{"id":184,"date":"2023-08-15T19:24:18","date_gmt":"2023-08-15T22:24:18","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=184"},"modified":"2025-12-01T12:44:17","modified_gmt":"2025-12-01T15:44:17","slug":"supereu-soluvel-no-alcool1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2023\/08\/15\/supereu-soluvel-no-alcool1\/","title":{"rendered":"Supereu sol\u00favel no \u00e1lcool?<sup>[1]<\/sup>"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong>Miguel Antunes<\/strong><br \/>\nPsicanalista,\u00a0mestre em Estudos Psicanal\u00edticos pela UFMG<br \/>\n<span id=\"cloakbc7a01ffe1fd22552f699d8ec1aa4a01\"><a href=\"mailto:miguelfigueiredoantunes@gmail.com\">miguelfigueiredoantunes@gmail.com<\/a><\/span><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/54-almanaque-on-line-31\/538-supereu-soluvel-no-alcool#_ednref1\" name=\"_edn1\"><\/a><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Resumo:<\/strong>\u00a0A partir da proposta de \u201cretorno aos cl\u00e1ssicos\u201d, feita pelo N\u00facleo de Investiga\u00e7\u00e3o e Pesquisa nas Toxicomanias e Alcoolismo, o texto prop\u00f5e comentar a famosa frase \u201co supereu alc\u00f3olico \u00e9 sol\u00favel no \u00e1lcool\u201d. Para tal, ser\u00e1 trabalhado o conceito de supereu tanto em Freud como em Lacan, indo al\u00e9m do \u201cherdeiro de complexo de \u00c9dipo\u201d em dire\u00e7\u00e3o ao seu imperativo de gozo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Palavras-chave:<\/strong>\u00a0imperativo categ\u00f3rico; imperativo de gozo; supereu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>SUPEREU SOLUBLE IN ALCOHOL?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Abstract:<\/strong>\u00a0From the proposal \u201creturn to the classics\u201d, made by the Center for Investigation and Research in Drug Abuse and Alcoholism, the text proposes to comment on the famous phrase \u201cthe alcoholic superego is soluble in alcohol\u201d. For this, the concept of superego will be worked on both in Freud and in Lacan, going beyond the \u201cheir of the Oedipus complex\u201d towards his imperative of jouissance.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Keywords:<\/strong>\u00a0categorical imperative; imperative of jouissance; superego.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a class=\"dt-pswp-item\" style=\"font-family: inherit; font-size: inherit;\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/supereufw.png\" data-dt-img-description=\"Imagem: Renata Laguardia\" data-large_image_width=\"466\" data-large_image_height=\"635\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-185\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/supereufw.png\" alt=\"\" width=\"466\" height=\"635\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/supereufw.png 466w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/supereufw-220x300.png 220w\" sizes=\"auto, (max-width: 466px) 100vw, 466px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Imagem: Renata LaguardiaA famosa frase \u201co supereu alc\u00f3olico \u00e9 sol\u00favel no \u00e1lcool\u201d (LECOUER, 1992) \u00e9 de autoria de Ernest Simmel, psicanalista que criou e fundou uma cl\u00ednica em Berlim, em 1926, para tratar principalmente de alcoolistas. Vale ressaltar que ele contou com amplo apoio de Freud. Por motivos de guerra, foi preciso mudar duas vezes de pa\u00eds, indo para a Su\u00ed\u00e7a e depois Estados Unidos. Dessa experi\u00eancia inovadora temos poucas informa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A palavra \u201csol\u00favel\u201d, nos dicion\u00e1rios on-line, remete \u00e0 dissolu\u00e7\u00e3o, a algo ou quest\u00e3o para a qual h\u00e1 resolu\u00e7\u00e3o, algo que \u00e9 solucion\u00e1vel, o que nos leva a perguntar se esse \u00e9 o estatuto do supereu para a psican\u00e1lise.