{"id":1820,"date":"2022-03-19T06:41:12","date_gmt":"2022-03-19T09:41:12","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1820"},"modified":"2025-12-01T13:15:30","modified_gmt":"2025-12-01T16:15:30","slug":"o-inconsciente-da-crianca-ate-o-adolescer-e-mais1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2022\/03\/19\/o-inconsciente-da-crianca-ate-o-adolescer-e-mais1\/","title":{"rendered":"O INCONSCIENTE: DA CRIAN\u00c7A AT\u00c9 O ADOLESCER, E MAIS[1]"},"content":{"rendered":"<h6>CRISTIANE BARRETO<br \/>\nPsicanalista, membro da EBP\/AMP<br \/>\n<a href=\"mailto:cristianebarretonapoli@yahoo.com.br\">cristianebarretonapoli@yahoo.com.br<\/a><\/h6>\n<blockquote><p><strong>Resumo:\u00a0<\/strong>O texto comenta o pref\u00e1cio de Jacques-Alain Miller para o livro\u00a0<em>L&#8217;Inconscient de l&#8217;enfant: du sympt\u00f4me au d\u00e9sir de savoir<\/em>, de H\u00e9l\u00e8ne Bonnnaud. Para tanto, primeiro contextualiza o inconsciente freudiano, seguido das elabora\u00e7\u00f5es lacanianas do inconsciente estruturado como uma linguagem ao inconsciente real. Ressalta a import\u00e2ncia da quest\u00e3o da defesa e de como perturbar a defesa na psican\u00e1lise com crian\u00e7as. Por fim, por meio de de um fragmento cl\u00ednico, discute a quest\u00e3o contempor\u00e2nea do inconsciente frente ao sintoma de uma adolescente e os efeitos na fam\u00edlia, bem como o lugar de uma an\u00e1lise.<\/p>\n<p><strong>Palavras chaves:\u00a0<\/strong>Inconsciente, linguagem, crian\u00e7a, adolescente, fam\u00edlias contempor\u00e2neas<\/p>\n<p><strong>THE UNCONSCIOUS: FROM CHILD TO ADOLESCENT, AND BEYOND.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Abstract:\u00a0<\/strong>The essay comments on Jacques-Alain Miller\u2019 s preface to the book L\u2019Inconscient de l\u2019enfant: du sympt\u00f4me au d\u00e9sir de savoir, by H\u00e9l\u00e8ne Bonnoaud. To this end, it first contextualizes the freudian unconscious, followed by the lacanian elaborations of the unconscious structured as a language and the unconscious as real. It emphasizes the issue of the defense and how it is possible to disturb the defense in children\u2019s analysis. Finally, through a clinical fragment, it discusses the contemporary issue of the unconscious\u00a0 in the face of a teenager\u2019s symptom and the effects on the family, as well as the place an analysis can have.<\/p>\n<p><strong>Keywords:\u00a0<\/strong>unconscious, language, child, teenager, contemporary families<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n<div id=\"attachment_1821\" style=\"width: 525px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/cris.png\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"515\" data-large_image_height=\"656\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1821\" class=\"wp-image-1821 size-full\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/cris.png\" alt=\"\" width=\"515\" height=\"656\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/cris.png 515w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/cris-236x300.png 236w\" sizes=\"auto, (max-width: 515px) 100vw, 515px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1821\" class=\"wp-caption-text\">Desali, s\/t<\/p><\/div>\n<p>Em \u201cO Inconsciente\u201d, texto de 1915, Freud argumenta para justificar o seu conceito: \u201cnossa topografia ps\u00edquica, no momento, nada tem que ver com a anatomia; refere-se n\u00e3o a localidades anat\u00f4micas, mas a regi\u00f5es do mecanismo mental, onde quer que estejam situados no corpo\u201d (FREUD, 1915\/1974, p. 201). Lacan (1996\/2017, p. 12) elucida que \u201ca quest\u00e3o diante da qual a natureza do inconsciente nos situa \u00e9, em poucas palavras, que algo pensa o tempo todo\u201d.<\/p>\n<p>O inconsciente pensa. Com essa elabora\u00e7\u00e3o, Freud desaloja a consci\u00eancia e confere um estatuto fundamental aos pensamentos inconscientes, produzidos \u00e0 margem e independentes dela, com seus atos t\u00edpicos \u2014 os atos falhos, os lapsos, sonhos. \u201cO inconsciente implica na hip\u00f3tese do sujeito freudiano, que se separa de toda reflexividade da consci\u00eancia\u201d, pontua Laurent (2007, p. 91).