{"id":1899,"date":"2022-07-19T06:41:42","date_gmt":"2022-07-19T09:41:42","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1899"},"modified":"2025-12-01T13:03:45","modified_gmt":"2025-12-01T16:03:45","slug":"o-acontecimento-de-corpo-politico-e-a-psicanalise-hoje1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2022\/07\/19\/o-acontecimento-de-corpo-politico-e-a-psicanalise-hoje1\/","title":{"rendered":"O ACONTECIMENTO DE CORPO POL\u00cdTICO E A PSICAN\u00c1LISE HOJE[1]\u00a0"},"content":{"rendered":"<h6>MARIA WILMA S. DE FARIA<br \/>\nPsicanalista, membro da EBP\/AMP<br \/>\nCoordenadora da Rede TyA Brasil<br \/>\n<a href=\"mailto:mwilma62@gmail.com\">mwilma62@gmail.com<\/a><\/h6>\n<blockquote><p><strong>RESUMO:\u00a0<\/strong>O corpo falante testemunha o discurso como la\u00e7o social e traz em si suas marcas enquanto corpo socializado. Tendo como refer\u00eancia o segundo ensino de Lacan, no que toca ao falasser pol\u00edtico, o texto indaga o que pode hoje a psican\u00e1lise frente \u00e0 toxicomania que nossa \u00e9poca promove. Interroga os sintomas contempor\u00e2neos que t\u00eam a toxicomania como paradigma, bem como as adi\u00e7\u00f5es generalizadas, o uso excessivo de rem\u00e9dios, as institui\u00e7\u00f5es segregativas e a viol\u00eancia discriminat\u00f3ria exercida sobre usu\u00e1rios e dependentes de drogas e\/ou em uso prejudicial de \u00e1lcool.<\/p>\n<p><strong>PALAVRAS-CHAVE:<\/strong>\u00a0Toxicomania; Cl\u00ednica; Psican\u00e1lise; Pol\u00edtica; Falasser<b>.<\/b><\/p>\n<p><strong>The event of body political and psychoanalysis today<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>ABSTRACT:\u00a0<\/strong>The speaking body witnesses the discourse as a social bond and bears in itself its marks as a socialized body. Taking Lacan&#8217;s second teaching as a reference regarding the political\u00a0<em>parl\u00eatre<\/em>, this essay questions what psychoanalysis can do today in face of the drug addiction that our time promotes. It interrogates contemporary symptoms that have drug addiction as a paradigm, as well as generalized additions, excessive use of medication, segregative institutions, and\u00a0 discriminatory violence against drug users and addicts and\/or those in harmful use of alcohol.<\/p>\n<p><strong>KEY WORDS:<\/strong>\u00a0Drug addiction; Clinic; Psychoanalysis; Politics; Parl\u00eatre.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n<div id=\"attachment_1900\" style=\"width: 1782px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/nelson.jpg\" data-dt-img-description=\"\u00a0Imagem: Nelson de Almeida\" data-large_image_width=\"1772\" data-large_image_height=\"1181\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1900\" class=\" wp-image-1900\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/nelson-1024x682.jpg\" alt=\"\" width=\"577\" height=\"384\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1900\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Nelson de Almeida<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O tema de trabalho deste semestre, proposto por Lilany Pacheco (diretora-geral do IPSM-MG) e Cristiana Pittella (diretora da Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica), nos convida para come\u00e7ar uma investiga\u00e7\u00e3o de conceitos preciosos do \u00faltimo ensino de Lacan, \u00e0 luz da transmiss\u00e3o de Miller, tais como falasser, sintoma como acontecimento de corpo, la\u00e7o social, gozo e corpo pol\u00edtico, articulando-os e tentando fazer uma leitura do mundo atual globalizado, com sua l\u00f3gica capitalista.