{"id":1842,"date":"2022-03-19T06:41:12","date_gmt":"2022-03-19T09:41:12","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1842"},"modified":"2025-12-01T13:17:44","modified_gmt":"2025-12-01T16:17:44","slug":"uma-leitura-sobre-o-sintoma-como-acontecimento-de-corpo1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2022\/03\/19\/uma-leitura-sobre-o-sintoma-como-acontecimento-de-corpo1\/","title":{"rendered":"UMA LEITURA SOBRE O SINTOMA COMO ACONTECIMENTO DE CORPO[1]\u00a0"},"content":{"rendered":"<h6>ESTEBAN KLAINER<br \/>\nPsicanalista, membro da EOL\/AMP<br \/>\n<a href=\"mailto:eaklainer@gmail.com\">eaklainer@gmail.com<\/a><\/h6>\n<blockquote><p><strong>Resumo:\u00a0<\/strong>O autor busca, no \u00faltimo ensino de Lacan, esclarecimentos sobre o que faria a diferen\u00e7a entre os chamados fen\u00f4menos de corpo e os acontecimentos de corpo. Baseando-se principalmente na confer\u00eancia de Lacan em Roma, em 1974, \u201cA terceira\u201d, ele explora as no\u00e7\u00f5es de gozo f\u00e1lico como um gozo\u00a0<em>fora<\/em>\u00a0do corpo, no enla\u00e7amento simb\u00f3lico-real, tendo como marca os objetos\u00a0<em>a<\/em>, e um gozo\u00a0<em>no<\/em>\u00a0corpo, resultado do enla\u00e7amento imagin\u00e1rio-real, gozo que situa o ser falante em rela\u00e7\u00e3o a seu encontro com\u00a0<em>lal\u00edngua<\/em>.<\/p>\n<p><strong>Palavras chaves:\u00a0<\/strong>fen\u00f4meno de corpo; acontecimento de corpo; sintoma; gozo fora do corpo; gozo no corpo.<\/p>\n<p><strong>A reading on the symptom as a body event<\/strong><\/p>\n<p><strong>Abstract:<\/strong>\u00a0The author pursues clarification in Lacan&#8217;s last teaching about what would be the difference between the so-called body phenomena and body events. Based mainly on Lacan&#8217;s 1974 Rome lecture,\u00a0<em>The Third<\/em>, he explores the notions of phallic jouissance as jouissance\u00a0<em>outside\u00a0<\/em>the body, in the symbolic-real linkage, marked by the objects a. And jouissance\u00a0<em>on the<\/em>\u00a0body, as a result of the imaginary-real intertwining, a jouissance that situates the speaking being in relation to the encounter with\u00a0<em>lalangue<\/em>.<\/p>\n<p><strong>Keywords:\u00a0<\/strong>body phenomena; body event; symptom; jouissance outside the body; jouissance on the body.<\/p><\/blockquote>\n<div id=\"attachment_1843\" style=\"width: 1546px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/ESTEBAN_KLAINER.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"1536\" data-large_image_height=\"1596\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1843\" class=\"wp-image-1843\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/ESTEBAN_KLAINER-986x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"567\" height=\"589\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/ESTEBAN_KLAINER-986x1024.jpg 986w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/ESTEBAN_KLAINER-289x300.jpg 289w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/ESTEBAN_KLAINER-768x798.jpg 768w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/ESTEBAN_KLAINER-1478x1536.jpg 1478w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/ESTEBAN_KLAINER.jpg 1536w\" sizes=\"auto, (max-width: 567px) 100vw, 567px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1843\" class=\"wp-caption-text\">Desali, s\/t.<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O convite da COL (Colecci\u00f3n de la Orientaci\u00f3n Lacaniana) para escrever um texto sobre o sintoma como acontecimento de corpo implica o desafio de explorar uma no\u00e7\u00e3o do \u00faltimo ensino de Lacan. Do que se trata a seguir \u00e9 fornecer uma leitura a respeito das \u00faltimas ideias de Lacan sobre o sintoma e do horizonte que a\u00ed se abre para a pr\u00e1tica anal\u00edtica.