{"id":1895,"date":"2022-07-19T06:41:42","date_gmt":"2022-07-19T09:41:42","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1895"},"modified":"2025-12-01T13:03:21","modified_gmt":"2025-12-01T16:03:21","slug":"psicopatologia-do-racismo-cotidiano-do-corpo-politico-ao-acontecimento-de-corpo1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2022\/07\/19\/psicopatologia-do-racismo-cotidiano-do-corpo-politico-ao-acontecimento-de-corpo1\/","title":{"rendered":"PSICOPATOLOGIA DO RACISMO COTIDIANO:  DO CORPO POL\u00cdTICO AO ACONTECIMENTO DE CORPO[1]\u00a0"},"content":{"rendered":"<h6>LU\u00cdS COUTO<br \/>\nPsicanalista praticante. Psiquiatra.<br \/>\nDoutorando em Estudos Psicanal\u00edticos-UFMG.<br \/>\nPreceptor da Resid\u00eancia de Psiquiatria do Instituto Raul Soares\/FHEMIG.<br \/>\n<a href=\"mailto:luisfdcouto@gmail.com\">luisfdcouto@gmail.com<\/a><\/h6>\n<blockquote><p>\n<strong>Resumo:<\/strong>\u00a0O artigo visa partir dos efeitos da hist\u00f3rica pol\u00edtica de segrega\u00e7\u00e3o racial em nosso pa\u00eds para chegar \u00e0 proposta da psican\u00e1lise de uma pol\u00edtica do sintoma, a partir da qual ser\u00e1 poss\u00edvel recolher, para cada sujeito, os efeitos singulares das nomea\u00e7\u00f5es vindas do campo do Outro e sua rela\u00e7\u00e3o com o gozo.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave:\u00a0<\/strong>Racismo; segrega\u00e7\u00e3o; gozo.<\/p>\n<p><strong>Title:<\/strong>\u00a0Psychopathology of everyday racism: from body politcs to body event<\/p>\n<p><strong>Abstract:\u00a0<\/strong>This article starts from the effects of the historical politics of racial segregation in our country to arrive at psychoanalysis\u2019s politics of the symptom, from which it will be possible to collect, for each subject, the singular effects of the nominations coming from the Other and its relation to\u00a0<em>jouissance<\/em>.<\/p>\n<p><strong>Keywords:<\/strong>\u00a0Racism; segregation;\u00a0<em>jouissance.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_1896\" style=\"width: 1290px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/15_Luis_Couto_-_Incurses.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"1280\" data-large_image_height=\"836\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1896\" class=\"wp-image-1896\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/15_Luis_Couto_-_Incurses-1024x669.jpg\" alt=\"\" width=\"603\" height=\"394\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1896\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Cec\u00edlia Velloso Batista<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Neste semestre o N\u00facleo de Pesquisa em Psican\u00e1lise nas Toxicomanias e Alcoolismo do IPSM-MG tem se dedicado ao estudo do tema \u201cO acontecimento de corpo pol\u00edtico e a psican\u00e1lise hoje\u201d. No entanto, tentarei propor uma disjun\u00e7\u00e3o do tema de nossa investiga\u00e7\u00e3o que considerei pertinente: de um lado, o corpo pol\u00edtico, e, de outro, o acontecimento de corpo.<\/p>\n<p>Partiremos, ent\u00e3o, dos sintomas da pol\u00edtica para tentar avan\u00e7ar em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 pol\u00edtica do sintoma. Ou seja, partir dos efeitos da hist\u00f3rica pol\u00edtica de segrega\u00e7\u00e3o racial em nosso pa\u00eds para chegar \u00e0 proposta da psican\u00e1lise de uma pol\u00edtica do sintoma, a partir da qual ser\u00e1 poss\u00edvel recolher, para cada sujeito, os efeitos singulares das nomea\u00e7\u00f5es vindas do campo do Outro e sua rela\u00e7\u00e3o com o