{"id":1811,"date":"2022-03-19T06:41:12","date_gmt":"2022-03-19T09:41:12","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1811"},"modified":"2025-12-01T13:14:39","modified_gmt":"2025-12-01T16:14:39","slug":"uma-dificuldade-a-mais-na-analise-de-uma-mulher","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2022\/03\/19\/uma-dificuldade-a-mais-na-analise-de-uma-mulher\/","title":{"rendered":"UMA DIFICULDADE A MAIS NA AN\u00c1LISE DE UMA MULHER?\u00a0"},"content":{"rendered":"<h6>LUCIANA EASTWOOD ROMAGNOLLI<br \/>\nPesquisadora independente de Linguagem, Arte e Psican\u00e1lise.<br \/>\nDoutora em Artes C\u00eanicas e aluna do Instituto de Psican\u00e1lise e Sa\u00fade Mental de Minas Gerais.<br \/>\n<a href=\"mailto:lucianaromagnolli@gmail.com\">lucianaromagnolli@gmail.com<\/a><\/h6>\n<blockquote><p>\n<strong>Resumo:\u00a0<\/strong>Com base no debate sobre a neurose obsessiva em mulheres, o artigo indaga se a estrat\u00e9gia obsessiva contra o gozo feminino n\u00e3o simboliz\u00e1vel apresenta, na cl\u00ednica contempor\u00e2nea, uma dificuldade a mais na an\u00e1lise de mulheres, considerando a realidade de devasta\u00e7\u00e3o na rela\u00e7\u00e3o m\u00e3e-filha, de quem esta esperaria uma consist\u00eancia imposs\u00edvel pela inexist\u00eancia do significante d\u2019A mulher. Na defesa obsessiva, a tentativa de fazer Um com o eu e a consequente fortifica\u00e7\u00e3o do corpo; a oblatividade que assegura a consist\u00eancia do Outro; o amor erot\u00f4mano; al\u00e9m do imperativo do supereu, aparecem como pontos poss\u00edveis de agravamento da estrat\u00e9gia neur\u00f3tica frente \u00e0 devasta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>P<strong>alavras chaves<\/strong>:\u00a0neurose obsessiva, devasta\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p><strong>ONE MORE DIFFICULTY IN WOMEN&#8217;S PSYCHOANALYSIS?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Abstract:<\/strong>\u00a0Based on the debate about women\u2019s obsessional neurosis, this essay questions if the obsessional defense against non-symbolizable female jouissance presents as one more difficulty in women\u2019s analysis in the contemporary clinic, considering the reality of the ravage in mother-daughter relationship, since daughters seems to expect from their mothers a kind of consistency that is impossible due to the non-existence of the significant of The woman. In the obsessional defense, the attempt to make One with the self and the consequent fortification of the body; the oblativity that ensures the consistency of the Other; the erotomanic love; and the imperative of the superego, appear as possible points of aggravation of the neurotic strategy in face of the ravage.<\/p>\n<p><strong>Keywords:\u00a0<\/strong>obsessional neurosis, ravage<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n<div id=\"attachment_1812\" style=\"width: 569px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/eis.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"559\" data-large_image_height=\"664\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1812\" class=\"wp-image-1812 size-full\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/eis.jpg\" alt=\"\" width=\"559\" height=\"664\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/eis.jpg 559w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/eis-253x300.jpg 253w\" sizes=\"auto, (max-width: 559px) 100vw, 559px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1812\" class=\"wp-caption-text\">UMA DIFICULDADE A MAIS NA AN\u00c1LISE DE UMA MULHER?