{"id":1833,"date":"2022-03-19T06:41:12","date_gmt":"2022-03-19T09:41:12","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1833"},"modified":"2025-12-01T13:16:52","modified_gmt":"2025-12-01T16:16:52","slug":"racismo-e-identidade-um-guia-lacaniano-para-entender-a-questao1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2022\/03\/19\/racismo-e-identidade-um-guia-lacaniano-para-entender-a-questao1\/","title":{"rendered":"RACISMO E IDENTIDADE: UM GUIA LACANIANO PARA ENTENDER A QUEST\u00c3O[1]"},"content":{"rendered":"<h6>ANDREA M\u00c1RIS CAMPOS GUERRA<br \/>\nPsicanalista. Professora adjunta do Departamento de Psicologia da UFMG<br \/>\ne do Programa de P\u00f3s- gradua\u00e7\u00e3o em Psicologia da UFMG.<br \/>\n<a href=\"mailto:andreamcguerra@gmail.com\">andreamcguerra@gmail.com<\/a><\/h6>\n<blockquote><p><strong>Resumo:\u00a0<\/strong>O tema da ra\u00e7a reduzido \u00e0 perspectiva imagin\u00e1ria, nega a articula\u00e7\u00e3o entre os tr\u00eas registros \u2013 real, simb\u00f3lico e imagin\u00e1rio \u2013 na sua conforma\u00e7\u00e3o. Numa l\u00f3gica decolonial, retomamos a matriz inconsciente que articula toda forma de segrega\u00e7\u00e3o, para problematiz\u00e1-la, em seguida, a partir do esquema \u00f3ptico de Bouasse, localizando a dimens\u00e3o do Outro, cujos poder, saber, ser e g\u00eanero sofrem epistemic\u00eddio sistem\u00e1tico. Nesse di\u00e1logo, apostamos numa teoria e numa pr\u00e1xis psicanal\u00edticas que abalem pulsionalmente essa estrutura hegem\u00f4nica e normativa.<\/p>\n<p><strong>Palavras chaves<\/strong>: Psican\u00e1lise; Racismo; Colonialidade; Segrega\u00e7\u00e3o; Gozo<\/p>\n<p><strong>Racism and Identity: a lacanian guide to understanding the issue<\/strong><\/p>\n<p><strong>Abstract:\u00a0<\/strong>The theme of race, reduced to an imaginary perspective, denies the articulation between the three registers \u2013 real, symbolic and imaginary \u2013 in its conformation. In a decolonial logic, we return to the unconscious matrix that articulates all forms of segregation, to then problematize it from Bouasse&#8217;s optical scheme, locating the dimension of the Other, whose power, knowledge, being and gender suffer systematic epistemicide. In this dialogue, we bet on a psychoanalytic theory and praxis that unsettles this hegemonic and normative structure.<\/p>\n<p><strong>Keywords:\u00a0<\/strong>Psychoanalysis; Racism; Coloniality; Segregation;\u00a0<em>Jouissance<\/em>.<\/p><\/blockquote>\n<div id=\"attachment_1834\" style=\"width: 692px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/racismo.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"682\" data-large_image_height=\"678\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1834\" class=\"wp-image-1834 size-full\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/racismo.jpg\" alt=\"\" width=\"682\" height=\"678\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/racismo.jpg 682w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/racismo-300x298.jpg 300w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/racismo-150x150.