<\/p>\n<p>Em tempos marcados pelo desvanecimento do Ideal do Eu, assistimos \u00e0 queda do pai como moderador de gozo, o que, por sua vez, leva a um empuxo \u00e0 primazia de modalidades de gozo que n\u00e3o incluem o Outro. Cabem aqui todas as manifesta\u00e7\u00f5es sintom\u00e1ticas nas quais o excesso faz presen\u00e7a: bulimias, toxicomanias, obesidades, anorexias, comunidades de gozo. Enfim, sintomas, no limite do diz\u00edvel, que chamam \u00e0 cena o corpo em suas in\u00fameras dimens\u00f5es. No discurso da ci\u00eancia, tudo pode ser nomeado, quantificado, diagnosticado: para cada mal-estar, um tratamento, um protocolo, classifica\u00e7\u00f5es e prescri\u00e7\u00f5es. Na l\u00f3gica biom\u00e9dica, \u00e9 apropriado lidar com a quest\u00e3o das toxicomanias como elemento de controle, apresentando-a como doen\u00e7a a ser tratada e curada com p\u00edlulas de felicidade. J\u00e1 no discurso capitalista, temos a l\u00f3gica de que tudo pode ser comprado e adquirido sob a promessa da plenitude. O toxic\u00f4mano faz-se um consumidor ideal, sempre fiel ao mesmo artefato, o que desemboca em ser consumido pelo pr\u00f3prio objeto de gozo. No entrecruzamento desses dois discursos, podemos tomar a toxicomania como paradigma dos novos sintomas, sintoma fruto de nossa \u00e9poca.<\/p>\n<p>Para entender um pouco a toxicomania, tomemos uma refer\u00eancia de Miller, que parece ser preciosa:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cA repeti\u00e7\u00e3o do Um comemora uma irrup\u00e7\u00e3o de gozo inesquec\u00edvel. Desde ent\u00e3o, o sujeito se encontra ligado a um ciclo de repeti\u00e7\u00f5es cujas inst\u00e2ncias n\u00e3o se adicionam e cujas experi\u00eancias n\u00e3o lhe ensinam nada. Hoje, chamamos isso de adi\u00e7\u00e3o a fim de qualificar essa repeti\u00e7\u00e3o de gozo. Chamamos assim precisamente porque isso n\u00e3o \u00e9 uma adi\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que as experi\u00eancias n\u00e3o se adicionam. Essa repeti\u00e7\u00e3o de gozo se faz fora do sentido\u201d (MILLER, 2011a, p. 109).<\/p>\n<p>Esse gozo que se itera e reitera presente nas toxicomanias s\u00f3 tem rela\u00e7\u00e3o com o significante Um, S1. Ele n\u00e3o se direciona ao S2 como saber, e \u00e9 um \u201cautogozo do corpo. E o que faz fun\u00e7\u00e3o de S2, no caso, o que faz fun\u00e7\u00e3o de Outro desse S1 \u00e9 o pr\u00f3prio corpo\u201d (MILLER, 2011a, p. 109). Assim, temos o corpo como Outro, e desde sempre operamos na cl\u00ednica das toxicomanias com esse desafio.<\/p>\n<p>Uma importante pergunta que Miller faz em \u201cLer um sintoma\u201d (MILLER, 2011b) \u00e9 se o gozo presente no sintoma seria prim\u00e1rio. Ele responde que, em um certo sentido, sim. \u201cPode-se dizer que o gozo \u00e9 o pr\u00f3prio corpo como tal, que \u00e9 um fen\u00f4meno de corpo. Nesse sentido, um corpo \u00e9 o que goza, reflexivamente. Um corpo \u00e9 o que goza de si mesmo, o que Freud chamava de autoerotismo\u201d (MILLER, 2011b). Mas isso \u00e9 verdade para todo corpo vivo, n\u00e3o s\u00f3 para os toxic\u00f4manos. Ser\u00e1 que poder\u00edamos pensar que os toxic\u00f4manos ficam fixados a\u00ed no gozo autoer\u00f3tico?<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cAssim, pode-se dizer que gozar de si mesmo \u00e9 o estatuto do corpo vivo. O que distingue o corpo do ser falante \u00e9 que seu gozo sofre a incid\u00eancia da fala. E precisamente um sintoma demonstra que houve um acontecimento que marcou seu gozo no sentido freudiano de Anzeichen (sinal) e que introduz um Ersatz (substitui\u00e7\u00e3o\/ estepe\/ pe\u00e7a sobressalente), um gozo que n\u00e3o deveria, um gozo que perturba o gozo que deveria, isto \u00e9, o gozo de sua natureza de corpo. Portanto, nesse sentido, n\u00e3o, o gozo em quest\u00e3o no sintoma n\u00e3o \u00e9 prim\u00e1rio. Ele \u00e9 produzido pelo significante. E \u00e9 precisamente essa incid\u00eancia significante que faz do gozo do sintoma um acontecimento, n\u00e3o apenas um fen\u00f4meno. O gozo do sintoma demonstra que houve um acontecimento, um acontecimento de corpo ap\u00f3s o qual o gozo natural entre aspas, que se pode imaginar como sendo o gozo natural do corpo vivo, encontrou-se perturbado e desviado. Esse gozo n\u00e3o \u00e9 prim\u00e1rio, mas \u00e9 primeiro em rela\u00e7\u00e3o ao sentido que o sujeito lhe d\u00e1, e o faz por meio de seu sintoma como interpret\u00e1vel\u201d (MILLER, 2011b, n\/p.).