{"id":1838,"date":"2022-03-19T06:41:12","date_gmt":"2022-03-19T09:41:12","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1838"},"modified":"2025-12-01T13:17:19","modified_gmt":"2025-12-01T16:17:19","slug":"o-quarteto-de-jacques-lacan12","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2022\/03\/19\/o-quarteto-de-jacques-lacan12\/","title":{"rendered":"O QUARTETO DE JACQUES LACAN[1][2]\u00a0"},"content":{"rendered":"<h6>LEONARDO GOROSTIZA<br \/>\nPsicanalista, Analista Membro da Escola. EOL\/AMP<br \/>\n<a href=\"mailto:gorostizaleonardo@gmail.com\">gorostizaleonardo@gmail.com<\/a><\/h6>\n<blockquote><p><strong>RESUMO:\u00a0<\/strong>Leonardo Gorostiza localiza algumas escans\u00f5es, ao longo do ensino de Lacan, que antecipam e apontam para a mudan\u00e7a de \u00eanfase operada, posteriormente, \u201cda verdade para o real\u201d, considerando as quest\u00f5es que essa mudan\u00e7a lan\u00e7a sobre a interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica. Desse modo, Gorostiza afirma que as no\u00e7\u00f5es de inj\u00faria, opacidade e jaculat\u00f3ria, juntamente com a de sil\u00eancio, constituem um quarteto \u2014 num sentido musical e que vai contra a ideia de \u201cconcatena\u00e7\u00e3o\u201d \u2014 com o qual Lacan se orienta para desdobrar a quest\u00e3o: como \u00e9 poss\u00edvel, com a palavra, influenciar o corpo, o gozo e o real?<\/p>\n<p><strong>PALAVRAS-CHAVE:\u00a0<\/strong>inj\u00faria; opacidade; jaculat\u00f3ria; sil\u00eancio; interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>JACQUES LACAN\u2019S QUARTET<br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p><strong>ABSTRACT:\u00a0<\/strong>Leonardo Gorostiza locates in this text, somes scansions along Lacan&#8217;s teaching that anticipate and point to the change of emphasis &#8220;from truth to rela&#8221; that is later operated, and considers that this change raises questions about analytical interpretation. Gorostiza states that the notions of injury, opacity, ejaculation, and silence, constitute a quartet &#8211; in a musical sense and that goes against the idea of &#8220;concatenation&#8221;- through which Lacan unfolds the issue: how is it possible to reach the body, jouissance, and the real, with words?<\/p>\n<p><strong>KEY WORDS:\u00a0<\/strong>injury; opacity; jaculation; silence; interpretation<\/p><\/blockquote>\n<div id=\"attachment_1839\" style=\"width: 2496px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/LEONARDO_GOROSTIZA-2-scaled.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"2486\" data-large_image_height=\"2560\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1839\" class=\"wp-image-1839\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/LEONARDO_GOROSTIZA-2-994x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"659\" height=\"679\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1839\" class=\"wp-caption-text\">Desali, s\/t<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>J\u00e1 nos primeiros tempos de seu ensino, Lacan declarou, de forma sutil, e n\u00e3o expl\u00edcita \u2014 como faria em seu\u00a0<em>Semin\u00e1rio 21<\/em>\u00a0\u2014, que o primeiro significante, o S<sub>1<\/sub>, e o segundo, o S<sub>2<\/sub>, n\u00e3o fazem cadeia; disse\u00a0<em>per se<\/em>\u00a0que n\u00e3o se articulam. Ele intuiu muito precocemente essa problem\u00e1tica que mais tarde teria repercuss\u00f5es decisivas na pr\u00e1tica da interpreta\u00e7\u00e3o, indicando \u201cH\u00e1 em todo saber\u201d, j\u00e1 concebido como coer\u00eancia formal e articula\u00e7\u00e3o, \u201cuma vez constitu\u00eddo, uma dimens\u00e3o de erro, que consiste em esquecer a fun\u00e7\u00e3o criadora da verdade em sua forma nascente\u201d (LACAN, 1985, p. 30). Ou seja, esquecer \u201co valor da interven\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, do surgimento da fala\u201d (LACAN, 1985, p. 29).<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, ali ele enfatizou \u2014 em uma leitura primorosa do di\u00e1logo plat\u00f4nico\u00a0<em>M\u00eanon (ou da virtude)<\/em>\u00a0\u2014 que n\u00f3s, analistas, n\u00e3o poder\u00edamos esquecer a fun\u00e7\u00e3o criadora da palavra que opera nessa dimens\u00e3o da verdade em sua forma nascente (LACAN, 1985). Verdade que, no contexto desse di\u00e1logo, se liga \u00e0 virtude e \u00e0 opini\u00e3o verdadeira. Como \u00e9 sabido, o que S\u00f3crates enfatiza em resposta \u00e0 pergunta de M\u00eanon \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1\u00a0<em>episteme\u00a0<\/em>da\u00a0<em>aret\u00e9<\/em>, ou seja, da virtude (LACAN, 1985). Em outras palavras, que a virtude \u2014 entendida como a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e ligada \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o \u2014 corresponde \u00e0 ortodoxia, a uma a\u00e7\u00e3o definida pelo fato de que o verdadeiro que h\u00e1 a\u00ed n\u00e3o \u00e9 apreens\u00edvel por um saber.