{"id":191,"date":"2023-08-15T19:24:18","date_gmt":"2023-08-15T22:24:18","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=191"},"modified":"2025-12-01T12:45:09","modified_gmt":"2025-12-01T15:45:09","slug":"alocucao-sobre-as-psicoses-na-infancia-uma-leitura-do-texto-lacaniano1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2023\/08\/15\/alocucao-sobre-as-psicoses-na-infancia-uma-leitura-do-texto-lacaniano1\/","title":{"rendered":"A locu\u00e7\u00e3o sobre as psicoses na inf\u00e2ncia: uma leitura do texto lacaniano<sup>[1]<\/sup>"},"content":{"rendered":"<h6><strong>Tereza Facury<br \/>\n<\/strong>Psicanalista<br \/>\n<span id=\"cloaka96c2a83096d2ee91ecdcb9fffa1105c\"><a href=\"mailto:terezafacury@gmail.com\">terezafacury@gmail.com<\/a><\/span><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/alocucao#_ednref1\" name=\"_edn1\"><\/a><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Resumo:<\/strong>\u00a0 A autora faz uma leitura comentada do texto de Lacan \u201cAlocu\u00e7\u00e3o sobre as psicoses na inf\u00e2ncia\u201d, de 1967, no qual ele nos adverte de que h\u00e1 uma segrega\u00e7\u00e3o que se amplia como efeito da progress\u00e3o da ci\u00eancia. Ele se antecipa aos acontecimentos que hoje presenciamos, como a segrega\u00e7\u00e3o, o racismo e a regula\u00e7\u00e3o pela norma que n\u00e3o d\u00e1 lugar \u00e0 exce\u00e7\u00e3o, temas que nos interessam especialmente no caso das crian\u00e7as as quais atendemos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Palavras-chave:<\/strong>\u00a0segrega\u00e7\u00e3o; gozo; crian\u00e7a generalizada; psicose.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ALLOCUTION ON PSYCHOSES IN CHILDHOOD: A READING OF THE LACANIAN TEXT<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Abstract:<\/strong>\u00a0The author makes a commented reading of Lacan\u2019s text \u201cAllocution on psychoses in childhood\u201d, from 1967, in which he warns us that there is a segregation that expands as an effect of the progression of science. He anticipates the events we witness today, such as segregation, racism and regulation by the norm that does give rise to exception, themes that interest us especially in the case of the children we assist in our clinical practice.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Keywords:<\/strong>\u00a0segregation;\u00a0<em>jouissance<\/em>; generalized child; psychosis.<\/p>\n<\/blockquote>\n<div id=\"attachment_192\" style=\"width: 719px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/tereza_facury.png\" data-dt-img-description=\"Imagem: Sofia NabucoNo ano de 1967, Maud Mannoni organiza o \u201cCongresso sobre a Inf\u00e2ncia Alienada\u201d, um col\u00f3quio muito ecl\u00e9tico que aglutinou psicanalistas de horizontes extremamente diversos em torno da cl\u00ednica das psicoses na inf\u00e2ncia.\" data-large_image_width=\"709\" data-large_image_height=\"709\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-192\" class=\"size-full wp-image-192\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/tereza_facury.png\" alt=\"\" width=\"709\" height=\"709\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/tereza_facury.png 709w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/tereza_facury-300x300.png 300w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/tereza_facury-150x150.png 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 709px) 100vw, 709px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-192\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Sofia NabucoNo ano de 1967, Maud Mannoni organiza o \u201cCongresso sobre a Inf\u00e2ncia Alienada\u201d, um col\u00f3quio muito ecl\u00e9tico que aglutinou psicanalistas de horizontes extremamente diversos em torno da cl\u00ednica das psicoses na inf\u00e2ncia.