gozo. \u00c9 nesse sentido que propus, no t\u00edtulo deste trabalho, uma \u201cpsicopatologia do racismo cotidiano\u201d, fazendo uma alus\u00e3o ao texto de Freud, \u201cSobre a psicopatologia da vida cotidiana\u201d, na medida em que Freud extrai, das pequenas falhas do discurso (atos falhos, lembran\u00e7as encobridoras, etc.), n\u00e3o os \u00edndices de uma patologia, mas uma l\u00f3gica inconsciente que nos indica os efeitos singulares do encontro da linguagem com o animal humano. Por isso, as vinhetas cl\u00ednicas que trago pretendem seguir nessa dire\u00e7\u00e3o de tentar extrair uma l\u00f3gica subjetiva do racismo cotidiano, aquele que se apresenta no que poder\u00edamos considerar um la\u00e7o social primordial, o seio da pr\u00f3pria fam\u00edlia, ou ainda um pouco mais \u00edntimo\/\u00eaxtimo, aquele encontrado na rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o pr\u00f3prio corpo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Sintomas da pol\u00edtica<\/em><\/p>\n<p>A articula\u00e7\u00e3o entre a quest\u00e3o racial e o uso de drogas pode ser tomada sob v\u00e1rias perspectivas, mas destaco um ponto que me pareceu interessante: a ocasi\u00e3o de uma primeira virada na legisla\u00e7\u00e3o relativa \u00e0s drogas em nosso pa\u00eds. Durante o Imp\u00e9rio e in\u00edcio da Rep\u00fablica, o Estado pouco interferia no uso de drogas. N\u00e3o havia leis espec\u00edficas sobre o uso de subst\u00e2ncias psicoativas, exceto a embriaguez alco\u00f3lica, que era punida com a pris\u00e3o. Com a Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, a medicina e a psiquiatria s\u00e3o convocadas ao debate a respeito do problema das drogas, e o desvio ps\u00edquico \u00e9 localizado no lado primitivo e incivilizado da sociedade brasileira, ou seja, aquilo que divergia do modo europeu. Para se ter uma ideia, uma das consequ\u00eancias do ideal civilizat\u00f3rio foi a proibi\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas culturais da popula\u00e7\u00e3o afrodescendente, como samba, capoeira, candombl\u00e9 e o uso da maconha. Foi proposta, ent\u00e3o, a proibi\u00e7\u00e3o da maconha diante de uma suposta preocupa\u00e7\u00e3o com o seu consumo pela popula\u00e7\u00e3o negra e rural do Nordeste, cujos efeitos levariam \u00e0 loucura e \u00e0 criminalidade (TRAD, 2009). Logo ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o, portanto, torna-se necess\u00e1ria a cria\u00e7\u00e3o de outras leis que incidir\u00e3o diretamente sobre os negros, mantendo-se um regime de exclus\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o pretendo estender a discuss\u00e3o hist\u00f3rica, mas, dando um salto temporal, vemos ainda, nos dias de hoje, os efeitos da segrega\u00e7\u00e3o racial em manifesta\u00e7\u00f5es que v\u00e3o desde o racismo mais expl\u00edcito \u00e0quele que se manifesta no cotidiano das rela\u00e7\u00f5es sociais. H\u00e1, por outro lado, uma tamb\u00e9m hist\u00f3rica organiza\u00e7\u00e3o dos movimentos de resist\u00eancia negros, que se articulam para fazer frente \u00e0s pol\u00edticas de segrega\u00e7\u00e3o. Mais recentemente temos observado alguns movimentos sociais que trazem \u00e0 pauta \u201co corpo\u201d com a afirma\u00e7\u00e3o: \u201cmeu corpo \u00e9 pol\u00edtico\u201d. Trata-se de trazer o corpo feminino, preto, trans \u00e0 cena da polis, no sentido de produzir uma visibilidade do corpo exclu\u00eddo e tentar perturbar o social e seus modos de segrega\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As v\u00e1rias formas de segrega\u00e7\u00e3o