{"id":1855,"date":"2022-03-19T06:41:12","date_gmt":"2022-03-19T09:41:12","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1855"},"modified":"2025-12-01T13:19:06","modified_gmt":"2025-12-01T16:19:06","slug":"um-corpo-um-traducao-e-deciframento1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2022\/03\/19\/um-corpo-um-traducao-e-deciframento1\/","title":{"rendered":"UM CORPO, UM. TRADU\u00c7\u00c3O E DECIFRAMENTO[1]"},"content":{"rendered":"<h6>ANTONI VICENS<br \/>\nPsicanalista AME da ELP\/AMP<br \/>\n<a href=\"mailto:avicens@me.com\">avicens@me.com<\/a><\/h6>\n<blockquote><p><strong>Resumo:\u00a0<\/strong>O autor empreende a tentativa de tradu\u00e7\u00e3o e interpreta\u00e7\u00e3o da frase lacaniana contida na confer\u00eancia\u00a0<em>Joyce, o Sintoma<\/em>, \u201cUOM kitemum corpo e s\u00f3-s\u00f3 Teium (\u2026)\u201d. A partir de quest\u00f5es sobre o ter e o Um, ele prop\u00f5e algumas perguntas sobre o corpo a partir das consequ\u00eancias do ter: como UOM pode ter Um corpo? O que \u00e9 ter? Como \u00e9 Um? O que \u00e9 corpo? E, para respond\u00ea-las, considera as tr\u00eas dimens\u00f5es do dito: o imagin\u00e1rio, o simb\u00f3lico e o real.<\/p>\n<p><strong>Palavras chaves<\/strong>:\u00a0UOM, ter, Um, corpo.<\/p>\n<p><strong>ONE BODY, ONE. TRANSLATION AND DECRYPTION<\/strong><\/p>\n<p><strong>Abstract:\u00a0<\/strong>The author undertakes the attempt to translate and interpret the Lacanian phrase, contained in the\u00a0<em>Joyce, the Symptom\u00a0<\/em>lecture, \u201c<em>LOM,\u00a0LOM de base,\u00a0LOM cahun corps\u00a0et nan-na Kun<\/em>\u00a0(\u2026)\u201d. Based on questions about having and the One, he proposes some questions about the body from the consequences of having: How can LOM have One body? What is having? How is One? What is a body? And, to answer them, he considers the three dimensions of what is said: the imaginary, the symbolic and the real.<strong>\u00a0\u00a0\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Keywords:\u00a0<\/strong>UOM, having, One, body.<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_1856\" style=\"width: 1806px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/vicens-desali2.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"1796\" data-large_image_height=\"2468\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1856\" class=\"wp-image-1856\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/vicens-desali2-745x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"526\" height=\"723\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1856\" class=\"wp-caption-text\">Desali, s\/t<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na confer\u00eancia de Lacan intitulada <em>Joyce, o Sintoma\u00a0<\/em>(1975\/2003a)<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/um-corpo-um#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a>, encontramos umas frases que reivindicam seu deciframento. A tradu\u00e7\u00e3o publicada diz assim:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cUOM, UOM de base, UOM kitemum corpo e s\u00f3-s\u00f3 Teium [<em>nan-na Kum<\/em>]. H\u00e1 que dizer assim: ele teihum&#8230;, e n\u00e3o: ele \u00e9um (corp\/aninhado). \u00c9 o ter, e n\u00e3o o ser, que o caracteriza. [&#8230;] UOM\u00a0<em>tem [a]<\/em>, no princ\u00edpio. Por qu\u00ea? Isso se sente, e uma vez sentido, demonstra-se (LACAN, 1975\/2003a, p. 561)<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/um-corpo-um#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a>.<\/p>\n<p>Antes de abordar os enigmas ali contidos, fazemos nossa a observa\u00e7\u00e3o de Jacques-Alain Miller sobre<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201co tipo de aten\u00e7\u00e3o que a intelig\u00eancia de Lacan requer, sobretudo em seu \u00faltimo ensino, repleto de tantas coisas ditas e apressado por ter tantas coisas a dizer, cuja enuncia\u00e7\u00e3o atua em v\u00e1rias dire\u00e7\u00f5es e cujo enunciado toma v\u00e1rias faces por vez. As refer\u00eancias mais pertinentes nem sempre s\u00e3o as mais explicativas, e nenhum \u00edndice de nomes pr\u00f3prios poder\u00e1 detect\u00e1-las. Seria preciso um \u00edndice de n\u00e3o-ditos, pensamentos de fundo, alus\u00f5es cr\u00edpticas, resson\u00e2ncias e outros\u00a0<em>invisibilia<\/em>\u201d (MILLER, 2007, p. 214).<\/p>\n<p>O que se segue \u00e9 uma tentativa de tradu\u00e7\u00e3o e interpreta\u00e7\u00e3o dessas frases intraduz\u00edveis, na qual nos deixamos orientar precisamente pela impossibilidade, no limite de traduzir sentidos de uma l\u00edngua a outra. Se o sentido \u00e9 gozo e o gozo \u00e9 sempre atual, o sentido est\u00e1 submetido \u00e0 mesma in\u00e9rcia. N\u00e3o sabemos nada do gozo de Lacan, logificamos o que podemos dentro de uma l\u00f3gica baseada no n\u00e3o-todo. Talvez possamos aproveitar, uma vez que, na vers\u00e3o, o sentido original, por ser enigm\u00e1tico, se perde; a resson\u00e2ncia do real surpreende melhor nossos sentidos. Transformar o imposs\u00edvel da tradu\u00e7\u00e3o e o imposs\u00edvel contido na mensagem \u00e9 uma quest\u00e3o de sorte, que tentamos.