<\/p>\n<p>\u201cO que \u00e9 que chama aten\u00e7\u00e3o primeiro? \u00c9 o modo de trope\u00e7o pelo qual eles aparecem\u201d, ressalta Lacan (1964\/1990, p. 29), apontando que \u201co inconsciente se manifesta sempre como o que vacila num corte do sujeito \u2014 donde ressurge um achado que Freud assimila ao desejo\u201d (p. 32). Desde a\u00ed, o inconsciente \u00e9 rastro de linguagem, n\u00e3o sem o que a escapa e, ao mesmo tempo, \u00e9 motriz: a puls\u00e3o. Assim, o mundo experimenta, sempre com densa resist\u00eancia, o \u201cacontecimento Freud\u201d (LACAN, 1969\/2008, p. 183).<\/p>\n<p>\u201cO inconsciente \u00e9 estruturado como uma linguagem\u201d, defini\u00e7\u00e3o lacaniana inaugural ao seu ensino, articula os recursos da sua \u00e9poca; servindo-se da lingu\u00edstica, substitui as no\u00e7\u00f5es de condensa\u00e7\u00e3o e deslocamento como mecanismos pelos termos met\u00e1fora e meton\u00edmia. Para Lacan, o material do inconsciente \u00e9 \u201clinguageiro\u201d (LACAN, 1996\/2017, p. 12). Afirma que a express\u00e3o adotada por ele, \u201ccomo uma linguagem\u201d, n\u00e3o se refere \u201ca uma esp\u00e9cie particular de linguagem, como por exemplo a linguagem matem\u00e1tica, a linguagem semi\u00f3tica, ou a linguagem cinematogr\u00e1fica\u201d (LACAN, 1996\/2017, p. 12). \u201cLinguagem \u00e9 a linguagem, e s\u00f3 existe um tipo: a linguagem concreta \u2014 o franc\u00eas ou o ingl\u00eas, por exemplo \u2014 que as pessoas falam\u201d (LACAN, 1966\/2017, p. 12). Entende-se que a linguagem, com suas estruturas e mecanismos ret\u00f3ricos, \u201cpossibilitam o surgimento de um saber que se desprende da correspond\u00eancia entre significantes\u201d (C\u00c1RDENAS, p. 217).<\/p>\n<p>Nesse momento importante do ensino, Lacan (1996\/2017, p. 13) prepara uma confer\u00eancia de madrugada e acaba por definir, de forma po\u00e9tica: \u201cO inconsciente \u00e9 Baltimore ao amanhecer\u201d. Encontra a\u00ed, segundo ele, a melhor imagem para representar o inconsciente. Lacan (1996\/2017, p. 13) complementa, ensinando a ler tal frase: \u201cOnde esta\u0301 o sujeito? \u00c9 necess\u00e1rio situ\u00e1-lo como um objeto perdido. Mais precisamente, esse objeto perdido e\u0301 o suporte do sujeito e, frequentemente, e\u0301 algo bem mais abjeto do que voc\u00eas gostariam de considerar\u201d. Essa afirmativa, \u00e0 luz da defini\u00e7\u00e3o po\u00e9tica, como Laurent (2007) faz ver, foi um modo de Lacan dizer do Inconsciente introduzindo a\u00ed o seu objeto inventado, o objeto\u00a0<em>a<\/em>.<\/p>\n<p>Miller (2011, p. 4), ao comentar essa mesma frase, diz que sabemos ta\u0303o pouco sobre o inconsciente, que \u201ce\u0301 inveross\u00edmil e muito arriscado definir o que quer que seja a partir dele: pelo contr\u00e1rio, e\u0301 sempre ele, o inconsciente, que deve ser definido, porque na\u0303o se sabe o que e\u0301\u201d. Portanto, as defini\u00e7\u00f5es lacanianas do inconsciente reenviam a uma exig\u00eancia de esfor\u00e7o, esfor\u00e7o de poesia. Lendo Miller, Laurent (2007) dir\u00e1 que f\u00f3rmulas do tipo \u201cO inconsciente \u00e9&#8230;\u201d competem ao analista. Tanto formul\u00e1-las quanto engendrar, a cada vez, uma resposta.<\/p>\n<p>Defini-lo como uma cidade ou compar\u00e1-lo a esse espa\u00e7o n\u00e3o \u00e9 in\u00e9dito a Lacan, mas certamente as cidades lacanianas n\u00e3o t\u00eam a profundidade, ou reservas e marcas que remetem \u00e0 temporalidade das cidades em ru\u00ednas freudianas. Hier\u00f3glifos ou ru\u00ednas arqueol\u00f3gicas causam impress\u00e3o de civiliza\u00e7\u00f5es enterradas, soterradas, mas, fazendo justi\u00e7a \u00e0quele que funda a psican\u00e1lise, Freud coloca a puls\u00e3o de morte no cora\u00e7\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o, das cidades que pulsam, e isso \u00e9 o que permite Lacan elaborar o Inconsciente real.