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 682px) 100vw, 682px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1834\" class=\"wp-caption-text\">Desali, s\/t<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A segrega\u00e7\u00e3o em Psican\u00e1lise<\/em><\/p>\n<p>A tese psicanal\u00edtica da segrega\u00e7\u00e3o, enunciada em Freud, encontra no gozo seu articulador m\u00f3vel segundo Lacan. Freud, a partir do narcisismo das pequenas diferen\u00e7as, funda sua condi\u00e7\u00e3o de possibilidade. O outro \u201cmerecer\u00e1 meu amor, se for de tal modo\u00a0<em>semelhante<\/em>\u00a0a mim, que eu possa me amar nele\u201d (FREUD, 1930 [1929], p. 131).<\/p>\n<p>Ele pinta um cen\u00e1rio ainda mais corrosivo. \u201cOs homens n\u00e3o s\u00e3o criaturas gentis que desejam ser amadas e que no m\u00e1ximo podem defender-se quando atacadas; pelo contr\u00e1rio s\u00e3o criaturas em cujos dotes pulsionais deve-se levar em conta uma poderosa quota de agressividade\u201d (FREUD, 1930 [1929], p. 133). Sabemos que o resultado disso \u00e9 o de que o pr\u00f3ximo sirva de ajudante potencial e objeto sexual, sobre o qual agressividade, abuso, explora\u00e7\u00e3o humilha\u00e7\u00e3o, sofrimento, tortura e morte seriam destinos plaus\u00edveis.<\/p>\n<p>Lacan introduz a distin\u00e7\u00e3o entre pr\u00f3ximo e Outro. \u201cO\u00a0<em>pr\u00f3ximo<\/em>\u00a0\u00e9 a imin\u00eancia intoler\u00e1vel do gozo. O\u00a0<em>Outro<\/em>\u00a0\u00e9 apenas sua terraplanagem higienizada&#8221; (LACAN, 1968-69\/2008, p. 219). O gozo \u00e9 por ele retomado como centralidade de uma zona proibida na qual o prazer seria intenso demais. Essa distribui\u00e7\u00e3o do prazer, no seu limite \u00edntimo, \u00e9 o que condiciona a proibi\u00e7\u00e3o do que, em s\u00edntese, constitui o que \u00e9 mais pr\u00f3ximo, embora seja externo.\u00a0<em>Extimidade<\/em>.<\/p>\n<p>Lacan distingue\u00a0<em>Die Sachen<\/em>\u00a0\u2013 a coisa circunscrita pelo simb\u00f3lico \u2013 e\u00a0<em>Das Ding<\/em>\u00a0\u2013 A Coisa em si, real. \u201c\u00c9 numa exterioridade jaculat\u00f3ria que se identifica esse algo pelo qual o que me \u00e9 mais \u00edntimo \u00e9, justamente, aquilo que sou obrigado a s\u00f3 poder reconhecer do lado de fora\u201d (LACAN, 1968-69\/2008, p. 219).\u00a0<em>Das Ding<\/em>\u00a0\u00e9 introduzido por Freud exatamente pelo complexo do Outro \u2013\u00a0<em>Nebenmensch<\/em>. O mais pr\u00f3ximo que n\u00e3o consigo situar: \u201conde existir\u00e1 fora desse centro de mim mesmo que n\u00e3o posso amar, alguma coisa que me seja mais pr\u00f3xima\u201d (LACAN, 1968-69\/2008, p. 219). Miller colocar\u00e1 a radicalidade do gozo na matriz da segrega\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Sabemos que o estatuto fundamental do objeto \u00e9 o de sempre ter sido roubado pelo Outro. Esse roubo de gozo \u00e9 o que escrevemos como\u00a0<em>menos fi<\/em>\u00a0(-\u03d5) que, como se sabe, \u00e9 o matema da castra\u00e7\u00e3o. Se o problema tem o ar de insol\u00favel, \u00e9 porque o Outro \u00e9 Outro dentro de mim mesmo. A raiz do racismo \u00e9 o \u00f3dio de meu pr\u00f3prio gozo. N\u00e3o h\u00e1 outra raiz a n\u00e3o ser essa. Se o Outro est\u00e1 no interior de mim mesmo em posi\u00e7\u00e3o de extimidade, trata-se igualmente de meu pr\u00f3prio \u00f3dio (MILLER, 1985-1986).