<\/p>\n<p><em>UOM de base<\/em><\/p>\n<p>Vamos por partes, mas tamb\u00e9m por conjuntos aleat\u00f3rios sem partes. \u201cUOM, UOM de base, UOM kitemum corpo e s\u00f3-s\u00f3 Teium\u201d. UOM substitui aqui o \u201chomem\u201d, o homem das ilus\u00f5es humanistas, humanitaristas, humanit\u00e1rias, o conquistador do Universo no qual ele sup\u00f5e se refletir; trata-se do \u201chomem que tem um corpo\u201d. O \u201chomem\u201d \u00e9 substitu\u00eddo por tr\u00eas letras que configuram algo que \u00e9 quase um matema, quase um impessoal, quase uma jaculat\u00f3ria. Mas isso n\u00e3o o priva de ter um corpo e n\u00e3o mais de um. Ent\u00e3o, segue uma frase,\u00a0<em>cahun corps<\/em>. Custa, mas se pode ler o relativo de determina\u00e7\u00e3o: \u201cUOM que tem um corpo\u201d. Ter um corpo o define (LAURENT, 2016, p. 57).<\/p>\n<p>\u00c0s vezes uma cedilha pareceria mais adequada,\u00a0<em>\u00e7ahun corps,<\/em>\u00a0\u201cisso tem um corpo\u201d. Se fosse assim, Lacan nos levaria a afirmar que o Isso,\u00a0<em>le \u00c7a<\/em>, ou, em alem\u00e3o,\u00a0<em>das Es<\/em>, n\u00e3o\u00a0<em>\u00e9\u00a0<\/em>um corpo, sen\u00e3o que\u00a0<em>o tem<\/em>, no sentido de sua propriedade e no de t\u00ea-lo agarrado tamb\u00e9m. Mas o que lemos \u00e9<em>\u00a0cahun<\/em>. O que nos leva a outro desvio.<\/p>\n<p>Claude Cahun foi o pseud\u00f4nimo de uma mulher artista, inserida no movimento surrealista, que, de acordo com Jean-Paul Cl\u00e9bert (1996), \u201cviveu no \u00f3dio de sua feminilidade&#8221;<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/um-corpo-um#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a>. Ao contr\u00e1rio, embora n\u00e3o seja incompat\u00edvel com esse \u00f3dio, parece que ela viveu habitando a estranheza de seu corpo. Escritora, atriz, fot\u00f3grafa, vestia-se de maneiras muito diferentes, brincando sempre com a ambiguidade de seu g\u00eanero. Ela mesma se considerava sua pr\u00f3pria cria\u00e7\u00e3o, com a identidade de um terceiro g\u00eanero. O mais conhecido s\u00e3o suas fotografias, geralmente autorretratos nos quais aparece olhando o espectador, ou olhando-se no espelho enquanto olha o espectador, ou com os olhos fechados. Sua parceira foi uma mulher que utilizava como pseud\u00f4nimo o nome de um homem, digamos, um<em>\u00a0homem<\/em>. Enquanto seu pr\u00f3prio nome, Claude, \u00e9 epiceno em franc\u00eas; seu sobrenome, Cahun, que foi de um tio-av\u00f4 seu, o escolheu pela sua semelhan\u00e7a com o nome Caim. Significava assim a ambiguidade de seu g\u00eanero e recordava ao homem que, se possui um corpo, n\u00e3o o possui sem \u00f3dio.<\/p>\n<p>Voltemos a Lacan: \u201cH\u00e1 que dizer assim: ele teihum&#8230;, e n\u00e3o: ele \u00e9 um\u201d (LACAN, 1975\/2003a, p. 561)\u00a0<em>cor\/nich\u00e9<\/em>. Para come\u00e7ar,\u00a0<em>cornich\u00e9<\/em>\u00a0nos remete a\u00a0<em>cornichon<\/em>, que significa \u201cpepino<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/um-corpo-um#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a>\u201d, mas tamb\u00e9m \u201ctolo\u201d ou \u201cbobo\u201d. Ter um corpo nos entontece. Ter um corpo nos condena a estar incorporados nele;\u00a0<em>nich\u00e9\u00a0<\/em>significa alojado em algum tipo de habit\u00e1culo, o que inclui tamb\u00e9m estar metido no nicho funer\u00e1rio. Falando do corpo, Lacan (1970\/2003b, p. 407) se refere a ele como\u00a0<em>corpse<\/em>, \u201ccad\u00e1ver\u201d, resto de um ser falante, de forma alguma uma carni\u00e7a (LAURENT, 2016, p. 35). O corpo do homem como Um antecipa sua qualidade de resto de uma exist\u00eancia tamb\u00e9m Uma. Logo Lacan especifica que UOM, no princ\u00edpio, tem. Tem um corpo. E o ser prov\u00e9m da\u00ed, de uma exist\u00eancia que tem corpo, que o toma como Um, antecipando ent\u00e3o sua morte.<\/p>\n<p><em>O corpo cartesiano<\/em><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>O ser de UOM \u00e9 ter um corpo. O ter \u00e9 anterior ao ser: \u201co verdadeiro \u00e9 que UOM\u00a0<em>tem [a]<\/em>, no princ\u00edpio\u201d (LACAN, 1975\/2003a, p. 561). E logo se demonstra, no bordel epistemol\u00f3gico, como raz\u00e3o de ser.<\/p>\n<p>Vamos ao come\u00e7o: o\u00a0<em>Discurso do m\u00e9todo<\/em>, de Descartes. O pensamento cartesiano separa a alma do corpo: \u201ca alma pela qual sou o que sou, \u00e9 inteiramente distinta do corpo\u201d (DESCARTES, 1996, p. 39). O corpo n\u00e3o lhe \u00e9 necess\u00e1rio para pensar: \u201cpodia fingir que n\u00e3o tinha nenhum corpo\u201d (<em>Ibid<\/em>., p. 38) na hora de acompanhar o pensamento com o ser. A partir dali, o corpo \u00e9 entregue ao racioc\u00ednio geom\u00e9trico, \u00e0s leis estabelecidas por Deus na natureza (<em>Ibid<\/em>., p. 47). A luz, os astros, a terra, a \u00e1gua, o ar, o fogo, os minerais, as plantas, os animais, e \u201cparticularmente [&#8230;] os homens\u201d (<em>Ibid<\/em>., p. 52). Embora, para estes, Descartes confesse que lhe falta conhecimento:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cContentei-me em supor que Deus tivesse formado o corpo de um homem inteiramente semelhante a um dos nossos, tanto na apar\u00eancia exterior de seus membros quanto na conforma\u00e7\u00e3o de seus \u00f3rg\u00e3os, sem o compor com mat\u00e9ria diferente daquela que eu descrevera, e sem nele p\u00f4r, no in\u00edcio, qualquer alma racional ou qualquer outra coisa que lhe servisse de alma vegetativa ou sensitiva\u201d (<em>Ibid<\/em>., p. 52).