{"id":1916,"date":"2022-07-19T06:41:42","date_gmt":"2022-07-19T09:41:42","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1916"},"modified":"2025-12-01T13:06:10","modified_gmt":"2025-12-01T16:06:10","slug":"ta-tudo-ao-contrario-a-crianca-seus-pais-e-a-via-do-equivoco1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2022\/07\/19\/ta-tudo-ao-contrario-a-crianca-seus-pais-e-a-via-do-equivoco1\/","title":{"rendered":"\u201cT\u00c1 TUDO AO CONTR\u00c1RIO\u201d: A CRIAN\u00c7A, SEUS PAIS E A VIA DO EQU\u00cdVOCO[1]\u00a0"},"content":{"rendered":"<h6>SUZANA FALEIRO BARROSO<br \/>\nPsicanalista, membro da EBP\/AMP<br \/>\n<a href=\"mailto:suzanafaleirobarroso@gmail.com\">suzanafaleirobarroso@gmail.com<\/a><\/h6>\n<blockquote><p><strong>Resumo:\u00a0<\/strong>Atrav\u00e9s de aspectos te\u00f3ricos e cl\u00ednicos, o artigo discute as duas abordagens da fam\u00edlia hoje, isto \u00e9, a via do disfuncionamento familiar protagonizado pelo discurso da ci\u00eancia em contraponto com a via do equ\u00edvoco orientada pelo discurso psicanal\u00edtico.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave:\u00a0<\/strong>Linguagem da ci\u00eancia; fam\u00edlia-hol\u00f3frase; equ\u00edvoco; discurso psicanal\u00edtico.<\/p>\n<p><strong>\u201cEverything is backward\u201d: the child, their parents and the route of misconception<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Abstract:\u00a0<\/strong>Through theoretical and clinical aspects, the article discusses the two approaches to the family today, that is, the pathway of family dysfunction carried out by the science discourse in contrast to the pathway of misunderstanding guided by the psychoanalytic discourse.<\/p>\n<p><strong>Keywords:\u00a0<\/strong>Language of science; family-holophase; misunderstanding; psychoanalytic discourse.<\/p><\/blockquote>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_1917\" style=\"width: 2570px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Sandra_Espinha_de_Oliveira-scaled.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"2560\" data-large_image_height=\"1593\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1917\" class=\"wp-image-1917\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Sandra_Espinha_de_Oliveira-1024x637.jpg\" alt=\"\" width=\"871\" height=\"542\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1917\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Cecilia Vellos Batista<\/p><\/div>\n<p><em><br \/>\nO que est\u00e1 acontecendo?<\/em><em><br \/>\nO mundo est\u00e1 ao contr\u00e1rio e ningu\u00e9m reparou<br \/>\nO que est\u00e1 acontecendo?<br \/>\nEu estava em paz quando voc\u00ea chegou<\/em><\/p>\n<p>(\u201cRelic\u00e1rio\u201d, Nando Reis, 2000)<\/p>\n<p><em>Introdu\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>Inicio minha exposi\u00e7\u00e3o dando um testemunho da dimens\u00e3o pol\u00edtica que est\u00e1 em jogo com a presen\u00e7a da psican\u00e1lise na sociedade hoje, mais precisamente na universidade. No dia 8 de abril deste ano, Paula Pimenta e eu fizemos a terceira de uma s\u00e9rie de\u00a0<em>lives<\/em>\u00a0sobre autismo em um canal da PUC-Minas, aberto em 2020, que tem acolhido nossa participa\u00e7\u00e3o. O tema proposto para esse evento foi \u201cComo o autista aprende na perspectiva da psican\u00e1lise\u201d.<\/p>\n<p>Na v\u00e9spera dessa\u00a0<em>live,<\/em>\u00a0fomos surpreendidos por uma mensagem que circulou no grupo de associa\u00e7\u00e3o de pais de autistas. Transcrevo: \u201colha que maravilha a PUC com pseudoci\u00eancia para abordar o autismo. Convido a todos a entrarem e explicarem para esse povo que autismo n\u00e3o se trata com psican\u00e1lise\u201d.