{"id":1846,"date":"2022-03-19T06:41:12","date_gmt":"2022-03-19T09:41:12","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1846"},"modified":"2025-12-01T13:18:11","modified_gmt":"2025-12-01T16:18:11","slug":"almanaque-on-line-entrevista-marcio-abreu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2022\/03\/19\/almanaque-on-line-entrevista-marcio-abreu\/","title":{"rendered":"ALMANAQUE ON-LINE ENTREVISTA M\u00c1RCIO ABREU\u00a0"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_1847\" style=\"width: 999px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/ENTREVISTA-2.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"989\" data-large_image_height=\"1350\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1847\" class=\"wp-image-1847\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/ENTREVISTA-2-750x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"506\" height=\"691\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/ENTREVISTA-2-750x1024.jpg 750w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/ENTREVISTA-2-220x300.jpg 220w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/ENTREVISTA-2-768x1048.jpg 768w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/ENTREVISTA-2.jpg 989w\" sizes=\"auto, (max-width: 506px) 100vw, 506px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1847\" class=\"wp-caption-text\">Desali. Para os<\/p><\/div>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Marcio_Abreu-1.png\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"261\" data-large_image_height=\"263\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1848 alignleft\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Marcio_Abreu-1.png\" alt=\"\" width=\"112\" height=\"113\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Marcio_Abreu-1.png 261w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Marcio_Abreu-1-150x150.png 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 112px) 100vw, 112px\" \/><\/a>Ator, diretor e dramaturgo, natural do Rio de Janeiro, sua forma\u00e7\u00e3o tem passagens pela EITALC (Escola Internacional de Teatro da Am\u00e9rica Latina e Caribe) e pela ISTA (Escola Internacional de Antropologia Teatral). Nos anos 1990, em Curitiba, fundou o Grupo Resist\u00eancia de Teatro, com o qual trabalhou por seis anos. Diretor da companhia brasileira de teatro em 1999, sediada em Curitiba, desenvolveu pesquisas e processos criativos em interc\u00e2mbio com artistas de v\u00e1rias partes do Brasil e de outros pa\u00edses. Entre seus trabalhos recentes est\u00e3o <em>PROJETO bRASIL<\/em>\u00a0(2015) e\u00a0<em>PRETO<\/em>\u00a0(2017), com os parceiros da companhia brasileira de teatro. Dirigiu o Grupo Galp\u00e3o no espet\u00e1culo\u00a0<em>N\u00f3s<\/em>\u00a0(2016) e\u00a0<em>Outros<\/em>\u00a0(2018). Em 2021 estreou Sem Palavras, uma cria\u00e7\u00e3o junto \u00e0 companhia brasileira de teatro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>ALMANAQUE ON-LINE:\u00a0<\/strong>\u00c9 um prazer poder conversar com voc\u00ea sobre seu trabalho. Gostar\u00edamos que nos falasse dos caminhos que te levaram ao teatro.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>M\u00c1RCIO ABREU:\u00a0<\/strong>Todos os percursos t\u00eam as suas singularidades, e o meu desliza entre os campos da experi\u00eancia, do conhecimento, dos saberes. Desde muito cedo fui ligado \u00e0s artes, pois sempre tive, desde crian\u00e7a, muito est\u00edmulo e pendor para a criatividade, para a leitura. Sempre fui muito estimulado \u00e0s letras. Eu me lembro, j\u00e1 falei disso em algumas entrevistas, que existem imagens marcantes da minha inf\u00e2ncia que significam muito, que insistem quando eu vou falar de mim, da minha trajet\u00f3ria, do que fa\u00e7o hoje. Uma dessas imagens, que define muito por onde eu fui caminhando, \u00e9 o meu interesse por literatura desde muito cedo. Na escola em que estudava no Rio de Janeiro, havia uma esp\u00e9cie de cerim\u00f4nia, quando \u00e9ramos alfabetizados, que se chamava festa do livro. Nessa cerim\u00f4nia, cada crian\u00e7a tinha um padrinho ou uma madrinha, que a presenteava com um primeiro livro. Isso era um acontecimento! Eu me lembro disso, tenho at\u00e9 uma foto no palco de um teatro, com a minha m\u00e3e, que foi a minha madrinha. Ela me dando o livro, fazendo um gesto para baixo e eu no palco, recebendo um livro que se chamava\u00a0<em>Os patinhos de prata<\/em>; me lembro dele at\u00e9 hoje. Isso \u00e9 t\u00e3o inscrito na minha mem\u00f3ria, essa imagem recebendo um livro, a minha m\u00e3e a me dar, e a de ter sido muito interessado por leitura&#8230; Talvez eu tivesse tamb\u00e9m uma personalidade mais introspectiva, e os livros, de alguma maneira, eram tamb\u00e9m uma esp\u00e9cie de companhia, de ref\u00fagio, como tamb\u00e9m de abertura.<\/p>\n<p>Quando eu mudei do Rio para Curitiba, aos quinze, dezesseis anos, foi um momento bem importante tamb\u00e9m para mim. Naquele momento em que me mudei, Curitiba era uma cidade muito efervescente culturalmente; ela era muito menor que o Rio de Janeiro naquele final dos anos 80, in\u00edcio dos anos 90, e tinha um tipo de cultura menos\u00a0<em>mainstream,<\/em>\u00a0mais alternativa, mais\u00a0<em>underground,<\/em>\u00a0que me fascinou. Fiquei muito estimulado pelo movimento de poesia marginal, de m\u00fasicos, de poetas, do pr\u00f3prio teatro, da dan\u00e7a, do centro cultural onde havia um teatro grande, como o Pal\u00e1cio das Artes, em Belo Horizonte. Havia quatro montagens de \u00f3pera por ano, festival de m\u00fasica antiga, renascentista, a cidade ficava lotada&#8230;<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, havia as cenas de rock and roll, de m\u00fasica do movimento punk e uma forte veia liter\u00e1ria. Curitiba \u00e9 uma cidade de grandes autores, autores e autoras. S\u00e3o coisas que me marcaram muito. Fui muito influenciado, na minha adolesc\u00eancia, por essa cena curitibana.