{"id":1911,"date":"2022-07-19T06:41:42","date_gmt":"2022-07-19T09:41:42","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1911"},"modified":"2025-12-01T13:05:42","modified_gmt":"2025-12-01T16:05:42","slug":"comentarios-sobre-o-texto-ta-tudo-ao-contrario-a-crianca-seus-pais-e-a-via-do-equivoco1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2022\/07\/19\/comentarios-sobre-o-texto-ta-tudo-ao-contrario-a-crianca-seus-pais-e-a-via-do-equivoco1\/","title":{"rendered":"COMENT\u00c1RIOS SOBRE O TEXTO\u00a0  \u201cT\u00c1 TUDO AO CONTR\u00c1RIO\u201d:  A CRIAN\u00c7A, SEUS PAIS E\u00a0A VIA DO EQU\u00cdVOCO[1]\u00a0"},"content":{"rendered":"<h6>SANDRA MARIA ESPINHA OLIVEIRA<br \/>\nAnalista praticante, membro da EBP\/AMP<br \/>\n<a href=\"mailto:sandra_espinha@uol.com.br\">sandra_espinha@uol.com.br<\/a><\/h6>\n<h6>\n<strong>Resumo:\u00a0<\/strong>O texto \u00e9 um coment\u00e1rio do trabalho apresentado por Suzana Faleiro Barroso no N\u00facleo de Pesquisa em Psican\u00e1lise com Crian\u00e7as do IPSM-MG. Ele faz parte da pesquisa desenvolvida em torno do tema \u201cO falasser pol\u00edtico: a crian\u00e7a e seus pais\u201d e discorre sobre o que se revela nas novas configura\u00e7\u00f5es familiares como sendo a parte que retorna a cada falasser para fazer existir a fun\u00e7\u00e3o significante da fam\u00edlia no lugar onde se imp\u00f5e sua fun\u00e7\u00e3o de gozo. Trata-se de abordar a fam\u00edlia a partir do real \u2014 a partir do Um do gozo no qual a civiliza\u00e7\u00e3o atual est\u00e1 imersa \u2014 e demonstrar com fragmentos cl\u00ednicos como a psican\u00e1lise permite \u00e0 crian\u00e7a separar-se do lugar de objeto para reinventar sua fam\u00edlia frente \u00e0 desordem simb\u00f3lica que caracteriza a \u00e9poca atual e em oposi\u00e7\u00e3o aos discursos de remedia\u00e7\u00e3o cognitiva e comportamental que n\u00e3o levam em conta esse real.<\/h6>\n<h6><strong>Palavras-chave:<\/strong>\u00a0fam\u00edlias contempor\u00e2neas; o real da fam\u00edlia; crian\u00e7a-objeto\u00a0<em>a\u00a0<\/em>liberado; equ\u00edvoco.<\/h6>\n<h6><strong>\u201cI<\/strong><strong>t&#8217;s all backwards\u201d: the child, his parents and the way of misunderstanding &#8211; commentary<\/strong><\/h6>\n<h6><strong>Abstracts:\u00a0<\/strong>This text is a commentary on the work presented by Suzana Faleiro Barroso at the Center for Research in Psychoanalysis with Children at IPSM-MG and it is part of the research developed on the theme \u201cThe political parl\u00eatre: the child and its parents\u201d. It discusses that what is revealed in the new family configurations is what returns to each parl\u00eatre in an attempt to make the signifier function of the family exist where the function of jouissance is imposed. It is about approaching the family from the real \u2014 from the One of jouissance in which current civilization is immersed \u2014 and demonstrating with clinical fragments how psychoanalysis allows the child to separate from the place of object to reinvent their family in face of the symbolic disorder that characterizes the current era and in opposition to cognitive and behavioral remediation discourses that do not take this real into account.<\/h6>\n<h6><strong>Keywords:<\/strong>\u00a0contemporary families; the real of the family; child-liberated object\u00a0<em>a;<\/em>\u00a0misunderstanding.<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_1913\" style=\"width: 1290px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/suzanabarroso_nelsondealmeida-1.jpg\" data-dt-img-description=\"Imagem: Nelson de Almeida\" data-large_image_width=\"1280\" data-large_image_height=\"853\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1913\" class=\" wp-image-1913\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/suzanabarroso_nelsondealmeida-1-1024x682.jpg\" alt=\"\" width=\"553\" height=\"368\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1913\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Nelson de Almeida<\/p><\/div>\n<p><em>O inconsciente prov\u00e9m do la\u00e7o social<\/em><\/p>\n<p>Sobre a proposi\u00e7\u00e3o lacaniana \u201co inconsciente \u00e9 a pol\u00edtica\u201d, Miller esclarece que o inconsciente prov\u00e9m do la\u00e7o social porque a rela\u00e7\u00e3o sexual n\u00e3o existe (MILLER, 2011, p. 5). Segundo ele, o que se antecipa nessa proposi\u00e7\u00e3o \u00e9 a no\u00e7\u00e3o de discurso como la\u00e7o social, como o que ordena a imposs\u00edvel simboliza\u00e7\u00e3o do gozo humano. E \u00e9 porque a psican\u00e1lise \u00e9 um la\u00e7o social, um tratamento do gozo, que ela se encontra necessariamente implicada na dimens\u00e3o do pol\u00edtico. Nela, a separa\u00e7\u00e3o entre o individual e o coletivo deixa de existir como oposi\u00e7\u00e3o, tratando-se n\u00e3o de sair do campo do privado para o p\u00fablico, mas de \u201clocalizar o pol\u00edtico no campo do privado\u201d (BARROS, 2018, p. 36).