\u00a0<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Desali. Eis que me descubro objeto do objeto de outros objetos<br \/>\nIndagar a incid\u00eancia da neurose obsessiva em mulheres abre a quest\u00e3o sobre a estrutura neur\u00f3tica e suas distintas estrat\u00e9gias de defesa frente \u00e0 inexist\u00eancia de significante d \u2018\u023a mulher, ao gozo Outro sem limites e ao real sem lei. A cl\u00ednica diferencial torna-se complexa quando se consideram os frequentes sintomas obsessivos em hist\u00e9ricas, em contraste com casos em que a estrat\u00e9gia obsessiva de destruir o desejo do Outro prevalece. Estabelecida a histeria como a estrutura nuclear do sujeito neur\u00f3tico, tal como proposto por Freud, a neurose obsessiva pode ser entendida como uma defesa a mais \u00e0 estrutura hist\u00e9rica, dobra que privilegia o eu em sua vertente de autoconsci\u00eancia.<\/p>\n<p>As defesas obsessivas comparecem na cl\u00ednica psicanal\u00edtica desde Freud \u00e0 atualidade, na forma exitosa do car\u00e1ter obsessivo ou na forma\u00e7\u00e3o de outros sintomas, tais como atos compulsivos (ALVARENGA, 2019). A coa\u00e7\u00e3o de pensamento \u00e9 o sintoma obsessivo por excel\u00eancia, tentativa de erguer uma barragem de significantes contra o enigma do desejo e o real da ang\u00fastia. A neurose obsessiva carrega a marca de um primeiro gozo experimentado como estrangeiro, que est\u00e1 no princ\u00edpio do sentimento de infamiliar (SOLANO, 2009). O pensamento faz-se sintoma para dominar o fora do sentido desse gozo. O sofrimento assume a forma de um conflito moral e de pensamentos perturbadores que se imp\u00f5em no mais \u00edntimo do sentimento de si e s\u00e3o experimentados como exteriores e intrusivos.<\/p>\n<p>A curiosidade da posi\u00e7\u00e3o obsessiva de querer saber sobre a rela\u00e7\u00e3o entre gozo e semblantes no casal parental desvela a fal\u00eancia do pai e o gozo sem limites da m\u00e3e (SOLANO, 2001). \u00c9 contra esse empuxo a ser aspirado pelo buraco de S(\u023a) que responde a estrat\u00e9gia de reduzir-se ao Um em uma empreitada f\u00e1lica que engaja corpo, imagem e pensamento. Ao privilegiar o eu, sujeito do significante, na tentativa de encobrir a divis\u00e3o subjetiva e fazer o Um imagin\u00e1rio do corpo, fortificado, recobre o objeto \u201ca\u201d causa de desejo com as vestimentas do Eu ideal i(a). E transforma o desejo do Outro em demanda do pequeno outro a ser eliminada e restitu\u00edda, repetidamente. A oblatividade torna-se modo de assegurar essa consist\u00eancia do Outro, \u201cao pre\u00e7o de conceb\u00ea-lo como invasor e mortificante (ALVARENGA, 2019, p. 94)\u201d. Ao degradar o falo simb\u00f3lico em imagin\u00e1rio, ataca o pr\u00f3prio desejo, que deve ser mantido a dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p><em>Obsessivas<\/em><\/p>\n<p>Na cl\u00ednica contempor\u00e2nea, L\u00eada Guimar\u00e3es constata \u201cmulheres estruturadas em suas neuroses atrav\u00e9s de fortes defesas obsessivas\u201d (GUIMAR\u00c3ES, 2015, p. 78).\u00a0 Elas se apresentam em posi\u00e7\u00e3o de objeto-dejeto da m\u00e3e. Os esfor\u00e7os para reduzir a pot\u00eancia do Outro materno absoluto frequentemente assumem o car\u00e1ter de atua\u00e7\u00e3o ou passagem ao ato, com consequente mortifica\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio corpo.<\/p>\n<p>A baixa operatividade do pai caracteriza estruturas \u201cmalformadas\u201d, deixando tais mulheres com recursos simb\u00f3licos escassos para localizar o desejo nas bordas do buraco da falta do Outro. \u201cO sujeito, preso nas defesas obsessivas, mant\u00e9m uma posi\u00e7\u00e3o f\u00f3bica central que lhe permite correr para longe desse buraco\u201d, apoiando-se na posi\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a como objeto \u201ca\u201d (GUIMAR\u00c3ES, 2015, p. 82). O Eu ideal i(a) e Ideal do eu I(A), sustentados na aliena\u00e7\u00e3o aos significantes mestres, envolvem o objeto