{"id":1881,"date":"2022-07-19T06:41:42","date_gmt":"2022-07-19T09:41:42","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1881"},"modified":"2025-12-01T13:02:14","modified_gmt":"2025-12-01T16:02:14","slug":"corpos-anorexicos-e-o-avesso-da-biopolitica1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2022\/07\/19\/corpos-anorexicos-e-o-avesso-da-biopolitica1\/","title":{"rendered":"CORPOS ANOR\u00c9XICOS E O AVESSO DA BIOPOL\u00cdTICA[1]\u00a0"},"content":{"rendered":"<h6>HENRIQUE OSWALDO GAMA TORRES<br \/>\nProfessor Aposentado do Departamento de Cl\u00ednica M\u00e9dica da Faculdade de Medicina da UFMG,<br \/>\nCoordenador Cl\u00ednico do N\u00facleo de Investiga\u00e7\u00e3o em Anorexia e Bulimia (NIAB\/HC\/UFMG)<br \/>\ne participante da Coordena\u00e7\u00e3o do N\u00facleo de Investiga\u00e7\u00e3o e Pesquisa em Psican\u00e1lise e Medicina (NIPM\/IPSM-MG)<br \/>\n<span id=\"cloak0d2b02a561d54a69377c1fa81a485872\"><a href=\"mailto:henrique.gamatorres@gmail.com\">henrique.gamatorres@gmail.com<\/a><\/span><\/h6>\n<h6>ANA MARIA COSTA DA SILVA LOPES<br \/>\nPsicanalista praticante, Membro aderente da Se\u00e7\u00e3o Minas da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise.<br \/>\nProfessora Adjunta do Departamento de Pediatria da UFMG. Coordenadora T\u00e9cnica do N\u00facleo de Investiga\u00e7\u00e3o em Anorexia e Bulimia (NIAB\/HC\/UFMG)<br \/>\ne participante da Coordena\u00e7\u00e3o do N\u00facleo de Investiga\u00e7\u00e3o e Pesquisa em Psican\u00e1lise e Medicina (NIPM\/IPSM-MG).<br \/>\n<strong>Resumo:\u00a0<\/strong>O presente artigo articula a anorexia e o avesso da biopol\u00edtica, da l\u00f3gica cartesiana, dos protocolos universais. Investiga-se o para al\u00e9m da medicina baseada em evid\u00eancias, que padroniza e normatiza protocolos. N\u00e3o se prop\u00f5e o avesso dos avan\u00e7os proped\u00eauticos e terap\u00eauticos, mas a aposta de que o corpo escapa \u00e0s identifica\u00e7\u00f5es prontas, pois o gozo transborda, o sintoma que faz sofrer \u201ctraumatiza\u201d. A aposta no singular da inven\u00e7\u00e3o sintom\u00e1tica, ao fazer vacilar a cl\u00ednica m\u00e9dica, a psiquiatria, entre outros saberes, permite que o sujeito anor\u00e9xico apresente o corpo marcado para al\u00e9m do puro organismo, corpos afetados pela linguagem. Investiga-se a rela\u00e7\u00e3o de cada falasser com seu inconsciente e suas respostas \u00e0 biopol\u00edtica de nossos tempos.<\/h6>\n<blockquote><p><strong>Palavras-chave:<\/strong>\u00a0anorexia; biopol\u00edtica; avesso da biopol\u00edtica; medicina; psican\u00e1lise.<\/p>\n<p><strong>Anorectic bodies and the reverse of biopolitics<\/strong><\/p>\n<p><strong>Abstract:\u00a0<\/strong>This article articulates anorexia and the reverse of biopolitics, of Cartesian logic, and universal protocols. We investigate beyond evidence-based medicine, which standardizes and regulates protocols. We do not propose the opposite of propaedeutic and therapeutic advances, but we believe that the body escapes from predetermined identifications, because jouissance overflows, the symptom that causes suffering, \u201ctraumatizes\u201d. The bet on the singular of the symptomatic invention by making the medical clinic, psychiatry, among other knowledges falter, allows the anorexic subject to present the body marked by something beyond the pure organism, bodies affected by language. We investigate the relationship of each speaking being with their unconscious and their responses to the biopolitics of our time.<\/p>\n<p><strong>Keywords:<\/strong>\u00a0anorexia; biopolitics; the reverse of biopolitics; medicine; psychoanalysis.<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_1882\" style=\"width: 1290px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Srgio_Laia_Imagem_Nelson_de_Almeida-1.