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste texto, trataremos de comentar as elabora\u00e7\u00f5es de Bernard Lecouer (1992) em \u201cPorque o supereu n\u00e3o \u00e9 sol\u00favel no \u00e1lcool\u201d, que se encontra no livro\u00a0<em>O homem embriagado: estudos psicanal\u00edticos sobre toxicomania e alcoolismo<\/em>, organizado pelo Centro Mineiro de Toxicomania (CMT), em 1992, reunindo os textos de uma jornada de trabalhos acerca da toxicomania orientados pela psican\u00e1lise. Destacaremos alguns pontos do texto de Lecouer para fazermos um breve percurso no tema do supereu, e, assim, discutirmos sobre a dissolu\u00e7\u00e3o, ou n\u00e3o, do supereu tanto nas toxicomanias, quanto nas mais diversas apresenta\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em um primeiro momento, essa frase n\u00e3o deve ser totalmente descartada: h\u00e1 algo no \u00e1lcool que pode atenuar o mal-estar e lan\u00e7ar um sujeito ao agir, possibilitando-lhe atravessar a inibi\u00e7\u00e3o que tanto o paralisa. Em \u201cO mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o\u201d, Freud (1930\/1996) j\u00e1 havia mencionado tanto a efic\u00e1cia, quanto tamb\u00e9m os danos, ao se lan\u00e7ar m\u00e3o do recurso da intoxica\u00e7\u00e3o para tratar o mal-estar. E \u00e9 considerando essa vertente danosa do supereu que Lacan (1953-54\/1986, p. 123) o chamou de \u201cfigura feroz\u201d, vers\u00e3o que interessa a este trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Come\u00e7arei com uma brev\u00edssima vinheta cl\u00ednica. Ap\u00f3s sua m\u00e3e lhe proibir de beber durante uma festa, o sujeito resolveu experimentar alguma droga industrializada e acabou perdendo o controle, tendo uma \u201c<em>bad trip<\/em>\u201d. Ao tentar enganar a censura materna, ele se depara com a culpa que, segundo afirma, \u00e9 a origem de sua \u201cansiedade\u201d. Com isto, ele come\u00e7a a se dar conta de que repete a mesma cena sempre: bebe para tratar a ansiedade, mas, ao inv\u00e9s de aproveitar a festa, muitas vezes acaba por perd\u00ea-la. Tal ato nos faz lembrar Lacan (1969-70\/1992, p. 68) quando ele diz que o gozo \u201ccome\u00e7a com uma c\u00f3cega e termina em labareda de gasolina\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parece ser essa vers\u00e3o supereg\u00f3ica que interessa em nosso cotidiano cl\u00ednico, pois acarreta muito sofrimento ao sujeito e pode, ocasionalmente, lev\u00e1-lo a buscar uma an\u00e1lise. Freud (1920\/1996), em \u201cAl\u00e9m do princ\u00edpio do prazer\u201d, menciona essa linha imagin\u00e1ria entre o prazer e o desprazer. Para o autor, ap\u00f3s o sujeito ultrapassar o princ\u00edpio do prazer, ele se depara com o desprazer marcado pelo excesso. Podemos dizer que o desprazer \u00e9 exatamente o gozo que vai contra o bem-estar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voltando \u00e0 frase de Simmel, e indo al\u00e9m, \u00e9 poss\u00edvel estabelecer que ela se aproxima muito mais da possibilidade de um drible ao supereu do que sua dilui\u00e7\u00e3o. Os casos que nos chegam aos consult\u00f3rios e, principalmente, nas institui\u00e7\u00f5es, n\u00e3o se referem ao chamado uso recreativo, mas, sim, a um uso muito mais devastador, acarretando no apagamento n\u00e3o do supereu, mas do sujeito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Miller (2009), em \u201cClinica del supery\u00f3\u201d, afirma que o supereu instala a divis\u00e3o do sujeito e insere uma l\u00f3gica que n\u00e3o estaria de acordo com o bem, ainda mais se o confundirmos com o bem-estar. Segundo ele, o paradoxo do supereu est\u00e1 ligado ao apego do sujeito em rela\u00e7\u00e3o a algo que n\u00e3o lhe faz bem, indo de encontro com seu bem-estar. O supereu est\u00e1 muito mais ligado \u00e0 puls\u00e3o, ao mais de gozar. Todavia, esse gozo constitui um bem para o sujeito, na dire\u00e7\u00e3o de um bem absoluto. Vale ressaltar a passagem de Lacan (1973\/2003, p. 525) em \u201cTelevis\u00e3o\u201d, em que ele define o sujeito como \u201cfeliz\u201d, sobretudo porque na repeti\u00e7\u00e3o o que est\u00e1 em jogo \u00e9 satisfa\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O gozo \u00e9 antin\u00f4mico ao desejo e ao bem-estar. O desejo conduz rumo \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o, enquanto o primeiro n\u00e3o conhece limites, n\u00e3o proporciona prazer, est\u00e1 evacuado do saber, sendo necess\u00e1rio o Nome-do-Pai para que algo desse gozo desmedido tenha chance de se coordenar. \u00c9 o falo que pode temperar o gozo, porque o gozo enquanto tal, n\u00e3o tem medida. Para se dar conta do qu\u00e3o intoler\u00e1vel pode ser um gozo desregulado, basta ler\u00a0<em>As Mem\u00f3rias de um doente de nervos<\/em>, de Schreber. Nessa dire\u00e7\u00e3o, ainda com Miller (2009), podemos dizer que o supereu \u00e9 uma lei absoluta articulada ao gozo, melhor dizendo, um imperativo: Goze!