<\/p>\n<p>E sup\u00f5e ao corpo um calor sem lume, semelhante ao que se produz no feno verde ou na fermenta\u00e7\u00e3o do vinho. Trata-se de todas aquelas coisas que se produzem no corpo \u201csem que pensemos nisso\u201d (<em>Ibid<\/em>., p. 52), e que igualmente se produzem nos animais desprovidos de raz\u00e3o. Para Descartes, tudo aquilo que pensa est\u00e1 separado do corpo. E a partir dali convida seus leitores para se proverem de um cora\u00e7\u00e3o de boi para estudar a mec\u00e2nica da circula\u00e7\u00e3o sangu\u00ednea. Mas n\u00e3o pode deixar de inserir nessa mec\u00e2nica \u201ca gera\u00e7\u00e3o dos esp\u00edritos animais, que s\u00e3o como um vento muito sutil, ou antes como uma chama muito pura e muito viva que, subindo continuamente em grande quantidade do cora\u00e7\u00e3o para o c\u00e9rebro, da\u00ed se dirige pelos nervos para os m\u00fasculos, e d\u00e1 movimento a todos os membros\u201d (<em>Ibid<\/em>., p. 61). Para Descartes, esses \u201cesp\u00edritos animais\u201d s\u00e3o materiais, part\u00edculas \u00ednfimas que formam parte da circula\u00e7\u00e3o sangu\u00ednea e est\u00e3o submetidas, portanto, \u00e0s leis da mec\u00e2nica<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/um-corpo-um#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a>. Descartes atribui a eles n\u00e3o somente o movimento animal, como tamb\u00e9m, ap\u00f3s sua visita ao c\u00e9rebro, a causa do sono e da vig\u00edlia, dos sonhos, do senso comum, da mem\u00f3ria, da fantasia. Segundo sua concep\u00e7\u00e3o, o corpo \u00e9 um grande aut\u00f4mato complex\u00edssimo, feito pelas m\u00e3os de Deus, mais admir\u00e1vel que as m\u00e1quinas que podem ser inventadas pelos homens.<\/p>\n<p>Parece, ent\u00e3o, que a diferen\u00e7a est\u00e1 somente na complexidade. Mas Descartes adiciona algo a mais: o uso da palavra e a faculdade de conhecimento. Sempre poder\u00edamos distinguir esses aut\u00f4matos, ainda que imitassem nossas a\u00e7\u00f5es tanto como fosse moralmente poss\u00edvel. O termo \u201cmoralmente\u201d que utiliza Descartes se refere ao sentido pr\u00e1tico no uso do corpo, na medida em que possamos consider\u00e1-lo em nossa possess\u00e3o. A m\u00e1quina pode chegar a proferir palavras e inclusive signos corporais que valeriam como discurso, como o gesto de tocar algu\u00e9m para chamar sua aten\u00e7\u00e3o ou emitir um grito de dor, mas n\u00e3o poder\u00e1 tomar a linguagem como um fato de significantes: n\u00e3o \u00e9 \u201cposs\u00edvel conceber que combine as palavras de outro modo para responder ao sentido de tudo quanto dissermos em sua presen\u00e7a\u201d (<em>Ibid<\/em>., p. 63). Inclusive os homens mais embrutecidos podem faz\u00ea-lo. Esse \u00e9 o automatismo dos mais perfeitos aut\u00f4matos de hoje, como Siri, Alexa e outros dispositivos. A outra parte \u00e9 que, embora possam executar a\u00e7\u00f5es ainda melhor que os homens, n\u00e3o atuam por conhecimento, quer dizer, pela faculdade de encontrar respostas singulares a a\u00e7\u00f5es imprevistas, \u201csen\u00e3o somente pela disposi\u00e7\u00e3o de seus \u00f3rg\u00e3os\u201d (<em>Ibid<\/em>., p. 64).<\/p>\n<p><em>Ter \u00e9 sentir o n\u00e3o-ser<\/em><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Vemos, em todas essas considera\u00e7\u00f5es, ent\u00e3o, como o pensamento de Descartes d\u00e1 por suposta a possess\u00e3o do corpo como algo pr\u00f3prio e como condi\u00e7\u00e3o da qual deduzir o ser. J\u00e1 dissemos que o que acrescenta Lacan \u00e9 que, se contamos com o corpo, o ser \u00e9 secund\u00e1rio, o prim\u00e1rio \u00e9 o ter. E esse ter toma o sentido de captar ou de ser captado. Lacan (1972\/2003c) o diz com a express\u00e3o\u00a0<em>\u00e7a s\u2019y sent,\u00a0<\/em>\u201cisso se sente a\u00ed&#8221;, ou seja, que o sentido (oposto \u00e0 significa\u00e7\u00e3o) \u00e9 quest\u00e3o de sentimento, o sentido se sente<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/um-corpo-um#_edn7\" name=\"_ednref7\">[7]<\/a>. Ou inclusive somos sentidos, somos sentido, que somente em um segundo tempo ter\u00e1 raz\u00e3o. A express\u00e3o francesa se escuta tamb\u00e9m como o adjetivo\u00a0<em>saisissant<\/em>: surpreendente, chocante, estonteante, impressionante, cativador. Quer dizer, esse \u201cter\u201d \u00e9 algo sentido: n\u00e3o \u00e9 quest\u00e3o de dedu\u00e7\u00e3o, mas de ponto de partida; n\u00e3o \u00e9 quest\u00e3o de possess\u00e3o, mas de captura. O ser, em contrapartida, n\u00e3o se sente, n\u00e3o angustia, \u00e9 uma dedu\u00e7\u00e3o, mais ou menos, de raz\u00e3o, n\u00e3o de corpo. Tal como o diz Lacan (1975\/2003a, p. 561): \u201cIsso se sente, e uma vez sentido, demonstra-se\u201d. A interpreta\u00e7\u00e3o na psican\u00e1lise aponta a esse sentido e a essa