<\/p>\n<p>Com Lacan, o inconsciente n\u00e3o \u00e9 reservat\u00f3rio sen\u00e3o de gozo, e nasce no espa\u00e7o de um lapso, ao mesmo tempo em que se o relan\u00e7a sob transfer\u00eancia. Seja no sonho, seja no lapso, seja no trabalho em an\u00e1lise, os pensamentos j\u00e1 est\u00e3o ali, mas em pot\u00eancia ou em ato (LAURENT, 2007). Quanto ao sujeito do inconsciente, nos diz Laurent (2007, p. 107), respondendo \u00e0 pergunta demarcada por ele mesmo, como chave para lermos a frase lacaniana que diz que o inconsciente \u201cest\u00e1 em todos os lugares e n\u00e3o se prende a nenhum deles\u201d: com elementos atemporais, o inconsciente avan\u00e7a, na nossa \u00e9poca, a c\u00e9u aberto e um tanto turvo.<\/p>\n<p>Miller (2013), no pref\u00e1cio ao livro de H\u00e9l\u00e8ne Bonnnaud\u00a0<em>O inconsciente da crian\u00e7a: do sintoma ao desejo de saber<\/em>, \u00e9 enf\u00e1tico ao dizer tratar-se de um livro que vai ficar para a hist\u00f3ria. E por uma curiosa raz\u00e3o: pelo fato de os psicanalistas duvidarem que exista um inconsciente na crian\u00e7a. Cito Miller (p. 01): \u201c\u00c9 que os psicanalistas n\u00e3o est\u00e3o muito seguros de que as crian\u00e7as tenham um inconsciente digno deste nome\u201d. Adjetivar o inconsciente como digno chama a aten\u00e7\u00e3o. Qual \u00e9 a dignidade em quest\u00e3o? Miller nos lembra que \u201cn\u00e3o h\u00e1 inconsciente sem recalque\u201d, retomando a concep\u00e7\u00e3o de que o recalque come\u00e7aria com o per\u00edodo de \u201clat\u00eancia\u201d, assim sendo, s\u00f3 ent\u00e3o poder-se-ia afirmar a exist\u00eancia do inconsciente. Antes desse per\u00edodo, portanto, comenta Miller, de certa forma, duvida-se disso. Mas de qual inconsciente estaria ele fazendo men\u00e7\u00e3o? E, principalmente, quem seriam esses analistas que duvidam da exist\u00eancia do inconsciente na crian\u00e7a? Seriam esses dignos do inconsciente freudiano?<\/p>\n<p>Miller prefacia o livro de uma analista que atende crian\u00e7as e \u00e9 lacaniana e, por isso mesmo, tem outra no\u00e7\u00e3o do inconsciente. O inconsciente de Lacan \u00e9, sobretudo, o inconsciente de quem \u00e9 atravessado por uma experi\u00eancia de an\u00e1lise e que se dedica \u00e0 sua forma\u00e7\u00e3o permanente, sustentando supervis\u00f5es e endere\u00e7os de quest\u00f5es, tamb\u00e9m permanentes, em estudos e inven\u00e7\u00f5es endere\u00e7ados a uma Escola cernida por um campo \u2014 o freudiano. O inconsciente de que se trata \u00e9 \u201co inconsciente real, do inconsciente como o imposs\u00edvel de suportar\u201d (<em>Ibid<\/em>.).<\/p>\n<p>Miller reitera o que se transmite no N\u00facleo de Psican\u00e1lise com Crian\u00e7as: \u201cH\u00e1 as forma\u00e7\u00f5es do inconsciente, que se decifram, que fazem sentido. Mas h\u00e1 tamb\u00e9m o que faz furo (<em>trou<\/em>), o que faz excesso (<em>trop<\/em>), o que faz<em>\u00a0tropmatismo<\/em>\u00a0e\u00a0<em>troumatismo<\/em>\u201d (<em>Ibid<\/em>.).<\/p>\n<p>Miller, ent\u00e3o, retoma a quest\u00e3o sobre a defesa e de como perturb\u00e1-la. A defesa, pontua ele, com Freud, \u201cn\u00e3o tem a estrutura de um recalque. Ela est\u00e1 antes dele. O falasser est\u00e1 a\u00ed diretamente, cruamente, confrontado ao real, sem a interposi\u00e7\u00e3o do significante \u2014 que \u00e9 cataplasma, unguento, rem\u00e9dio\u201d (<em>Ibid<\/em>.). Para Miller, a pergunta fundamental que a pr\u00e1tica coloca a um analista, tamb\u00e9m de crian\u00e7as, \u00e9: \u201ccomo perturbar a defesa?\u201d.<\/p>\n<p>Para muitos analistas, a quest\u00e3o da defesa n\u00e3o se coloca. Para esses, segundo Miller, a defesa estaria fora de alcance, pois conhecem do inconsciente apenas o simb\u00f3lico, ou, ainda, em uma posi\u00e7\u00e3o pior, aqueles que estariam no registro da\u00a0<em>\u201ctonteria\u201d<\/em>, conhecendo apenas a concep\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio. Miller, ent\u00e3o, se serve nesse pref\u00e1cio para sublinhar com destaque que um analista interv\u00e9m com a crian\u00e7a quando a defesa ainda n\u00e3o est\u00e1 cristalizada.<\/p>\n<p>Miller demarca que, do encontro com a linguagem, \u201co sujeito sai esmagado, enterrado pelo significante que o assola\u201d. \u201cEle renasce,\u00a0<em>born again<\/em>, do apelo feito a um segundo significante. Ei-lo entre-dois, recalcado, deslizante,\u00a0<em>ex-sistente<\/em>, sujeito barrado e que se barra\u201d.