<\/p>\n<p>Embora Lacan tenha tido que percorrer um longo caminho para mudar a \u00eanfase da verdade para o real, at\u00e9 chegar \u00e0 formula\u00e7\u00e3o de que S<sub>1<\/sub>\u00a0e S<sub>2\u00a0<\/sub>n\u00e3o fazem uma cadeia, e para sustentar que, para que a interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica tenha um alcance efetivamente real, ser\u00e1 no significante isolado, somente no S<sub>1<\/sub>, onde ela dever\u00e1 incidir, localizamos, no entanto, em seu ensino, algumas escans\u00f5es que indicam o desenvolvimento de sua intui\u00e7\u00e3o original. Uma intui\u00e7\u00e3o da qual Jacques-Alain Miller disse certa vez: \u201cN\u00e3o h\u00e1 nada mais pr\u00f3ximo ao que Lacan orquestra em seu \u00faltimo ensino do que a nota que ele faz ouvir em seu primeiro coment\u00e1rio sobre o M\u00eanon\u201d (MILLER, 2001, [<em>s. p.<\/em>], tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/p>\n<p>Desse ponto de vista, creio que se pode afirmar que as no\u00e7\u00f5es de inj\u00faria, opacidade e jaculat\u00f3ria, juntamente com a de sil\u00eancio, constituem uma esp\u00e9cie de quarteto \u2014 no sentido musical \u2014 com o qual Lacan repetidamente executa essa nota na tentativa de responder ao seu problema, que tamb\u00e9m \u00e9 nosso: como com a palavra, com o significante, \u00e9 poss\u00edvel influenciar o corpo, o gozo e o real. Assim, numa leitura mais avan\u00e7ada e renovada do M\u00eanon, indicando a fixa\u00e7\u00e3o de um significante ao corpo, ele vir\u00e1 a afirmar: \u201cDo n\u00e3o-ensin\u00e1vel, eu criei um matema, por assegur\u00e1-lo fix\u00e3o da opini\u00e3o verdadeira \u2014 fix\u00e3o escrita com x, mas n\u00e3o sem recorrer ao equ\u00edvoco\u201d<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/quarteto-lacan#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a>\u00a0(LACAN, 2003a, p. 484).<\/p>\n<p>Agora, situarei algumas escans\u00f5es em seu ensino que, entendo, o levaram a propor, no contexto de questionar mais uma vez a interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica, se n\u00e3o ser\u00e1 especificamente sua jacula\u00e7\u00e3o \u2014 e n\u00e3o o uso habitual das palavras \u2014 aquilo que poderia dar origem a um efeito de sentido real, ou seja, \u201cum sentido isol\u00e1vel\u201d que vai contra a ideia de \u201cconcatena\u00e7\u00e3o\u201d (LACAN, 1975, p. 17, tradu\u00e7\u00e3o nossa)<sup><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/quarteto-lacan#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a><\/sup>.<\/p>\n<p><em>A inj\u00faria e sua opacidade<\/em><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>A inj\u00faria (do latim\u00a0<em>iniuria<\/em>, ofensa ou malfeito a uma pessoa,\u00a0<em>in<\/em>: sem;\u00a0<em>iuria<\/em>: direito) \u00e9 toda express\u00e3o proferida ou a\u00e7\u00e3o realizada para a desonra, descr\u00e9dito ou menosprezo de outra pessoa. No direito penal, \u00e9 considerada um crime contra a honra ou a boa reputa\u00e7\u00e3o e \u00e9 pun\u00edvel.<\/p>\n<p>Mas, al\u00e9m disso, em seu outro significado e por extens\u00e3o, tamb\u00e9m podemos falar de inj\u00faria no caso de danos materiais que algu\u00e9m ou algo causa a uma coisa ou pessoa. Por exemplo, pode ser dito de algu\u00e9m que foi espancado ou esfaqueado, que sofreu inj\u00farias em seu corpo.<\/p>\n<p>Assim, a palavra inj\u00faria re\u00fane duas dimens\u00f5es. Uma, a da palavra ou do significante, mas tamb\u00e9m a de um alcance real, de certa forma traum\u00e1tico. Acontece que a inj\u00faria ou o insulto \u00e9 tanto a primeira quanto a \u00faltima palavra (LACAN, 2003b), porque \u00e9 a que procura, a que visa \u2014 uma vez que perde toda a significa\u00e7\u00e3o \u2014 nomear o ser ou alcan\u00e7ar o real.<\/p>\n<p>Lacan fala de inj\u00faria em v\u00e1rios pontos de seu ensino. Um deles est\u00e1 em um artigo intitulado \u201cA met\u00e1fora do sujeito\u201d, no qual ele lembra a cena das inj\u00farias da crian\u00e7a que mais tarde se tornaria o Homem dos Ratos e nos diz da \u201cdimens\u00e3o de inj\u00faria onde se origina a met\u00e1fora\u201d (LACAN, 1998d, p. 905).<\/p>\n<p>A refer\u00eancia completa \u00e9 a seguinte:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cA met\u00e1fora radical se d\u00e1 no acesso de raiva, relatado por Freud, do menino ainda inerme, em grosseria, que foi seu Homem dos Ratos antes de se consumar em um neur\u00f3tico obsessivo, o qual, ao ser contrariado pelo pai, interpela-o: \u201c<em>Du Lampe, du Handtuch, du Teller, du Teller, usw<\/em>\u201d. (\u201c\u2018Seu\u2019 l\u00e2mpada, \u2018seu\u2019 toalha, \u2018seu\u2019 prato&#8230; e assim por diante\u201d). Com que o pai hesita em autenticar o crime ou o talento. Com o que n\u00f3s mesmos entendemos que n\u00e3o se perca a dimens\u00e3o de inj\u00faria onde se origina a met\u00e1fora. Inj\u00faria mais grave do que se imagina, quando ela \u00e9 reduzida \u00e0 invectiva<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/quarteto-lacan#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a>\u00a0da guerra. Pois \u00e9 dela que prov\u00e9m a injusti\u00e7a, cometida gratuitamente contra qualquer sujeito, de um atributo com que um outro sujeito qualquer \u00e9 levado a atingi-lo. \u201cO gato faz au-au, o c\u00e3o faz miau-miau.\u201d Eis como a crian\u00e7a soletra os poderes do discurso e inaugura o pensamento.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Haver\u00e1 quem se surpreenda por eu sentir necessidade de levar as coisas t\u00e3o longe no que concerne \u00e0 met\u00e1fora\u201d (LACAN, 1998d, p. 905).