{"id":1923,"date":"2022-07-19T06:41:42","date_gmt":"2022-07-19T09:41:42","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1923"},"modified":"2025-12-01T13:06:52","modified_gmt":"2025-12-01T16:06:52","slug":"discursos-de-genero-e-psicanalise-possiveis-interlocucoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2022\/07\/19\/discursos-de-genero-e-psicanalise-possiveis-interlocucoes\/","title":{"rendered":"DISCURSOS DE G\u00caNERO E PSICAN\u00c1LISE:\u00a0POSS\u00cdVEIS INTERLOCU\u00c7\u00d5ES"},"content":{"rendered":"<h6>RODRIGO ALMEIDA<br \/>\nPsicanalista, psic\u00f3logo, mestrando pelo programa de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Psicologia da FAFICH\/UFMG<br \/>\n<a href=\"mailto:romabh2003@yahoo.com.br\">romabh2003@yahoo.com.br<\/a><\/h6>\n<blockquote><p>\n<strong>Resumo:<\/strong>\u00a0O presente trabalho prop\u00f5e uma articula\u00e7\u00e3o entre alguns pontos dos \u201cdiscursos de g\u00eanero\u201d e suas teorias no que eles se contrap\u00f5em \u00e0 psican\u00e1lise, examinando de forma breve o discurso da psican\u00e1lise, sua pr\u00e1tica e seu lugar no social. Posto isso, interrogamos de que maneira o debate com as teorias de g\u00eanero pode contribuir para os psicanalistas na leitura da subjetividade de sua \u00e9poca.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave:<\/strong>\u00a0G\u00eanero;\u00a0<em>queer;<\/em>\u00a0discurso; sexua\u00e7\u00e3o; falasser.<\/p>\n<p><strong>Gender discourses and psychoanalysis: possible interlocutions<\/strong><\/p>\n<p><strong>Abstract:\u00a0<\/strong>This paper discusses some aspects of \u201cgender discourses\u201d and their theories in what they counterpose to psychoanalysis by briefly reviewing the discourse of psychoanalysis, its practice and place in the social sphere. With that said, we interrogate how the debate with gender theories can contribute to psychoanalysts in reading the subjectivity of their time.<\/p>\n<p><strong>Keywords:\u00a0<\/strong>Gender; queer; discourse; sexuation;\u00a0<em>parl\u00eatre<\/em>.<\/p><\/blockquote>\n<div id=\"attachment_1924\" style=\"width: 1610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/10_Rodrigo_Almeida_-_Encontros-1.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"1600\" data-large_image_height=\"1060\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1924\" class=\"wp-image-1924\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/10_Rodrigo_Almeida_-_Encontros-1-1024x678.jpg\" alt=\"\" width=\"705\" height=\"467\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1924\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Cec\u00edlia Velloso Batista<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em nossa condi\u00e7\u00e3o de seres falantes e sexuados, chegamos ao mundo onde diversos discursos nos precedem antes mesmo de nosso nascimento. Somos atravessados pelo real e pelo encontro sempre traum\u00e1tico com o sexual. Lacan (1977, in\u00e9dito, tradu\u00e7\u00e3o nossa), mais ao final de seu ensino, afirma que \u201co sexo \u00e9 um dizer\u201d. Para al\u00e9m do falo, o ser sexuado pode ser lido em termos de sexua\u00e7\u00e3o, portanto, o que vamos levar em conta \u00e9 a posi\u00e7\u00e3o de gozo do sujeito.