um enorme esfor\u00e7o para desfazer o que foi feito, um contra-ato que mant\u00e9m tudo imut\u00e1vel. H\u00e1 nisso uma similaridade com o procedimento de anula\u00e7\u00e3o de um evento, denominado como \u201cm\u00e1gico\u201d por Freud (1926\/1996, p. 120):<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Na neurose obsessiva a t\u00e9cnica de desfazer o que foi feito \u00e9 encontrada pela primeira vez nos sintomas bif\u00e1sicos, nos quais uma a\u00e7\u00e3o \u00e9 cancelada por uma segunda, de modo que \u00e9 como se nenhuma a\u00e7\u00e3o tivesse ocorrido, ao passo que, na realidade, ambas ocorreram.<\/p>\n<p>O segundo ponto de inflex\u00e3o no romance se d\u00e1 quando um homem chega ao escrit\u00f3rio e oferece ao protagonista um olho de vidro. Ele fica fascinado e chega mesmo a estabelecer uma equival\u00eancia entre o olho e as n\u00e1degas t\u00e3o desejadas da funcion\u00e1ria da lanchonete: \u201cPego o olho. Analiso. E\u0301 incri\u0301vel. E\u0301 perfeito. Injetado. Quero o olho para mim. A bunda e o olho. Lembro daquela capa de disco. Acho que era do Tom Ze\u0301. A bunda e o olho.\u201d (MUTARELLI, 2011, p. 36). Por isso, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 capaz mais de negociar, pagando um alto pre\u00e7o pelo objeto desejado. O olho passa a ser um objeto que traz sempre no bolso, levando-o para ver a bunda da atendente, deixando-o em cima de sua mesa de trabalho, assistindo TV, conversando com ele. Passa a mostrar para os clientes e outras pessoas, dizendo: \u201cEra do meu pai\u201d (MUTARELLI, 2011, p. 37). O olho come\u00e7a a ver pelo narrador, a ser seu companheiro, sendo levado a todos os lugares em que ele vai e, cada vez que fala sobre ele, inventa e aumenta a hist\u00f3ria do olho paterno, dando enorme densidade a esse Outro. \u00c9 exatamente como na neurose obsessiva, cuja quest\u00e3o \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o com o objeto olhar, e n\u00e3o o pai. Miller (apud SIRIOT, 2020, s\/p), em seu ensino in\u00e9dito\u00a0<em>O Ser e o Um<\/em>, afirma: \u201cO real do sintoma obsessivo n\u00e3o \u00e9 o pai. O real que Lacan nos convida a atingir \u00e9 o olhar. O ideal e o pai s\u00e3o derivados do olhar\u201d. E, ainda sobre a fun\u00e7\u00e3o esc\u00f3pica, Cristiane Barreto (2017, s\/p) ressalta que:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">O neur\u00f3tico obsessivo, em d\u00edvida, sem o \u2018bolso\u2019 do psic\u00f3tico para carregar seus objetos seriados, faliciza-os e os carrega na fantasia, fixa-se onde a fantasia encontra satisfa\u00e7\u00e3o, ou, ao inv\u00e9s de fixar, poder-se-ia dizer, com Schejtman, que o sujeito adormece onde encontra satisfa\u00e7\u00e3o na fantasia. Esse mecanismo pode ser relacionado com o lugar que o esc\u00f3pico ocupa para o sujeito obsessivo, a pot\u00eancia (ilus\u00f3ria) atribu\u00edda ao lugar do Outro, dessa forma, o olhar ganha uma dimens\u00e3o de gozo proporcional \u00e0 consist\u00eancia atribu\u00edda ao Outro, que, permanece em sua censura perene.