{"id":1927,"date":"2022-07-19T06:41:42","date_gmt":"2022-07-19T09:41:42","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1927"},"modified":"2025-12-01T13:07:23","modified_gmt":"2025-12-01T16:07:23","slug":"psicanalise-e-politica1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2022\/07\/19\/psicanalise-e-politica1\/","title":{"rendered":"PSICAN\u00c1LISE E POL\u00cdTICA[1]\u00a0"},"content":{"rendered":"<h6>FABI\u00c1N A. NAPARSTEK<br \/>\nPsicanalista, AME da EOL\/AMP<br \/>\n<a href=\"mailto:fabiannaparstek@hotmail.com\">fabiannaparstek@hotmail.com<\/a><\/h6>\n<blockquote><p>\n<strong>Resumo:<\/strong>\u00a0Neste artigo Fabi\u00e1n Naparstek parte de uma refer\u00eancia a Cervantes e Borges para, com as indica\u00e7\u00f5es de Lacan, abordar o la\u00e7o entre psican\u00e1lise e pol\u00edtica. Desse modo, o autor faz uma leitura da pol\u00edtica envolvida no la\u00e7o entre os analistas, na dire\u00e7\u00e3o do tratamento, assim como na pr\u00f3pria posi\u00e7\u00e3o do analista no mundo, marcando uma orienta\u00e7\u00e3o que vai contra os processos de segrega\u00e7\u00e3o, propondo uma estrat\u00e9gia que segue, a cada \u00e9poca, uma pol\u00edtica do sintoma singular, mas n\u00e3o sem o Outro.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: psican\u00e1lise; pol\u00edtica; sintoma; segrega\u00e7\u00e3o<b>.<\/b><\/p>\n<p><strong>Psychoanalysis and Politics<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Abstract:\u00a0<\/strong>In this essay, Fabi\u00e1n Naparstek makes reference to Cervantes and Borges in order to discuss the link between psychoanalysis and politics. The author comments on the politics involved in the bond between analysts, in the direction of treatment, as well as in the analyst&#8217;s own position in the world, marking an orientation that goes against segregation, proposing a strategy that has in mind the singular of the symptom that is not without the other.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Keywords:<\/strong>\u00a0psychoanalysis; politics; symptom; segregation.<\/p><\/blockquote>\n<div id=\"attachment_1928\" style=\"width: 1034px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Fabin_Naparstek.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"1024\" data-large_image_height=\"682\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1928\" class=\"wp-image-1928\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Fabin_Naparstek.jpg\" alt=\"\" width=\"763\" height=\"508\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1928\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Cec\u00edlia Velloso Batista<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><em>\u201cUma dispersa dinastia de solit\u00e1rios mudou a face<br \/>\ndo mundo.\u00a0Sua tarefa persiste. Se nossas previs\u00f5es n\u00e3o<br \/>\nestiverem erradas, daqui a cem anos algu\u00e9m descobrir\u00e1<br \/>\nos cem tomos da segunda enciclop\u00e9dia de Tl\u00f6n.\u00a0Ent\u00e3o,<br \/>\ndesapareceram do planeta o ingl\u00eas, o franc\u00eas e o mero<br \/>\nespanhol. O mundo ser\u00e1 Tl\u00f6n\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">(BORGES, 1940, p. 435, tradu\u00e7\u00e3o nossa)<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>A leitura e a pol\u00edtica<\/em><\/p>\n<p>O engenhoso fidalgo Don Quixote de La Mancha passou da leitura para a cidade real. Isso o levou a pelejar contra os moinhos de vento.<\/p>\n<p>Borges, por sua vez, pensava que a leitura poderia mudar o mundo. O borgeano, se \u00e9 que isso existe, \u00e9 a capacidade de ler tudo como fic\u00e7\u00e3o e acreditar no seu poder. Definitivamente, o mundo Tl\u00f6n, de Borges, \u00e9 a ilus\u00e3o de um universo criado pela leitura e que depende dela. L\u00ea-se o real perturbado e contaminado pela fic\u00e7\u00e3o. Uma fic\u00e7\u00e3o que tem consequ\u00eancias. Por sua vez, J.