<\/p>\n<p>A cada \u00e9poca, \u201ca m\u00e1quina original que coloca em cena o sujeito da civiliza\u00e7\u00e3o no momento atual (&#8230;) tamb\u00e9m condiciona a experi\u00eancia anal\u00edtica\u201d (MILLER, 2011, p. 3). Aqui, nosso interesse \u00e9 examinar, a partir dos fundamentos da psican\u00e1lise, o lugar da crian\u00e7a nas novas configura\u00e7\u00f5es familiares para buscar responder \u00e0 pergunta que fizemos: o que pode a psican\u00e1lise?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O real da fam\u00edlia<\/em><\/p>\n<p>Para \u00c9ric Laurent, a parentalidade, neologismo introduzido no final do s\u00e9culo XX para se referir a todas as classes de fam\u00edlia, e n\u00e3o falar de pai e de m\u00e3e, designa algo que concerne ao lado real da fam\u00edlia. \u201cA fam\u00edlia atual \u2014 diz ele \u2014 \u00e9 muito mais real do que simb\u00f3lica\u201d (LAURENT, 2018, p. 9, tradu\u00e7\u00e3o nossa). Esse car\u00e1ter real da fam\u00edlia, \u201cextremamente opaco e misterioso\u201d, que hoje n\u00e3o deixa evidente quem \u00e9 o pai e quem \u00e9 a m\u00e3e, \u00e9 tamb\u00e9m o que nos impede de reduzi-la a pai e m\u00e3e (BROWN, 2021).<\/p>\n<p>Em sua interven\u00e7\u00e3o nas Jornadas da \u00c9cole de la Cause Freudienne, de 2005, Miller destaca a lucidez de Lacan que, em \u201cNota sobre a crian\u00e7a\u201d, constata \u201co fracasso das utopias comunit\u00e1rias\u201d (LACAN, 1969\/2003, p. 369), em sua pretens\u00e3o de prescindir da fam\u00edlia, e a fun\u00e7\u00e3o de res\u00edduo que esta tem na evolu\u00e7\u00e3o das sociedades. Lacan diz que \u00e9 precisamente por se encontrar no estado de res\u00edduo, no estado de pequeno\u00a0<em>a<\/em>, que a fam\u00edlia conjugal vai se manter, devendo-se sua resist\u00eancia ao car\u00e1ter irredut\u00edvel da transmiss\u00e3o de um desejo n\u00e3o an\u00f4nimo, que \u00e9 constituinte para o sujeito.<\/p>\n<p>As utopias da \u00e9poca n\u00e3o impediram a exist\u00eancia de algo de irredut\u00edvel, de real, nas posi\u00e7\u00f5es de pai e de m\u00e3e (LAURENT, 2007, p. 41). Lacan distingue o realismo da estrutura da fam\u00edlia como res\u00edduo irredut\u00edvel dos semblantes que o revestem, ou seja, \u201cda incr\u00edvel diversidade sociol\u00f3gica das fam\u00edlias atuais\u201d (ROY, 2021, p. 2). Os marcos estruturais que Lacan identificou desde os \u201cComplexos familiares\u201d guardam seu valor no sentido do Desejo da m\u00e3e e da fun\u00e7\u00e3o do pai, dois princ\u00edpios que n\u00e3o se superp\u00f5em \u00e0 diferen\u00e7a dos sexos.<\/p>\n<p>Nenhuma nostalgia em Lacan, que diz n\u00e3o se afligir com o afrouxamento dos la\u00e7os de fam\u00edlia (LACAN, 1938\/2003, p. 66) nem ter fascina\u00e7\u00e3o pelo m\u00faltiplo dos costumes, mas \u201ca considera\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia como matriz do la\u00e7o social\u201d (ALBERTI, 2021, p. 17, tradu\u00e7\u00e3o nossa). Miller afirma que o la\u00e7o familiar \u00e9 uma forma particular de la\u00e7o social, podendo-se dizer que \u00e9 o \u00fanico la\u00e7o que se inscreve em uma rela\u00e7\u00e3o sonhada como natural, embora seja completamente desnaturalizada (MILLER, 2005, n.p.). A fam\u00edlia \u00e9 um modo de tratamento do gozo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Unidos pelo mal-entendido do gozo<\/em><\/p>\n<p>O decl\u00ednio do Pai e a ascens\u00e3o do objeto\u00a0<em>a\u00a0<\/em>ao Z\u00eanite social caracteriza a nossa \u00e9poca pela generaliza\u00e7\u00e3o do n\u00e3o-todo cujo corol\u00e1rio \u00e9 a inexist\u00eancia do Outro, visto que esse regime implica a impossibilidade da constru\u00e7\u00e3o de um universal. O reino do gozo n\u00e3o favorece a rela\u00e7\u00e3o com o Outro, mas a sua ruptura. Ele n\u00e3o favorece a dimens\u00e3o da filia\u00e7\u00e3o e da transmiss\u00e3o, mas o exerc\u00edcio do gozo pulsional do Um.