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"1280\" data-large_image_height=\"853\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1882\" class=\"wp-image-1882\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Srgio_Laia_Imagem_Nelson_de_Almeida-1-1024x682.jpg\" alt=\"\" width=\"586\" height=\"390\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1882\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Nelson de Almeida<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Pensar a cl\u00ednica da anorexia e o avesso da biopol\u00edtica coloca, aqui, um ponto de investiga\u00e7\u00e3o para al\u00e9m da medicina baseada em evid\u00eancias, que nomeia e torna universais as respostas sintom\u00e1ticas do corpo, normatizadas e padronizadas por protocolos de tratamento. A condu\u00e7\u00e3o cl\u00ednica de cada caso, orientada pela psican\u00e1lise lacaniana, aposta no singular da inven\u00e7\u00e3o sintom\u00e1tica ao fazer vacilar a cl\u00ednica m\u00e9dica, a psiquiatria, entre outros saberes.<\/p>\n<p>O sujeito anor\u00e9xico nos demonstra a exist\u00eancia do corpo marcado para al\u00e9m do puro organismo, do corpo afetado pela linguagem. Ent\u00e3o, a condu\u00e7\u00e3o cl\u00ednica orientada pelo falasser e pelo avesso da biopol\u00edtica exige que o sintoma passe a ser definido a partir da singularidade do gozo do corpo. \u00c9 necess\u00e1rio desconstruir o saber universal que possibilita a identifica\u00e7\u00e3o em torno do \u201csou anor\u00e9xica\u201d para investigar a rela\u00e7\u00e3o de cada falasser com seu inconsciente. A biopol\u00edtica reduz o corpo \u00e0 l\u00f3gica cartesiana, a algoritmos que definem tratamentos universais.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata, aqui, de propor o avesso dos avan\u00e7os proped\u00eauticos e terap\u00eauticos, mas de fazer a aposta de que o corpo n\u00e3o \u00e9 redut\u00edvel \u00e0 imagem, aos transtornos, \u00e0s disfuncionalidades. O que se visa demonstrar \u00e9 para al\u00e9m do discurso universal: anor\u00e9xicas, \u00e9 poss\u00edvel a aposta no discurso psicanal\u00edtico diante das exig\u00eancias intervencionistas, sem desconsiderar a gravidade de cada caso, mas dando lugar ao singular que cada sujeito inscreve nas marcas do corpo.<\/p>\n<p>Nessa perspectiva, um dos eixos do nosso trabalho \u00e9 interrogar sobre quais seriam as respostas do falasser \u00e0 biopol\u00edtica de nossos tempos. A t\u00edtulo de ilustra\u00e7\u00e3o, duas situa\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas desses impasses s\u00e3o demonstrativas. Uma senhora com 20 anos de anorexia foi internada sob crise de hipoglicemia, extremamente desnutrida. A principal preocupa\u00e7\u00e3o da equipe m\u00e9dica era alcan\u00e7ar um determinado \u00cdndice de Massa Corporal (IMC), mesmo \u00e0 custa de uma alimenta\u00e7\u00e3o for\u00e7ada e interna\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria, para, ap\u00f3s o \u00eaxito em atingir os n\u00edveis de seguran\u00e7a demonstrado pelas evid\u00eancias cient\u00edficas, consentir com a alta. O argumento principal seria que o negativismo, a recusa e a agressividade como consequ\u00eancia da desnutri\u00e7\u00e3o devessem ser tratados por meio de recupera\u00e7\u00e3o nutricional e refor\u00e7o positivo. A hist\u00f3ria cl\u00ednica e o desencadeamento pouco importam. Trata-se de uma anorexia pura e pronto.<\/p>\n<p>O outro caso \u00e9 de uma jovem de 14 anos que, ap\u00f3s se recuperar de uma desnutri\u00e7\u00e3o grave, al\u00e9m do inc\u00f4modo com o corpo recuperado, manifestava tamb\u00e9m uma nostalgia do corpo magro e de outros atributos que associava a ele: a mais magra das amigas, a mais bonita, a que tirava melhores notas. A perda do corpo magro lhe dava uma sensa\u00e7\u00e3o de intensa mediocridade e de uma perda no n\u00edvel do ser. Nesse sentido, verifica-se a inefic\u00e1cia na tentativa de reduzir o acontecimento anor\u00e9xico \u00e0s classifica\u00e7\u00f5es, categorias e protocolos. O inconsciente \u2014 \u201csensa\u00e7\u00e3o de intensa mediocridade e de uma perda do n\u00edvel do ser\u201d \u2014 aponta para a import\u00e2ncia da subjetiva\u00e7\u00e3o do sofrimento.