{"id":1815,"date":"2022-03-19T06:41:12","date_gmt":"2022-03-19T09:41:12","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1815"},"modified":"2025-12-01T13:15:05","modified_gmt":"2025-12-01T16:15:05","slug":"alzheimer-como-ruptura-do-laco-social-uma-leitura-psicanalitica1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2022\/03\/19\/alzheimer-como-ruptura-do-laco-social-uma-leitura-psicanalitica1\/","title":{"rendered":"ALZHEIMER COMO RUPTURA DO LA\u00c7O SOCIAL:  UMA LEITURA PSICANAL\u00cdTICA[1]"},"content":{"rendered":"<p><sup><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/alzheimer-ruptura-social#_edn1\" name=\"_ednref1\"><\/a><\/sup><\/p>\n<h6>GUILHERME CUNHA RIBEIRO<br \/>\nM\u00e9dico e psicanalista, membro da EBP\/AMP<br \/>\n<a href=\"mailto:guilhermecribeiro@outlook.com\">guilhermecribeiro@outlook.com<\/a><\/h6>\n<blockquote><p><strong>Resumo:\u00a0<\/strong>A partir do filme\u00a0<em>Meu pai<\/em>, escrito e dirigido por Florian Zeller, este texto busca compreender as mudan\u00e7as que ocorrem em portadores da doen\u00e7a de Alzheimer \u00a0sob a \u00f3tica da psican\u00e1lise de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana. Essa doen\u00e7a neurol\u00f3gica se manifesta no campo da fala, onde s\u00e3o percebidas altera\u00e7\u00f5es no funcionamento significante, em especial na met\u00e1fora e na meton\u00edmia. As consequ\u00eancias s\u00e3o sentidas no discurso e em uma progressiva ruptura no la\u00e7o social.<\/p>\n<p><strong>Palavras chaves<\/strong>:\u00a0Alzheimer, psican\u00e1lise, la\u00e7o social, discurso, Lacan<\/p>\n<p><strong>ALZHEIMER AS A RUPTURE OF THE SOCIAL BOND: A PSYCHOANALYTIC READING<\/strong><\/p>\n<p><strong>Abstract:\u00a0<\/strong>Based on the film\u00a0<em>My Father<\/em>, written and directed by Florian Zeller, this text seeks to understand the changes that occur in people who suffer from Alzheimer&#8217;s disease from perspective of the Lacanian psychoanalysis. This neurological disease manifests itself in the field of speech, where alterations in signifying functioning are noticed, especially in metaphor and metonymy. The consequences are felt in the discourse and in a progressive break in the social bond.<\/p>\n<p><strong>Keywords:\u00a0<\/strong>Alzheimer, psychoanalysis, social bond, discourse, Lacan<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_1816\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/ribeiro-1.png\" data-dt-img-description=\"Desali, s\/t\" data-large_image_width=\"340\" data-large_image_height=\"414\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1816\" class=\"wp-image-1816 size-full\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/ribeiro-1.png\" alt=\"\" width=\"340\" height=\"414\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/ribeiro-1.png 340w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/ribeiro-1-246x300.png 246w\" sizes=\"auto, (max-width: 340px) 100vw, 340px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1816\" class=\"wp-caption-text\">Desali, s\/t<\/p><\/div>\n<p>Utilizando a psican\u00e1lise de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana como sustenta\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, este trabalho busca compreender o que acontece com um sujeito que apresenta a doen\u00e7a de Alzheimer. N\u00e3o se trata de pensar a psican\u00e1lise como instrumento de tratamento, mas de usar alguns elementos de sua teoria na leitura e na interpreta\u00e7\u00e3o do modo de presen\u00e7a do sujeito adoecido no la\u00e7o social.