para torn\u00e1-lo am\u00e1vel pelo Outro. O amor recobre a n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p>Esthela Solano observa que, \u201cse o sujeito obsessivo \u00e9 uma mulher, a estrat\u00e9gia f\u00e1lica prevalece igualmente\u201d, n\u00e3o por desejar ter o falo para bancar o homem, mas pelo dever de \u201cparamentar-se de falo\u201d para tamponar a falta no Outro, fazendo Um com ele (SOLANO, 2001, p. 35). L\u00eada Guimar\u00e3es (2015) localiza uma distin\u00e7\u00e3o na neurose obsessiva em homens e mulheres: eles contam com o desmentido da castra\u00e7\u00e3o pelo tra\u00e7o perverso do fetiche para fazer supl\u00eancia de prote\u00e7\u00e3o ao desejo do Outro. Em contraponto, elas t\u00eam recorrido \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de um\u00a0<em>script<\/em>\u00a0com estatuto de verdade nas parcerias amorosas, assumindo multitarefas para afirmar aptid\u00f5es f\u00e1licas. Asseguram a consist\u00eancia imagin\u00e1ria do pai e do Um corpo como anteparo ao singular do gozo inomin\u00e1vel que as lan\u00e7a ao real sem lei rebaixando o objeto, o que carrega o tra\u00e7o de pervers\u00e3o, dirigindo a destrui\u00e7\u00e3o \u00e0 onipot\u00eancia do Outro.<\/p>\n<p><em>A mancha<\/em><\/p>\n<p>No primeiro caso analisado na confer\u00eancia \u201cO sentido dos sintomas\u201d (1916-1917), Freud apresenta uma mulher cujos sintomas obsessivos s\u00e3o desencadeados tardiamente, encobrindo a impot\u00eancia sexual do marido. Ao repetidamente convocar o olhar da empregada para uma mancha em uma toalha de mesa, semelhante ao borr\u00e3o de tinta que o marido deixara no len\u00e7ol como prova do ato sexual n\u00e3o efetuado nas n\u00fapcias, o que essa mulher busca \u00e9 uma testemunha (pequeno outro) do seu ato de exibi\u00e7\u00e3o para fazer o Outro subsistir. O semblante da mancha tapa o furo, mantendo a dist\u00e2ncia do seu desejo e a consist\u00eancia da sua imagem.<\/p>\n<p>Esse sintoma compulsivo responde \u00e0 predomin\u00e2ncia da fun\u00e7\u00e3o esc\u00f3pica na neurose obsessiva, em seu car\u00e1ter oblativo de dar a ver uma imagem de si para ser amada, que aponta para o modo de amor erot\u00f4mano (ALVARENGA, 2018. p. 45). A consci\u00eancia esc\u00f3pica estabiliza a armadura obsessiva do Um corpo imagin\u00e1rio, sustentando-a em um ideal de onivid\u00eancia que a mant\u00e9m autoconsciente, fora da cena e c\u00famplice daquela que a observa. Oferece a imagem f\u00e1lica para tampar a divis\u00e3o subjetiva do Outro e em si, em defesa contra a resson\u00e2ncia do significante no corpo.<\/p>\n<p>Sem a amarra f\u00e1lica, a mulher da mancha confronta-se ao -\u2203x -\u03a6x, \u201cpor onde o simb\u00f3lico, por seu poder de nega\u00e7\u00e3o, se conjuga \u00e0 morte\u201d (ALVARENGA, 2018, p.38). O sintoma vem restituir a fun\u00e7\u00e3o f\u00e1lica. Elisa Alvarenga ent\u00e3o questiona: \u201cSem o apoio f\u00e1lico encontrado no objeto de amor, haveria um risco de aspira\u00e7\u00e3o pelo furo do Outro, resultando na devasta\u00e7\u00e3o ou melancoliza\u00e7\u00e3o do sujeito?\u201d (ALVARENGA, 2019, p. 39). Eis a emerg\u00eancia da pergunta sobre a devasta\u00e7\u00e3o quando a defesa obsessiva falha em uma mulher.<\/p>\n<p><em>Inexist\u00eancia<\/em><\/p>\n<p>A fantasia erot\u00f4mana da demanda infinita dirigida ao Outro, que pode retornar como devasta\u00e7\u00e3o, faz-se estrat\u00e9gia obsessiva para nega\u00e7\u00e3o do desejo. Esse amor se distingue de uma erotomania psic\u00f3tica pela imagem de si que o obsessivo empenha como n\u00e3o podendo faltar ao outro, garantindo a dist\u00e2ncia de si (ALVARENGA, 2019). Podemos, ent\u00e3o, calcular os efeitos da queda dessa imagem, relativa ao i(a).