<\/p>\n<p>O discurso psicanal\u00edtico demonstra seu alcance como \u201cum instrumento poderoso\u201d (LAURENT, 2016, p. 219) para questionar tanto outros discursos quanto os corpos e seus modos de gozo. O conceito de falasser, ao incluir o corpo e, por extens\u00e3o, a no\u00e7\u00e3o de inconsciente pol\u00edtico, possibilita interrogar a rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o discurso. Seguindo com Laurent (2016, p. 213), \u201cO corpo que fala testemunha o discurso como la\u00e7o social que vem se inscrever sobre ele: \u00e9 um corpo socializado\u201d. H\u00e1 assim uma dimens\u00e3o coletiva, que surge em suas nomea\u00e7\u00f5es e desencontros, em que a subjetividade individual \u00e9 marcada pela \u00e9poca em que se inscreve. Nas palavras de Brousse (2018, p. 137), \u201cTrata-se de considerar os falasseres como solid\u00f5es numerosas e irremedi\u00e1veis, que fazem s\u00e9rie e n\u00e3o grupo. A experi\u00eancia anal\u00edtica nos cura do N\u00f3s, ao pre\u00e7o de uma perda do sentido, frequentemente gozoso\u201d. Podemos afirmar que a psican\u00e1lise, ao levar em conta o real e o gozo, ao ler a subjetividade de sua \u00e9poca, vai mais al\u00e9m dos discursos vigentes. Com rela\u00e7\u00e3o aos discursos de g\u00eanero, o que ela teria a dizer?<\/p>\n<p>Diante dessa quest\u00e3o, vale ressaltar que qualquer ideia de normatiza\u00e7\u00e3o da sexualidade n\u00e3o est\u00e1 presente na psican\u00e1lise de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana, pois ela opera para al\u00e9m dos g\u00eaneros com os quais o falasser possa se identificar. Constatamos, hoje, a propaga\u00e7\u00e3o dos discursos de g\u00eanero abarcada pelas chamadas teorias queer, que se prop\u00f5em a reorganizar o discurso sexual, interrogando outros saberes e a sociedade, que aparecem como reguladores de corpos e de sua viv\u00eancia da sexualidade e identidades. Importante salientar que o que chamamos aqui de discurso de g\u00eanero tem rela\u00e7\u00e3o com os enunciados que governam e norteiam momentos hist\u00f3ricos espec\u00edficos, e a no\u00e7\u00e3o de discurso fundamenta-se em conceitos foucaultianos. Conforme Salih (2009, p. 69), \u201cFoucault est\u00e1 interessado particularmente na posi\u00e7\u00e3o de sujeitos pressupostas pelos enunciados e no modo como os sujeitos s\u00e3o discursivamente constitu\u00eddos\u201d.<\/p>\n<p>Com a dissemina\u00e7\u00e3o de tais discursos, a psican\u00e1lise se viu convocada a revisitar as elabora\u00e7\u00f5es lacanianas sobre a diferen\u00e7a sexual, colocando em relevo a t\u00e1bua da sexua\u00e7\u00e3o, o n\u00e3o-todo e a conjuga\u00e7\u00e3o do corpo com o gozo, confrontando-se, assim, com o lugar privilegiado de saber sobre a sexualidade. Nos \u00faltimos anos, foi poss\u00edvel observar que a psican\u00e1lise foi alvo de diversos posicionamentos contr\u00e1rios ao seu discurso te\u00f3rico, e at\u00e9 mesmo \u00e0 sua \u00e9tica. Desse modo, julgamos relevante abordar alguns pontos sobre o \u201cdiscurso de g\u00eanero\u201d e suas teorias, tentando localizar pontos de di\u00e1logo para o debate e que podem nos interessar enquanto praticantes da psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>Nessa interlocu\u00e7\u00e3o de saberes proposta pelas teorias de g\u00eanero, a psican\u00e1lise est\u00e1 presente como instrumento de leitura e di\u00e1logo com seus te\u00f3ricos. A partir da insurg\u00eancia de um debate, a psican\u00e1lise se v\u00ea convocada n\u00e3o s\u00f3 a responder, como tamb\u00e9m a marcar seu posicionamento diante do contempor\u00e2neo, norteado por sua \u00e9tica e sua pol\u00edtica. Cada vez mais a pr\u00e1tica cl\u00ednica se v\u00ea interrogada por aqueles que buscam uma an\u00e1lise, seja, inicialmente, para um acompanhamento em um processo de transi\u00e7\u00e3o \u2014 no caso de sujeitos trans \u2014, seja para aqueles que se interrogam sobre as mudan\u00e7as advindas pela diversidade sexual diante de suas escolhas e do outro do la\u00e7o social.