{"id":1885,"date":"2022-07-19T06:41:42","date_gmt":"2022-07-19T09:41:42","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1885"},"modified":"2025-12-01T13:02:57","modified_gmt":"2025-12-01T16:02:57","slug":"o-corpo-do-clinico-ao-politico1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2022\/07\/19\/o-corpo-do-clinico-ao-politico1\/","title":{"rendered":"O CORPO: DO CL\u00cdNICO AO POL\u00cdTICO[1]\u00a0"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>ELAINE ROCHA MACIEL<br \/>\nPsicanalista, mestre em Educa\u00e7\u00e3o pela UFMG<br \/>\n<a href=\"mailto:elainermaciel@yahoo.com.br\">elainermaciel@yahoo.com.br<\/a><\/h6>\n<p><strong>Resumo:<\/strong>\u00a0A no\u00e7\u00e3o de corpo na psican\u00e1lise passou por redefini\u00e7\u00f5es ao longo da obra de Freud e do ensino de Lacan. Focaremos no \u00faltimo ensino de Lacan, em que o corpo \u00e9 afetado por lal\u00edngua. Um encontro traum\u00e1tico, derivado do choque entre l\u00edngua e corpo, tendo como resultado um acontecimento de corpo e produ\u00e7\u00e3o de efeitos de gozo. Um gozo fora do sentido, que se apresenta enquanto excesso e que deixa marcas no corpo, acontecimentos que s\u00e3o os sintomas. Esses sintomas manifestam-se de diversas maneiras na contemporaneidade. Trata-se de uma dimens\u00e3o cl\u00ednica articulada a uma dimens\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<blockquote><p><strong>Palavras-chave:<\/strong>\u00a0corpo; lal\u00edngua; acontecimento de corpo; sintoma; pol\u00edtica.<\/p>\n<p><strong>The body: from the clinician to the political<\/strong><\/p>\n<p><strong>Abstract:<\/strong>\u00a0The notion of body in psychoanalysis underwent redefinitions throughout Freud&#8217;s work and Lacan&#8217;s teaching. We will focus on Lacan&#8217;s last teaching, in which the body is affected by\u00a0<em>lalangue<\/em>. A traumatic encounter, derived from the clash between language and body, resulting in a body event and producing effects of jouissance. A jouissance outside of meaning, which presents itself as an excess and which leaves marks on the body, events that are the symptoms. These symptoms manifest themselves in different ways in contemporary times. It is a matter of a clinical dimension articulated to a political dimension.<\/p>\n<p><strong>Keywords:<\/strong>\u00a0body;\u00a0<em>lalangue<\/em>; body event; symptom; policy<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Elaine_Maciel.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"853\" data-large_image_height=\"1280\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-1886 alignleft\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Elaine_Maciel-682x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"449\" height=\"674\" \/><\/a>Desde o in\u00edcio da psican\u00e1lise, Freud se dedicou \u00e0 dif\u00edcil rela\u00e7\u00e3o entre o sujeito e o seu corpo, quando do seu encontro com os sintomas corporais presentes na cl\u00ednica da histeria. As convers\u00f5es hist\u00e9ricas se referiam ao recalque, que, num primeiro momento, apoiava-se somente nas representa\u00e7\u00f5es. Posteriormente, Freud percebeu que havia algo para al\u00e9m das representa\u00e7\u00f5es, passando a considerar essas perturba\u00e7\u00f5es conversivas a partir da puls\u00e3o. Tratava-se de um corpo atravessado pelo real. Esse atravessamento indicava uma outra causalidade, referindo-se \u00e0 exist\u00eancia de um corpo libidinal. Quer dizer, n\u00e3o se tratava t\u00e3o somente de que as hist\u00e9ricas endere\u00e7assem sua fala ao Outro para ser decifrada, em busca de uma verdade que o recalque recobria, mas sim de um falar com seu corpo, advindo da marca nesse corpo (MILLER, 2004, p. 51).