<\/p>\n<p>Esthela Solano (1996) relata uma demanda de an\u00e1lise ap\u00f3s o passe, quando a nomea\u00e7\u00e3o a AE desencadeou uma ang\u00fastia terr\u00edvel ao faz\u00ea-la se deparar com o buraco da imagem e do significante. A neurose infantil se manifestara aos nove anos, com a destitui\u00e7\u00e3o do pai do alto cargo que ocupava, deixando-a sem as coordenadas f\u00e1licas frente ao Outro do amor que rompeu as amarras imagin\u00e1rias com que ela se identificava ao agalma do desejo. A fantasia se assenta no mandamento moral, sob o significante \u201canjo\u201d, prendendo-a ao lugar de exce\u00e7\u00e3o do Ideal ou do dejeto. Na segunda an\u00e1lise, localiza o horror que se revela do amor como puls\u00e3o de morte e faz uma amarra\u00e7\u00e3o privilegiando o gozo parasit\u00e1rio do sintoma.<\/p>\n<p>Na an\u00e1lise p\u00f3s-passe, destaca tr\u00eas sonhos. No primeiro, encontra no corpo uma marca que l\u00ea como a da morte iminente (buraco do simb\u00f3lico). No segundo, v\u00ea os quantificadores\u00a0\u2203<em>x<\/em>\u00a0<em>\u03a6x,<\/em>\u00a0sem-raz\u00e3o que inscreve a falha de exist\u00eancia no lado feminino (o buraco no real). Do terceiro, emerge a recorda\u00e7\u00e3o infantil de ver no quadro de melhores alunas do col\u00e9gio um buraco (no imagin\u00e1rio) no lugar de sua foto. \u00c9 o trauma que a nomea\u00e7\u00e3o como quadro vazio de imagem e significante reconvoca. Retorna a vertigem infantil \u201cque se produzia como abismo quando o sujeito n\u00e3o encontrava apoio em nenhuma exist\u00eancia que a inclu\u00edsse na fun\u00e7\u00e3o f\u00e1lica, uma vez percebida a irremedi\u00e1vel impostura do Outro\u201d (SOLANO, 1996, p. 36, trad. nossa.).<\/p>\n<p>A nomea\u00e7\u00e3o a confronta \u00e0 falha de exist\u00eancia pela inexist\u00eancia do significante d&#8217;O analista, tal como inexiste o d&#8217;A mulher. A ang\u00fastia surge no real insuport\u00e1vel, \u201ccompar\u00e1vel ao de uma bomba que explode e se produz disso a deflagra\u00e7\u00e3o desse pouco de realidade em que se sustenta o sujeito em sua representabilidade\u201d (SOLANO, 1994, p. 33). A amarra\u00e7\u00e3o anterior se desfaz.<\/p>\n<p><em>Estrago<\/em><\/p>\n<p>A ang\u00fastia surge da emerg\u00eancia do gozo no pr\u00f3prio corpo, separado do Outro \u2014 que n\u00e3o existe \u2014, quando confronta o sujeito com a solid\u00e3o inomin\u00e1vel (GUIMAR\u00c3ES, 2015, p. 85). Podemos supor que a neurose obsessiva, na mulher, faz-se mecanismo de defesa \u00e0 sem-raz\u00e3o desse gozo, no ponto de devasta\u00e7\u00e3o? Essa hip\u00f3tese aponta para o que Lacan observa, em\u00a0<em>O aturdito<\/em>, como a \u201crealidade de devasta\u00e7\u00e3o que constitui, na mulher, em sua maioria, a rela\u00e7\u00e3o com sua m\u00e3e\u201d, de quem \u201cparece esperar mais subst\u00e2ncia que do pai\u201d (LACAN, 2003, p. 465). Para Esthela\u00a0Solano, \u201cpodemos supor que a devasta\u00e7\u00e3o, em uma mulher, caracteriza o imbr\u00f3glio espec\u00edfico do real de que ela \u00e9 efeito enquanto sujeito feminino\u201d (SOLANO, 2003, p. 54).<\/p>\n<p>Nos relatos de AE de Graciela Brodsky, a defesa \u00e0 ang\u00fastia ante o gozo do Outro fica expl\u00edcita na cena infantil em que os pais chegam felizes de uma festa: ela est\u00e1 exclu\u00edda do gozo do Outro, e o arru\u00edna com seu choro. Filha \u00fanica de m\u00e3e surda, em sua fantasia deveria fazer-se ouvir e ser a \u00fanica que desperta esse Outro \u2014 o que pressup\u00f5e mant\u00ea-lo mortificado. \u201cSe fosse hist\u00e9rica, ficaria com o lamento de ser a que fica de fora, mas como n\u00e3o sou [&#8230;] dou um passo a mais: sou a que diz: que a festa termine!\u201d (BRODSKY, 2012, p. 105).