{"id":1861,"date":"2022-03-19T06:41:12","date_gmt":"2022-03-19T09:41:12","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1861"},"modified":"2025-12-01T13:19:56","modified_gmt":"2025-12-01T16:19:56","slug":"do-acontecimento-ao-advento1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2022\/03\/19\/do-acontecimento-ao-advento1\/","title":{"rendered":"DO ACONTECIMENTO AO ADVENTO[1]\u00a0"},"content":{"rendered":"<h6>ESTHELA SOLANO-SU\u00c1REZ<br \/>\nPsicanalista, Analista Membro da Escola, membro da ECF, EOL E NLS\/AMP<br \/>\n<a href=\"mailto:solano-suarez@orange.fr\">solano-suarez@orange.fr<\/a><\/h6>\n<blockquote><p><strong>Resumo:\u00a0<\/strong>A autora descreve em seu texto um antes e um depois de seu encontro com Lacan, na \u00e9poca de seu \u00faltimo ensino, \u201cno momento em que ele deportava a pr\u00e1tica da psican\u00e1lise do Outro em dire\u00e7\u00e3o ao Um, visando o real do sinthoma\u201d. Nesse sentido, sua experiencia de an\u00e1lise com Lacan teve, segundo Esthela Solano, a dimens\u00e3o de um acontecimento. A autora destaca que essa an\u00e1lise lhe permitiu ler, no equ\u00edvoco dos sons, o que escorre em lal\u00edngua, isolando o Um do significante separado do outro.<\/p>\n<p><strong>Palavras chaves<\/strong>:real; sinthoma; acontecimento; lal\u00edngua.<\/p>\n<p><strong>Abstract:\u00a0<\/strong>The author describes us in her text a before and after her encounter with Lacan at the time of his last teaching, \u201cat the moment when he deported the practice of psychoanalysis from the Other towards the One, aiming at the real of the sinthome\u201d. In this sense, her analysis experience with Lacan had, according to Esthela Solano, the dimension of an event. The author emphasizes that this analysis allowed her to read in the misunderstanding of sounds what flows in\u00a0<em>lalangue<\/em>, isolating the One from the signifier separated from the other.<\/p>\n<p><strong>Keywords:\u00a0<\/strong>real; sinthome; event;\u00a0<em>lalangue<\/em>.<\/p><\/blockquote>\n<div id=\"attachment_1862\" style=\"width: 2026px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/esthela-scaled.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"2016\" data-large_image_height=\"2560\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1862\" class=\"wp-image-1862\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/esthela-806x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"549\" height=\"697\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1862\" class=\"wp-caption-text\">Desali, s\/t<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Do acontecimento ao advento<\/strong><\/p>\n<p>V\u00e1rios eventos pontuaram o percurso disso que posso chamar de minha vida, e isso desde meu nascimento. Eles deixaram tra\u00e7os, inclusive tra\u00e7os no corpo, inscrevendo um antes e um depois irrevers\u00edvel. Seu car\u00e1ter de acontecimento s\u00f3 surgiu\u00a0<em>a<\/em><em>\u00a0posteriori<\/em>.<\/p>\n<p>As conting\u00eancias que nos surpreendem aqui e ali escrevem os epis\u00f3dios constitutivos de uma trama da qual fazemos nosso destino.\u00a0Contudo, nem toda conting\u00eancia e nem todo epis\u00f3dio se torna um acontecimento. Ora, os encontros n\u00e3o se sustentam por nada, sen\u00e3o pela conting\u00eancia, e h\u00e1 encontros que fazem acontecimento.