<\/p>\n<p>Assim, podemos diferenciar o conceito de sintoma freudiano como aquele pass\u00edvel de ser decifrado, compreendido, interpretado, e o conceito lacaniano tendo o sintoma como aquele que n\u00e3o fala, mas que se inscreve sobre o corpo, silencioso, pura presen\u00e7a de gozo, pr\u00f3ximo assim \u00e0s apresenta\u00e7\u00f5es sintom\u00e1ticas dos toxic\u00f4manos. Esses se apresentam de forma bruta, com seus corpos depauperados, alquebrados, pura presen\u00e7a.<\/p>\n<p>\u00c9 na confer\u00eancia em que anunciou o X Congresso da AMP em 2014 (MILLER, 2016) que Miller aponta a substitui\u00e7\u00e3o do \u201cinconsciente\u201d feita por Lacan, em seu ensino, para o termo \u201ccorpo falante ou falasser\u201d. Tal proposi\u00e7\u00e3o assinala como a fala impacta o corpo, em um ponto de real, unindo os dois, linguagem e corpo (S1a). Isso porque o falasser n\u00e3o \u00e9 o seu corpo, mas tem um corpo. Essa abordagem do falasser vai nos permitir aproximar da express\u00e3o usada por Lacan em \u201cIntui\u00e7\u00f5es Milanesas\u201d: \u201co inconsciente \u00e9 a pol\u00edtica\u201d.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cA defini\u00e7\u00e3o do inconsciente pela pol\u00edtica tem ra\u00edzes profundas no ensino de Lacan. \u2018O inconsciente \u00e9 a pol\u00edtica\u2019 \u00e9 um desenvolvimento de \u2018O inconsciente \u00e9 o discurso do Outro\u2019. Essa rela\u00e7\u00e3o com o Outro, intr\u00ednseca ao inconsciente, \u00e9 o que anima desde o in\u00edcio o ensino de Lacan. \u00c9 a mesma coisa quando estabelece que o Outro \u00e9 dividido e n\u00e3o existe como Um. \u2018O inconsciente \u00e9 a pol\u00edtica\u2019 radicaliza a defini\u00e7\u00e3o do Witz, do chiste como processo social que tem seu reconhecimento e sua satisfa\u00e7\u00e3o no Outro, enquanto comunidade unificada no instante de rir. A an\u00e1lise freudiana do Witz justifica o fato de Lacan articular o sujeito do inconsciente a um Outro, e qualificar o inconsciente como transindividual. \u00c9 poss\u00edvel passar de \u2018o inconsciente \u00e9 transindividual\u2019 para \u2018o inconsciente \u00e9 pol\u00edtico\u2019, desde que fique claro que esse Outro \u00e9 dividido, que ele n\u00e3o existe como Um\u201d (MILLER, 2011c, p. 6-7).<\/p>\n<p>Assim, a formula\u00e7\u00e3o \u201ca pol\u00edtica \u00e9 o inconsciente\u201d repousa na refer\u00eancia freudiana de uma pol\u00edtica articulada ao pai, \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o, \u00e0 censura. J\u00e1 o dito de Lacan \u201co inconsciente \u00e9 a pol\u00edtica\u201d parte n\u00e3o mais da pol\u00edtica articulada ao pai, e sim do inconsciente separado da identifica\u00e7\u00e3o, estruturado como linguagem, que nos leva a considerar o acontecimento de corpo no inconsciente pol\u00edtico (LAURENT, 2016). Como poder\u00edamos entender isso, ent\u00e3o? O acontecimento de corpo afeta n\u00e3o s\u00f3 o corpo entendido como o organismo individual, mas tamb\u00e9m o corpo do sujeito da linguagem, logo, transindividual.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cO corpo que fala testemunha o discurso como la\u00e7o social que vem se inscrever sobre ele: \u00e9 um corpo socializado. Essa dimens\u00e3o coletiva aparece em seus desarranjos e nomea\u00e7\u00f5es. A subjetividade que est\u00e1 em jogo a\u00ed \u00e9 individual, mas tamb\u00e9m de uma \u00e9poca\u201d (LAURENT, 2016, p. 213).