<\/p>\n<p>Lembra-nos que o homem nasce acorrentado, por ser prisioneiro da linguagem, e que seu estatuto primeiro \u00e9 o de ser objeto. Ser objeto \u201ccausa de desejo de seus pais, se ele tem sorte. Se ele n\u00e3o tem, \u00e9 dejeto do gozo deles\u201d (<em>Ibid<\/em>., p. 03).<\/p>\n<p>Abre-se o flanco para uma discuss\u00e3o a respeito da crian\u00e7a objeto do mercado, do mundo capitalista. Pois, tal como observa, atualmente \u201cos pretendentes a genitores (&#8230;) come\u00e7am por um estudo dos custos antes de se colocar na tarefa de produzir um ser humano\u201d (<em>Ibid<\/em>.). Miller exemplifica com a quest\u00e3o da natalidade francesa, que \u00e9 pr\u00f3spera, e, segundo ele, isso se deve, em parte, \u00e0s disposi\u00e7\u00f5es do legislador. Posto que \u201ca pol\u00edtica \u00e9 antes de tudo uma regula\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es\u201d, \u00e9 \u201cbiopol\u00edtica\u201d, como afirma Foucault.\u00a0<em>The baby business\u00a0<\/em>atinge no mundo atual o seu auge. Traz como exemplo a quest\u00e3o do \u201cfilho para todos\u201d, fazendo men\u00e7\u00e3o a uma das reivindica\u00e7\u00f5es do movimento \u201ccasamento para todos\u201d (defesa dos direitos do casamento gay). Numa outra vertente, podemos acrescentar e mencionar um dos costumes americanos: nos EUA, o grande planejamento, \u00edndice de \u201cresponsabilidade paterna\u201d ou \u201cfamiliar\u201d, \u00e9 prover uma gorda poupan\u00e7a, a um filho crian\u00e7a, que garanta seus estudos at\u00e9 a faculdade.<\/p>\n<p>Retomando o subt\u00edtulo de um outro livro, o de Debora Spar\u00a0<em>How money, science, and politics drive the commerce of conceptions<\/em><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/inconsciente-ate-adolescer#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a>, para terminar seu pref\u00e1cio com uma ironia tenaz (a meu ver, tamb\u00e9m dirigindo-se aos discursos liberais, ou pseudolibert\u00e1rios de direitos), convoca os pol\u00edticos a dirigir um olhar corajoso para o real:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cHomens e mulheres pol\u00edticos, o pior seria que voc\u00eas fechassem os olhos para continuar a sonhar com um mundo ideal no qual papai batalha e mam\u00e3e costura. Saibam dirigir um olhar corajoso para o real. S\u00f3 ent\u00e3o voc\u00eas ter\u00e3o a oportunidade de agir pelas liberdades\u201d (<em>Ibid<\/em>. p. 03).<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o \u00e1pice do pref\u00e1cio, que assim se conclui. Entretanto, Miller, nesse pequeno e instigante texto, assinala o fato que todas as culturas estabelecem procedimentos destinados a fazer o sujeito nascer ou renascer atrav\u00e9s da imposi\u00e7\u00e3o de um significante suplementar. \u201cGravam-se, cortam-se, perfuram-se, suturam-se, peda\u00e7os do corpo: circuncis\u00e3o, batismo, infibula\u00e7\u00e3o (&#8230;). Mais tarde, todos os tipos de ritos de inicia\u00e7\u00e3o (&#8230;). S\u00e3o sempre manobras, fingimentos, falcatruas, com o significante\u201d.<\/p>\n<p>Com esse aspecto pontuado por Miller, introduzimos a quest\u00e3o da adolesc\u00eancia e das ofertas discursivas de que os jovens podem lan\u00e7ar m\u00e3o, ora para responderem a um dano causado pelo encontro com o real traum\u00e1tico, ora para se danarem ainda mais. A presen\u00e7a de um trabalho em an\u00e1lise pode servir, ter a fun\u00e7\u00e3o de fazer um sujeito renascer por outra via, qual seja: oferecendo uma parceria real, que aposta na fala e nas inven\u00e7\u00f5es singulares.<\/p>\n<p>Para enla\u00e7ar ao tema dos impasses de pais e filhos, percorremos, junto ao coment\u00e1rio desse pref\u00e1cio de Miller, o caso cl\u00ednico de uma adolescente: o caso Luma<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/inconsciente-ate-adolescer#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a>, sua inven\u00e7\u00e3o e sintomas, que parecem abalar as defesas familiares, ou melhor, tocam no princ\u00edpio organizador da fam\u00edlia \u2014 um pai de \u201ccora\u00e7\u00e3o partido\u201d e uma m\u00e3e tomada de ang\u00fastia frente \u00e0 sexualidade feminina no enlace da quest\u00e3o hist\u00e9rica \u201csou homem ou mulher?