<\/p>\n<p>Na obra\u00a0<em>Problemas de g\u00eanero: feminismo e subvers\u00e3o de identidade<\/em>, vista por muitos como refer\u00eancia para os estudos queer, Judith Butler afirma, num primeiro momento de suas formula\u00e7\u00f5es, que a teoria feminista presume a exist\u00eancia de uma identidade definida e que a \u201c(&#8230;) concep\u00e7\u00e3o dominante da rela\u00e7\u00e3o entre teoria feminista e pol\u00edtica passou a ser questionada a partir do interior do discurso feminista. O pr\u00f3prio sujeito das mulheres n\u00e3o \u00e9 mais compreendido em termos est\u00e1veis e permanentes\u201d (BUTLER, 2020, p. 18). A fil\u00f3sofa \u2014 que hoje se identifica como g\u00eanero n\u00e3o bin\u00e1rio e que atualmente prop\u00f5e pensar as quest\u00f5es de g\u00eanero a partir da ideia de decoloniza\u00e7\u00e3o e racismo \u2014, em seus primeiros estudos, demonstrava a complexidade de presumir certa identidade fixa e a impossibilidade de conjecturar um feminino universal. Butler afirma que v\u00e1rias pessoas n\u00e3o se identificam ou n\u00e3o se veem representadas pelo feminismo. Esse movimento pode ser notado tamb\u00e9m em outros grupos minorit\u00e1rios, como o de gays e de l\u00e9sbicas. H\u00e1 dissid\u00eancias dentro dos pr\u00f3prios grupos; a viv\u00eancia da sexualidade \u00e9 diferente para cada sujeito e as ideias se movimentam, o que leva a distintas no\u00e7\u00f5es de identidade. Poder\u00edamos dizer que, para Butler, o queer origina-se de uma ruptura com o que se estabelece enquanto norma na constru\u00e7\u00e3o de uma identidade. A autora vai propor que as identidades se constroem a partir de um corpo social e se conecta \u00e0 ideia de performance e performatividade na elabora\u00e7\u00e3o de sua teoria sobre o g\u00eanero. Butler faz uma interface com a psican\u00e1lise, o estruturalismo e a genealogia foucaultiana em suas formula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 psican\u00e1lise, ela vai interrogar, a princ\u00edpio, se n\u00e3o seria a psican\u00e1lise mais um saber, entre outros, que prop\u00f5e uma leitura das identidades com base em uma matriz heterossexual e que funciona a favor de uma hierarquia j\u00e1 estabelecida em rela\u00e7\u00e3o ao g\u00eanero. Vale ressaltar que o conceito de g\u00eanero ordena um conjunto interdisciplinar de saberes, devido \u00e0 sua complexidade. Para Butler (2020, p. 27), \u201co g\u00eanero n\u00e3o deve ser meramente concebido como a inscri\u00e7\u00e3ocultural de significado num sexo previamente dado (uma concep\u00e7\u00e3o jur\u00eddica); tem de designar tamb\u00e9m o aparato mesmo de produ\u00e7\u00e3o mediante o qual os pr\u00f3prios sexos s\u00e3o estabelecidos\u201d. Tanto o\u00a0<em>queer<\/em>\u00a0quanto as teorias de g\u00eanero trazem em sua origem a semente da recusa a um enquadramento, levando-se em considera\u00e7\u00e3o resistir \u00e0 possibilidade de domestica\u00e7\u00e3o acad\u00eamica.