<\/p>\n<p>Como apontado h\u00e1 alguns anos por Jacques-Alain Miller, se seguimos Lacan em seu \u00faltimo ensino, n\u00e3o \u00e9 apenas por um gosto pelo deciframento, mas porque ali se encontram alguns destaques que podem orientar a cl\u00ednica e permitem repensar a efic\u00e1cia da nossa pr\u00e1tica (MILLER, 2016).<\/p>\n<p>Creio que o uso que fazemos da no\u00e7\u00e3o de \u201cacontecimento de corpo\u201d se presta a m\u00faltiplas leituras e equ\u00edvocos que poderiam se resumir no seguinte problema: o sintoma como acontecimento de corpo remete ao acontecimento traum\u00e1tico, que desenla\u00e7a ou, pelo contr\u00e1rio, a um acontecimento que enla\u00e7a e que consegue fazer sentir que se tem o corpo.<\/p>\n<p>Tentarei dar algumas respostas ao problema colocado, primeiros passos de uma elabora\u00e7\u00e3o em curso.<\/p>\n<p><em>Fen\u00f4menos de corpo e acontecimento<\/em><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>De onde partir? Talvez come\u00e7ar por localizar que, no corpo, se sucedem permanentemente muitas coisas que o afetam: inc\u00f4modo, ang\u00fastia, medo, prazer, pranto, felicidade, etc., etc. Inclusive nos sonhos os afetos corporais est\u00e3o em jogo. J\u00e1 em Freud podemos ler que<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cas manifesta\u00e7\u00f5es afetivas no sonho n\u00e3o permitem o tratamento depreciativo com o qual, ao despertar, costumamos nos livrar do conte\u00fado do sonho: \u2018Quando tenho medo de ladr\u00f5es no sonho, os ladr\u00f5es s\u00e3o imagin\u00e1rios, mas o medo \u00e9 real\u2019, e o mesmo acontece quando me alegro no sonho\u201d (FREUD, 1900\/2019, p. 506).<\/p>\n<p>Pois bem, podemos pensar todos esses fen\u00f4menos de corpo como \u201c\u2018acontecimentos de corpo\u201d, no sentido que Lacan d\u00e1 a essa express\u00e3o?<\/p>\n<p>O termo acontecimento, desde sua etimologia, seus usos na linguagem ou seus usos hist\u00f3ricos, faz refer\u00eancia a um fato particularmente importante. Sua etimologia se deriva do substantivo latino\u00a0<em>adventos<\/em>, que significa \u201cchegada\u201d ou \u201cvinda\u201d, e teve um uso em latim eclesi\u00e1stico para designar a chegada de Jesus Cristo (BLOCH, 2002). Tamb\u00e9m se aproxima do termo \u201cconting\u00eancia\u201d na medida em que se trata de um fato que pode ou n\u00e3o acontecer.<\/p>\n<p>Nessa perspectiva, e supondo em Lacan um uso preciso das palavras, podemos deduzir que nem todo fen\u00f4meno corporal toma o valor de um acontecimento. Cabe, ent\u00e3o, perguntar o que d\u00e1 valor de acontecimento a um fen\u00f4meno corporal.<\/p>\n<p>Para avan\u00e7ar, parece-me necess\u00e1rio localizar alguns passos no \u00faltimo ensino de Lacan.<\/p>\n<p>Um primeiro passo, que me parece importante assinalar, encontramos no texto \u201cA terceira\u201d (LACAN, 1974\/2011). Pode-se consider\u00e1-lo um texto fundamental do \u00faltimo ensino e, nesse sentido, uma dobradi\u00e7a no que diz respeito \u00e0s elabora\u00e7\u00f5es de Lacan sobre a no\u00e7\u00e3o de sintoma.<\/p>\n<p>Com a nova escrita do n\u00f3 borromeano como o real da estrutura, Lacan p\u00f4de diferenciar radicalmente, no campo do gozo, duas modalidades absolutamente distintas. \u00c9 assim que distingue um tipo de gozo que se localiza na interse\u00e7\u00e3o do simb\u00f3lico e do real, o qual se caracteriza por ser um gozo\u00a0<em>fora<\/em>\u00a0do corpo, e outro tipo de gozo que se localiza entre o imagin\u00e1rio e o real, cuja caracter\u00edstica \u00e9 ser um gozo\u00a0<em>no<\/em>\u00a0corpo.