{"id":1851,"date":"2022-03-19T06:41:12","date_gmt":"2022-03-19T09:41:12","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1851"},"modified":"2025-12-01T13:18:38","modified_gmt":"2025-12-01T16:18:38","slug":"licoes-sobre-hamlet-o-desejo-da-mae1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2022\/03\/19\/licoes-sobre-hamlet-o-desejo-da-mae1\/","title":{"rendered":"LI\u00c7\u00d5ES SOBRE HAMLET: O DESEJO DA M\u00c3E[1]"},"content":{"rendered":"<h6>SANDRA MARIA ESPINHA OLIVEIRA<strong><br \/>\n<\/strong>Psic\u00f3loga, analista praticante, membro da EBP\/AMP.<br \/>\n<a href=\"mailto:sandra_espinha@uol.com.br\">sandra_espinha@uol.com.br<\/a><\/h6>\n<blockquote><p><strong>Resumo:\u00a0<\/strong>O texto \u00e9 um coment\u00e1rio da li\u00e7\u00e3o XV de\u00a0<em>O Semin\u00e1rio, livro VI: o desejo e sua interpreta\u00e7\u00e3o<\/em>, de Jacques Lacan, que tem como t\u00edtulo \u201cO desejo da m\u00e3e\u201d. Trata-se de um coment\u00e1rio proferido no \u00e2mbito das Li\u00e7\u00f5es Introdut\u00f3rias do Instituto de Psican\u00e1lise e Sa\u00fade Mental de Minas Gerais, dedicadas \u00e0s Sete Li\u00e7\u00f5es sobre\u00a0<em>Hamlet<\/em>, que comp\u00f5em a quarta parte do Semin\u00e1rio VI, de Lacan. Ap\u00f3s localizar o momento do ensino de Lacan em que esse semin\u00e1rio \u00e9 proferido, o texto comenta as principais quest\u00f5es contidas em cada uma das tr\u00eas partes da li\u00e7\u00e3o XV, na qual Lacan real\u00e7a o poder de fascina\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>Hamlet<\/em>\u00a0como uma obra liter\u00e1ria que apresenta o drama do desejo humano e cujo valor de estrutura \u00e9 equivalente ao de\u00a0<em>\u00c9dipo Rei<\/em>. O texto acompanha as elabora\u00e7\u00f5es de Lacan sobre a preval\u00eancia do\u00a0<em>desejo da m\u00e3e<\/em>\u00a0como o que desregula, em Hamlet, o acordo entre seu desejo e seu ato, levando-o a procrastin\u00e1-lo para realiz\u00e1-lo apenas no e pelo seu pr\u00f3prio desaparecimento. Para Lacan, Hamlet se debate com o\u00a0<em>desejo de sua m\u00e3e<\/em>, uma vez que esse desejo n\u00e3o encontrou seu lugar no simb\u00f3lico em uma rela\u00e7\u00e3o com a castra\u00e7\u00e3o, ou seja, com a lei paterna e o falo.<\/p>\n<p><strong>Palavras chaves<\/strong>:\u00a0Desejo,\u00a0<em>Hamlet<\/em>, \u00c9dipo, desejo da m\u00e3e, falo, castra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Lessons on Hamlet: Mother\u2019s desire<\/strong><\/p>\n<p><strong>Abstract:\u00a0<\/strong>This essay is a commentary on Jacques Lacan&#8217;s Lesson XV of The Seminar, Book VI: the desire and its Interpretation, entitled \u201cMother&#8217;s desire\u201d. It is a commentary given in the context of the Introductory Lessons of the Institute of Psychoanalysis and Mental Health of Minas Gerais about the Seven Lessons on\u00a0<em>Hamlet<\/em>, which make up the fourth part of Lacan&#8217;s The Seminar, book VI. After situating the moment in Lacan&#8217;s teaching in which this seminar was given, the text comments on the main issues in each of the three parts of Lesson XV, in which Lacan highlights\u00a0<em>Hamlet&#8217;s<\/em>\u00a0fascination power as a literary work that presents the drama of human desire and which structure value is equivalent to that of\u00a0<em>Oedipus king<\/em>. The text follows Lacan&#8217;s elaborations on the prevalence of the\u00a0<em>mother&#8217;s desire<\/em>\u00a0as what disrupts, in Hamlet, the agreement between his desire and his act, leading him to procrastinate it in order to fulfill it only in and through his own disappearance. For Lacan, Hamlet struggles with his mother&#8217;s desire since this desire did not find its symbolic place in relation with castration, that is, with the paternal law and the phallus.<\/p>\n<p><strong>Keywords:\u00a0<\/strong>Desire,\u00a0<em>Hamlet<\/em>, Oedipus, mother&#8217;s desire, phallus, castration.<\/p><\/blockquote>\n<div id=\"attachment_1852\" style=\"width: 766px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/desali_016-1.png\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"756\" data-large_image_height=\"1091\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1852\" class=\"wp-image-1852\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/desali_016-1-710x1024.png\" alt=\"\" width=\"428\" height=\"617\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1852\" class=\"wp-caption-text\">Desali, s\/t<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Introdu\u00e7\u00e3o ao cap\u00edtulo XV do Semin\u00e1rio VI, de Lacan<\/em><\/p>\n<p>O Semin\u00e1rio VI, proferido no ano letivo de 1958-1959, faz parte do tempo da constru\u00e7\u00e3o do grafo do desejo, que surge em sua forma definitiva no texto \u201cSubvers\u00e3o do Sujeito e Dial\u00e9tica do Desejo\u201d, em setembro de 1960. Junto com \u201cA dire\u00e7\u00e3o da cura e os princ\u00edpios de seu poder<em>\u201d,<\/em>\u00a0pronunciada em julho de 1958, esse semin\u00e1rio reflete as consequ\u00eancias da passagem, ao primeiro plano, da l\u00f3gica do significante, quando a primazia do simb\u00f3lico atinge seu ponto m\u00e1ximo no ensino de Lacan. A \u00eanfase, deslocada das leis da palavra para as leis da linguagem, determina um corte com a tese do reconhecimento do desejo pela palavra plena e a palavra passa a ser a prova da falta-a-ser do sujeito, a prova de que nenhuma palavra apagar\u00e1 esse efeito da palavra sobre o sujeito que \u00e9 o S(\u023a).<\/p>\n<p>O sujeito, definido como um efeito do significante, aparece marcado pela barra intranspon\u00edvel do recalque, \u00edndice da discord\u00e2ncia fundamental entre o significante e o significado. O desejo torna-se o nome do que do significado resiste ao significante. Inarticul\u00e1vel na palavra, ele n\u00e3o deixa de estar a ela articulado para cada sujeito na particularidade dos significantes das demandas que o Outro lhe proferiu, para al\u00e9m das quais surge a pergunta sobre seu desejo, sobre o que o Outro quer: \u201c<em>Que queres?<\/em>\u201d. O desejo est\u00e1 nas entrelinhas e somente nas entrelinhas, ele \u00e9 meton\u00edmico, n\u00e3o podendo jamais vir \u00e0 tona. Dele s\u00f3 h\u00e1 interpreta\u00e7\u00e3o: o desejo\u00a0<em>\u00e9<\/em>\u00a0sua interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O efeito do acento colocado sobre as leis da linguagem \u00e9 a concep\u00e7\u00e3o da sexualidade como vinculada intrinsecamente ao sistema significante, atrav\u00e9s de um significante privilegiado: o falo, que se define, nesse momento, como o significante da vida que escapa \u00e0 mortifica\u00e7\u00e3o significante do sujeito, vest\u00edgio da perda de um gozo prim\u00e1rio do corpo que faz deste um corpo humanizado. Como um emblema dessa perda, o falo que tem import\u00e2ncia \u00e9 o falo da m\u00e3e, o falo ali onde ele falta. A castra\u00e7\u00e3o materna \u00e9 o paradigma da priva\u00e7\u00e3o que caracteriza a falta feminina como s\u00f3 podendo ser articulada \u00e0 falta de um objeto simb\u00f3lico.