-A. Miller comparava esse mundo borgeano com a leitura de Jacques Lacan. Com efeito, Lacan dedicou uma vida a se colocar diante de seus alunos \u2014 os que o seguiam \u2014 fazendo uma leitura p\u00fablica do retorno ao Freud. Uma leitura que sup\u00f5e uma posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e que tenta produzir consequ\u00eancias. Produziu para ele pr\u00f3prio, j\u00e1 que ousou ir mais al\u00e9m do pai e de Freud.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Tr\u00eas cita\u00e7\u00f5es<\/em><\/p>\n<p>Partirei de tr\u00eas indica\u00e7\u00f5es de Lacan para abordar o la\u00e7o entre psican\u00e1lise e pol\u00edtica. Em primeiro lugar, J. Lacan falava sobre a \u201cfala\u00e7\u00e3o que diz respeito \u00e0 dignidade humana, sen\u00e3o aos Direitos do Homem\u201d (LACAN, 1985, p. 12). Imediatamente acrescentava, que \u201cQualquer um, a todo instante e em todos os n\u00edveis, \u00e9 negoci\u00e1vel\u201d (LACAN, 1985, p. 12) e que \u201cTodos sabem que a pol\u00edtica consiste em negociar e, desta vez, por atacado, aos pacotes, os mesmos sujeitos, ditos cidad\u00e3os, por centenas de milhares\u201d (LACAN, 1985, p. 13). Defini\u00e7\u00e3o que pode ser estendida ao conceito de pol\u00edtica em geral, mas que, nesse caso, se refere aos eventos de excomunh\u00e3o aos quais Lacan foi submetido pela Associa\u00e7\u00e3o Internacional de Psican\u00e1lise. Sublinha-se o fato de ele pr\u00f3prio ter sido objeto de negocia\u00e7\u00e3o pelos seus pr\u00f3prios alunos e pacientes.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, vou deter-me em uma refer\u00eancia ao texto &#8220;A dire\u00e7\u00e3o do tratamento e os princ\u00edpios de seu poder\u201d. Ali J. Lacan prop\u00f4s uma pol\u00edtica espec\u00edfica na realiza\u00e7\u00e3o dos tratamentos. Destaca, em primeira inst\u00e2ncia, a impot\u00eancia de sustentar uma pr\u00e1xis quando ela se reduz ao \u201cexerc\u00edcio de um poder\u201d (LACAN, 1998, p. 592). Com efeito, toma a perspectiva do lugar do analista e de suas dificuldades.<\/p>\n<p>Por fim, fornece mais uma indica\u00e7\u00e3o que, surpreendentemente, remete \u201cao dever que lhe compete em nosso mundo&#8221; (LACAN, 2003, p. 235). Na verdade, essas s\u00e3o as perspectivas que J.-A. Miller (1999) apontou no in\u00edcio de seu semin\u00e1rio sobre a Pol\u00edtica Lacaniana nos anos de 1997 e 1998.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><em>A pol\u00edtica do tratamento<\/em><\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao tratamento, a pol\u00edtica tem um lugar central na discuss\u00e3o da \u00e9poca. Em vez da suposta neutralidade do analista, Lacan se op\u00f5e propondo na psican\u00e1lise uma pol\u00edtica bem determinada, na qual o analista \u00e9 tudo, menos livre. \u00c9 menos livre na t\u00e1tica e na estrat\u00e9gia. Existe apenas UMA pol\u00edtica! Por outro lado, a refer\u00eancia \u00e0 pol\u00edtica no tratamento centra-se na a\u00e7\u00e3o que emana de sua falta a ser, e n\u00e3o de seu ser. De fato, como assinala J. Lacan, o analista &#8220;\u00e9 t\u00e3o menos seguro de sua a\u00e7\u00e3o quanto mais est\u00e1 interessado em seu ser&#8221; (LACAN, 1998, p. 593-594). Vale a pena mencionar aqui, como disse J.-A. Miller, que tal a\u00e7\u00e3o \u00e9 o antecedente do que ser\u00e1 mais tarde o ato anal\u00edtico e que esse ato ter\u00e1 algo de\u00a0<em>n\u00e3o natural<\/em>. \u00c9 por isso que, para Lacan, o problema central n\u00e3o ser\u00e1 que haja analisandos, mas que haja um analista. De fato, &#8220;a reprodu\u00e7\u00e3o dos sintomas j\u00e1 n\u00e3o constitui um problema, mas somente a reprodu\u00e7\u00e3o dos analistas; a dos pacientes est\u00e1 resolvida&#8221; (LACAN, 1998, p. 630).