<\/p>\n<p>A escrita do n\u00f3 borromeano permite n\u00e3o s\u00f3 a distin\u00e7\u00e3o entre esses dois gozos, como tamb\u00e9m mostra o que fica exclu\u00eddo para cada um deles. \u00c9 assim que o gozo que se articula entre simb\u00f3lico e real est\u00e1 fora do imagin\u00e1rio, e o que resulta da articula\u00e7\u00e3o entre imagin\u00e1rio e real est\u00e1 fora do simb\u00f3lico.<\/p>\n<p>Lacan nomeia gozo f\u00e1lico o gozo localizado na interse\u00e7\u00e3o simb\u00f3lico-real. Parece-me importante assinalar, nesse ponto, como entendo a express\u00e3o gozo f\u00e1lico nessa altura do ensino de Lacan. N\u00e3o creio que se refira ao gozo articulado ao significante f\u00e1lico, isto \u00e9, \u00e0 opera\u00e7\u00e3o de castra\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica ligada ao Nome-do-Pai, mas \u00e0quele que responde pelos efeitos da entrada de\u00a0<em>lal\u00edngua<\/em>\u00a0no corpo vivo.<\/p>\n<p>Pois bem, como entender que se trata de um gozo fora-do-corpo? Trata-se de um gozo que produz o simb\u00f3lico, a entrada de<em>\u00a0lal\u00edngua<\/em>\u00a0no corpo, e que \u00e9 justamente esse efeito o que constitui os objetos\u00a0<em>a<\/em>\u00a0que se localizam nas bordas do corpo. J.-A. Miller, em seu curso\u00a0<em>Sutilezas anal\u00edticas,\u00a0<\/em>se refere ao gozo<em>\u00a0fora\u00a0<\/em>do corpo nestes termos:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">[&#8230;] o significante afeta o corpo do falasser porque fragmenta o gozo do corpo, e esses peda\u00e7os s\u00e3o os\u00a0<em>objetos a<\/em>. Ent\u00e3o, se nos detemos nessa f\u00f3rmula, supomos que h\u00e1 um primeiro estatuto do gozo, que eu chamava gozo da vida, e que, pelo fato de que esse corpo na esp\u00e9cie humana \u00e9 falante, seu gozo se v\u00ea modificado na forma de fragmenta\u00e7\u00e3o e de condensa\u00e7\u00f5es no que s\u00e3o as zonas er\u00f3genas, segundo Freud, cada uma relativa a um tipo de objeto (MILLER, 2011, p. 278, tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/p>\n<p>\u00c9 um gozo que se experimenta nas zonas er\u00f3genas e, portanto, nunca consegue se espalhar para o resto do corpo. Marca, assim, um regime de vazio e excesso, de um mais e um menos ilimitado, que, em seu funcionamento pr\u00f3prio, diz Lacan, reinventa a tela \u201cporque n\u00e3o vem de dentro da cena\u201d (LACAN, 1974\/2011, p. 22). Se o seguimos em \u201cA terceira\u201d, quando assinala que<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201co corpo se introduz na economia do gozo. Foi da\u00ed que parti. Se na rela\u00e7\u00e3o do homem \u2014 do que chamamos por esse nome \u2014 com seu corpo, se h\u00e1 algo que destaca bem que ele \u00e9 imagin\u00e1rio, \u00e9 o alcance que a imagem a\u00ed adquire\u201d (LACAN, 1974\/2011, p. 22),<\/p>\n<p>se se entende que o gozo f\u00e1lico esteja fora do corpo porque, precisamente, \u00e9 um gozo que est\u00e1 fora do imagin\u00e1rio, \u00e9 contradit\u00f3rio com a sustenta\u00e7\u00e3o da imagem corporal.