<\/p>\n<p>O que \u00e9 que Lacan aponta aqui sobre levar as coisas t\u00e3o longe em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 met\u00e1fora? Que n\u00e3o se trata apenas da substitui\u00e7\u00e3o de um significante por outro significante, a f\u00f3rmula cl\u00e1ssica da met\u00e1fora que fornece a matriz da interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica tradicional, mas uma substitui\u00e7\u00e3o entre duas ordens heterog\u00eaneas, a substitui\u00e7\u00e3o do ser, ou, por assim dizer, do real, por um significante. E como existe uma incompatibilidade radical entre as duas ordens, tal substitui\u00e7\u00e3o \u2014 que Miller uma vez chamou de \u201cmet\u00e1fora heterog\u00eanea\u201d \u2014 \u00e9 necessariamente sempre injuriosa e&#8230; violenta.<\/p>\n<p>\u00c9 em um escrito anterior que Lacan associa a inj\u00faria a uma opacidade. Essa \u00e9 a passagem em que ele comenta, em \u201cDe uma quest\u00e3o preliminar a todo tratamento poss\u00edvel de psicose\u201d, o exemplo j\u00e1 cl\u00e1ssico de uma apresenta\u00e7\u00e3o de pacientes, \u201cPorca!\u201d, e onde ele explora de forma precisa a maneira pela qual o significante pode passar para o real. Vamos ver como ele o faz.<\/p>\n<p>Depois de descrever o relato da paciente segundo o qual o amante da vizinha \u201chavia-lhe dirigido\u201d (LACAN, 1998b, p. 540) a inj\u00faria quando passaram um pelo outro, ele aponta que:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cNo lugar em que o objeto indiz\u00edvel \u00e9 recha\u00e7ado no real, uma palavra se faz ouvir [&#8230;] vinda no lugar daquilo que n\u00e3o tem nome [e] unindo-se em sua opacidade aos dardejamentos<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/quarteto-lacan#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a>\u00a0do amor, quando, na falta de um significante para denominar o objeto de seu epital\u00e2mio<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/quarteto-lacan#_edn7\" name=\"_ednref7\">[7]<\/a>, ele emprega a intermedia\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio mais cru: \u201cEu te como, \u2014 Chuchuzinho!\u201d. \u201cEst\u00e1s todo derretido&#8230; \u2014 gato!\u201d\u201d. (LACAN, 1998b, p. 541).<\/p>\n<p>Em outras palavras, tanto a inj\u00faria quanto a jaculat\u00f3ria do amor compartilham a mesma opacidade. A opacidade pr\u00f3pria da puls\u00e3o, do gozo e do real. E ambos mostram como o significante, quando tenta alcan\u00e7ar o real, por sua vez, torna-se ou deve tornar-se opaco; em outras palavras, fora do sentido.<\/p>\n<p>Digamos de passagem que Miller, ao comentar a cena das inj\u00farias no Homem dos Ratos, aponta que o obsessivo tamb\u00e9m tem uma rela\u00e7\u00e3o com o indiz\u00edvel e que \u00e9 aqui que se situa a fun\u00e7\u00e3o da inj\u00faria na obsess\u00e3o. \u201cA inj\u00faria \u00e9 lan\u00e7ada ao que h\u00e1 de mais querido\u201d, e nisso supera o \u201camor cr\u00edtico\u201d (MILLER, 1985, [<em>s. p.<\/em>]), que est\u00e1 situado no registro do imagin\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cEsta inj\u00faria \u00e9 muito valiosa para o sujeito [refere-se ao Homem dos Ratos], \u00e9 muito valiosa para que ele se sustente no mundo. Ele elabora ali um significante capaz de tocar o real do Outro, ao custo de que [o dito significante] perde toda a significa\u00e7\u00e3o. \u00c9 ele, o Homem dos Ratos, quem o elabora; \u00e9 ele quem o formula. Isto \u00e9 o que faz a diferen\u00e7a entre neurose obsessiva e psicose\u201d (MILLER, 1985, [<em>s. p.<\/em>]).<\/p>\n<p>Assim, \u00e9 compreens\u00edvel que Lacan conclui dizendo que o exemplo da \u201cPorca!\u201d<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201c[&#8230;] \u00e9 aqui destacado apenas para captar no ponto essencial que a fun\u00e7\u00e3o de irrealiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 tudo no s\u00edmbolo. Pois, para que sua irrup\u00e7\u00e3o no real seja indubit\u00e1vel, basta que ele se apresente, como \u00e9 comum, sob a forma da cadeia rompida\u201d (LACAN, 1998b, p. 542).<\/p>\n<p>Ainda \u00e9 cedo, \u00e9 obvio, mas antecipo o que ele chamar\u00e1 mais tarde como seu S<sub>1<\/sub>, significante-letra, desde que se escreva sem nenhum tipo de sentido (LACAN, 2011); a inj\u00faria mostra afinidades com o real.<\/p>\n<p>Antes de continuar, vale a pena destacar que Lacan tamb\u00e9m fala da opacidade em numerosas ocasi\u00f5es. Enumeraremos algumas delas.<\/p>\n<p>Por exemplo, no semin\u00e1rio contempor\u00e2neo \u201cDe uma quest\u00e3o preliminar&#8230;\u201d, em seu\u00a0<em>Semin\u00e1rio 5<\/em>, ele diz:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cN\u00e3o h\u00e1 sintoma cujo significante n\u00e3o seja trazido de uma experi\u00eancia anterior. [&#8230;] \u00e9 o significante do A barrado (\u023a) que se articula no complexo de castra\u00e7\u00e3o, mas que n\u00e3o est\u00e1 for\u00e7osamente presente, nem sempre totalmente articulado. [&#8230;] O que \u00e9 isso, portanto a n\u00e3o ser essa vida apreendendo-se numa horrenda percep\u00e7\u00e3o dela mesma, em sua estranheza total, em sua brutalidade opaca, como significante puro de uma exist\u00eancia intoler\u00e1vel para a pr\u00f3pria vida, a partir do momento em que ela se afasta dele para ver o trauma e a cena prim\u00e1ria? \u00c9 isso que aparece da vida perante ela mesma como significante em estado puro, que n\u00e3o pode, de maneira alguma articular-se nem se resolver\u201d (LACAN, 1999, p. 477).