{"id":1858,"date":"2022-03-19T06:41:12","date_gmt":"2022-03-19T09:41:12","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1858"},"modified":"2025-12-01T13:19:35","modified_gmt":"2025-12-01T16:19:35","slug":"acontecimento-de-corpo-gozo-mistico-e-jaculacao1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2022\/03\/19\/acontecimento-de-corpo-gozo-mistico-e-jaculacao1\/","title":{"rendered":"ACONTECIMENTO DE CORPO, GOZO M\u00cdSTICO E JACULA\u00c7\u00c3O[1]"},"content":{"rendered":"<h6>J\u00c9SUS SANTIAGO<br \/>\nPsicanalista, membro e AME da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise\/AMP<br \/>\n<a href=\"mailto:santiago.bhe@terra.com.br\">santiago.bhe@terra.com.br<\/a><\/h6>\n<blockquote><p><strong>Resumo:\u00a0<\/strong>O interesse do texto \u00e9 mostrar que a jacula\u00e7\u00e3o \u00e9 uma vers\u00e3o renovada da interpreta\u00e7\u00e3o na medida que nela o objeto voz se orienta para a vertente da resson\u00e2ncia do significante, dando assim abertura ao equ\u00edvoco. Para a jacula\u00e7\u00e3o, o significante \u00e9 menos o que produz sentido e mais o que se ouve e ressoa como real. Por interm\u00e9dio do objeto voz, a interpreta\u00e7\u00e3o joga com o equ\u00edvoco dos significantes que causam o gozo. E nisso a interpreta\u00e7\u00e3o se apresenta diretamente conectada com a escritura. Apenas a escritura \u00e9 capaz de circunscrever e isolar o real do efeito de sentido. O inconsciente torna-se um texto que se l\u00ea e no qual a leitura se equivoca, deixando ouvir efeitos sonoros que permitem esvaziar o sentido.<\/p>\n<p><strong>Palavras chaves<\/strong>:\u00a0jacula\u00e7\u00e3o, interpreta\u00e7\u00e3o, gozo, sentido e real.<\/p>\n<p><strong>BODY EVENT<\/strong><strong>, MYSTIC JOUISSANCE AND JACULATION<\/strong><\/p>\n<p><strong>Abstract:\u00a0<\/strong>This essay has the intent to show that jaculation is a renewed version of interpretation, in which the object voice is oriented toward the resonance of the signifier, thus opening up to equivocation. In jaculation, the signifier is less what produces meaning and more what is heard and resonates as real. Through the object voice, interpretation plays with the equivocation of the signifiers that cause jouissance. In this case, interpretation is directly connected to writing. Only writing can circumscribe and isolate the real from the effect of meaning. The unconscious becomes a text that is read, and its reading is open to equivocation, letting the sound effects be heard and allowing the meaning to be emptied.<\/p>\n<p><strong>Keywords:\u00a0\u00a0<\/strong>jaculation, interpretation, mystic jouissance, meaning, real.<\/p><\/blockquote>\n<div id=\"attachment_1859\" style=\"width: 1442px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/acontecimento.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"1432\" data-large_image_height=\"1000\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1859\" class=\"wp-image-1859\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/acontecimento-1024x715.jpg\" alt=\"\" width=\"703\" height=\"491\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1859\" class=\"wp-caption-text\">Desali, s\/t<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Dois acontecimentos de corpo<\/em><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>O interesse precoce de Lacan pela m\u00edstica se inicia na d\u00e9cada de 50 e \u00e9 uma evid\u00eancia de que o corpo atravessa, de diferentes maneiras, toda a trajet\u00f3ria de seu ensino. Particularmente, o gozo m\u00edstico desempenha um papel fundamental nessa revolu\u00e7\u00e3o conceitual concernente ao sintoma concebido como