<\/p>\n<p>A novidade que aparece no \u00faltimo ensino de Lacan, mais al\u00e9m do que, a partir da\u00ed, numerosos antecedentes podem ser encontrados e relidos, \u00e9 que o campo do gozo n\u00e3o se reduz ao gozo f\u00e1lico-pulsional. A dimens\u00e3o imagin\u00e1ria tamb\u00e9m tem seu real, um real diferente daquele que articula o simb\u00f3lico. Trata-se de um gozo que, por defini\u00e7\u00e3o, est\u00e1 fora da linguagem e que se experimenta, se sente,\u00a0<em>no<\/em>\u00a0corpo. \u00c9 justamente esse enodamento, o de um gozo com o imagin\u00e1rio, o que d\u00e1 consist\u00eancia \u00e0 imagem corporal, uma vez que lhe fornece uma sustenta\u00e7\u00e3o real. \u00c9 por esse gozo\u00a0<em>no<\/em>\u00a0corpo que o falasser sente que \u201ctem um corpo\u201d. Esse enodamento, que d\u00e1 um peso real \u00e0 imagem corporal, caso se produza, \u00e9 logicamente anterior \u00e0 montagem do Outro e ao recurso ao Ideal, que, a partir do \u201cesquema \u00f3ptico\u201d do primeiro ensino de Lacan, era a maneira que t\u00ednhamos para entender como se sustentava o imagin\u00e1rio corporal.<\/p>\n<p>Pensar que \u00e9 o que mant\u00e9m o imagin\u00e1rio enodado, creio ser uma boa via em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s \u00faltimas elabora\u00e7\u00f5es de Lacan sobre o sintoma.<\/p>\n<p><em>Reformula\u00e7\u00e3o da no\u00e7\u00e3o de sintoma<\/em><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Um segundo passo, que me orienta nessa trajet\u00f3ria, consiste em assinalar duas novidades sobre o sintoma que encontramos tamb\u00e9m em \u201cA terceira\u201d (LACAN, 1974\/2011).<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, Lacan assinala que chama \u201cde sintoma ao que vem do real\u201d (LACAN, 1974\/2011, p. 17). Essa simples formula\u00e7\u00e3o \u00e9 toda uma novidade da qual talvez ainda n\u00e3o tenhamos pesado todas as suas consequ\u00eancias. Dizer que o sintoma vem do real implica tomar muita dist\u00e2ncia de Freud e do pr\u00f3prio Lacan, no retorno a Freud. Em Freud, o sintoma era algo vinculado \u00e0 a\u00e7\u00e3o repressora do pai, ou seja, a um produto do simb\u00f3lico. A exig\u00eancia pulsional se encontrava com o \u201cn\u00e3o\u201d da fun\u00e7\u00e3o paterna, que promovia o recalque, e o sintoma era o resultado de uma transa\u00e7\u00e3o entre a exig\u00eancia pulsional e a inst\u00e2ncia repressora, uma forma\u00e7\u00e3o de compromisso. Redefinir o sintoma como proveniente do real o separa de toda refer\u00eancia ao Nome-do-Pai para deix\u00e1-lo no plano da conting\u00eancia.<\/p>\n<p>A segunda novidade que encontramos nesse mesmo escrito \u00e9 que o sintoma, que vem do real, \u201cn\u00e3o se reduz ao gozo f\u00e1lico\u201d (LACAN, 1974\/2011, p. 25). Isso significa, nem mais nem menos, que o sintoma n\u00e3o apenas articula o gozo simb\u00f3lico-real,\u00a0<em>fora<\/em>\u00a0do corpo, mas tamb\u00e9m esse outro gozo, imagin\u00e1rio-real, gozo\u00a0<em>no<\/em>\u00a0corpo.<\/p>\n<p>Localizadas essas duas novidades na reformula\u00e7\u00e3o de Lacan sobre o sintoma, creio que posso entrar, sem me perder muito, na defini\u00e7\u00e3o do sintoma como \u201cacontecimento de corpo\u201d.<\/p>\n<p><em>Sintoma como acontecimento de corpo: a pista de Joyce<\/em><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Como express\u00e3o de Lacan, encontramos, em seu escrito \u201cJoyce, o Sintoma\u201d<em>,\u00a0<\/em>\u201cDeixemos o sintoma no que ele \u00e9: um evento corporal [&#8230;]\u201d (1975\/2003, p. 565).