<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Primeira psicanalista a se dedicar \u00e0 escuta das crian\u00e7as d\u00e9beis e a problematizar a quest\u00e3o do corpo na debilidade, ela supunha que as crian\u00e7as d\u00e9beis e suas m\u00e3es viviam em uma fus\u00e3o de corpos associada \u00e0 presen\u00e7a de um ponto obscuro, n\u00e3o simbolizado na subjetividade materna e que por isso retorna no real do corpo do sujeito. Dessa forma, o enfoque da debilidade recai sobre a dualidade do v\u00ednculo da m\u00e3e com a crian\u00e7a d\u00e9bil, no qual ocorre uma preval\u00eancia do imagin\u00e1rio fantasm\u00e1tico da m\u00e3e como um orientador para a identifica\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a no espelho, em detrimento da a\u00e7\u00e3o do simb\u00f3lico sobre essa identifica\u00e7\u00e3o. O livro de Maud Mannoni,\u00a0<em>A crian\u00e7a atrasada e a m\u00e3e<\/em>, marca a entrada do d\u00e9bil na psican\u00e1lise. At\u00e9 ent\u00e3o, por um erro de interpreta\u00e7\u00e3o, ela estaria reservada \u00e0s pessoas inteligentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lacan valoriza essa abordagem de Maud Mannoni, por\u00e9m, faz um contraponto ao propor uma causa significante para a debilidade. Trata-se, para ele, conforme nos diz Suzana Barroso (2014, p. 49), dos \u201cefeitos no plano do imagin\u00e1rio corporal da crian\u00e7a do mecanismo da hol\u00f3frase, a saber, a fus\u00e3o ao n\u00edvel da cadeia significante [&#8230;], pois implica a posi\u00e7\u00e3o de crian\u00e7a-objeto condensador de gozo do Outro.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entretanto, para Lacan, n\u00e3o se trata de uma fus\u00e3o entre o corpo da m\u00e3e e o da crian\u00e7a, mas, sim, da primeira dupla de significantes que se solidificam, ou seja, uma fus\u00e3o ao n\u00edvel da cadeia significante e seus efeitos, tal como encontramos no Semin\u00e1rio 11:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chegaria at\u00e9 a formular que, quando n\u00e3o h\u00e1 intervalo entre S1 e S2, quando a primeira dupla de significantes se solidifica, se holofraseia, temos o modelo de toda uma s\u00e9rie de casos \u2013 ainda que, em cada um, o sujeito n\u00e3o ocupe o mesmo lugar. (LACAN, 1964\/1985, p. 231)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>O Congresso sobre a Inf\u00e2ncia Alienada<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Convidado a falar de improviso no encerramento desse Congresso, Lacan (1967\/2003, p. 361) se refere a esse convite como \u201ca este lugar, [&#8230;] de ter que nos interrogar [&#8230;], sobre o que faz\u00edamos em decorr\u00eancia dessa obra, e, para tanto, remontar a ela\u201d. Ele se referia, \u00e9 claro, \u00e0 obra de Freud, se colocando em desacordo com os p\u00f3s-freudianos ao argumentar: \u201cN\u00e3o menos not\u00e1vel \u00e9 que nada tenha sido mais raro, em nossas coloca\u00e7\u00f5es destes dois dias, do que o recurso a um desses termos que podemos chamar rela\u00e7\u00e3o sexual (para deixar de lado o ato), inconsciente e gozo\u201d. Destaca, ainda, que o fato de n\u00e3o levarem em conta a presen\u00e7a do gozo e da linguagem na rela\u00e7\u00e3o m\u00e3e-crian\u00e7a fornece sustenta\u00e7\u00e3o \u00e0 \u201cuma fantasia posti\u00e7a \u2013 a da harmonia no habitat materno\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos anos 1970, Maud Mannoni assume uma posi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica com rela\u00e7\u00e3o ao diagn\u00f3stico e \u00e0 cl\u00ednica estrutural, assim como em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s institui\u00e7\u00f5es para psic\u00f3ticos. Defensora de uma pr\u00e1tica libert\u00e1ria, ela distanciou-se da orienta\u00e7\u00e3o lacaniana, identificando-se com a proposta existencialista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa pr\u00e1tica libert\u00e1ria \u00e9 exatamente um dos pontos observados por Lacan quando, ao final do Congresso, ele \u00e9 convidado a se pronunciar. Ele adverte quanto ao fato de que essa