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia atual entrou em uma l\u00f3gica do n\u00e3o-todo.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cMais do que nunca, as fam\u00edlias se reorganizam hoje seguindo as derivas do real da n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual e de uma economia do gozo que n\u00e3o se subordina a um significante em particular, seja ao do Nome do Pai ou a qualquer outro que quisesse substitu\u00ed-lo\u201d (BASSOLS, 2016, n.p.).<\/p>\n<p>Elas seguem a l\u00f3gica da equival\u00eancia entre significantes mestres que variam de acordo com as condi\u00e7\u00f5es de gozo e que, como afirma Roy, \u201cfundam uma rela\u00e7\u00e3o direta e sem media\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a com os pais, na medida em que (&#8230;) realizam um aglomerado de corpos em presen\u00e7a e concentram a aten\u00e7\u00e3o e a libido de todos\u201d (ROY, 2021, p. 1). Os v\u00ednculos familiares, em suas m\u00faltiplas formas atuais de uni\u00e3o, s\u00e3o baseados na liberdade do gozo, liberados da diferen\u00e7a sexual e constitu\u00eddos segundo formas singulares de gozo sintom\u00e1tico que n\u00e3o respondem ao modelo edipiano. Aqui, \u00e9 o al\u00e9m do \u00c9dipo que d\u00e1 uma forma l\u00f3gica a essas novas configura\u00e7\u00f5es familiares.<\/p>\n<p>Lacan colocou no cora\u00e7\u00e3o do casal n\u00e3o uma diferen\u00e7a, mas o mal-entendido entre os sexos e a solid\u00e3o do gozo de cada um. O que se revela na variedade das formas da fam\u00edlia atual e se encontrava velado nas sociedades patriarcais, permanecendo irredut\u00edvel, \u00e9 o traumatismo do gozo que est\u00e1 no cerne de toda forma\u00e7\u00e3o humana (LAURENT, 2007, p. 37). O segredo de toda fam\u00edlia reside no campo do gozo, seja ela organizada ou n\u00e3o pelas leis cl\u00e1ssicas do parentesco. Para Lacan, a fam\u00edlia tem sua origem no mal-entendido e est\u00e1 essencialmente unida por um segredo sobre o gozo (MILLER, 2007, n.p.). A fam\u00edlia \u00e9 uma resposta \u00e0 inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual e constitui-se como um sistema de semblantes que tentam ordenar o gozo, refre\u00e1-lo, vel\u00e1-lo.<\/p>\n<p>\u00c9 no segredo do gozo familiar que se encontra o fundamento da fam\u00edlia e se revela o que h\u00e1 de indissoci\u00e1vel entre fam\u00edlia e crise, no que Daniel Roy nos convida para mergulhar ao fazer da crise \u201co novo princ\u00edpio da fam\u00edlia p\u00f3s-moderna\u201d (ROY, 2021, p. 1). Trata-se de um convite para abordar a fam\u00edlia a partir do real, a partir do Um do gozo no qual a civiliza\u00e7\u00e3o atual est\u00e1 imersa e na qual, provindos da tecnologia, \u201cos objetos mais-de-gozar assumiram a autoridade e fundam a lei para todas as formas de ideal\u201d (ROY, 2001, p. 2).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u201cT\u00e1 tudo ao contr\u00e1rio\u201d \u2014 a crian\u00e7a como objeto a liberado<\/em><\/p>\n<p>Miller diz que, na contemporaneidade, \u201ca ordem simb\u00f3lica \u00e9 reconhecida como um sistema de semblantes que n\u00e3o comanda o real, mas lhe \u00e9 subordinada\u201d (MILLER, 2016, p. 31). O mesmo se revela na fam\u00edlia atual, que se apresenta como \u201cum artif\u00edcio subordinado ao real da inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o entre os sexos. (&#8230;) Os termos se inverteram: se antes a fam\u00edlia tentava ordenar o real do gozo, o real do gozo reordena hoje a fam\u00edlia\u201d (BASSOLS, 2016, n.p.).<\/p>\n<p>O que se revela nas novas configura\u00e7\u00f5es familiares \u00e9 que a inscri\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia no simb\u00f3lico \u201c\u00e9 a parte que retorna a cada um dos<em>\u00a0falasseres<\/em>, na medida em que eles fazem \u2014 ou n\u00e3o \u2014 existir a fun\u00e7\u00e3o significante da fam\u00edlia, ali onde se imp\u00f5e sua fun\u00e7\u00e3o de gozo\u201d (ROY, 2021, p. 3). Hoje, o que prevalece n\u00e3o s\u00e3o os significantes pai e m\u00e3e, mas o objeto crian\u00e7a.