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, antes de adentrarmos no imperativo do gozo, faremos um retorno a um grande cl\u00e1ssico, ou seja, a Freud. Para ele, o supereu \u00e9 o herdeiro do complexo de \u00c9dipo e sin\u00f4nimo do ideal do eu. Em seu texto \u201cSobre o narcisismo: uma introdu\u00e7\u00e3o\u201d, Freud (1914\/1996) assinala a presen\u00e7a de um \u201cagente ps\u00edquico especial\u201d que funciona para alimentar o que estava determinado pelo campo do ideal, aumentando as exig\u00eancias para com o eu. E alerta que n\u00e3o se trata de uma descoberta, mas de um reconhecimento cl\u00ednico (CAMPOS, 2015).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse \u201cagente ps\u00edquico especial\u201d tem a fun\u00e7\u00e3o de vigil\u00e2ncia e auto-observa\u00e7\u00e3o, sendo uma voz alta e clara, falando na terceira pessoa \u2013 quando se trata de uma psicose, especialmente da paranoia \u2013, ou de modo silencioso \u2013 no caso das neuroses, principalmente a obsessiva. Contudo, mesmo silenciosa, ela se mostra bastante eficaz, pois julga, antecipa, recrimina, etc. Enfim, trata-se de um grande tribunal instalado no pensamento dos sujeitos, em funcionamento permanente, mostrando toda a sua ferocidade. De certa maneira, podemos dizer que o supereu impulsiona o sujeito \u00e0 a\u00e7\u00e3o para depois reclamar por puni\u00e7\u00e3o (CAMPOS, 2015).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Retomando a proposta de comentar o texto de Lecouer, e nos distanciando da f\u00f3rmula de Simmel, o autor nos diz:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px; text-align: justify;\">a posi\u00e7\u00e3o do bebedor \u00e9 aquela de uma fundamental submiss\u00e3o a um apelo, de uma obedi\u00eancia sem pertin\u00eancia a uma ordem, aquela que articula a injun\u00e7\u00e3o \u201cBeba!\u201d. O ato de beber, antes de ser um gozo, consiste em ceder \u00e0s ordens de um imperativo de gozo. [&#8230;] Beba, para esquecer! Enfim, beba! Mas sempre para seu bem. (LECOUER, 1992, p. 75)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E continua:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px; text-align: justify;\">assim considerado, o supereu n\u00e3o \u00e9 mais sol\u00favel, ele n\u00e3o desaparece na solu\u00e7\u00e3o alc\u00f3olica. O \u00e1lcool torna-se, ao contr\u00e1rio, portador de um apelo, assegura a iman\u00eancia da voz, de uma voz que governa um retorno incessante do sujeito ao mesmo, um retorno que se encarna e toma sentido numa face a face com o mesmo copo. (LECOUER, 1992, p. 75)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na passagem acima, Lecouer nos aproxima bastante do termo \u201citera\u00e7\u00e3o\u201d, trabalhado no semin\u00e1rio de Miller (2021) intitulado \u201cO Um sozinho\u201d, quando ele diz que na adic\u00e7\u00e3o bebe-se sempre o mesmo copo, sendo uma adic\u00e7\u00e3o \u00e0 qual n\u00e3o se adiciona nenhum saber, em que 1 + 1 + 1 \u00e9 igual a 1. Na itera\u00e7\u00e3o, o objeto \u00e9 um fim em si mesmo, diferente da repeti\u00e7\u00e3o, em que o objeto \u00e9 um meio e h\u00e1 uma hist\u00f3ria, um enredo, uma cena que cristaliza o sujeito, ou seja, h\u00e1 a fantasia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ponto central que nos interessa ao trabalhar o supereu \u00e9 poder ir al\u00e9m do herdeiro do complexo de \u00c9dipo, momento em que sua vertente reguladora se fazia mais presente. Foi com Lacan que pudemos acessar um supereu sem sentido, severo, ingovern\u00e1vel e destruidor que \u00e9 muito mais pr\u00f3ximo ao imperativo: Far\u00e1s!