<\/p>\n<p>Esse ponto muito nos interessa. Tomemos assim como a subjetividade de nossa \u00e9poca v\u00ea os toxic\u00f4manos e os alcoolistas e seus corpos: bandidos, fracos, insubordinados, sem for\u00e7a de vontade. Cabe aqui toda uma concep\u00e7\u00e3o moral com seus adjetivos e d\u00e9ficits que, desconhecendo o campo pulsional, praticam toda sorte de viol\u00eancia discriminat\u00f3ria sobre usu\u00e1rios e dependentes de drogas e \u00e1lcool. Assim, esses falasseres passam a ser vistos cotidianamente como n\u00e3o sujeitos, desprovidos de dignidade ou de direitos. De tal sorte que, assujeitados, s\u00e3o alvo de toda uma pol\u00edtica higienista (presente tamb\u00e9m no discurso do atual governo) que preconiza a disciplina dos corpos com uma pretensa roupagem de \u201csalva\u00e7\u00e3o\u201d ou tentativa de erradicar as subst\u00e2ncias psicoativas, fazendo crer ser poss\u00edvel um mundo sem drogas e evitar um mal pior, que seria o consumo de subst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>Essa pol\u00edtica visa a abstin\u00eancia total via segrega\u00e7\u00e3o pela interna\u00e7\u00e3o e impera como tentativa de controlar o gozo e domar os corpos. Na cl\u00ednica das toxicomanias, interessam-nos as rela\u00e7\u00f5es mantidas pelo sujeito e seu corpo, ambos, objeto de discursos invasivos de um \u201cprograma pol\u00edtico\u201d que almeja colocar \u00e0 margem a malfadada infelicidade. Na toxicomania observamos um certo apagamento do corpo via intoxica\u00e7\u00e3o, ou mesmo uma tentativa de anestesiar o corpo. Em sujeitos psic\u00f3ticos, o recurso \u00e0s drogas poderia ser uma forma de fazer um corpo ali onde o sujeito n\u00e3o tem um corpo, uma maneira de moldar, de esculpir o corpo que escapa a todo momento. De qualquer forma, para n\u00f3s psicanalistas, a fun\u00e7\u00e3o que a droga tem \u00e9 sempre constru\u00edda, sujeito a sujeito, em sua singularidade.<\/p>\n<p>Interessa-nos tamb\u00e9m pensar o toxic\u00f4mano na cidade e tudo o que vem refor\u00e7ar a identifica\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria: \u201cVoc\u00ea \u00e9 toxic\u00f4mano, voc\u00ea \u00e9 drogado!\u201d. Essa nomea\u00e7\u00e3o vinda do campo do Outro muitas vezes reafirma para o sujeito o que ele \u00e9, reduzindo o ser falante \u00e0 subst\u00e2ncia que usa. Essa pode ser tamb\u00e9m uma forma de o sujeito se apresentar, totalmente submetido. Deparamos cada vez mais com microculturas movidas por identifica\u00e7\u00f5es grupais que tamb\u00e9m n\u00e3o singularizam o sujeito, mas, antes, os determinam em subgrupos movidos pelo consumo: cachaceiros de um lado, noiados de outro,\u00a0<em>emos<\/em>\u00a0tristes que fazem apologia aos antidepressivos, medicalizados agitados que querem aumentar a performance no trabalho, grupos de ajuda m\u00fatua, dependentes de ritalina. Essa pretensa identidade grupal traz uma miragem de todos iguais, de pertencimento, em uma colagem imagin\u00e1ria que provoca uma pseudosseguran\u00e7a, express\u00e3o de um desvario de gozo, mas que acaba evidenciando toda a fragilidade dessas identifica\u00e7\u00f5es subjetivas, uma vez que nada aplaca a solid\u00e3o de cada um.<\/p>\n<p>Nesse ponto seria interessante recorrer e diferenciar o que passou a ser chamado de \u201ctoxicomania generalizada\u201d, ou \u201cadi\u00e7\u00e3o\u201d, do conceito \u201ctoxicomanias\u201d, propriamente dito, e dar um passo a mais, ao que o colega Ernesto Sinatra, de Buenos Aires, prop\u00f5e chamar de \u201cadix\u00e3o\u201d. A toxicomania generalizada, ou adi\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas, se refere \u00e0 l\u00f3gica do mercado que oferece toda sorte de produtos cujo consumo pode tornar as pessoas \u201cdependentes\u201d em uma rela\u00e7\u00e3o excessiva, passando a ter, assim, o estatuto de drogas. Tais objetos de consumo n\u00e3o s\u00e3o uma subst\u00e2ncia: internet, compras, celular, pornografia, jogos. Ou seja, h\u00e1 uma lista sem fim de produtos fazendo s\u00e9rie e que obedecem ao imperativo \u201cconsuma!