<\/p>\n<p>Adiante no romance, quando ao protagonista \u00e9 oferecida a pr\u00f3tese de uma perna, compra-a sem hesitar. Decide, ent\u00e3o, montar um pai:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Eu j\u00e1 tenho o olho. Agora que paguei, tenho a perna. Sei que, com o tempo, vou mont\u00e1-lo. Vou montar o meu pai. Meu pai Frankenstein. O pai que se foi. Se foi, antes que eu o tivesse. Foi, antes de eu nascer. Nem me viu. Nunca voltou. Foi. Ele so\u0301 saiu com minha ma\u0303e uma vez. Eu nem sei o seu nome. Nem sei se um nome ele tem. Ele nem sabe como eu sou. Ele nunca me viu. Eu so\u0301 o imaginei. A vida inteira. Eu mesmo lhe dei um nome. Eu mesmo o batizei. Eu mesmo cuidei de cria\u0301-lo. De cada detalhe, eu cuidei. Meu pai, fui eu que inventei. Ele nunca soube o que eu sinto. Na\u0303o soube o quanto o amei. Ele na\u0303o sabe que rezo todas as noites. Ele na\u0303o sabe. Ele na\u0303o sabe como e\u0301 minha cara. Nem sabe como ela foi. Na\u0303o sabe que eu fui crianc\u0327a. Na\u0303o sabe que a cicatriz do joelho foi da vez que eu cai\u0301. Ele na\u0303o sabe que existo. E que tenho a cara do Bombril. Ele meteu rapidinho em minha ma\u0303e, e se foi. Eu fiquei. Ele e\u0301 mais triste que eu. Talvez, ele na\u0303o tenha ningue\u0301m. Eu tenho ele. Meu pai Frankenstein. (MUTARELLI, 2011, p. 141)<\/p>\n<p>Desde Freud e o caso do Homem dos Ratos \u00e9 destacada a centralidade da quest\u00e3o paterna na neurose obsessiva. Gazzola (2002, p. 42), em seu coment\u00e1rio sobre o pai de Ernst Lanze, enfatiza que, nesse caso, \u201c\u00e9 um pai que n\u00e3o termina nunca de morrer\u201d, e que \u201cesse pai volta sempre, como um fantasma, para assombrar o sujeito, quando se trata de gozar\u201d. Em\u00a0<em>O Cheiro do Ralo\u00a0<\/em>acompanhamos, atrav\u00e9s do olho de vidro e da perna prot\u00e9tica, n\u00e3o a tentativa de criar um novo pai para se servir dele, mas um pai que \u201cimaginou\u201d e que, como o personagem, nem nome tem, nada sabe, nada transmitiu, \u00e9 apenas um esbo\u00e7o de pai advindo de objetos comprados.<\/p>\n<p>A bunda \u00e9 outro objeto em torno do qual o romance e o protagonista giram. O personagem se v\u00ea perdidamente apaixonado pelas n\u00e1degas da atendente da lanchonete que frequenta todos os dias. Com a desculpa de ir ver a bunda, passa a consumir todos os dias um hamb\u00farguer (X-Tudo), o que piora ainda mais seus problemas intestinais e consequentemente o cheiro ruim do ralo.<\/p>\n<p>Ao se deparar com a gar\u00e7onete, \u00e9 incapaz de compreender seu nome e reter seu rosto, n\u00e3o se interessa por nada mais al\u00e9m de sua bunda. Chega a nome\u00e1-la de Rosebud, em alus\u00e3o ao tren\u00f3, grande mist\u00e9rio de\u00a0<em>Cidad\u00e3o Kane<\/em>\u00a0de Orson Welles, e que guarda curiosa homofonia com o objeto desejado pelo protagonista. Suas investidas na gar\u00e7onete levam a uma obsess\u00e3o: sonha com a bunda, alucina, ensaia diversas maneiras de enfim possuir esse objeto. A gar\u00e7onete tamb\u00e9m est\u00e1 interessada, mas a inabilidade social do protagonista o leva sempre a adiar o encontro e, mais do que isso, sua obsess\u00e3o com a bunda destr\u00f3i a pr\u00f3pria possibilidade de que o encontro aconte\u00e7a, tornando-o imposs\u00edvel. No seu constante c\u00e1lculo dos objetos e das rela\u00e7\u00f5es, h\u00e1 o receio de que, fora das suas fantasias previs\u00edveis, essa satisfa\u00e7\u00e3o ir\u00e1 ser corrompida: \u201cMas, se eu for, estrago tudo. Depois vem as cobran\u00e7as. Eu sei. Mulher \u00e9 tudo igual. N\u00e3o adianta voc\u00ea ser sincero. Elas sempre