\u201d.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia, com sua linguagem de fam\u00edlia, \u00e9 ber\u00e7o do falasser, que \u00e9 filho do sintoma. Como escreveu Ceres R\u00fabio em seus apontamentos, o filho, filho do sintoma, adv\u00e9m de um mal-entendido sobre o estatuto do corpo, na inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual; faz acontecimento, e a crise do mal-entendido reaparece na adolesc\u00eancia, fazendo, por sua vez, acontecimento, furo no ber\u00e7o adormecido do casal parental.<\/p>\n<p>O que exaspera os pais de Luma? Aos doze anos, ela se fez passar por um rapaz de dezoito para namorar virtualmente uma menina tamb\u00e9m de doze anos.<\/p>\n<p>A filha, tratada como \u201cadulta desde beb\u00ea\u201d, inteligente e d\u00f3cil, encontra-se perdida na encruzilhada que se desenha na adolesc\u00eancia. Seus pais a tomam como uma mentirosa compulsiva. Tal passagem remete ao coment\u00e1rio de Roy (2021, p. 03), de que as fam\u00edlias contempor\u00e2neas \u201csustentam os ideais familiares explorando a discrep\u00e2ncia inevit\u00e1vel entre a \u2018crianc\u0327a-perfeita\u2019 e a \u2018crianc\u0327a-terri\u0301vel\u2019, entre a crianc\u0327a-falo prometida pelo ideal e a crianc\u0327a-objeto, ser de gozo\u201d. Marco da divisa\u0303o de \u201cuma mulher ou um homem quando eles se tornam \u2018pai\u2019 ou \u2018m\u00e3e\u2019\u201d (<em>Ibid<\/em>.)<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/inconsciente-ate-adolescer#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a>. A crian\u00e7a, no caso, essa adolescente, passa a exasperar, em cada um deles,<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201ca tens\u00e3o entre a mais-valia que conta com o acesso a significantes mestres e o efeito de castra\u00e7\u00e3o que, por sua vez, e\u0301 registrado como perda, sen\u00e3o como falta. Ao n\u00e3o ser tomada por um dizer singular, essa divisa\u0303o, ent\u00e3o sentida como insuport\u00e1vel, e\u0301 projetada sobre a crian\u00e7a, que assume os tra\u00e7os de um ser enganador\u201d<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/inconsciente-ate-adolescer#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a>\u00a0(<em>Ibid<\/em>.).<\/p>\n<p>As notas e o interesse da adolescente pela escola decaem; passa a n\u00e3o gostar do pr\u00f3prio corpo e a vestir roupas largas. Assim, inventa um personagem e pesquisa sobre a transexualidade e a hormoniza\u00e7\u00e3o. Apavorados, tiram dela o celular e o\u00a0<em>tablet<\/em>, ou seja, as telas por onde ela experimentava construir suas perguntas e vivenciar sua fantasia, com os recursos da sua \u00e9poca, n\u00e3o sem recorrer aos\u00a0<em>semblants<\/em>. Com o recurso ao imagin\u00e1rio como falasser, fez do seu corpo um objeto do jogo que inventava; uma mat\u00e9ria na cena do encontro virtual, na internet, para tratar seu gozo, percorrer uma posi\u00e7\u00e3o sexuada. Lembrando que o termo imagin\u00e1rio, tal como Lacan (1975, p. 30) ressalta em RSI, \u201cn\u00e3o quer dizer pura imagina\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que da mesma forma, se podemos fazer com que o imagin\u00e1rio ex-sista, \u00e9 que se trata de um outro Real\u201d.<\/p>\n<p>Para Lacan (1975, p. 30), \u201ca consist\u00eancia para o falasser, para o ser falante, \u00e9 o que se fabrica e que se inventa\u201d. Qual \u00e9 o estatuto da inven\u00e7\u00e3o de Luma? Tratar-se-ia de saber como uma mulher responde ao ser abordada por um homem? Construir um saber sobre o que \u00e9 uma mulher fazendo-se o homem?