<\/p>\n<p>Quando chegou a \u00e9poca de fazer vestibular, eu n\u00e3o tinha muito interesse em fazer a faculdade de teatro, que hoje \u00e9 a Faculdade de Artes do Paran\u00e1. Acabei fazendo direito, embora me interessasse tamb\u00e9m por arquitetura, por filosofia. Terminei esse curso por v\u00e1rios motivos e s\u00f3 depois eu fui percebendo o porqu\u00ea de n\u00e3o ter nenhuma liga\u00e7\u00e3o profissional com o direito.<\/p>\n<p>Eu ingressei em uma escola de teatro, uma escola bastante singular, que se chama Escola Internacional de Teatro da Am\u00e9rica Latina e do Caribe, criada no in\u00edcio dos anos 80, em Cuba, por representantes de v\u00e1rios pa\u00edses latino-americanos de um modelo itinerante e antropol\u00f3gico de ensino. Foi uma experi\u00eancia radicalmente marcante para mim. Eu fazia viagens para alguns pa\u00edses e tinha experi\u00eancias de forma\u00e7\u00e3o, de compartilhamento e de viv\u00eancia de situa\u00e7\u00f5es em comunidades espec\u00edficas. Por exemplo, para citar uma dessas experi\u00eancias de forma\u00e7\u00e3o, na Nicar\u00e1gua, no final dos anos 90, eu fiquei trabalhando com o movimento art\u00edstico de camponeses que tinha sido criado na \u00e9poca da Revolu\u00e7\u00e3o Sandinista e que ainda se mantinha ativo e muito forte. Ele era orientado por professores de alguns pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, muito ligados \u2014 quase disc\u00edpulos \u2014 das t\u00e9cnicas do Augusto Boal. Essa forma\u00e7\u00e3o fora dos moldes da cl\u00e1ssica forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, que era justamente uma dissid\u00eancia desse modelo de ensino hier\u00e1rquico, tradicional, foi fundamental para mim. Era uma esp\u00e9cie de esquizofrenia, pois tamb\u00e9m participava de uma escola hipertradicional do direito, que \u00e9 como uma torre do saber.<\/p>\n<p>Naquele momento, a Universidade Federal do Paran\u00e1 e, justamente, a escola de direito, era para mim \u2014 depois fui entender isso \u2014 um microcosmos de uma vida institucional e pol\u00edtica brasileira que me causava muito horror. Eu queria terminar aquele percurso do curso de direito pelo fato de estar em uma escola p\u00fablica importante; n\u00e3o queria abandonar uma oportunidade que eu tive, de ter acesso ao ensino p\u00fablico, quando pessoas que talvez necessitassem mais do ensino p\u00fablico do que eu n\u00e3o tinham acesso. Mas, claro, ali eu tamb\u00e9m encontrei est\u00edmulos em determinados campos do estudo. Foi na Faculdade de Direito que comecei a realmente me interessar por filosofia, que \u00e9 um campo de estudo permanente para mim, pois participo de grupos de estudo, de grupos de leitura, tenho muita interlocu\u00e7\u00e3o com fil\u00f3sofos. Isso me foi inoculado na Faculdade de Direito, por mais que aquele campo fosse meio minado e que eu me visse como uma esp\u00e9cie de E.T. naquela paisagem humana. Ainda assim, foi l\u00e1 que uma outra luzinha se acendeu na cria\u00e7\u00e3o de uma certa consci\u00eancia reativa, combativa a determinados lugares, a modos de entendimentos de mundo e a pessoas com as quais realmente n\u00e3o h\u00e1 condi\u00e7\u00e3o de di\u00e1logo nem negocia\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o eu vivi muito esses extremos na minha forma\u00e7\u00e3o e, evidentemente, j\u00e1 fazendo muito teatro, criando grupos, viajando.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AOL:\u00a0<\/strong>Ainda como ator?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>M.A:<\/strong>\u00a0Ainda como ator, mas sempre escrevendo. A escrita sempre teve um papel importante para mim, foi um lugar de express\u00e3o desde cedo. E, aos poucos, o meu processo foi me tirando da cena, tirando meu corpo da cena\u2026 O meu corpo na perspectiva da encena\u00e7\u00e3o, pois ele n\u00e3o \u00e9 um corpo de fora. Sempre entro em debate diante dessa no\u00e7\u00e3o do encenador, do diretor de teatro, desse fazer teatral com a ideia de que \u00e9 um olhar de fora. Eu n\u00e3o entendo o lugar da cria\u00e7\u00e3o como um olhar e muito menos como um olhar de fora. Eu entendo como um campo de articula\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios n\u00edveis e perspectivas de linguagens, e isso tem a ver com composi\u00e7\u00e3o, com cria\u00e7\u00e3o. No sentido de voc\u00ea poder justamente habitar o seu corpo multiplamente. O seu corpo precisa se reconhecer e ser atravessado por perspectivas diversas, m\u00faltiplas. \u00c9 uma atividade bastante exigente! Muitas vezes me sinto exaurido por estar t\u00e3o dentro, t\u00e3o implicado, fisicamente, nessa atividade da encena\u00e7\u00e3o, nesse campo de cria\u00e7\u00e3o que \u00e9 a encena\u00e7\u00e3o. A dramaturgia e a encena\u00e7\u00e3o s\u00e3o, para mim, zonas de interse\u00e7\u00e3o muito fortes, dif\u00edceis de separar, sobretudo para mim, que me coloco em uma perspectiva de escrever e de entender a escrita como algo muito ligado ao corpo, na medida em que eu busco escritas que, sim, t\u00eam muita influ\u00eancia da literatura. A escrita para a cena tem a ver com uma dimens\u00e3o da oralidade, e a oralidade \u00e9 a dimens\u00e3o do corpo enunciativo. Esse corpo