querem mais. E a\u00ed logo mandam o convite pra gr\u00e1fica\u201d (MUTARELLI, 2011, p. 36). O personagem s\u00f3 \u00e9 capaz de imaginar a possibilidade de uma rela\u00e7\u00e3o mediada pela rela\u00e7\u00e3o mercantil: \u201cSe come\u00e7ar dessa forma, ela vir\u00e1 com as cobran\u00e7as. E eu prefiro pagar para ver\u201d. Como Lacan afirma no Semin\u00e1rio 6 (1958-59, aula de 10\/06\/1959, tradu\u00e7\u00e3o nossa, s\/p), para o neur\u00f3tico obsessivo trata-se de manter o desejo como institu\u00eddo na sua impossibilidade: \u201c\u00c9 sempre para amanh\u00e3 que o obsessivo reserva o engajamento de seu verdadeiro desejo\u201d.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s uma s\u00e9rie de desencontros, a garota da lanchonete consente em agir conforme a fantasia do narrador, aceita fazer como ele quer, ser paga para mostrar sua bunda. Ela vai ao seu trabalho e, diante dele, abaixa as cal\u00e7as e exibe a bunda. Ele caminha at\u00e9 ela e chora copiosamente agarrado \u00e0s n\u00e1degas.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">A bunda \u00e9, e sempre foi, o desejo, a busca de tentar alcan\u00e7ar o inating\u00edvel. Essa bunda era, enquanto imposs\u00edvel, enquanto alheia, o contraponto do ralo. Mas o que eu realmente buscava n\u00e3o estava ali. Tampouco em outro lugar. O que eu buscava era s\u00f3 a busca. Era s\u00f3 o buscar. E por isso agora j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 mais desejo, s\u00f3 cansa\u00e7o. S\u00f3 o vazio. S\u00f3 a certeza do incerto. Agora \u00e9 preciso encontrar algo novo, de prefer\u00eancia uma bunda nova, para acreditar. Uma nova bunda em que eu possa crer. Nessa bunda eu n\u00e3o creio mais. N\u00e3o que ela minta, ou tenha um dia mentido, para mim. N\u00e3o. O mentiroso sou eu. (MUTARELLI, 2011, p. 171)<\/p>\n<p>O objeto antes t\u00e3o precioso, ao ser confrontado degrada-se rapidamente e vira nada: \u201cE, assim, mais uma coisa a bunda se torna. Como tudo, como as coisas que tranco na sala ao lado\u201d (MUTARELLI, 2011, p. 173).<\/p>\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m aqui que se articula a quest\u00e3o entre os objetos olhar e anal, ou entre o ideal e a merda. O obsessivo reveste o objeto anal falicamente e tamb\u00e9m o encobre com o olhar. O \u201colhar envelopa a merda\u201d (BARRETO, 2017, s\/p), fazendo do objeto malcheiroso uma preciosidade, como o personagem faz com o ralo, o olho e a bunda. Mesmo assim, mesmo quando ele parecia ter tudo o que queria, n\u00e3o havia mais nada ali para ele desejar: \u201cBeijaria cada uma das coisas que eu julguei ter tido. Sinto que perco tudo. Tudo o que nunca foi meu. E enta\u0303o eu me perco em mim. Nesse mim que nunca foi eu\u201d (MUTARELLI, 2011, p. 179).<\/p>\n<p>O verdadeiro estatuto do desejo na neurose obsessiva, diz Lacan (1958-59, aula de 10\/06\/1959, tradu\u00e7\u00e3o nossa, s\/p), \u00e9 que \u201co obsessivo \u00e9 algu\u00e9m que nunca est\u00e1 verdadeiramente a\u00ed, no lugar onde est\u00e1 em jogo algo que poderia ser qualificado: \u2018seu desejo\u2019. Onde ele arrisca o lance, aparentemente, n\u00e3o \u00e9 a\u00ed que ele est\u00e1\u201d.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>BARRETO, C.\u00a0<em>A neurose obsessiva e o olhar<\/em>: quando olhar serve para n\u00e3o ver. 2017. (In\u00e9dito).