est\u00e3o imiscu\u00eddas em nosso percurso hist\u00f3rico de maneira que n\u00e3o temos observado sua mitiga\u00e7\u00e3o, mas, pelo contr\u00e1rio, assistimos a uma escalada do racismo, como Lacan previu ap\u00f3s os eventos de maio de 68. Diante das proposi\u00e7\u00f5es que surgem nesse contexto, de uma sociedade sem o poder dos pais e acompanhada de um culto ao corpo, Lacan afirma que o que a\u00ed se enra\u00edza \u00e9 o racismo. No texto \u201cO racismo 2.0\u201d, \u00c9ric Laurent retoma essa previs\u00e3o lacaniana que se sustenta em uma l\u00f3gica da rejei\u00e7\u00e3o ao gozo do Outro. \u00c9 o que se observa no movimento do colonialismo e a vontade de normalizar o gozo daquele que \u00e9 emigrado em nome de seu bem: n\u00e3o se trata de choque de civiliza\u00e7\u00f5es, mas de choque dos gozos. \u201cEsses gozos m\u00faltiplos fragmentam o la\u00e7o social, da\u00ed a tenta\u00e7\u00e3o de apelo a um Deus unificador\u201d (LAURENT, 2014 n\/p.).<\/p>\n<p>Ainda segundo Laurent, em \u201cO avesso da biopol\u00edtica\u201d, \u201cO corpo que fala testemunha o discurso como la\u00e7o social que vem se inscrever sobre ele: \u00e9 um corpo socializado. Essa dimens\u00e3o coletiva aparece em seus desarranjos e nomea\u00e7\u00f5es. A subjetividade que est\u00e1 em jogo a\u00ed \u00e9 individual, mas tamb\u00e9m de uma \u00e9poca (\u2026)\u201d (LAURENT, 2016, p. 213). \u00c9 nesse sentido que trarei, em seguida, algumas vinhetas cl\u00ednicas e o que foi poss\u00edvel recolher a partir de cada caso.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Pol\u00edtica do sintoma<\/em><\/p>\n<p>Esse primeiro caso foi publicado em uma edi\u00e7\u00e3o da revista CliniCAPS, a prop\u00f3sito de uma discuss\u00e3o sobre a forma\u00e7\u00e3o em sa\u00fade mental (BALTHA, 2015). Esse paciente tinha, \u00e0 \u00e9poca, 33 anos, estava se tratando em um CAPS-AD devido ao uso abusivo de crack e era considerado pela equipe como sendo \u201cde dif\u00edcil manejo, indisciplinado, n\u00e3o obedece \u00e0s regras da institui\u00e7\u00e3o\u201d. Ele v\u00ea uma acad\u00eamica de medicina jogando xadrez com um outro paciente e lhe demanda que o ensine a jogar. Durante as partidas de xadrez, passa a falar para a estudante a respeito da m\u00e3e que o negligenciava, deixava-o sozinho em casa sem comida, n\u00e3o lhe dava afeto. Percebia que o tratamento que recebia era diferente daquele dispensado aos irm\u00e3os. Ele, por exemplo, ao contr\u00e1rio dos outros, s\u00f3 fora registrado na adolesc\u00eancia.<\/p>\n<p>Fala de uma cena em que conheceu o pai, aos 9 anos de idade. Estava na janela de sua casa e viu um carro se aproximar, conduzido por um homem. Sua m\u00e3e o recebeu e lhe disse: \u201cseu filho est\u00e1 aqui\u201d. Esse homem, ao v\u00ea-lo, respondeu: \u201cesse menino \u00e9 preto demais para ser meu filho\u201d. Descobriu, assim, que esse era o seu pai, que, por muito tempo, ansiou por conhecer. Diz que essa cena o marcou muito e, depois disso, n\u00e3o mais tiveram contato.<\/p>\n<p>Parou de frequentar a escola, cometia\u00a0pequenos furtos para ajudar a pagar as contas em casa. Sentia-se desamparado, \u201csozinho no mundo\u201d. Passou a usar drogas na adolesc\u00eancia e intensifica o uso ap\u00f3s os 20 anos. Quando sob efeito das subst\u00e2ncias, envolve-se em brigas na rua e apresenta idea\u00e7\u00e3o persecut\u00f3ria, al\u00e9m de ouvir vozes. Diz que em diversas ocasi\u00f5es pensou em tirar a pr\u00f3pria vida e justifica que n\u00e3o conseguiu encontrar um lugar no mundo.