<\/p>\n<p>Em minha opini\u00e3o, aludindo, ao que pouco antes chamou de \u201co significante enigm\u00e1tico do trauma sexual\u201d (LACAN, 1998a, p. 522), Lacan indica que tal significante, aquele que tem afinidade com o real, aquele da inj\u00faria radical em que se assenta toda met\u00e1fora do sujeito, n\u00e3o estando articulado a outro significante, torna-se opaco e nos orienta a direcionar por essa via nossa elucida\u00e7\u00e3o do que chamar\u00e1 mais tarde de interpreta\u00e7\u00e3o jaculat\u00f3ria.<\/p>\n<p>Mas a palavra opacidade retorna em seus\u00a0<em>Escritos<\/em>. Assim, em \u201cPosi\u00e7\u00e3o do inconsciente\u201d, no contexto da caracteriza\u00e7\u00e3o da opera\u00e7\u00e3o l\u00f3gica da separa\u00e7\u00e3o, ele aponta:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cSem d\u00favida, o \u2018ele pode me perder\u2019 \u00e9 seu recurso contra a opacidade do que ele encontra no lugar do Outro como desejo, mas restitui o sujeito \u00e0 opacidade do ser que lhe coube por seu advento de sujeito, tal como ele se produziu inicialmente pela intima\u00e7\u00e3o do outro\u201d (LACAN, 1998c, p. 858).<\/p>\n<p>Penso que se pode deduzir dessa indica\u00e7\u00e3o que a opacidade tem duas faces: uma corresponde a uma falta radical, de um significante no Outro, que indica seu desejo; outra corresponde \u00e0 puls\u00e3o, j\u00e1 que, nessa opera\u00e7\u00e3o em que o sujeito vai responder com a perda, cede uma parte de seu corpo. Em ambos, um tra\u00e7o, o sil\u00eancio; mas um sil\u00eancio que tamb\u00e9m \u00e9 de duas faces, que se desdobra: o sil\u00eancio da puls\u00e3o e o sil\u00eancio de um furo no simb\u00f3lico que se conecta com um real.<\/p>\n<p>E \u00e9 essa dupla face de opacidade que ele retoma pouco tempo depois em sua \u201cResposta a uma pergunta de Marcel Ritter\u201d (LACAN, 1976, [<em>s. p.<\/em>], tradu\u00e7\u00e3o nossa). Ele afirma que o real pulsional n\u00e3o \u00e9 o mesmo que o n\u00e3o reconhecido, o\u00a0<em>Unerkannte<\/em>, ou seja, que o real pulsional n\u00e3o \u00e9 o mesmo que o umbigo do sonho que reconduz ao recalque prim\u00e1rio, ao\u00a0<em>Urverdr\u00e4ngt<\/em>. No entanto, ele sugere que exista uma \u201canalogia\u201d entre os dois. Uma analogia que tamb\u00e9m gira em torno de sua opacidade. Vamos ver como ele disse.<\/p>\n<p>Primeiro, ele diz que, em rela\u00e7\u00e3o ao furo do inconsciente, que \u00e9 o\u00a0<em>Unerkannte<\/em>, \u201c\u00e9 a\u00ed tamb\u00e9m que a puls\u00e3o se\u00a0<em>opacifica<\/em>\u00a0completamente\u201d. Ent\u00e3o, \u201cdesde a origem, no reconhecimento do pr\u00f3prio inconsciente, existe a no\u00e7\u00e3o de que, de fato, o Real, propriamente dito, \u00e9 um ponto de opacidade. \u00c9 um ponto infranque\u00e1vel, \u00e9 um ponto imposs\u00edvel\u201d (LACAN, 1976, tradu\u00e7\u00e3o nossa). Finalmente, encontramos o termo novamente na conhecida f\u00f3rmula de sua confer\u00eancia \u201cJoyce, o Sintoma\u201d, quando ele caracteriza o \u201cgozo pr\u00f3prio do sintoma\u201d como \u201cgozo opaco por excluir o sentido\u201d (LACAN, 2003c, p. 566).<\/p>\n<p>Deste \u00faltimo se desprende a opacidade, seja a da puls\u00e3o, a do recalque prim\u00e1rio, seja a do gozo do sintoma, que \u00e9 o que marca o limite do sentido. Portanto, podemos afirmar que a interpreta\u00e7\u00e3o, quando j\u00e1 n\u00e3o remete mais \u00e0 ideia cl\u00e1ssica da tradu\u00e7\u00e3o, sup\u00f5e levar em conta a dimens\u00e3o de opacidade constitutiva do\u00a0<em>parl\u00eatre<\/em>, que se op\u00f5e precisamente a uma suposta transpar\u00eancia de uma poss\u00edvel tradu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas o que quer dizer opacidade? A defini\u00e7\u00e3o mais simples \u00e9 a do opaco como aquilo que impede a passagem da luz e impede de ver atrav\u00e9s de sua massa o que est\u00e1 por detr\u00e1s. Sem d\u00favida, \u00e9 uma no\u00e7\u00e3o que ressoa para um mais al\u00e9m do fundo, que o pr\u00f3prio Lacan colocou em seus\u00a0<em>Escritos<\/em>, o debate do s\u00e9culo das luzes. \u201c\u00c9 preciso [disse ele na contracapa original de seus escritos] haver lido esta colet\u00e2nea [&#8230;] para perceber que prossegue sempre o mesmo, [&#8230;] pode ser visto como o debate das luzes\u201d (LACAN, 1998e, [s.p]).<\/p>\n<p>Como essa refer\u00eancia recorrente \u00e0 opacidade deve ser entendida? Como uma indica\u00e7\u00e3o de que o Iluminismo, o s\u00e9culo das luzes, que a Raz\u00e3o tem um limite que n\u00e3o deve ser ignorado, tampouco deve ser relegado \u00e0 categoria do inef\u00e1vel. Precisamente a\u00ed reside essa sutil tors\u00e3o pela qual Lacan, citando o poeta que quis dar a palavra \u00e0s coisas, para fazer com que as coisas assumam a palavra \u2014 refiro-me a Francis Ponge \u2014, sustentou at\u00e9 o final de seu ensino que a interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica, que est\u00e1 advertida da opacidade sobre a qual temos discorrido, deve se situar n\u00e3o no n\u00edvel da raz\u00e3o, sen\u00e3o da\u00a0<em>r\u00e9son<\/em>.