<\/p>\n<p>Posso adiantar hoje que houve para mim um primeiro encontro decisivo. Posso dizer primeiro? Com certeza n\u00e3o. Ele j\u00e1 estava inscrito na esteira das consequ\u00eancias de um primeir\u00edssimo, fundamental e esquecido, do qual resultou o sintoma como consequ\u00eancia do impacto de\u00a0<em>lal\u00edngua\u00a0<\/em>sobre o corpo. O sintoma veio assinalar, bem cedo, na inf\u00e2ncia, um modo de ser que me caracterizava: fui uma crian\u00e7a \u201cperdida em seus pensamentos\u201d, a\u00e9rea, mas tamb\u00e9m muito presente, \u00e0 escuta de tudo o que circulava nas reuni\u00f5es familiares nas quais a conversa\u00e7\u00e3o ocupava um lugar importante; os convidados eram numerosos e falantes. Sempre fui interpelada pelas falhas e pela inconsist\u00eancia de suas recomenda\u00e7\u00f5es, falhas que eu atribu\u00eda, sobretudo, \u00e0s mulheres. De vez em quando, se as condi\u00e7\u00f5es eram favor\u00e1veis, eu podia compartilhar minhas reflex\u00f5es \u2014 mas apenas uma pequena parte de minhas inquietudes, pois n\u00e3o lhes dizia tudo \u2014 a meus dois interlocutores preferidos, meu pai e meu av\u00f4 paterno, a quem eu supunha alguma seguran\u00e7a no n\u00edvel do pensamento. Eles ficavam maravilhados e me elogiavam. Eu me sentia t\u00e3o lisonjeada quanto decepcionada, pois esperava uma resposta que colocasse um fim a meus pensamentos.<\/p>\n<p>Os pensamentos giravam em torno, precisamente, do enigma do sexo e da morte. Nessa fam\u00edlia, que foi a minha, os homens n\u00e3o eram cat\u00f3licos, nem praticantes, nem crentes, enquanto as mulheres eram fervorosas. Assim, fui introduzida por minha m\u00e3e, desde o in\u00edcio, \u00e0 cren\u00e7a. Ela me colocou em contato com Deus. A B\u00edblia foi o Livro que estruturou minha rela\u00e7\u00e3o com o Outro e se torna o contexto das del\u00edcias de meus pensamentos. Eu n\u00e3o perdia de vista esse bom e velho Deus pai, embora isso se desse no temor e na compaix\u00e3o. Sua vontade era um problema para mim, no sentido de um desejo que prescrevia os objetivos \u00faltimos do sentido da vida. Eu podia cumprir seus mandamentos, sem nunca ser capaz de me livrar da culpa que sempre se infiltrava sem que eu me desse conta, tanto em meus atos quanto em meus pensamentos. Por que pedia o sacrif\u00edcio? Por que pediu a Abra\u00e3o que sacrificasse seu \u00fanico filho? N\u00e3o era dele que viria uma descend\u00eancia t\u00e3o numerosa quanto as estrelas do c\u00e9u e a areia do mar? E se o anjo n\u00e3o tivesse chegado a tempo de substitu\u00ed-lo pelo carneiro? Por que sacrificou Jesus, seu pr\u00f3prio filho, para nos redimir de uma culpa original j\u00e1 que teria, tendo em vista seu poder divino, podido impedir? Ao mesmo tempo, eu justificava Eva por ter desejado, tentada pela serpente, ter acesso ao discernimento e ter provado a ma\u00e7\u00e3 da \u00e1rvore proibida e desej\u00e1vel ao pre\u00e7o de ser expulsa do Para\u00edso. Do alto de meus cinco anos, o que se seguiu dessa fic\u00e7\u00e3o me desanimou: a culpa, o pecado, a doen\u00e7a e a morte e todos os tormentos da condi\u00e7\u00e3o humana. Eu me encontrava irremediavelmente capturada a\u00ed.<\/p>\n<p>Meu esfor\u00e7o de pensamento, mais precisamente, a imposi\u00e7\u00e3o do pensamento, era minha maneira sintom\u00e1tica de encarar a falha, o erro, a falta inerente \u00e0 rela\u00e7\u00e3o do desejo com o desejo do Outro e de querer preench\u00ea-lo. E, para al\u00e9m do desejo, o que se impunha a mim era algo do imposs\u00edvel de definir, escapando do sentido.\u00a0Miss\u00e3o imposs\u00edvel, portanto, querer pensar o impens\u00e1vel. A falha sempre crescia. Mas, em resumo, eu decidi desde muito cedo me curvar \u00e0 vontade divina, aceitando a sua face de mist\u00e9rio e supondo que, mais tarde, adulta, encontraria as respostas. Entretanto, jurei alimentar a consist\u00eancia do Ideal para agradar a Deus e, por consequ\u00eancia, meus entes queridos. A mortifica\u00e7\u00e3o do corpo caminhou de m\u00e3os dadas com esse programa de santidade cuja ambi\u00e7\u00e3o visava, via anula\u00e7\u00e3o da carne, o corpo glorioso. O dito corpo glorioso, pendente do sonho de eternidade, conjugava a morte e o corpo, reduzindo este \u00e0 sua pura consist\u00eancia imagin\u00e1ria, \u00e0 boa forma, ao saco vazio, esvaziado de gozo da vida. O ideal em jogo \u00e9 apenas uma fic\u00e7\u00e3o. Esta, sendo introduzida pelo simb\u00f3lico no corpo, torna-o servo da inst\u00e2ncia que vigia e julga, enquanto ignora que o corpo glorioso \u00e9 somente o envelope do olhar,\u00a0<em>mais-de-gozar<\/em>\u00a0recuperado do esvaziamento da carne.