captura; a interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 uma resson\u00e2ncia, uma\u00a0<em>r\u00e9-son<\/em>, uma raz\u00e3o que se mostra primeiro pelos seus ecos e logo se demonstra em seus efeitos. Temos ent\u00e3o isto: o sentido, o\u00a0<em>Sinn<\/em>, diferenciado da\u00a0<em>Bedeutung\u00a0<\/em>(traduzida ora como significa\u00e7\u00e3o ora como refer\u00eancia), \u00e9 um efeito de corpo, uma resson\u00e2ncia que ser\u00e1 raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Assim, o\u00a0<em>parl\u00eatre,<\/em>\u00a0o ser-de-falar-com-letra, enquanto homem, enquanto UOM, tem um corpo. O\u00a0<em>parl\u00eatre<\/em>, enquanto mulher, \u00e9 sintoma de um corpo, como as produ\u00e7\u00f5es de Claude Cahun. Perguntamo-nos o que quer dizer \u201cter\u201d no \u201cter um\u201d e o que quer dizer \u201cum\u201d em \u201cum corpo\u201d. Dentro da problem\u00e1tica da oposi\u00e7\u00e3o entre o ser e o Um, podemos compreender que o ter n\u00e3o se aplica ao ser<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/um-corpo-um#_edn8\" name=\"_ednref8\">[8]<\/a>. O ser, n\u00e3o se o tem; se o \u00e9, eventualmente. O que UOM tem \u00e9 algo que sup\u00f5e um Um, que ainda n\u00e3o \u00e9 ser, chamado\u00a0<em>corpo<\/em>\u00a0inicialmente. Vejamos as qualidades paradoxais desse corpo que UOM teria.<\/p>\n<p>UOM n\u00e3o tem, ent\u00e3o, ser; mas tampouco \u00e9 Um. O Um n\u00e3o se tem, como n\u00e3o se tem a palavra; o Um, existe. Ent\u00e3o vem UOM e tem Um corpo. E isso \u00e9 um\u00a0<em>avoyement<\/em><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/um-corpo-um#_edn9\" name=\"_ednref9\">[9]<\/a><em>,\u00a0\u00a0<\/em>que seria (em franc\u00eas antigo) um \u201cabrir caminho\u201d; em franc\u00eas atual se traduziria algo como uma\u00a0<em>ter\u00eancia<\/em>, palavra que, se existisse, seria um sin\u00f4nimo n\u00e3o exato de possess\u00e3o. Como um ter sem possuir, sem agarrar. A palavra<em>\u00a0avoyement\u00a0<\/em>(LACAN, 1975\/2003a, p. 561)<em>,\u00a0<\/em>al\u00e9m disso, guarda semelhan\u00e7a com\u00a0<em>aboiement<\/em>, ladrido. Latir n\u00e3o \u00e9 falar, mas se fazer escutar um som, com valor de semblante, que abriria o caminho&#8230; \u00e0 forma\u00e7\u00e3o do sintoma, com um discreto desprendimento. Talvez n\u00e3o seja demais recordarmos aqui o cachorro do conto de Sir Arthur Conan Doyle: seu sil\u00eancio era mais eloquente que seu ladrido, sempre que algu\u00e9m escutasse esse \u00d8. O ladrido obtura o sil\u00eancio.<\/p>\n<p><em>Perguntas<\/em><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Recapitulemos nossas perguntas: Como pode UOM ter Um corpo? O que \u00e9 ter? Como \u00e9 Um? O que \u00e9 o corpo? Muitas perguntas?<\/p>\n<p>A civiliza\u00e7\u00e3o, ou a biopol\u00edtica (LAURENT, 2016), \u00e9 o\u00a0<em>imperium<\/em>, o\u00a0<em>un-pire<\/em>, o um-pior, o imp\u00e9rio sobre os corpos, que nos dirige ao pior modo de ter um corpo (LACAN, 1975-76\/2007). Um Imp\u00e9rio se baseia efetivamente no dom\u00ednio sobre os corpos tomados de uma vez, como Uns reunidos em algum modo de totalidade. Ali se assenta a diferen\u00e7a entre Arist\u00f3teles e Lacan. Na primeira vers\u00e3o de\u00a0<em>Joyce, o Sintoma<\/em>, Lacan carrega ainda mais as tintas: \u201cSomente deportados participam da hist\u00f3ria: j\u00e1 que o homem\u00a0<em>tem\u00a0<\/em>um corpo, \u00e9 pelo corpo que se o tem. Avesso do\u00a0<em>habeas corpus<\/em>\u201d (1975\/2003a, p. 565)<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/um-corpo-um#_edn10\" name=\"_ednref10\">[10]<\/a>. O\u00a0<em>habeas corpus<\/em>, base do direito ocidental, \u00e9 a possess\u00e3o inalien\u00e1vel do corpo pr\u00f3prio, o fundamento da soberania. O Imp\u00e9rio \u00e9 a despossess\u00e3o, sem m\u00edstica nem po\u00e9tica, do corpo de algu\u00e9m. Dali os movimentos de corpos por centenas e por milhares: deslocam-se em raz\u00e3o de uma conquista que os despossui de todo o resto, n\u00e3o sem amea\u00e7ar essa mesma \u00faltima possess\u00e3o. O ex\u00edlio do corpo se traduz em \u00eaxodos porque, se algu\u00e9m pode \u201cter seu corpo\u201d, por menor que seja, esse corpo pode passar a ser uma possess\u00e3o (ou propriedade) de outrem.<\/p>\n<p>Antes de tentar responder \u00e0s perguntas sobre o corpo, examinemos o que \u00e9 ter. Para isso temos uma resposta lacaniana direta: \u201cTer \u00e9 poder fazer alguma coisa com\u201d (LACAN, 1975\/2003a, p. 562). Com isso que se tem. Recordemos que, a isso, Descartes o chamava moral. O que UOM faz com seu corpo \u00e9: um sintoma. O \u201cpoder fazer algo com isso\u201d remete ao artif\u00edcio de Joyce (2014)<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/um-corpo-um#_edn11\" name=\"_ednref11\">[11]<\/a>, ao\u00a0<em>savoir y faire<\/em>, ao saber como lidar com isso que se tem, ainda que n\u00e3o se saiba de que maneira o tem ou como funciona, porque nunca se o tem totalmente. Quando n\u00e3o se tem Todo, fica o recurso do que h\u00e1, embora n\u00e3o se possa possu\u00ed-lo: o Um. Com os semblantes, que s\u00e3o a forma eminente do Um na linguagem, na\u00a0<em>lalangue<\/em>, no conjunto de todos os conjuntos que nunca chegam a dizer-se a si mesmos, pode-se fazer um n\u00f3, mais ou menos, emaranhado, mais ou menos apertado, que tenha, que seja uma tens\u00e3o sustentada, algo que UOM possa ter por consistente.