<\/p>\n<p>Nesse ponto, e retomando a quest\u00e3o levantada no in\u00edcio do texto, em Joyce localizamos o acontecimento de corpo na cena de confronto com seus colegas de col\u00e9gio, em que ele perde seu imagin\u00e1rio corporal, que cai como uma casca, ou, pelo contr\u00e1rio, na cena na qual conquista a certeza de ser \u201co artista\u201d, na qual sente a entrada de um gozo que lhe permite recuper\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Se seguimos Lacan nesse mesmo escrito, ele afirma que o sintoma \u00e9 um acontecimento ligado ao corpo que se<em>\u00a0tem<\/em>; quer dizer, ligado a uma experi\u00eancia de gozo a partir da qual sente-se que se tem o corpo. \u00c9 interessante que ele se refira atrav\u00e9s de um jogo de palavras, do qual ele diz que, \u00e0s vezes, se canta \u201c[&#8230;] l\u2019on I\u2019a, I\u2019on I\u2019a de l\u2019air, l\u2019on l\u2019aire, de l\u2019on l\u2019a\u201d<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/uma-leitura-sintoma#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[2]<\/sup><\/a>\u00a0(LACAN, 1975\/2003, p. 565), com o qual ele parece aludir a essa experi\u00eancia de gozo. Nesse sentido, parece que \u00e9 justamente em Joyce que Lacan pode localizar a fun\u00e7\u00e3o do sintoma como acontecimento de corpo, como o recurso que lhe permite enodar seu imagin\u00e1rio corporal.<\/p>\n<p>Em sua apresenta\u00e7\u00e3o no\u00a0<em>Semin\u00e1rio 23<\/em>\u00a0(LACAN, 1975-76\/2007, p. 179), Jacques Aubert, guiado por Lacan, localiza, em uma passagem de\u00a0<em>Ulisses<\/em>, aquilo que pode ser lido como o momento em que adv\u00e9m, para Joyce, o acontecimento que assume valor sintom\u00e1tico. O personagem de Stephen escuta, no jornal onde trabalha, o relato que seu s\u00f3cio, J. J. O\u2019Molloy, faz da alega\u00e7\u00e3o de um advogado em um caso de fratric\u00eddio, em que se cita Mois\u00e9s de Michelangelo, no Vaticano:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Ele disse sobre isso:\u00a0<em>aquela ef\u00edgie de pedra numa m\u00fasica congelada, corn\u00edfera e terr\u00edvel, da forma humana divina, aquele eterno s\u00edmbolo de sabedoria e de profecia que, se alguma coisa daquilo que a imagina\u00e7\u00e3o ou a m\u00e3o de um escultor talhou no m\u00e1rmore da almatransfigurada e da almatransfigurante merece viver, merece viver<\/em>\u201d (LACAN, 1975-76\/2007, p. 179).<\/p>\n<p>No justo momento em que O\u2019Molloy pronuncia as palavras \u201c<em>deserves to live<\/em>\u201d (merece viver), ele as dirige a Stephen, que sente uma emo\u00e7\u00e3o que se manifesta como um \u201crubor\u201d. Efeito de como\u00e7\u00e3o corporal ligado a ser \u201co artista\u201d, que Aubert se ocupa em rastrear em outras obras de Joyce e que enodam para ele a quest\u00e3o \u201cda validade e tamb\u00e9m a da certeza\u201d (LACAN, 1975-76\/2007, p. 180).<\/p>\n<p>Poder\u00edamos ler ali o acontecimento de corpo que, para Joyce, implicou a certeza que lhe deu um corpo e lhe permitiu sustent\u00e1-lo frente aos efeitos intrusivos que sofria de\u00a0<em>lal\u00edngua<\/em>.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, nessa perspectiva, seria precisamente Joyce \u2014 a quem Lacan n\u00e3o acidentalmente chama de \u201cJoyce, o Sintoma\u201d \u2014 quem mostraria que o sintoma como acontecimento de corpo tem uma fun\u00e7\u00e3o de enodamento que permite sustentar o corpo frente aos ataques mortificantes de\u00a0<em>lal\u00edngua,\u00a0<\/em>como permite enodar um gozo\u00a0<em>no\u00a0<\/em>corpo e, assim, fazer\u00a0<em>sentir<\/em>\u00a0que, a esse corpo, se o tem<em>.\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Assim, a partir da leitura que proponho, um acontecimento assumiria um valor sintom\u00e1tico, caso se verifique o enodamento de um gozo\u00a0<em>no<\/em>\u00a0corpo, quer dizer, um Outro gozo diferente do gozo f\u00e1lico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><strong>Tradu\u00e7\u00e3o:<\/strong>\u00a0Daniela Dinardi<br \/>\n<strong>Revis\u00e3o:<\/strong>\u00a0Beatriz Esp\u00edrito Santo<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>BLOCH, O.