<\/p>\n<p>Segundo \u00c9ric Laurent, a partir da \u201cNota sobre a crian\u00e7a\u201d, quando Lacan formula que a crian\u00e7a realiza a presen\u00e7a do objeto\u00a0<em>a\u00a0<\/em>na fantasia materna, o ponto de partida para ler a cl\u00ednica da crian\u00e7a nos la\u00e7os familiares n\u00e3o \u00e9 mais a rela\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a com a m\u00e3e ou com o casal parental, organizada em torno da falta e do desejo, mas aquela da crian\u00e7a \u201ccapturada n\u00e3o em um Ideal, mas no gozo, no seu e no de seus pais\u201d (LAURENT, 2007, p. 44). Laurent esclarece que a presen\u00e7a da crian\u00e7a satura a falta da m\u00e3e e h\u00e1 realiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o do objeto que responde \u00e0 ang\u00fastia de castra\u00e7\u00e3o como opera\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, mas do objeto que responde \u00e0 ang\u00fastia ligada \u00e0 priva\u00e7\u00e3o como opera\u00e7\u00e3o real, objeto que aparece no real e que designa o ser do sujeito no ponto em que ele \u00e9 aus\u00eancia de representa\u00e7\u00e3o (LAURENT, 2018, p. 55).<\/p>\n<p>\u00c9 a partir desse ponto que, em RSI, as fun\u00e7\u00f5es do pai e da m\u00e3e no la\u00e7o com o objeto\u00a0<em>a<\/em>\u00a0passar\u00e3o a ser referidas por Lacan ao gozo em jogo no encontro sexual. O drama familiar ser\u00e1 retomado a partir do lugar de tamp\u00e3o do objeto\u00a0<em>a\u00a0<\/em>\u201cliberado\u201d pelo significante do \u023a, isto \u00e9, liberado pela estrutura. A crian\u00e7a ocupa por excel\u00eancia esse lugar. \u201cA crian\u00e7a \u00e9 o objeto\u00a0<em>a,\u00a0<\/em>vem no lugar do objeto\u00a0<em>a<\/em>, e \u00e9 a partir disso que a fam\u00edlia se estrutura\u201d (LAURENT, 2007, p. 44). A fam\u00edlia passa a ser pensada n\u00e3o mais a partir das estruturas ed\u00edpicas da met\u00e1fora paterna, n\u00e3o mais a partir do Outro, mas do Um. O que passa a importar \u00e9 a crian\u00e7a diante desse furo no real e a rela\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a com o corpo. Que o Outro n\u00e3o exista, isso n\u00e3o impede que ele tenha um corpo, corpo falante e subst\u00e2ncia gozante. Nos sintomas atuais das crian\u00e7as, trata-se de ler sua dificuldade \u201cpara se separar do lugar de resto de um discurso do mestre ou do gozo que a produziu\u201d (DRUMMOND, 2007, p. 4).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Os fragmentos cl\u00ednicos<\/em><\/p>\n<p>Os fragmentos de caso apresentados por Suzana Barroso evidenciam a insist\u00eancia do real do qual Lacan diz que depende o analista, que tem por miss\u00e3o contrari\u00e1-lo (LACAN, 1974\/2011, p.19). O real do qual as novas utopias da fam\u00edlia tentam dar conta atrav\u00e9s da ci\u00eancia e do direito retorna, como nos lembra Roy, na \u201ccrian\u00e7a terr\u00edvel\u201d, cujo corpo se recusa a ser mortificado por esses saberes. Observou-se, na maioria dos casos, a coloca\u00e7\u00e3o em jogo do corpo da crian\u00e7a: na agita\u00e7\u00e3o de Ant\u00f4nio, na agressividade incontida de Fernando, no sintoma som\u00e1tico do caso citado por Maleval.<\/p>\n<p>A agita\u00e7\u00e3o de Ant\u00f4nio e sua \u201cresist\u00eancia \u00e0 autoridade\u201d respondem ao sintom\u00e1tico da estrutura familiar revelando a verdade do casal, da qual seus pais nada querem saber. Ao aludir a essa verdade, a partir da fala da crian\u00e7a, a analista recebe dela a sua revela\u00e7\u00e3o: \u201cT\u00e1 tudo ao contr\u00e1rio\u201d. A chance de tomar a palavra e ser escutada, de separar-se do lugar de objeto do gozo, seu e de seus pais, e de surgir como sujeito foi-lhe, no entanto, retirada. Sua m\u00e3e preferiu trocar a fenda aberta pelo real do sintoma da crian\u00e7a pela cren\u00e7a na suposta \u201cautoridade da ci\u00eancia\u201d, que, ao contr\u00e1rio da psican\u00e1lise, foraclui o sujeito, fazendo-o se calar.<\/p>\n<p>A sigla TOD (transtorno opositor do desenvolvimento), recebida do psiquiatra, \u00e9 um entre os nomes que se proliferam neste mundo do Outro que n\u00e3o existe e transforma o sintoma em um transtorno para cujo tratamento \u00e9 indicada a pr\u00e1tica da fala autorit\u00e1ria e protocolar das TCCs. Para a psican\u00e1lise, os sintomas n\u00e3o s\u00e3o transtornos, n\u00e3o s\u00e3o dist\u00farbios ou desordens, eles s\u00e3o signos da n\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o sexual, s\u00e3o signos de um real sem lei e, pois, de um imposs\u00edvel que faz obje\u00e7\u00e3o \u00e0 onipot\u00eancia do discurso da ci\u00eancia (MILLER, 2005, p. 