<\/p>\n<p>Vamos, ent\u00e3o, \u00e0s perguntas sobre o corpo de acordo com as consequ\u00eancias do ter. Para isso, levamos em considera\u00e7\u00e3o tr\u00eas respostas, segundo as tr\u00eas dimens\u00f5es do dito: o imagin\u00e1rio, o simb\u00f3lico e o real.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><em>O corpo imagin\u00e1rio<\/em><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>No imagin\u00e1rio, o corpo tem o poder de cativar. O corpo \u00e9 uma forma imagin\u00e1ria que parte do saco ou da bolha. O corpo \u00e9 a pele, a\u00a0<em>peau<\/em>, que, em franc\u00eas, se pronuncia como\u00a0<em>pot<\/em>, como bote, ou bunda, ou sorte. Dali nos vem a ideia de consist\u00eancia, de algo que um recipiente mant\u00e9m junto, fazendo conjunto. \u00c9 a ideia de que a pele envolve os \u00f3rg\u00e3os. Embora isso seja assim gra\u00e7as \u00e0 corda que amarra o saco, acontece que, no imagin\u00e1rio, essa corda n\u00e3o pode fazer n\u00f3. E vai ser no discurso do mestre que os corpos ser\u00e3o contados, de um em um, gra\u00e7as \u00e0 corda (de presos).<\/p>\n<p>Por outro lado, \u201co amor-pr\u00f3prio \u00e9 o princ\u00edpio da imagina\u00e7\u00e3o\u201d (LACAN, 1975-76\/2007, p. 64). E continua Lacan:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cO falasser adora seu corpo, porque cr\u00ea que o tem. Na realidade, ele n\u00e3o o tem, mas seu corpo \u00e9 sua \u00fanica consist\u00eancia, consist\u00eancia mental, \u00e9 claro, pois seu corpo sai fora a todo instante. [&#8230;]<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">O corpo decerto n\u00e3o se evapora e, nesse sentido, ele \u00e9 consistente, trata-se de um fato constatado mesmo nos animais. \u00c9 precisamente o que \u00e9 antip\u00e1tico para a mentalidade, porque ela cr\u00ea nisso, ter um corpo para adorar. \u00c9 a raiz do imagin\u00e1rio\u201d (LACAN, 1975-76\/2007, p. 64).<\/p>\n<p>E Lacan faz uma brincadeira sobre o\u00a0<em>cogito<\/em>\u00a0cartesiano: \u201c<em>Je le panse&#8230;<\/em>\u00a0<em>je le fais panse,<\/em>\u00a0<em>donc je l\u2019essuir\u201d\u00a0<\/em>(LACAN, 1975-76\/2007, p. 64)<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/um-corpo-um#_edn12\" name=\"_ednref12\">[12]<\/a>. Vejamos que vers\u00f5es podemos ter desse\u00a0<em>cogito<\/em>\u00a0\u2014 que consoa com o original cartesiano do\u00a0<em>je pense, donc je suis<\/em>\u00a0\u2014 em dialeto corporal:\u00a0<em>je le panse<\/em>, o cuido, coloco-lhe um curativo (um\u00a0<em>band-aid<\/em>), quer dizer, eu o fa\u00e7o penso, logo\u00a0<em>je l\u2019essuie<\/em>, o enxugo, o seco, o suporto (como em\u00a0<em>essuyer une d\u00e9faite<\/em>, \u201csofrer uma derrota\u201d), o limpo. Seco-lhe os flu\u00eddos que \u00e0s vezes transbordam (sangue, suor e l\u00e1grimas e tamb\u00e9m mucos, s\u00eamen, saliva, urina, etecetera) ou as escamas que caem (pele morta, pele seca, cabelo, unhas). O ser, posto a ter, torna-se l\u00edquido. Mas essa cren\u00e7a n\u00e3o deixa de ter uma import\u00e2ncia \u00e0s vezes crucial na cl\u00ednica do\u00a0<em>sinthome.\u00a0<\/em>O suor pode valer como um recobrimento do corpo, como uma segunda pele ou um vestido. A maquiagem pode tamb\u00e9m servir de concha macia para um semblante.<\/p>\n<p>Uma vinheta cl\u00ednica sobre as l\u00e1grimas: uma mulher chega ao meu consult\u00f3rio para formular uma queixa absurda. Enquanto fala, chora amargamente e vai formando uma pilha de len\u00e7os de papel \u00famidos que, no final, atira como produto, ou evacua\u00e7\u00e3o, ou signo de pontua\u00e7\u00e3o, na minha lixeira; paga e vai embora aliviada, at\u00e9 a pr\u00f3xima. Por um tempo, recuperou alguma consist\u00eancia para seu corpo. Outra vinheta, de uma apresenta\u00e7\u00e3o de pacientes: uma mulher est\u00e1 marcada desde sua mais terna inf\u00e2ncia pelo suor, sintoma que tem guiado sua vida. Seus estudos se limitaram, pois o suor dificultava-lhe a aprendizagem com livros e blocos encharcados. Muitos trabalhos lhe s\u00e3o impedidos pelo mesmo motivo. Nenhuma cadeia significante sustenta esse sintoma, que envolve seu corpo, frouxamente investido pela puls\u00e3o, amarrado s\u00f3 por uma costura sem fio.<\/p>\n<p>Voltemos a Lacan: \u201cEm suma, \u00e9 isso. \u00c9 o sexual que mente l\u00e1 dentro, ao ficar se relatando demais\u201d (LACAN, 1975-76\/2007. p. 64)<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/um-corpo-um#_edn13\" name=\"_ednref13\">[13]<\/a>. A coisa sexual conta muitas hist\u00f3rias, vangloria-se, tem a sua arrog\u00e2ncia, \u00e9 muito convencida. O imagin\u00e1rio do corpo \u00e9 sua geometria. O in\u00edcio da geometria n\u00e3o \u00e9 a linha, nem os axiomas de Euclides, sen\u00e3o a bola, ou o globo, que prov\u00e9m do gozo oral-anal. Nesse sentido, Joyce (2014) nos ensina algo no\u00a0<em>Retrato do artista quando jovem<\/em>\u00a0quando, depois da surra, seu corpo se desprende como uma casca. Ele nos mostra que\u00a0<em>ter<\/em>\u00a0um corpo (e n\u00e3o\u00a0<em>s\u00ea-lo<\/em>) n\u00e3o exclui senti-lo como um estrangeiro. Da\u00ed a necessidade de supor uma alma, uma Ideia Uma para resolver essa estrangeiridade. O original de Joyce \u00e9 que resolve essa estrangeiridade n\u00e3o com a alma, mas com o\u00a0<em>ego<\/em>.