<\/p>\n<p>Compartilho esse acontecido com o NPPcri, pois demonstra a batalha da psican\u00e1lise neste tempo em que a soberania do saber do discurso da ci\u00eancia segue se infiltrando nas institui\u00e7\u00f5es sociais, particularmente junto \u00e0 fam\u00edlia, \u00e0s crian\u00e7as e a seus sintomas.<\/p>\n<p>A meu ver, cabe \u00e0 psican\u00e1lise com crian\u00e7as um papel decisivo na transmiss\u00e3o de nossa pr\u00e1tica, uma transmiss\u00e3o que renove a pol\u00edtica do inconsciente no campo \u00e9tico aberto por Freud.<\/p>\n<p><em><br \/>\nA linguagem da ci\u00eancia, o cat\u00e1logo das disfun\u00e7\u00f5es da crian\u00e7a e uma hip\u00f3tese a ser desenvolvida sobre a no\u00e7\u00e3o de \u201cfam\u00edlia-hol\u00f3frase\u201d<\/em><\/p>\n<p>Com frequ\u00eancia, a inconsist\u00eancia da fam\u00edlia p\u00f3s-moderna quanto ao simb\u00f3lico e sua incid\u00eancia junto \u00e0 crian\u00e7a assume o formato da disfuncionalidade a ser rastreada e consertada pela interven\u00e7\u00e3o da neuroci\u00eancia, da medicaliza\u00e7\u00e3o e das t\u00e9cnicas cognitivas-comportamentais (TCCs) e\/ou pelo\u00a0<em>coaching<\/em>\u00a0parental.<\/p>\n<p>Verificamos como os significantes da transmiss\u00e3o familiar v\u00eam sendo totalmente rebaixados em prol das certezas provenientes das medidas neuropsicol\u00f3gicas. Apostilas cheias de gr\u00e1ficos, n\u00fameros, medidas resultantes de testes neuropsicol\u00f3gicos s\u00e3o carregadas pelos pais quase como um \u00e1libi, visto que seu dizer se apaga sob o poder ilus\u00f3rio da certeza cient\u00edfica. Trata-se do saber un\u00edvoco que constrange o discurso familiar e obtura a via do inconsciente.<\/p>\n<p>Contudo, essa parafern\u00e1lia n\u00e3o engana o real que retorna no corpo e no gozo da crian\u00e7a terr\u00edvel, descrita por Daniel Roy no artigo \u201cPais exasperados \u2013 Crian\u00e7as terr\u00edveis\u201d. Essa crian\u00e7a, que se torna real demais para seus pais, encarna o objeto estranho e angustiante, com rela\u00e7\u00e3o ao qual eles n\u00e3o sabem mais o que fazer.<\/p>\n<p>Os diagn\u00f3sticos catalogados congelam os sujeitos em suas supostas disfun\u00e7\u00f5es e os afastam dos significantes particulares da sua inser\u00e7\u00e3o no discurso familiar. Mais ainda, ao funcionar, sobretudo, com pequenas letras, com cifras mais do que com significantes, a linguagem da ci\u00eancia consegue \u201cneutralizar todas as outras fun\u00e7\u00f5es do discurso e, em particular, o S<sub>1<\/sub>\u00a0e o S<sub>2<\/sub>, como produtores de sentido\u201d (AFLALO, 2013, p. 44). Disso pode resultar o congelamento da l\u00f3gica bin\u00e1ria do significante e o incentivo ao imp\u00e9rio do Um. Esse congelamento evoca a no\u00e7\u00e3o de \u201cfam\u00edlia-hol\u00f3frase\u201d, presente no texto de Roy.<\/p>\n<p>Promovida pela supress\u00e3o do intervalo entre os significantes, a hol\u00f3frase \u00e9 a solidifica\u00e7\u00e3o do par de significantes com a consequente suspens\u00e3o da representabilidade do sujeito, das leis da linguagem, comprometendo as opera\u00e7\u00f5es de constitui\u00e7\u00e3o do sujeito, a aliena\u00e7\u00e3o e a separa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O sujeito se constitui a partir da rela\u00e7\u00e3o entre S<sub>1<\/sub>, significante-mestre que o representa para outro significante, S<sub>2<\/sub>, significante do saber do Outro. Essa opera\u00e7\u00e3o, chamada aliena\u00e7\u00e3o, requer a perda do objeto, concomitante \u00e0 formula\u00e7\u00e3o da demanda do sujeito ao campo do Outro. O objeto perdido causa o intervalo entre os dois significantes e d\u00e1 lugar \u00e0 met\u00e1fora. Quando ocorre a hol\u00f3frase do primeiro par de significantes, n\u00e3o h\u00e1 perda, n\u00e3o h\u00e1 intervalo.