<\/p>\n<p>Passa-se de uma l\u00f3gica da representa\u00e7\u00e3o para uma l\u00f3gica da puls\u00e3o, fazendo surgir uma outra concep\u00e7\u00e3o de sintoma e uma nova no\u00e7\u00e3o de corpo. Miller (2004), em\u00a0<em>Biologia lacaniana e acontecimento de corpo<\/em>, destaca em Freud uma articula\u00e7\u00e3o entre essas duas l\u00f3gicas: \u201catr\u00e1s das representa\u00e7\u00f5es, h\u00e1 as puls\u00f5es. As puls\u00f5es se exprimem pelas representa\u00e7\u00f5es. \u00c9 a sua maneira de nos apresentar uma conex\u00e3o do significante e do gozo. Em sentido pr\u00f3prio, o recalque recai sobre as representa\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m sobre as puls\u00f5es\u201d (MILLER, 2004, p. 55).<\/p>\n<p>As investiga\u00e7\u00f5es de Freud sobre a sexualidade infantil tamb\u00e9m corroboraram com a ruptura da concep\u00e7\u00e3o restrita de corpo biol\u00f3gico. Ela trouxe \u00e0 tona o corpo pulsional e evidenciou que h\u00e1 algo que escapa ao dom\u00ednio do saber, saber esse inerente ao corpo biol\u00f3gico. Seguindo nas suas constru\u00e7\u00f5es, Freud se deparou com a fragmenta\u00e7\u00e3o do corpo nas psicoses e com os fen\u00f4menos, derivados dessa fragmenta\u00e7\u00e3o, que afetam o corpo. Essas constru\u00e7\u00f5es fundamentaram a sua teoria do narcisismo e da constitui\u00e7\u00e3o do eu.<\/p>\n<p>A no\u00e7\u00e3o de corpo na psican\u00e1lise passou por redefini\u00e7\u00f5es ao longo da obra de Freud, bem como do ensino de Lacan, considerando a subjetividade de cada \u00e9poca. Em Lacan, primeiramente, t\u00ednhamos o corpo relacionado \u00e0 sua forma, ou seja, encontrava-se ligado \u00e0 imagem, sendo sua refer\u00eancia o est\u00e1gio do espelho. Com isso, o gozo era da ordem imagin\u00e1ria, sendo governado pela articula\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica. Sobre esse momento, Miller diz que \u201cO eixo do interesse de Lacan n\u00e3o \u00e9 o acontecimento de corpo, \u00e9 a irrup\u00e7\u00e3o do s\u00edmbolo no real. Sua quest\u00e3o \u00e9 saber como o significante vem a se desencadear no real. \u00c9 uma quest\u00e3o que \u00e9, essencialmente, da parte do sujeito do significante\u201d (MILLER, 2004, p. 56). A l\u00f3gica em quest\u00e3o era a das estruturas significantes que decorrem do Outro, sendo o inconsciente estruturado como uma linguagem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O sintoma como acontecimento de corpo<\/em><\/p>\n<p>No \u00faltimo ensino de Lacan, o corpo ganha um novo e significativo estatuto na sua rela\u00e7\u00e3o com o gozo, o que acarreta uma orienta\u00e7\u00e3o da cl\u00ednica em dire\u00e7\u00e3o ao real. Trata-se de um corpo afetado por lal\u00edngua, ou seja, uma l\u00edngua que precede \u00e0 linguagem e que impacta o corpo. Segundo Miquel Bassols, lal\u00edngua \u00e9 \u201cdefinida pela subst\u00e2ncia gozante veiculada pelo significante, uma subst\u00e2ncia que toca o real do corpo. O real de lal\u00edngua d\u00e1 corpo \u00e0 imagem\u201d (BASSOLS, 2016, p. 13).<\/p>\n<p>Esse encontro traum\u00e1tico, derivado do choque entre l\u00edngua e corpo, tem como resultado um acontecimento de corpo. O acontecimento de corpo \u00e9 o impacto do significante, que opera fora do sentido, sobre o corpo, marcando-o e produzindo efeitos de gozo. \u201cTrata-se de um acontecimento produzido por um encontro que n\u00e3o responde a nenhuma lei pr\u00e9via, imposs\u00edvel de ser abolido, um gozo silencioso e fixado de uma vez por todas, que n\u00e3o cessa e que tamb\u00e9m n\u00e3o tem por que, mas que se reitera\u201d (MANDIL, 2014, p. 01).