acontecimento de corpo. Antes de tratar da m\u00edstica, \u00e9 preciso dizer que o acontecimento de corpo concerne a uma mudan\u00e7a radical na concep\u00e7\u00e3o do sintoma na medida em que este passa a ser diretamente causado pelo trauma. Ali\u00e1s, tanto o sintoma quanto o trauma s\u00e3o apreendidos como acontecimentos que deixam tra\u00e7os e marcas. Trata-se sempre da a\u00e7\u00e3o dos discursos que afetam o corpo. Assim, o trauma n\u00e3o \u00e9 um acontecimento que possa se explicar no sentido de um acidente fact\u00edvel, como \u00e9 o caso de um atentado ou abuso sexual. \u00c9 um acontecimento que resulta do componente inerente de\u00a0<em>lal\u00edngua<\/em>, ou seja, sua abertura \u00e0 conting\u00eancia que se afirma por sua condi\u00e7\u00e3o em causar impacto sobre o corpo. O trauma \u00e9 o tra\u00e7o de afeta\u00e7\u00e3o fundamental que deixar\u00e1 marcas na vida subsequente do corpo falante, gerando um desequil\u00edbrio permanente que mant\u00e9m um excesso de excita\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se deixa reabsorver pela homeostase do prazer.<\/p>\n<p>\u00c9 diante do insucesso do princ\u00edpio do prazer em regular o desequil\u00edbrio do gozo gerado pelo trauma que se pode falar do sintoma como acontecimento de corpo. O sintoma \u00e9, assim, a pura repeti\u00e7\u00e3o, pura reitera\u00e7\u00e3o, no real, desse\u00a0<em>Um<\/em>\u00a0de gozo que se depreende desse acontecimento primordial que \u00e9 o trauma. Desde ent\u00e3o, o sintoma passa a ser menos um objeto decifr\u00e1vel do que esse efeito de reitera\u00e7\u00e3o do gozo do\u00a0<em>Um<\/em>\u00a0no corpo e, nesse sentido, esse acontecimento passa a ser nomeado como\u00a0<em>sinthoma<\/em>\u00a0(com\u00a0<em>th<\/em>), diferenciando-se daquele por n\u00e3o se esgotar com a decifra\u00e7\u00e3o do sentido (MILLER, 2011, aula de 2\/3\/11). Enquanto acontecimento de corpo, o\u00a0<em>sinthoma<\/em>\u00a0n\u00e3o se confunde com fen\u00f4menos de corpo transit\u00f3rios, em eclipses, mas apresenta-se, ao contr\u00e1rio, com uma temporalidade permanente (MILLER, 2003). Qualifica-se, assim, o acontecimento de corpo como\u00a0<em>sinthoma\u00a0<\/em>quando este se instala ordenando, de modo permanente, na vida do<em>\u00a0falasser.<\/em><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>O Outro da m\u00edstica \u00e9 furo<\/em><\/p>\n<p>A m\u00edstica \u00e9 exemplar no que caracteriza o\u00a0<em>sinthoma<\/em>, pois fala-se com o corpo permanentemente com base no amor da l\u00edngua, cujo destino \u00e9 quase sempre a escrita<em>.\u00a0<\/em>Para as beguinas, mulheres m\u00edsticas um pouco desumanizadas \u2014 que podem ser consideradas casos que Lacan nomearia como UOM \u2014, \u00e9 quase natural que escrevam, com o corpo, para o gozo que lhes transborda. A escrita testemunha a afinidade particular que existe entre o gozo e a experi\u00eancia m\u00edstica. Para al\u00e9m das miragens do narcisismo, fomentado pela rela\u00e7\u00e3o dual e especular, a escrita m\u00edstica para o gozo visa o amor que est\u00e1 do lado do real. O que vem a ser o amor real? O pr\u00f3prio Lacan colocar\u00e1 a quest\u00e3o sobre se o amor pode ir at\u00e9 o limite em que se visa, no Outro, o seu gozo nocivo e delet\u00e9rio. Enfim, pode-se amar o Outro em seu gozo? Esse amor calcado no gozo que se aloja no Outro se mostra com nitidez nas experi\u00eancias m\u00edsticas em que Angela de Folignio bebia com deleite a \u00e1gua na qual acabara de lavar os p\u00e9s dos leprosos ou, ainda, em que Maria Allacoque comia, com n\u00e3o menos recompensas que as efus\u00f5es espirituais, os excrementos de um doente (LACAN, 1969-70\/1986).