<\/p>\n<p>Assim, ressoa de passagem como uma indica\u00e7\u00e3o de Miller em sua confer\u00eancia \u201cUma fantasia\u201d, em 2004, em Comandatuba. Ali, diante do \u201cTudo marcha\u201d, pr\u00f3prio ao discurso hipermoderno, em minha opini\u00e3o, congruente com o discurso do Capitalista, uma vez escrito por Lacan, que tamb\u00e9m elide o imposs\u00edvel, Miller prop\u00f4s como divisa para a psican\u00e1lise de pr\u00e1tica lacaniana a de um \u201cIsso falha\u201d (MILLER, 2004, [<em>s. p.<\/em>]), que n\u00e3o \u00e9 nada mais que aquilo a que os sintomas d\u00e3o testemunho, na medida em que s\u00e3o sinais da \u201cn\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d. (MILLER, 2004, [<em>s. p.<\/em>]). Sintomas que, com a opacidade da diferen\u00e7a absoluta, ou seja, incompar\u00e1vel, e sua liga\u00e7\u00e3o com o imposs\u00edvel, constituem um limite fundamental \u00e0 tirania do imperativo de transpar\u00eancia de nosso tempo (HAN, 2016).<\/p>\n<p>Por isso, Miller tamb\u00e9m prop\u00f4s que isso exigiria \u201celevar a interpreta\u00e7\u00e3o \u00e0 pot\u00eancia do sintoma\u201d. Cito: \u201cA po\u00e9tica da interpreta\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 para ser bela [&#8230;]. Ela \u00e9 um materialismo (<em>moterialisme<\/em>) da interpreta\u00e7\u00e3o. [&#8230;] \u00c9 preciso colocar o corpo para elevar a interpreta\u00e7\u00e3o \u00e0 pot\u00eancia do sintoma\u201d (MILLER, 2004, [<em>s.p.<\/em>]).<\/p>\n<p>Entendo que \u00e9 por essa via que devemos talvez tentar reintroduzir a opacidade e o sil\u00eancio do imposs\u00edvel, essa opacidade que a outra opacidade e o outro sil\u00eancio, os da puls\u00e3o, podem velar. Porque, para a puls\u00e3o, com seu impulso constante que n\u00e3o conhece primaveras nem outonos, assim como para o discurso capitalista, aliado ao discurso da ci\u00eancia, tudo marcha, tudo \u00e9 bem-sucedido. Porque, no n\u00edvel da puls\u00e3o, em que o sujeito \u00e9 feliz, n\u00e3o h\u00e1 imposs\u00edvel, \u00e9 pura realiza\u00e7\u00e3o. E \u00e9 ent\u00e3o nesse lugar, onde uma interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 elevada \u00e0 pot\u00eancia do sintoma, que existe a possibilidade de introduzir o imposs\u00edvel (MILLER, 2012).<\/p>\n<p>Essa seria uma forma de interpretar, tentando induzir, atrav\u00e9s de uma resson\u00e2ncia\u00a0<em>moterialista<\/em>, um limite para o mon\u00f3logo da\u00a0<em>apalavra<\/em>, um limite para a puls\u00e3o. Nesse ponto, a inj\u00faria se encontra com a jacula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em>Sil\u00eancio e jacula\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>Lacan refina o alcance da opera\u00e7\u00e3o jaculat\u00f3ria em seu \u00faltimo ensino. Jacula\u00e7\u00e3o ou jaculat\u00f3ria \u00e9 uma palavra que vem da religi\u00e3o crist\u00e3 e designa uma breve ora\u00e7\u00e3o ou invoca\u00e7\u00e3o dirigida fervorosamente a Deus. Mas tamb\u00e9m, etimologicamente, vem do latim\u00a0<em>iacular<\/em>, ou seja, \u201clan\u00e7ar\u201d, que, por sua vez, deriva do\u00a0<em>iaculum<\/em>, que significa \u201cdardo\u201d. Portanto, um uso da palavra que implica lan\u00e7\u00e1-la, atir\u00e1-la. Poder\u00edamos assim falar de viol\u00eancia da jacula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A que aponta a jacula\u00e7\u00e3o em sua equival\u00eancia estrutural com a inj\u00faria ou o insulto? Nomear o indiz\u00edvel do e no Outro. Ou seja, seu ponto de opacidade. \u00c9 por isso que Lacan elogia, em seu\u00a0<em>Semin\u00e1rio 20<\/em>, as jacula\u00e7\u00f5es que povoam os testemunhos dos m\u00edsticos. \u201cEssas jacula\u00e7\u00f5es m\u00edsticas, n\u00e3o \u00e9 lorota, nem s\u00f3 fala\u00e7\u00e3o, \u00e9 em suma o que se pode ler de melhor \u2014 podem p\u00f4r em rodap\u00e9, nota \u2014\u00a0<em>Acrescentar os Escritos de Jacques Lacan<\/em>, porque \u00e9 da mesma ordem\u201d (LACAN, 2008, p. 82).<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o lorotas nem fala\u00e7\u00e3o, pois um sil\u00eancio precisamente sempre acompanha a jacula\u00e7\u00e3o. Poder\u00edamos at\u00e9 propor que haja um sil\u00eancio inerente \u00e0 jacula\u00e7\u00e3o, na medida em que esta \u00faltima, embora proferida, indica que \u00e9 imposs\u00edvel dizer.<\/p>\n<p>Assim, S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz sublinha a import\u00e2ncia do sil\u00eancio no impulso m\u00edstico: \u201cNaquele sossego e sil\u00eancio da referida noite, bem como naquela not\u00edcia da luz divina, claramente v\u00ea a alma uma admir\u00e1vel conveni\u00eancia e disposi\u00e7\u00e3o da sabedoria de Deus\u201d (CRUZ, 1960, p. 95). Uma esp\u00e9cie de harmonia musical que a alma chama \u201cm\u00fasica calada, porque \u00e9 conhecimento sossegado e tranquilo, sem ru\u00eddo de vozes; e assim goza a alma, nele, a suavidade da m\u00fasica e a quietude do sil\u00eancio\u201d (CRUZ, 1960, p. 95).