<\/p>\n<p>Essa presen\u00e7a significativa da dimens\u00e3o do real do corpo muda o estatuto do inconsciente e leva Lacan a propor a substitui\u00e7\u00e3o do termo \u201cinconsciente freudiano\u201d por \u201cfalasser<em>\u201d<\/em>. Sobre essa substitui\u00e7\u00e3o, Miller (2016), em\u00a0<em>O inconsciente e o corpo falante<\/em>, prop\u00f5e \u201ctom\u00e1-la como \u00edndice do que muda na psican\u00e1lise no s\u00e9culo XXI, quando ela deve levar em conta outra ordem simb\u00f3lica e outro real diferentes daqueles sobre os quais ela se estabelecera\u201d (MILLER, 2016, p. 06).<\/p>\n<p>Enquanto o inconsciente freudiano tem rela\u00e7\u00e3o com a consci\u00eancia e est\u00e1 articulado ao sentido, o falasser se refere ao acontecimento de corpo, o que leva Miller a dizer que falar com seu corpo caracteriza o falasser (MILLER, 2004, p. 51). O falasser n\u00e3o \u00e9 o corpo que fala, pois a fala n\u00e3o tem rela\u00e7\u00e3o com a fun\u00e7\u00e3o cognitiva do corpo, uma vez que a l\u00edngua n\u00e3o est\u00e1 ligada ao aprendizado. Se assim o fosse, existiria, a princ\u00edpio, um ser, e, posteriormente, esse ser adquiriria a capacidade de falar. De outra maneira, a estrutura de linguagem antecede ao sujeito, enquanto corpo e enquanto ser. Ela \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o do corpo falante. Por isso, a l\u00edngua n\u00e3o se aprende, mas se transmite, a partir de uma experi\u00eancia de gozo que atravessa o corpo.<\/p>\n<p>Isso tem como efeito a separa\u00e7\u00e3o entre o corpo e o ser. \u00c9 justamente por n\u00e3o se reduzir ao seu corpo que o humano se distingue do animal. O animal identifica o ser e o corpo, ele \u00e9 um corpo, fazendo com que o seu saber esteja nesse corpo. Diferente disso, o humano n\u00e3o \u00e9 o corpo, ele o tem. N\u00e3o se trata somente de uma imagem especular do corpo, mas, como nos afirma Bassols, \u201cprincipalmente uma experi\u00eancia de ter um corpo como unidade na qual se localiza uma satisfa\u00e7\u00e3o pulsional, uma experi\u00eancia de gozo\u201d (BASSOLS, 2016, p. 13).<\/p>\n<p>Um gozo opaco, por ser fora do sentido, e que se apresenta no corpo enquanto excesso. Ele deixa marcas no corpo, acontecimentos que s\u00e3o os sintomas. Trata-se de um sintoma que se diferencia do sintoma entendido como forma\u00e7\u00e3o do inconsciente estruturado como uma linguagem. Ele n\u00e3o se refere \u00e0 met\u00e1fora, ou seja, a um efeito de sentido pass\u00edvel de ser decifr\u00e1vel e que revela um desejo inconsciente. Diferente disso, o sintoma de um falasser \u00e9 um acontecimento de corpo. \u00c9ric Laurent descreve o acontecimento de corpo como sendo \u201c\u2018tudo o que chega\u2019, com uma dimens\u00e3o de surpresa ou de conting\u00eancia, antes que se possa estabelecer o sentido desse encontro. Apresentar assim o sintoma \u00e9 acentuar sua dimens\u00e3o fora do sentido\u201d (LAURENT, 2016, p. 50). Trata-se do sintoma enquanto efeito de lal\u00edngua diretamente sobre o corpo, produzindo efeitos de gozo. O fora de sentido do sintoma decorre da sua dimens\u00e3o corporal, sendo que, mesmo separado, o corpo sofre efeitos do discurso.<\/p>\n<p>Concomitantemente ao gozo do corpo, que se refere a um gozar de si mesmo, o falasser comporta tamb\u00e9m o gozo da fala. Sobre isso, Miller afirma que \u201cO falasser tem que se haver com seu corpo como imagin\u00e1rio, assim como tem que se haver com o simb\u00f3lico. O terceiro termo, o real, \u00e9 o complexo ou o implexo dos dois outros\u201d (MILLER, 2016, p. 09).