<\/p>\n<p>Tanto a m\u00edstica quanto o amor cort\u00eas consistem nas respostas de Lacan a respeito do real do amor concebido como \u201co que vem em supl\u00eancia \u00e0 rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d (1972-73\/1982, p. 62). No defrontamento com o imposs\u00edvel da\u00a0<em>n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0sexual \u2014 de onde se define o real \u2014, a experi\u00eancia m\u00edstica aparece enquanto encontro com o seu parceiro privilegiado, que \u00e9 Jesus Cristo, e n\u00e3o o Deus da religi\u00e3o monote\u00edsta. O parceiro \u00e9 o Cristo da paix\u00e3o, crucificado, estigmatizado, de tal maneira que as m\u00edsticas gozam do Filho de Deus, considerando que este morre sem o amparo do Pai. \u00c9 o que se manifesta na s\u00faplica do Filho: \u201cPai, por que me abandonaste?\u201d. Se a m\u00edstica n\u00e3o tem o Deus monote\u00edsta como parceiro de gozo, \u00e9 porque n\u00e3o ret\u00e9m como Outro aquele que provoca trevas sobre a Terra e n\u00e3o responde a tempo no momento em que o filho se encaminha para a morte. A face negativa de Deus pode se apresentar como um puro abismo, um puro vazio, um furo e, por isso, Lacan (1972-73\/1982), na li\u00e7\u00e3o \u201cDeus e o gozo d\u2019\u023a Mulher\u201d, demonstra como o Outro das m\u00edsticas equivale \u00e0 \u201cface de Deus, como suportada pelo gozo feminino\u201d (p. 103). Esse Outro com o qual uma m\u00edstica goza, Lacan o define como sendo um furo (p. 155), e nome desse furo \u00e9 o S(\u023a).<\/p>\n<p>N\u00e3o se est\u00e1 mais do lado da exist\u00eancia da fun\u00e7\u00e3o de exce\u00e7\u00e3o do pai que funda o universo ed\u00edpico do \u201ctodos submetidos \u00e0 castra\u00e7\u00e3o\u201d. A face do Outro das m\u00edsticas n\u00e3o \u00e9 paterna, ela \u00e9 cr\u00edstica. Pode assumir a figura do querubim ou do serafim, como \u00e9 o caso dos que aparecem nas vis\u00f5es de Santa Teresa d\u2019\u00c1vila. A m\u00edstica crist\u00e3 \u00e9 a experi\u00eancia desse \u201cn\u00e3o h\u00e1 nenhum Outro\u201d, n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m para suprir; \u00e9 a experi\u00eancia da aus\u00eancia suplicante de Deus. A m\u00edstica aprofunda essa aus\u00eancia, cava fundo o abismo que \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o do encontro com Deus, que, por ser puro e infinito amor, confunde-se com o n\u00e3o-toda do feminino.<\/p>\n<p>Com a m\u00edstica, torna-se poss\u00edvel distinguir duas faces do Outro que correspondem \u00e0s duas faces de Deus. De um lado, a face de Deus que se apresenta como o Outro do pacto da palavra, que assume a fun\u00e7\u00e3o de um terceiro termo, pacificador e dotado da capacidade de simboliza\u00e7\u00e3o, e, de outro, um Deus que se suporta do gozo suplementar d\u2019 \u023a Mulher. Lacan inscreve essa face real de Deus do lado feminino das f\u00f3rmulas da sexua\u00e7\u00e3o, no lugar em que se escreve a inexist\u00eancia da exce\u00e7\u00e3o feminina -$x-Fx.<\/p>\n<p>Caso fosse poss\u00edvel escrever o\u00a0<em>Totem e Tabu<\/em>\u00a0do lado feminino da sexua\u00e7\u00e3o, caso a exce\u00e7\u00e3o feminina existisse, realizar-se-ia a exist\u00eancia d\u2019<em>A<\/em>\u00a0Mulher. Se\u00a0<em>A\u00a0<\/em>mulher existisse, constituir\u00edamos o conceito universal das mulheres. O\u00a0<em>Ao-menos-Um<\/em>\u00a0n\u00e3o existindo para o\u00a0<em>n\u00e3o-todo<\/em>\u00a0f\u00e1lico feminino, o que se escreve no lugar \u00e9 o\u00a0<em>Menos-Um<\/em>\u00a0referente ao\u00a0<em>significante da falta no Outro<\/em>\u00a0S(\u023a) Justamente nesse lugar, Lacan situa o \u00eaxtase proveniente do gozo m\u00edstico, que n\u00e3o se apazigua com nenhum universal, pois ele \u00e9 o furo que bebe, \u00e9 o abismo que tem sede.