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A pol\u00edtica e os analistas<\/em><\/p>\n<p>Quanto ao la\u00e7o entre os analistas, Lacan subverte o tipo de estrutura de associa\u00e7\u00e3o poss\u00edvel e os modos de obten\u00e7\u00e3o de t\u00edtulos entre eles. A inven\u00e7\u00e3o dos dispositivos lacanianos \u2014 entende-se pela Escola, o cartel, o dispositivo do passe, etc. \u2014 perturba\u00a0a tend\u00eancia natural ao encontro dos analistas como grupo de ajuda m\u00fatua para o exerc\u00edcio de poder. De fato, vale ressaltar que a inven\u00e7\u00e3o de dispositivos \u00e9 para for\u00e7ar algo que vai contra uma tend\u00eancia natural ao poder e \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o do v\u00ednculo libidinal entre iguais. A Escola e seus dispositivos, na pol\u00edtica de Lacan, visam acolher o diferente, colocar o analista como um desconhecido, um de cada vez, e a uma elabora\u00e7\u00e3o coletiva a partir da heterogeneidade das singularidades. Uma pol\u00edtica na qual &#8220;tudo \u00e9 da ordem do anal\u00edtico&#8221; (MILLER, 2016, p. 12).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A pol\u00edtica da psican\u00e1lise no mundo<\/em><\/p>\n<p>Finalmente, nos referimos ao aspecto da psican\u00e1lise e dos analistas no mundo. Como j\u00e1 foi apontado, J. Lacan atribui um dever ao analista no mundo. Aqui tamb\u00e9m n\u00e3o se trata da neutralidade. A refer\u00eancia n\u00e3o \u00e9 tanto que o analista participe como cidad\u00e3o (algo que n\u00e3o lhe \u00e9 proibido obviamente), mas que ele possa introduzir algo a partir da perspectiva anal\u00edtica. A quest\u00e3o \u00e9 sobre o que a psican\u00e1lise pode fazer valer a partir de sua pr\u00f3pria orienta\u00e7\u00e3o. Se a pol\u00edtica em geral responde ao discurso do mestre na medida em que tenta introduzir a captura do sujeito por um significante mestre, a posi\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise visa destituir o sujeito desse significante para que ele possa contribuir com o que nele h\u00e1 de singular.<\/p>\n<ol>\n<li>Lacan (2003, p. 560) nos fala do\u00a0<em>direito ao sintoma<\/em>. Surge da\u00ed uma pol\u00edtica que visa a desidentifica\u00e7\u00e3o para que cada sujeito possa contribuir a partir de sua perspectiva mais singular, de sua &#8220;luz interior&#8221;, como coloca S. Weil (2021). De fato, percebe-se que qualquer pol\u00edtica que vise sustentar identifica\u00e7\u00f5es necessariamente leva \u00e0 segrega\u00e7\u00e3o. Quest\u00e3o que foi de grande preocupa\u00e7\u00e3o para J. Lacan em diferentes momentos de seu ensino. Os efeitos de uma segrega\u00e7\u00e3o que, em seu extremo, leva ao exterm\u00ednio do diferente.<\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A proposi\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>Na &#8220;Proposta de 9 de outubro de 1967&#8230;&#8221;, J. Lacan apresenta sua preocupa\u00e7\u00e3o com a segrega\u00e7\u00e3o e sua liga\u00e7\u00e3o com os campos de concentra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando fala sobre isso, ele nos diz que:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201c(&#8230;) o que vimos emergir deles, para nosso horror, representou a rea\u00e7\u00e3o de precursores em rela\u00e7\u00e3o ao que se ir\u00e1 desenvolvendo como consequ\u00eancia do remanejamento dos grupos sociais pela ci\u00eancia, e, nominalmente, da universaliza\u00e7\u00e3o que ela ali introduz. Nosso futuro de mercados comuns encontrar\u00e1 seu equil\u00edbrio numa amplia\u00e7\u00e3o cada vez mais dura dos processos de segrega\u00e7\u00e3o\u201d (LACAN, 2003, p. 263).