liberdade, sugerida por uma pr\u00e1tica dirigida a esses sujeitos, traz em si seu limite e seu engodo. A quest\u00e3o \u00e9 como podemos apreender a refer\u00eancia a partir da qual podemos trat\u00e1-los sem cairmos nesse engodo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele evoca os debates ocorridos entre ele e Henri Ey, sobre a associa\u00e7\u00e3o entre loucura e liberdade. Evocar a liberdade como forma de tratamento da psicose \u00e9 acreditar que o psic\u00f3tico sofreria de uma repress\u00e3o social. Liberdade em nome de experimentar sem empecilhos o gozo. Temos um exemplo disso na suposi\u00e7\u00e3o dos p\u00f3s-freudianos de que a rela\u00e7\u00e3o da m\u00e3e com a crian\u00e7a se daria em um ambiente de total harmonia. Pelo contr\u00e1rio, entre a m\u00e3e e a crian\u00e7a h\u00e1 o Outro. Lacan n\u00e3o pensava que a loucura era um insulto \u00e0 liberdade, ao contr\u00e1rio, ele pensava que liberdade e loucura eram indissoluvelmente ligadas. O que Lacan escreve \u00e9 que toda \u201cforma\u00e7\u00e3o humana\u201d tem de refrear o gozo. O aporte de Freud n\u00e3o diz respeito a uma \u00e9tica do princ\u00edpio do prazer, ao contr\u00e1rio, \u00e9 saber atrav\u00e9s do discurso qual a rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o gozo. \u00c9 por isso que Lacan retoma junto aos psicanalistas a import\u00e2ncia do princ\u00edpio da \u00e9tica, tal como colocado pela psican\u00e1lise.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando Lacan (1967\/2003) nos adverte de que h\u00e1 uma segrega\u00e7\u00e3o que se amplia como efeito da progress\u00e3o da ci\u00eancia, ele se antecipa aos acontecimentos que hoje presenciamos \u2013 a segrega\u00e7\u00e3o, o racismo, a regula\u00e7\u00e3o pela norma que n\u00e3o d\u00e1 lugar \u00e0 exce\u00e7\u00e3o \u2013 e que nos interessam especialmente no caso das crian\u00e7as que atendemos. E, continua, trata-se de saber como n\u00f3s psicanalistas responderemos \u00e0 segrega\u00e7\u00e3o trazida \u00e0 ordem do dia por uma subvers\u00e3o sem precedentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao tomar a segrega\u00e7\u00e3o como efeito da universaliza\u00e7\u00e3o, entram em jogo modifica\u00e7\u00f5es nas estruturas sociais e, consequentemente, na vida das pessoas, e isso incide na nossa pr\u00e1tica anal\u00edtica ao tratarmos o gozo em quest\u00e3o no sintoma. Lacan se pergunta como os psicanalistas v\u00e3o responder a essa segrega\u00e7\u00e3o posta na ordem do dia por uma subvers\u00e3o sem precedentes. A segrega\u00e7\u00e3o faz parte de toda opera\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica e faz-se presente na alteridade do gozo na tentativa de resistir a integrar a pr\u00f3pria rede de refer\u00eancia e significa\u00e7\u00f5es a partir de um n\u00e3o-saber sobre o gozo (MAC\u00caDO, 2017).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo Laurent (1999), Lacan j\u00e1 enfatizava que, para localizar o gozo em quest\u00e3o para a crian\u00e7a, somos obrigados a levar em conta o tratamento do gozo em uma escala que n\u00e3o \u00e9 a escala familiar de tratamento do gozo pela met\u00e1fora paterna, o \u00c9dipo. Os Semin\u00e1rios de Lacan posteriores a essa \u00e9poca apontam um caminho te\u00f3rico que nos conduz a como os psicanalistas t\u00eam abordado o gozo e o falo imagin\u00e1rio, uma vez que j\u00e1 se apresentavam insuficientes. O estatuto do pai moderno \u00e9 do pai falido, humilhado, do qual se espera que trabalhe e promova o sustento da casa. Ele tem um estatuto que se reorganiza para assegurar a distribui\u00e7\u00e3o do gozo de maneira conveniente e, para tal, j\u00e1 n\u00e3o contamos com o pai. Os discursos organizam o mundo e o sujeito vai se inscrever a\u00ed apesar do pai (LACAN, 1967\/2003).