que inscreve a experi\u00eancia da oralidade, o corpo mem\u00f3ria. Ent\u00e3o, nesse sentido, eu me vejo muito implicado fisicamente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AOL:<\/strong>\u00a0Aproveitando essa sua refer\u00eancia sobre a implica\u00e7\u00e3o do corpo, quero engatar uma outra quest\u00e3o. Assistimos a um v\u00eddeo, da s\u00e9rie de entrevistas chamada \u201cConversas com Galp\u00e3o<sup><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/marcio-abreu#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a><\/sup>\u201d, no qual voc\u00ea usa uma express\u00e3o sobre a qual ficamos muito interessados em saber do que se trata: acontecimento de teatro. Ao falar dela, voc\u00ea aponta uma distin\u00e7\u00e3o entre o diretor teatral, cujo modo de dire\u00e7\u00e3o coordena a cena, e uma outra perspectiva como diretor, na qual voc\u00ea se coloca. Voc\u00ea chega a dizer que a dramaturgia \u00e9, ou deveria ser, uma m\u00e1quina de acontecimentos de teatro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>M.A:<\/strong>\u00a0\u00c9 interessante abordar essa quest\u00e3o, porque eu a acho absolutamente fundamental. De um modo geral, o senso comum sobre o teatro comumente traz a ideia de representa\u00e7\u00e3o, claro! Isso est\u00e1 inclusive na hist\u00f3ria do teatro, todos n\u00f3s sabemos disso! Acontece que, quando a gente fala de representa\u00e7\u00e3o, ao que exatamente a gente est\u00e1 se referindo? a que teatro? Nesse sentido, \u00e9 preciso tamb\u00e9m que a gente abra para perspectivas outras, as de perceber esses fen\u00f4menos, ou essas atividades humanas que s\u00e3o sedimentadas pela hist\u00f3ria, n\u00e3o somente a partir da hist\u00f3ria do ocidente, mas tamb\u00e9m por outras perspectivas, pela hist\u00f3ria de outros povos. \u00c9 evidente que o Ocidente inscreve e, digamos assim, de forma predominante, hegem\u00f4nica; ele define para n\u00f3s muitas coisas, entre elas, o que \u00e9 o teatro, o que \u00e9 representa\u00e7\u00e3o. Mas existem outros modos de entender isso e de estudar e de pensar sobre isso. Em geral, a ideia de teatro est\u00e1 muito ligada a um certo entendimento de representa\u00e7\u00e3o. \u00c9 evidente que eu n\u00e3o sou contra nem ing\u00eanuo o suficiente para recusar toda e qualquer ideia de representa\u00e7\u00e3o, naquilo que eu falo como artista, nem qualquer ideia de drama naquilo que eu fa\u00e7o como dramaturgo ou encenador. No entanto, eu busco, nos trabalhos que fa\u00e7o, incluir isso que seria a dimens\u00e3o relacional, convivial, ou seja, incluir esse outro que \u00e9 o espectador \u2014 ou isso que a gente chama de p\u00fablico. Ali\u00e1s, esse \u00e9 um conceito enrijecido, pois a gente fala \u201co p\u00fablico\u201d como se fosse uma generalidade, como se fosse uma massa. No entanto, esse \u201co p\u00fablico\u201d \u00e9 formado por comunidades que se afinam mais ou menos, que se reconhecem entre si mais ou menos, por indiv\u00edduos, por sujeitos, que t\u00eam corpos, mem\u00f3rias, que t\u00eam inscri\u00e7\u00f5es sociais diversas.<\/p>\n<p>Para mim, \u00e9 muito importante pensar nesse campo relacional. Quando eu imagino uma pe\u00e7a de teatro que tem uma dura\u00e7\u00e3o de duas horas, uma hora e meia, seja l\u00e1 o que for, eu vou ao teatro e imagino que vou viver aquela uma hora e meia, duas ou tr\u00eas horas e, mesmo inconscientemente, percebo que aquilo \u00e9 um ato, um rito. Isso est\u00e1 no corpo daquelas pessoas que nunca foram ao teatro, por ser uma reitera\u00e7\u00e3o t\u00e3o realizada ao longo da hist\u00f3ria que, mesmo aquela pessoa que nunca teve condi\u00e7\u00e3o, nunca quis ou nunca pode ir ao teatro, quando ela vai \u2014 mesmo inconscientemente \u2014, ela leva um pouco desse condicionamento de que ela vai viver aquele tempo, aquela dura\u00e7\u00e3o como algo que j\u00e1 est\u00e1 dado, com comportamentos j\u00e1 pautados, j\u00e1 cifrados, como c\u00f3digos j\u00e1 decifrados. No entanto, na vida, nessa dimens\u00e3o que a gente chama de realidade, ou que, no senso comum, chamam de realidade \u2014 existem muitas perspectivas para falar de real e realidade, n\u00e9? \u2014, mas, de um modo mais geral, as pessoas v\u00e3o ao teatro para separar realidade de fic\u00e7\u00e3o. Esse \u00e9 tamb\u00e9m o entendimento mais comum, a pessoa vai passar por ritos culturais que n\u00e3o ir\u00e3o afet\u00e1-la. \u00c9 quase como um pacto coletivo \u2014 mais ou menos consciente \u2014 de n\u00e3o afeta\u00e7\u00e3o, de n\u00e3o viv\u00eancia de uma experi\u00eancia, de um acontecimento, de um afastamento. Cada um se posiciona um pouco por a\u00ed.<\/p>\n<p>E o que eu acho mais instigante, mais provocativo e motivador nas artes presenciais \u2014 n\u00e3o estou falando s\u00f3 do teatro, estrito senso, mas de todas as artes que envolvem a presen\u00e7a dos corpos, seja de quem faz como o do espectador, que tamb\u00e9m faz, porque todos os corpos, mesmo o do espectador, \u00e9 um corpo que faz. A\u00ed se trata de n\u00e3o se ter<em>\u00a0a priori\u00a0<\/em>a defini\u00e7\u00e3o de quem \u00e9 ativo e quem \u00e9 passivo, de quem faz e quem n\u00e3o faz, quem d\u00e1 e quem recebe \u2014 n\u00e3o tem esse pensamento crist\u00e3o de dar e receber, n\u00e3o \u00e9 isso. Existe algo que est\u00e1 sendo mobilizado numa perspectiva coletiva. Ent\u00e3o isso responde um pouco ao que \u00e9 o n\u00facleo das minhas inquieta\u00e7\u00f5es, das minhas pesquisas e tentativas\u2026 Eu tento estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o tanto das atrizes e dos