<\/p>\n<p>Bum! Plaft! O despertar da primavera vem para partir em peda\u00e7o a bela imagem, por irrup\u00e7\u00e3o disso que do corpo \u201cse goza\u201d sozinho, fazendo obje\u00e7\u00e3o \u00e0s fic\u00e7\u00f5es do ideal proveniente do Outro. Esse momento de ruptura trouxe \u00e0 tona uma viol\u00eancia vulc\u00e2nica que j\u00e1 havia irrompido, bem cedo, na minha inf\u00e2ncia. Mas, dessa vez, sua for\u00e7a foi multiplicada pelo encontro efetivo com o amor e com o encontro com um outro corpo sexuado de outro modo. Eu me tornei, assim, Outra de mim mesma. Essa Outra, sendo uma, estava fora do modelo, estilha\u00e7ando o Um da identifica\u00e7\u00e3o ao ideal, evidenciando que o Outro n\u00e3o se adiciona ao Um, que o Outro \u00e9 um a menos. O descolamento do objeto olhar, face oculta da ins\u00edgnia do ideal, roubou o semblante do ser cuja signific\u00e2ncia me serviu de apoio. Sem saber onde\u00a0<em>me e<\/em><em>stou<\/em><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/solano#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a>,\u00a0na afli\u00e7\u00e3o\u00a0de me encontrar\u00a0<em>uma<\/em>,\u00a0e, consequentemente, exilada do significante mestre, fui sugada pelo\u00a0S(\u023a). Sem a seguran\u00e7a de nenhum saber, nem de nenhuma elucubra\u00e7\u00e3o ao alcance de meu pensamento, minha experi\u00eancia me confrontou com a dura prova do Um do conjunto vazio.<\/p>\n<p>Surge, ent\u00e3o, uma interroga\u00e7\u00e3o crescente e relativa ao que eu sentia como sendo da ordem de um furo, um questionamento absoluto no n\u00edvel da exist\u00eancia, tomando forma de descren\u00e7a, descren\u00e7a relativa \u00e0 exist\u00eancia de Deus. Pela intrus\u00e3o do gozo Um, do h\u00e9tero, experimentei, na solid\u00e3o extrema, a inexist\u00eancia do Outro. O Outro, no meu sistema de pensamento, era sustentado pelo Um do pai, confundindo-se com ele. Mas esse semblante maior se empalideceu, mostrando sua insufici\u00eancia diante do real. Eu me vi arrebatada, por sua queda, em uma dor infinita.<\/p>\n<p>Termina aqui o pre\u00e2mbulo necess\u00e1rio para explicar o encontro que foi, para mim, um acontecimento. Tive, nesse momento, a sorte de encontrar e de levar a s\u00e9rio o acontecimento Freud. Esses textos me trouxeram consolo como uma raz\u00e3o, como uma elucida\u00e7\u00e3o. Descobri a dimens\u00e3o do sintoma, do inconsciente, da puls\u00e3o e, assim, do fundo do po\u00e7o de meu abismo, pude me reerguer para demandar uma an\u00e1lise.<\/p>\n<p>Essa an\u00e1lise me salvou. Encontrei meu caminho. Numa boa hora, tendo terminado meus estudos, eu me instalei como analista. Tudo ia bem; o normal do que se chama de sucesso profissional estava ao meu alcance, um consult\u00f3rio que funcionava, um in\u00edcio de carreira docente na universidade, mais um encontro amoroso t\u00e3o marcante quanto importante.<\/p>\n<p>O real bateu \u00e0 minha porta sob os tipos de uma rea\u00e7\u00e3o terap\u00eautica negativa e de uma erotomania, como demonstraram duas de minhas analisantes. As supervis\u00f5es n\u00e3o me ajudaram em nada. Essas duas mulheres me confrontaram numa zona que minha an\u00e1lise havia deixado na sombra. Eu sabia que havia a\u00ed uma sombra espessa, mas n\u00e3o conseguia identific\u00e1-la naquele momento. Minha an\u00e1lise me permitiu elucidar as confus\u00f5es das identifica\u00e7\u00f5es, elaborar um certo saber no enquadre da l\u00f3gica edipiana e confirmar a singularidade de minha maneira de ser mulher, constru\u00edda contra o modelo materno. A elabora\u00e7\u00e3o de saber recobria e consolidava a consist\u00eancia imagin\u00e1ria do corpo colocando uma tela sobre o real fora de sentido do gozo. O simb\u00f3lico recobria o imagin\u00e1rio e o real deixando, ent\u00e3o, na sombra, a triplicidade do Um.