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parece ficar claro que Lacan, ao perguntar sobre como n\u00f3s psicanalistas podemos estar nesse mundo de mudan\u00e7a e ao mesmo tempo tomar uma dist\u00e2ncia para que seja poss\u00edvel tratar o gozo em quest\u00e3o no sintoma, nos aponta que o caminho \u00e9 a \u00e9tica acompanhada da constru\u00e7\u00e3o de uma teoria a partir de Freud que nos oriente para que possamos acompanhar os efeitos no real das mudan\u00e7as que ele predizia nesse momento. Por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 sem alegria. Uma pergunta a ser atualizada \u00e0 atualidade do nosso tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>A crian\u00e7a, seu corpo e a m\u00e3e<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A abordagem dos temas pertinentes \u00e0 rela\u00e7\u00e3o m\u00e3e-crian\u00e7a e dos efeitos na civiliza\u00e7\u00e3o do progresso da ci\u00eancia convergem na express\u00e3o \u201ccrian\u00e7a generalizada\u201d (LACAN, 1967\/2003, p. 367). Lacan fala sobre tais temas \u2013 o lugar de objeto da crian\u00e7a na rela\u00e7\u00e3o com a m\u00e3e, o gozo, o inconsciente, o corpo, a rela\u00e7\u00e3o sexual que n\u00e3o existe, o real como imposs\u00edvel articulado ao discurso da ci\u00eancia e ao discurso do analista \u2013 como sendo uma b\u00fassola que orienta nosso trabalho na cl\u00ednica com crian\u00e7as e, nesse sentido, as psicoses infantis s\u00e3o, para n\u00f3s, um campo f\u00e9rtil de aprendizagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os analistas p\u00f3s-freudianos n\u00e3o falaram durante o Congresso sobre esses temas e por isso eles atra\u00edram a aten\u00e7\u00e3o de Lacan. Sua cr\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 exist\u00eancia de um mito, preconizada por eles, de uma fantasia posti\u00e7a na rela\u00e7\u00e3o m\u00e3e-crian\u00e7a, se deve ao fato deles n\u00e3o se darem conta, na rela\u00e7\u00e3o m\u00e3e-crian\u00e7a, da presen\u00e7a da dimens\u00e3o do gozo e da linguagem e da fantasia como aquilo que articula o desejo e o gozo. Por isso, Lacan aponta o preconceito irredut\u00edvel de que \u00e9 sobrecarregada a refer\u00eancia ao corpo enquanto esse mito n\u00e3o for suspenso. Esse mito produz uma elis\u00e3o que pode ser notada a partir da no\u00e7\u00e3o de objeto\u00a0<em>a<\/em>, embora seja ele mesmo o que \u00e9 elidido. A elis\u00e3o s\u00f3 \u00e9 compreendida ao \u201cse opor que seja o corpo da crian\u00e7a o que corresponda ao objeto\u00a0<em>a<\/em>\u201d (LACAN, 1967\/2003, p. 366).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Laurent (1999), o deslocamento da crian\u00e7a do falo ao objeto\u00a0<em>a<\/em>\u00a0tem na teoria uma fun\u00e7\u00e3o de b\u00e1scula que afeta, inclusive, o fim da an\u00e1lise da crian\u00e7a. S\u00e3o duas formas de conceber os problemas, a realiza\u00e7\u00e3o f\u00e1lica e a separa\u00e7\u00e3o do objeto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lacan \u00e9 muito mais prudente nesses anos, o que o leva a pensar que, para assegurar-se de que o corpo da crian\u00e7a n\u00e3o corresponda ao objeto\u00a0<em>a<\/em>, \u00e9 necess\u00e1rio algo mais do que apostar no pai. N\u00e3o se trata de anular a teoria f\u00e1lica precedente, \u201cEste valor f\u00e1lico tipifica a crian\u00e7a no sexo, d\u00e1 \u00e0 crian\u00e7a uma orienta\u00e7\u00e3o sobre o sexo e \u00e9 o que a permite apostar no pai\u201d (LAURENT, 1999, p. 42). Se separa por constru\u00e7\u00f5es de fic\u00e7\u00e3o, fic\u00e7\u00f5es reguladoras que permitam operar de algum modo a separa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA quest\u00e3o est\u00e1 em saber se, pelo fato da ignor\u00e2ncia em que \u00e9 mantido esse corpo pelo sujeito da ci\u00eancia, haver\u00e1 direito de fazer a esse corpo peda\u00e7os para o interc\u00e2mbio\u201d (LACAN, 1967\/2003, p. 367). Assim, ele pensava que o problema da \u00e9poca seria o recorte do corpo em peda\u00e7os que circulariam em nome do liberalismo. Nos anos 90 ele anuncia os col\u00f3quios