<\/p>\n<p>Ao partir do fato que a estrutura \u00e9 o drama do sujeito em rela\u00e7\u00e3o ao desejo do Outro, v\u00e1rios cap\u00edtulos desse Semin\u00e1rio ser\u00e3o consagrados \u00e0s consequ\u00eancias, para todo sujeito, da sexualidade feminina, ou seja, da m\u00e3e como mulher. A m\u00e3e tem uma rela\u00e7\u00e3o com o falo e s\u00e3o duas as possibilidades para o sujeito em rela\u00e7\u00e3o a esse significante: a de s\u00ea-lo ou t\u00ea-lo. N\u00e3o se pode s\u00ea-lo e t\u00ea-lo ao mesmo tempo. Para t\u00ea-lo, \u00e9 preciso a ren\u00fancia a s\u00ea-lo. Entre a identifica\u00e7\u00e3o ao falo e a reparti\u00e7\u00e3o dos pap\u00e9is sexuais, temos a assun\u00e7\u00e3o da castra\u00e7\u00e3o: para o homem, ele n\u00e3o \u00e9 sem t\u00ea-lo; para a mulher, ela \u00e9 sem t\u00ea-lo.<\/p>\n<p>A introdu\u00e7\u00e3o do sujeito na dial\u00e9tica do falo sup\u00f5e a l\u00f3gica que se desenrola no inconsciente das diversas etapas da identifica\u00e7\u00e3o, desde a rela\u00e7\u00e3o primitiva com a m\u00e3e at\u00e9 a entrada em jogo do \u00c9dipo e da lei. O que se elabora da rela\u00e7\u00e3o m\u00e3e-crian\u00e7a passa, antes, pelo lugar do falo na economia do desejo da m\u00e3e, na medida em que a pr\u00f3pria m\u00e3e o simboliza no falo.<\/p>\n<p>\u00c9 pela via do desejo da m\u00e3e que a crian\u00e7a \u00e9 confrontada com o falo em sua polaridade imagin\u00e1ria e simb\u00f3lica. Se, na estrutura pr\u00e9-ed\u00edpica, a crian\u00e7a se identifica com o falo imagin\u00e1rio da m\u00e3e, a crise propriamente edipiana s\u00f3 se resolve pela castra\u00e7\u00e3o, piv\u00f4 da passagem do imagin\u00e1rio \u00e0 ordem simb\u00f3lica na qual \u00e9 o pai que priva a m\u00e3e ao dar provas de que o falo \u00e9 ele quem o tem. Na sa\u00edda do \u00c9dipo, nessa passagem do ser ao ter, o pai faz a lei ao falo imagin\u00e1rio materno, permitindo \u00e0 crian\u00e7a sair da vacila\u00e7\u00e3o infinita entre \u201cser ou n\u00e3o ser\u201d o falo. De falo imagin\u00e1rio da m\u00e3e (\u03c6), o falo passa para o n\u00edvel significante do desejo do Outro como falo simb\u00f3lico (\u03a6), que inscreve a castra\u00e7\u00e3o no Outro e aparece no imagin\u00e1rio como o que falta \u00e0 imagem desejada (-\u03c6). No \u00c9dipo, o desejo da m\u00e3e ganha o sentido sexual de uma orienta\u00e7\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o ao pai como portador do significante do desejo sexual do Outro materno. N\u00e3o \u00e9 mais a crian\u00e7a que oferece seu corpo para ser inteiramente o equivalente f\u00e1lico do que falta \u00e0 m\u00e3e. O sexual pode, ent\u00e3o, se estabilizar fora dela.<\/p>\n<p>Nessa doutrina freudiana cl\u00e1ssica, o falocentrismo significa a preval\u00eancia de uma ordem simb\u00f3lica na qual os dois sexos se inscrevem a partir de uma \u00fanica inst\u00e2ncia, a f\u00e1lica, e a partir de dois complexos: o de \u00c9dipo e o de castra\u00e7\u00e3o. O falo \u00e9 o \u00fanico s\u00edmbolo que inscreve no inconsciente o sexual e s\u00f3 conta na diferencia\u00e7\u00e3o dos sexos na condi\u00e7\u00e3o de perder sua naturalidade como \u00f3rg\u00e3o.<\/p>\n<p><em>O cap\u00edtulo XV, parte 1<\/em><\/p>\n<p>A li\u00e7\u00e3o XV desse semin\u00e1rio come\u00e7a com a afirma\u00e7\u00e3o de Lacan de que estamos em cheio na cl\u00ednica, embora ele deixe claro que n\u00e3o far\u00e1 de Hamlet um caso cl\u00ednico e tampouco ter\u00e1 como prop\u00f3sito uma an\u00e1lise do inconsciente do autor. Para Lacan, trata-se, antes, de abordar os problemas cl\u00ednicos e a teoria psicanal\u00edtica a partir do extraordin\u00e1rio poder de fascina\u00e7\u00e3o de uma obra liter\u00e1ria que apresenta o drama do desejo humano. \u201cSe\u00a0<em>Hamlet<\/em>\u00a0tem, para n\u00f3s, um alcance de primeira ordem, \u00e9 porque seu valor de estrutura \u00e9 equivalente ao de \u00c9dipo\u201d (LACAN, 1958-1959\/2016, p. 295). O interesse volta-se para o que comp\u00f5e a estrutura de\u00a0<em>Hamlet<\/em>, \u201cem cujo interior pode encontrar lugar a dimens\u00e3o pr\u00f3pria da subjetividade humana (&#8230;) o problema da articula\u00e7\u00e3o do desejo\u201d (LACAN, 1958-1959\/2016, p. 295-296).<\/p>\n<p>\u00c9 a partir dessa perspectiva que, antes de apresent\u00e1-la, Lacan d\u00e1 continuidade \u00e0 leitura das cr\u00edticas feitas pelos diversos autores sobre\u00a0<em>Hamlet<\/em>, destacando as especula\u00e7\u00f5es de Ernest Jones e a pertin\u00eancia do seu coment\u00e1rio de que n\u00e3o se trata de um personagem real. Lacan descarta ou deixa em suspens\u00e3o algumas cr\u00edticas, mas tamb\u00e9m ressalta que seu aspecto inconcili\u00e1vel e contradit\u00f3rio \u201csugere haver a\u00ed algum mist\u00e9rio\u201d (LACAN, 1958-1959\/2016, p. 292). Para Lacan, a exist\u00eancia de tantos Hamlets quanto foram os atores vai al\u00e9m da constata\u00e7\u00e3o de uma diversidade e conjuga-se \u00e0 import\u00e2ncia de tudo o que se disse a respeito de\u00a0<em>Hamlet<\/em>, mesmo que isso se constitua como \u201cuma ampla gama de opini\u00f5es que n\u00e3o se equivalem\u201d (LACAN, 1958-1959\/2016, p. 293) que v\u00e3o conduzi-lo ao que, para a psican\u00e1lise, deve verdadeiramente estar em quest\u00e3o na obra.<\/p>\n<p>O mist\u00e9rio do fasc\u00ednio por\u00a0<em>Hamlet<\/em>\u00a0\u00e9, ent\u00e3o, considerado por Lacan a partir dos dois ganchos que ele havia anunciado haver em toda obra de arte:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><em>1-\u00a0a exist\u00eancia de um fen\u00f4meno que \u00e9 da ordem de uma\u00a0ilus\u00e3o, na rela\u00e7\u00e3o de\u00a0Hamlet\u00a0com o leitor ou com o espectador;<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><em>2 &#8211;\u00a0o discurso como sendo o que confere ao her\u00f3i, que \u00e9 Hamlet, seu mais alto valor dram\u00e1tico.<\/em><\/p>\n<p>No<em>\u00a0primeiro gancho<\/em>, a articula\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o do efeito ilus\u00f3rio de Hamlet com a imagem real do espelho c\u00f4ncavo do esquema \u00f3tico \u00e9 uma alus\u00e3o ao campo do imagin\u00e1rio e aos impasses desse personagem frente \u00e0 desestabiliza\u00e7\u00e3o que vai sofrer em decorr\u00eancia da perda de suas coordenadas simb\u00f3licas, causada pela revela\u00e7\u00e3o do espectro de seu pai, e dos impasses constitu\u00eddos por suas tentativas de tentar resolver a quest\u00e3o do desejo pelo vi\u00e9s do imagin\u00e1rio.