<\/p>\n<p>Rafael Leopoldo (2020), em seu livro\u00a0<em>Cartografia do pensamento queer<\/em>, esclarece sobre a palavra inglesa\u00a0<em>queer<\/em>: inicialmente, sua acep\u00e7\u00e3o era de insulto e nomeava o estranho e bizarro, estando fora do que se nomeava como normal. Um fora de lugar, nem l\u00e1 nem c\u00e1, nem isso nem aquilo, simplesmente queer. Esses corpos exclu\u00eddos e marcados, muitas vezes, de forma violenta, recha\u00e7ados do social e do espa\u00e7o p\u00fablico, apropriam-se do termo e fazem dele outro uso, um uso como ferramenta de ruptura frente \u00e0 normaliza\u00e7\u00e3oda sociedade. De acordo com Leopoldo:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cO\u00a0<em>queer<\/em>, ante isto, toma outra forma; n\u00e3o se trata de uma identidade, mas, sobretudo, de um questionamento cont\u00ednuo das identidades, um questionamento aos processos de naturaliza\u00e7\u00e3o e normaliza\u00e7\u00e3o. (&#8230;) O queer vai questionar esses saberes de forma contundente e propor, a todo momento, que haja dentro desses outros grupos uma muta\u00e7\u00e3o\u201d (LEOPOLDO, 2020, p. 29).<\/p>\n<p>A quest\u00e3o do g\u00eanero n\u00e3o \u00e9 formulada pela psican\u00e1lise da mesma forma que para os estudos de g\u00eanero, visto que aquilo que a psican\u00e1lise entende por homem e mulher em rela\u00e7\u00e3o ao g\u00eanero se difere do que prop\u00f5em os estudos de g\u00eanero. Tomamos aqui uma defini\u00e7\u00e3o oferecida por Leguil:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cPara a psican\u00e1lise, o g\u00eanero \u00e9 da ordem de uma posi\u00e7\u00e3o subjetiva dando conta de uma certa rela\u00e7\u00e3o com o corpo e com o Outro. (&#8230;) Para a psican\u00e1lise, o g\u00eanero \u00e9, antes, aquilo atr\u00e1s do qual o sujeito corre, tentando, assim, ir ao encontro de alguma coisa de seu ser, sem nunca s\u00ea-lo totalmente\u201d (LEGUIL, 2016, p. 40).<\/p>\n<p>Marie-H\u00e9l\u00e8ne Brousse (2019) nos diz que o g\u00eanero se torna um significante mestre no lugar do sexo; o termo \u201cg\u00eanero\u201d vai evitar o equ\u00edvoco que se apresenta no significante \u201csexo\u201d em rela\u00e7\u00e3o ao bin\u00e1rio masculino\/feminino, introduzindo assim um terceiro termo, o neutro. Parece ser importante a possibilidade de adentrar no debate das quest\u00f5es de g\u00eanero e identidade, apoiando-se na \u00e9tica da psican\u00e1lise e para al\u00e9m da no\u00e7\u00e3o do discurso do mestre, levantando as modifica\u00e7\u00f5es que surgem no social e o que dela \u00e9 poss\u00edvel recolher no discurso dos analisantes.<\/p>\n<p>Se, antes, a diferen\u00e7a sexual e o binarismo homem\/mulher serviam de b\u00fassola para o sujeito, as quest\u00f5es de identidade e de g\u00eanero v\u00eam, de certa maneira, reorganizar o conjunto dos discursos. Brousse (2019, p. 73) ressalta ainda que Lacan, ao final de seu ensino, \u201cmudou a distribui\u00e7\u00e3o dos mecanismos de identifica\u00e7\u00e3o\u201d; h\u00e1 uma destitui\u00e7\u00e3o do Outro e o sujeito \u00e9 pensado a partir dos tr\u00eas registros.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao falasser, Miller observa: \u201c(&#8230;) n\u00e3o se trata mais do sujeito, do sujeito do significante, do sujeito da identifica\u00e7\u00e3o\u201d (MILLER, 2009, p. 110). Com a ideia do falasser, o Outro n\u00e3o \u00e9 mais o lugar das identifica\u00e7\u00f5es; em seu lugar est\u00e1 o corpo, o corpo pr\u00f3prio. Corpo e gozo se conjugam na identidade daquele que fala. Assim, o processo de identifica\u00e7\u00e3o vai surgir n\u00e3o mais do Outro, mas de Um-corpo, esse corpo que o falasser adora por acreditar que o tem, esse corpo que se conjuga com o gozo.