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 na passagem do imperativo categ\u00f3rico ao imperativo de gozo que reside a figura voraz e feroz. Se o primeiro, o imperativo categ\u00f3rico, est\u00e1 ligado ao campo moral, da regula\u00e7\u00e3o, o segundo, o imperativo de gozo, traz a injun\u00e7\u00e3o ao gozo. Primeiro, vem o imperativo categ\u00f3rico (beber para desinibir, por exemplo), e, em seguida, opera o imperativo do gozo (puni\u00e7\u00e3o por perder a festa). Assim, se por um lado h\u00e1 um imperativo que exige sacrif\u00edcio, por outro, h\u00e1 o que impele ao masoquismo. Essa elabora\u00e7\u00e3o pode ser extra\u00edda de Lacan (1962\/1998) quando ele trabalha o texto \u201cKant com Sade\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 em Kant que Lacan localizou o imperativo categ\u00f3rico, em que o sujeito tenta atingir o bem e a dignidade pela virtude moral, se deparando com um impedimento ou mesmo com a censura. J\u00e1 em Sade, ele se deparou com um direito ao gozo do corpo do outro. Ambos os imperativos se complementam, uma vez que levam o sujeito ao extremo, em um mais-al\u00e9m do bem-estar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o que faz a passagem do prazer ao seu al\u00e9m? O que acontece que uma simples c\u00f3cega pode se tornar uma labareda de gasolina? Ou, o que faz com que o supereu n\u00e3o seja dilu\u00eddo no \u00e1lcool e nem regulado?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Podemos pensar que se trata da quest\u00e3o da implanta\u00e7\u00e3o da voz enquanto objeto\u00a0<em>a<\/em>, pois tanto o supereu, quanto o objeto\u00a0<em>a<\/em>, se imp\u00f5em como modo de gozo. \u00c9 extremamente comum escutarmos na cl\u00ednica, e na nossa pr\u00f3pria vida, as vozes do supereu em a\u00e7\u00e3o em sua vertente de duplo comando que se apresenta como dois imperativos: um que impele ao movimento e outro em vetor contr\u00e1rio. Se considerarmos a lei da f\u00edsica, o encontro da for\u00e7a de ambos causa uma paralisia (BARROS, 2015).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trata-se de uma voz desincorporada, ou seja, n\u00e3o se trata do falar ou da entona\u00e7\u00e3o. Lacan atribui ao supereu um car\u00e1ter de imperativo e o transforma em exig\u00eancia imposs\u00edvel de contornar. Tal imperativo se presentifica como uma voz desencarnada, atribu\u00edda ao Outro,\u00a0 n\u00e3o experimentada como vinda de outra pessoa, mas do Outro (ASSIS; VIEIRA, 2019). O que demonstra o car\u00e1ter de objeto\u00a0<em>a<\/em>\u00a0da voz \u00e9 o fato de ser atribu\u00edda ao Outro, por isso uma voz desincorporada. Nessa dire\u00e7\u00e3o, o supereu lacaniano, ou o supereu como voz, incide muito mais em sua vertente de imperativo de gozo do que de imperativo moral (CORDEIRO, 2011).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Considerando a cl\u00ednica da toxicomania, para n\u00e3o fugirmos tanto de nosso tema, ela \u00e9 uma cl\u00ednica do supereu (ALVARENGA, 2005) em sua vertente de gulodice. Em seu aspecto de imperativo de gozo, os toxic\u00f4manos v\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 ruptura f\u00e1lica, o que n\u00e3o conduz necessariamente \u00e0 forclus\u00e3o do Nome-do-Pai, mas ao encontro com um gozo que desconheces limites, um gozo que pode ser destruidor e aniquilar o sujeito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lecouer (1992, p. 74) menciona que \u201co sujeito que se decide, em v\u00e3o, a renunciar \u00e0 bebida, n\u00e3o faz sen\u00e3o relan\u00e7ar, com ainda mais for\u00e7a, aquilo que, afinal, o empurra a beber\u201d. Ou seja, o supereu alimenta-se da ren\u00fancia pulsional. Talvez por essa raz\u00e3o nos deparamos com reca\u00eddas cada vez mais devastadoras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 conclus\u00e3o, podemos dizer que a rela\u00e7\u00e3o estabelecida com o supereu lacaniano n\u00e3o est\u00e1 ligada \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o, mas, sim, a uma voz de comando sem corpo e sem nenhum contorno. J\u00e1 o supereu freudiano \u00e9 diferente, ele est\u00e1 ligado ao ideal do eu e ao