<\/p>\n<p>Sabemos que a medicina normatizou a \u00e1rea de conhecimento cognitivo comportamental como padr\u00e3o de avalia\u00e7\u00e3o dessa condi\u00e7\u00e3o m\u00e9dica por meio de testes de desempenho para diagn\u00f3stico e acompanhamento. Considero importante \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0fazer outra leitura, que abra outra compreens\u00e3o desse quadro t\u00e3o dram\u00e1tico e frequente na vida dos idosos. A quest\u00e3o que se colocou desde o in\u00edcio foi entender \u00a0como a doen\u00e7a de Alzheimer afeta o sujeito em sua rela\u00e7\u00e3o com o la\u00e7o social, tendo como pressuposto que \u00e9 a linguagem que nos conecta com esse la\u00e7o. Para Lacan, \u00e9 o la\u00e7o social o que o sujeito tem de mais real. No Semin\u00e1rio 20, ele aponta \u00a0que, \u201cno fim das contas, h\u00e1 apenas isto, o la\u00e7o social\u201d, para completar que esse \u201cla\u00e7o social s\u00f3 se instaura por ancorar-se na maneira pela qual a linguagem se situa e se imprime, se situa sobre aquilo que formiga, isto \u00e9, o ser falante\u201d (LACAN \u00a0[1973], p. 74). Foi a partir do campo da fala que procurei construir a abordagem das altera\u00e7\u00f5es que ocorrem na doen\u00e7a de Alzheimer, campo no qual se pode verificar como se d\u00e1 a ancoragem do la\u00e7o social na linguagem.<\/p>\n<p>Para abordar a rela\u00e7\u00e3o do sujeito em seu la\u00e7o social, \u00e9 importante partir da distin\u00e7\u00e3o entre fala e linguagem (BASSOLS, 2017), institu\u00edda por Lacan desde o \u201cDiscurso de Roma\u201d. O campo da linguagem \u00e9 a estrutura simb\u00f3lica de significantes que constituem o universo do Outro e que operam em uma sincronia que antecede o sujeito. J\u00e1 a fun\u00e7\u00e3o da fala trata da rela\u00e7\u00e3o do sujeito com a palavra propriamente dita, na diacronia da cadeia significante. Distinto do campo da linguagem e da fun\u00e7\u00e3o da fala est\u00e1 o suporte org\u00e2nico da fala, dependente da plena fun\u00e7\u00e3o dos \u00f3rg\u00e3os fonador e neurol\u00f3gico do corpo.<\/p>\n<p>Para essa leitura, farei uso de alguns fragmentos da obra\u00a0<em>Meu pai<\/em>, do diretor e dramaturgo Florian Zeller, que narra a est\u00f3ria de Anthony, portador de quadro demencial \u2014 que, apesar de n\u00e3o nomeado pelo autor como tal, tomarei como t\u00edpico da doen\u00e7a de Alzheimer pela similaridade com os quadros dessa patologia. A doen\u00e7a do personagem est\u00e1 na fase em que se torna obrigat\u00f3ria a presen\u00e7a da fam\u00edlia e de cuidadores, diante da progressiva dificuldade do sujeito em lidar com o que se passa ao seu redor.<\/p>\n<p>O personagem, brilhantemente interpretado no cinema por Anthony Hopkins, mostra a progressiva destitui\u00e7\u00e3o subjetiva e a ruptura do la\u00e7o social, t\u00e3o caracter\u00edsticas dessa condi\u00e7\u00e3o. Essa destitui\u00e7\u00e3o se d\u00e1 com o avan\u00e7o das altera\u00e7\u00f5es neurol\u00f3gicas e com suas consequ\u00eancias na fun\u00e7\u00e3o da fala, bem como na rela\u00e7\u00e3o com o universo simb\u00f3lico e cultural do pr\u00f3prio sujeito. No filme, percebemos o comovente \u00a0esfor\u00e7o de Anthony para entender seu cotidiano e se manter em conex\u00e3o com as pessoas e com a vida. Tratando-se de uma obra que mostra de maneira arguta o quadro de sujeitos nessa condi\u00e7\u00e3o, considerei-a um bom caminho para tentar entender as altera\u00e7\u00f5es da fun\u00e7\u00e3o da fala e da posi\u00e7\u00e3o do sujeito no la\u00e7o social que podem acontecer na doen\u00e7a de Alzheimer.<\/p>\n<p>Passo ent\u00e3o a descrever algumas altera\u00e7\u00f5es ocorridas com o personagem Anthony. Destaco sua dificuldade em compreender o momento que vive, o seu aqui e agora, que se mostra muito afetado pela doen\u00e7a. Essa altera\u00e7\u00e3o do aqui e agora se manifesta de v\u00e1rias maneiras, a saber, como dificuldades em distinguir o presente e o passado, que se misturam, bem como em localizar-se na morada atual, confundindo-a com a anterior; dificuldade para reter informa\u00e7\u00f5es, perdendo objetos e esquecendo-se de acontecimentos cotidianos e fatos relevantes, como a morte da filha mais jovem, em um acidente; redu\u00e7\u00e3o dos campos de interesse na vida, em uma esp\u00e9cie de encolhimento do campo de investimento libidinal; progressivas solid\u00e3o e limita\u00e7\u00f5es \u00a0\u00a0para encontrar solu\u00e7\u00f5es em sua vida.