<\/p>\n<p><em>A m\u00edstica \u00e9 acontecimento de corpo<\/em><\/p>\n<p>Essa valoriza\u00e7\u00e3o do gozo do feminino no \u00e2mbito da experi\u00eancia m\u00edstica sofre um tratamento aprofundado por meio da arte barroca no cristianismo, que Lacan (1972-73\/1982), em suas diversas manifesta\u00e7\u00f5es, n\u00e3o recua em qualificar como obscena. \u00c9 conhecida a for\u00e7a interpretativa do barroco com rela\u00e7\u00e3o aos estados da alma e do corpo, das emo\u00e7\u00f5es e das paix\u00f5es, suas exposi\u00e7\u00f5es de modos de gozo e, notadamente, estados de sofrimentos caracter\u00edsticos do mart\u00edrio, do qual se extrai a etimologia de \u201ctestemunho\u201d. Surpreende, no entanto, que as evoca\u00e7\u00f5es do gozo de Santa Teresa d\u2019\u00c1vila se fazem no decurso do<em>\u00a0s<\/em>emin\u00e1rio<em>\u00a0Mais, ainda<\/em>, sem nenhuma refer\u00eancia aos seus escritos. Lacan se vale da obra de arte do escultor barroco Gian Lorenzo Bernini, posterior em mais de um s\u00e9culo da vida da santa, realizada em contexto cultural e teol\u00f3gico bem distinto do s\u00e9culo XVI espanhol. Assim, n\u00e3o se sugere a leitura de suas obras, pois, segundo Lacan, basta olhar, como se o olhar fosse a \u00fanica via para apreender n\u00e3o o\u00a0<em>savoir-faire\u00a0<\/em>do artista, mas o gozo da santa que se pretende exibir: \u201cBasta que voc\u00eas olhem em Roma a est\u00e1tua de Bernini para compreenderem que ela est\u00e1 gozando\u201d (1972-73\/1982, p. 103), diz Lacan.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do gozo feminino, a obra retrata o fen\u00f4meno m\u00edstico da chamada transverbera\u00e7\u00e3o, que descreve a a\u00e7\u00e3o das palavras jaculat\u00f3rias representadas pelo dardo de ouro do serafim que lhe perfura o cora\u00e7\u00e3o. Em seu relato, a santa fala de suas impress\u00f5es de que o anjo lhe perfurava o cora\u00e7\u00e3o com o dardo algumas vezes, atingindo-lhe as entranhas. Quando o tirava, parecia-lhe que as entranhas tamb\u00e9m eram retiradas, ficando com o corpo todo abrasado, num imenso amor de Deus. Relata ainda que \u201c(&#8230;) a dor era t\u00e3o grande que soltava gemidos, e era t\u00e3o excessiva a suavidade produzida por essa dor imensa que a alma n\u00e3o desejava que tivesse fim\u201d. Como prova de que se trata de jacula\u00e7\u00f5es que atingem o corpo, ela pr\u00f3pria conclui: \u201c(&#8230;) ainda que o corpo participe, \u00e0s vezes muito, n\u00e3o se trata de dor corporal, \u00e9 dor espiritual\u201d.<\/p>\n<p>Esse\u00a0<em>a mais<\/em>\u00a0do gozo tem lugar no corpo, como mostra o testemunho de viv\u00eancias corporais nos relatos de Santa Teresa d\u2019\u00c1vila: \u201c(&#8230;) a amplia\u00e7\u00e3o sem limites do amor \u00e9 o que dilata o seu peito de uma tal maneira que o seu cora\u00e7\u00e3o fica prestes a romper\u201d. O querubim \u00e9 um nome do real do gozo que trabalha em seu corpo. A flecha do anjo, ao perfurar seu corpo, delimita e circunscreve o \u00eaxtase proveniente do amor m\u00edstico que Lacan correlaciona ao significante do Outro barrado (\u023a) Trata-se de um gozo enquanto tal exclu\u00eddo do lugar do Outro, fora da lei do significante, mas sem, no entanto, estar fora do corpo, como \u00e9 o caso do gozo f\u00e1lico, nem fora do real, como \u00e9 o caso do gozo do sentido. Esse furo pr\u00f3prio do\u00a0<em>significante do gozo do Outro barrado\u00a0<\/em>S(\u023a) \u00e9 o mais genu\u00edno furo com o qual a pr\u00e1tica anal\u00edtica lida, visto que contrasta com o orif\u00edcio referido ao gozo f\u00e1lico, ou o umbigo do sonho como furo do sentido, no \u00e2mbito do tecido do inconsciente. \u00c9 esse gozo que experimentam certas m\u00edsticas como um gozo ao mesmo tempo envolvente e aniquilador da nudez de Deus. Pois o que o gozo m\u00edstico coloca a nu \u00e9 que no lugar de Deus h\u00e1 um abismo, um real inerente ao gozo feminino.