<\/p>\n<p><em>O corpo simb\u00f3lico<\/em><\/p>\n<p>Por outra parte, se consideramos em sua dimens\u00e3o simb\u00f3lica o saco da forma imagin\u00e1ria, veremos que se traduz em uma oscila\u00e7\u00e3o entre o 1 e o 0. O saco \u00e9 um, mas est\u00e1 vazio. Lacan d\u00e1 uma formula\u00e7\u00e3o dessa tradu\u00e7\u00e3o nos termos da teoria dos conjuntos e Jacques-Alain Miller a desenvolve na s\u00e9tima\u00a0<em>Nota passo a passo<\/em>. Enquanto o corpo aristot\u00e9lico (o da psicologia, o da mentalidade, o da sa\u00fade mental) \u00e9 o corpo tomado como Um, para Lacan, o corpo faz presente o conjunto vazio, que se escreve \u00d8. A partir daqui, o desenvolvimento se apoia em dois princ\u00edpios cantorianos: em primeiro lugar, que o conjunto vazio \u00e9 subconjunto de todo conjunto; em segundo lugar, que todo conjunto \u00e9 subconjunto de si mesmo. Ent\u00e3o, se partimos do Um do corpo, podemos escrev\u00ea-lo na teoria dos conjuntos como um conjunto de dois elementos: o \u00d8 e o 1. Isto, dito na linguagem dos conjuntos, \u00e9 {1, \u00d8}. Ou seja, o corpo \u00e9 um conjunto de dois elementos, de forma que, com o Um, criamos o 2. Comentando Lacan, Miller o expressa assim: \u201co conjunto, o saco cantoriano, merece ser conotado como uma mistura de 1 e de zero\u201d (MILLER, 2007, p. 213). Dito de outra maneira e resumindo o racioc\u00ednio de Miller, o corpo, um saco vazio no imagin\u00e1rio, tomado no simb\u00f3lico como Um, entra na conta como duplo. Essa duplicidade, em termos lacanianos, se escreve:\u00a0<em>l\u2019Un-tout-seul<\/em>, o Um totalmente sozinho, e\u00a0<em>l\u2019un-en-plus<\/em>, o um que est\u00e1 a mais. A esse\u00a0<em>l\u2019Un-tout-seul<\/em>, ao um sozinho, ao um-todo-s\u00f3 (onde \u201ctodo\u201d \u00e9 ao mesmo tempo adjetivo e adv\u00e9rbio), poder\u00edamos cham\u00e1-lo de\u00a0<em>solitodo<\/em>. Se o\u00a0<em>solitodo<\/em>\u00a0\u00e9 \u201csignificante, marca, tra\u00e7o, corte\u201d (MILLER, 2007, p. 213), o\u00a0<em>um-a-mais<\/em>\u00a0d\u00e1 \u00e0 matem\u00e1tica o modelo do conjunto vazio. \u00c9 o saco de pele, vazio, o corpo por fora de seus \u00f3rg\u00e3os o que Lacan, em outro lugar, chama de\u00a0<em>l\u2019un-en-peluce<\/em>, o um de pel\u00facia, que se pronuncia em franc\u00eas como<em>\u00a0l\u2019un en plus<\/em>. Em\u00a0<em>Fun\u00e7\u00e3o e campo da fala e da linguagem em psican\u00e1lise<\/em>, Lacan (1953\/1998, p. 284) alude a algo assim, ao citar ao poeta T. S. Elliot:\u00a0<em>We are the hollow men \/ We are the stuffed men.\u00a0<\/em>\u201cSomos os homens ocos \/ Somos os homens empalhados \/ Todos encostados \/ Com o capacete cheio de palha. Ai de n\u00f3s!\u201d (LACAN, 1953\/1998, p. 284). Poderia ser tamb\u00e9m o misterioso \u201ccorpo sem \u00f3rg\u00e3os\u201d, do qual falavam o fil\u00f3sofo Gilles Deleuze e o psiquiatra Felix Guattari no seu\u00a0<em>Anti-\u00c9dipo\u00a0<\/em>(MILLER, 2007).<\/p>\n<p><em>O corpo real<\/em><\/p>\n<p>O dois do simb\u00f3lico nos leva ao tr\u00eas: 1, \u00d8 e, como terceiro elemento, o conjunto que formam ambos, {1, \u00d8} (MILLER, 2007, p. 213). Esse \u00e9 o n\u00f3 do real, 1, o\u00a0<em>solitodo<\/em>\u00a0\u00e9 o significante do mestre. O \u00d8 \u00e9 o S<sub>2<\/sub>, porque indica o par \u201c1, \u00d8\u201d. Esse casal separado constitui o s\u00edmbolo, esse objeto ao qual lhe falta sua metade. Vemos ent\u00e3o que, separados, eles s\u00e3o necess\u00e1rios um ao outro no simb\u00f3lico. Para indicar o que n\u00e3o est\u00e1, faz falta um 1; que deixar\u00e1 de ser\u00a0<em>solitodo<\/em>\u00a0para ser falta de complemento. Para constituir o tr\u00eas do real, faz falta o conjunto {1, \u00d8}, que \u00e9 a arbitragem do signo lingu\u00edstico, o que enoda o 1 e o 0. Refiro-me aqui \u00e0 substitui\u00e7\u00e3o que Lacan faz do que Saussure considerou uma rela\u00e7\u00e3o arbitr\u00e1ria por uma rela\u00e7\u00e3o de arbitragem, uma solu\u00e7\u00e3o de compromisso, na qual n\u00e3o est\u00e1 ausente um mestre, entre o som e o sentido. E o que liga o significante ao significado, ou, mais primariamente, o s\u00edmbolo com o sintoma, \u00e9 a forma de resson\u00e2ncia dessa arbitragem (LACAN, 1975-76\/2007, p. 20).<\/p>\n<p>A surpreendente conclus\u00e3o de Lacan, de amplas consequ\u00eancias cl\u00ednicas, \u00e9 que o real n\u00e3o \u00e9 o corpo, como tampouco \u00e9 a linguagem, mas \u00e9 a resson\u00e2ncia ou conson\u00e2ncia, essa arbitragem que cria uma concord\u00e2ncia inesperada entre ambos. Lacan utiliza um termo em franc\u00eas para descrever as consequ\u00eancias da interpreta\u00e7\u00e3o como modo de criar uma nova resson\u00e2ncia que n\u00e3o havia se produzido anteriormente; utiliza para isso o termo\u00a0<em>\u00e9pisser<\/em>, emendar, um voc\u00e1bulo pertencente \u00e0 arte da cordoaria e que se refere \u00e0 opera\u00e7\u00e3o pela qual se unem duas cordas entrela\u00e7ando seus cabos ou extremos. Para seguir esse procedimento, primeiro tem que desfazer os extremos das cordas a unir e, em seguida, fazendo uso de uma ferramenta apropriada, entrela\u00e7ar os cabos soltos de cada extremo com os do outro.