atores com essa mat\u00e9ria, seja um texto, espa\u00e7o, um campo dramat\u00fargico mais amplo, que envolve sonoridades, hist\u00f3ria, contexto pol\u00edtico, o momento espec\u00edfico que cada um est\u00e1 vivendo, subjetividades, evidentemente, ou seja, todo um campo de materialidades que v\u00e3o compor aquela experi\u00eancia \u00e9tico-est\u00e9tico que \u00e9 uma pe\u00e7a. Aquele tempo de dura\u00e7\u00e3o precisa ter textura de um acontecimento&#8230;<\/p>\n<p>S\u00e3o acontecimentos que a gente reconhece no nosso corpo, que a gente faz parte deles, seja quando eu me desloco na cidade, seja quando eu fico confinado na minha casa, ou quando eu estou aqui conversando com voc\u00eas, eu me dou conta de que isso est\u00e1 acontecendo. Essa textura implica os corpos de determinada maneira. Sim, ela tem camadas representacionais, tem tra\u00e7os de representa\u00e7\u00e3o em alguma medida. No entanto, quando a gente vai para o teatro, costuma se pensar que agora \u00e9 preciso representar, como se a gente n\u00e3o estivesse l\u00e1, como se fosse um pacto de aus\u00eancia coletivo, onde se emulam acontecimentos. Fixa-se a\u00ed um limite que, na minha opini\u00e3o, \u00e9 muito dif\u00edcil de aceitar, porque \u00e9 quase um pacto com a exclus\u00e3o, com a aus\u00eancia, como se todo mundo se colocasse em modo\u00a0<em>stand by<\/em>\u00a0durante duas horas: nada me afeta, eu n\u00e3o estou implicado em nada, saio e nada me aconteceu, eu me retirei do mundo. Chamaria isso de fic\u00e7\u00e3o? N\u00e3o. Eu aprendi com a literatura, desde muito cedo, que a fic\u00e7\u00e3o \u00e9 um lugar de vida intensa, \u00e9 um lugar que ressignifica campos do real de um modo como poucas coisas fazem. Ent\u00e3o, mesmo que eu trabalhe em uma perspectiva ficcional, por exemplo, em\u00a0<em>N\u00f3s<sup><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/marcio-abreu#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a><\/sup><\/em>\u00a0(2016), a pe\u00e7a do Galp\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma pe\u00e7a sobre o Galp\u00e3o, nem s\u00e3o, necessariamente, hist\u00f3rias estritamente pessoais da vida de cada um. Claro que existem tra\u00e7os, todas as fic\u00e7\u00f5es s\u00e3o compostas tamb\u00e9m de elementos que v\u00eam de algum lugar e, muitas das vezes, esse lugar \u00e9 o real. Mas toda aquela composi\u00e7\u00e3o que \u00e9 o\u00a0<em>N\u00f3s<\/em>, que nos chega de um campo da fic\u00e7\u00e3o, ativa aqueles corpos de atrizes e atores envolvidos naquilo; \u00e9 uma sucess\u00e3o de acontecimentos, desde os mais pequenos, impercept\u00edveis, como um copo que cai e derrama \u00e1gua, at\u00e9 acontecimentos mais simbolicamente significativos, quase arquet\u00edpicos, como a expuls\u00e3o de um corpo dissidente de um ambiente coletivo, como a recusa de uma mulher mais velha, cujo corpo j\u00e1 tem restri\u00e7\u00f5es de deslocamento e de movimento. Ent\u00e3o, essa ideia de acontecimento de teatro est\u00e1 ligada a uma viv\u00eancia do tempo e da mat\u00e9ria dramat\u00fargica na rela\u00e7\u00e3o com o tempo real, e n\u00e3o com o tempo da representa\u00e7\u00e3o, porque o tempo da representa\u00e7\u00e3o nos exclui um pouco da vida, \u00e9 como se a gente estivesse olhando para um tempo que est\u00e1 fora da gente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AOL:<\/strong>\u00a0Como se tivesse um car\u00e1ter de farsa?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>M.A:\u00a0<\/strong>Exatamente. A gente visita aquele tempo, mas, ao mesmo tempo, sai. Em\u00a0<em>N\u00f3s<\/em>, por exemplo, o que eu tentei fazer foi dar textura de acontecimento real a todo ato representativo. Muitas vezes, por exemplo, a gente ouvia: \u201cnossa, voc\u00eas est\u00e3o improvisando, parece que voc\u00eas est\u00e3o falando aqui agora\u201d. N\u00e3o, eles est\u00e3o falando agora, mas para falar agora e ter essa no\u00e7\u00e3o de que est\u00e3o improvisando, de que aquilo \u00e9 uma fala que est\u00e1 nascendo, um texto que est\u00e1 nascendo naquele momento, existiu um trabalho de elabora\u00e7\u00e3o gigantesco: que tipo de linguagem esse texto vai ter, como nasce esse texto, de onde ele vem, qual \u00e9 o processo criativo que gera esse tipo de texto com esse n\u00edvel de oralidade que ele tem e como esses atores e atrizes se preparam, at\u00e9 quimicamente mesmo, para realizar aquilo de novo e de novo e outra vez e mais uma vez, sem que aquilo pare\u00e7a uma mera representa\u00e7\u00e3o, sem que pare\u00e7a a execu\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>a prioris\u00a0<\/em>definidos. Eu sempre falo isso para os atores, pois trabalho com dispositivos e fico buscando e pesquisando como dar condi\u00e7\u00e3o a eles de passar por uma extrema elabora\u00e7\u00e3o \u2014 t\u00e9cnica, inclusive \u2014 para buscar uma precis\u00e3o tal que possibilite a cada um deles, a cada uma delas, no momento da pe\u00e7a, esquecer: fazer o exerc\u00edcio do esquecimento. Ent\u00e3o, h\u00e1 uma extrema elabora\u00e7\u00e3o para ter confian\u00e7a em esquecer e se lan\u00e7ar na experi\u00eancia. Todo um arsenal de dispositivos que eu fico criando e trazendo e colocando no ensaio\/estudos\/ leituras tem a ver com isso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AOL:\u00a0<\/strong>Nesse sentido, voc\u00ea diria que \u00e9 indissoci\u00e1vel o ator do sujeito que est\u00e1 ali?