16), para a qual a escrita do real pela letra \u00e9 poss\u00edvel. Se a psican\u00e1lise, como a ci\u00eancia, trabalha com a materialidade da letra, excluindo o sentido, a escrita do real est\u00e1 nela presente sob a forma do imposs\u00edvel (BROUSSE, 2018, p. 86). A pr\u00e1tica lacaniana tem como princ\u00edpio o \u201cisso falha\u201d, que manifesta a rela\u00e7\u00e3o com um imposs\u00edvel que a conting\u00eancia demonstra. O objeto\u00a0<em>a\u00a0<\/em>comanda o \u201cisso falha\u201d na ordem sexual, e \u00e9 nesse lugar de objeto real das fic\u00e7\u00f5es atuais da fam\u00edlia que a crian\u00e7a faz obst\u00e1culo a elas (LAURENT, 2018, p. 76).<\/p>\n<p>\u201cT\u00e1 tudo ao contr\u00e1rio\u201d revela o que \u00e9 de estrutura para todos, ou seja, que \u00e9 o sujeito que tem o \u00f4nus de construir sua fam\u00edlia, verdade recalcada pela estrutura tradicional da experi\u00eancia humana. O segredo do gozo dos pais sempre fez enigma para o sujeito e \u00e9 desse real que prov\u00eam as fic\u00e7\u00f5es que a crian\u00e7a tecer\u00e1 para fazer borda a esse buraco da estrutura. \u201cA fam\u00edlia \u00e9 (&#8230;) uma cria\u00e7\u00e3o que se edifica do recalque\u201d (VINCIGUERRA, 2016, p. 3).<\/p>\n<p>\u00c9 ainda com sua \u201cresist\u00eancia \u00e0s autoridades\u201d que Ant\u00f4nio faz obje\u00e7\u00e3o a esse af\u00e3 contempor\u00e2neo de tomar a crian\u00e7a como objeto de cuidados, desconsiderando suas particularidades. Ao tentar igualar-se ao seu filho para lhe explicar o que n\u00e3o se deve fazer, a atitude de seu pai reflete uma tend\u00eancia atual de ignorar as particularidades do mundo da inf\u00e2ncia e apagar as diferen\u00e7as entre adultos e crian\u00e7as. Essa falsa igualdade substitui a hierarquia implicada no desejo. Ao definir o pai como vetor da encarna\u00e7\u00e3o da Lei no desejo, o pai \u00e9 concebido por Lacan como uma fun\u00e7\u00e3o que p\u00f5e um freio ao gozo, n\u00e3o apenas estabelecendo uma proibi\u00e7\u00e3o, mas autorizando uma via alternativa ao empuxo ao gozo mort\u00edfero, uma rela\u00e7\u00e3o confi\u00e1vel com o gozo distinta da permissividade e do hedonismo contempor\u00e2neos (COCCOZ, 2015, n.p.). \u00a0A autoridade se funda inicialmente sobre o que \u00e9 autorizado, e n\u00e3o sobre o proibido (LAURENT, 2007, p. 43).<\/p>\n<p>Esse caso revela ainda as consequ\u00eancias do novo estatuto da psican\u00e1lise no campo cultural atual que implica o manejo de uma transfer\u00eancia que n\u00e3o est\u00e1 mais estabelecida de entrada, como antes, e onde a destitui\u00e7\u00e3o do saber e o mal-entendido do gozo encontram-se imediatamente em jogo. A transfer\u00eancia passa a ser o piv\u00f4 da suposi\u00e7\u00e3o de saber, uma vez que \u00e9 o amor que pode fazer media\u00e7\u00e3o entre os Uns-sozinhos e fazer existir o inconsciente como saber (MILLER, 2005, p. 18).<\/p>\n<p>Fernando, por sua vez, tamb\u00e9m nos remete a uma cl\u00ednica da crian\u00e7a da era p\u00f3s-patriarcal. A \u201cagressividade incontida\u201d da crian\u00e7a, em casa e na escola, tamb\u00e9m revela a verdade do drama familiar: a insufici\u00eancia da fun\u00e7\u00e3o paterna para separ\u00e1-la do gozo opaco de sua m\u00e3e, \u201cque se esmera em proteg\u00ea-la da agressividade paterna\u201d. A m\u00e3e chora junto com o filho quando se trata de se separar dele. O que a exaspera nessa \u201ccrian\u00e7a terr\u00edvel\u201d \u00e9 o ato ao qual seu filho recorre para a\u00ed introduzir uma falta e denunciar o quanto ela se protege ao proteg\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Miller, ao abordar a viol\u00eancia na crian\u00e7a como uma satisfa\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria puls\u00e3o de morte, como um gozo em si mesma, esclarece que \u00e9 apenas em um segundo momento que se buscar\u00e1 a causa ou o mais-de-gozar que \u00e9 o fundamento do desejo de destruir e que \u201cse encontra, de um modo geral, numa falha do processo de recalcamento ou, em termos ed\u00edpicos, num defeito da met\u00e1fora paterna\u201d (MILLER, 2017, p. 28).