<\/p>\n<p>Recebemos cada vez mais sujeitos que interrogam sobre o g\u00eanero e suas identifica\u00e7\u00f5es, recolhendo assim os efeitos do discurso de g\u00eanero na cl\u00ednica. Se, enquanto analistas, nos orientamos pelo sintoma e o gozo, indo al\u00e9m da ideia de identidade, cabe a n\u00f3s acolher a forma como o falasser se apresenta, assim, \u201ctomamos a identidade sexual como qualquer outra portada pelo falasser\u201d (FAJNWAKS, 2017, p. 38).<\/p>\n<p>Para Lacan, a exist\u00eancia do inconsciente \u00e9 insepar\u00e1vel da no\u00e7\u00e3o de sexualidade; o inconsciente \u00e9 o \u00edndice do fracasso do biol\u00f3gico e do cultural. Importante salientar que Lacan, ao teorizar sobre a sexualidade, n\u00e3o a coloca em termos de g\u00eanero, mas de gozo. Alguns estudiosos do g\u00eanero que mant\u00eam uma interlocu\u00e7\u00e3o com a psican\u00e1lise afirmam que Lacan (2008), ao propor as f\u00f3rmulas da sexua\u00e7\u00e3o e ao estabelecer o lado homem e o lado mulher em seu quadro, acaba criando uma padroniza\u00e7\u00e3o das identifica\u00e7\u00f5es reduzida ao binarismo homem\/mulher. De acordo com a leitura de Butler, \u201c(&#8230;) a vers\u00e3o lacaniana do sexo e da diferen\u00e7a sexual coloca suas descri\u00e7\u00f5es de anatomia e desenvolvimento em um quadro n\u00e3o examinado de heterossexualidade normativa\u201d (BUTLER, 2019, p. 195). Para ela, o que Lacan chama de posi\u00e7\u00f5es sexuadas se estabelece \u201crelegando as identifica\u00e7\u00f5es n\u00e3o heterossexuais ao dom\u00ednio do culturalmente imposs\u00edvel (&#8230;)\u201d (BUTLER, 2019, p. 195).<\/p>\n<p>Posto isso, interrogamos se, para os te\u00f3ricos do g\u00eanero, os importantes desdobramentos das formula\u00e7\u00f5es lacanianas sobre a sexua\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o levados em conta no embate, visto que o que vai interessar \u00e0 psican\u00e1lise \u00e9 a posi\u00e7\u00e3o de gozo do ser falante e o feminino que se localiza em cada falasser. De acordo com Ambra, Silva Jr. e Laufer:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201c(&#8230;) a aposta lacaniana em localizar a sexua\u00e7\u00e3o numa diferen\u00e7a radical que aponta para o real subverteria os apegos imagin\u00e1rios identit\u00e1rios presentes em diversos usos das teorias de g\u00eanero. Mais ainda ficariam desarmadas as cr\u00edticas feministas \u00e0 centralidade do falo como significante privilegiado da subjetividade, na medida em que tais f\u00f3rmulas de Lacan apontariam outro dom\u00ednio da experi\u00eancia, n\u00e3o todo marcado pela castra\u00e7\u00e3o\u201d (AMBRA; SILVA JR; LAUFER; 2019, p. 3).<\/p>\n<p>Lacan, em &#8220;Les non-dupes errent&#8221;, prop\u00f5e o aforismo: \u201cO ser sexuado se autoriza de si mesmo e de alguns outros\u201d (tradu\u00e7\u00e3o nossa). Essa senten\u00e7a que reverbera entre os psicanalistas n\u00e3o reduz a ideia da escolha para o ser sexuado. A quest\u00e3o simb\u00f3lica imposta pelo binarismo homem\/mulher permite tamb\u00e9m avan\u00e7ar teoricamente a partir das f\u00f3rmulas da sexua\u00e7\u00e3o. Nas palavras de Lacan:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201c(&#8230;) o ser sexual se autoriza de si mesmo. \u00c9 nesse sentido que&#8230; que ele tem a \u2018escolha\u2019. Quero dizer que isto a que a gente \u2018se limita\u2019 enfim para classificar como \u2018masculino\u2019 ou \u2018feminino\u2019 no registro civil&#8230; enfim, isso&#8230; Isso n\u00e3o impede que haja escolha. (&#8230;) Ele n\u00e3o se autoriza sen\u00e3o por ele mesmo e eu acrescentaria: e por alguns outros.