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>M.A:<\/strong>\u00a0Um pouco, \u00e9 um pouco indissoci\u00e1vel, o sujeito n\u00e3o como imposi\u00e7\u00e3o da subjetividade naquele ato, mas do contorno daquele indiv\u00edduo, da mem\u00f3ria daquele indiv\u00edduo. Essa tamb\u00e9m \u00e9 uma armadilha muito grande no teatro, muitas atrizes e atores t\u00eam esse v\u00edcio de derramar, impor a sua subjetividade \u00e0quele fazer quando, na verdade, h\u00e1 uma negocia\u00e7\u00e3o importante ali. N\u00e3o se trata s\u00f3 disso, pois eles t\u00eam que lidar com muitas coisas que est\u00e3o fora do seu contorno, fora dessa mat\u00e9ria subjetiva e que, em muitos casos, s\u00e3o mais importantes. Como voc\u00ea vai, por exemplo, realizar a mesma estrutura, se voc\u00ea derrama a sua subjetividade, e se se trata s\u00f3 disso, como voc\u00ea vai fazer de novo no dia seguinte? Tem que ter algum esteio estruturante que esteja fora de voc\u00ea, fora do sujeito, para negociar com esse sujeito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AOL:\u00a0<\/strong>Nessa conversa com o Galp\u00e3o, voc\u00ea fala um pouco sobre a lida com a palavra e com as diversas dimens\u00f5es da palavra, da materialidade da palavra e como acessar isso. E eu queria ouvir um pouco sobre como voc\u00ea entende essas dimens\u00f5es e como voc\u00ea trabalha isso com os atores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>M.A:\u00a0<\/strong>\u00c9, a palavra \u00e9 um caso s\u00e9rio. Eu fa\u00e7o an\u00e1lise lacaniana, percebo o quanto isso age. \u00c9 muito importante para mim esse trabalho da linguagem. Bom, eu tenho muita dificuldade de falar sobre isso agora. Acabei de fazer um trabalho e ainda estou mergulhado em uma cria\u00e7\u00e3o que acabou de estrear, que se chama\u00a0<em>Sem palavras<\/em>, e, apesar desse t\u00edtulo, esse texto est\u00e1 repleto delas. Eu me sinto fazendo parte de um mundo no qual h\u00e1 uma tentativa frequente e, muitas vezes, bem-sucedidas, de apropria\u00e7\u00e3o das palavras para fins de viol\u00eancia, de exclus\u00e3o, de impedimentos. Estou em uma sequ\u00eancia de trabalhos, desde 2012, 2013, dos quais os dois que fiz com o Galp\u00e3o fazem parte, que decorrem de uma inquieta\u00e7\u00e3o muito grande em rela\u00e7\u00e3o ao lugar dos discursos, da palavra p\u00fablica, dessa confus\u00e3o entre p\u00fablico e privado. Essa \u00e9 uma quest\u00e3o muito importante no trabalho da pesquisa e em tudo o que a gente fez para criar o\u00a0<em>N\u00f3s<\/em>. E acho que a gente est\u00e1 vivendo hoje, n\u00e3o s\u00f3 no Brasil, mas com muita nitidez no Brasil, um assalto a nossa l\u00edngua m\u00e3e. Eu acho que essa estrat\u00e9gia de se apropriar daquilo que \u00e9 mais long\u00ednquo subjetivamente, e, ao mesmo tempo, t\u00e3o fundante de cada um, t\u00e3o ontol\u00f3gico, t\u00e3o fundamental como a nossa pr\u00f3pria l\u00edngua, essa estrat\u00e9gia de tom\u00e1-la de assalto \u00e9 muito violenta, e n\u00e3o \u00e9 nova. Historicamente, a gente encontra outros momentos, na hist\u00f3ria do ocidente, e n\u00e3o t\u00e3o longe, em que a l\u00edngua e as linguagens foram a arma. Todos os estados de exce\u00e7\u00e3o se valem tamb\u00e9m de estrat\u00e9gias de linguagem. Veja a hist\u00f3ria do nazismo, das revolu\u00e7\u00f5es abafadas da Am\u00e9rica Latina e das contrarrevolu\u00e7\u00f5es patrocinadas pelo imperialismo norte-americano. Muito pouca gente se d\u00e1 conta disso, mas, por exemplo, Porto Rico, em determinado momento, foi uma col\u00f4nia dos EUA. Quando deixou de ser col\u00f4nia e passou a ter uma representa\u00e7\u00e3o na assembleia dos EUA, uma das primeiras coisas que fizeram foi impedir de falarem a l\u00edngua local\u00a0<em>borinquen<\/em>. Assim como na ascens\u00e3o do nazismo, toda aquela her\u00e1ldica, a maneira de reunir as pessoas, de promover imagens que eram publicizadas em espa\u00e7os p\u00fablicos, o modo como a multid\u00e3o se organizava, gritava ou proferia frases de ordem ritmadas, palavras escolhidas para fazer determinadas sauda\u00e7\u00f5es, tudo isso aponta para o uso da l\u00edngua e das linguagens como estrat\u00e9gia de domina\u00e7\u00e3o e de exterm\u00ednio. Estou muito afetado por isso como artista desde algum tempo.<\/p>\n<p>As pe\u00e7as que eu criei nesse per\u00edodo, a primeira se chama\u00a0<em>PROJETO bRASIL<\/em><sup><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/marcio-abreu#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a><\/sup>. \u00c9 uma pe\u00e7a que estreou em 2014-15, mas que come\u00e7ou a ser criada a partir de uma pesquisa longa que fiz em uma viagem pelas cinco regi\u00f5es do pa\u00eds. Pesquisando para essa pe\u00e7a, eu me debrucei, por exemplo, sobre a linguagem discurso. Ent\u00e3o eu estudei o discurso p\u00fablico de toda sorte e, assim, criei uma pe\u00e7a que \u00e9 uma sucess\u00e3o de discursos verbais e n\u00e3o verbais. S\u00e3o dezoito discursos, alguns reais (dois s\u00e3o extra\u00eddos de acontecimentos reais). Um \u00e9 o discurso que o Pepe Mujica fez, em uma ocasi\u00e3o, na assembleia da ONU, com a plateia quase vazia, como se estivesse proferindo palavras para ningu\u00e9m. E, no entanto, eram palavras t\u00e3o radicalmente importantes, proferidas nesse lugar de uma quase n\u00e3o escuta. O outro \u00e9 uma sequ\u00eancia de discursos da ent\u00e3o ministra da justi\u00e7a francesa, Christiane Taubira, que \u00e9 uma mulher negra, da Guiana Francesa, que conseguiu ser ministra da justi\u00e7a da Fran\u00e7a, um dos cargos mais intoc\u00e1veis de um pa\u00eds que se entende como um pa\u00eds branco e que nunca tinha sido ocupado por uma mulher, muito menos por uma mulher negra, e muito menos