<\/p>\n<p>J\u00e1 em seu primeiro encontro, a analista abre para Fernando a possibilidade de essa crian\u00e7a \u201cdecifrar as coordenadas do lugar que ela ocupa para seus pais (&#8230;) com os significantes que ela recolhe [e] que assumem o valor singular de gozo pulsional que os lastreia\u201d (ROY, 2021, p. 3). Sem atac\u00e1-la de frente, como nas TCCs, a viol\u00eancia da crian\u00e7a \u00e9 acolhida pela analista \u201cpor meio da suavidade \u2014 como aconselha Miller \u2014 sem renunciar a manejar (&#8230;) uma contr<u>a<\/u>\u00a0viol\u00eancia simb\u00f3lica\u201d (MILLER, 2017, p. 30). Atenta ao acontecimento de corpo na crian\u00e7a e levando em conta o corpo do Outro, seu regime de gozo, a analista sustenta a palavra como operadora essencial do recalque e prop\u00f5e, \u00e0 \u201cpo\u00e7\u00e3o de loucura\u201d feita pelo pai, que a crian\u00e7a diz ter ingerido, uma \u201cpo\u00e7\u00e3o contra-loucura\u201d, um S<sub>2<\/sub>\u00a0que faz surgir o efeito-sujeito e mostra que a viol\u00eancia dessa crian\u00e7a \u00e9 uma viol\u00eancia simboliz\u00e1vel.<\/p>\n<p>A entrada da crian\u00e7a no discurso anal\u00edtico faz da analista uma presen\u00e7a que n\u00e3o \u00e9 da fam\u00edlia, mas que possibilita \u00e0 crian\u00e7a a constru\u00e7\u00e3o de uma, uma vez que partimos do ponto de vista de que \u201cn\u00e3o existe ser falante que n\u00e3o seja de uma fam\u00edlia\u201d (ROY, 2021, p. 4). O efeito da entrada nesse novo discurso \u00e9 a organiza\u00e7\u00e3o do campo da met\u00e1fora, que localiza o gozo fora do corpo com os recursos de que a crian\u00e7a disp\u00f5e. A aposta da analista no inconsciente mostra o efeito surpreendente da significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica que surge de uma constru\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea da crian\u00e7a: a substitui\u00e7\u00e3o da \u201cpo\u00e7\u00e3o de loucura\u201d pela \u201cpo\u00e7\u00e3o de bravura\u201d do pai, com cujo semblante ela busca se identificar para escapar da voracidade do Outro materno. \u201cN\u00e3o h\u00e1 fam\u00edlia t\u00e3o bizarra, constela\u00e7\u00e3o familiar t\u00e3o desregulada, t\u00e3o distante do paradigma pequeno burgu\u00eas, que o g\u00eanio do inconsciente n\u00e3o possa retificar pelo s\u00edmbolo, pela imagem, pelo escrito. (&#8230;) O pai da palavra suplanta o pai de fam\u00edlia\u201d (COTTET, 2006, n.p., tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/p>\n<p>Para colocar um pouco de ordem na desordem familiar que invade seu corpo e contra a qual ele se revolta, Fernando voltar\u00e1 a recorrer \u00e0 \u201cpo\u00e7\u00e3o-contra\u201d oferecida pela analista para tomar dist\u00e2ncia do significante \u201cagressivo\u201d que, em suas encena\u00e7\u00f5es, ele mostra \u00e0 analista como lhe \u00e9 injetado goela abaixo pelo Outro.<\/p>\n<p>O sintoma f\u00f3bico, presente nos fragmentos dos casos conduzidos por Maleval e Mariage, \u00e9 tamb\u00e9m um sintoma relacionado \u00e0 car\u00eancia paterna frente ao encontro com a castra\u00e7\u00e3o do Outro materno. Lacan o analisa como uma supl\u00eancia significante \u00e0 car\u00eancia paterna, mas tamb\u00e9m na vertente do objeto\u00a0<em>a\u00a0<\/em>e dos seus efeitos de intrus\u00e3o no campo do imagin\u00e1rio<em>.<\/em><\/p>\n<p>Se o caso apresentado por Maleval demonstra a intrus\u00e3o do gozo no imagin\u00e1rio do corpo pelo sintoma som\u00e1tico como resposta \u00e0 rejei\u00e7\u00e3o do simb\u00f3lico promovida pelas TCCs, no caso analisado por V\u00e9ronique Mariage, o efeito retorna no n\u00edvel significante da \u201cfala TCC\u201d da crian\u00e7a. Na perspectiva das TCCs, a escuta protocolar e de puro semblante implica uma recusa do sintoma, seja como sentido, seja como gozo. Do lado do sentido, h\u00e1 uma acolhida, mas tamb\u00e9m sua homogeneiza\u00e7\u00e3o; do lado do real do gozo, o sintoma \u00e9 suprimido por sua redu\u00e7\u00e3o ao \u201cdist\u00farbio\u201d. Como diz Suzana Barroso, os diagn\u00f3sticos catalogados pelas TCCs resultam no congelamento da l\u00f3gica bin\u00e1ria do significante e no incentivo ao imp\u00e9rio do Um (BARROSO, 22\/06\/2022).