<\/p>\n<p>Como devemos entender essa equival\u00eancia que Lacan coloca entre seus\u00a0<em>Escritos<\/em>\u00a0e os testemunhos dos m\u00edsticos? Arrisco uma resposta: porque em ambos os casos \u00e9 uma quest\u00e3o de testemunhar uma rela\u00e7\u00e3o com o imposs\u00edvel de dizer, o imposs\u00edvel de nomear.<\/p>\n<p>Por exemplo, S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz reitera que termos \u2014 jacula\u00e7\u00f5es \u2014 como \u201c\u2018Oh!\u2019 e \u2018qu\u00e3o\u2019, [&#8230;] cada vez que s\u00e3o ditos, revelam do interior mais do que tudo quanto se exprime pela linguagem\u201d (CRUZ, 1960, p. 237-238). Ou Santa Teresa de Jesus, quando exclama: \u201cOh, Senhor [&#8230;] quem teria palavras para fazer entender [&#8230;] (D\u2019\u00c1VILA, 2010, p. 208).<\/p>\n<p>Mas se afirmamos que os\u00a0<em>Escritos<\/em>\u00a0de Lacan, que surgem de sua pr\u00e1tica da psican\u00e1lise, e os testemunhos dos m\u00edsticos s\u00e3o do mesmo registro, devemos nos perguntar qual \u00e9 sua diferen\u00e7a. Ambos testemunham um furo, o do indiz\u00edvel, do sil\u00eancio do que escrevemos como S(\u023a). Os m\u00edsticos provam, de alguma maneira, a experi\u00eancia desse furo, mas tamb\u00e9m sua fascina\u00e7\u00e3o com ele, com o indiz\u00edvel. E por isso eles o leram como prova da correspond\u00eancia e da harmonia da alma com Deus<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/quarteto-lacan#_edn8\" name=\"_ednref8\">[8]<\/a>. Considerando que, na psican\u00e1lise \u2014 os testemunhos de passe devem apontar a isso \u2014, n\u00e3o se trata de um fasc\u00ednio pelo indiz\u00edvel, pelo mist\u00e9rio, mas de fazer com ele, com o furo, um matema que o constate e localize, e isso ao pre\u00e7o do fora de sentido. \u201cO caminho que deve ser percorrido\u201d, salienta Miller,<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201c[&#8230;] vai do indiz\u00edvel ao matema ou, por que n\u00e3o, do indiz\u00edvel ao insulto. N\u00e3o s\u00f3 o matema pode ocupar o lugar do indiz\u00edvel [mas tamb\u00e9m] o insulto nesta fun\u00e7\u00e3o: j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 mais palavras para diz\u00ea-lo completamente, supera qualquer limite, ele supera todas as possibilidades da linguagem, e ent\u00e3o do tesouro da l\u00edngua, como S(\u023a), um significante se solta para pegar o real. Somente a partir desta perspectiva o insulto e o matema s\u00e3o o mesmo\u201d (MILLER, 2000, p. 128-129, tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/p>\n<p>Por essa mesma raz\u00e3o, o passe tem uma rela\u00e7\u00e3o com o indiz\u00edvel e pode provar o furo e localizar sua opacidade, mas se trata de fazer dele matema e transmiti-lo, e n\u00e3o apenas se fascinar com o mist\u00e9rio.<\/p>\n<p>Vemos, ent\u00e3o, que o que chamei anteriormente de viol\u00eancia da jacula\u00e7\u00e3o pode ser tanto a interpreta\u00e7\u00e3o proferida pelo analista \u2014 quando ele n\u00e3o opera como uma tradu\u00e7\u00e3o, mas isola com sua interven\u00e7\u00e3o um S<sub>1<\/sub>\u00a0que n\u00e3o faz cadeia \u2014 como um novo significante ou um novo uso de um significante inventado pelo sujeito, desvinculado do analisante. Tanto \u00e9 assim que, na jacula\u00e7\u00e3o, o enunciado e a enuncia\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o se diferenciam; isso nos permitiria falar de \u201co dizer da an\u00e1lise\u201d. Um dizer jaculat\u00f3rio que se desprende da refer\u00eancia daquele que o enuncia.<\/p>\n<p>Seja como for, em ambos os casos \u00e9 uma quest\u00e3o de indicar tanto o que n\u00e3o existe \u2014 dizer de um imposs\u00edvel \u2014 quanto o que existe: um gozo opaco para excluir o sentido. Essa opera\u00e7\u00e3o interpretativa \u2014 se podemos cham\u00e1-la assim \u2014 \u00e9 caracterizada por \u00c9ric Laurent como o que pode fazer \u201cato de um novo olhar do aperto do n\u00f3 em torno do acontecimento de corpo\u201d (LAURENT, 2018, tradu\u00e7\u00e3o nossa). Talvez essa seja outra forma de dizer o que acontece ao elevar a interpreta\u00e7\u00e3o \u00e0 pot\u00eancia do sintoma. Uma pot\u00eancia disruptiva que poderia obter, de um contraponto sonoro e do \u201c\u00e2ngulo da surpresa\u201d (MILLER, 1996, p. 39, tradu\u00e7\u00e3o nossa), toda a sua for\u00e7a.<\/p>\n<p>Assim, numa an\u00e1lise, uma jacula\u00e7\u00e3o pode vir para retificar o gozo, e n\u00e3o apenas o sujeito; ou seja, o gozo opaco do sintoma pode ser concebido, vivido, como satisfat\u00f3rio (MILLER, 2011, p. 268). Mas para que isso seja poss\u00edvel, n\u00e3o h\u00e1 outro caminho sen\u00e3o, atrav\u00e9s do amor de transfer\u00eancia, recorrer ao sentido para resolver o gozo desvalorizado do sintoma (LACAN, 2003c). Desse modo, uma vez percorrido o caminho do esgotamento da transpar\u00eancia do gozo-sentido (<em>jouissens<\/em>), talvez possam ser constatadas ambas as opacidades: a opacidade do imposs\u00edvel, o\u00a0<em>Urverdr\u00e4ngt<\/em>, e a opacidade da diferen\u00e7a absoluta. Para ele, o desejo do analista segue sendo o instrumento privilegiado para que, sem se deter no impasse da piedade imagin\u00e1ria, possa apontar com a jacula\u00e7\u00e3o ao mais digno do sujeito golpeando ao outro \u201cde uma boa maneira\u201d (MILLER, 1999, p. 105, tradu\u00e7\u00e3o nossa), quer dizer, indicando reduzir o Outro ao seu real \u2014 o que o faz incompar\u00e1vel \u2014 e desprov\u00ea-lo de sentido (MILLER, 2014, p. 29).