<\/p>\n<p>Assim como o ser s\u00f3 existe enquanto tal na medida em que fala, o ser tamb\u00e9m s\u00f3 tem um corpo na medida em que fala ou \u00e9 falado pelo Outro. Ter um corpo, como vimos, implica em uma experi\u00eancia de gozo, sendo que esse atravessamento do corpo pela linguagem produz uma opera\u00e7\u00e3o de extra\u00e7\u00e3o do que Lacan chamou de objeto\u00a0<em>a<\/em>. Isso marca um gozo interdito, que perde seu car\u00e1ter ilimitado e inaugura a cadeia de significantes (S<sub>1<\/sub>\u00a0\u2013 S<sub>2<\/sub>), possibilitando uma conex\u00e3o entre o objeto e a fun\u00e7\u00e3o f\u00e1lica.<\/p>\n<p>Portanto, \u201ca extra\u00e7\u00e3o do objeto \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o para que o sujeito tenha acesso \u00e0 dimens\u00e3o do Outro, para a incorpora\u00e7\u00e3o do corpo simb\u00f3lico e para sua inscri\u00e7\u00e3o num discurso\u201d (BARROSO, 2014, p. 134). Essa opera\u00e7\u00e3o de extra\u00e7\u00e3o faz com que o objeto\u00a0<em>a<\/em>\u00a0torne causa de desejo. Ser causa de desejo significa que houve a incid\u00eancia da falta do objeto no campo do Outro, assegurando a fun\u00e7\u00e3o de castra\u00e7\u00e3o. Vemos ent\u00e3o que, com a opera\u00e7\u00e3o de castra\u00e7\u00e3o, h\u00e1 uma separa\u00e7\u00e3o, no imagin\u00e1rio, do gozo. Temos a\u00ed um gozo que se lan\u00e7a para fora do corpo, que Lacan identificou como gozo f\u00e1lico. Nesse contexto, a falta se presentifica enquanto vazio central da estrutura e da amarra\u00e7\u00e3o dos registros: real, simb\u00f3lico e imagin\u00e1rio. Isso significa que o objeto\u00a0<em>a<\/em>\u00a0se localiza na interse\u00e7\u00e3o desses tr\u00eas registros, ordenando a estrutura do ser falante. A psican\u00e1lise lacaniana aborda o corpo segundo esses tr\u00eas registros, que corroboram para que se tenha um corpo e dele se fa\u00e7a uso.<\/p>\n<p>Por outro lado, quando n\u00e3o h\u00e1 a extra\u00e7\u00e3o do objeto\u00a0<em>a<\/em>, este \u00e9 impedido de se alojar no campo do Outro, n\u00e3o se configurando como causa de desejo, mas permanecendo como puro gozo que irrompe no corpo. Nesse contexto, h\u00e1 a jun\u00e7\u00e3o do significante e do gozo (S<sub>1<\/sub>\u00a0= a) ou (S<sub>1<\/sub>\u00a0sozinho). O objeto permanece enquanto subst\u00e2ncia gozante, uma vez que ele n\u00e3o foi negativizado, o que seria obtido pela opera\u00e7\u00e3o de castra\u00e7\u00e3o. Sem a inscri\u00e7\u00e3o do objeto no discurso, n\u00e3o h\u00e1 a sua articula\u00e7\u00e3o \u00e0 fun\u00e7\u00e3o f\u00e1lica. Sem a significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica, faz-se presente uma instabilidade radical e constante do ser.<\/p>\n<p>A irrup\u00e7\u00e3o do gozo no corpo acarreta a manifesta\u00e7\u00e3o de variados fen\u00f4menos corporais, bem como de sentimentos de horror e de perplexidade. \u00c9 o que vemos na cl\u00ednica das psicoses, em que se encontra em destaque a quest\u00e3o da fragmenta\u00e7\u00e3o, da dispers\u00e3o e da inconsist\u00eancia do corpo. Um corpo que est\u00e1 sempre sob amea\u00e7a de se desprender, de n\u00e3o se sustentar como uma unidade. A ele falta uma significa\u00e7\u00e3o que o possibilite dar uma resposta sobre o seu ser, o que o impede de constituir como quem tem um corpo. Da\u00ed decorre a dificuldade desses sujeitos em construir uma certa unidade do corpo, pois muitas vezes se encontram \u00e0 merc\u00ea do real do gozo do corpo. Por isso, Miller afirma que \u201co sintoma como acontecimento de corpo \u00e9 altamente suscet\u00edvel de ser posto em evid\u00eancia na psicose (MILLER, 2004, p. 55).