imperativo moral e mant\u00e9m uma vincula\u00e7\u00e3o com a identifica\u00e7\u00e3o. Tal identifica\u00e7\u00e3o \u00e9 consequ\u00eancia da sa\u00edda do complexo de \u00c9dipo e implica na incorpora\u00e7\u00e3o da voz. O que Lacan desvela \u00e9 \u201cessa voz que diz \u2018goza\u2019 \u00e9 o objeto\u00a0<em>a<\/em>\u00a0voz como presen\u00e7a, ou seja, a presen\u00e7a do Outro sob forma vocal maci\u00e7a, experimentada como imperativo\u201d (ASSIS; VIEIRA, 2011, p.274), que reclama obedi\u00eancia e convic\u00e7\u00e3o. Tal obedi\u00eancia \u00e9 a caracter\u00edstica mais marcante do supereu, pois trata-se de uma obedi\u00eancia que n\u00e3o deixa margem para questionamentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O supereu lacaniano se situa ali onde o complexo de \u00c9dipo n\u00e3o recobre nos termos identificat\u00f3rios e normativos, atestando um certo fracasso estrutural ao \u00c9dipo. E aquilo que n\u00e3o \u00e9 recoberto pelo complexo de \u00c9dipo, Freud, de maneira genial, j\u00e1 havia localizado como algo de uma inst\u00e2ncia cr\u00edtica, principalmente na melancolia, em que est\u00e1 em jogo identifica\u00e7\u00f5es mais primitivas e arcaicas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com Lacan, afirmamos que \u201cnada for\u00e7a ningu\u00e9m a gozar, sen\u00e3o o supereu. O supereu \u00e9 o imperativo do gozo \u2013 Goza!\u201d (1972-73\/1985, p. 11). Enfim, podemos perguntar: o supereu freudiano, aquele do casamento feliz com a garrafa, \u00e9 muito diferente do supereu lacaniano, em que o que est\u00e1 em jogo \u00e9 a ruptura com o faz-pipi?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O supereu faz jus ao ditado popular: o que n\u00e3o tem rem\u00e9dio, remediado est\u00e1. E uma an\u00e1lise pode promover algum al\u00edvio \u00e0 submiss\u00e3o ao imperativo do gozo, podendo promover um novo la\u00e7o, um la\u00e7o responsabilizado com seu desejo e seu modo de satisfa\u00e7\u00e3o (BARROS, 2015).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Concluindo,<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px; text-align: justify;\">um problema que n\u00e3o tem solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um problema, \u00e9 uma estrutura do imposs\u00edvel [&#8230;] na psican\u00e1lise n\u00e3o se trata de curar a fantasia ou de tratar o supereu, como j\u00e1 disse Lacan, mas de atravess\u00e1-los e identific\u00e1-los como o osso de uma cura. (CAMPOS, 2015, p. 155)<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias\u00a0<\/strong><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">ALVARENGA, E.\u00a0<em>Do gozo do pai \u00e0 melancolia.<\/em>\u00a0<em>Papers del CA &#8211; Nova Epoca<\/em>, n. 5, nov. 11 &#8211; 2005 Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/wapol.org\/pt\/articulos\/Template.asp&gt;. Acesso em: 22 jun. 2023.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">ASSIS, G. K. O. de; VIEIRA, M. A. Supereu: a voz de um imperativo interrompido.\u00a0<em>Psicologia em Revista<\/em>, v.\u00a0<em>25, n. 1<\/em>, p. 258-277, 2019. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"http:\/\/pepsic.bvsalud.org\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1677-11682019000100015\">http:\/\/pepsic.bvsalud.org\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1677-11682019000100015<\/a>&gt;. Acesso em: 22 jun. 2023.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">BARROS, R. R. Pref\u00e1cio.\u00a0<em>Supereu | Uerepus<\/em>: das origens aos seus destinos. Belo Horizonte: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, 2015.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">CAMPOS, S.\u00a0<em>Supereu | Uerepus<\/em>: das origens aos seus destinos. Belo Horizonte: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, 2015.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">CORDEIRO, N. M. O supereu: imperativo de gozo e voz.\u00a0<em>Tempo psicanal\u00edtico<\/em>, v. 43, n. 2, 2011.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">FREUD, S. Sobre o narcisismo: uma introdu\u00e7\u00e3o. In:\u00a0<em>Edi\u00e7\u00e3o Standard das Obras Completas de Sigmund Freud<\/em>. Rio de Janeiro: Imago, Vol. IV, 1996. (Trabalho original publicado em 1914).