<\/p>\n<p>Sobre isso, um milagre se produziu por acaso. Encontrei um texto de Althusser que me abriu a porta em dire\u00e7\u00e3o a Lacan.\u00a0Lendo, em seguida, \u201cFun\u00e7\u00e3o e campo da palavra e da linguagem em psican\u00e1lise\u201d, imp\u00f4s-se para mim a evid\u00eancia de um \u201c\u00c9 isso!\u201d: a psican\u00e1lise era exatamente isso, e n\u00e3o outra coisa. Pouco tempo depois caiu em minhas m\u00e3os um texto de Jacques-Alain Miller, \u201cA sutura (elementos da l\u00f3gica do significante)\u201d, que me pareceu brilhante. Esse foi o momento de concluir e a decis\u00e3o estava tomada: ir a Paris para me formar.<\/p>\n<p>Parece-me t\u00e3o inacredit\u00e1vel como surpreendente ter encontrado Lacan e ter tido a sorte de fazer uma an\u00e1lise com ele. Quando me recebeu, ele tinha acabado de voltar de sua viagem aos EUA e iniciava o\u00a0<em>Semin\u00e1rio XXIII: o sinthoma<\/em>. Encontrei Lacan no momento em que ele deportava a pr\u00e1tica da psican\u00e1lise do Outro em dire\u00e7\u00e3o ao Um, visando o real do sinthoma.<\/p>\n<p>O come\u00e7o de minha an\u00e1lise foi incontestavelmente\u00a0<em>troumatique<\/em>, pois ele furou em ato o que eu acreditava ser a pr\u00e1tica anal\u00edtica fundada sobre a associa\u00e7\u00e3o livre. Ele procedia de modo a cortar o la\u00e7o dos significantes entre si, a contrariar o relato dos sonhos, das lembran\u00e7as das elabora\u00e7\u00f5es, enfim, das elucubra\u00e7\u00f5es articuladas. Ele fazia obje\u00e7\u00e3o \u00e0 ordem simb\u00f3lica, a saber, ao que numa frase articula um sujeito, um verbo e um complemento, sustentando a inten\u00e7\u00e3o de significa\u00e7\u00e3o. Ele quebrava a unidade da frase de maneira implac\u00e1vel, produzindo um efeito de furo no sentido. A sess\u00e3o anal\u00edtica se reduzia a um n\u00facleo, isolando na pressa a fugacidade de um equ\u00edvoco significante. Ele recuperava em ato o trauma inicial.<\/p>\n<p>Foi preciso um certo tempo, um tempo duro que p\u00f4s \u00e0 prova minha demanda, para que eu pudesse ouvir outra coisa no que havia dito, com inten\u00e7\u00e3o de dizer. Mas, a partir desse momento, eu aprendi a ler, a ler n\u00e3o o que se relaciona com significa\u00e7\u00f5es e confus\u00f5es do sentido, mas a ler no equ\u00edvoco dos sons o que\u00a0surge e escorre em\u00a0<em>lal\u00edngua<\/em>, isolando o Um do significante recortado de outro.<\/p>\n<p>Assim, fui arrancada da ordem simb\u00f3lica e deportada \u00e0\u00a0<em>lal\u00edngua<\/em>, isto \u00e9, ao lugar onde os tra\u00e7os fora de sentido deixaram marcas no corpo como letras de gozo, letras que\u00a0<em>ex-sistem<\/em>\u00a0ao dito. Assim, experimentei o que, naquilo que se diz,\u00a0cessa de se escrever, daquilo que cessa no n\u00edvel de afeta\u00e7\u00e3o do corpo, daquilo que cessa de doer, sob a condi\u00e7\u00e3o de que as palavras n\u00e3o tenham mais sentido.