<\/p>\n<p>Uma segunda distin\u00e7\u00e3o milleriana, agora entre \u00f3dio e agressividade, destaca que o \u00f3dio visa o real no Outro. Se a agressividade<u>,<\/u>\u00a0especular, dirige-se ao objeto pela vertente do ideal [i(a)], o \u00f3dio radica na mais absoluta impossibilidade de especulariza\u00e7\u00e3o ou representa\u00e7\u00e3o [-\u03d5 e S(A)].<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">N\u00e3o basta questionar o \u00f3dio do Outro, pois isso colocaria justamente a quest\u00e3o de saber por que esse Outro \u00e9 Outro. No \u00f3dio do Outro h\u00e1, certamente, algo mais do que a agressividade. H\u00e1 uma constante dessa agressividade, que merece o nome de \u00f3dio, e que visa o real no Outro. O que faz com que esse Outro seja Outro para que se possa odi\u00e1-lo, para que se possa odi\u00e1-lo em seu ser? Pois bem, \u00e9 o \u00f3dio do gozo do Outro. \u00c9 exatamente essa a forma mais geral que se pode dar a esse racismo moderno tal como o verificamos. \u00c9 o \u00f3dio da maneira particular segundo a qual o Outro goza (MILLER, 1985-1986).<\/p>\n<p>Em s\u00edntese: a segrega\u00e7\u00e3o se define como \u00f3dio que visa o real do\u00a0<em>meu<\/em>\u00a0gozo, vivido\u00a0<em>extimamente<\/em>\u00a0como Outro no pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p><em>Racismo, o Outro e o Gozo<\/em><\/p>\n<p>No semin\u00e1rio 18, Lacan reafirma que \u201cbasta um mais-de-gozar para que se constitua um racismo [&#8230;] o que nos amea\u00e7a quanto aos pr\u00f3ximos anos\u201d (LACAN, 1971\/2009, p. 29). A no\u00e7\u00e3o de ra\u00e7a, como discurso em a\u00e7\u00e3o (LACAN, 1972\/2003, p. 462-463), implica o vazio central do ser, de onde qualquer tentativa de sutura, seja ela real, simb\u00f3lica ou imagin\u00e1ria, emana.<\/p>\n<p>Laurent fala de um trauma vivido pelo avesso, um real imposs\u00edvel de ser absorvido pelo simb\u00f3lico\u00a0<em>e<\/em>\u00a0vice-versa, um simb\u00f3lico imposs\u00edvel de ser absorvido pelo real. Se \u201cde fato, o racismo muda seus objetos \u00e0 medida em que as formas sociais se modificam, [&#8230;] conforme a perspectiva de Lacan, sempre jaz, numa comunidade humana, a rejei\u00e7\u00e3o de um gozo inassimil\u00e1vel, dom\u00ednio de uma barb\u00e1rie poss\u00edvel\u201d (LAURENT, 2014). Esse gozo implica o vazio central na estrutura do saber, que angustia e edifica defesas.<\/p>\n<p>O racismo implica, assim, radicalmente, uma rejei\u00e7\u00e3o primordial no n\u00edvel do simb\u00f3lico que retorna como modo de gozo no real e se articula com efeitos imagin\u00e1rios. \u201cA ra\u00e7a se constitui pelo modo como se transmitem, pela ordem de um discurso, os lugares simb\u00f3licos, aquele com que se perpetua a ra\u00e7a dos senhores e igualmente dos escravos\u201d (LACAN, 1972\/2003, p. 462). Nesse plano RSI, onde se situa o Eu? \u201cSabemos que um espelho esfe\u0301rico pode produzir, de um objeto situado no ponto de seu centro de curvatura, uma imagem que lhe e\u0301 sim\u00e9trica, mas, sobre a qual, o importante e\u0301 que ela e\u0301 uma imagem real\u201d (LACAN, 1961\/1998, p. 679).<\/p>\n<p>Lacan introduz o espelho plano no experimento o\u0301ptico, de modo a elaborar um modelo teo\u0301rico para \u201cas rela\u00e7\u00f5es do Eu Ideal com o Ideal do Eu\u201d (LACAN, 1961\/1998, p. 679), permitindo distinguir nela a dupla incid\u00eancia do imagin\u00e1rio e do simb\u00f3lico (LACAN, 1961\/1998, p. 680-681). A montagem lacaniana que completara\u0301 o aparelho ser\u00e1\u0301 a introdu\u00e7\u00e3o de um espelho plano, como constatamos abaixo.