sobre \u00e9tica da ci\u00eancia e a bio\u00e9tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No caso espec\u00edfico da crian\u00e7a, a constru\u00e7\u00e3o da fantasia consiste em um modo dela se assegurar de que seu corpo n\u00e3o v\u00e1 responder ao objeto\u00a0<em>a,<\/em>\u00a0que n\u00e3o seja o objeto de gozo da m\u00e3e. Portanto, construir uma fantasia que o anima, com a vers\u00e3o do objeto que disponha segundo sua idade, \u00e9 uma possibilidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aqui nos cabe perguntar qual tratamento podemos deduzir para a psicose infantil. Para Laurent (1999, p. 42), seria dar uma vers\u00e3o do objeto\u00a0<em>a<\/em>. Ou seja, que a crian\u00e7a, inclusive a crian\u00e7a psic\u00f3tica, d\u00ea uma posi\u00e7\u00e3o de gozo, n\u00e3o de seu inconsciente; posi\u00e7\u00e3o de gozo tal como Lacan utiliza em \u201cPosi\u00e7\u00e3o do inconsciente\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Crian\u00e7a generalizada<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que est\u00e1 em quest\u00e3o no uso do termo \u201ccrian\u00e7a generalizada\u201d \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o gozo, seja ele o adulto ou a crian\u00e7a. Se n\u00e3o existe \u201cgente grande\u201d, como confessa o capel\u00e3o ao poeta Andr\u00e9 Maulraux, todos somos crian\u00e7as? Portanto, o que separa o adulto da crian\u00e7a n\u00e3o seria a cronologia, nem a puberdade, mas, sim, a responsabilidade do sujeito com rela\u00e7\u00e3o ao seu modo de gozo. O que separa uma crian\u00e7a da pessoa maior \u00e9 a \u00e9tica que cada um faz de seu gozo. A grande pessoa \u00e9 aquela que se faz respons\u00e1vel pelo seu gozo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fran\u00e7ois Leguil (2001, p. 145), em seu texto \u201cAs crian\u00e7as contumazes\u201d, diz que:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\">A grande pessoa desaparece na crian\u00e7a e, por \u201cnecessidade\u201d, a conting\u00eancia passa ao contingenciamento. As crian\u00e7as, as ci\u00eancias da educa\u00e7\u00e3o as classificam, avaliam-nas, ordenam-nas, comparam-nas, separam-nas, emparelham-nas, repartem-nas [&#8230;], isso \u00e9 um encarceramento e, mesmo sendo epistemol\u00f3gico, n\u00e3o deixa de ser segregativo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A psicologia com seus mitos de harmonia e desarmonia evolutivas, est\u00e1 de acordo com um tempo em que essa era a norma que faz de um sujeito uma grande pessoa. O que Lacan prop\u00f5e \u00e9 que o sujeito enfim em quest\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\">n\u00e3o \u00e9 mais o sujeito que a religi\u00e3o do pai cernia em sua dignidade, e sim o sujeito do inconsciente, &#8230; , esse sujeito do inconsciente \u00e9 o sujeito da ci\u00eancia. E este \u00e9 a \u201cresposta do real\u201d. (LEGUIL, 2001, p. 145)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, ent\u00e3o, o que \u00e9 uma grande pessoa?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Leguil (2001, p. 146) discute se a grande pessoa seria determinada pela condi\u00e7\u00e3o \u201cser pai\u201d e, nessa ocasi\u00e3o, evoca a no\u00e7\u00e3o de autoridade:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\">o saber sobre o pretenso \u201cdesenvolvimento\u201d da crian\u00e7a se edifica no lugar do que se poderia, de outro modo, construir da a\u00e7\u00e3o paterna. O pai, sua autoridade, hoje j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais isso que faz de uma crian\u00e7a uma grande pessoa. E de nada serve ir contra, tal como aqueles que pensam que a solu\u00e7\u00e3o \u00e9 \u201cinstitucional\u201d e que \u00e9 necess\u00e1rio \u201crestaurar a lei do pai\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sabemos que Lacan, em v\u00e1rios lugares de seu ensino, mencionou que o respeito que o pai pode obter de seus filhos depende da demonstra\u00e7\u00e3o