<\/p>\n<p>A imagem real do espelho c\u00f4ncavo representa a por\u00e7\u00e3o do corpo que escapa \u00e0 mortifica\u00e7\u00e3o significante e que resta inacess\u00edvel ao sujeito, constituindo-se como algo que n\u00e3o tem imagem e que n\u00e3o passa para o n\u00edvel especular sen\u00e3o como uma falta. Nesse esquema, o espelho plano representa a matriz simb\u00f3lica a partir da qual o eu se constitui como totalidade pela forma unit\u00e1ria da imagem do outro que recobre a fragmenta\u00e7\u00e3o significante do corpo. O corpo \u00e9 alguma coisa que necessita de um princ\u00edpio de articula\u00e7\u00e3o para sustentar-se, o que Lacan formalizou de diversas maneiras ao longo do seu ensino. Aqui, a imagem do corpo pr\u00f3prio como outro, sustentada pelo enquadramento simb\u00f3lico do espelho plano, recobre o que concerne \u00e0 falta, ou seja, \u00e0 castra\u00e7\u00e3o. O afeto de jubila\u00e7\u00e3o que ela provoca \u00e9 um desmentido da castra\u00e7\u00e3o que sustenta o eu em sua fun\u00e7\u00e3o de desconhecimento, podendo vacilar, em sua instabilidade, para a depress\u00e3o.<\/p>\n<p>A distin\u00e7\u00e3o, feita nesse momento, entre o\u00a0<em>vazio<\/em>\u00a0e a\u00a0<em>ilus\u00e3o<\/em>\u00a0\u00e9 uma refer\u00eancia \u00e0 distin\u00e7\u00e3o entre o\u00a0<em>Eu<\/em>\u00a0e o\u00a0<em>Sujeito<\/em>, entre a ilus\u00e3o da forma unit\u00e1ria da imagem, que recobre a falta no simb\u00f3lico, e o que est\u00e1 para al\u00e9m da imagem, como o lugar vazio do sujeito, representado entre um significante e outro.<\/p>\n<p>A aposta de recobrir o vazio pela imagem como uma estrat\u00e9gia do sujeito para n\u00e3o ter que se haver com a castra\u00e7\u00e3o se traduz, no drama de\u00a0<em>Hamlet<\/em>, pelo \u201clento caminhar em zigue-zague, um lento parto, por vias tortuosas, da castra\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria\u201d (LACAN, 1958-1949\/2016, p. 270).\u00a0 Hamlet, \u201cmais capaz que os outros homens de ler o cora\u00e7\u00e3o e a raz\u00e3o dos outros, \u00e9 totalmente incapaz de ler os pr\u00f3prios\u201d (LACAN, 1958-1959\/2016, p. 294), diz Trench, citado por Ernest Jones<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/mae#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[2]<\/sup><\/a>. Preso no circuito especular, ele tenta animar seu desejo dando corpo a algo que passa por sua imagem especular. Na\u00a0<em>play scene,\u00a0<\/em>ele introduz um duplo de si mesmo e o usa como um espelho que se arma, segundo Lacan, n\u00e3o como uma ratoeira para seu tio, mas para ele pr\u00f3prio. Mesmo assim, ele n\u00e3o consegue executar o ato. No lugar deste, a hiperatividade que o invade, e que n\u00e3o deixa de ser uma cobertura de sua inibi\u00e7\u00e3o, se traduz em uma s\u00e9rie de\u00a0<em>actings outs<\/em>\u00a0como resposta ao desejo do Outro.<\/p>\n<p>O espelho, representado pela representa\u00e7\u00e3o sobre a cena, \u00e9 insuficiente para desencadear o ato. Ao mobilizar o imagin\u00e1rio e fazer recair a culpa sobre um outro, sobre Claudius, Hamlet permanece de fora, sem se posicionar. Por\u00e9m, mortificado, ele se recrimina e dirige a si mesmo as inj\u00farias que deveriam designar o seu duplo Claudius: \u201cVil\u00e3o, obsceno e sanguin\u00e1rio! Traidor sem remorsos, concupiscente sem cora\u00e7\u00e3o, vil\u00e3o baixo e ign\u00f3bil!\u201d (LACAN, 1958-1959\/2016, p. 284).<\/p>\n<p>O circuito imagin\u00e1rio das identifica\u00e7\u00f5es n\u00e3o oferece uma sa\u00edda para sua inibi\u00e7\u00e3o, embora mobilize o que nesse campo se constitui como o lugar dos mal-entendidos, das rivalidades imagin\u00e1rias, do amor e do \u00f3dio, das tens\u00f5es geradas pela pequena diferen\u00e7a e pelo predom\u00ednio da agressividade. \u00c9 o luto do objeto Of\u00e9lia que vai articular a falta necess\u00e1ria para estruturar o campo do desejo, constitu\u00eddo pela rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o objeto na fantasia, como uma sa\u00edda para o enlouquecimento do desejo de Hamlet ap\u00f3s a revela\u00e7\u00e3o do\u00a0<em>Ghost<\/em>.<\/p>\n<p>O<em>\u00a0segundo gancho<\/em>\u00a0refere-se \u00e0 ordem simb\u00f3lica, \u00e9 o gancho do discurso ao qual Lacan faz equivaler o her\u00f3i e o poeta, como sendo tudo o que escapa ao que se pode dizer sobre a consist\u00eancia imagin\u00e1ria do personagem.\u00a0<em>Hamlet<\/em>\u00a0torna-se a obra exemplar, pois \u201co modo como uma obra nos toca (&#8230;) da maneira mais profunda, ou seja, no plano do plano do inconsciente, decorre de sua composi\u00e7\u00e3o\u201d (LACAN, 1958-1959\/2016, p. 295). O que interessa a Lacan \u00e9 o que comp\u00f5e a estrutura de\u00a0<em>Hamlet<\/em>, na qual \u201co desejo pode encontrar seu lugar, situado de maneira suficientemente correta, rigorosa, para que ali possam se projetar todos os desejos ou, mais exatamente, todos os problemas suscitados pela rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o desejo\u201d (LACAN, 1958-1958\/2016, p. 298). \u00c9 na medida em que\u00a0<em>Hamlet<\/em>\u00a0nos oferece o lugar do que em n\u00f3s se esconde como problem\u00e1tico na nossa pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o com o nosso pr\u00f3prio desejo que o que comp\u00f5e sua estrutura pode responder por seu efeito.<\/p>\n<p>Para Lacan, que reconhece que a morte do seu pai \u201cmarca uma virada manifesta na produ\u00e7\u00e3o de Shakespeare\u201d (LACAN, 1958-1959\/2016, p. 296), o drama do autor \u00e9, todavia, secund\u00e1rio em vista do que comp\u00f5e a estrutura de<em>\u00a0Hamlet<\/em>.\u00a0<em>Hamlet<\/em>, diz Lacan, \u201c\u00e9 o lugar vazio onde podemos situar nossa ignor\u00e2ncia\u201d (LACAN, 1958-1958\/2016, p. 297). E, uma ignor\u00e2ncia situada, acrescenta, \u201cnada mais \u00e9 do que a presentifica\u00e7\u00e3o do inconsciente. Ela d\u00e1 a\u00a0<em>Hamlet<\/em>\u00a0sua for\u00e7a e seu alcance\u201d (LACAN, 1958-1959\/2016, p. 298).<\/p>\n<p>Aqui, a concep\u00e7\u00e3o do inconsciente como estruturado como uma linguagem \u00e9 ilustrada pela representa\u00e7\u00e3o teatral, pela rela\u00e7\u00e3o da plateia com\u00a0<em>Hamlet<\/em>, ficando claro que, nela, \u201co inconsciente se presentifica sob a forma do discurso do Outro (&#8230;). Ali, o her\u00f3i s\u00f3 est\u00e1 presente por meio desse discurso, assim como o poeta. Morto h\u00e1 muito tempo, \u00e9 (&#8230;) seu discurso que o poeta nos lega\u201d (LACAN, 1958-1959\/2016, p. 298).