<\/p>\n<p>Entretanto, a problem\u00e1tica decorrente de um gozo que afeta o corpo est\u00e1 posta n\u00e3o somente na cl\u00ednica da psicose, ela \u00e9 independente da estrutura. Cada um sofre os efeitos desse retorno do gozo no real de forma particular e nenhuma constru\u00e7\u00e3o, seja ela qual for, d\u00e1 conta do sem sentido que lhe afeta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Uma dimens\u00e3o pol\u00edtica<\/em><\/p>\n<p>Mais al\u00e9m de um sujeito fruto da articula\u00e7\u00e3o significante, em que o ser \u00e9 efeito de sentido, h\u00e1 o acontecimento de corpo. Isso nos faz deparar com uma variedade de novos sintomas que decorrem desse impacto da l\u00edngua sobre o corpo. Esses sintomas manifestam-se de diversas maneiras na contemporaneidade. Trata-se de uma dimens\u00e3o cl\u00ednica articulada a uma dimens\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Lacan (1966-67)<em>,<\/em>\u00a0em seu Semin\u00e1rio\u00a0<em>L\u00f3gica da fantasia<\/em>, afirma que o inconsciente \u00e9 a pol\u00edtica. Trata-se de uma constru\u00e7\u00e3o de que o inconsciente n\u00e3o est\u00e1 articulado ao pai, mas que se apresenta como algo a ser definido. Essa constru\u00e7\u00e3o prov\u00e9m de uma leitura da identifica\u00e7\u00e3o, mecanismo pol\u00edtico por excel\u00eancia, a partir do acontecimento de corpo, ou seja, numa l\u00f3gica do ilimitado do gozo. Um gozo sem lei, que se sobrep\u00f5e aos ideais. Por ser ilimitado, ele n\u00e3o se curva a nenhuma regula\u00e7\u00e3o, sendo soberano o imperativo ao gozo.<\/p>\n<p>A partir da express\u00e3o \u201co inconsciente \u00e9 a pol\u00edtica\u201d, Laurent extrai a concep\u00e7\u00e3o de inconsciente pol\u00edtico, fazendo uma articula\u00e7\u00e3o ao acontecimento de corpo:<\/p>\n<p>\u201cA extens\u00e3o da perspectiva do inconsciente pol\u00edtico ao falasser nos leva aos limites do questionamento psicanal\u00edtico sobre a rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o discurso. Ao centr\u00e1-lo sobre o acontecimento de corpo e n\u00e3o sobre uma identifica\u00e7\u00e3o, (&#8230;) o sujeito se mant\u00e9m fora da garantia do \u2018complexo de \u00c9dipo\u2019. \u00c9 preciso ent\u00e3o confrontar o risco da identifica\u00e7\u00e3o como delirante (&#8230;). \u00a0Com o acontecimento de corpo, retira-se a identifica\u00e7\u00e3o ao Pai e se desnudam (&#8230;) os acontecimentos de gozo mais al\u00e9m da castra\u00e7\u00e3o\u201d (LAURENT, 2016, p. 219).<\/p>\n<p>Sem a identifica\u00e7\u00e3o paterna, n\u00e3o \u00e9 mais pelos ideais que acontece o la\u00e7o entre o corpo e o Outro, mas sim pelo acontecimento de corpo. Devido a essa conex\u00e3o direta com o que afeta o corpo, Miller considera que o la\u00e7o social na atualidade \u00e9 o sintoma e, portanto, carrega em si o gozo.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/h6>\n<h6>BARROSO, S. F.\u00a0<strong>As psicoses na inf\u00e2ncia:\u00a0<\/strong>o corpo sem a ajuda de um discurso estabelecido. Belo Horizonte: Scriptum Livros, 2014.<\/h6>\n<h6>BASSOLS, M. \u201cCorpo da imagem e corpo falante\u201d. In:\u00a0<strong><em>Scilicet:\u00a0<\/em>o corpo falante, sobre o inconsciente no s\u00e9culo XXI<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise<em>,<\/em>\u00a02016, p. 12-15.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1966-67)\u00a0<strong>Logica del fantasia<\/strong>.