por uma mulher da Fran\u00e7a\u00a0<em>ultremer<\/em>, a Fran\u00e7a n\u00e3o metropolitana, antiga col\u00f4nia. Ela, em nome do governo franc\u00eas, prop\u00f4s o casamento entre pessoas do mesmo sexo, dando direitos parentais, ou seja, a ado\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as por casais do mesmo sexo. Ela fez uma s\u00e9rie de discursos, ao longo de v\u00e1rios meses, na assembleia, no senado, em defesa desse projeto que, finalmente, foi aprovado. O conjunto desses discursos, em minha opini\u00e3o, s\u00e3o pe\u00e7as n\u00e3o s\u00f3 liter\u00e1rias, talvez at\u00e9 psicanal\u00edticas, pe\u00e7as hist\u00f3ricas para pensar o nosso tempo, para pensar quais corpos podem habitar determinados espa\u00e7os, quem deve viver e quem deve morrer, discursos para pensar a necropol\u00edtica. Achei que valeria a pena visitar esses discursos. Ent\u00e3o, fiz uma esp\u00e9cie de colagem n\u00e3o colagem\u2026 eu articulei o conjunto desses discursos e os coloquei na estrutura da pe\u00e7a. Mas de que maneira esses discursos reais l\u00e1 est\u00e3o? Eles est\u00e3o n\u00e3o como representa\u00e7\u00e3o; n\u00e3o coloco l\u00e1 algu\u00e9m fazendo o Mujica, algu\u00e9m fazendo a Christiane Taubira. Eu tentei criar dispositivos que gerassem uma escuta coletiva. O acontecimento que est\u00e1 em jogo ali, no momento que a pe\u00e7a se d\u00e1, \u00e9 uma convoca\u00e7\u00e3o para ouvir essas palavras.<\/p>\n<p>\u00c9 como se a gente tivesse perdido a capacidade de ouvir determinadas vozes, determinadas falas e determinadas palavras, especificamente. Ou, ainda, \u00e9 como se a gente tivesse que reaprender a escutar e reaprender determinados sentidos atribu\u00eddos a determinadas palavras. Eu tenho feito esse exerc\u00edcio de tentar restituir alguns sentidos e algumas palavras e de tentar atribuir outros significados e outros sentidos a palavras que t\u00eam sentidos que a gente n\u00e3o quer mais.<\/p>\n<p>Eu fiz uma outra pe\u00e7a que vai nessa esteira, uma segunda parte, digamos, do\u00a0<em>PROJETO bRASIL<\/em>. \u00c9 uma pe\u00e7a chamada\u00a0<em>PRETO<\/em>\u00a0(2017), que \u00e9 uma pesquisa sobre negritude, pretura, racismo e que pensa a palavra na perspectiva da transmiss\u00e3o e da oralidade. Eu a pensei como uma confer\u00eancia de uma mulher negra, s\u00f3 que, em cena, n\u00e3o tem s\u00f3 uma mulher negra. Tem mais de uma, tem homens brancos, homens negros, t\u00eam corpos diversos e coexistentes. E a linguagem confer\u00eancia, palestra, vai sendo atravessada por outras possibilidades. Muitas vezes essa confer\u00eancia se transforma em outras coisas \u2014 di\u00e1logo, dan\u00e7a, disputa, ato de amor \u2014, e ela vai se configurando e reconfigurando de muitos modos, mas sempre volta para a mem\u00f3ria que aquilo que est\u00e1 acontecendo \u00e9 uma confer\u00eancia, \u00e9 a fala p\u00fablica de uma mulher negra. Em um dos primeiros momentos do processo criativo dessa pe\u00e7a, ainda longe de ela estar configurada como uma pe\u00e7a, de ser apresentada ao p\u00fablico, eu realizei, em Belo Horizonte, uma parte do seu processo criativo em um evento que se chamava \u201cPolif\u00f4nica negra\u201d. Era um festival, uma mostra de processos criativos. Nesse momento, dentro dos ensaios, a gente realizou uma mostra p\u00fablica na qual Grace Pass\u00f4, uma das atrizes da pe\u00e7a, ficava falando a palavra macaca durante 15 minutos. Ela pronunciava essa palavra diante do p\u00fablico durante 15 minutos e, bom, a\u00ed ela saia. Isso foi no Teatro Espanca!, na sede do grupo Espanca!, que fica na rua Aar\u00e3o Reis, perto do viaduto de Santa Tereza, no centro de Belo Horizonte, um lugar com a presen\u00e7a de uma diversidade muito grande de gente. Essa ideia de restituir ou de retirar o estigma da palavra macaca, por exemplo, \u00e9 uma das perspectivas dessa performance: desestigmatizar, dar a essa palavra outra escuta, outro corpo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AOL:\u00a0<\/strong>Isso \u00e9 muito interessante, tem muita rela\u00e7\u00e3o com a psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>M.A:<\/strong>\u00a0Realmente. E isso foi feito publicamente. Na pe\u00e7a\u00a0<em>N\u00f3s<\/em>\u00a0havia uma quest\u00e3o muito fundamental, que era como eu percebia o mundo, os acontecimentos do mundo, como o movimento da hist\u00f3ria batia e me atravessava, atravessava o meu corpo e como eu reagia a isso que me afetava. Qual era o meu gesto art\u00edstico em resposta, em rea\u00e7\u00e3o ou em di\u00e1logo? Esse era o princ\u00edpio do trabalho, da pesquisa para o trabalho. Evidentemente, o que chega em cada um de n\u00f3s s\u00e3o tamb\u00e9m palavras. O que se ouve? Quem se ouve? O que eu depreendo daquilo que eu recebo? Ent\u00e3o chegamos em algo que \u00e9 essa profus\u00e3o, essa esp\u00e9cie de rumor, esse rumor social que eu fui trabalhar, com mais radicalidade, na pe\u00e7a\u00a0<em>Outros<\/em>. Em\u00a0<em>N\u00f3s<\/em>\u00a0eu queria estabelecer estruturas de conv\u00edvio e dessas estruturas fazer emergir temas urgentes. Mas eu n\u00e3o queria falar sobre esses temas. Em geral, \u00e0s vezes eu me ou\u00e7o falando isso, e eu tenho um certo inc\u00f4modo, porque \u00e9 quase como se eu quisesse fazer uma frase de efeito, mas n\u00e3o \u00e9. Talvez seja porque eu j\u00e1 falei sobre isso tantas vezes, que talvez eu precise achar um outro modo de falar disso. Eu n\u00e3o fa\u00e7o pe\u00e7as sobre um assunto, o\u00a0<em>PROJETO bRASIL<\/em>\u00a0n\u00e3o \u00e9 uma pe\u00e7a sobre o Brasil, nem\u00a0<em>PRETO<\/em><sup><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/marcio-abreu#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a><\/sup>\u00a0\u00e9 uma pe\u00e7a sobre o racismo, nem\u00a0<em>N\u00f3s<\/em>\u00a0\u00e9 uma pe\u00e7a sobre a vida coletiva, n\u00e3o \u00e9 isso. \u00c9 a partir disso, de certo modo, \u00e9 mais a partir disso do que sobre isso. Todas essas pe\u00e7as, de algum modo, fazem, ou querem fazer, as quest\u00f5es que s\u00e3o indesvi\u00e1veis e lhes dar lugar, acontecer, emergir naquela estrutura dramat\u00fargica.