<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Quanto aos atores, diz Lacan, a dimens\u00e3o da representa\u00e7\u00e3o \u00e9 an\u00e1loga \u00e0quela que constitui nossa rela\u00e7\u00e3o com o inconsciente. O corpo apresenta-se como o que oferece sua mat\u00e9ria ao significante e se transforma em significante. Cito Lacan:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201c&#8230;o significante (para ser claro) somos n\u00f3s que fornecemos seu material (&#8230;) com nosso imagin\u00e1rio, isto \u00e9, com nossa rela\u00e7\u00e3o com nosso pr\u00f3prio corpo, j\u00e1 que o imagin\u00e1rio \u00e9 isto.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">(&#8230;)<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u00c9 com nossos pr\u00f3prios membros que fazemos o alfabeto desse discurso que \u00e9 inconsciente. (&#8230;) De modo an\u00e1logo, o ator empresta seus membros, sua presen\u00e7a, n\u00e3o simplesmente como uma marionete, mas com seu inconsciente bem real, a saber, a rela\u00e7\u00e3o de seus membros com certa hist\u00f3ria que lhe \u00e9 pr\u00f3pria\u201d (LACAN, 1958-1959\/2016, p. 298-299).<\/p>\n<p>Na parte 3 do texto, n\u00f3s vamos ver que esses dois ganchos, o da\u00a0<em>ilus\u00e3o<\/em>, referido ao circuito imagin\u00e1rio do eu, e o do vazio, que situa o sujeito do inconsciente, ser\u00e3o localizados, respectivamente, no piso inferior e superior do grafo do desejo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Parte 2<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Aqui, Lacan retoma o enigma que consiste na inibi\u00e7\u00e3o de Hamlet quanto ao seu ato, cuja procrastina\u00e7\u00e3o ele j\u00e1 havia relacionado com o fato de que, desde o in\u00edcio, Hamlet, \u00e0 diferen\u00e7a de \u00c9dipo, sabe do crime edipiano, revelado pelo espectro de seu pai. Lacan salienta que a resposta da tradi\u00e7\u00e3o anal\u00edtica, que repousa sobre o desejo\u00a0<em>pela<\/em>\u00a0m\u00e3e, \u00e9 insuficiente para explicar o fato de Hamlet ser aquele que n\u00e3o sabe o que quer e que se queixa de n\u00e3o fazer nada, embora tenha tudo para faz\u00ea-lo. Para Lacan, supor que a autoridade do pai e o amor que Hamlet lhe devota, bem como a tend\u00eancia a querer defender a m\u00e3e e guard\u00e1-la para si, impedem-no de atacar Claudius por despertarem em si mesmo um desejo infantil, ressentido como culp\u00e1vel, equivaleria a supor que ele poderia encontrar uma forma de aplacar sua pr\u00f3pria culpabilidade, fora de si mesmo, ao atacar seu padrasto.<\/p>\n<p>Lacan se pergunta, ent\u00e3o, como Hamlet, movido por essas duas tend\u00eancias positivas, que deveriam lev\u00e1-lo a agir, n\u00e3o age? Para Lacan, o que torna o ato dif\u00edcil e coloca Hamlet em uma posi\u00e7\u00e3o problem\u00e1tica com rela\u00e7\u00e3o a ele \u00e9 o seu desejo, o car\u00e1ter impuro e n\u00e3o desinteressado desse desejo. A chave do enigma que a trag\u00e9dia de\u00a0<em>Hamlet<\/em>\u00a0apresenta sobre as vacila\u00e7\u00f5es do her\u00f3i entre seu desejo e seu ato reside na clivagem que Lacan estabelece entre o desejo\u00a0<em>pela<\/em>\u00a0m\u00e3e e o desejo\u00a0<em>da<\/em>\u00a0m\u00e3e. H\u00e1 uma oposi\u00e7\u00e3o entre a normaliza\u00e7\u00e3o edipiana pelo desejo do sujeito\u00a0<em>pela<\/em>\u00a0m\u00e3e, que encontra uma sa\u00edda no complexo de castra\u00e7\u00e3o, e a desregula\u00e7\u00e3o do \u00c9dipo, em Hamlet, pelo desejo\u00a0<em>da<\/em>\u00a0m\u00e3e. Em Hamlet, o problema \u00e9 que a castra\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 assumida, diferentemente de \u00c9dipo, que paga com sua pr\u00f3pria castra\u00e7\u00e3o, pelo crime cometido, furando seus pr\u00f3prios olhos. O que se passa com Hamlet \u00e9 que ele se debate com o desejo\u00a0<em>de<\/em>\u00a0sua m\u00e3e, uma vez que esse desejo n\u00e3o encontrou seu lugar no simb\u00f3lico em uma rela\u00e7\u00e3o com a castra\u00e7\u00e3o, ou seja, com a lei paterna e o falo, tal como se escreve na f\u00f3rmula da met\u00e1fora paterna.<\/p>\n<p>Na cena que ele arma com os comediantes, Hamlet busca um \u00edndice da culpa de Claudius e o obt\u00e9m. Contudo, esse \u00edndice n\u00e3o lhe serve para matar Claudius, apesar da oportunidade que lhe \u00e9 oferecida. O encontro com a m\u00e3e, que ocorre ap\u00f3s a\u00a0<em>play scene<\/em>, mostra que o que Hamlet mais quer \u00e9 buscar uma resposta da m\u00e3e, um limite capaz de fre\u00e1-la. Esse encontro, que Lacan toma como a cena central da pe\u00e7a, mostra Hamlet conclamando sua m\u00e3e a tomar consci\u00eancia do ponto em que ela est\u00e1. A partir de seu pai, da ordem, da dec\u00eancia, da dignidade, ele se dirige \u00e0 m\u00e3e para conjugar seu desejo \u00e0 lei. Ele lhe solicita que respeite o luto por seu pai morto, que \u201crecomponha-se, domine-se, tome (&#8230;) a via dos bons costumes, comece por parar de ir pra cama com [seu] tio\u201d (LACAN, 1958-1959, p. 304). Ele faz a diferen\u00e7a entre o her\u00f3i que \u00e9 seu pai e o lixo criminoso que \u00e9 seu tio, mas o desejo de sua m\u00e3e os faz equivaler. Hamlet fracassa em tentar conjugar o desejo da m\u00e3e \u00e0 lei paterna. A preval\u00eancia do desejo da m\u00e3e \u00e9 o que desregula o acordo entre seu desejo e seu ato, levando-o a procrastin\u00e1-lo para realiz\u00e1-lo apenas no e pelo seu pr\u00f3prio desaparecimento.<\/p>\n<p>As coisas chegam a tal ponto entre Hamlet e sua m\u00e3e que o espectro de seu pai reaparece para proteg\u00ea-la da agressividade do filho. O pai recomenda a Hamlet colocar-se \u201centre ela e sua alma em conflito\u201d (LACAN, 1958-1959\/2016, p. 304), revelando-se como um pai igualmente submetido ao desejo da m\u00e3e, um pai ideal que, no entanto, fracassa em ser a causa desse desejo e leva Hamlet de volta \u00e0 resposta da m\u00e3e, frente \u00e0 qual ele se curva. O pai falha em fornecer a Hamlet a orienta\u00e7\u00e3o do desejo por uma mulher e de uma mulher.<\/p>\n<p>Ao n\u00e3o encontrar seu lugar no simb\u00f3lico, o insaci\u00e1vel do desejo da m\u00e3e se traduz no imagin\u00e1rio pela figura de um abismo que amea\u00e7a o sujeito de destrui\u00e7\u00e3o, em sua oferta in\u00fatil de satisfaz\u00ea-lo. Na altern\u00e2ncia entre ser ou n\u00e3o ser, n\u00e3o sabendo nem mesmo o que ele \u00e9 no desejo do Outro, Hamlet tenta responder ao enigma do desejo materno em um conflito incessante frente ao que se apresenta, mais al\u00e9m, como indigno e aviltante.