<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">FREUD, S. Al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer. In:\u00a0<em>Edi\u00e7\u00e3o Standard das Obras Completas de Sigmund Freud<\/em>. Rio de Janeiro: Imago, Vol. XVII, 1996. (Trabalho original publicado em 1920).<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">FREUD, S. O mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o. In:\u00a0<em>Edi\u00e7\u00e3o Standard das Obras Completas de Sigmund Freud<\/em>. Rio de Janeiro: Imago, Vol. XXI, 1996. (Trabalho original publicado em 1930).<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">LACAN, J.\u00a0<em>O Semin\u00e1rio, livro 20: Mais, ainda.<\/em>\u00a0Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985. (Trabalho original proferido em 1972-73).<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">LACAN, J.\u00a0<em>O Semin\u00e1rio, livro 1<\/em>: Os escritos t\u00e9cnicos de Freud. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1986. (Texto original proferido em 1953-54).<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">LACAN, J. Kant com Sade. In:\u00a0<em>Escritos.\u00a0<\/em>Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. (Trabalho original publicado em 1962).<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">LACAN, J.\u00a0<em>O Semin\u00e1rio, livro 17<\/em>: O avesso da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1992. (Trabalho original proferido em 1969-70).<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">LACAN, J. Televis\u00e3o. In:\u00a0<em>Outros Escritos.\u00a0<\/em>Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. (Trabalho original publicado em 1973).<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">LECOUER, B.\u00a0<em>O homem embriagado<\/em>: estudos psicanal\u00edticos sobre toxicomania e alcoolismo. Belo Horizonte: Centro Mineiro de Toxicomania, 1992.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">MILLER, J.-A. Clinica del supery\u00f3. In:\u00a0<em>Conferencias Porte\u00f1as.\u00a0<\/em>(Tomo 1). Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2009.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">MILLER, J.-A. Aparelhos da escuta, li\u00e7\u00e3o de 23.03.2011 do Curso \u201cO Um sozinho\u201d.<em>\u00a0Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em>, n. 83, p. 54-66. S\u00e3o Paulo: Eolia, set. 2021.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/54-almanaque-on-line-31\/538-supereu-soluvel-no-alcool#refer1\">[1]<\/a><a id=\"nota1\"><\/a>\u00a0Texto apresentado no N\u00facleo de Pesquisa e Investiga\u00e7\u00e3o nas Toxicomanias e Alcoolismo em 06 de junho de 2023.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Antunes Psicanalista,\u00a0mestre em Estudos Psicanal\u00edticos pela UFMG miguelfigueiredoantunes@gmail.com Resumo:\u00a0A partir da proposta de \u201cretorno aos cl\u00e1ssicos\u201d, feita pelo N\u00facleo de Investiga\u00e7\u00e3o e Pesquisa nas Toxicomanias e Alcoolismo, o texto prop\u00f5e comentar a famosa frase \u201co supereu alc\u00f3olico \u00e9 sol\u00favel no \u00e1lcool\u201d. Para tal, ser\u00e1 trabalhado o conceito de supereu tanto em Freud como em&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57767,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[],"class_list":["post-184","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-31","category-26","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/184","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=184"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/184\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57768,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/184\/revisions\/57768"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57767"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=184"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=184"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=184"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}