<\/p>\n<p>A biopol\u00edtica diz respeito \u00e0 medicina na medida em que inclui as evid\u00eancias cient\u00edficas nos dispositivos utilizados na gest\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o, quando, segundo Foucault, o poder soberano sobre a vida e a morte dos s\u00faditos foi substitu\u00eddo, historicamente, pela incorpora\u00e7\u00e3o da vida, no sentido biol\u00f3gico mesmo, nas considera\u00e7\u00f5es pol\u00edticas dos estados e dos governantes. A partir do s\u00e9culo XVIII, passa a se racionalizarem os problemas colocados \u00e0 pr\u00e1tica governamental por fen\u00f4menos caracter\u00edsticos de um conjunto de seres vivos que formam uma popula\u00e7\u00e3o: sa\u00fade, higiene, natalidade, expectativa de vida, ra\u00e7a, entre outros, cuja import\u00e2ncia cresce progressivamente desde o s\u00e9culo XIX e suscitam importantes quest\u00f5es pol\u00edticas e econ\u00f4micas at\u00e9 o presente (EWALD; FONTANA; SENELLART, 2004).<\/p>\n<p>A import\u00e2ncia dessa quest\u00e3o n\u00e3o se d\u00e1 apenas pela racionalidade administrativa que ela enseja, mas por sua face menos vis\u00edvel, a da associa\u00e7\u00e3o a tecnologias de poder, de cunho disciplinar, que passam a regular a vida no sentido de uma adequa\u00e7\u00e3o dos corpos aos imperativos da vida pol\u00edtica e socioecon\u00f4mica. Qual \u00e9 o sentido ent\u00e3o de se discutir a anorexia nervosa no contexto da biopol\u00edtica? Provavelmente pelo fato de que a anorexia, no seu enfrentamento aparentemente irracional dos pressupostos da sa\u00fade e da preserva\u00e7\u00e3o do corpo biol\u00f3gico, desafia a racionalidade fundadora da biopol\u00edtica. Nesse sentido, o papel da medicina tem sido o de um disciplinador feroz dos corpos anor\u00e9xicos.<\/p>\n<p>Nesse sentido, torna-se essencial uma breve retrospectiva hist\u00f3rica, em que se pode observar certo paralelismo entre a hist\u00f3ria da anorexia e a da biopol\u00edtica. De in\u00edcio, antes da defini\u00e7\u00e3o da anorexia como entidade nosol\u00f3gica, temos o hist\u00f3rico da anorexia santa, com as descri\u00e7\u00f5es de casos tais como o de Catarina de Siena, na segunda metade do s\u00e9culo XIV. Estudos sobre as santas anor\u00e9xicas indicam diferen\u00e7as entre aquela anorexia e a anorexia moderna, destacando a aus\u00eancia de quest\u00f5es com a imagem corporal nas primeiras, em quem a recusa alimentar encontrava-se atrelada a valores de pureza religiosa e proximidade de Deus. N\u00e3o deixa de destacar, entretanto, principalmente no caso de Catarina de Siena, a condi\u00e7\u00e3o feminina ou a afirma\u00e7\u00e3o feminina diante da estrutura masculina e patriarcal da igreja cat\u00f3lica da \u00e9poca, que n\u00e3o deixa de ter algo de uma confronta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, mas n\u00e3o necessariamente ligada \u00e0 biopol\u00edtica. Destacam-se os casos em que anor\u00e9xicas foram submetidas a acusa\u00e7\u00f5es e julgamentos por heresia e bruxaria, confrontadas com profundo ceticismo pela hierarquia clerical masculina (BELL, 1985).<\/p>\n<p>A primeira descri\u00e7\u00e3o de um caso de anorexia nervosa ser\u00e1 realizada por Robert Morton, em 1686, que destaca a recusa de alimento e tratamentos a uma jovem de 20 anos e expressa sua perplexidade com a escolha pela inani\u00e7\u00e3o, dando origem \u00e0s considera\u00e7\u00f5es sobre o car\u00e1ter emocional ou ps\u00edquico da condi\u00e7\u00e3o. Destaca-se que coincide com a \u00e9poca da origem hist\u00f3rica da biopol\u00edtica. Relatos esparsos sobre anorexia ocorrem ao longo do s\u00e9culo XVIII, mas o reconhecimento espec\u00edfico e a nomenclatura tiveram de aguardar os relatos independentes de William W. Gull, em 1868, e Lassegue, em 1874. Ambos destacam a poss\u00edvel g\u00eanese ps\u00edquica da anorexia e Lassegue faz uma descri\u00e7\u00e3o cl\u00ednica muito rica, destacando o car\u00e1ter egossint\u00f4nico, a rigidez anor\u00e9xica, a perplexidade e a impot\u00eancia da fam\u00edlia. Momento que corresponde \u00e0 ascens\u00e3o da vida burguesa, com todo o seu aparato de costumes e com a posi\u00e7\u00e3o da mulher, que deve ser contida, casta e virtuosa (BELL, 1985).