<\/p>\n<p>Com muita frequ\u00eancia fala do peso que a cor da pele tem para ele. N\u00e3o consegue melhorar de vida ou ter empregos em raz\u00e3o de sua cor. As pessoas n\u00e3o gostam dele porque \u00e9 negro e \u00e9 a cor da pele que o impede de manter rela\u00e7\u00f5es sociais. Durante a conversa com a acad\u00eamica, pergunta-lhe: \u201cvoc\u00ea acha que sou muito preto?\u201d.<\/p>\n<p>Em determinado dia, diz, de maneira jocosa, que estava fazendo movimentos errados no xadrez porque estava jogando com as pe\u00e7as pretas; preferiria jogar com as brancas. A aluna, advertida dos elementos de uma primeira constru\u00e7\u00e3o do caso, interv\u00e9m dizendo que \u00e9 importante aprender a jogar com as pe\u00e7as pretas.<\/p>\n<p>Como pensar a segrega\u00e7\u00e3o nesse caso? No texto \u201cA toxicomania n\u00e3o \u00e9 mais o que era\u201d, Ant\u00f4nio Beneti prop\u00f5e um discurso da segrega\u00e7\u00e3o como sendo derivado do discurso do mestre amputado do lugar da verdade, onde estaria o sujeito do inconsciente. Seria, ent\u00e3o, um discurso de tr\u00eas termos (BENETI, 2014):<\/p>\n<p>S1 \u2192\u00a0<u>S2<\/u><\/p>\n<p>\/\/\u00a0 a<\/p>\n<p>Poder\u00edamos investigar, no caso apresentado, se a segrega\u00e7\u00e3o se daria por um S1 vindo do Outro, \u201cpreto demais\u201d, que comandaria um S2, \u201cn\u00e3o tenho lugar no mundo\u201d. Assim, haveria uma identifica\u00e7\u00e3o ao S1 tomado pelo sujeito do campo do Outro e uma esp\u00e9cie de \u201csaber-fazer\u201d que ir\u00e1 sustentar essa nomea\u00e7\u00e3o: \u201csim, sou preto demais para ter um lugar no desejo do Outro\u201d. H\u00e1, no entanto, um problema na rela\u00e7\u00e3o desse sujeito com o discurso e o la\u00e7o social e poder\u00edamos questionar se ele se insere no discurso e, se sim, como isso se daria. Uma hip\u00f3tese que leve em conta uma entrada prec\u00e1ria no discurso e o coloque numa posi\u00e7\u00e3o de rejeitado pelo Outro resultaria, como consequ\u00eancia l\u00f3gica, no sistema explicativo: \u201csou preto, logo, n\u00e3o devo existir\u201d \u2014 efeito paradoxal desse discurso, porque tende \u00e0 sua retirada. Dito de outro modo, parece tentar fabricar uma entrada \u00e0 for\u00e7a no campo do Outro a partir das brigas, viola\u00e7\u00f5es das regras institucionais, o que acaba por produzir sua rejei\u00e7\u00e3o a cada vez. \u00c9 esse sistema que a acad\u00eamica tenta discretamente perturbar ao propor que poderia jogar com o significante \u201cpreto\u201d. Colocar-se, ent\u00e3o, em jogo. Estamos, at\u00e9 aqui, no campo da linguagem e do discurso.<\/p>\n<p>Como o sintoma n\u00e3o \u00e9 produzido apenas em termos da linguagem, partimos para uma outra quest\u00e3o, que diz respeito ao sintoma como acontecimento de corpo. Freud desenvolve a tese de um sintoma metaforizado, que poderia ser interpretado ao n\u00edvel da linguagem. No entanto, em sua teoria encontramos tamb\u00e9m as bases para a ideia de um sintoma que n\u00e3o se reduz a um sistema l\u00f3gico decifr\u00e1vel tomando por base o significante. Ou seja, quando Freud se refere ao sintoma como uma satisfa\u00e7\u00e3o substitutiva de uma puls\u00e3o, introduz a\u00ed uma outra vertente do sintoma, ligada ao gozo. \u00c9 nesse sentido que Jacques-Alain Miller ir\u00e1 afirmar que \u201ca defini\u00e7\u00e3o do sintoma como acontecimento de corpo \u00e9 necess\u00e1ria e inevit\u00e1vel, porquanto o sintoma constitui, como tal, um gozo\u201d (MILLER, 2004, p.45).