<\/p>\n<p>O que se mostra importante para este estudo \u00e9 a redu\u00e7\u00e3o de sua habilidade discursiva: os di\u00e1logos t\u00eam os campos de interesse reduzidos, concentrados na busca de uma melhor orienta\u00e7\u00e3o no aqui e agora. Em fun\u00e7\u00e3o dessa redu\u00e7\u00e3o da habilidade discursiva, suas defesas se modificam. Para lidar com a desorienta\u00e7\u00e3o temporal, o personagem diz ter dois rel\u00f3gios: um no pulso e outro na cabe\u00e7a. Pela dificuldade em entender o espa\u00e7o onde vive, busca as caracter\u00edsticas de sua antiga casa nos c\u00f4modos atuais. J\u00e1 em outros momentos, apresentam-se defesas paranoicas, como quando acusa a filha de querer roub\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Outras vezes anda pela casa com express\u00e3o at\u00f4nita, perdida. Em uma situa\u00e7\u00e3o interessante, quando se v\u00ea diante de uma jovem garota, consegue usar de fantasias para se mostrar sedutor e simp\u00e1tico. Diz ter sido dan\u00e7arino no passado, o que nunca aconteceu. Outra defesa que se d\u00e1 ao longo de todo o filme \u2014 e que acontece com a maior parte dos portadores de Alzheimer \u2014 \u00e9 o uso de lembran\u00e7as antigas, acess\u00edveis \u00e0 fala, para dar conta do cotidiano.<\/p>\n<p>Sobretudo se percebe o esfor\u00e7o comovente de Anthony, que parece perplexo, em muitos momentos, diante de sua progressiva inabilidade para se manter conectado com seus objetos e com as pessoas pr\u00f3ximas. Penso que esse esfor\u00e7o\u00a0 seja para se manter no discurso que o conecta ao la\u00e7o social. No entanto, aquilo que, no passado, flu\u00eda de maneira autom\u00e1tica em sua vida, agora se mostra em uma progressiva ruptura.<\/p>\n<p>Para tentar compreender o que se passa com Anthony e, de resto, com muitos portadores da doen\u00e7a de Alzheimer, parto do princ\u00edpio de que, \u201cmesmo quando se trata de transtornos org\u00e2nicos das fun\u00e7\u00f5es implicadas na fala (&#8230;) as disfun\u00e7\u00f5es seguem leis simb\u00f3licas estruturais da linguagem\u201d (BASSOLS, 2017). A hip\u00f3tese que sustenta esse trabalho \u00e9 que a afeta\u00e7\u00e3o do real do corpo pela doen\u00e7a determina a presen\u00e7a de modifica\u00e7\u00f5es progressivas na fun\u00e7\u00e3o da fala do sujeito, o que resulta em uma obrigat\u00f3ria tentativa de reposicionamento no discurso que sustenta o sujeito da enuncia\u00e7\u00e3o no la\u00e7o social.<\/p>\n<p>Sabemos com Lacan que a fun\u00e7\u00e3o da fala comporta uma fun\u00e7\u00e3o de semblante, pois cada palavra \u00e9 apenas um meio, como qualquer outro, para sustentar o la\u00e7o social. Para dar conta dessa fun\u00e7\u00e3o de semblante, Lacan articulou o discurso com a maneira de associar o sujeito da enuncia\u00e7\u00e3o com o la\u00e7o social. Para ele, o discurso \u00e9 uma estrutura necess\u00e1ria, \u201cque ultrapassa em muito a palavra, sempre mais ou menos ocasional\u201d (LACAN [1969-70], p. 11). A estrutura\u00e7\u00e3o dos discursos no la\u00e7o se define a partir da incid\u00eancia da linguagem para o sujeito, sendo que essa estrutura discursiva pode se manter mesmo sem palavras, sustentada por certas rela\u00e7\u00f5es fundamentais que est\u00e3o asseguradas com a linguagem. Pois \u00e9 a linguagem que \u201cinstaura um certo n\u00famero de rela\u00e7\u00f5es est\u00e1veis, no interior das quais certamente pode inscrever-se algo bem mais amplo, que vai bem mais longe do que as enuncia\u00e7\u00f5es efetivas\u201d (LACAN [1969-70], p. 11).<\/p>\n<p>Quais seriam ent\u00e3o as altera\u00e7\u00f5es que podemos observar no funcionamento \u00a0significante do personagem?