<\/p>\n<p>A adjura\u00e7\u00e3o de Hamlet \u00e9 um pedido que se faz, diz Lacan, \u201cem nome de algo que n\u00e3o \u00e9 simplesmente da ordem da lei, mas da dignidade\u201d (LACAN, 1958-1959\/2016, p. 304). Com efeito, \u00e9 como se a indignidade de Claudius tornasse imposs\u00edvel a aceita\u00e7\u00e3o, por parte de Hamlet, do desejo da m\u00e3e como um desejo fora dele. Na aus\u00eancia de um desejo articulado \u00e0 lei, que o interditaria em sua busca infinita e incestuosa de ser o objeto desse desejo, a indignidade desse objeto, que \u00e9 Claudius, recai tamb\u00e9m sobre Hamlet, que n\u00e3o renuncia \u00e0 posi\u00e7\u00e3o de querer ser o falo e permanece fixado \u00e0 pot\u00eancia materna.<\/p>\n<p>No final da cena com sua m\u00e3e, Hamlet rende as armas \u201cperante algo que parece inelut\u00e1vel. O desejo da m\u00e3e recupera, ent\u00e3o, para ele, o valor de algo que n\u00e3o poderia de jeito nenhum ser dominado\u201d (LACAN, 1958-1959\/2016, p. 304). O desejo de sua m\u00e3e faz com que, mesmo depois do assassinato do pai, sem um verdadeiro luto por essa perda, o falo esteja sempre l\u00e1, encarnado por Claudius, falo real que satisfaz a m\u00e3e, cujo desejo \u00e9 desejo do \u00f3rg\u00e3o, e n\u00e3o desejo que envie ao significante como tra\u00e7o de uma perda.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Parte 3<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na parte 3 do texto, Lacan nos conduz ao que \u201co grafo nos indica sobre a situa\u00e7\u00e3o do desejo\u201d (LACAN, 1958-1959, p. 305). Ele localiza, no primeiro andar do grafo, o discurso elementar da demanda, que \u201csubmete a necessidade do sujeito ao consentimento, ao capricho, ao arb\u00edtrio do Outro como tal [que tem] o poder de estruturar a tens\u00e3o e a inten\u00e7\u00e3o humanas na fragmenta\u00e7\u00e3o significante. \u00c9 a primeira etapa, a primeira rela\u00e7\u00e3o com o Outro\u201d (LACAN, 1958-1959\/2016, p. 305).<\/p>\n<p>A c\u00e9lula elementar do grafo descreve a invers\u00e3o como um efeito estrutural da demanda, que faz com que o emissor da mensagem seja o receptor. \u00c9 do Outro que o sujeito recebe sua pr\u00f3pria mensagem de forma invertida, o que confere a esse Outro sua \u201cobscura autoridade\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 no jogo de presen\u00e7a-aus\u00eancia da m\u00e3e que o objeto da necessidade entra na dial\u00e9tica das trocas simb\u00f3licas. Nesse jogo, a m\u00e3e se torna uma pot\u00eancia real, da qual a crian\u00e7a depende para ter acesso aos objetos. A necessidade, que atravessou o c\u00f3digo, surge transformada em demanda: n\u00e3o mais da satisfa\u00e7\u00e3o da necessidade, mas da presen\u00e7a do Outro, do dom de seu amor. O que passa a importar n\u00e3o \u00e9 tanto o objeto, mas quem o d\u00e1. Quando a m\u00e3e acede a esse poder, quando ela se torna essa pot\u00eancia real, ela se revela como qualquer coisa de enigm\u00e1tica, como um imposs\u00edvel de simbolizar.<\/p>\n<p>A m\u00e3e lacaniana \u00e9 um personagem extremamente inquietante. Suas idas e vindas, esperas, reprimendas e encorajamentos, todas as manifesta\u00e7\u00f5es de sua presen\u00e7a n\u00e3o t\u00eam nelas mesmas outro sentido que o de seu capricho. A m\u00e3e lacaniana \u00e9 uma fera, que aparece primeiramente como uma pot\u00eancia opaca, sem lei, que vai e vem e que se constitui como uma amea\u00e7a constantemente presente para a crian\u00e7a. No Semin\u00e1rio XVII, Lacan dir\u00e1 que:<\/p>\n<p>\u201cO desejo da m\u00e3e n\u00e3o \u00e9 algo que se possa suportar assim, que lhes seja indiferente. Carreia sempre estragos. Um grande crocodilo em cuja boca voc\u00eas est\u00e3o \u2014 a m\u00e3e \u00e9 isto. N\u00e3o se sabe o que pode dar na telha, de estalo fechar sua bocarra. O desejo da m\u00e3e \u00e9 isso\u201d (LACAN, 1969-1970\/1992, p. 105).<\/p>\n<p>O fracasso estrutural da demanda, que nenhum objeto da necessidade pode satisfazer, remete a crian\u00e7a \u00e0 pergunta sobre o que a m\u00e3e deseja, esbo\u00e7ando-se, nesse Outro da demanda, uma falta que se torna a meta do desejo como desejo do Outro. O desejo resulta da impossibilidade da demanda de anular completamente a particularidade da necessidade e \u00e9 desse res\u00edduo irredut\u00edvel \u00e0 demanda que se pode resgatar a particularidade do desejo como sua condi\u00e7\u00e3o absoluta. Ao incondicional da demanda de amor responde a particularidade do desejo como condi\u00e7\u00e3o absoluta. A onipot\u00eancia do Outro da demanda \u00e9 substitu\u00edda pela pot\u00eancia do desejo, que introduz no Outro a barra da castra\u00e7\u00e3o que o torna desejante, nada sendo mais neurotizante do que n\u00e3o querer que o Outro seja castrado.<\/p>\n<p>A problem\u00e1tica da castra\u00e7\u00e3o freudiana \u00e9 ressituada por Lacan nessa dial\u00e9tica da demanda e do desejo, escrita no grafo do desejo. \u00c9 mais al\u00e9m da demanda do Outro que o sujeito deve encontrar seu pr\u00f3prio desejo, cuja condi\u00e7\u00e3o \u00e9 a castra\u00e7\u00e3o materna, que n\u00e3o \u00e9 a revela\u00e7\u00e3o anat\u00f4mica da falta de p\u00eanis da m\u00e3e, descoberta em sua nudez, mas o momento em que essa anatomia encontra sua significa\u00e7\u00e3o no falo como um ponto de falta no Outro. Significante do desejo, o falo inscreve a imposs\u00edvel redu\u00e7\u00e3o da falta do desejo \u00e0 falta da demanda. Se a falta da demanda anula o vivente da necessidade, transformando-o em significante, a falta do desejo anula o pr\u00f3prio significante sobre o qual recai a barra do recalque, que lhe nega a fun\u00e7\u00e3o de representar o significado. O significante barrado \u00e9 o s\u00edmbolo do sujeito que, anulado, subsiste indefinidamente na cadeia significante como falta-a-ser, n\u00e3o havendo \u201coutro signo do sujeito al\u00e9m do signo de sua aboli\u00e7\u00e3o como sujeito\u201d (LACAN, 1958-1959\/2016, p. 119).