<\/p>\n<p>Ainda na inf\u00e2ncia, um diagn\u00f3stico a marca: \u201cintelig\u00eancia superior \u00e0 normal, gra\u00e7as \u00e0 qual [&#8230;] sabia dos perigos que as demais crian\u00e7as ignoravam\u201d (BRODSKY, 2012, p. 107), e seu sintoma \u00e9 convertido em virtude. A m\u00e3e denuncia \u00e0 filha a impot\u00eancia do pai. Interpretar que o gozo materno estava nessa impot\u00eancia faz desaparecer a querela com a m\u00e3e. Constata que o gozo do Outro est\u00e1 separado dela quando v\u00ea o analista dan\u00e7ar em uma festa. Com a travessia da fantasia, aparece o seu corpo vivo, Um do gozo. No fim da an\u00e1lise, esquece o termo que o analista usara para expressar a satisfa\u00e7\u00e3o em arruinar o gozo do Outro. Parece-lhe que come\u00e7ava com a letra T, mas, quando o analista elucida, n\u00e3o reconhece o significante \u201cpisotear\u201d. Fica com o buraco do significante e com a letra.<\/p>\n<p><em>Supermulher<\/em><\/p>\n<p>Se, na neurose obsessiva, as mulheres se apresentam vinculadas mais com a m\u00e3e do que com o pai, deca\u00eddo como anteparo ao gozo sem-limite, qual \u00e9 a incid\u00eancia das estrat\u00e9gias obsessivas na devasta\u00e7\u00e3o? H\u00e1 uma sobreposi\u00e7\u00e3o da oblatividade como evita\u00e7\u00e3o do desejo do Outro, transformado em demanda, com a demanda direcionada \u00e0 m\u00e3e por um significante d\u2019A mulher que n\u00e3o existe? O v\u00ednculo m\u00e3e-filha pode assumir o insuport\u00e1vel dessa dupla demanda?<\/p>\n<p>Miller (2016) localiza a devasta\u00e7\u00e3o no princ\u00edpio do n\u00e3o-todo da inconsist\u00eancia. A subst\u00e2ncia a mais que a mulher esperaria da m\u00e3e corresponderia a um corpo que se completasse \u00e0 maneira f\u00e1lica, ganhando consist\u00eancia. De acordo com Brousse, a devasta\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cconcerne para o sujeito feminino o real fora do corpo do sexo, quer dizer, uma parte de gozo n\u00e3o reduz\u00edvel \u00e0 significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica e mobiliza ou melhor imobiliza o sujeito alternativamente no am\u00f3dio da demanda absoluta e na aspira\u00e7\u00e3o por uma imagem do insignific\u00e1vel\u201d (BROUSSE, 2017, p. 34, trad. nossa.).<\/p>\n<p>Como a predomin\u00e2ncia do pensamento e a fortaleza narc\u00edsica da neurose obsessiva operam contra a inconsist\u00eancia do corpo do real da mulher? Haveria um agravamento da estrat\u00e9gia f\u00e1lica de mortifica\u00e7\u00e3o para estancar esse gozo a mais, fazer consistir um corpo-fortaleza contra o gozo feminino \u201cque n\u00e3o fixa o sujeito ao seu corpo\u201d (EUL\u00c1LIO, 2018, p. 108)?<\/p>\n<p>A quest\u00e3o tamb\u00e9m se lan\u00e7a ao supereu da mulher como ponto insuport\u00e1vel que se origina do Outro materno. S\u00e9rgio Campos observa que \u201co supereu feminino opera na pr\u00f3pria mulher como devasta\u00e7\u00e3o\u201d (CAMPOS, 2015, p. 203) e, para todo sujeito inscrito na significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica, o lado que escapa ao simb\u00f3lico na mulher poder\u00e1 operar como supereu. \u201cLogo,\u00a0<em>A\u00a0<\/em>mulher que est\u00e1 abrigada na m\u00e3e poder\u00e1 surgir como Outro superegoico para a filha\u201d, e o da filha para a m\u00e3e, resultando em mulheres devastadas (CAMPOS, 2015, p. 207).<\/p>\n<p>L\u00eada Guimar\u00e3es prop\u00f5e que esse gozo devastador resulta da infiltra\u00e7\u00e3o do imperativo mort\u00edfero do supereu no gozo feminino. Segundo ela, este \u00faltimo, embora vivificante, sofre os efeitos da infiltra\u00e7\u00e3o do supereu e passa a sustentar um \u201cgoza!\u201d mortificante (GUIMAR\u00c3ES, 2015, p. 37). Na cl\u00ednica contempor\u00e2nea, esse imperativo se articula ao semblante de feminilidade para sustentar o Eu ideal d\u2019A Mulher superpotente. Da\u00ed que \u201ca patologia devastadora que invade as mulheres n\u00e3o \u00e9 uma patologia da paix\u00e3o amorosa, mas, sim, uma patologia do supereu\u201d (GUIMAR\u00c3ES, 2015, p. 39).