<\/p>\n<p>A hol\u00f3frase \u00e9 uma figura ret\u00f3rica por princ\u00edpio oposta \u00e0 met\u00e1fora e que se presta bem para indicar o efeito de petrifica\u00e7\u00e3o, de solidifica\u00e7\u00e3o, de congelamento do sujeito devido a uma aliena\u00e7\u00e3o sem separa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cA hol\u00f3frase \u00e9 o nome que Lacan d\u00e1 \u00e0 aus\u00eancia da dimens\u00e3o da met\u00e1fora. Na verdade, que dois significantes sejam assim solidificados, holofraseados, que n\u00e3o haja intervalo entre eles, \u00e9 equivalente a dizer que um n\u00e3o pode vir no lugar do outro, n\u00e3o podem se substituir \u2014 substitui\u00e7\u00e3o e condensa\u00e7\u00e3o estando no princ\u00edpio da met\u00e1fora \u2014 uma vez que eles j\u00e1 ocupam o mesmo lugar\u201d (STEVENS, 1987, p. 66).<\/p>\n<p>O sujeito n\u00e3o \u00e9 mais representado pelo significante a outro significante, rejeitando todo o interc\u00e2mbio simb\u00f3lico, cristalizando-se em uma identifica\u00e7\u00e3o monol\u00edtica, que exclui qualquer divis\u00e3o. Essa situa\u00e7\u00e3o, segundo Lacan no\u00a0<em>Semin\u00e1rio 11<\/em>, serve de modelo para uma s\u00e9rie de casos.<\/p>\n<p>Ao que parece, falar de \u201cfam\u00edlia-hol\u00f3frase\u201d privilegia a dimens\u00e3o do gozo mais do que a dimens\u00e3o significante em jogo nessa estrutura. \u201cO conceito de hol\u00f3frase \u00e9 um modo de assinalar que n\u00e3o se trata de significantes que pertencem \u00e0s leis do simb\u00f3lico somente, mas \u2018que \u00e9 um significante que porta gozo\u2019\u201d (BAYON, 2020, p. 182).<\/p>\n<p>Sobre a abordagem do sofrimento da crian\u00e7a e da fam\u00edlia hoje, a partir da no\u00e7\u00e3o de disfuncionamento, cito Roy:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cO disfuncionamento n\u00e3o \u00e9 o que se acredita, ele n\u00e3o se relaciona com um mau arranjo dos pap\u00e9is parentais ou das rela\u00e7\u00f5es pais-crian\u00e7as, nem com o mau funcionamento de uma fun\u00e7\u00e3o ps\u00edquica ou cognitiva. O disfuncionamento consiste em n\u00e3o querer saber que a fam\u00edlia j\u00e1 \u00e9 um modo de tratamento do gozo dos corpos falantes\u201d (ROY, D. 2021, n\/p. tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/p>\n<p>O que o autor prop\u00f5e \u00e9 descompactar a fam\u00edlia hol\u00f3frase, o que entendo como dar-lhe voz, liberar suas articula\u00e7\u00f5es significantes, dar lugar ao equ\u00edvoco, condi\u00e7\u00e3o para colocar o inconsciente a trabalho e para desalojar a crian\u00e7a do lugar de objeto condensador de gozo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>As ditas \u201cdisfun\u00e7\u00f5es cognitivas\u201d e os efeitos da rejei\u00e7\u00e3o do inconsciente<\/em><\/p>\n<p>De artigos de J. C. Maleval e V\u00e9ronique Mariage, publicados no livrinho\u00a0<em>L\u2019anti livre noir de la psychanalyse<\/em>\u00a0(2006), recolhi algumas vinhetas cl\u00ednicas sobre as consequ\u00eancias da abordagem das disfun\u00e7\u00f5es cognitivas das crian\u00e7as e das fam\u00edlias, sem que se leve em conta a via do equ\u00edvoco.<\/p>\n<p>Comentando uma cr\u00edtica feita \u00e0s TCCs, que promoveriam apenas uma substitui\u00e7\u00e3o de sintomas, Maleval relata um caso de uma crian\u00e7a para a qual esse m\u00e9todo teria promovido o retorno no real suscitado pela rejei\u00e7\u00e3o do simb\u00f3lico. Trata-se de uma crian\u00e7a com fobia de um coelho branco que acaba tocando o objeto de seu medo ap\u00f3s uma dessensibiliza\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica. Logo em seguida, essa crian\u00e7a, j\u00e1 sem o medo, foi hospitalizada com escarlatina, voltando somente dois meses depois.