<\/p>\n<p>A evolu\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a no corpo altera o funcionamento da fala e seus efeitos de met\u00e1fora e meton\u00edmia (MILLER [1998-99], p. 23). O efeito meton\u00edmico se d\u00e1 com o deslizamento do sentido, quando um significante se conecta a outro significante. J\u00e1 o efeito metaf\u00f3rico ocorre quando h\u00e1 uma substitui\u00e7\u00e3o de um significante por outro. O discurso funciona na medida da interrela\u00e7\u00e3o entre a met\u00e1fora e a meton\u00edmia.<\/p>\n<p>Essa m\u00e1quina de funcionamento significante funciona mal em Anthony e em muitos daqueles portadores do mal de Alzheimer. Tratando-se de uma patologia progressiva, a deteriora\u00e7\u00e3o dos efeitos meton\u00edmicos e metaf\u00f3ricos aumenta com o avan\u00e7ar da doen\u00e7a. Durante o filme, vemos o sujeito se apresentar confuso e at\u00f4nito, o que parece um indicativo de que, naquele momento, os significantes n\u00e3o deslizam metonimicamente, fazendo com que ele se desoriente, pois n\u00e3o h\u00e1 uma significa\u00e7\u00e3o que relance o funcionamento significante.<\/p>\n<p>Diante da dificuldade discursiva, com frequ\u00eancia Anthony \u00e9 capaz de lan\u00e7ar m\u00e3o de significantes e imagens que, mesmo fora do contexto vivido, o ajudam a se situar. Um exemplo do uso de significantes fora de contexto se d\u00e1 quando ele recebe, em sua casa, uma \u00a0jovem candidata \u00e0 fun\u00e7\u00e3o de cuidadora.<\/p>\n<p>Inicialmente ele n\u00e3o se d\u00e1 conta da raz\u00e3o da visita e logo a associa \u00e0 imagem de sua filha desaparecida, o que o ajuda a desempenhar um papel charmoso e sedutor. Ao associ\u00e1-la \u00e0 imagem da filha, ele pode sair da situa\u00e7\u00e3o de desamparo, mesmo que tenha que usar uma significa\u00e7\u00e3o fora do contexto daquele momento.<\/p>\n<p>Uma outra defesa que se mostra presente para Anthony \u00e9 a resposta agressiva e paranoica. Ele tem dificuldade de reconhecer o ambiente em que vive; insiste que ainda est\u00e1 em seu apartamento e, quando confrontado com a realidade por sua filha \u00a0Anne, a acusa de querer roub\u00e1-lo, assim como acusa as cuidadoras de roubar seus objetos. No filme, essas situa\u00e7\u00f5es se repetem, mas, a cada vez que acontecem, n\u00e3o se sustentam por muito tempo, ao passo que o personagem esquece o ocorrido e alivia-se o mal-estar. Essa defesa agressiva e paranoica parece estar relacionada a um problema no efeito metaf\u00f3rico, na medida da dificuldade em fazer um significante ser substitu\u00eddo por outro.<\/p>\n<p>Podemos tamb\u00e9m perceber que, em certas situa\u00e7\u00f5es, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma defesa para dar conta do desamparo, como quando o personagem n\u00e3o consegue encontrar uma palavra ou imagem que o ajude a se situar. Nesse momento, ocorre uma interrup\u00e7\u00e3o da articula\u00e7\u00e3o significante com consequ\u00eancias diferentes a cada vez. Quando Anthony recebe a nova cuidadora durante seu caf\u00e9 da manh\u00e3 e n\u00e3o a reconhece, apesar de ter estado com ela no dia anterior, revela-se a falha no funcionamento significante. Isso gera uma ruptura discursiva \u2014 ele corre para seu \u00a0quarto e n\u00e3o retoma o discurso.<\/p>\n<p>Diante desse tipo de situa\u00e7\u00e3o, o filme mostra uma maneira de ajudar a sair da ruptura moment\u00e2nea. A interposi\u00e7\u00e3o habilidosa de novos significantes por aqueles que est\u00e3o ao seu lado pode permitir que o sujeito volte a apresentar o deslizamento\u00a0significante. Mesmo que n\u00e3o seja sempre efetiva, essa oferta faz o efeito de uma esp\u00e9cie de pr\u00f3tese\u00a0<em>ad hoc<\/em>, com funcionamento apenas evanescente.