<\/p>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/experienciado_buqu-1.png\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"161\" data-large_image_height=\"116\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-3279 size-full aligncenter\" src=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/experienciado_buqu-1.png\" alt=\"\" width=\"161\" height=\"116\" \/><\/a><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/espelho.png\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"213\" data-large_image_height=\"144\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-3280 aligncenter\" src=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/espelho.png\" alt=\"\" width=\"213\" height=\"144\" \/><\/a><\/p>\n<p>Assim, n\u00e3o h\u00e1 uma unidade do Eu. O Eu se identificaria, no n\u00edvel do i(a) com uma imagem real, articulada simbolicamente pelo Ideal de Eu, I(A), restando sempre n\u00e3o especulariz\u00e1vel o objeto subtra\u00eddo (- \u03d5), ponto de ancoragem do gozo, resto matricial nos fen\u00f4menos segregat\u00f3rios. O resultado \u00e9 a imagem virtual, que comporta a imagem real &#8211; i\u2019(a)-, refletida no espelho plano. Miller indica que o racismo adv\u00e9m exatamente da localiza\u00e7\u00e3o desse vazio que a interposi\u00e7\u00e3o do espelho plano visa ocultar.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Certamente, ao se invocar as causas econ\u00f4micas, sociais e geopol\u00edticas, pode-se explicar um vasto campo desse fen\u00f4meno; mas resta, apesar de tudo, alguma coisa que faz pensar que ele n\u00e3o se d\u00e1 somente nesse n\u00edvel. H\u00e1 um resto que poder\u00edamos chamar de causas obscuras do racismo, e n\u00e3o \u00e9 certo que seja suficiente protestar contra isso. Pode ser que protestar contra isso seja o mesmo que esconder o rosto e desviar o olhar do que est\u00e1 em quest\u00e3o (MILLER, 1985-1986).<\/p>\n<p>A segrega\u00e7\u00e3o toma forma de racismo no ponto mesmo dessa causa obscura que aloca como I(A)\u00a0<strong>\u2014\u00a0<\/strong>espelho plano matricial da constitui\u00e7\u00e3o de qualquer imagem de Eu no Ocidente &#8211; a branquitude como referente universal. Enquanto S1, o Branco equivalido ao Humano, coloca em marcha os discursos em a\u00e7\u00e3o (SESHADRI-CROOKS, 2002). Forjamos uma especularidade pretensamente universal de Ideal de Eu na composi\u00e7\u00e3o do agrupamento humano ocidental, a partir da ilus\u00e3o de que o Branco n\u00e3o \u00e9 uma cor, uma ra\u00e7a, mas que, invisibilizado, \u00e9 o pr\u00f3prio Humano.<\/p>\n<p><em>A matriz decolonial do racismo<\/em><\/p>\n<p>Essa forja nasce com a conquista das Am\u00e9ricas e o nascimento da modernidade no ano de 1492 (DUSSEL, 1993). At\u00e9 nosso s\u00e9culo, esse espelho foi assentado com a argamassa do capital neoliberal, com a for\u00e7a militar estatal e tecnol\u00f3gica e o discurso do mestre imperial, fixando o Ideal como se ele fosse verdadeiramente universal e im\u00f3vel. Entretanto o real, n\u00e3o mais equivalido \u00e0 estabilidade da natureza, deixou ver que eram semblantes que ali velavam o vazio