<\/h6>\n<h6>BARROS, R. do R.\u00a0<em>Compuls\u00f5es e obsess\u00f5es<\/em>: uma neurose do futuro. Rio de Janeiro: Editora Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2015.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. Inibi\u00e7\u00f5es, Sintomas e Ansiedade. In:\u00a0<em>Edi\u00e7\u00e3o Standard das Obras Completas de Sigmund Freud<\/em>. Rio de Janeiro: Imago, Vol. XX, 1996. (Trabalho original publicado em 1926).<\/h6>\n<h6>GAZZOLLA, L. R.\u00a0<em>Estrat\u00e9gias na neurose obsessiva<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002.<\/h6>\n<h6>LACAN, J.\u00a0<em>Le S\u00e9minaire, livre 6<\/em>: Le d\u00e9sir et son interpr\u00e9tation. (Trabalho original proferido em 1958-59). (In\u00e9dito).<\/h6>\n<h6>LACAN, J.\u00a0<em>Le S\u00e9minaire, livre 21<\/em>: Les non-dupes errent. (Trabalho original proferido em 1973-74). (In\u00e9dito).<\/h6>\n<h6>LACAN, J. Lituraterra. In:\u00a0<em>Outros Escritos.\u00a0<\/em>Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. (Trabalho original publicado em 1971).<\/h6>\n<h6>LACAN, J.\u00a0<em>Meu ensino<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2006. (Trabalho original publicado em 1967-68).<\/h6>\n<h6>LACAN, J.\u00a0<em>O Semin\u00e1rio, livro 8<\/em>: A transfer\u00eancia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2010. (Trabalho original publicado em 1960-61).<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. H\u00b2O. In:\u00a0<em>Matemas II<\/em>. Buenos Aires: Manantial, 1986.<\/h6>\n<h6>MUTARELLI, L.\u00a0<em>O cheiro do ralo<\/em>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2011.<\/h6>\n<h6>SIRIOT, M. O gozo feminino: uma orienta\u00e7\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o ao real. In:\u00a0<em>XXIII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano: Boletim Infamiliar<\/em>. 2020. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.encontrobrasileiro2020.com.br\/\">www.encontrobrasileiro2020.com.br\/<\/a>\u00a0o-gozo-feminino-uma-orientacao-em-direcao-ao-real. Acesso em: 30 set. 2022.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Paulo Henrique Assun\u00e7\u00e3o Rocha Formado em Filosofia (UFMG) e em Teatro (CEFART\/Pal\u00e1cio das Artes) Aluno do Curso de Forma\u00e7\u00e3o em Psican\u00e1lise do IPSM-MG paulohassuncao@gmail.com Resumo:\u00a0No romance\u00a0O Cheiro do Ralo, de Louren\u00e7o Mutarelli, um homem sem nome, dono de uma loja de penhores, passa a ser assombrado pelo cheiro f\u00e9tido que sai do ralo do banheiro&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57765,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[],"class_list":["post-181","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-31","category-26","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/181","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=181"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/181\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57766,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/181\/revisions\/57766"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57765"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=181"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=181"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=181"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}