<\/p>\n<p>O emprego do diagn\u00f3stico de anorexia mental por Charcot acaba por consolidar a anorexia nervosa (ou mental, ou hist\u00e9rica) como categoria, e a apresenta\u00e7\u00e3o de Pierre Janet, em 1906, em Harvard, consolida as bases para a defini\u00e7\u00e3o de uma etiologia ps\u00edquica para a anorexia nervosa. Entretanto, pouco tempo depois da palestra de Janet, em 1914, a publica\u00e7\u00e3o de Simmonds acerca dos achados de necr\u00f3psias com les\u00f5es destrutivas da hip\u00f3fise em gr\u00e1vidas gravemente desnutridas desloca completamente a avalia\u00e7\u00e3o etiol\u00f3gica para o campo da doen\u00e7a som\u00e1tica, e os achados psicol\u00f3gicos isolados por Gull e Lassegue passam a ser ignorados pelos pr\u00f3ximos vinte anos. Dessa forma, a abordagem da desnutri\u00e7\u00e3o extrema, mesmo aquela claramente autoinflingida, foi, nesse per\u00edodo, abordada como uma condi\u00e7\u00e3o endocrinol\u00f3gica. Mesmo ap\u00f3s a distin\u00e7\u00e3o entre os achados de Simmonds e a anorexia ser finalmente alcan\u00e7ada no fim dos anos 1930, abordagens som\u00e1ticas passaram a ser proeminentes nas tentativas de tratamento da desnutri\u00e7\u00e3o autoinflingida (BELL, 1985).<\/p>\n<p>Os anos 60 trazem o importante marco de Hilde Bruch, que retoma os aspectos ps\u00edquicos da anor\u00e9xica mas destaca a \u201canorexia pura\u201d, diferente da anorexia associada a outras condi\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas e considerada pouco perme\u00e1vel \u00e0s t\u00e9cnicas psicanal\u00edticas de escuta e interpreta\u00e7\u00e3o tradicionais. Em trabalho inaugural, que se torna refer\u00eancia importante, destaca-se o aspecto da recusa e aponta a mudan\u00e7a de comportamento da jovem anor\u00e9xica que, de crian\u00e7a boa e cordata, transformava- se em uma crian\u00e7a negativista, raivosa e desconfiada, que rejeitava ajuda e cuidado de forma obstinada, alegando deles n\u00e3o necessitar, e insistindo no direito de ser t\u00e3o magra quanto quisesse. Contudo, destaca o papel fundamental da fala como elemento da cura da anorexia (BRUCH, 1982).<\/p>\n<p>Mais recentemente, o p\u00eandulo pende novamente para uma etiologia biol\u00f3gica da anorexia nervosa. Essa disposi\u00e7\u00e3o pode ser observada na mudan\u00e7a ocorrida no DSM-IV para o DSM-5, em que a palavra recusa (recusa em manter o peso corporal igual ou acima do peso minimamente normal para a idade e estatura, crit\u00e9rio letra A), presente no DSM-IV, foi retirada de forma deliberada do DSM-5. O argumento principal foi de que a recusa implica um processo psicol\u00f3gico ativo e consciente, frequentemente n\u00e3o observ\u00e1vel nesses pacientes, e que o modelo psicol\u00f3gico inicial \u00e9 aquele de pacientes que se engajam em dietas com o objetivo de perder peso, sem necessariamente buscar uma perda que levaria \u00e0 condi\u00e7\u00e3o anor\u00e9xica. A manuten\u00e7\u00e3o ativa da perda de peso promovida pelo jejum ocorreria naqueles casos em que se dispara o mecanismo biol\u00f3gico hipot\u00e9tico presente nos predispostos, ligado \u00e0 defici\u00eancia gen\u00e9tica de uma enzima do metabolismo lip\u00eddico. Os propositores da retirada da palavra \u201crecusa\u201d afirmam que a interpreta\u00e7\u00e3o da forma usual de perder peso como um processo intencional e deliberado tem influenciado excessivamente a forma de pensar sobre o paciente portador de anorexia (DSM-5, 2014).