central. \u201cAs categorias tradicionais que organizam a exist\u00eancia passam para o n\u00edvel de simples constru\u00e7\u00f5es sociais, votadas \u00e0 desconstru\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 apenas o fato de os semblantes vacilarem, mas de eles serem reconhecidos como semblantes\u201d (MILLER, 2016). O espelho plano, assim fixado, enquadra o gozo e invisibiliza a ra\u00e7a. Por\u00e9m, branco n\u00e3o \u00e9 sem cor. Da\u00ed a necess\u00e1ria distin\u00e7\u00e3o heideggeriana entre\u00a0<em>id\u00eantico<\/em>\u00a0e\u00a0<em>mesmo<\/em>\u00a0com Miller:<\/p>\n<p>Com efeito, se o gozo pode postular esse estatuto de Outro do Outro, eu diria que \u00e9 na medida em que, tal como o colocamos em fun\u00e7\u00e3o na experi\u00eancia anal\u00edtica, ele aparece como o\u00a0mesmo. Ele aparece como o invari\u00e1vel. Eu disse o\u00a0mesmo, e n\u00e3o o id\u00eantico a si. Quando falamos de identidade, de identidade a si, j\u00e1 alojamos a quest\u00e3o no registro significante, com os paradoxos e as dificuldades que ele comporta. Mas o gozo nos obriga a pensar um estatuto do mesmo, que n\u00e3o \u00e9 o id\u00eantico no registro significante. [&#8230;] Dizemos o\u00a0mesmo\u00a0para n\u00e3o implicar os paradoxos significantes da identidade, para opor \u00e0s varia\u00e7\u00f5es do Outro, \u00e0 alteridade que \u00e9 interna ao Outro, a in\u00e9rcia do gozo (MILLER, 1985-1986).<\/p>\n<p>Nessa partilha do gozo, o par sadismo-masoquismo deixa seu lastro hist\u00f3rico como ferida aberta que ganha nas cicatrizes fantasmag\u00f3ricas da escraviza\u00e7\u00e3o o legado vergonhoso de nosso pa\u00eds e do assentamento devastador da modernidade no solo latino-americano.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">O gozo maligno em jogo no discurso racista \u00e9 desconhecimento dessa l\u00f3gica. Ela est\u00e1 no fundamento de todo la\u00e7o social. O crime fundador n\u00e3o \u00e9 o assassinato do pai, mas a vontade de assassinato daquele que encarna o gozo que eu rejeito. Portanto, sempre o antiracismo \u00e9 a reinventar para seguir as novas formas do objeto do racismo, se deformando \u00e0 medida dos remanejamentos das forma\u00e7\u00f5es sociais (LAURENT, 2014).<\/p>\n<p>Na fuga al\u00e9m-mar do avan\u00e7o mu\u00e7ulmano em seu territ\u00f3rio, a Europa criou o Norte e o Sul, abaixo do Equador, e inventou o Ocidente, colocando-se como seu centro. Os mapas-m\u00fandi\u00a0<strong>\u2014\u00a0<\/strong>de antes e depois das grandes navega\u00e7\u00f5es\u00a0<strong>\u2014\u00a0<\/strong>, testemunham a consolida\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica e cartogr\u00e1fica do Novo Mundo sob a estrutura do gozo imperial. Estamos bem longe da facilidade imagin\u00e1ria dos processos identit\u00e1rios. Trata-se do choque dos gozos. Da\u00ed a tenta\u00e7\u00e3o de apelo a um Deus unificador pela egologia cartesiana como estrat\u00e9gia unificadora na conquista das Am\u00e9ricas. Foram necess\u00e1rios quatro epistemic\u00eddios (GROSFOGUEL, 2016) para fundar violentamente essa nova gest\u00e3o epist\u00eamica, ontol\u00f3gica e \u00e9tica das gentes:<\/p>\n<ol>\n<li>Contra os mu\u00e7ulmanos e judeus em nome da pureza do sangue em Al-Andaluz;<\/li>\n<li>Contra os povos ind\u00edgenas nas Am\u00e9ricas e depois na \u00c1sia;<\/li>\n<li>Contra os africanos, aprisionados em seu territ\u00f3rio e depois vendidos e escravizados no territ\u00f3rio americano;<\/li>\n<li>\u00a0Contra as mulheres queimadas vivas sob a alega\u00e7\u00e3o de serem bruxas.