<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">O desejo, em sua dimens\u00e3o interrogativa, como um enigma, \u00e9 representado por Lacan, na primeira figura desse cap\u00edtulo, pelo gancho da interroga\u00e7\u00e3o (figura da p. 305), que indica esse al\u00e9m da demanda localizado no segundo andar do grafo do desejo. Al\u00e9m do gancho da interroga\u00e7\u00e3o, h\u00e1 o que permite que o sujeito se reencontre: a cadeia significante inconsciente desenhada em pontilhado (figura da p\u00e1g. 306), na qual est\u00e1 escrito, no lugar do c\u00f3digo, uma rela\u00e7\u00e3o privilegiada do sujeito com sua pr\u00f3pria demanda, com sua pr\u00f3pria palavra, com os significantes que o marcaram e que foram determinantes em sua vida ($ \u25ca D). A linha do gancho da interroga\u00e7\u00e3o consciente do sujeito \u00e9 escrita com um tra\u00e7o cheio, e o circuito inconsciente do desejo, escrito em pontilhado, \u00e9 o que vai situar o x do desejo na linha que retorna da demanda inconsciente do sujeito at\u00e9 d [($ \u25ca D) \u2192 d], em sentido contr\u00e1rio \u00e0 linha intencional, \u201cflutuando em algum lugar para al\u00e9m do Outro\u201d (LACAN, 1958-1959\/2016, p. 307), por\u00e9m, regulado pela sua fixa\u00e7\u00e3o na fantasia ($ \u25ca a), escrita no meio do caminho que vai da mensagem inconsciente S(\u023a)ao significado imagin\u00e1rio do Outro s(A).<\/p>\n<p>Lacan aponta a homologia entre os dois pisos intermedi\u00e1rios do grafo, que escrevem a rela\u00e7\u00e3o do desejo com a fantasia [d \u2192 ($ \u25ca a)] e aquela do eu com a imagem do outro [m \u2192i(a)], sinalizando que, assim como o desejo se sustenta na fantasia, o eu se sustenta na imagem do outro. A articula\u00e7\u00e3o entre esses dois pisos mostra que a vestimenta do objeto, que constitui o i(a), a imagem do outro, \u00e9 tecida pela fantasia. O circuito imagin\u00e1rio do piso inferior do grafo est\u00e1 determinado pela fantasia e constitui uma resposta ao piso superior, o que determina um desconhecimento, o do eu, montado sobre um outro, o da fantasia. A aliena\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria escamoteia para o sujeito a sua aliena\u00e7\u00e3o estrutural ao simb\u00f3lico.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s acompanhar o circuito inconsciente da forma\u00e7\u00e3o do desejo no grafo, que passa por essa rela\u00e7\u00e3o do sujeito com um objeto na fantasia como resposta \u00e0 castra\u00e7\u00e3o do Outro, Lacan vai articul\u00e1-lo ao movimento do desejo de Hamlet. Ele volta \u00e0 cena da alcova para afirmar que \u201cn\u00e3o h\u00e1 outro momento em que a f\u00f3rmula\u00a0<em>o desejo do homem \u00e9 o desejo do Outro\u00a0<\/em>seja mais tang\u00edvel\u201d (LACAN, 1958-1969\/2016, p. 309). Em um coment\u00e1rio projetado sobre o grafo, Lacan mostra que Hamlet tenta alcan\u00e7ar o n\u00edvel do c\u00f3digo, da lei [($ \u25ca D)], mas volta a recair no significado do Outro [s(A)], por n\u00e3o poder se reencontrar com seu pr\u00f3prio desejo, na linha d \u2192 ($ \u25ca a), uma vez que, por ter rejeitado Of\u00e9lia, ele se encontra sem desejo, ele se encontra separado de seu desejo e alienado ao desejo de sua m\u00e3e. Hamlet n\u00e3o pode encontrar a vontade para consumar seu ato porque essa vontade decai como decai a vontade de sua m\u00e3e quando ela cede ao seu desejo por Claudius.<\/p>\n<p>Hamlet cede n\u00e3o sem que \u201co mundo inteiro se torne para ele uma viva recrimina\u00e7\u00e3o de nunca estar \u00e0 altura de sua pr\u00f3pria vontade\u201d (LACAN, 1958-1959\/2016, p. 332). Fracassado em seu intento de unir o desejo \u00e0 lei, Hamlet, cujo desejo n\u00e3o est\u00e1 fixado em nenhum objeto, \u00e9 conduzido \u00e0 significa\u00e7\u00e3o do desejo de sua m\u00e3e como fora da lei, desejo desenfreado, sem um ponto de basta, sem nenhuma esp\u00e9cie de simboliza\u00e7\u00e3o e, por isso, sem sentido, que presentifica o falo em sua dimens\u00e3o do real do \u00f3rg\u00e3o encarnado por Claudius. Observemos que, nesse momento do ensino de Lacan, o que o falo representa como sendo o vivo do sujeito, que resta fora do Outro por escapar \u00e0 negativiza\u00e7\u00e3o significante, chamar-se-\u00e1, mais tarde, gozo.<\/p>\n<p>Eis os termos utilizados por Lacan para designar a resposta da m\u00e3e de Hamlet como um gozo que n\u00e3o se integra \u00e0 ordem significante: \u201cverdadeiro genital\u201d que n\u00e3o conhece o luto; &#8220;boceta arreganhada\u201d, quando um sai o outro chega (LACAN, 1958-1959\/2016, p. 309). Entre o objeto exaltado, que \u00e9 o pai de Hamlet, e o objeto depreciado, que \u00e9 Claudius, ela n\u00e3o escolhe.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">&#8220;Se a m\u00e3e n\u00e3o escolhe \u00e9 devido a algo que, nela, \u00e9 da ordem de uma voracidade instintiva. Digamos que o sacrossanto objeto genital de nossa recente terminologia se apresenta nela como n\u00e3o sendo nada mais que o objeto de um gozo que \u00e9 realmente satisfa\u00e7\u00e3o direta de uma necessidade\u201d (LACAN, 1958-1959\/2016, p. 331).<\/p>\n<p>Acrescentemos que, frente \u00e0 vacila\u00e7\u00e3o da localiza\u00e7\u00e3o do falo na linhagem paterna, Hamlet recua para uma identifica\u00e7\u00e3o ao falo imagin\u00e1rio materno e, ao n\u00e3o renunciar a s\u00ea-lo, ele se encontra em uma posi\u00e7\u00e3o que o feminiza e o impede de matar Claudius, que passa a encarnar tamb\u00e9m para ele esse objeto frente ao qual sua m\u00e3e se rende. Um v\u00ednculo narc\u00edsico o une a este que encarna o falo que atrai a m\u00e3e e que ele, Hamlet, n\u00e3o renuncia a ser.<\/p>\n<p>A partir da personagem de Of\u00e9lia, Lacan vai articular o objeto perdido com a falta f\u00e1lica como sendo a chave do desejo e fazer deste o vetor do sujeito e de seu ato.\u00a0 A via do luto, do encontro com Of\u00e9lia como objeto perdido, e a via do ci\u00fame do luto, que se d\u00e1 pela identifica\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria de Hamlet com Laertes, o levar\u00e3o a recuperar seu pr\u00f3prio desejo. A dignidade ou a indignidade do objeto ser\u00e3o tamb\u00e9m lidas pelo vi\u00e9s do luto ou da sua aus\u00eancia. Lacan constata que \u00e9 pelo vi\u00e9s do luto que o objeto entra em jogo e que chegamos a\u00ed ao cerne do problema.<\/p>\n<p>Se, em um primeiro tempo de sua rela\u00e7\u00e3o com Of\u00e9lia, esta ocupa para Hamlet o lugar de objeto na sua fantasia, objeto revestido de valor f\u00e1lico e constitu\u00eddo como um objeto de exalta\u00e7\u00e3o suprema, a revela\u00e7\u00e3o do\u00a0<em>Ghost<\/em>\u00a0faz com que ela se dissolva para ele como objeto de amor e seja rebaixada ao lugar de um objeto conotado pelo horror da feminilidade e de seu gozo. Na aus\u00eancia da fun\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica garantida pelo pai, surge o horror \u00e0 maternidade pela assimila\u00e7\u00e3o da mulher \u00e0 m\u00e3e, que, ao excluir o pai, goza ao engendrar filhos. O encontro de Hamlet com o espectro de seu pai \u00e9 o levantamento de um v\u00e9u que rompe com o circuito do desejo inconsciente e, como um encontro com o real da castra\u00e7\u00e3o, tem todas as caracter\u00edsticas de um encontro traum\u00e1tico. No cap\u00edtulo sobre o objeto Of\u00e9lia, Lacan vai escandir esse momento como o do enlouquecimento do desejo de Hamlet, momento patol\u00f3gico que acontece quando algo vacila na fantasia, fazendo surgir seus componentes, revelados nas experi\u00eancias de despersonaliza\u00e7\u00e3o ou no fen\u00f4meno do estranho, do infamiliar, do\u00a0<em>Unheimlich<\/em>. O que desorienta Hamlet \u00e9 a ruptura da liga\u00e7\u00e3o entre a falta f\u00e1lica e o objeto, que o luto de Of\u00e9lia vai restabelecer (a\/-\u03d5).