\u00a0<em>In\u00e9dito<\/em><\/h6>\n<h6>LACAN, J.\u00a0 (1972-73)\u00a0<strong>O semin\u00e1rio, Livro 20<\/strong>: mais, ainda, Rio de Janeiro: Jorge Zahar \u00a0Ed., 1985.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1975-1976)\u00a0<strong>O semin\u00e1rio, Livro 23<\/strong>: o sinthoma, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007.<\/h6>\n<h6>LAUREN, E.\u00a0<strong>O avesso da biopol\u00edtica<\/strong>: uma escrita para o gozo. Rio de Janeiro: Contracapa, 2016.<\/h6>\n<h6>MANDIL, R. \u201cH\u00e1 um acontecimento de corpo\u201d.\u00a0<strong>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana online<\/strong>, n.13, mar\u00e7o 2014. Dispon\u00edvel em: \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00a0&lt;http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_13\/Ha_um_acontecimento_de_corpo.pd&gt;. Acesso em 02\/03\/2022.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. \u201cBiologia Lacaniana e acontecimento de corpo\u201d. In:\u00a0<strong>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/strong>, n. 41. S\u00e3o Paulo: E\u00f3lia, 2004. Tradu\u00e7\u00e3o: Ana L\u00facia Paranhos Pessoa.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. \u201cUn-cuerpo\u201d. In:\u00a0<strong>El ultim\u00edssimo Lacan<\/strong>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2020..<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. \u201cO inconsciente e o corpo falante\u201d. In:\u00a0<strong><em>Scilicet<\/em><\/strong><em>:\u00a0<\/em>o corpo falante, sobre o inconsciente no s\u00e9culo XXI. S\u00e3o Paulo: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise<em>,<\/em>\u00a02016.<\/h6>\n<h6>SANTIAGO, J. \u201cTransfer\u00eancia e acontecimento de corpo: suposto-saber-ler de outra forma\u201d.\u00a0<strong>Curinga<\/strong>, Escola Brasileira de Psican\u00e1lise \u2013 Minas Gerais, n. 47, 2019, p. 47-60.<br \/>\n<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/49-almanaque17\/467-clinico-ao-poltico#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a>\u00a0Texto apresentado no N\u00facleo de Investiga\u00e7\u00e3o e Pesquisa em Psican\u00e1lise e Direito \u2013 Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica do IPSM-MG, em 18\/03\/2022<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; ELAINE ROCHA MACIEL Psicanalista, mestre em Educa\u00e7\u00e3o pela UFMG elainermaciel@yahoo.com.br Resumo:\u00a0A no\u00e7\u00e3o de corpo na psican\u00e1lise passou por redefini\u00e7\u00f5es ao longo da obra de Freud e do ensino de Lacan. Focaremos no \u00faltimo ensino de Lacan, em que o corpo \u00e9 afetado por lal\u00edngua. Um encontro traum\u00e1tico, derivado do choque entre l\u00edngua e corpo,&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57815,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[25],"tags":[],"class_list":["post-1885","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-29","category-25","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1885","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1885"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1885\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57816,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1885\/revisions\/57816"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57815"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1885"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1885"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1885"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}