<\/p>\n<p>Uma an\u00e1lise, ao contr\u00e1rio, se inaugura pela instala\u00e7\u00e3o do inconsciente transferencial, pelo la\u00e7o associativo de dois significantes S1 \u2192 S2 a fim de percorrer os labirintos do gozo no qual o sintoma est\u00e1 enla\u00e7ado e chegar \u00e0s rela\u00e7\u00f5es do sujeito com os objetos de seu gozo. O caso de Florette, conduzido por Mariage, mostra como a oferta da palavra se faz passar do gozo ao desejo. O medo da mordida do cachorro acaba por revelar a marca do desejo do sujeito. Como em Hans, o encontro com a analista ofereceu-lhe a possibilidade de aceder ao saber inconsciente. O encontro com Freud, que comunica a Hans o que seu inconsciente j\u00e1 havia interpretado, traduzindo \u201cmedo de cavalo\u201d por \u201cmedo do pai\u201d, permite a inven\u00e7\u00e3o de uma fic\u00e7\u00e3o excepcional por meio da qual ele constr\u00f3i um objeto destac\u00e1vel do corpo que o dispensa de sua fobia. Hans se separa do gozo veiculado pelo significante cavalo, que iterava sem o representar e o aprisionava nos limites estreitos impostos pelo sintoma. Em torno desse significante, Hans desenvolve \u201ctodas as permuta\u00e7\u00f5es poss\u00edveis de um n\u00famero limitado de significantes\u201d, pelas quais a convers\u00e3o da mordida do cavalo em desmontagem da banheira representa o decl\u00ednio da m\u00e3e como uma pot\u00eancia opaca, amea\u00e7ante e sem lei. Essa fic\u00e7\u00e3o d\u00e1 um lugar a Hans e constitui uma solu\u00e7\u00e3o que o separa do gozo mort\u00edfero de sua fobia.<\/p>\n<p>Supor um sentido ao sintoma sob a forma de um saber alojado no analista n\u00e3o \u00e9 uma escuta de puro semblante, mas leva em conta que o sintoma \u00e9 uma resposta ao encontro traum\u00e1tico do sujeito com um real exclu\u00eddo do sentido: o real do sexo. O sintoma inclui a rela\u00e7\u00e3o a um furo no saber e a inven\u00e7\u00e3o de saber que tenta preench\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Esses fragmentos cl\u00ednicos nos remetem ao \u201cinfamiliar\u201d no interior da fam\u00edlia, isto \u00e9, a um al\u00e9m do \u00c9dipo, al\u00e9m do falo, al\u00e9m do recalque: ao n\u00e3o-todo do gozo feminino, que n\u00e3o \u00e9 fora do corpo, mas que se produz no corpo sem fazer Todo e faz do corpo o Outro para o falasser, testemunho da inquietante estranheza de um gozo que habita o corpo (MILLER, 1998, p. 108). Daniel Roy nos esclarece a respeito do poder de ang\u00fastia do objeto\u00a0<em>a\u00a0<\/em>quando ele se encarna na \u201ccrian\u00e7a-terr\u00edvel\u201d, cujas manifesta\u00e7\u00f5es sintom\u00e1ticas questionam cada um dos pais sobre \u201ca verdade do par parental\u201d e exasperam o lugar que um filho pode ocupar como objeto\u00a0<em>a<\/em>\u00a0na fantasia de cada um. Ele diz que a fam\u00edlia como um tratamento do gozo dos corpos falantes n\u00e3o responde a nenhum ideal, mas \u00e9 da ordem de uma \u201creligi\u00e3o-privada\u201d que ignoramos e da qual \u201ctemos tudo a aprender sobre as regras que ali se aplicam, os ritos que ali se celebram, os pequenos deuses que ali reinam\u201d (ROY, 2021, p.4).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Para concluir<\/em><\/p>\n<p>A desvaloriza\u00e7\u00e3o do pai, mais do que na crise da sociedade atual que a revela, est\u00e1 inscrita na pr\u00f3pria estrutura do simb\u00f3lico. No final de seu ensino, Lacan \u201cdir\u00e1 que o pai \u00e9 um\u00a0<em>sinthoma<\/em>\u00a0e que o \u00c9dipo n\u00e3o poderia dar conta da sexualidade feminina\u201d (MILLER, 2013, p. 9). A partir do\u00a0<em>Semin\u00e1rio 10<\/em>, a ang\u00fastia n\u00e3o \u00e9 mais vinculada por Lacan ao falo amea\u00e7ado, mas \u00e0 maneira como os objetos se separam do corpo. Laurent diz que essa separa\u00e7\u00e3o \u00e9 que o permite que se estabele\u00e7a uma significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica sem passar pela met\u00e1fora paterna e indica uma mudan\u00e7a no horizonte cl\u00ednico do que se faz com uma crian\u00e7a que tem que elaborar a significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica quando ela \u00e9 inst\u00e1vel, inexistente ou pouco existente. O que determina o valor f\u00e1lico, esclarece Laurent, \u00e9 o estabelecimento das vers\u00f5es do objeto\u00a0<em>a\u00a0<\/em>que a crian\u00e7a tem, as separa\u00e7\u00f5es que ela p\u00f4de fazer de seus objetos e o valor de objeto\u00a0<em>a\u00a0<\/em>que ela tem para a m\u00e3e (LAURENT, 2018, p. 11).<\/p>\n<p>Os fragmentos de caso mostram a dificuldade da crian\u00e7a \u2014 frente aos del\u00edrios familiares da hipermodernidade, que sonham com a universaliza\u00e7\u00e3o do gozo \u2014 para se separar do lugar de resto do gozo que a produziu. Eles s\u00e3o tamb\u00e9m testemunhos do trabalho do analista para desalojar a crian\u00e7a desse lugar de condensador do gozo da fam\u00edlia e fazer surgir o sujeito.