<\/p>\n<p>Faz-se necess\u00e1rio precisar que a m\u00edstica Santa Teresa n\u00e3o se caracteriza pelo uso da po\u00e9tica, como \u00e9 o caso de S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz ou \u00c2ngelo Sil\u00e9sius, pois prevalece, em seus escritos, as preces jaculat\u00f3rias, que, como se viu, s\u00e3o palavras vivas e inflamadas que, segundo ela, \u201cpartem da alma e perfuram o cora\u00e7\u00e3o\u201d. Quando Lacan retoma a m\u00edstica durante os anos 70, n\u00e3o se trata apenas de mostrar o que \u00e9 o gozo\u00a0<em>n\u00e3o-todo<\/em>\u00a0f\u00e1lico, mas objetiva-se, tamb\u00e9m, reinventar a pr\u00e1tica da interpreta\u00e7\u00e3o \u00e0 luz da jaculat\u00f3ria m\u00edstica. A abordagem da jacula\u00e7\u00e3o aparece, portanto, quando se depara com o fato que a interpreta\u00e7\u00e3o, no \u00faltimo ensino de Lacan, se apresenta intimamente articulada com a defini\u00e7\u00e3o do sintoma como acontecimento de corpo.<\/p>\n<p><em>A jaculat\u00f3ria \u00e9 palavra que fere<\/em><\/p>\n<p>Quando se retoma a palavra jaculat\u00f3ria como horizonte para se renovar a pr\u00e1tica da interpreta\u00e7\u00e3o, trata-se de uma reinven\u00e7\u00e3o que deve estar \u00e0 altura do sintoma como acontecimento de corpo. Portanto, a jacula\u00e7\u00e3o, tal como ela \u00e9 reinventada no ensino de Lacan, \u00e9, como prop\u00f5e \u00c9ric Laurent (2021), um fil\u00e3o fecundo para tratar da interpreta\u00e7\u00e3o como acontecimento. A interpreta\u00e7\u00e3o elevada \u00e0 altura do acontecimento exige, em primeiro lugar, fazer a distin\u00e7\u00e3o entre a\u00a0<em>fala<\/em>\u00a0e o\u00a0<em>dizer.\u00a0<\/em>\u00c9 o que sugere o\u00a0<em>Semin\u00e1rio 20:<\/em>\u00a0<em>Mais, ainda<\/em>\u00a0ao apresentar a jacula\u00e7\u00e3o m\u00edstica como profundamente distinta do campo da fala, pois ela \u00e9 escrita. Lacan diz assim: \u201cessas jacula\u00e7\u00f5es m\u00edsticas, n\u00e3o \u00e9 lorota nem s\u00f3 fala\u00e7\u00e3o, \u00e9 em suma, o que se pode ler de melhor podem p\u00f4r em nota de rodap\u00e9 (&#8230;) \u2014\u00a0<em>Acrescentar os Escritos de Jacques Lacan<\/em>, porque \u00e9 da mesma ordem\u201d (1972-73\/1982, p. 103). Como se v\u00ea, recorre-se \u00e0 jacula\u00e7\u00e3o como um dos pilares da interpreta\u00e7\u00e3o porque, enquanto escrita, ela \u00e9 um meio que permite interrogar o alcance da operatividade das palavras.<\/p>\n<p>Essa mesma distin\u00e7\u00e3o entre a fala e o dizer reaparece no ano seguinte, em\u00a0<em>Les non-dupes errent<\/em>:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cNotem que eu n\u00e3o disse a fala, eu disse o dizer, nem toda fala \u00e9 um dizer, se assim fosse toda fala seria um acontecimento, o que n\u00e3o \u00e9 o caso, pois, se o fosse,\u00a0<em>falas v\u00e3s<\/em>\u00a0n\u00e3o seriam faladas.\u00a0<em>Um dizer \u00e9 da ordem do acontecimento<\/em>\u201d (LACAN<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/santiago#_edn2\" name=\"_ednref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>\u00a0<em>apud<\/em>\u00a0LAURENT, 2021, p. 184-185, grifo nosso).