<\/p>\n<p>Quais as consequ\u00eancias, ent\u00e3o, quando o gozo devastador se apresenta na neurose obsessiva, em que o pensamento \u00e9 \u201cimperativo de gozo\u201d (SOLANO, 2009, p. 26)? Entre elas, est\u00e1 a maior ferocidade do supereu? Diante desses entrela\u00e7amentos, levanta-se a hip\u00f3tese de que n\u00e3o ser\u00e1 sem uma dificuldade a mais que as estrat\u00e9gias obsessivas incidir\u00e3o no momento de uma devasta\u00e7\u00e3o na mulher.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/h6>\n<h6>ALVARENGA, Elisa.\u00a0<strong>A neurose obsessiva no feminino<\/strong>. Belo Horizonte: Relic\u00e1rio, 2019.<\/h6>\n<h6>______. Um caso de an\u00e1lise depois do passe.\u00a0<strong>Arteira<\/strong>, n. 1, set. Florian\u00f3polis: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise &#8211; Santa Catarina, 2008. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/revistaarteira.com.br\/images\/pdf\/Arteira-1.pdf &gt; Acesso em 29 set. 2021.<\/h6>\n<h6>BRODSKY, Graciela. Parceiros.\u00a0<strong>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/strong>, n. 65, 2013.<\/h6>\n<h6>______. Testemunho 1.\u00a0<strong>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/strong>, n. 64, 2012.<\/h6>\n<h6>BROUSSE, Marie-H\u00e9l\u00e8ne. Intervenciones especiales. Una dificultad en el an\u00e1lisis de las mujeres: el estrago de la relaci\u00f3n con la madre.\u00a0<strong>\u00c9tica y Cine Journal<\/strong>, v. 7, n. 2, p. 29-35, 2017. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/revistas.unc.edu.ar\/index.php\/eticaycine\/article\/view\/18973&gt; Acesso em 29 set. 2021.<\/h6>\n<h6>CAMPOS, S\u00e9rgio de.\u00a0<strong>Supereu Uerepus das origens aos seus destinos<\/strong>. Belo Horizonte: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, 2015.<\/h6>\n<h6>COSTA, Maria Luiza Fernandes; FERREIRA, Renata Wirthmann G. N\u00e3o h\u00e1 neurose sem corpo: um estudo sobre o lugar do corpo na histeria e na neurose obsessiva.\u00a0<strong>\u00c1gora: Estudos em Teoria Psicanal\u00edtica<\/strong>, v. 22, p. 254-261, Rio de Janeiro, 2019. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/www.scielo.br\/j\/agora\/a\/44Kt6dHrgrM5MhzkxqnrRmF\/abstract\/?lang=pt &gt; Acesso em 29 set. 2021.<\/h6>\n<h6>COTTET, Serge. A respeito da neurose obsessiva feminina.\u00a0<strong>Isepol, Asephallus<\/strong>, n. 06, 2007. 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Doutora em Artes C\u00eanicas e aluna do Instituto de Psican\u00e1lise e Sa\u00fade Mental de Minas Gerais. lucianaromagnolli@gmail.com Resumo:\u00a0Com base no debate sobre a neurose obsessiva em mulheres, o artigo indaga se a estrat\u00e9gia obsessiva contra o gozo feminino n\u00e3o simboliz\u00e1vel apresenta, na cl\u00ednica contempor\u00e2nea, uma&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57853,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[24],"tags":[],"class_list":["post-1811","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-28","category-24","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1811","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1811"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1811\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57854,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1811\/revisions\/57854"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57853"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1811"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1811"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1811"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}