<\/li>\n<\/ol>\n<p>A dimens\u00e3o central dessa composi\u00e7\u00e3o do discurso colonial \u00e9 a\u00a0<em>ra\u00e7a<\/em>\u00a0como seu constituinte necess\u00e1rio. \u201cO que deve nos reter \u00e9 o racismo como moderno. Isso n\u00e3o tem nada a ver com o racismo antigo. Trata-se de um racismo [&#8230;] da \u00e9poca da ci\u00eancia e, tamb\u00e9m, da \u00e9poca da psican\u00e1lise\u201d (MILLER, 1985-1986). Quijano (2017) mostra que a substitui\u00e7\u00e3o do\u00a0<em>sangue<\/em>\u00a0pela\u00a0<em>ra\u00e7a<\/em>, institui a modernidade iluminista, racional e liberal que assenta uma nova l\u00f3gica discursiva para nosso tempo. Seu nome \u00e9 colonialidade. \u201cIsso se encarnou sob a fachada \u2013 em geral humanit\u00e1ria \u2013 do colonialismo\u201d, refor\u00e7a Miller (1985-1986).<\/p>\n<p><em>Conclus\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>Classificar \u00e9 identificar (MIGNOLO, 2017). A identidade, submetida a esse regime, n\u00e3o \u00e9 simplesmente imagin\u00e1ria, mas conex\u00e3o que garante o fio do poder e legitima um modo de gozo destrutor tomado como civilizat\u00f3rio. Assim define-se o lugar hier\u00e1rquico de um corpo pela cor, pelo g\u00eanero, pela classe e se mant\u00e9m o regime alterit\u00e1rio do estrangeiro pelo Estado Na\u00e7\u00e3o. \u201cQuem classifica controla o sentido e quem \u00e9 classificado tem que confrontar o sentido que lhe imp\u00f5e a classifica\u00e7\u00e3o\u201d (MIGNOLO, 2017, p. 45).<\/p>\n<p>O sistema n\u00e3o funciona\u00a0<em>per se<\/em>. \u00c9 dessa maneira l\u00f3gica e material que se reduz a negritude ao identitarismo, que se nega a branquitude e seus privil\u00e9gios invisibilizados, que se transforma o gozo s\u00e1dico do plano real em queixa imagin\u00e1ria no plano virtual. Pelo movimento de ocupa\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia racial, a psican\u00e1lise tem escutado e lido a necessidade de levantar o espelho plano e enfrentar o gozo branco \u2013 n\u00e3o invisibilizado na cor \u2013 que lhe subjaz. \u00c9 uma porta aberta. Entra quem se implica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>DUSSEL, Enrique.\u00a0<strong>1492:<\/strong>\u00a0<strong>o encobrimento do Outro. A origem do mito da modernidade<\/strong>. Petr\u00f3polis: Vozes, 1993.<\/h6>\n<h6>FREUD, Sigmund. Mal estar na civiliza\u00e7\u00e3o. In S. Freud,\u00a0<strong>Edi\u00e7\u00e3o standard brasileira das obras psicol\u00f3gicas completas de Sigmund Freud.\u00a0<\/strong>Rio de Janeiro: Imago, 1976 (Trabalho original publicado em 1930 [1929].<\/h6>\n<h6>GROSFOGUEL, Ram\u00f3n. A estrutura do conhecimento nas universidades ocidentalizadas.\u00a0<strong>Dossi\u00ea: Decolonialidade E Perspectiva Negra. Sociedade e Estado<\/strong><em>.<\/em>\u00a02016, 31\u00a0<em>(1).\u00a0<\/em><a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1590\/S0102-69922016000100003\">https:\/\/doi.org\/10.1590\/S0102-69922016000100003<\/a>.<\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques.\u00a0<strong>O saber do psicanalista<\/strong>, Li\u00e7\u00e3o I de 04\/11\/1971. (Semin\u00e1rio n\u00e3o publicado).<\/h6>\n<h6>_____. Observa\u00e7\u00e3o sobre o relat\u00f3rio de Daniel Lagache: \u201cPsican\u00e1lise e estrutura da personalidade\u201d. In: _____.\u00a0<strong>Escritos.<\/strong>\u00a0Rio de Janeiro: Zahar, 1998 (Obra original publicada em [1961]\/1966).<\/h6>\n<h6>_____. O aturdito. In: _____.\u00a0<strong>Outros Escritos<\/strong>. Rio de Janeiro: Zahar, 2003 (Obra original publicada em 1972).<\/h6>\n<h6>_____.\u00a0<strong>O semin\u00e1rio, livro 16: de um Outro ao outro.\u00a0<\/strong>Rio de Janeiro: Zahar, 2008. (Semin\u00e1rio proferido em 1968-1969).<\/h6>\n<h6>_____.\u00a0<strong>O semin\u00e1rio, livro 18: de um discurso que n\u00e3o fosse semblante<\/strong><em>.\u00a0<\/em>Rio de Janeiro: Zahar, 2009. (Semin\u00e1rio proferido em 1971).<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9ric. Racismo 2.0.\u00a0<strong>Lacan Quotidien<\/strong><em>,\u00a0<\/em>2014, 371, s\/p. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"http:\/\/ampblog2006.blogspot.com\/2014\/02\/lacan-cotidiano-n-371-portugues.html\">http:\/\/ampblog2006.blogspot.com\/2014\/02\/lacan-cotidiano-n-371-portugues.html<\/a><\/h6>\n<h6>QUIJANO, An\u00edbal. Colonialidad del poder y subjetividad en Am\u00e9rica Latina. In: Casta\u00f1ola, M. A. e Gonz\u00e1lez (coord).\u00a0<strong>Decolonialidad y psicoan\u00e1lisis.<\/strong>\u00a0Navarra: M\u00e9xico, 2017.<\/h6>\n<h6>MIGNOLO, Walter. Colonialidad y sujeci\u00f3n: classificaci\u00f3n, identificaci\u00f3n, desidenteficaci\u00f3n, sociog\u00e9nesis. In: Casta\u00f1ola, M. A. e Gonz\u00e1lez (coord).\u00a0<strong>Decolonialidad y psicoan\u00e1lisis<\/strong>. Navarra: M\u00e9xico, 2017.<\/h6>\n<h6>MILLER, Jacques-Alain. Racismo e Extimidade.\u00a0<strong>Derivas anal\u00edticas<\/strong><em>,\u00a0<\/em>s\/p, 2014. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"http:\/\/revistaderivasanaliticas.com.br\/index.php\/accordion-a-2\/o-entredois-ou-o-espaco-do-sujeito#_edn2\">http:\/\/revistaderivasanaliticas.com.br\/index.php\/accordion-a-2\/o-entredois-ou-o-espaco-do-sujeito#_edn2<\/a>).<\/h6>\n<h6>SESHADRI-CROOKS, Kalpana.\u00a0<strong>Desiring whiteness: a lacanian analysis of race<\/strong>. Londres: Routledge, 2002.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/racismo-identidade#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a>\u00a0Texto apresentado no N\u00facleo de Pesquisa e Investiga\u00e7\u00e3o em Psican\u00e1lise e Psicose da Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica do IPSM-MG, em 17\/09\/2021.<\/h6>\n<h6>psican\u00e1lse &#8211; acolhimento &#8211; lacan &#8211; psicanalise &#8211; psychanayse &#8211; psicoan\u00e1lisis &#8211; corpo<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ANDREA M\u00c1RIS CAMPOS GUERRA Psicanalista. Professora adjunta do Departamento de Psicologia da UFMG e do Programa de P\u00f3s- gradua\u00e7\u00e3o em Psicologia da UFMG. andreamcguerra@gmail.com Resumo:\u00a0O tema da ra\u00e7a reduzido \u00e0 perspectiva imagin\u00e1ria, nega a articula\u00e7\u00e3o entre os tr\u00eas registros \u2013 real, simb\u00f3lico e imagin\u00e1rio \u2013 na sua conforma\u00e7\u00e3o. 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