<\/p>\n<p>Lacan dir\u00e1 que, em\u00a0<em>Hamlet<\/em>, de uma ponta a outra, s\u00f3 se fala de luto. Desde a aus\u00eancia do luto de sua m\u00e3e pela morte do marido \u2014 e dos ritos clandestinos dos funerais de Polonius e Of\u00e9lia \u2014 at\u00e9 as exig\u00eancias do luto, que ressurgem do car\u00e1ter inexpi\u00e1vel dos pecados do pai \u2014 cuja sombra volta para queixar-se de ter sido assassinado antes que pudesse pag\u00e1-los e estar \u00e0 altura de comparecer ao ju\u00edzo final \u2014, isto \u00e9, nessa sucess\u00e3o de lutos, cujos rituais n\u00e3o se cumprem, at\u00e9 o \u00fanico luto verdadeiro, aquele de Laertes por Of\u00e9lia, \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o do drama do desejo com o luto que Lacan busca estabelecer.<\/p>\n<p>Em\u00a0<em>Hamlet<\/em>, trata-se de um luto que n\u00e3o foi poss\u00edvel, o que levar\u00e1 Lacan, no cap\u00edtulo XVIII deste Semin\u00e1rio, a comparar novamente as trag\u00e9dias de\u00a0<em>Hamlet<\/em>\u00a0e\u00a0<em>\u00c9dipo Rei<\/em>, a partir dos mitos freudianos do pai, mostrando que, no fundo do luto, h\u00e1 sempre um crime. Lacan assinala que todo luto verdadeiro \u00e9 o eco do luto m\u00edtico do pai primevo, o luto do gozo perdido, atrav\u00e9s do qual a lei se institui a partir do crime e da morte. \u201cO gozo \u00e9 proibido a quem fala\u201d \u00e9 a enuncia\u00e7\u00e3o lacaniana do mito freudiano do pai primevo.<\/p>\n<p>\u00c9dipo, ao pagar sua d\u00edvida e assumir a castra\u00e7\u00e3o, fornece a chave do que, no decl\u00ednio do \u00c9dipo, todo sujeito tem que fazer: o luto do falo. No decl\u00ednio do \u00c9dipo, o complexo de castra\u00e7\u00e3o \u00e9 a elabora\u00e7\u00e3o da falta a partir da fantasia de que se foi ou se pode ser privado do p\u00eanis. A negativiza\u00e7\u00e3o do falo como \u00f3rg\u00e3o \u00e9 o pre\u00e7o a pagar para que o sujeito o reencontre como significante do desejo. O sujeito pode ter ou n\u00e3o ter o falo, mas o fundamental \u00e9 que ele n\u00e3o seja o falo (-\u03d5). O objeto na fantasia \u00e9 o que se vestir\u00e1 com os valores f\u00e1licos para sustentar a rela\u00e7\u00e3o do sujeito ($) ao que ele n\u00e3o \u00e9 (<em>a<\/em>), na medida em que ele n\u00e3o \u00e9 o falo.<\/p>\n<p>A particularidade de\u00a0<em>Hamlet<\/em>\u00a0como uma trag\u00e9dia ed\u00edpica est\u00e1 nessa rela\u00e7\u00e3o do crime com o luto. Em\u00a0<em>Hamlet<\/em>, ao contr\u00e1rio do que ocorre em\u00a0<em>\u00c9dipo Rei<\/em>, a quest\u00e3o da d\u00edvida est\u00e1 presente o tempo todo: h\u00e1 um luto que n\u00e3o foi feito, h\u00e1 uma d\u00edvida que n\u00e3o foi paga pelo pai e h\u00e1 uma castra\u00e7\u00e3o n\u00e3o assumida. O falo n\u00e3o se encontra negativizado e, pois, n\u00e3o relacionado \u00e0 castra\u00e7\u00e3o. Ele permanece presente encarnado, como j\u00e1 vimos, por Claudius.<\/p>\n<p>Lacan define o luto como o buraco de uma perda no real que mobiliza todo o sistema significante. O buraco no real do luto coincide com a falta no simb\u00f3lico, tratando-se do encontro com um imposs\u00edvel de simbolizar, com a castra\u00e7\u00e3o do Outro [S(\u023a)]. \u201cS\u00f3 nos enlutamos \u2014 diz Lacan \u2014 por algu\u00e9m de quem possamos dizer:\u00a0<em>Eu era a sua<\/em>\u00a0<em>falta<\/em>\u201d (LACAN, 19632-1963, p. 156). Uma perda e uma falta n\u00e3o s\u00e3o a mesma coisa. A perda se imp\u00f5e no real e a falta s\u00f3 pode existir no simb\u00f3lico. O esfor\u00e7o do trabalho do luto \u00e9 o de ligar o real da perda \u00e0 falta no simb\u00f3lico.<\/p>\n<p>No Semin\u00e1rio X, Lacan afirma que \u00e9 a aus\u00eancia do luto que faz desvanecer o desejo de Hamlet e, se seu desejo falta, \u00e9 porque seu Ideal se desmoronou. O contraste entre a rela\u00e7\u00e3o idolatrada de Hamlet por seu pai, esse rei supremo que encarna a pot\u00eancia Ideal, e a \u201cevas\u00e3o animal\u201d de sua m\u00e3e Gertrudes, que contradiz esse Ideal, tem como resultado o desmoronamento do Ideal e o desaparecimento da pot\u00eancia do desejo, que s\u00f3 ser\u00e1 restaurada a partir de um luto verdadeiro com o qual Hamlet vai entrar em concorr\u00eancia: o luto de Laertes por sua irm\u00e3, o luto pelo objeto amado e do qual ele se viu subitamente separado pela car\u00eancia de seu desejo (LACAN, 1962-1963\/2005, p. 363). O que se trata de restaurar, no trabalho do luto, \u00e9 essa liga\u00e7\u00e3o com o objeto fundamental em jogo no desejo como tendo valor de causa desse desejo.<\/p>\n<p>A morte de Of\u00e9lia permite a Hamlet, pelo suporte que lhe d\u00e1 Laertes como duplo imagin\u00e1rio com quem ele se rivaliza, o vislumbre de ter causado o desejo do Outro e o resgate de uma dignidade para a sua exist\u00eancia. Of\u00e9lia torna-se esse objeto cuja perda vai retificar a posi\u00e7\u00e3o edipiana de Hamlet. Ela se torna o objeto narc\u00edsico sacrificado e, por essa rela\u00e7\u00e3o \u00e0 castra\u00e7\u00e3o, ela se reveste de valor f\u00e1lico. Sua perda presentifica o falo em seu valor de falta, que define todo objeto como faltante.<\/p>\n<p>Hamlet era causa do desejo de Of\u00e9lia, e n\u00e3o de seu gozo, tratando-se em Of\u00e9lia de um desejo ligado \u00e0 lei. Por saber-se causa do desejo de Of\u00e9lia, esta \u00e9 reconhecida retroativamente como objeto do desejo de Hamlet, uma vez que o desejo \u00e9 sempre desejo do Outro, desejo do desejante no Outro. Se Hamlet se identifica com o objeto desse desejo, \u00e9 porque se identifica com a falta que habitava Of\u00e9lia. \u00c9 o desejo que est\u00e1 em causa no menor luto, podendo-se afirmar que, se n\u00e3o h\u00e1 luto, \u00e9 porque n\u00e3o h\u00e1 desejo. A f\u00e1cil substitui\u00e7\u00e3o da perda do objeto, a aus\u00eancia do luto, \u00e9 sinal do rebaixamento da dignidade do sujeito, no que ela se funda no lugar da causa do desejo do Outro. Para Lacan, ficamos de luto quando o Outro de quem fomos a causa do seu desejo desaparece; quando nos faz falta a sua falta.