<\/p>\n<p>Assim, \u201censinamos o analisante a emendar (<em>\u00e9pisser<\/em>), a fazer emenda (<em>\u00e9pissure<\/em>) entre seu sinthoma e o real parasita do gozo\u201d (LACAN, 1975-76\/2007, p. 71). Porque \u201c\u00e9 de suturas e emendas que se trata na an\u00e1lise\u201d (LACAN, 1975-76\/2007, p. 71)<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/um-corpo-um#_edn14\" name=\"_ednref14\">[14]<\/a>. A resson\u00e2ncia da interpreta\u00e7\u00e3o afeta o imagin\u00e1rio-real do corpo com a finalidade de faz\u00ea-lo simpatizar com o real parasita do (seu) gozo. O gozo parasita do corpo deve emendar-se com o corpo. O corpo deve admitir esse parasita como pr\u00f3prio: assim chega ao n\u00f3 do amor pelo seu\u00a0<em>sinthoma.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<h6><strong>Tradu\u00e7\u00e3o:<\/strong>\u00a0Ernesto Anzalone e Paula Nocquet<br \/>\n<strong>Revis\u00e3o:<\/strong>\u00a0Michelle Sena<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>CL\u00c9BERT, J.-P.\u00a0<strong>Dictionnaire du Surr\u00e9alisme.<\/strong>\u00a0Paris: Seuil, 1996.<\/h6>\n<h6>DESCARTES, R.\u00a0<strong>Discurso do m\u00e9todo.<\/strong>\u00a0S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 1996.<\/h6>\n<h6>JOYCE, J.\u00a0<strong>Retrato do artista quando jovem<\/strong>. Porto Alegre, RS: L&amp;PM, 2014.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1953). \u201cFun\u00e7\u00e3o e campo da fala e da linguagem\u201d. In:\u00a0<strong>Escritos<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1970). Radiofonia. In:\u00a0<strong>Outros Escritos<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003b, p. 400-447.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1972). O aturdito. In:\u00a0<strong>______<\/strong>, 2003c, p. 448-497.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1975). Joyce, o Sinthoma. In:\u00a0<strong>______<\/strong>, 2003a, p. 560-566.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1975-76).\u00a0<strong>O semin\u00e1rio, livro 23: o sinthoma<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9.\u00a0<strong>O avesso da biopol\u00edtica: uma escrita para o gozo.\u00a0<\/strong>Rio de Janeiro: Contra Capa, 2016.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. \u201cNota passo a passo\u201d. In: LACAN, J. (1975-76).\u00a0<strong>O semin\u00e1rio livro 23: o sinthoma<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/um-corpo-um#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a>\u00a0Texto originalmente publicado com o t\u00edtulo \u201cUn cuerpo, uno. Traducci\u00f3n y desciframiento\u201d, na\u00a0<strong>Revista Lacaniana de Psicoan\u00e1lisis<\/strong>, ano XV, n\u00famero 28, ago. de 2020.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/um-corpo-um#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a>\u00a0H\u00e1 duas vers\u00f5es para essa confer\u00eancia. A primeira foi publicada nas Atas do V Symposium Internacional James Joyce (Paris, 1975), em\u00a0<strong>Joyce avec Lacan<\/strong>\u00a0(Paris: Navarin, 1987) e nos\u00a0<strong>Autres \u00e9crits<\/strong>\u00a0(Paris: Seuil, 2001) e\u00a0<strong>Outros escritos<\/strong>\u00a0(Rio de Janeiro: Zahar, 2003). A segunda se encontra em Jacques Lacan,\u00a0<strong>O semin\u00e1rio, livro 23: o sinthoma<\/strong>\u00a0(trad. Sergio Laia; revis\u00e3o Andr\u00e9 Telles) (Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007). O fragmento considerado aqui pertence \u00e0 primeira vers\u00e3o,\u00a0<strong>Outros escritos<\/strong>, 2003, p. 561.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/um-corpo-um#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a>\u00a0No original:\u00a0<em>&#8220;LOM, LOM de base, LOM cahun corps, et nan-na Kun. Faut le dire comme \u00e7a: il ahun&#8230;et non: il estun\u2026 (cor\/nich\u00e9). C\u2019est l\u2019avoir et pas l\u2019\u00eatre qui le caract\u00e9rise. [&#8230;] LOM a, au principe. Pourquoi? \u00e7a se sent, et une fois senti, \u00e7a se d\u00e9montre<\/em><em>&#8220;.\u00a0<\/em>O\u00a0<em>cor\/nich\u00e9 (corps nich\u00e9),\u00a0<\/em>corpo aninhado, alojado, escondido, faz lembrar ainda\u00a0<em>cornichon,\u00a0<\/em>termo com que, na linguagem coloquial, faz-se refer\u00eancia \u00e0quele que \u00e9 tolo, f\u00e1cil de enganar (N.E.) (LACAN, 1975\/2003, p. 561).<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/um-corpo-um#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a>\u00a0Em seu\u00a0<strong>Diccionnaire du Surr\u00e9alisme<\/strong>, Paris, Seuil, 1996.