<\/p>\n<p>V\u00e9ronique Mariage, por sua vez, comenta como tem sido frequente que as crian\u00e7as cheguem ao analista falando TCC, se \u201cterapiando\u201d TCC. Relata o caso Florette, de seis anos. Crian\u00e7a que habitava no campo, onde os animais ocupavam lugar importante em sua vida. A menina tinha medo de que seu cachorro a mordesse ou a fizesse cair, que seu gato a arranhasse ou que as galinhas a bicassem quando lhes desse comida. Submetida a um programa TCC, seu sintoma desapareceu ap\u00f3s aproxima\u00e7\u00f5es sucessivas dos animais. Junto \u00e0 analista, Florette disse outra coisa, a saber, que seu pior medo, que, segundo Mariage, porta a marca de seu desejo, era de sua pequena irm\u00e3 dar comida ao cachorro. Ela disse: \u201cminha irm\u00e3 poderia pisar no rabo dele e ser comida pelo cachorro\u201d.<\/p>\n<p>Nos dias atuais, diante das respostas da ci\u00eancia aos medos infantis, \u00e9 oportuno lembrar um dos conselhos freudianos que discute a import\u00e2ncia de n\u00e3o se desprezar o sujeito e seus m\u00e9todos particulares de prote\u00e7\u00e3o contra a ang\u00fastia at\u00e9 que ele venha a elaborar, por meio da palavra, os motivos de sua incompreens\u00edvel covardia.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cA experi\u00eancia demonstrou que \u00e9 imposs\u00edvel efetuar-se a cura de uma fobia (e at\u00e9 mesmo, em certas circunst\u00e2ncias, perigoso tentar faz\u00ea-lo) por meios violentos, isto \u00e9, primeiro privando-se o paciente de suas defesas, e depois o colocando numa situa\u00e7\u00e3o da qual ele n\u00e3o possa escapar da libera\u00e7\u00e3o da sua angustia\u201d (FREUD, 1909\/1976: 124).<\/p>\n<p><em>O discurso psicanal\u00edtico e a via do equ\u00edvoco<\/em><\/p>\n<p>Segundo J.-A. Miller, a orienta\u00e7\u00e3o do real n\u00e3o nos permite mais exaltar o simb\u00f3lico, nem refugiar no imagin\u00e1rio, tampouco alienar no real da ci\u00eancia. Somente nos resta, portanto, a via do equ\u00edvoco.<\/p>\n<p>No artigo \u201cO engano do sujeito suposto saber\u201d, Lacan (1967) nos adverte que o inconsciente \u00e9 pouqu\u00edssimo tranquilizador, visto que o equ\u00edvoco em quest\u00e3o diz respeito ao que n\u00e3o pode ser encontrado no saber articulado. Trata-se do inconsciente captado em uma equivoca\u00e7\u00e3o, \u201caquilo que se pode designar o tema de cada um, aquilo que anima cada um\u201d\u00a0<u>(<\/u>MILLER, 2011, n\/p.<u>),<\/u>\u00a0advindo do encontro do corpo e do significante como acontecimento de gozo. \u00c9 a forma como o sujeito foi impregnado por lal\u00edngua, marca de uma singularidade absoluta que imprime um modo de gozo pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>Encontrar a via do equ\u00edvoco implica o percurso lacaniano que vai da no\u00e7\u00e3o de Outro \u00e0 no\u00e7\u00e3o do Um, do inconsciente como saber ao inconsciente real. Onde estava o Outro como lugar dos significantes, aparece como ponto de partida o Um sozinho, que destaca a resson\u00e2ncia corporal da palavra, eco do dizer no corpo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O que dizem as crian\u00e7as sobre suas fam\u00edlias<\/em><\/p>\n<p>Nas vinhetas que se seguem, poderemos verificar o que o psicanalista Daniel Roy chamou de abordagem do disfuncionamento familiar em contraponto com a abordagem da via do equ\u00edvoco, esta sim, pertencente ao discurso psicanal\u00edtico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Ant\u00f4nio e o avesso da fam\u00edlia<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 da fala de Ant\u00f4nio que extra\u00edmos o t\u00edtulo da