\u201d (LACAN 1973, aula de 9\/2\/1974).<\/p>\n<p>Fajnwaks (2020) nos diz ser importante interrogar quem s\u00e3o esses alguns outros, pois n\u00e3o se trata mais do grande Outro, mas do outro do imagin\u00e1rio. \u00c9 importante ressaltar que, mesmo que Lacan proponha suas f\u00f3rmulas da sexua\u00e7\u00e3o a partir do binarismo e evocando a ordem simb\u00f3lica, ele inclui a dimens\u00e3o do imagin\u00e1rio. Alguns outros fazem parte da escolha e da ideia de reconhecimento que o sujeito busca em suas identifica\u00e7\u00f5es. Nesse percurso de leitura, aventamos a hip\u00f3tese de que o discurso de g\u00eanero objetiva o Um da identidade ofertado pelo discurso do mestre contempor\u00e2neo. Nas palavras de Musachi \u00a0\u201c(&#8230;) nessa tentativa se opera um certo \u2018empuxo\u2019 ao Um da identidade, o que produz uma suspens\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s identidades\u201d (MUSACHI, 2020, n\/p, tradu\u00e7\u00e3o nossa). Ao tomarmos como refer\u00eancia a orienta\u00e7\u00e3o lacaniana, a partir das f\u00f3rmulas qu\u00e2nticas da sexua\u00e7\u00e3o, temos uma leitura da sexualidade em que n\u00e3o se trata de universalizar, mas de singularizar o gozo, considerando o encontro de um real com lal\u00edngua, que habita o falasser e determina suas identifica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Se, para alguns te\u00f3ricos, a quest\u00e3o do g\u00eanero concerne apenas \u00e0 performatividade, a psican\u00e1lise n\u00e3o se limita a apenas uma quest\u00e3o de semblantes, mas busca interrogar as muta\u00e7\u00f5es no sexual, a partir do desacordo entre os lados feminino e masculino da sexua\u00e7\u00e3o. A psican\u00e1lise, ao se apropriar do aforismo lacaniano de \u201cque n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d (LACAN, 2008, p. 19), n\u00e3o trata as quest\u00f5es contempor\u00e2neas concernentes ao g\u00eanero como uma simples aparelhagem dos semblantes sem rela\u00e7\u00e3o com o gozo. Em nossa cl\u00ednica, recebemos sujeitos que se dizem trans e que colocam em xeque a constru\u00e7\u00e3o de uma identidade. Para a psican\u00e1lise, diferentemente do que prop\u00f5em algumas teorias de g\u00eanero, n\u00e3o h\u00e1 um unarismo do gozo no acolhimento da diversidade sexual. Para ela, a sexualidade \u00e9 diversa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s solu\u00e7\u00f5es \u00fanicas que o pr\u00f3prio sujeito encontra para lidar com o gozo.<\/p>\n<p>Enquanto praticantes, sabemos que a diferen\u00e7a sexual n\u00e3o se inscreve no inconsciente, mas \u00e9 na rela\u00e7\u00e3o com o inconsciente que o sujeito situa sua vida sexual numa outra cena, n\u00e3o se limitando, assim, \u00e0 quest\u00e3o da anatomia e das normas sociais. Em tempo, parece importante n\u00e3o cairmos na idealiza\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise como absoluta, que tudo pode enunciar \u2014 vale lembrar que tanto Freud quanto Lacan se valeram de outros saberes diante daquilo que a pr\u00e1tica cl\u00ednica de sua \u00e9poca lhes interrogava. Assim, n\u00e3o devemos nos eximir de nossa responsabilidade \u00e9tica e pol\u00edtica diante da alteridade nem dos fen\u00f4menos contempor\u00e2neos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>AMBRA, Pedro; SILVA JR., Nelson; LAUFER, Laurie. O ser sexual s\u00f3 se autoriza por si mesmo e por alguns outros.