<\/p>\n<p>Com o avan\u00e7ar da doen\u00e7a, torna-se mais dif\u00edcil buscar palavras e imagens que deem conta do desamparo, como na \u00faltima cena do filme, quando a habilidosa enfermeira o ajuda a se situar no discurso, permitindo que os significantes se articulem, mesmo com dificuldade. No entanto, os limites surgem a todo momento: ele n\u00e3o reconhece o funcion\u00e1rio que vai ao seu quarto diariamente, n\u00e3o se lembra do nome da enfermeira e chega a esquecer seu pr\u00f3prio nome. Diante da percep\u00e7\u00e3o de suas falhas, Anthony interp\u00f5e lembran\u00e7as mais antigas, como a de sua m\u00e3e, confundindo-a com sua filha. Ao constatar a aus\u00eancia de sua m\u00e3e, Anthony est\u00e1 diante do desamparo total: ele chora, mas ainda \u00e9 capaz de elaborar sobre sua condi\u00e7\u00e3o, dizendo que n\u00e3o sabe o que est\u00e1 acontecendo e que se sente como se estivesse perdendo todas as suas \u201cfolhas\u201d. A\u00ed constatamos que a fun\u00e7\u00e3o metaf\u00f3rica ainda est\u00e1 presente.<\/p>\n<p><em>O discurso que n\u00e3o funciona<\/em><\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao enla\u00e7amento do real, do simb\u00f3lico e do imagin\u00e1rio, Lacan aponta que \u00e9 o enunciado desse enla\u00e7amento que opera na fala durante a an\u00e1lise, pois esses termos emergem, e o fazer do analista \u00e9 seguir esse discurso. Mas os outros discursos tamb\u00e9m est\u00e3o situados a partir do real. O discurso do mestre, articulado ao funcionamento simb\u00f3lico, \u00e9 para que &#8220;as coisas caminhem no passo de todos&#8221;, o \u00a0que faz frente ao real, &#8220;pois este, justamente, \u00e9 o que n\u00e3o caminha&#8221; e o que &#8220;n\u00e3o cessa de se repetir para impor um entrave a essa marcha&#8221; (LACAN [1974], p.16), pois retorna sempre ao mesmo lugar. J\u00e1 a fun\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio reflete &#8220;o mundo como ele \u00e9 \u2014 imagin\u00e1rio&#8221; (LACAN [1974], p. 16). Para situar o imagin\u00e1rio, \u00e9 preciso que a fun\u00e7\u00e3o da representa\u00e7\u00e3o seja reduzida e localizada onde ela est\u00e1, ou seja, no \u00a0corpo. O trabalho de Lacan com a imagem, desde o texto &#8220;Est\u00e1dio do espelho&#8221;, conduz a entender o estatuto de real que a imagem assume, do poder da imagem como real. Esse poder confere um efeito de verdade que afasta o imagin\u00e1rio da ideia da imagina\u00e7\u00e3o, por isso sua fun\u00e7\u00e3o central na constitui\u00e7\u00e3o subjetiva.<\/p>\n<p>No caso do personagem Anthony, fica patente que algo n\u00e3o caminha, n\u00e3o h\u00e1 a flu\u00eancia que se pode perceber quando a vida marcha de acordo com o discurso do inconsciente. Algo do real do corpo se imp\u00f5e e \u00a0impede que o discurso caminhe. Na medida do avan\u00e7o da doen\u00e7a, esse real do corpo n\u00e3o cessa de retornar e interferir no processo discursivo, comprometendo a fun\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica.<\/p>\n<p>Como fragilidade do enla\u00e7amento simb\u00f3lico, a fun\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio se acentua como defesa a essa progressiva destitui\u00e7\u00e3o do funcionamento significante, na tentativa de sustentar o discurso. Tomo o imagin\u00e1rio aqui como o pr\u00f3prio corpo do personagem, que reflete sua posi\u00e7\u00e3o no mundo. \u00c9 com o pr\u00f3prio corpo como imagin\u00e1rio que Anthony tenta se situar em seu aqui e agora. Ele busca elementos imagin\u00e1rios, seus objetos, sua casa para us\u00e1-los como suporte. Mas essa tentativa se d\u00e1 em uma descontinuidade temporal: o &#8220;aqui e agora&#8221; de Anthony ocorre em uma fus\u00e3o de presente e passado, impedindo que ele localize\u00a0seu corpo na casa onde mora e que encontre os objetos com os quais se identifica \u2014 como seu rel\u00f3gio e o quadro pintado pela filha. \u00c9 uma defesa que permite solu\u00e7\u00f5es tempor\u00e1rias, fr\u00e1geis, na tentativa de se manter no discurso. Em \u00a0um esfor\u00e7o de dar sentido a sua vida, na fragilidade de seu corpo e de seu enla\u00e7amento discursivo, Anthony ainda se mostra capaz de fazer met\u00e1foras, na medida que o imagin\u00e1rio consegue temporariamente sustent\u00e1-lo no discurso.