tem\u00e1tica de hoje no NPPcri, \u201ct\u00e1 tudo ao contr\u00e1rio\u201d. Ele estava com 4 anos quando veio \u00e0 consulta, trazido por seus pais, que se queixavam de sua agita\u00e7\u00e3o: \u201cele p\u00f5e a casa abaixo\u201d, \u201cat\u00e9 quadros da parede ele joga ao ch\u00e3o\u201d. N\u00e3o tem hor\u00e1rio para dormir, desarvora seus familiares, impede o trabalho dos pais em casa, impede-os de dormir. Diziam que n\u00e3o conseguiam ter autoridade sobre o filho. J\u00e1 tentaram de tudo, v\u00e1rios m\u00e9todos, sem resultado. Tomados pela disc\u00f3rdia, os pais do menino discutem o tempo todo. Desorientados, brigam. Segundo a escola que frequenta, Ant\u00f4nio tem \u201cresist\u00eancia \u00e0s autoridades\u201d, agride as autoridades. O pai descreve que, ao falar com o filho qualquer coisa, ajoelha-se para ficar da altura dele, explicando, em v\u00e3o, o que n\u00e3o pode fazer. O \u201cpara ficar da altura dele\u201d ilustra bem o lugar de onde o pai se dirige ao filho, isto \u00e9, de igual para igual.<\/p>\n<p>Na primeira entrevista, Ant\u00f4nio relatou as brigas de seus pais. Insistia em dizer que j\u00e1 falou para eles pararem de brigar, mas n\u00e3o adiantou. Quando lhe digo, em tom de surpresa e exclama\u00e7\u00e3o, \u201cent\u00e3o \u00e9 voc\u00ea quem cuida disso na fam\u00edlia!\u201d, ele responde: \u201ct\u00e1 tudo ao contr\u00e1rio!\u201d.<\/p>\n<p>A hip\u00f3tese da inexist\u00eancia do Outro implica a \u00e9poca da permissividade, do ocaso do significante mestre t\u00edpico do imp\u00e9rio capitalista, destinado, segundo Lacan, a promover o sujeito barrado ao lugar do agente.<\/p>\n<p>Na fam\u00edlia de Ant\u00f4nio ficou evidente a destrui\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica dos significantes mestres e do lugar da autoridade, o que acabou por inviabilizar a an\u00e1lise dessa crian\u00e7a. Logo depois de iniciadas as sess\u00f5es do menino, sua m\u00e3e recebeu de um neuropsic\u00f3logo o diagn\u00f3stico que lhe pareceu tudo explicar, isto \u00e9, TOD (transtorno opositor do desenvolvimento). Acatando o protocolo receitado, a m\u00e3e de Ant\u00f4nio prop\u00f5e um caminho paralelo \u00e0 an\u00e1lise, isto \u00e9, a medica\u00e7\u00e3o do TOD e a TCC. Diante dessa atua\u00e7\u00e3o, assumo a posi\u00e7\u00e3o de n\u00e3o ceder do discurso anal\u00edtico, n\u00e3o avalizando a multiplicidade de interven\u00e7\u00f5es propostas, bem ao estilo da \u00e9poca do mais, embora isso tenha acarretado a interrup\u00e7\u00e3o das sess\u00f5es de Ant\u00f4nio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Fernando e seu\u00a0<\/em>pharmakon<em>: as po\u00e7\u00f5es contra-loucura<\/em><\/p>\n<p>Diferentemente de Ant\u00f4nio, Fernando teve a chance de uma an\u00e1lise. Ele fazia uma terapia cognitiva-comportamental para resolver sua agressividade incontida em casa e na escola. Seus pais decidiram interromper essa terapia quando a psic\u00f3loga disse que n\u00e3o poderia fazer mais nada pelo menino. Sugerindo aos pais a exist\u00eancia de uma patologia grave da crian\u00e7a, os encaminhou ao psiquiatra.<\/p>\n<p>Com quatro anos de idade, Fernando desafiava os pais, desacatava-os. Filho de um homem bastante agressivo, sua m\u00e3e se esmerava em proteg\u00ea-lo desse pai. Alguns epis\u00f3dios exasperavam a m\u00e3e de Fernando, motivando sua demanda de falar ao telefone com a analista e pedir orienta\u00e7\u00e3o. Fazendo jus \u00e0 no\u00e7\u00e3o lacaniana de crian\u00e7a generalizada, filho e m\u00e3e choravam juntos em momentos de separa\u00e7\u00e3o na porta do col\u00e9gio, por exemplo.