\u201d bem na l\u00f3gica de \u201ctodos gozam dos mesmos objetos\u201d. Lembremos aqui o uso atual da palavra \u201ct\u00f3xica\u201d para se referir \u00e0s pessoas que est\u00e3o sempre se queixando, tornando o ambiente e as rela\u00e7\u00f5es da vida imposs\u00edveis.<\/p>\n<p>J\u00e1 o termo toxicomanias, no plural, marca bem a quest\u00e3o de que a singular rela\u00e7\u00e3o de um sujeito com uma subst\u00e2ncia a ser introduzida no corpo se d\u00e1 de forma \u00fanica para cada um. Considera assim que podemos ter pessoas usando a mesma subst\u00e2ncia, com frequ\u00eancia e quantidade iguais, mas em que a rela\u00e7\u00e3o man\u00edaca, bem como sua fun\u00e7\u00e3o na economia libidinal, ser\u00e1 diferente. E isso tem sua pertin\u00eancia e import\u00e2ncia para todos n\u00f3s do Campo Freudiano, que nos dedicamos a essa investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Com o pequeno detalhe de mudan\u00e7a de uma letra, x, Sinatra batiza como adix\u00e3o o nome sintom\u00e1tico do atual estado da civiliza\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cuma vers\u00e3o p\u00f3s-moderna da toxicomania generalizada. [&#8230;] o x de adix\u00e3o mostra a fixa\u00e7\u00e3o do gozo singular e inalterado que n\u00e3o pode ser apagado e traz a marca do obscuro gozo sinthom\u00e1tico de cada um, que resiste a ser catalogado e que descompleta a pretensa generaliza\u00e7\u00e3o do consumo que vale para todos\u201d (SINATRA, 2020, p. 97-98).<\/p>\n<p>Ressalto ainda a multiplica\u00e7\u00e3o de institui\u00e7\u00f5es totais aos moldes de comunidades ditas terap\u00eauticas em nosso pa\u00eds, o que aponta um retrocesso nos avan\u00e7os at\u00e9 ent\u00e3o conquistados. Assinalo aqui a import\u00e2ncia e a responsabilidade de servi\u00e7os de sa\u00fade do SUS, ou n\u00e3o, presentes na cidade fazerem valer a singularidade e trabalhar os preconceitos presentes dentro de cada um em rela\u00e7\u00e3o a esses falasseres.<\/p>\n<p>O que pode hoje a psican\u00e1lise? Penso que somente com a presen\u00e7a do discurso anal\u00edtico podemos vir a abalar e furar as bolhas de certeza do discurso do Outro social que tenta promover o bem geral, causando uma fratura da verdade, instaurando assim um campo aberto \u00e0 interroga\u00e7\u00e3o e considerando que a pol\u00edtica est\u00e1 no campo do discurso do Outro, no campo da divis\u00e3o.<\/p>\n<p>Lidar com a tirania do supereu com a qual o sujeito toxic\u00f4mano est\u00e1 submetido implica favorecer a desidentifica\u00e7\u00e3o dos S1 provenientes do campo do Outro e apostar na constru\u00e7\u00e3o do nome pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>Miller nos ensina que tratar o sintoma \u00e9 visar a fixidez do gozo, a opacidade do real, de modo que, a partir do \u00faltimo Lacan, em uma an\u00e1lise, trata de reduzir o sintoma \u00e0 sua f\u00f3rmula inicial, isto \u00e9, ao encontro material de um significante com o corpo; ao choque puro da linguagem sobre ele (MILLER, 2011b).<\/p>\n<p>O que pode o psicanalista hoje frente a tudo isso? Despindo de qualquer concep\u00e7\u00e3o ideal de cura, a aposta do analista \u00e9 sempre que o sujeito toxic\u00f4mano possa interrogar-se sobre o estreito la\u00e7o que o liga ao objeto e que possa fazer deslocamentos m\u00ednimos que o reconectem a seu desejo. O discurso anal\u00edtico pode ser uma importante ferramenta para questionarmos os corpos, os falasseres, seus gozos e tamb\u00e9m o discurso de nossa \u00e9poca, de tal sorte que este possa a vir a ser \u201cpartilhado pelo maior n\u00famero poss\u00edvel de sujeitos do corpo pol\u00edtico\u201d (LAURENT, 2016, p. 219).