<\/p>\n<p>No progresso e na solid\u00e3o da doen\u00e7a, em uma cena comovente, o personagem demanda encontrar quem ele sabe que n\u00e3o faltaria com ele, que permitiria uma significa\u00e7\u00e3o vinda do Outro: sua m\u00e3e. Florian Zeller, dramaturgo e diretor do filme, mostrou com sensibilidade a \u00a0import\u00e2ncia de os portadores do mal de Alzheimer terem ao seu lado algu\u00e9m capaz de oferecer os semblantes necess\u00e1rios para que seu desamparo n\u00e3o seja completo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>BASSOLS, M. (2018)\u00a0<strong>O b\u00e1rbaro. Transtornos de linguagem e segrega\u00e7\u00e3o<\/strong>. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_25\/O_Barbaro_Transtornos_de_linguagem_e_segregacao.pdf\">http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_25\/O_Barbaro_Transtornos_de_lin<\/a>\u00a0<a href=\"http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_25\/O_Barbaro_Transtornos_de_linguagem_e_segregacao.pdf\">guagem_e_segregacao.pd<\/a><a href=\"http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_25\/O_Barbaro_Transtornos_de_linguagem_e_segregacao.pdf\">f<\/a><a href=\"http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_25\/O_Barbaro_Transtornos_de_linguagem_e_segregacao.pdf\">.\u00a0<\/a>Acesso em: 15 dez. 2021.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1972-73) \u201cArist\u00f3teles e Freud: A outra satisfa\u00e7\u00e3o\u201d, In:\u00a0<strong>O semin\u00e1rio, Livro 20:\u00a0<\/strong>mais, ainda. Rio de Janeiro: JZE.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1969-70) \u201cProdu\u00e7\u00e3o dos quatro discursos\u201d, In:\u00a0<strong>Semin\u00e1rio 17, O avesso da Psican\u00e1lise.\u00a0<\/strong>Rio de Janeiro: JZE.<\/h6>\n<h6>LACAN, J (1974) \u201cA terceira\u201d, In:\u00a0<strong>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana.\u00a0<\/strong>S\u00e3o Paulo: Eolia, n\u00ba 62, dezembro 2011, p. 16.<\/h6>\n<h6>MILLER, JA. (1998-99) \u201cLo real y el semblante\u201d, In:\u00a0<strong>La experiencia de lo real em la cura psicoanal\u00edtica.\u00a0<\/strong>Buenos Aires: Paid\u00f3s.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/alzheimer-ruptura-social#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a>\u00a0Texto apresentado no N\u00facleo de Pesquisa e Investiga\u00e7\u00e3o em Psican\u00e1lise e Medicina da Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica- IPSM-MG em 10\/09\/2021.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GUILHERME CUNHA RIBEIRO M\u00e9dico e psicanalista, membro da EBP\/AMP guilhermecribeiro@outlook.com Resumo:\u00a0A partir do filme\u00a0Meu pai, escrito e dirigido por Florian Zeller, este texto busca compreender as mudan\u00e7as que ocorrem em portadores da doen\u00e7a de Alzheimer \u00a0sob a \u00f3tica da psican\u00e1lise de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana. Essa doen\u00e7a neurol\u00f3gica se manifesta no campo da fala, onde s\u00e3o percebidas&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57855,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[24],"tags":[],"class_list":["post-1815","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-28","category-24","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1815","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1815"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1815\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57856,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1815\/revisions\/57856"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57855"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1815"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1815"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1815"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}