<\/p>\n<p>\u00c9 devido a uma esp\u00e9cie de imbrica\u00e7\u00e3o entre linguagem e gozo que podemos afirmar que a linguagem desnaturaliza o organismo, ou seja, com a entrada no mundo da linguagem, o corpo ter\u00e1 um funcionamento estranho ao que seria um bom funcionamento do organismo com base nas leis da f\u00edsica, qu\u00edmica ou biologia \u2014 as leis da natureza. Assim, nos seres falantes, ao contr\u00e1rio dos outros animais, o circuito pulsional passa pelo corpo, mas encontra seu representante na linguagem, o que produz efeitos. Entre eles, uma discord\u00e2ncia entre o organismo e o corpo, de onde Lacan deduz sua tese de que n\u00e3o se \u00e9 o corpo, mas se o tem.<\/p>\n<p>Sendo habitado pela l\u00edngua, o corpo \u00e9 marcado pelas fic\u00e7\u00f5es de verdade. Essas fic\u00e7\u00f5es podem tornar-se mais ou menos fixas a partir de sua rela\u00e7\u00e3o com o gozo. De acordo com Miller, o corpo \u201c\u00e9 a vergonha da cria\u00e7\u00e3o porque s\u00e3o corpos doentes da verdade\u201d. \u201cEles s\u00e3o doentes, porque a verdade os embara\u00e7a\u201d (MILLER, 2004, p. 45). \u00c9 assim que o corpo sai de um saber naturalista, instintual, para uma verdade que o parasita e o desnaturaliza, chegando ao ponto, como no caso, de a verdade \u201cpreto demais\u201d modificar o que seria um bom funcionamento do corpo: erra as jogadas de xadrez, n\u00e3o \u00e9 capaz de se inserir no la\u00e7o social etc.<\/p>\n<p>Podemos investigar, no caso apresentado, como a fic\u00e7\u00e3o \u201cpreto demais\u201d se articula \u00e0 s\u00e9rie prazer-desprazer. Ou seja, podemos abordar o caso advertidos de que a verdade que o sujeito disp\u00f5e traz consigo, atrelado a ela, o gozo, como nos d\u00e1 prova o tom jocoso que utiliza ao justificar seus erros no xadrez por estar jogando com as pe\u00e7as pretas: a verdade \u00e9 irm\u00e3 do gozo, como afirma Lacan (LACAN, 1969-70\/1992). Uma outra hip\u00f3tese, n\u00e3o discordante da anterior, \u00e9 que sua verdade o mant\u00e9m a certa dist\u00e2ncia do Outro, e, ao contr\u00e1rio de nos orientarmos por um imperativo de \u201cressocializa\u00e7\u00e3o\u201d, poder\u00edamos tentar verificar a fun\u00e7\u00e3o dessa verdade e se teria um efeito de prote\u00e7\u00e3o contra a invas\u00e3o de um Outro que ou abusa ou negligencia, de sorte que ele sempre resta como dejeto. Nesse sentido, penso ter sido interessante a interven\u00e7\u00e3o da aluna, que n\u00e3o tenta provocar uma desidentifica\u00e7\u00e3o com o significante \u201cpreto demais\u201d, tampouco tenta lev\u00e1-lo a um discurso de empoderamento, mas lhe lan\u00e7a uma quest\u00e3o a respeito da possibilidade de aprender a jogar com as pe\u00e7as pretas, o que coloca no horizonte um outro \u201csaber-fazer\u201d com isso.<\/p>\n<p>Passo para um segundo caso, do qual trago apenas um recorte, mas que chamou aten\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a essa discuss\u00e3o. Trata-se de uma mulher de 41 anos que foi encaminhada do CAPS para interna\u00e7\u00e3o no Instituto Raul Soares. Ela mora com um filho adolescente e havia tentado agredi-lo, dizendo ter tido pensamentos ou vozes mandando mat\u00e1-lo. Logo que \u00e9 internada, tais vozes somem e d\u00e3o lugar a uma esp\u00e9cie de pensamento intrusivo: quando v\u00ea pacientes negras, vem-lhe \u00e0 mente a ideia de cham\u00e1-las de \u201cpreta\u201d, \u201cmacaca\u201d, e teme n\u00e3o conseguir controlar isso e ser agredida. N\u00e3o se trata de uma paciente toxic\u00f4mana, mas sua rela\u00e7\u00e3o com as drogas vem por outras vias. Fora criada pelos pais, mas todos os cuidados da casa eram dirigidos \u00e0 m\u00e3e