<\/p>\n<p>A psican\u00e1lise permite \u00e0 crian\u00e7a reinventar sua fam\u00edlia. Sua aposta no saber inconsciente demonstra que ele se mostra capaz de reparar as disfun\u00e7\u00f5es presentes nas novas formas de fazer fam\u00edlia. O inconsciente retifica, inventa fam\u00edlias fict\u00edcias, simboliza um real sem lei. Sua efic\u00e1cia simb\u00f3lica, por\u00e9m, s\u00f3 se evidencia com a condi\u00e7\u00e3o de que o analista intervenha a partir do que se desnuda na desordem simb\u00f3lica que caracteriza nossa \u00e9poca: o real de lal\u00edngua, a partir do qual uma ordem simb\u00f3lica pode se restabelecer. A entrada da crian\u00e7a no discurso anal\u00edtico organiza o campo da met\u00e1fora para restabelecer, a partir do que lal\u00edngua recolhe da parte elabor\u00e1vel do gozo dos pais, as fun\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas que permitem localizar o gozo fora do corpo e se \u201copor a que seja o corpo da crian\u00e7a que corresponda ao objeto\u00a0<em>a<\/em>\u201d (LACAN, 1967\/2003, p. 366). A metaforiza\u00e7\u00e3o do gozo na l\u00edngua permite uma variedade de solu\u00e7\u00f5es que prescindem da fun\u00e7\u00e3o paterna e se fazem com os recursos do sintoma em uma articula\u00e7\u00e3o direta entre significante e gozo.<\/p>\n<p>Frente \u00e0 hipermodernidade e seus efeitos, Laurent nos orienta a navegar com a b\u00fassola do objeto\u00a0<em>a<\/em>, que leva em conta a reconfigura\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia e separa todas as tentativas de restabelecer as cren\u00e7as no pai. A posi\u00e7\u00e3o do analista, diz Laurent, \u00e9 a de proteger a crian\u00e7a dos del\u00edrios familiares, das paix\u00f5es que habitam os novos la\u00e7os familiares (LAURENT, 2018, p. 79).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>ABERTI, C. &#8220;D\u00e9sir de famille&#8221;.\u00a0<strong>Mental<\/strong>: Revue Internationale de Psychanalyse, Paris: Claude Parchliniak, n. 44, dez. 2021, p. 17-22.<\/h6>\n<h6>BARROS, R. Debate. 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Dispon\u00edvel em:<a href=\"https:\/\/institut-enfant.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/PARENTS_EXASPERES.pdf\">https:\/\/institut-enfant.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/PARENTS_EXASPERES.pdf<\/a>. Acesso 03 de julho de 2022.<\/h6>\n<h6>VINCIGUERRA, R-P. \u201cA psican\u00e1lise em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s fam\u00edlias\u201d.\u00a0<strong>Almanaque On-line<\/strong>, Revista eletr\u00f4nica do IPSM-MG, Belo Horizonte, n. 18, agosto de 2016. Dispon\u00edvel em: http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/pp-almanaque-no-18<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/sobre-o-texto#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a>\u00a0Texto apresentado no N\u00facleo de Pesquisa e Investiga\u00e7\u00e3o em Psican\u00e1lise com Crian\u00e7as \u2013 Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica \u2013 em 22\/06\/2022<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SANDRA MARIA ESPINHA OLIVEIRA Analista praticante, membro da EBP\/AMP sandra_espinha@uol.com.br Resumo:\u00a0O texto \u00e9 um coment\u00e1rio do trabalho apresentado por Suzana Faleiro Barroso no N\u00facleo de Pesquisa em Psican\u00e1lise com Crian\u00e7as do IPSM-MG. Ele faz parte da pesquisa desenvolvida em torno do tema \u201cO falasser pol\u00edtico: a crian\u00e7a e seus pais\u201d e discorre sobre o que&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57823,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[25],"tags":[],"class_list":["post-1911","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-29","category-25","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1911","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1911"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1911\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57824,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1911\/revisions\/57824"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57823"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1911"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1911"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1911"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}