<\/p>\n<p>Em\u00a0<em>N\u00f3s<\/em>, como isso se deu? Em uma polifonia. A constru\u00e7\u00e3o daquela dramaturgia teve uma perspectiva da conviv\u00eancia, de corpos e de hist\u00f3rias diferentes. O Grupo Galp\u00e3o est\u00e1 h\u00e1 quase quarenta anos junto. E s\u00e3o pessoas \u2014 eu falo isso sempre, inclusive em entrevistas \u2014 que s\u00e3o para mim um exemplo maior de uma esp\u00e9cie de laborat\u00f3rio de democracia, pois elas desenvolveram uma capacidade, com muito trabalho e exerc\u00edcio, de conviver na diferen\u00e7a por tanto tempo. Elas s\u00e3o pessoas inteiramente diferentes, em todos os sentidos \u2014 pensamento, ideologia, muitas vezes, como hist\u00f3ria, como mem\u00f3ria, como gera\u00e7\u00e3o, origem&#8230; Est\u00e1 l\u00e1 a Teuda, com 80 anos, e o J\u00falio, com 50 e poucos. Entre eles h\u00e1 muitas diferen\u00e7as, inclusive de classe social. N\u00e3o \u00e9 simples articular esse di\u00e1logo ao longo de tanto tempo. Que acordos s\u00e3o feitos ali? Eu acho um grande aprendizado conviver com o Galp\u00e3o, eles t\u00eam tecnologias de conviv\u00eancia na diferen\u00e7a, de escuta e de respeito. Eles se respeitam. E n\u00e3o \u00e9 preciso amar o outro para o respeitar, pode-se amar tamb\u00e9m, mas n\u00e3o precisa admirar profundamente para escutar. Tem uma coisa ali que \u00e9 muito interessante e muito bonita.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AOL:\u00a0<\/strong>N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil n\u00e3o segregar, pois o outro pode portar algum detalhe que o distingue que pode torn\u00e1-lo insuport\u00e1vel. E nem sempre \u00e9 uma diferen\u00e7a radical, voc\u00ea concorda?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>M.A:\u00a0<\/strong>\u00c9 dif\u00edcil n\u00e3o segregar. Parece que a segrega\u00e7\u00e3o est\u00e1 sempre na imin\u00eancia de acontecer. A pe\u00e7a traz \u00e0 tona tudo isso. No entanto, a palavra n\u00e3o diz, diretamente, as coisas importantes. Na pe\u00e7a, o que est\u00e1 sendo dito est\u00e1 por baixo da palavra. Eles est\u00e3o ali conversando, aparentemente, sobre banalidades, falando ali uma bobagenzinha, trocando uma ideia, uma receita, falando de uma coisa que lembrou, de uma coisa que viu, do outro. Mas porque n\u00e3o \u00e9 para falar sobre essas coisas, as coisas falam tamb\u00e9m. Os assuntos, eles mesmos falam, eles se falam atrav\u00e9s desses corpos. Eu quis criar ali atos fortes de conviv\u00eancia, onde essa polifonia pudesse ser articulada e todos esses assuntos viessem \u00e0 tona, aparecessem pelas brechas. E faz\u00ea-los acontecer no outro, na realiza\u00e7\u00e3o de quem v\u00ea, de quem participa, de quem faz como espectador. S\u00e3o perspectivas diferentes de entender a palavra, mas sempre com essa inquieta\u00e7\u00e3o e a consci\u00eancia desse momento muito perigoso que a gente vive, de captura das linguagens, da manipula\u00e7\u00e3o, do imp\u00e9rio da mentira, tudo isso que a gente est\u00e1 vendo.<\/p>\n<p>Voc\u00ea pode falar que qualquer coisa \u00e9 verdade e qualquer opini\u00e3o pode adquirir valor de pensamento e de verdade tamb\u00e9m. E de ideologia. Algu\u00e9m diz: \u201c\u00c9 a minha opini\u00e3o!\u201d. Assim, por exemplo, diz que veado tem que morrer. Essa pessoa diz que tem direito a dizer isso, porque \u00e9 a opini\u00e3o dela, mesmo que isso cause a viol\u00eancia e a morte do outro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AOL:\u00a0<\/strong>M\u00e1rcio, essa nossa conversa nos leva a um debate a que assistimos, com a sua presen\u00e7a e a da professora Helena Vieira<sup><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/marcio-abreu#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a><\/sup>. Ela falou algo muito interessante a prop\u00f3sito da sua pe\u00e7a\u00a0<em>Sem palavras<\/em><sup><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/marcio-abreu#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a><\/sup>, na qual os atores entram em cena e incorporam, encarnam algumas cenas pr\u00f3prias do nosso cotidiano. Numa delas, aborda-se o uso que hoje fazemos dos recursos tecnol\u00f3gicos que permitem a nossa presen\u00e7a virtual no mundo. O seu texto n\u00e3o faz um ju\u00edzo de valor, n\u00e3o diz que isso \u00e9 algo bom ou mau, mas aponta a presen\u00e7a de uma exig\u00eancia em se fazer ver no mundo virtual e que, muitas vezes, a isso se segue a ang\u00fastia em n\u00e3o se saber se vir\u00e3o ou n\u00e3o muitos likes sobre o que foi publicado. A esse respeito, Helena Vieira observa que vivemos em um mundo no qual a palavra de ordem \u00e9 a de estar em um estado de permanente excita\u00e7\u00e3o, de felicidade, em raz\u00e3o de \u201cum discurso que nos impele a gozar sem intervalos\u201d. Nesse ponto, ela alude ao t\u00edtulo de sua pe\u00e7a\u00a0<em>Sem palavras<\/em>\u00a0e finaliza dizendo que \u201co teatro, por exemplo, pode ser um lugar de fazer cessar esse ru\u00eddo\u201d, por meio do que ela chamou de um \u201csil\u00eancio ativo\u201d, um sil\u00eancio que \u201cpode provocar a emerg\u00eancia de novas palavras\u201d. Gostaria que voc\u00ea falasse sobre isso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>M.A:<\/strong>\u00a0Eu acho isso de uma lucidez muito grande, Helena \u00e9 uma pensadora extraordin\u00e1ria nesse sentido de se deslocar, de transitar entre saberes diversos e formular proposi\u00e7\u00f5es que tamb\u00e9m inspiram deslocamentos na gente. Essa ideia do sil\u00eancio, por exemplo\u2026. O sil\u00eancio entendido como acordo m\u00fatuo, digamos assim, ele se op\u00f5e nitidamente ao ato de silenciar \u2014 essa \u00e9 uma distin\u00e7\u00e3o importante de fazer. Silenciar denota uma a\u00e7\u00e3o, justamente isso que voc\u00ea est\u00e1 dizendo. Eu tenho sempre que ocupar o meu tempo, eu estou sempre conectado, por isso, eu vou silenciar, ou, ainda, eu preciso ficar quieto. Ent\u00e3o, vou fazer medita\u00e7\u00e3o, ou vou fazer um curso de ioga, vou aprender a ficar em sil\u00eancio, da mesma maneira que eu vou comprar um iPhone novo no Mercado Livre. Tudo no mesmo pacote de uma sociedade adoecida, deserotizada, profundamente deserotizada, desprovida do sentido er\u00f3tico da alegria. E pressionada ao consumo de tudo e a uma fala incessante que ocupa todos os lugares poss\u00edveis. As pessoas desaprenderam a ficar quietas, em sil\u00eancio observando alguma coisa, mesmo entre os seus, ficar quieto ao lado de algu\u00e9m. Ouvir simplesmente, para nada, s\u00f3 para ouvir \u2014 tirar a funcionalidade da escuta que implica ouvir para responder, ou, ouvir para aprender, para rebater, para reagir&#8230; Ouvir \u00e9 em si, \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o. Mesmo quem, fisiologicamente, n\u00e3o escuta, percebe sons com o corpo, percebe algo que repercute. O som gera ondas que repercutem e chegam no corpo de quem tem impedimentos fisiol\u00f3gicos para ouvir. Ent\u00e3o, acho que esse sil\u00eancio do qual a Helena fala n\u00e3o \u00e9 o silenciar algu\u00e9m ou a si mesmo, \u00e9 ceder a uma percep\u00e7\u00e3o, a uma viv\u00eancia, que a gente pode chamar de sil\u00eancio. O sil\u00eancio tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 algo natural, tudo soa\u2026 \u201cah, ent\u00e3o vamos ficar em sil\u00eancio\u201d&#8230; n\u00e3o. No teatro, por exemplo, o sil\u00eancio \u00e9 algo que precisa ser criado, o mero fato de n\u00e3o ter nenhum som, n\u00e3o significa sil\u00eancio necessariamente. Muitas vezes o sil\u00eancio, no teatro, precisa ser criado por contraste, para que se tenha uma apar\u00eancia de sil\u00eancio, por haver ru\u00eddo antes. Entretanto, talvez o sil\u00eancio seja algo um pouco mais profundo, e n\u00e3o aus\u00eancia de ru\u00eddo ou aus\u00eancia de som, ou de palavras, mas algo que \u00e9 habitado, \u00e9 uma mat\u00e9ria, uma textura, uma percep\u00e7\u00e3o que inspira a escuta que convoca a escuta. Ent\u00e3o, opor o sil\u00eancio \u00e0 palavra, ao som, \u00e0 escuta, est\u00e1 fora disso. Mas o sil\u00eancio como perspectiva de percep\u00e7\u00e3o do que voc\u00ea ainda n\u00e3o sabe, como abertura, \u00e9 algo muito fundamental para o meu trabalho, fundamental para reencontrar as palavras quando n\u00f3s as perdemos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AOL:\u00a0<\/strong>M\u00e1rcio, obrigada por compartilhar conosco ideias t\u00e3o interessantes!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>Entrevista por: Cec\u00edlia Batista e\u00a0 Patr\u00edcia Ribeiro<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/marcio-abreu#_ednref1\" name=\"_edn1\"><\/a><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/marcio-abreu#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.grupogalpao.com.br\/sobre\">https:\/\/www.grupogalpao.com.br\/sobre<\/a><\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/marcio-abreu#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a>\u00a0Pe\u00e7a estreada pelo Grupo Galp\u00e3o no ano de 2016 em Belo Horizonte.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/marcio-abreu#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a>\u00a0Pe\u00e7a estreada pela companhia brasileira de teatro em 2015.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/marcio-abreu#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a>\u00a0Pe\u00e7a estreada pela companhia brasileira de teatro em 2017.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/marcio-abreu#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a>\u00a0Pesquisadora, transfeminista e escritora. Estudou gest\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas na USP. O debate citado pode ser assistido atrav\u00e9s do link:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=-TNiyRxr7qo&amp;t=2971s\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=-TNiyRxr7qo&amp;t=2971s<\/a><\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/marcio-abreu#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a>\u00a0Nova cria\u00e7\u00e3o (2021) de M\u00e1rcio Abreu e da companhia brasileira de teatro.<\/h6>\n<h6>psican\u00e1lse &#8211; acolhimento &#8211; lacan &#8211; psicanalise &#8211; psychanayse &#8211; psicoan\u00e1lisis &#8211; corpo<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; \u00a0 Ator, diretor e dramaturgo, natural do Rio de Janeiro, sua forma\u00e7\u00e3o tem passagens pela EITALC (Escola Internacional de Teatro da Am\u00e9rica Latina e Caribe) e pela ISTA (Escola Internacional de Antropologia Teatral). 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