<\/p>\n<p>Curiosamente, a novidade que \u201cveio dar \u00e0 praia\u201d<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/inconsciente-ate-adolescer#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a>\u00a0na adolesc\u00eancia de Luma n\u00e3o traz algo t\u00e3o in\u00e9dito assim. A m\u00e3e conta que, aos quatro anos, Luma se recusava a usar a saia da escola e, aos oito, inventava personagens masculinos para os jogos on-line. A primeira manifesta\u00e7\u00e3o da adolesc\u00eancia, como resposta \u00e0 puberdade, faz retorno a um tempo pr\u00e9-ed\u00edpico, portanto, conturbado, n\u00e3o organizado pelo \u00e9dipo, e o que se passa com Luma parece ilustrar bem esse estatuto.<\/p>\n<p>O pai interpreta o fato como \u201cdoen\u00e7a do cora\u00e7\u00e3o partido\u201d, a m\u00e3e identifica o sofrimento da filha ao dela pr\u00f3prio. E qual seria esse? Para ela, s\u00f3 quando teve a filha nos bra\u00e7os cessou sua ang\u00fastia frente aos impasses do feminino. E seu sintoma toca uma das ins\u00edgnias do feminino, que culminou quando a filha tinha quatro anos, idade em que esta responde com a recusa de usar saias. Trata-se de uma literalidade corp\u00f3rea do todo f\u00e1lico, sem espa\u00e7o ao n\u00e3o-todo.<\/p>\n<p>Luma, no encontro com a analista, vai dizer \u00e9 da sua solid\u00e3o: \u201cum vazio, uma dor no peito, um desespero que faz o cora\u00e7\u00e3o disparar\u201d. No seu cub\u00edculo, tamb\u00e9m imposto pela pandemia, experimenta uma escurid\u00e3o, o tempo que \u201cgira e n\u00e3o passa\u201d, seu nada, ou \u201co vazio sufocante\u201d, bom nome para cernir a insist\u00eancia da demanda parental.<\/p>\n<p>Roy (2021, p. 04) pontua que, na zona de aliena\u00e7\u00e3o significante, oculta-se \u201co que circula como desejo e o que se deposita como gozo em jogo, para cada um dos parceiros\u201d<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/inconsciente-ate-adolescer#_edn7\" name=\"_ednref7\">[7]<\/a>, nessa interse\u00e7\u00e3o em que o \u201cprocesso de separa\u00e7\u00e3o se funda, dos desmames da inf\u00e2ncia at\u00e9 as aventuras tumultuadas da adolesc\u00eancia\u201d<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/inconsciente-ate-adolescer#_edn8\" name=\"_ednref8\">[8]<\/a>\u00a0(<em>Ibid<\/em>.). Na tentativa de separa\u00e7\u00e3o dos pais, interpela-os e, de certa forma, evita perguntar-se \u201co que o Outro quer de mim?\u201d, aspecto de maior ang\u00fastia. Luma, com essa resposta, recusa uma demanda e, dessa forma, \u201cn\u00e3o dar a eles o que ela n\u00e3o pode dar\u201d, seu ser singular \u2014 passar a ser como eles queriam que ela fosse. \u00a0Ou, ainda, fornecer aos pais, com o seu sintoma, as respostas sobre o que fazer com um cora\u00e7\u00e3o partido e com as ins\u00edgnias do feminino.<\/p>\n<p>Dessa maneira, dar o que n\u00e3o se tem, o amor, passa a fazer quest\u00e3o em an\u00e1lise. A \u201cmenina estranha\u201d, que n\u00e3o quer mais ser parecida com os pais; a aliena\u00e7\u00e3o, no entanto, segue seu curso sob a forma de\u00a0<em>acting-out<\/em>. Luma edita, no seu mundo virtual, a quest\u00e3o do enlace e desenlace do mal-entendido do seu par parental?<\/p>\n<p>Existe um real em jogo e \u00e9 preciso ofertar um lugar de fala, para que ela reinicie seu jogo, dessa vez, com a analista. Tendo sido privada das telas, a impossibilidade do uso das redes para fazer suas fic\u00e7\u00f5es e la\u00e7os interrompe o jogo fantasm\u00e1tico no qual buscava saber o que \u00e9 ser uma menina de doze anos. Para a m\u00e3e, um acontecimento de corpo faz marca de gozo e de perda de ins\u00edgnias do feminino, colocando no real a quest\u00e3o hist\u00e9rica por excel\u00eancia \u2014 sobre ser homem ou ser mulher.<\/p>\n<p>Para Lacan (1975\/2007, p. 129), a todo instante criamos uma l\u00edngua, a l\u00edngua \u00e9 viva, \u201cna medida em que cada um, a cada instante, d\u00e1 uma m\u00e3ozinha \u00e0 l\u00edngua que fala\u201d, o que faz com que exista apenas \u201cinconscientes particulares\u201d. O encontro com a analista e suas primeiras interven\u00e7\u00f5es promovem efeitos. Roy (2021, p. 05) acentua que Lacan<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201camplia o conceito de inconsciente freudiano, enfatizando ai\u0301, o tra\u00e7o de uma passagem: algo aconteceu, um rel\u00e2mpago chegou. Um equ\u00edvoco, n\u00e3o ha\u0301 nada mais pr\u00f3ximo, no ser falante, para fazer signo do acontecimento contingente. N\u00e3o s\u00e3o novas significa\u00e7\u00f5es que se trata de isolar, mas, a partir de um equ\u00edvoco (<em>une be\u0301vue<\/em>), na medida em que cada um, a cada instante, da\u0301 uma m\u00e3ozinha a\u0300 l\u00edngua que fala\u201d<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/inconsciente-ate-adolescer#_edn9\" name=\"_ednref9\">[9]<\/a>.