<\/p>\n<p>Chegamos ent\u00e3o \u00e0 atualidade, em que a abordagem m\u00e9dico-psiqui\u00e1trica da anorexia se radicaliza no sentido da afirma\u00e7\u00e3o de sua origem geneticamente determinada a partir dos estudos GWAS (G<em>enome-wide association studies<\/em>). Paralelamente, as jovens anor\u00e9xicas e bul\u00edmicas v\u00e3o se organizando em comunidades virtuais, autodenominadas como \u201cAnas\u201d e \u201cMias\u201d, respectivamente. As comunidades virtuais procuram preservar a identidade anor\u00e9xica, ainda que \u00e0 custa de dispositivos medicamente justificados.<\/p>\n<p>Composto por uma s\u00e9rie de refer\u00eancias cruzadas e sites em constante mudan\u00e7a, o movimento \u00e9 entendido como de defesa da anorexia e outras pr\u00e1ticas semelhantes relacionadas \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o e como um estilo de vida e escolha de identidade leg\u00edtimos. Indiv\u00edduos \u2014 principalmente mulheres \u2014 participam do movimento, em grande parte de forma an\u00f4nima e por pseud\u00f4nimos, compartilhando dicas e truques para perda de peso, dietas, exerc\u00edcios e materiais de \u201c<em>thinspiration\u201d<\/em>\u00a0(destinados a promover ou sustentar a perda de peso) on-line, com blogs pessoais, poesia, salas de bate-papo e, mais recentemente, postagens no YouTube e Facebook expandindo sua troca virtual. Trata-se de vozes inaceit\u00e1veis nos discursos\u00a0<em>mainstream<\/em>\u00a0sobre anorexia, e essa troca virtual \u00e9 censurada n\u00e3o s\u00f3 pelo seu conte\u00fado perigoso, mas tamb\u00e9m pelo seu potencial de contamina\u00e7\u00e3o. Se h\u00e1 uma grande discuss\u00e3o na literatura sobre tratamentos coercitivos e compuls\u00f3rios da anorexia, a forma\u00e7\u00e3o dessas comunidades constitui uma resist\u00eancia ao discurso m\u00e9dico normativo sobre o corpo e sobre a anorexia (BELL, 2009).<\/p>\n<p>Aqui, um desafio se coloca na condu\u00e7\u00e3o do tratamento psicanal\u00edtico, que \u00e9 a aposta em sa\u00eddas que n\u00e3o sejam pela identifica\u00e7\u00e3o, tal como as comunidades de gozo e os novos e crescentes modos de segrega\u00e7\u00e3o. Ser\u00e1 o desejo decidido do analista, acolhendo esses sujeitos, suportando a repeti\u00e7\u00e3o mon\u00f3tona do tema em torno do alimento, do peso, das pr\u00e1ticas purgativas que, via transfer\u00eancia, possibilita o tratamento, que visar\u00e1 dar lugar a uma nova subjetiva\u00e7\u00e3o do sofrimento.<\/p>\n<p>Se a posi\u00e7\u00e3o m\u00e9dica normativa e a rea\u00e7\u00e3o das comunidades anor\u00e9xicas autorizam pensar em biopol\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 anorexia, faz-se essencial que se discuta o que foi abordado no texto \u201cO avesso da biopol\u00edtica\u201d, de \u00c9ric Laurent. O psicanalista alerta continuamente que \u00e9 necess\u00e1rio diferenciar sobre qual corpo estamos falando e sobre que discurso se procura consumar na modernidade cient\u00edfica e tecnol\u00f3gica, a identifica\u00e7\u00e3o entre o corpo-m\u00e1quina e o ser falante (LAURENT, 2016).<\/p>\n<p>Se a medicina constr\u00f3i sua pr\u00e1tica (seu saber-poder) no registro do corpo-m\u00e1quina, a essa abstra\u00e7\u00e3o cartesiana parece que, apesar do car\u00e1ter de resist\u00eancia que se encontra na base da forma\u00e7\u00e3o das comunidades anor\u00e9xicas, estas tamb\u00e9m parecem estar submetidas a esse mesmo paradigma quando se utilizam de vers\u00f5es do saber m\u00e9dico para disseminar suas pr\u00e1ticas e moldar seus corpos. O movimento pr\u00f3-anorexia est\u00e1 inextricavelmente ligado \u00e0 l\u00f3gica m\u00e9dica e n\u00e3o escapa da sua autoridade ao tentar ressignificar sua for\u00e7a disciplinar.