<\/p>\n<p>Se a quest\u00e3o da interpreta\u00e7\u00e3o est\u00e1 cravada como um pilar da pr\u00e1tica anal\u00edtica, \u00e9 porque, desde o seu in\u00edcio, foi poss\u00edvel interrogar sobre o alcance e a operatividade das palavras. Nesse momento do ensino de Lacan, postula-se a interpreta\u00e7\u00e3o como o instrumento que se distingue das \u201cfalas v\u00e3s\u201d, pois lhe interessa atingir o dizer capaz de confrontar com o imposs\u00edvel de suportar do sintoma, \u00fanica maneira de abrir uma porta ao real.<\/p>\n<p>Portanto, a jacula\u00e7\u00e3o, enquanto um\u00a0<em>dizer<\/em>\u00a0da ordem do acontecimento, emerge como um meio em condi\u00e7\u00f5es de enla\u00e7ar a intepreta\u00e7\u00e3o e o sintoma, concebida como a reitera\u00e7\u00e3o do gozo do\u00a0<em>Um<\/em>\u00a0sobre o corpo. Para que a interpreta\u00e7\u00e3o seja o emprego das palavras no sentido da jacula\u00e7\u00e3o, faz-se necess\u00e1rio ir bem mais longe do que \u00e9 a fun\u00e7\u00e3o da fala, a saber, gerar efeitos de sentido. Ir al\u00e9m dos efeitos de sentido que se localizam na jun\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio com o simb\u00f3lico sup\u00f5e admiti-la como incompat\u00edvel com um dizer esclarecedor, ou tradu\u00e7\u00e3o, obtidos pelo acr\u00e9scimo de um significante dois a um significante um (LAURENT, 2021). Assim, um ano ap\u00f3s essa formula\u00e7\u00e3o da interpreta\u00e7\u00e3o como um dizer da ordem do acontecimento, Lacan, em\u00a0<em>RSI,<\/em>\u00a0se refere expressamente \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o como jacula\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cO que apresentamos como o n\u00f3 borromeano j\u00e1 vai contra a imagem de concatena\u00e7\u00e3o. O discurso em quest\u00e3o n\u00e3o faz cadeia (&#8230;). Desde ent\u00e3o, trata-se de saber se o\u00a0<em>efeito de sentido em seu real<\/em>\u00a0tem a ver com o emprego de palavras ou com sua\u00a0<em>jacula\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0(&#8230;). Acreditava-se que eram palavras que tinham peso. Mas, \u00e0 medida que tivemos o trabalho de isolar a categoria do significante, acabamos vendo que a jacula\u00e7\u00e3o comporta um sentido isol\u00e1vel\u201d (LACAN\u00a0<em>apud<\/em>\u00a0LAURENT, 2021, p. 178, grifo nosso).<\/p>\n<p>Torna-se claro, com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 jacula\u00e7\u00e3o, que o car\u00e1ter propriamente\u00a0<em>a-sem\u00e2ntico\u00a0<\/em>da interpreta\u00e7\u00e3o n\u00e3o implica a simples erradica\u00e7\u00e3o do sentido, mas a necessidade de isol\u00e1-lo como efeito real. A chance de construir a interpreta\u00e7\u00e3o como o que faz n\u00f3 entre o dizer e o acontecimento de corpo implica ir contra o discurso que faz cadeia e que aparece sob o imagin\u00e1rio da concatena\u00e7\u00e3o. Mais adiante, ainda nessa mesma li\u00e7\u00e3o do\u00a0<em>RSI<\/em>, reafirma-se essa vis\u00e3o borromeana da jacula\u00e7\u00e3o como uma forma para se obter o real do efeito de sentido, considerada, portanto, uma via apropriada para proceder o tratamento da disrup\u00e7\u00e3o do gozo.<\/p>\n<p>Laurent (2021) ainda prop\u00f5e que o enodamento entre o dizer e o acontecimento de corpo pr\u00f3prio da jacula\u00e7\u00e3o coincide com o que Miller trabalha como\u00a0<em>vocifera\u00e7\u00e3o,\u00a0<\/em>na \u00faltima li\u00e7\u00e3o de seu curso<em>\u00a0Todo mundo \u00e9 louco<\/em>\u00a0(MILLER, 2015). O ponto de partida dessa conceitua\u00e7\u00e3o da vocifera\u00e7\u00e3o \u00e9 admitir que n\u00e3o h\u00e1 equival\u00eancia entre ela e um enunciado proposicional submetido \u00e0 matriz do bin\u00e1rio \u201cverdadeiro ou falso\u201d. Com efeito, todo enunciado proposicional consiste num fato verdadeiro ou falso e, por consequ\u00eancia, jamais