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/um-corpo-um#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a>\u00a0N.T: Esse termo\u00a0<em>Cornichon,<\/em>\u00a0conforme podemos ler na nota do tradutor do livro de \u00c9ric Laurent,<em>\u00a0O avesso da Biopol\u00edtica. Uma escrita para o gozo<\/em>, \u00e0 p. 56, tamb\u00e9m pode ser traduzido por pepino que, na g\u00edria francesa, designa o \u00f3rg\u00e3o sexual masculino.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/um-corpo-um#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a>\u00a0Nota de \u00c9. Gilson em sua edi\u00e7\u00e3o comentada do\u00a0<strong>Discours de la m\u00e9thode<\/strong>, Paris: Vrin, 1925, p. 414-415.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/um-corpo-um#_ednref7\" name=\"_edn7\">[7]<\/a>\u00a0Lacan introduz esta express\u00e3o no \u201cO Aturdito\u201d (1972\/2003, p. 481-482). Primeiramente grafado como\u00a0<em>\u00e7asysent<\/em>, e linhas abaixo como\u00a0<em>sacysent.<\/em>\u00a0A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 \u201cisso se sente ai\u201d, \u201cissaisecente\u201d em portugu\u00eas. Dir\u00edamos que responde ao duplo sentido da palavra \u201csentido\u201d: como efeito do dito, e como sentimento. Os tradutores consideram que a segunda grafia cont\u00e9m uma alus\u00e3o a Lemaistre de Sacy. As linhas citadas ao in\u00edcio deste artigo cont\u00eam a terceira grafia. Mais adiante (LACAN, 1975\/2003, p. 566) Lacan volta a tomar esta express\u00e3o para certificar a leitura poss\u00edvel de\u00a0<em>Finnegans Wake<\/em>: se sente que Joyce gozou o escrevendo.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/um-corpo-um#_ednref8\" name=\"_edn8\">[8]<\/a>\u00a0Um dos temas do \u00faltimo curso de J-A Miller de 2011,\u00a0<em>O\u00a0<\/em><em>Um inteiramente s\u00f3<\/em>, conhecido inicialmente como\u00a0<em>O ser e o Um.<\/em><\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/um-corpo-um#_ednref9\" name=\"_edn9\">[9]<\/a>\u00a0<em>Il y a de l\u2019avoiement dans qu\u2019as-tu<\/em>? Intraduz\u00edvel como \u201cH\u00e1 algum ladrido nele, que tens tu?\u201d que os tradutores comentam: \u201co que de um ladrido h\u00e1 na pergunta pelo ter\u201d. Na edi\u00e7\u00e3o em portugu\u00eas: \u201cH\u00e1 uma ter\u00eancia [avoyement] no \u2018que que voc\u00ea tem?\u2019 (LACAN, 1975\/2003, p.561)<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/um-corpo-um#_ednref10\" name=\"_edn10\">[10]<\/a>\u00a0Cf. MILLER J.-A. Habeas Corpus.\u00a0<strong>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/strong>, S\u00e3o Paulo: E\u00f3lia, n. 73, p.31-37, 2016.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/um-corpo-um#_ednref11\" name=\"_edn11\">[11]<\/a>\u00a0Ao final do Retrato do artista quando jovem: \u201c<em>Old father, old artificer<\/em>\u201d. \u201cVelho pai, velho art\u00edfice\u201d (JOYCE, 2014, p.313)<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/um-corpo-um#_ednref12\" name=\"_edn12\">[12]<\/a>\u00a0Traduzido como \u201cEu o penso, isto \u00e9, eu o fa\u00e7o penso, logo eu o enssoufro\u201d (LACAN, 1975-76\/2007, p.64). Nota do tradutor: Condensa\u00e7\u00e3o dos verbos \u201cser\u201d. \u201cenxugar\u201d e \u201csofrer\u201d, contidos no verbo \u201cessuyer\u201d<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/um-corpo-um#_ednref13\" name=\"_edn13\">[13]<\/a>\u00a0O original diz &#8220;<em>C&#8217;est \u00e0 \u00e7a se r\u00e9sume. C&#8217;est le sexuel qui ment l\u00e0-dedans, de trop s&#8217;en raconter<\/em>\u201d. O sexual se conta demais.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/um-corpo-um#_ednref14\" name=\"_edn14\">[14]<\/a>\u00a0O original diz: \u201cnous apprenons \u00e0 l\u2019analysant \u00e1 \u00e9pisser, \u00e0 faire \u00e9pissure entre son sinthome et le r\u00e9el parasite de la jouissance [&#8230;] C\u2019est de sutures et d\u2019\u00e9pissures qu\u2019il s\u2019agit dans l\u2019analyse\u201d.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ANTONI VICENS Psicanalista AME da ELP\/AMP avicens@me.com Resumo:\u00a0O autor empreende a tentativa de tradu\u00e7\u00e3o e interpreta\u00e7\u00e3o da frase lacaniana contida na confer\u00eancia\u00a0Joyce, o Sintoma, \u201cUOM kitemum corpo e s\u00f3-s\u00f3 Teium (\u2026)\u201d. A partir de quest\u00f5es sobre o ter e o Um, ele prop\u00f5e algumas perguntas sobre o corpo a partir das consequ\u00eancias do ter: como&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57873,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[24],"tags":[],"class_list":["post-1855","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-28","category-24","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1855","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1855"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1855\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57874,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1855\/revisions\/57874"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57873"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1855"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1855"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1855"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}