que ele soube lhes transmitir, ou seja, de que a m\u00e3e deles causava seu desejo. Ou seja, que a m\u00e3e deles n\u00e3o era toda m\u00e3e. Portanto, o que faz uma grande pessoa \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o que ele entret\u00e9m com o gozo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Leguil (2001, p. 146) arrisca um palpite e tenta adivinhar porque Lacan se distancia de alguns autores com quem ele mantinha uma interlocu\u00e7\u00e3o. Para ele, o que estaria em quest\u00e3o nesse debate \u00e9 que \u201cquando o gozo se torna pecado, o sujeito que se coloca na medida do dever prescrito pelo Outro \u2018experimenta\u2019 naturalmente sua indignidade\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A idade do sujeito, para a psican\u00e1lise, depende da demanda mesma, e os sujeitos t\u00eam a idade da sua demanda. Para Leguil (2001, pp. 150), \u201ca-grande-pessoa-que-n\u00e3o-h\u00e1\u201d \u00e9 o sujeito das teorias sexuais infantis de Freud<em>.\u00a0<\/em>Sua ideia \u00e9 a de que \u201cAl\u00e9m da fantasia existem de fato grandes pessoas, de quem o particular, enfim reconhecido dos res\u00edduos do recalque, n\u00e3o torna t\u00e3o f\u00e1cil catalog\u00e1-las, como os psiquiatras acreditaram pode realizar com os fatos da pervers\u00e3o\u201d (LEGUIL, 2001, p. 147). E lan\u00e7a uma pergunta: o que a psican\u00e1lise tem a propor no lugar do mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o, em que \u201co decl\u00ednio da autoridade paterna, numa metamorfose social atravessada pela acelera\u00e7\u00e3o das t\u00e9cnicas, abandonar\u00e1 os sujeitos aos efeitos de um saber sempre mais segregativo?\u201d (LEGUIL, 2001, p. 147).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o h\u00e1, assim, a grande pessoa, a n\u00e3o ser que, com Freud, \u201cn\u00e3o sem alguma antinomia com a seguran\u00e7a da \u00e9tica utilitarista, coloquemos o gozo no seu lugar que \u00e9 central, para apreciar tudo que, ao longo da hist\u00f3ria, se afirma como moral\u201d (LACAN, 1967\/2003, p. 299).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que seria ent\u00e3o? Do que a psican\u00e1lise poderia dispor para responder a esse desafio coletivo de que n\u00e3o h\u00e1 mais grandes pessoas, uma vez que sua experi\u00eancia repousa somente sobre a palavra?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os imperativos taxin\u00f4micos s\u00e3o c\u00famplices do poder segregativo, e com as crian\u00e7as \u201ca coisa \u00e9 mais sens\u00edvel\u201d, seja com as crian\u00e7as como inf\u00e2ncia, seja com as crian\u00e7as da \u201cgrande-pessoa-que-n\u00e3o-h\u00e1\u201d. O saber constitu\u00eddo em uma norma funciona como significante mestre, por isso a consequ\u00eancia \u00e9 sempre pol\u00edtica, e Lacan a nomeia segrega\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 a pr\u00e1tica da transfer\u00eancia desorganiza todos os saberes. O psicanalista opera sobre a fantasia a partir de sintoma, esse \u00e9 a sua refer\u00eancia, e s\u00f3 temos conhecimento dele porque ele nos \u00e9 endere\u00e7ado. \u00c9 o que Miller nomeava em 1982 como \u201ccl\u00ednica sob transfer\u00eancia\u201d, e essa cl\u00ednica, por sua natureza, interdita qualquer classifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Leguil (2001, p. 150), \u201ca segrega\u00e7\u00e3o come\u00e7a com a nega\u00e7\u00e3o do \u2018isso se endere\u00e7a a mim\u2019, a mim que sou constitu\u00eddo por este endere\u00e7amento, quando minha oferta mesma o produziu\u201d. E a demanda se constitui com o desejo inconsciente. Considerar a presen\u00e7a do sujeito do desejo pode interditar a edifica\u00e7\u00e3o do saber normatizado, pois o \u201cdesejo \u00e9 articul\u00e1vel e n\u00e3o articulado\u201d. Somente a difus\u00e3o de um saber extra\u00eddo da pr\u00e1tica de uma transfer\u00eancia pode ir contra a segrega\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A