\u00a0<em>\u00a0\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Hamlet assume o luto de Of\u00e9lia na rela\u00e7\u00e3o narc\u00edsica existente entre o eu (<em>m<\/em>) e a imagem do outro\u00a0<em>i(a)<\/em>. O luto de Laertes, que pula na cova de sua irm\u00e3 para abra\u00e7\u00e1-la,<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201crepresenta para ele, num outro, a rela\u00e7\u00e3o passional de um sujeito com um objeto. \u00c9 essa cena que o engancha e lhe oferece o suporte que faz com que, subitamente, se restabele\u00e7a sua pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o de sujeito, $, com Of\u00e9lia, o objeto pequeno\u00a0<em>a<\/em>\u00a0que fora rejeitado (&#8230;). E \u00e9 esse n\u00edvel subitamente restabelecido que, por um curto instante, far\u00e1 dele um homem, ou seja, far\u00e1 dele algu\u00e9m capaz \u2014 por um curto instante (&#8230;) que basta para que a pe\u00e7a termine \u2014, capaz de lutar e capaz de matar\u201d (LACAN, 1958-1959\/2016, p. 311).<\/p>\n<p>Hamlet encontra seu desejo em troca de sua pr\u00f3pria vida, ao contr\u00e1rio do que se d\u00e1 na sa\u00edda normal do \u00c9dipo. No lugar da castra\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria, como diz Lacan, outra coisa vem ocupar seu lugar: o sacrif\u00edcio do sujeito. O sacrif\u00edcio narc\u00edsico, que come\u00e7a com a perda de Of\u00e9lia, s\u00f3 se completa quando Hamlet se sabe mortalmente ferido. O luto do falo, que deve ser feito no decl\u00ednio do \u00c9dipo, \u00e9 encarnado pela morte do her\u00f3i. A identifica\u00e7\u00e3o de Hamlet com o falo, que coincide com a morte do sujeito, apresenta o desejo em sua radicalidade como desejo de morte.<\/p>\n<p>Como diz Lacan, Hamlet perde as estribeiras ao ver um outro que n\u00e3o ele pr\u00f3prio exibir um luto transbordante. Ele atira-se sobre Laertes em um abra\u00e7o apaixonado do qual emergir\u00e1 literalmente outro com o grito:\u00a0<em>Este sou eu, Hamlet o Dinamarqu\u00eas!,<\/em>\u00a0sendo esse o momento em que ele recupera seu desejo. Hamlet recupera as coordenadas simb\u00f3licas de sua fantasia que v\u00e3o sustentar a estabilidade do imagin\u00e1rio pela identifica\u00e7\u00e3o a um significante Ideal do Outro \u2014 I(A).<\/p>\n<p>Para concluir, Lacan vai dizer que o sentido que o estudo de\u00a0<em>Hamlet<\/em>\u00a0tem para n\u00f3s \u00e9 o da articula\u00e7\u00e3o da estrutura da experi\u00eancia anal\u00edtica na qual o essencial \u00e9 situar o lugar do desejo que Hamlet representa como uma placa girat\u00f3ria em que se podem encontrar todos os seus tra\u00e7os. Hamlet, afirma Lacan, anunciando o que vem pela frente, \u00e9 o desejo do neur\u00f3tico que se articula na fantasia; ele \u00e9 tanto o desejo insatisfeito do hist\u00e9rico como o desejo imposs\u00edvel do obsessivo.<\/p>\n<p>Com o grafo do desejo, Lacan indica o lugar de onde devemos operar, levando-se em conta que o sujeito resiste ao fazer girar em c\u00edrculos, no primeiro piso do grafo, o conte\u00fado das associa\u00e7\u00f5es que se sustentam das significa\u00e7\u00f5es nas quais ele se apoia para conformar-se ao Ideal do eu. O desejo do analista opera a partir da falta do Outro para que o sujeito aceda ao discurso inconsciente que ele quer ignorar, situado no piso superior do grafo.<\/p>\n<p>O desejo \u00e9 um traumatismo, ele \u00e9 opaco, al\u00e9m de concernir a um gozo que deve ser suportado e que implica que se possa querer aquilo que se deseja. A fantasia \u00e9 uma sa\u00edda para o neur\u00f3tico, que nada quer saber sobre o gozo implicado no desejo. Na neurose, a fantasia escreve a divis\u00e3o do sujeito entre o reconhecimento e o desmentido da castra\u00e7\u00e3o. Ela \u00e9 uma esp\u00e9cie de mesti\u00e7o que oculta a castra\u00e7\u00e3o ao mesmo tempo em que a mant\u00e9m. Para que o neur\u00f3tico aceda \u00e0 castra\u00e7\u00e3o do Outro, a psican\u00e1lise promete um traumatismo cujo cuidado ser\u00e1 o de fazer cair lentamente, um ao um, os significantes-mestre ideais, de modo que o sujeito possa prescindir do Outro n\u00e3o sem antes servir-se dele.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1958-59)\u00a0<strong>O Semin\u00e1rio. Livro VI: o desejo e sua interpreta\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/strong>Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2016.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1962-63)\u00a0<strong>O Semin\u00e1rio. Livro X: a ang\u00fastia.\u00a0<\/strong>\u00a0Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.<\/h6>\n<h6>SOSA, J.\u00a0<strong>Hamlet y Edipo<\/strong>. Barcelona: Paid\u00f3s, n. 15, p. 111-122, 1995.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/mae#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a>\u00a0Aula apresentada nas 56\u00ba Li\u00e7\u00f5es Introdut\u00f3rias \u00e0 Psican\u00e1lise do IPSM-MG em 28\/09\/2021.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/mae#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[2]<\/a>\u00a0Nota:\u00a0 Trata-se de uma cita\u00e7\u00e3o de Trench, recortada por Lacan em \u201cHamlet and \u04d4dipus\u201d, de Ernest Jones.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>psican\u00e1lse &#8211; alzheimer &#8211; lacan &#8211; psicanalise &#8211; psychanayse &#8211; corpo &#8211; psicoan\u00e1lisis<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SANDRA MARIA ESPINHA OLIVEIRA Psic\u00f3loga, analista praticante, membro da EBP\/AMP. sandra_espinha@uol.com.br Resumo:\u00a0O texto \u00e9 um coment\u00e1rio da li\u00e7\u00e3o XV de\u00a0O Semin\u00e1rio, livro VI: o desejo e sua interpreta\u00e7\u00e3o, de Jacques Lacan, que tem como t\u00edtulo \u201cO desejo da m\u00e3e\u201d. Trata-se de um coment\u00e1rio proferido no \u00e2mbito das Li\u00e7\u00f5es Introdut\u00f3rias do Instituto de Psican\u00e1lise e Sa\u00fade&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57871,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[24],"tags":[],"class_list":["post-1851","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-28","category-24","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1851","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1851"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1851\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57872,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1851\/revisions\/57872"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57871"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1851"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1851"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1851"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}