\u00a0<strong>Psicologia em Estudo<\/strong>, [s. l.], v. 24, p. 1-14, 2019. Acesso em: 1 mar. 2022.<\/h6>\n<h6>BROUSSE, Marie-H\u00e9l\u00e8ne. Democracias sem pai. In:\u00a0<strong>O inconsciente \u00e9 a pol\u00edtica<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, 2018, p. 129-137.<\/h6>\n<h6>BROUSSE, Marie-H\u00e9l\u00e8ne. As identidades, uma pol\u00edtica, a identifica\u00e7\u00e3o, um processo e a identidade um sintoma. In: Mulheres e discursos. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2019, p. 67-74.<\/h6>\n<h6>BUTLER, Judith.\u00a0<strong>Corpos que importam<\/strong>: os limites discursivos do \u201csexo\u201d. S\u00e3o Paulo:<br \/>\nCrocodilo edi\u00e7\u00f5es, 2019.<\/h6>\n<h6>BUTLER, Judith.\u00a0<strong>Problemas de g\u00eanero<\/strong>: feminismo e subvers\u00e3o da identidade. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2020.<\/h6>\n<h6>FAJNWAKS, Fabi\u00e1n. Lacan e as teorias queer: mal-entendidos e desconhecimentos. In:\u00a0SANTIAGO, Ana Lydia et al. (org.).\u00a0<strong>Mais al\u00e9m do g\u00eanero: corpo adolescente e seus\u00a0<\/strong><strong>sintomas<\/strong>. Belo Horizonte: Scriptum, 2017, p. 22-40.<\/h6>\n<h6>FAJNWAKS, Fabi\u00e1n. Lo que el sujeto trans ense\u00f1a al psicoan\u00e1lisis. In: TENDLARZ, Edith Beatriz.\u00a0<strong>G\u00e9nero, cuerpo y psicoan\u00e1lisis<\/strong>. Olivos: Grama, 2020. Ebook Kindle.<\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques.\u00a0<strong>O semin\u00e1rio, livro 20<\/strong>: mais, ainda. 3. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar<br \/>\nEditor, 2008.<\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques.\u00a0<strong>O semin\u00e1rio, livro 21<\/strong>: Les non-dupes errent. Li\u00e7\u00e3o de 9 de abril de 1974. (In\u00e9dito)<\/h6>\n<h6>LACAN, J.\u00a0<strong>Momento de concluir<\/strong>. Aula 15 de novembro de 1977. (In\u00e9dito, 1977-1978)<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9ric. O Falasser pol\u00edtico. In:\u00a0<strong>O avesso da biopol\u00edtica<\/strong>: Uma escrita para o gozo. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2016, p. 201-220.<\/h6>\n<h6>LEGUIL, Clotilde.\u00a0<strong>O ser e o g\u00eanero<\/strong>: homem\/mulher depois de Lacan. Belo Horizonte: EBP Editora, 2016.<\/h6>\n<h6>LEOPOLDO, Rafael.\u00a0<strong>Cartografia do pensamento queer<\/strong>. Salvador: Editora Devires, 2020.<\/h6>\n<h6>MILLER, Jacques-Alain.\u00a0<strong>Perspectivas do Semin\u00e1rio 23 de Lacan<\/strong>: o sinthoma. Rio de<br \/>\nJaneiro: Zahar, 2009.<\/h6>\n<h6>MUSACHI, Blanca. Ser sexuado en el siglo XXI: \u00bf empuje a lo trans? In: TENDLARZ, Edith Beatriz. G\u00e9nero, cuerpo y psicoan\u00e1lisis. Olivos: Grama, 2020. Ebook Kindle.<\/h6>\n<h6>SALIH, Sara.\u00a0<strong>Judith Butler e a teoria queer<\/strong>. Belo Horizonte: Aut\u00eantica Editora, 2012.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>RODRIGO ALMEIDA Psicanalista, psic\u00f3logo, mestrando pelo programa de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Psicologia da FAFICH\/UFMG romabh2003@yahoo.com.br Resumo:\u00a0O presente trabalho prop\u00f5e uma articula\u00e7\u00e3o entre alguns pontos dos \u201cdiscursos de g\u00eanero\u201d e suas teorias no que eles se contrap\u00f5em \u00e0 psican\u00e1lise, examinando de forma breve o discurso da psican\u00e1lise, sua pr\u00e1tica e seu lugar no social. 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