<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9.\u00a0<strong>O avesso da biopol\u00edtica:\u00a0<\/strong>uma escrita para o gozo. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2016.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. Intui\u00e7\u00f5es milanesas.\u00a0<strong>Op\u00e7\u00e3o\u00a0lacaniana online.<\/strong>\u00a0Nova s\u00e9rie. ano 2, n. 5, jul. 2011c. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_5\/Intui%C3%A7%C3%B5es_milanesas.pdf\">http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_5\/Intui%C3%A7%C3%B5es_milanesas.pdf<\/a>&gt; Acesso em:\u00a0 01 mar. 2022.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. O inconsciente e o corpo falante.\u00a0\u00a0<strong>Apresenta\u00e7\u00e3o do tema do X Congresso da AMP<\/strong>. Rio de Janeiro, 2016. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/www.wapol.org\/pt\/articulos\/Template.asp?intTipoPagina=4&amp;intPublicacion=13&amp;intEdicion=9&amp;intIdiomaPublicacion=9&amp;intArticulo=2742&amp;intIdiomaArticulo=9\">https:\/\/www.wapol.org\/pt\/articulos\/Template.asp?intTipoPagina=4&amp;intPublicacion=13&amp;intEdicion=9&amp;intIdiomaPublicacion=9&amp;intArticulo=2742&amp;intIdiomaArticulo=9<\/a>&gt;Acesso em: 01 mar. 2022.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. Semin\u00e1rio de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana. O ser e o um.\u00a0<strong>Orienta\u00e7\u00e3o lacaniana III<\/strong>, 13, VIII li\u00e7\u00e3o do curso (23 de mar\u00e7o de 2011.) In\u00e9dito. 2011a.<\/h6>\n<h6>MILLER. J-A. Ler um sintoma.\u00a0<strong>AMP<em>Blog<\/em>.<\/strong>\u00a001 ago. 2011b. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"http:\/\/ampblog2006.blogspot.com\/2011\/08\/jacques-alain-miller-ler-um-sintoma.html\">http:\/\/ampblog2006.blogspot.com\/2011\/08\/jacques-alain-miller-ler-um-sintoma.html<\/a>&gt;. Acesso em: 20 fev. 2022.<\/h6>\n<h6>SINATRA, E.\u00a0<strong>Adixiones<\/strong>. Olivos: Grama Ediciones, 2020.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/acontecimento-de-corpo#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a>Texto apresentado na abertura do N\u00facleo de Pesquisa e Investiga\u00e7\u00e3o em Psican\u00e1lise nas Toxicomanias e Alcoolismo \u2013 Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica do IPSM-MG, em 08 de mar\u00e7o de 2022.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MARIA WILMA S. DE FARIA Psicanalista, membro da EBP\/AMP Coordenadora da Rede TyA Brasil mwilma62@gmail.com RESUMO:\u00a0O corpo falante testemunha o discurso como la\u00e7o social e traz em si suas marcas enquanto corpo socializado. Tendo como refer\u00eancia o segundo ensino de Lacan, no que toca ao falasser pol\u00edtico, o texto indaga o que pode hoje a&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57819,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[25],"tags":[],"class_list":["post-1899","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-29","category-25","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1899","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1899"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1899\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57820,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1899\/revisions\/57820"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57819"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1899"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1899"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1899"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}