considerado sob o prisma de um ju\u00edzo de valor. No entanto, se a vocifera\u00e7\u00e3o e todo enunciado po\u00e9tico n\u00e3o est\u00e3o subordinados ao crit\u00e9rio do verdadeiro ou do falso, ambos se baseiam no par enunciado e enuncia\u00e7\u00e3o. Para Miller (2015), o que define a vocifera\u00e7\u00e3o \u00e9 que, apesar dessa presen\u00e7a fundamental do enunciado e da enuncia\u00e7\u00e3o, eles se mostram, nesse caso, indivis\u00edveis. \u00c9 exatamente nisso que a jacula\u00e7\u00e3o equivale \u00e0 vocifera\u00e7\u00e3o, ou seja, h\u00e1 nelas a suspens\u00e3o da diferen\u00e7a entre o enunciado e a enuncia\u00e7\u00e3o. Acrescenta-se, ainda, a essa indivisibilidade, o fato que, para vociferar, \u00e9 preciso um corpo, \u00e9 preciso pagar com sua condi\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>falasser.\u00a0<\/em>Isso quer dizer que tanto a vocifera\u00e7\u00e3o quanto a jacula\u00e7\u00e3o implicam o uso da voz que, enquanto objeto\u00a0<em>a<\/em>, deve ser considerada aquilo que mais se aproxima da consist\u00eancia l\u00f3gica do real do gozo. Entre as cinco subst\u00e2ncias epis\u00f3dicas do objeto\u00a0<em>a<\/em>, a voz \u00e9 a que menos se confunde com o semblante oriundo do aparelho do significante. Por estar mais do lado real do que do semblante, o objeto voz na jacula\u00e7\u00e3o \u00e9 abertura \u00e0 escritura e, como tal, \u00e0 impress\u00e3o, rasura e cunhagem das palavras sobre o corpo.<\/p>\n<p><em>N\u00e3o h\u00e1 escuta sem interpreta\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>A vocifera\u00e7\u00e3o apenas constitui-se na vers\u00e3o renovada da jacula\u00e7\u00e3o na medida em que esta orienta a interpreta\u00e7\u00e3o para a vertente da resson\u00e2ncia do significante, dando, assim, abertura ao conceito de equ\u00edvoco. Para a jacula\u00e7\u00e3o, o significante \u00e9 menos o que produz sentido e mais o que se ouve e ressoa como real. Por interm\u00e9dio do objeto voz, a interpreta\u00e7\u00e3o joga com o equ\u00edvoco dos significantes que causam o gozo, e nisso a interpreta\u00e7\u00e3o se apresenta diretamente conectada com a escritura. Apenas a escritura \u00e9 capaz de circunscrever e isolar o\u00a0<em>real do efeito de sentido<\/em>. Por isso, o inconsciente deixa de estar confundido com a revela\u00e7\u00e3o dos cap\u00edtulos censurados e j\u00e1 escritos da hist\u00f3ria do sujeito para se tornar um texto que se l\u00ea e no qual a leitura se equivoca, deixando ouvir efeitos sonoros que permitem esvaziar o sentido. De fato, o texto escrito do inconsciente, com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 linguagem, pode se autonomizar (MILLER, 2021a). A matem\u00e1tica \u00e9 o grande exemplo de um escrito que funciona de maneira aut\u00f4noma.<\/p>\n<p>Para tornar o inconsciente um texto que se l\u00ea, \u00e9 preciso desfazer-se da ideia de que a interpreta\u00e7\u00e3o equivale \u00e0 escuta das significa\u00e7\u00f5es que derivam do que j\u00e1 est\u00e1 escrito. Com a interpreta\u00e7\u00e3o, trata-se especialmente de leitura, e n\u00e3o de escuta. O que se escuta s\u00e3o as significa\u00e7\u00f5es que evocam a compreens\u00e3o, pois o gozo est\u00e1 sempre, nesse caso, implicado (MILLER, 2021a). Com efeito, quando se trata da escuta, parte-se do significado e tenta-se isolar o significante. A leitura \u00e9 outra coisa, pois o significante \u00e9 letra, ou seja, o significante opera como separado da significa\u00e7\u00e3o, e parte-se do significante para eventualmente dar lugar \u00e0s significa\u00e7\u00f5es. Importa, assim, destacar a defasagem entre escuta e leitura. Para passar de uma coisa para outra, \u00e9 preciso passar pela escrita.