<\/p>\n<p>O discurso m\u00e9dico dominante \u00e9 central para a identidade \u201cAna\u201d \u2014 comunidades de gozo. Os sites diagnosticam anorexias, prescrevem m\u00e9todos para perda de peso ou manuten\u00e7\u00e3o do baixo peso, conforme uma l\u00f3gica do corpo-m\u00e1quina, manipul\u00e1vel conforme o efeito que se deseja. Essa manipula\u00e7\u00e3o toma propor\u00e7\u00f5es \u00e0s vezes dram\u00e1ticas no uso de vomitivos, laxantes, diur\u00e9ticos ou de restri\u00e7\u00e3o alimentar, isolados ou em combina\u00e7\u00e3o, levando pacientes aos limites da toler\u00e2ncia fisiol\u00f3gica, ao fio da navalha entre a vida e a morte. Observa-se uma cren\u00e7a nas tecnologias medicamentosas para a purga\u00e7\u00e3o e a perda de peso e um regozijo com a capacidade de se controlar e manipular a fome e a silhueta, como se a natureza que demanda nutri\u00e7\u00e3o adequada pudesse ser colocada sob controle sem qualquer preju\u00edzo.<\/p>\n<p>Em suma, a aposta de tratar o corpo anor\u00e9xico via o avesso da biopol\u00edtica \u00e9 pela via que nos ensina a psican\u00e1lise, pois o corpo escapa \u00e0s identifica\u00e7\u00f5es prontas, o gozo transborda, o sintoma que faz sofrer, que \u201ctraumatiza\u201d quando acolhido em seu falasser pelo analista, pode permitir que o sujeito escreva, de outro modo, o que se inscreve desse encontro traum\u00e1tico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>BELL, R. M.\u00a0<strong>Holy anorexia<\/strong>. Chicago: The University of Chicago Press, 1985.<\/h6>\n<h6>BELL, M.<strong>\u00a0\u201c@<\/strong>\u00a0the doctor\u00b4s office: pro-anorexia and the medical gaze\u201d.<strong>\u00a0Surveillance &amp; Society, n.6. vol.2, p. 151-162.\u00a0<\/strong>Dispn\u00edvel em:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.surveillance-and-society.org\/\">http:\/\/www.surveillance-and-society.org<\/a>.<\/h6>\n<h6>BRUCH, H. \u201cAnorexia Nervosa: therapy and theory\u201d.\u00a0<strong>The American Journal of Psychiatry<\/strong>. n. 139, v. 12, dez. 1982. Dispon\u00edvel em:\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 https:\/\/ajp.psychiatryonline.org\/doi\/abs\/10.1176\/ajp.139.12.1531<\/h6>\n<h6>EWALD, F.; FONTANA, A.; SENELLART, M. (1978\u201379) The Birth of Biopolitics Lectures at the coll\u00e8ge de france. Paris: Editions du Seuil\/Gallimard, 2004.<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9.\u00a0<strong>O avesso da biopol\u00edtica<\/strong>: uma escrita para o gozo. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2016.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/corpos-anorexicos#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a>\u00a0Texto apresentado no N\u00facleo de Investiga\u00e7\u00e3o e Pesquisa em Psican\u00e1lise e Medicina &#8211; Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica do IPSM-MG, em 06\/05\/2022.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>HENRIQUE OSWALDO GAMA TORRES Professor Aposentado do Departamento de Cl\u00ednica M\u00e9dica da Faculdade de Medicina da UFMG, Coordenador Cl\u00ednico do N\u00facleo de Investiga\u00e7\u00e3o em Anorexia e Bulimia (NIAB\/HC\/UFMG) e participante da Coordena\u00e7\u00e3o do N\u00facleo de Investiga\u00e7\u00e3o e Pesquisa em Psican\u00e1lise e Medicina (NIPM\/IPSM-MG) henrique.gamatorres@gmail.com ANA MARIA COSTA DA SILVA LOPES Psicanalista praticante, Membro aderente da&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57813,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[25],"tags":[],"class_list":["post-1881","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-29","category-25","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1881","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1881"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1881\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57814,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1881\/revisions\/57814"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57813"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1881"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1881"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1881"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}