-Von Wartburg, W.\u00a0<strong>Dictionnaire \u00e9timologique de la langue fran\u00e7aise<\/strong>, Quadrige\/PUF, Paris., 2002.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1900);\u00a0<strong>Os afetos no sonho<\/strong>. In: Sigmund Freud, Obras completas, volume 4. A interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos \u2013 1900, S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, vol. 4, 2019, p. 506 -536.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1974) A terceira. Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, S\u00e3o Paulo: Editora E\u00f3lia, n. 62, p.11-34, 2011.LACAN, J. (1975)\u00a0<strong>Joyce, O sintoma<\/strong>. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1975-76)\u00a0<strong>O Semin\u00e1rio, livro 23: o sinthoma<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.A.\u00a0<strong>Filosofia do gozo.<\/strong>\u00a0In: Sutilezas anal\u00edticas. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2011, p.269-280.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.A.\u00a0<strong>O inconsciente e o corpo falante<\/strong>. Apresenta\u00e7\u00e3o do tema do X Congresso da AMP, no Rio, em 2016. Wapol, 2016. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"about:blank\">https:\/\/www.wapol.org\/pt\/articulos\/Template.asp?intTipoPagina=4&amp;intPublicacion=13&amp;intEdicion=9&amp;intIdiomaPublicacion=9&amp;intArticulo=2742&amp;intIdiomaArticulo=9<\/a>&gt; Acesso em: 08 nov. 2021.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/uma-leitura-sintoma#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a>\u00a0Texto originalmente publicado em: KLAINER, E., (2019) Acontecimentos. \u00bfEl psicoan\u00e1lisis cambia? \u00bfQu\u00e9 es lo nuevo? Colecci\u00f3n de la Orientaci\u00f3n Lacaniana. Buenos Aires: Grama Ediciones, 2019.<\/h6>\n<h6>[2]\u00a0N.T: Conforme traduzido em Outros Escritos, p. 565:\u00a0<em>a gente o tem, a gente tem ares de, a gente areja a partir do a gente o tem.<\/em><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>psican\u00e1lse &#8211; alzheimer &#8211; lacan &#8211; psicanalise &#8211; psychanayse &#8211; corpo &#8211; psicoan\u00e1lisis<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ESTEBAN KLAINER Psicanalista, membro da EOL\/AMP eaklainer@gmail.com Resumo:\u00a0O autor busca, no \u00faltimo ensino de Lacan, esclarecimentos sobre o que faria a diferen\u00e7a entre os chamados fen\u00f4menos de corpo e os acontecimentos de corpo. Baseando-se principalmente na confer\u00eancia de Lacan em Roma, em 1974, \u201cA terceira\u201d, ele explora as no\u00e7\u00f5es de gozo f\u00e1lico como um gozo\u00a0fora\u00a0do&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57867,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[24],"tags":[],"class_list":["post-1842","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-28","category-24","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1842","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1842"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1842\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57868,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1842\/revisions\/57868"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57867"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1842"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1842"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1842"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}