<\/p>\n<p>Enfim, o uso da palavra apenas se efetiva como interpreta\u00e7\u00e3o com a condi\u00e7\u00e3o de ser uma leitura. A condi\u00e7\u00e3o de exist\u00eancia do inconsciente tamb\u00e9m \u00e9 a leitura e, portanto, nisso ele \u00e9 homog\u00eaneo \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o. Os dois existem enquanto \u201cescritos de palavras\u201d (MILLER, 2021a, p. 29). Assim, tanto a letra \u00e9 para se ler quanto o inconsciente, para o psicanalista, \u00e9 suposto ler. Afinal, a jacula\u00e7\u00e3o \u00e9 a letra que se l\u00ea da leitura que prov\u00e9m do inconsciente, e dela, precisamente, muito pouco se escuta. N\u00e3o h\u00e1 escuta sem interpreta\u00e7\u00e3o, ou seja, a palavra, na experi\u00eancia anal\u00edtica, n\u00e3o \u00e9 sacralizada (MILLER, 2021b). Ao visar o real do efeito de sentido, a jacula\u00e7\u00e3o \u00e9 a letra apof\u00e2ntica que fere o corpo falante mais aqu\u00e9m do verdadeiro e do falso e que n\u00e3o comporta nenhuma demanda, particularmente nenhuma demanda de consentimento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1969-70)\u00a0<strong>O Semin\u00e1rio, livro 17: o avesso da psican\u00e1lise<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1986.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1972-73)\u00a0<strong>O Semin\u00e1rio, livro 20: mais, ainda<\/strong>. Rio de Janeiro: Zahar, 1982.<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9. A interpreta\u00e7\u00e3o: da verdade ao acontecimento.\u00a0<strong>Curinga<\/strong>, Belo Horizonte: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise &#8211; Se\u00e7\u00e3o Minas, n. 50, p. 168-188, 2021.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. Conversation sur les embrouilles du corps.\u00a0<strong>Ornicar?<\/strong>\u00a0Revue du Champ Freudien, Paris: Navarin\/Seuil, n. 50, p.227-291, 2003.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. L\u2019Un est lettre.\u00a0<strong>La Cause du d\u00e9sir<\/strong>, Paris: Navarin, n. 107, 2021a.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. Conversation d\u2019actualit\u00e9 avec l\u2019\u00c9cole espagnole du Champ freudien.\u00a0<strong>La Cause du d\u00e9sir<\/strong>, Paris: Navarin, n. 108, 2021b.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. (2011).\u00a0<strong>L\u2019\u00eatre et l\u2019Un<\/strong>. (In\u00e9dito)<\/h6>\n<h6>MILLER. J.-A.\u00a0<strong>Todo el mundo es loco<\/strong>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2015.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/santiago#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a>\u00a0Texto publicado sem a revis\u00e3o do autor.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/santiago#_ednref2\" name=\"_edn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>\u00a0LACAN, J. Le S\u00e9minaire, livre 21: Les non-dupes errent. 1973-1974 (Texto in\u00e9dito).<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>psican\u00e1lse &#8211; alzheimer &#8211; lacan &#8211; psicanalise &#8211; psychanayse &#8211; corpo &#8211; psicoan\u00e1lisis<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00c9SUS SANTIAGO Psicanalista, membro e AME da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise\/AMP santiago.bhe@terra.com.br Resumo:\u00a0O interesse do texto \u00e9 mostrar que a jacula\u00e7\u00e3o \u00e9 uma vers\u00e3o renovada da interpreta\u00e7\u00e3o na medida que nela o objeto voz se orienta para a vertente da resson\u00e2ncia do significante, dando assim abertura ao equ\u00edvoco. 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