<\/p>\n<p>Assim, o que propus chamar de quarteto de Lacan, composto pela inj\u00faria, a opacidade, o sil\u00eancio e a jacula\u00e7\u00e3o, quem sabe possa ser concebido como o conjunto de quatro instrumentos destinados a executar tamb\u00e9m uma \u201cm\u00fasica calada\u201d. Mas uma m\u00fasica calada que, al\u00e9m de toda aspira\u00e7\u00e3o m\u00edstica, n\u00e3o aponta a nenhuma ideia de harmonia ou correspond\u00eancia, sen\u00e3o a indicar o n\u00f3 silencioso e opaco que se aninha no cora\u00e7\u00e3o do\u00a0<em>parl\u00eatre<\/em>. Esse n\u00f3 que, em algum momento, Lacan mesmo chamou \u201co n\u00f3 do ininterpret\u00e1vel\u201d (LACAN, 2003a, p. 338).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><strong>\u00a0Tradu\u00e7\u00e3o:<\/strong>\u00a0Rodrigo Almeida<br \/>\n<strong>\u00a0Revis\u00e3o:<\/strong>\u00a0Giselle Moreira<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>CRUZ, S. J.\u00a0<strong>C\u00e2ntico espiritual, chama viva de amor<\/strong>. Trad. Carmelitas descal\u00e7as do convento de Santa Teresa do Rio de Janeiro. Petr\u00f3polis: Editora Vozes, 1960.<\/h6>\n<h6>HAN, B-Ch.\u00a0<strong>Sociedade da transpar\u00eancia<\/strong>. Petr\u00f3polis; Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2016.<\/h6>\n<h6>LACAN, J.\u00a0<strong>O semin\u00e1rio livro 22:<\/strong>\u00a0R.S.I; li\u00e7\u00e3o de 11 de fevereiro de 1975. (In\u00e9dito)<\/h6>\n<h6>LACAN, J. &#8220;R\u00e9ponse \u00e0 une question de Marcel Ritter&#8221;.\u00a0<strong>Lettres de l\u2019\u00c9cole Freudienne<\/strong>, n. 18, p. 7-12, 1976.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1954 \u2013 1955)\u00a0<strong>O semin\u00e1rio, livro 2<\/strong>: O eu na teoria de Freud e na t\u00e9cnica da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. \u201cA inst\u00e2ncia da letra no inconsciente\u201d.\u00a0<em>In<\/em>: LACAN, J.\u00a0<strong>Escritos<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998a. p. 496-533.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. \u201cDe uma quest\u00e3o preliminar a todo tratamento poss\u00edvel da psicose\u201d.\u00a0<em>In<\/em>: LACAN, J.\u00a0<strong>Escritos<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998b. p. 537-590.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. \u201cPosi\u00e7\u00e3o do inconsciente no congresso de Bonneval\u201d (1960, retomado em 1964).\u00a0<em>In<\/em>: LACAN, J.\u00a0<strong>Escritos<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998c. p. 843-864.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. \u201cA met\u00e1fora do sujeito\u201d.\u00a0<em>In<\/em>: LACAN, J.\u00a0<strong>Escritos<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998d. p. 903-907.<\/h6>\n<h6>LACAN, J.\u00a0<strong>Escritos<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998e.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1957-1958)\u00a0<strong>O semin\u00e1rio livro 5:<\/strong>\u00a0as forma\u00e7\u00f5es do inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1999.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. \u201cO engano do sujeito suposto saber\u201d.\u00a0<em>In:<\/em>\u00a0LACAN, J.\u00a0<strong>Outros escritos<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003a. p. 329-349.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. \u201cO aturdito\u201d.\u00a0<em>In:<\/em>\u00a0LACAN, J.\u00a0<strong>Outros escritos<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003b. p. 448-500.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. \u201cJoyce, o Sintoma\u201d.\u00a0<em>In<\/em>: LACAN, J.\u00a0<strong>Outros escritos.<\/strong>\u00a0Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003c. p. 560-566.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1972-73)\u00a0<strong>O semin\u00e1rio, livro 20<\/strong>: mais, ainda. 3. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. \u201cA terceira\u201d.\u00a0<strong>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/strong>, S\u00e3o Paulo, n. 62, p. 11-34, dez. 2011.<\/h6>\n<h6>LAURENT, E. \u201cLa interpretaci\u00f3n: jaculaci\u00f3n\u201d. Interven\u00e7\u00e3o de 13 de outubro de 2018 no in\u00edcio das Confer\u00eancias do Campo Freudiano em Bruxelas para a sess\u00e3o Clinique de Bruxelles.\u00a0<strong>Psicoan\u00e1lisis Lacaniano<\/strong>, [<em>s. l.<\/em>], 13 out. 2018. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"https:\/\/psicoanalisislacaniano.com\/la-interpretacion-jaculacion\/\">https:\/\/psicoanalisislacaniano.com\/la-interpretacion-jaculacion\/<\/a><u>.<\/u>\u00a0Acesso em: 4 nov. 2021.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. \u201cApolog\u00eda de la sorpresa\u201d.\u00a0<em>In<\/em>: MILLER, J-A.\u00a0<strong>Entonces<\/strong>: \u201cSssh\u2026\u201d, Barcelona; Buenos Aires: Minilibros Eolia, 1996.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A.\u00a0<strong>Pol\u00edtica lacaniana<\/strong>. Buenos Aires: Diva, 1999.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A.\u00a0<strong>El banquete de los analistas<\/strong>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2000.