alcoolista. A m\u00e3e nunca lhe deu carinho, vivia bebendo. Quando tinha 16 anos, a m\u00e3e sofreu um acidente grave e parou de beber de uma vez, ocasi\u00e3o em que descreve que houve, pela primeira vez, paz em sua casa. Logo em seguida a esse \u201cbom acidente\u201d da m\u00e3e, a nossa paciente engravidou, mas nunca conseguiu cuidar dos tr\u00eas filhos que teve: \u201cN\u00e3o aprendi a ser m\u00e3e, n\u00e3o sei cuidar\u201d. Frequentemente apresentava crises de depress\u00e3o, era internada e, em poucos dias, o marido a retirava para que ele pudesse cuidar dela e dos filhos. Isso se deu em uma sequ\u00eancia de 14 interna\u00e7\u00f5es no hospital de sua cidade, ao longo dos anos. No entanto, h\u00e1 poucos meses o marido faleceu e ela n\u00e3o sabe o que fazer. Sente-se culpada por ele ter tido cirrose e ela ter levado cacha\u00e7a para ele sempre que pedia. Em um determinado dia, conta \u00e0 residente que ela era modelo, tinha dentes, cabelos loiros, era magra e cantava na noite. Muito diferente da m\u00e3e, por quem diz ter um grande amor hoje, mas que \u00e9 negra. \u201cEu tinha vergonha da minha m\u00e3e por ela ser negra\u201d.<\/p>\n<p>A partir de algumas interven\u00e7\u00f5es da residente, faz uma frouxa associa\u00e7\u00e3o entre os pensamentos intrusivos e a vergonha que tinha da m\u00e3e. Mas logo refuta a associa\u00e7\u00e3o dizendo do amor que sente por ela. Propomos que ela tenha um espa\u00e7o para falar disso com uma psic\u00f3loga de sua cidade, com o que prontamente concorda. Nesse caso h\u00e1 um fen\u00f4meno do pensamento disjunto de uma agressividade, que aparece no corpo, dirigida ao Outro. Os significantes \u201cpreta\u201d e \u201cmacaca\u201d aparecem, a\u00ed, separados de um afeto de \u00f3dio.<\/p>\n<p>Um acontecimento produz tra\u00e7os, \u00e9 isso o que Freud chamou \u201ctrauma\u201d. Segundo Miller,<\/p>\n<p>\u201co acontecimento fundador do tra\u00e7o de afeta\u00e7\u00e3o \u00e9 um acontecimento que mant\u00e9m um desequil\u00edbrio permanente, que mant\u00e9m no corpo, na psiqu\u00ea, um excesso de excita\u00e7\u00e3o que n\u00e3o deixa de se reabsorver. Temos, aqui, a defini\u00e7\u00e3o geral do acontecimento traum\u00e1tico, aquele que deixar\u00e1 tra\u00e7os na vida subsequente do falante\u201d (MILLER, 2004, p. 53).<\/p>\n<p>Uma quest\u00e3o que trago \u00e9 como poder\u00edamos pensar o acontecimento traum\u00e1tico em cada um dos casos. No primeiro caso, a conting\u00eancia do encontro com o pai e sua senten\u00e7a teria sido o desencadeador para uma ruptura com o la\u00e7o social? Haveria, nessa hip\u00f3tese, o significante do racismo articulado ao \u00f3dio de si. No segundo caso, n\u00e3o observamos uma ruptura. A paciente n\u00e3o fica em um absoluto desamparo mesmo com os problemas da m\u00e3e com o alcoolismo. Tem um pai cuidadoso e uma irm\u00e3 mais velha que \u201cfoi uma m\u00e3e\u201d. No entanto, o significante do racismo dirigido \u00e0 m\u00e3e aparece dissociado do afeto nesse momento de crise, sob a forma de um pensamento intrusivo. Ou seja, nesse caso, ter\u00edamos o significante do racismo articulado ao \u00f3dio dirigido ao Outro. Duas modalidades, portanto, da articula\u00e7\u00e3o significante do racismo\/\u00f3dio de si ou \u00f3dio ao Outro. Uma outra quest\u00e3o que poder\u00edamos discutir, a partir da considera\u00e7\u00e3o do sintoma em sua vertente de verdade e em sua vertente de gozo, seria como pensar a dire\u00e7\u00e3o do tratamento em cada um dos casos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>BALTHA, A. C.