<\/p>\n<p>Ter sido\u00a0descolada do sentido desde o in\u00edcio me possibilitou parar de buscar uma sa\u00edda do lado do ser, abrindo uma via do lado da\u00a0<em>ex-sist\u00eancia<\/em>. Na verdade, o sintoma me for\u00e7ou a pensar o impens\u00e1vel e, por isso, a articula\u00e7\u00e3o significante foi convocada sem cessar, assim como a suposi\u00e7\u00e3o de um saber que eu ia poder desenterrar de uma vez, para recobrir com suas miragens n\u00e3o a falta, mas o furo. No fundo, o sintoma e seu uso de gozo eram apenas a busca desesperada por um \u201c<em>je panse<\/em>\u201d<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/solano#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a>, a fim de recobrir com as miragens do ser o real fora de sentido, a saber, o imposs\u00edvel. O sintoma n\u00e3o cessa de se escrever no lugar do que n\u00e3o cessa de n\u00e3o se escrever, no lugar da imposs\u00edvel escrita da rela\u00e7\u00e3o sexual que n\u00e3o h\u00e1.<\/p>\n<p>Perfurando o sentido, Lacan esvaziou o \u201c<em>je panse<\/em>\u201d colocando em evid\u00eancia, assim, a solidariedade do ser de pensamento com a suposta harmonia da imagem unificante do corpo, enodado aos ideais, terreno de predile\u00e7\u00e3o onde reina o verdadeiro e o belo. A verdade mentirosa sendo desnudada, essas amarra\u00e7\u00f5es se dissiparam levando embora os atributos e os predicados do ser, estes sendo apenas o v\u00e9u recobrindo a inexist\u00eancia de \u023a mulher. Uma mulher tem apenas um semblante de ser, ali onde ela \u00e9 causa de desejo para um homem no lugar do objeto\u00a0<em>a<\/em>. Se o homem copula em sua fantasia com o objeto\u00a0<em>a<\/em>\u00a0e se ela se presta no\u00a0<em>parecer-ser<\/em>, isso n\u00e3o deixa de implicar para um efeito de queda, em vez do vazio.\u00a0A menos\u00a0que o<em>\u00a0pare-ser<\/em>\u00a0se conjugue ao\u00a0<em>a-muro<\/em>, ent\u00e3o o acontecimento amoroso faz supl\u00eancia na rela\u00e7\u00e3o sexual. Assim, fui capaz de identificar a dor que me acompanhava desde o tempo do esquecimento como sendo o afeto vindo do imposs\u00edvel, isto \u00e9, o real.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida aqui da exist\u00eancia de uma dor, como eu tinha acreditado erroneamente no passado. Trata-se, acima de tudo, da dor de uma inexist\u00eancia, aquilo que est\u00e1 inscrito do lado das f\u00f3rmulas de sexua\u00e7\u00e3o, do lado mulher, como nega\u00e7\u00e3o de uma exist\u00eancia. Do lado feminino n\u00e3o existe um x que vem negar a fun\u00e7\u00e3o \u03a6x e, consequentemente, o gozo n\u00e3o \u00e9 todo submetido \u00e0 lei da negativa\u00e7\u00e3o imposta pela linguagem como castra\u00e7\u00e3o. Uma parte do gozo de uma mulher da\u00ed escapa, n\u00e3o sendo todo submetido \u00e0 fun\u00e7\u00e3o f\u00e1lica. Ele oculta, diante da l\u00f3gica edipiana, fora do Um que, sendo exce\u00e7\u00e3o, tra\u00e7a o entorno do Todo do universal f\u00e1lico. Ele \u00e9 consequ\u00eancia louca, enigm\u00e1tica, fora de sentido.<\/p>\n<p>O sintoma se constitui como uma resposta, como uma solu\u00e7\u00e3o, como um operador de consist\u00eancia visando a inclus\u00e3o da parte do n\u00e3o-toda, a saber, real, na l\u00f3gica f\u00e1lica. Sua visada imposs\u00edvel se impunha como sendo da ordem de uma for\u00e7a (<em>Zwang<\/em>) impondo uma vontade de anula\u00e7\u00e3o do gozo n\u00e3o-todo, a fim de submet\u00ea-lo, todo, \u00e0 castra\u00e7\u00e3o. Eu era uma fervorosa do\u00a0<em>Aufhebung<\/em>, da anula\u00e7\u00e3o operada pelo significante, me perdendo em seus labirintos. Mas a peculiaridade de\u00a0<em>l(a)pens\u00e9e<\/em>, do gozo sentido do (<em>a<\/em>) pensamento, \u00e9 que ele anda em c\u00edrculos, gira em torno do furo e essa rodagem em v\u00e3o aumenta, n\u00e3o o efeito de falta, mas o efeito de furo. A outra face do (<em>a<\/em>)pensamento, ent\u00e3o, como efeito de furo, me aspirava para o infinito, transportando o corpo para fora de si, um lugar de pura falta, um lugar de parte alguma. Nesse furo falhou a ilus\u00e3o de encontrar, via falo, uma solu\u00e7\u00e3o pelo universal.