combina\u00e7\u00e3o dos dois discursos, o da ci\u00eancia e o do capitalismo, se tornou mais frequente, de tal forma que conseguiu romper os fundamentos de uma tradi\u00e7\u00e3o como a do Nome-do-Pai. Segundo Miller (2014), o pr\u00f3prio Lacan rebaixou essa fun\u00e7\u00e3o, Nome-do-Pai, ao fazer dela n\u00e3o mais do que um\u00a0<em>sinthoma<\/em>, uma supl\u00eancia do furo. Esse rebaixamento na cl\u00ednica introduz algo in\u00e9dito como perspectiva, expresso por Lacan ao dizer \u201cTodo mundo \u00e9 louco, isto \u00e9, delirante\u201d. Tal aforismo \u00e9 a tradu\u00e7\u00e3o da categoria da loucura estendida a todos os seres falantes que sofrem da mesma car\u00eancia de saber concernente \u00e0 sexualidade. E isso abala a base do diagn\u00f3stico psicanal\u00edtico, que \u00e9 a diferen\u00e7a entre neurose e psicose.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Palomera (2019) comenta que Lacan, ao escrever a frase \u201cTodo mundo \u00e9 louco\u201d, quis ser provocativo frente aos ideais coletivos da sa\u00fade mental, o que n\u00e3o significa uma aboli\u00e7\u00e3o da cl\u00ednica, mas, sim, que n\u00e3o h\u00e1 nenhuma possibilidade de alcan\u00e7ar normas comuns e que, quanto mais globalizados os ideais da civiliza\u00e7\u00e3o, mais comuns ser\u00e3o os espa\u00e7os de civiliza\u00e7\u00e3o, e lembra que, se algum dia chegarmos ao ponto de fazer uma norma para tudo, o pesadelo \u201cTodo mundo est\u00e1 louco\u201d ser\u00e1 realizado.<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">BARROSO, S.\u00a0<em>As psicoses na inf\u00e2ncia<\/em>: o corpo sem a ajuda de um discurso estabelecido. Belo Horizonte: Scriptum Livros, 2014.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">LACAN, J. Alocu\u00e7\u00e3o sobre as psicoses das crian\u00e7as. In:\u00a0<em>Outros escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. (Trabalho original proferido em 1967).<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">LACAN, J.\u00a0<em>O Semin\u00e1rio, livro 11<\/em>: Os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008. (Trabalho original proferido em 1964).<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">LAURENT, \u00c9. Hay um fin de analisis para los ni\u00f1os. In:\u00a0<em>Hay um fin de analisis para los ni\u00f1os<\/em>. Buenos Aires: Coleccion Diva,1999.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">LEGUIL, F. As crian\u00e7as contumazes.\u00a0<em>Revista Curinga \u2013 Lacan e a lei<\/em>, n. 17, nov. 2001.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">MAC\u00caDO, L. Lacan e a segrega\u00e7\u00e3o.\u00a0<em>Revista Curinga \u2013 Tempos de Segrega\u00e7\u00e3o<\/em>, n. 44, jul\/dez. 2017.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">MILLER, J.-A. O real no s\u00e9culo XXI. Apresenta\u00e7\u00e3o do tema do IX Congresso da AMP. In: MACHADO, O.; RIBEIRO, V. A. (Org.).\u00a0<em>Scilicet<\/em>: o real no s\u00e9culo XXI. Belo Horizonte: Scriptum\/Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, 2014, p. 21-32.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">PALOMERA, V. Pr\u00f3logo. In:\u00a0<em>Un psicoanalista, int\u00e9rprete em la disc\u00f3rdia de los discursos<\/em>. Barcelona: Gredos, 2019.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/alocucao#refer1\">[1]<\/a><a id=\"nota1\"><\/a>\u00a0Texto apresentado no N\u00facleo de Pesquisa e Investiga\u00e7\u00e3o em Psican\u00e1lise com Crian\u00e7as em 19 de abril de 2023.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tereza Facury Psicanalista terezafacury@gmail.com &nbsp; Resumo:\u00a0 A autora faz uma leitura comentada do texto de Lacan \u201cAlocu\u00e7\u00e3o sobre as psicoses na inf\u00e2ncia\u201d, de 1967, no qual ele nos adverte de que h\u00e1 uma segrega\u00e7\u00e3o que se amplia como efeito da progress\u00e3o da ci\u00eancia. 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