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. \u201cUma fantasia\u201d. CONGRESSO DA ASSOCIA\u00c7\u00c3O MUNDIAL DE PSICAN\u00c1LISE, 4., Comandatuba, 2004. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"http:\/\/2012.congresoamp.com\/pt\/template.php?file=Textos\/Conferencia-de-Jacques-Alain-Miller-en-Comandatuba.html\">http:\/\/2012.congresoamp.com\/pt\/template.php?file=Textos\/Conferencia-de-Jacques-Alain-Miller-en-Comandatuba.html<\/a><u>.<\/u>\u00a0Acesso: 4 nov. 2021.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A.\u00a0<strong>Sutilezas anal\u00edticas<\/strong>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2011.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A.\u00a0<strong>La fuga del sentido<\/strong>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2012.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A.\u00a0<strong>O real do s\u00e9culo XXI.\u00a0<\/strong><em>In:<\/em>MACHADO, O., RIBEIRO, V. (Org.). Um real para o s\u00e9culo XXI. Belo Horizonte: Scriptum, 2014.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A.\u00a0<strong>Le d\u00e9senchantement de la psychanalyse<\/strong>: li\u00e7\u00e3o de 14 de novembro de 2001. (In\u00e9dito).<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A.\u00a0<strong>1, 2, 3, 4<\/strong>: curso de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana, li\u00e7\u00e3o de 5 de junho de 1985. (In\u00e9dito).<\/h6>\n<h6>TERESA D\u2019\u00c1VILA, S.\u00a0<strong>Livro da vida<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Penguin Classics; Companhia das Letras, 2010.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/quarteto-lacan#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a>\u00a0Texto original publicado na Revista Lacaniana de Psicoan\u00e1lisis, [<em>s. l.<\/em>], ano XV, n. 28, p. 37-45, ago. 2020.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/quarteto-lacan#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a>\u00a0Nota do autor: Este texto retoma e amplia algumas ideias expostas na confer\u00eancia \u201cLa injuria y su opacidad\u201d, que ocorreu em 2 de novembro de 2019 durante as VI Jornadas da Se\u00e7\u00e3o La Plata da EOL, intituladas: \u201cInterpretar la violencia\u201d.<\/h6>\n<h6>Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.eol-laplata.org\/blog\/index.php\/conferencia-la-injuria-y-su-opacidad\/\">http:\/\/www.eol-laplata.org\/blog\/index.php\/conferencia-la-injuria-y-su-opacidad\/<\/a><u>.<\/u><\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/quarteto-lacan#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a>\u00a0Para um desenvolvimento mais detalhado desta refer\u00eancia, ver GOROSTIZA, L., La fixi\u00f3n de la opini\u00f3n verdadera. Dispon\u00edvel em: \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<a href=\"http:\/\/www.revistavirtualia.com\/storage\/articulos\/pdf\/tEIGT0uFzyR92vgAN5Rhma9Qixmt2d6UOEHja08p.pdf\">http:\/\/www.revistavirtualia.com\/storage\/articulos\/pdf\/tEIGT0uFzyR92vgAN5Rhma9Qixmt2d6UOEHja08p.pdf<\/a><u>.<\/u><\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/quarteto-lacan#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a>\u00a0Retomado tamb\u00e9m por \u00c9ric Laurent em \u201cL\u2019interpretation \u00e9v\u00e9nement\u201d.\u00a0<em>In:<\/em>\u00a0La Cause du D\u00e9sir, n. 100, 2018, p. 70.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/quarteto-lacan#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a>\u00a0Invectiva: discurso oral ou escrito que cont\u00e9m uma censura violenta, \u00e1spera e dura contra algu\u00e9m ou algo.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/quarteto-lacan#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a>\u00a0N. T.: A tradu\u00e7\u00e3o para o espanhol em que nos baseamos para esta vers\u00e3o em portugu\u00eas, traz o termo \u201cjaculat\u00f3rias\u201d, termo que acreditamos que colabore para a compreens\u00e3o do texto.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/quarteto-lacan#_ednref7\" name=\"_edn7\">[7]<\/a>\u00a0Epital\u00e2mio: composi\u00e7\u00e3o po\u00e9tica l\u00edrica para a celebra\u00e7\u00e3o de um casamento.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/quarteto-lacan#_ednref8\" name=\"_edn8\">[8]<\/a>\u00a0Mesmo que \u2014 como assinala Lacan em seu\u00a0<em>Semin\u00e1rio 20<\/em>\u00a0\u2014 seja outra face do Outro, a face de Deus, como aquela que d\u00e1 suporte ao gozo feminino, a experi\u00eancia m\u00edstica n\u00e3o deixa de fazer existir um Outro de harmonia e correspond\u00eancia.<\/h6>\n<h6>psican\u00e1lse &#8211; acolhimento &#8211; lacan &#8211; psicanalise &#8211; psychanayse &#8211; psicoan\u00e1lisis &#8211; corpo<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>LEONARDO GOROSTIZA Psicanalista, Analista Membro da Escola. EOL\/AMP gorostizaleonardo@gmail.com RESUMO:\u00a0Leonardo Gorostiza localiza algumas escans\u00f5es, ao longo do ensino de Lacan, que antecipam e apontam para a mudan\u00e7a de \u00eanfase operada, posteriormente, \u201cda verdade para o real\u201d, considerando as quest\u00f5es que essa mudan\u00e7a lan\u00e7a sobre a interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica. 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