<\/p>\n<p>No primeiro encontro com Fernando, ele me disse: \u201cmeu pai fez uma po\u00e7\u00e3o de loucura e eu tomei. L\u00e1 no col\u00e9gio todos ficaram loucos, subiram na mesa, bateram, gritaram&#8230;\u201d. Digo a ele que poder\u00edamos fazer uma po\u00e7\u00e3o contra-loucura. Ele prontamente aceitou e me perguntou que ingredientes eu tinha para faz\u00ea-la.<\/p>\n<p>Fernando passa a desenhar, fazer recortes, rasgar papel para fazer misturas com \u00e1gua e v\u00e1rias cores de tinta. Da po\u00e7\u00e3o de loucura passou \u00e0 po\u00e7\u00e3o de bravura, fazendo semblante de bravo e, como ele dizia, \u201cforta\u00e7o\u201d, expressando-o de modo caricaturesco com seus gestos e tom de voz.<\/p>\n<p>Cito Lacan: \u201cos pais modelam o sujeito nessa fun\u00e7\u00e3o que intitulei de simbolismo. O que quer dizer, estritamente, [&#8230;] que a forma pela qual lhe foi instilado um modo de falar s\u00f3 pode levar a marca do modo como os pais o aceitaram\u201d (LACAN, 1975\/1998, p. 9).<\/p>\n<p>Atualmente, mais apaziguado, Fernando vem trazendo outros relatos sobre o que faz na escola, j\u00e1 n\u00e3o t\u00e3o afetado pelas po\u00e7\u00f5es de gozo. Por exemplo, relata um lanche coletivo no qual ele e todos seus colegas foram para a cozinha preparar as guloseimas. Fizeram muitos sucos diferentes, de laranja, de uva, de morango, e biscoitos. Ele disse: \u201cN\u00e3o tinha s\u00f3 p\u00e3o de queijo. N\u00e3o gosto de p\u00e3o de queijo. Meu pai quer que eu coma s\u00f3 p\u00e3o de queijo\u201d. Na \u00faltima sess\u00e3o, uma vez mais, me disse, ao chegar: \u201cVoc\u00ea n\u00e3o acredita o que meu pai fez, uma po\u00e7\u00e3o doida\u00e7a!\u201d. Em seguida, me pediu material para fazer po\u00e7\u00e3o-contra. Acredito que Fernando esteja se tratando por meio de po\u00e7\u00f5es de \u201cajuda contra\u201d, o que o situa noutro lugar, diferente do da crian\u00e7a terr\u00edvel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Considera\u00e7\u00f5es finais<\/em><\/p>\n<p>Para concluir, cito Lacan no artigo \u201cOs complexos familiares\u201d: \u201cn\u00e3o estamos entre os que se afligem com um pretenso afrouxamento dos la\u00e7os de fam\u00edlia\u201d (1938\/2003, p. 66). Parece-me surpreendente que Lacan j\u00e1 tenha dito isso em 1938!<\/p>\n<p>Se, por um lado, n\u00e3o nos afligimos com a desfamiliariza\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea, pois estamos advertidos quanto \u00e0 no\u00e7\u00e3o de \u201cfam\u00edlia-res\u00edduo\u201d (LACAN, 1969\/2003), por outro lado, inventar uma fam\u00edlia \u00e9 preciso. Como bem o diz Lacan: \u201cmesmo que as repress\u00f5es familiares n\u00e3o fossem verdadeiras, seria preciso invent\u00e1-las, e n\u00e3o se deixa de faz\u00ea-lo. O mito \u00e9 isso, a tentativa de dar forma \u00e9pica ao que se opera pela estrutura\u201d (LACAN, 1973\/2003, p. 531). A psican\u00e1lise com crian\u00e7as o demonstra. Para um sujeito em constitui\u00e7\u00e3o, a fam\u00edlia pode ser um modo de enla\u00e7ar o Um ao lugar do Outro. S\u00e3o as fic\u00e7\u00f5es infantis, e n\u00e3o os supostos concertos dos disfuncionamentos, tampouco os programas TCCs, que viabilizam esse enla\u00e7amento.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cA neurose e n\u00e3o \u00e9 tanto um fen\u00f4meno do Um, mas o resultado do mergulho do Um na esfera do Outro. Por isso, ela se articula de modo privilegiado ao contexto das rela\u00e7\u00f5es familiares, cuja estrutura recobre o Um de gozo. Ao contr\u00e1rio, \u2018o automatismo mental, a psicose, \u00e9 um mergulho do Outro no Um\u201d (MILLER, 2010, p. 166).