<\/p>\n<p>A opera\u00e7\u00e3o de Lacan consistiu em opor uma recusa categ\u00f3rica \u00e0 estrat\u00e9gia neur\u00f3tica. Pouco fasc\u00ednio, ruptura dos semblantes, desarticula\u00e7\u00e3o do Um unificador, parada categ\u00f3rica do\u00a0<em>bl\u00e1-bl\u00e1-bl\u00e1<\/em>. \u00c9 por uma redu\u00e7\u00e3o do gozo f\u00e1lico que a an\u00e1lise operou, fazendo cessarem, assim, as confus\u00f5es do sentido. Isso s\u00f3 foi poss\u00edvel drenando a via do verdadeiro para abrir aquela do real.<\/p>\n<p>Qual foi o acontecimento ent\u00e3o? Aquele do advento de uma mulher, resultado do consentimento\u00a0dos pontos de imposs\u00edvel localiza\u00e7\u00e3o. Esse consentimento acabou parando a dor e promovendo uma satisfa\u00e7\u00e3o in\u00e9dita.<\/p>\n<p>Hoje \u00e9 poss\u00edvel considerar que essa satisfa\u00e7\u00e3o tenha vindo como consequ\u00eancia da opera\u00e7\u00e3o de Lacan, esvaziando o campo da linguagem das significa\u00e7\u00f5es para manejar a letra fora de sentido. Esvaziando o sintoma das miragens do ser, sua opera\u00e7\u00e3o visava estreitar o real do sintoma, cujo gozo irredut\u00edvel \u00e9 fora de sentido e sem lei.<\/p>\n<p>E nisso fui capaz de assumir o que, na diferen\u00e7a radical \u00a0enquanto uma, se singulariza como\u00a0<em>sinthoma ela<\/em>\u00a0(\u201c<em>sinthome elle<\/em>\u201d).<\/p>\n<p>\u00c9 esse o acontecimento que se produziu como consequ\u00eancia de meu encontro com Lacan.<\/p>\n<h6><strong><br \/>\nTradu\u00e7\u00e3o:\u00a0<\/strong>Let\u00edcia Mello<br \/>\n<strong>Revis\u00e3o:<\/strong>\u00a0Renata Mendon\u00e7a<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/solano#_ednref1\" name=\"_edn1\"><\/a><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/solano#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a>\u00a0Texto originalmente publicado na\u00a0<strong>Revue La cause du d\u00e9sir<\/strong>, n. 100, 2018.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/solano#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a>\u00a0N.T.: No texto original,\u00a0<strong>me m\u2019\u00eatre\u00a0\u00e9 hom\u00f3fono com me mettre<\/strong>, que se traduz como me colocar.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/solano#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a>\u00a0N.T.: \u201cJe panse\u201d ou \u201ceu curo\u201d que tamb\u00e9m \u00e9 hom\u00f3fono a \u201c<strong>je pense<\/strong>\u201d \u2013 \u201ceu penso\u201d.<\/h6>\n<h6>psican\u00e1lse &#8211; alzheimer &#8211; lacan &#8211; psicanalise &#8211; psychanayse &#8211; corpo &#8211; psicoan\u00e1lisis<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ESTHELA SOLANO-SU\u00c1REZ Psicanalista, Analista Membro da Escola, membro da ECF, EOL E NLS\/AMP solano-suarez@orange.fr Resumo:\u00a0A autora descreve em seu texto um antes e um depois de seu encontro com Lacan, na \u00e9poca de seu \u00faltimo ensino, \u201cno momento em que ele deportava a pr\u00e1tica da psican\u00e1lise do Outro em dire\u00e7\u00e3o ao Um, visando o real&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57877,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[24],"tags":[],"class_list":["post-1861","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-28","category-24","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1861","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1861"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1861\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57878,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1861\/revisions\/57878"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57877"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1861"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1861"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1861"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}