\u00a0<em>et al<\/em>. &#8220;Internato de sa\u00fade mental no curso de medicina: o xadrez da forma\u00e7\u00e3o&#8221;.\u00a0<strong>CliniCAPS<\/strong>, v. 9, n. 25\/26, 2015.<\/h6>\n<h6>BENETI, A. \u201cA toxicomania n\u00e3o \u00e9 mais o que era\u201d. In: MEZ\u00caNCIO, M.; ROSA, M.; FARIA, M. W. (orgs.).\u00a0<strong>Tratamento poss\u00edvel das toxicomanias<\/strong>. Belo Horizonte: Scriptum, 2014.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1920) \u201cAle\u0301m do princi\u0301pio do prazer\u201d. In:\u00a0<strong>Edic\u0327a\u0303o Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud<\/strong>. v. XVIII. Rio de Janeiro: Imago, 2006.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1969-70)\u00a0<strong>O semin\u00e1rio, livro 17<\/strong>: o avesso da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1992.<\/h6>\n<h6>LAURENT, E. \u201cO racismo 2.0\u201d.\u00a0<strong>Lacan cotidiano<\/strong>\u00a0n. 371 \u2013 portugu\u00eas. AMP blog, 26 de jan. de 2014. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/ampblog2006.blogspot.com\/2014\/02\/lacan-cotidiano-n-371-portugues.html&gt; Acesso em: 05 de jun. de 2022.<\/h6>\n<h6>LAURENT, E.\u00a0<strong>O avesso da biopol\u00edtica<\/strong>: uma escrita para o gozo. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2016.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. \u201cBiologia lacaniana e acontecimentos de corpo\u201d.\u00a0<strong>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/strong>, n. 41. dez. 2004, p.45-54.<\/h6>\n<h6>TRAD, S. \u201cControle do uso de drogas e preven\u00e7\u00e3o no Brasil: revisitando sua trajet\u00f3ria para entender os desafios atuais\u201d. In: NERY, A. et al. (orgs).\u00a0<strong>Toxicomanias<\/strong>: incid\u00eancias cl\u00ednicas e socioantropol\u00f3gicas. Salvador: EDUFBA: CETAD, 2009.<br \/>\n<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/psicopatologia-racismo#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a>\u00a0Texto apresentado no N\u00facleo de Pesquisa e Investiga\u00e7\u00e3o em Psican\u00e1lise nas Toxicomanias e Alcoolismo, da Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica- IPSM-MG, em 14 de junho de 2022.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>LU\u00cdS COUTO Psicanalista praticante. Psiquiatra. Doutorando em Estudos Psicanal\u00edticos-UFMG. Preceptor da Resid\u00eancia de Psiquiatria do Instituto Raul Soares\/FHEMIG. luisfdcouto@gmail.com Resumo:\u00a0O artigo visa partir dos efeitos da hist\u00f3rica pol\u00edtica de segrega\u00e7\u00e3o racial em nosso pa\u00eds para chegar \u00e0 proposta da psican\u00e1lise de uma pol\u00edtica do sintoma, a partir da qual ser\u00e1 poss\u00edvel recolher, para cada sujeito,&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57817,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[25],"tags":[],"class_list":["post-1895","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-29","category-25","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1895","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1895"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1895\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57818,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1895\/revisions\/57818"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57817"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1895"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1895"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1895"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}