<\/p>\n<p>Os casos de Ant\u00f4nio e Fernando demonstram os acontecimentos de gozo que irrompem na estrutura das rela\u00e7\u00f5es familiares. A opera\u00e7\u00e3o do discurso psicanal\u00edtico pode viabilizar a articula\u00e7\u00e3o do acontecimento ao lugar do Outro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6><em>AFLALO, A.\u00a0<\/em><strong>O assassinato frustrado da psican\u00e1lise<\/strong>.<em>\u00a0Rio de Janeiro, Ed. Contracapa, 2012.<\/em><\/h6>\n<h6><em>BAY\u00d3N, P. A.<\/em>\u00a0<strong>El autismo entre lalengua y la letra<\/strong>.<em>\u00a0Buenos Aires: grama ediciones, 2020.<\/em><\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1976). An\u00e1lise de uma fobia em um menino de cinco anos. In:\u00a0<strong>Strachey<\/strong>\u00a0(Ed.),\u00a0<u>ESB,<\/u>\u00a0v. X, p. 15-158. Rio de Janeiro: Imago.<\/h6>\n<h6>ROY, D. \u201cParents exasp\u00e9r\u00e9s \u2013 enfants terribles\u201d. Pronunciado em 13 de mar\u00e7o de 2021, na 6\u00aa Jornada do Institut de l\u2019Enfant. Editado por Fr\u00e9d\u00e9rique Bouvet e Isabelle Magne. 2021.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1975) \u201cConfer\u00eancia sobre o sintoma\u201d. In:\u00a0<strong>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/strong>, v. 23, 1998, p. 6-16.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1969) \u201cNota sobre a crian\u00e7a\u201d. In:\u00a0<strong>Escritos<\/strong>. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2003, p. 369-370.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1973) \u201cTelevis\u00e3o\u201d. In:\u00a0<strong>Outros Escritos<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.<\/h6>\n<h6>MILLER, J. A.\u00a0<strong>Perspectivas do Semin\u00e1rio 23 de Lacan \u2014 O\u00a0<em>sinthoma<\/em><\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2010.<\/h6>\n<h6>________. (2011)\u00a0<strong>O Ser e o Um<\/strong>. Semin\u00e1rio in\u00e9dito, 2011<\/h6>\n<h6><em>STEVENS, A.<\/em>\u00a0\u201cAux limites du lien social, les autismes\u201d. In\u00a0:\u00a0<strong>Les Feuiliets du Courtil<\/strong>, v. 29, Leers-Nord, jan. 2008, p. 9-28.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/tudo-ao-contrario#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a>\u00a0Texto apresentado no N\u00facleo de Investiga\u00e7\u00e3o e Pesquisa em Psican\u00e1lise com Crian\u00e7as \u2013 Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica, em 22\/06\/22.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SUZANA FALEIRO BARROSO Psicanalista, membro da EBP\/AMP suzanafaleirobarroso@gmail.com Resumo:\u00a0Atrav\u00e9s de aspectos te\u00f3ricos e cl\u00ednicos, o artigo discute as duas abordagens da fam\u00edlia hoje, isto \u00e9, a via do disfuncionamento familiar protagonizado pelo discurso da ci\u00eancia em contraponto com a via do equ\u00edvoco orientada pelo discurso psicanal\u00edtico. Palavras-chave:\u00a0Linguagem da ci\u00eancia; fam\u00edlia-hol\u00f3frase; equ\u00edvoco; discurso psicanal\u00edtico. \u201cEverything is&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57825,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[25],"tags":[],"class_list":["post-1916","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-29","category-25","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1916","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1916"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1916\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57826,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1916\/revisions\/57826"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57825"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1916"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1916"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1916"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}