<\/p>\n<p>O significante \u201ctrans\u201d, que a adolescente diz aos pais, se modifica para \u201cpan\u201d quando endere\u00e7ado \u00e0 analista, e ela p\u00f5e-se a falar dos seus imposs\u00edveis de dizer, fazendo o tempo dessa travessia da adolesc\u00eancia em an\u00e1lise, construindo o saber e o caminho enquanto avan\u00e7a. Novos arranjos que permitam um fazer com o gozo atordoante, falar para poder, quem sabe, fazer-se por escrito \u2014 ela quer ser escritora. Ela passa a fazer poesia dos \u201cexageros\u201d e ser escritora do seu \u201cintenso insuport\u00e1vel\u201d. Com a licen\u00e7a po\u00e9tica da transfer\u00eancia.<\/p>\n<p>Por fim, de volta ao come\u00e7o (do texto), o que \u00e9 o inconsciente faz resson\u00e2ncia \u00e0 pergunta deixada como ponto de causa nodal a uma Escola, a saber: o que \u00e9 um analista? O que \u00e9 um analista de crian\u00e7as e de adolescentes?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>C\u00c1RDENAS, M.-H. Inconsciente. In:\u00a0<strong>Scilicet<\/strong>: As psicoses ordin\u00e1rias e as outras &#8211; sob transfer\u00eancia. S\u00e3o Paulo, Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, 2018.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1915). O inconsciente. In:\u00a0<strong>Volume XV, Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud<\/strong>. Rio de Janeiro, Imago, 1974.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1966). Acerca da estrutura como imis\u00e7\u00e3o de uma alteridade pr\u00e9via a um sujeito qualquer. Confer\u00eancia em Baltimore, 1966.\u00a0<strong>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/strong>, n. 77, S\u00e3o Paulo, Edic\u00f5es Eolia, 2017.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1969).\u00a0<strong>O Semin\u00e1rio, livro 16:<\/strong>\u00a0de um Outro a outro. Rio de Janeiro, Zahar Editor, 2008.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1975).\u00a0<strong>O Semin\u00e1rio, livro 23:<\/strong>\u00a0O sinthoma. Rio de Janeiro: Zahar Editor, 2007.<\/h6>\n<h6>LAURENT, E. Cidades Anal\u00edticas. In:\u00a0<strong>A sociedade do sintoma:<\/strong>\u00a0a psican\u00e1lise, hoje. Rio de Janeiro, Contra Capa, 2007.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. Intui\u00e7\u00f5es Milanesas.\u00a0<strong>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana online nova se\u0301rie<\/strong>.<br \/>\nAno 2, N\u00famero 5, Julho 2011. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_5\/Intui%C3%A7%C3%B5es_milanesas.pdf\">http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_5\/Intui\u00e7\u00f5es_milanesas.pdf<\/a>\u00a0Acesso em out. de 2021.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-,A. Pref\u00e1cio. In: Bonnnaud, H\u00e9l\u00e8ne.\u00a0<strong>L&#8217;Inconscient de l&#8217;enfant. Du sympt\u00f4me au d\u00e9sir de savoir<\/strong>. (Trad. Cristina Drummond) Paris: Navarin \u00c9diteur, 2013 (circula\u00e7\u00e3o interna).<\/h6>\n<h6>ROY, D. Parents exasp\u00e9r\u00e9s: enfants terribles. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"https:\/\/institut-enfant.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/PARENTS_EXASPERES.pdf\">https:\/\/institut-enfant.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/PARENTS_EXASPERES.pdf<\/a>\u00a0Acesso em: set. de 2021.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/inconsciente-ate-adolescer#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a>\u00a0Coment\u00e1rio do pref\u00e1cio de Jacques-Alain Miller para o livro\u00a0<em>L&#8217;Inconscient de l&#8217;enfant: du sympt\u00f4me au d\u00e9sir de savoir<\/em>, de H\u00e9l\u00e8ne Bonnnaud. Apresentado no N\u00facleo de Pesquisa e Investiga\u00e7\u00e3o em Psican\u00e1lise com Crian\u00e7as da Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica do IPSM-MG em 20\/10\/2021.21.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/inconsciente-ate-adolescer#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a>\u00a0<em>Como o dinheiro, a ci\u00eancia e as pol\u00edticas\u00a0<\/em><em>impulsionam o com\u00e9rcio de concep\u00e7\u00f5es<\/em>, tradu\u00e7\u00e3o nossa.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/inconsciente-ate-adolescer#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a>\u00a0Caso apresentado e autorizado para estar presente neste texto, pela colega Ceres R\u00fabio, psicanalista participante da Se\u00e7\u00e3o Leste\/Oeste (EBP-SLO) e do Bilboqu\u00ea \u2014 N\u00facleo de Pesquisa em Psican\u00e1lise com Crian\u00e7a, Rede CEREDA, do Campo Freudiano.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/inconsciente-ate-adolescer#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a>\u00a0No original:\u00a0<em>\u201cIls viennent aujourd\u2019hui soutenir les ide\u0301aux familiaux en exploitant l\u2019e\u0301cart ine\u0301luctable entre &#8220;enfant-le-parfait&#8221; et &#8220;enfant-le- terrible&#8221;, entre l\u2019enfant-phallus promis par l\u2019ide\u0301al et l\u2019enfant-objet, e\u0302tre de jouissance. Cette division percute une femme ou un homme quand ils deviennent &#8220;pe\u0300re&#8221; ou &#8220;me\u0300re&#8221;.<\/em><\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/inconsciente-ate-adolescer#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a>\u00a0No original: \u201c<em>la tension entre la plus-value que fait espe\u0301rer l\u2019acce\u0300s a\u0300 ces signifiants-mai\u0302tres et l\u2019effet de castration, qui lui, s\u2019enregistre comme perte, si ce n\u2019est comme manque. A\u0300 ne pas e\u0302tre prise en charge par un dire singulier, cette division, alors ressentie comme insupportable, est projete\u0301e sur l\u2019enfant qui prend les traits d\u2019un e\u0302tre trompeur<\/em>\u00a0(\u2026).\u201d<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/inconsciente-ate-adolescer#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a>\u00a0Trecho da m\u00fasica \u201cA novidade\u201d, de Gilberto Gil.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/inconsciente-ate-adolescer#_ednref7\" name=\"_edn7\">[7]<\/a>\u00a0\u201cD<em>ans cette zone d\u2019ali\u00e9nation signifiante, ce qui circule comme d\u00e9sir et ce qui se de\u0301pose de jouissance en jeu, pour chacun des partenaires<\/em>\u201d<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/inconsciente-ate-adolescer#_ednref8\" name=\"_edn8\">[8]<\/a>\u00a0\u201c<em>C\u2019est en effet sur cette intersection que se fonde le moindre processus de s\u00e9paration, des sevrages de la petite enfance jusqu\u2019aux frasques tumultueuses de l\u2019adolescence<\/em>\u201d.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/inconsciente-ate-adolescer#_ednref9\" name=\"_edn9\">[9]<\/a>\u00a0\u201c<em>\u00c9largit le concept de l\u2019inconscient freudien, en mettant l\u2019accent sur la trace d\u2019un passage: quelque chose a eu lieu, en un e\u0301clair c\u2019est arriv\u00e9\u0301. Une be\u0301vue, il n\u2019y a pas plus proche, chez l\u2019e\u0302tre parlant, pour faire signe de l\u2019e\u0301ve\u0301nement contingent. Ce ne sont pas de nouvelles significations qu\u2019il s\u2019agit d\u2019isoler, mais, a\u0300 partir d\u2019une be\u0301vue, \u201cle petit coup de pouce que chacun donne a\u0300 la langue qu\u2019il parle<\/em>\u201d.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CRISTIANE BARRETO Psicanalista, membro da EBP\/AMP cristianebarretonapoli@yahoo.com.br Resumo:\u00a0O texto comenta o pref\u00e1cio de Jacques-Alain Miller para o livro\u00a0L&#8217;Inconscient de l&#8217;enfant: du sympt\u00f4me au d\u00e9sir de savoir, de H\u00e9l\u00e8ne Bonnnaud. Para tanto, primeiro contextualiza o inconsciente freudiano, seguido das elabora\u00e7\u00f5es lacanianas do inconsciente estruturado como uma linguagem ao inconsciente real. 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