<\/p>\n<p>Nesse par\u00e1grafo, ele n\u00e3o apenas aborda a quest\u00e3o extrema dos campos de concentra\u00e7\u00e3o como um evento recente, mas tamb\u00e9m anuncia que isso pode acontecer novamente no futuro. A an\u00e1lise pol\u00edtica da quest\u00e3o \u00e9 realmente uma revela\u00e7\u00e3o chocante. No ano de 1967, na \u00e9poca das grandes liberdades na Europa Ocidental e ap\u00f3s o suposto aprendizado que os horrores da Segunda Grande Guerra poderiam ter acarretado, J. Lacan antecipa novas segrega\u00e7\u00f5es. Na verdade, coloca os Naziz como precursores do que est\u00e1 por vir. Pode-se indicar que foram precursores do\u00a0<em>modo gueto<\/em>, onde se separa o diferente e marca uma \u00e9poca j\u00e1 h\u00e1 algum tempo. Os\u00a0<em>agrupamentos sociais que se reorganizam\u00a0<\/em>podem ser vislumbrados nas diferentes formas de bairros, mais ou menos fechados, que servem para que cada um viva ao lado daqueles que assumem desfrutar do mesmo que si mesmos. Sua indica\u00e7\u00e3o aponta que, quanto maior a\u00a0<em>universaliza\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia\u00a0<\/em>\u2014 o que hoje chamamos de globaliza\u00e7\u00e3o \u2014, maiores ser\u00e3o os efeitos da segrega\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O mais surpreendente \u00e9 que essa indica\u00e7\u00e3o \u00e9 feita na \u201cProposi\u00e7\u00e3o\u201d do dispositivo do passe. Quero dizer que, onde ele introduz sua pol\u00edtica ou sua concep\u00e7\u00e3o do final da an\u00e1lise, assim como sua pol\u00edtica de Escola para a sele\u00e7\u00e3o de analistas, \u00e9 tamb\u00e9m o momento em que ele introduz essa an\u00e1lise de seu tempo e do que est\u00e1 por vir. Nesse texto encontramos articulados os tr\u00eas aspectos da pol\u00edtica para J. Lacan: em torno da dire\u00e7\u00e3o do tratamento, do la\u00e7o entre os analistas e do analista na p\u00f3lis. Assim, pode-se inferir que o problema da a\u00e7\u00e3o do analista ou do ato do analista ser\u00e1 central na articula\u00e7\u00e3o entre pol\u00edtica e psican\u00e1lise no que diz respeito aos tr\u00eas aspectos que focalizamos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Lacan e o tempo<\/em><\/p>\n<p>Nesse ponto, vale situar que Lacan pensa em seu tempo e faz a dedu\u00e7\u00e3o do porvir. J.-A. Miller faz um desenvolvimento muito preciso do que podemos entender por tempo em J. Lacan. L\u00e1 ele aponta que se trata da &#8220;realidade transindividual do sujeito&#8221; (MILLER, 2021, p. 21, tradu\u00e7\u00e3o nossa) em um dado momento no tempo. Miller indica que &#8220;o exemplo memor\u00e1vel que todos conhecem e lembram, mesmo que n\u00e3o sejam lacanianos, \u00e9 o dos tr\u00eas prisioneiros. S\u00e3o tr\u00eas indiv\u00edduos, mas est\u00e3o presos um ao outro, o que constitui uma subjetividade, uma subjetividade prisioneira, como um prisioneiro de seu pr\u00f3prio tempo&#8221; (MILLER, 2021, p. 22, tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/p>\n<p>Em 1944, J.-P. Sartre escreveu a sua famosa pe\u00e7a\u00a0<em>Entre quatro paredes\u00a0<\/em>(2008), na qual se mostrava que\u00a0<em>o inferno s\u00e3o os outros<\/em>. A Segunda Guerra Mundial ainda n\u00e3o havia acabado, assim como Paris tamb\u00e9m n\u00e3o havia sido libertada, e Sartre colocou na mesa o problema do confinamento e dos outros. A obra mostrava uma \u00fanica cena contr\u00e1ria a qualquer possibilidade de pensar um lugar diferente. De fato, J. Lacan (1998, p. 197) argumenta com Sartre \u2014 propondo exatamente o contr\u00e1rio \u2014, pois para ele n\u00e3o h\u00e1 sa\u00edda para o sujeito a n\u00e3o ser com o Outro.<\/p>\n<p>Vale notar que Lacan tenta ler, como outro prisioneiro de seu tempo, as vari\u00e1veis que determinam nossa posi\u00e7\u00e3o e que nos d\u00e3o a possibilidade de pensar uma estrat\u00e9gia espec\u00edfica a partir da dedu\u00e7\u00e3o de nossa posi\u00e7\u00e3o a cada momento. Uma estrat\u00e9gia que segue uma pol\u00edtica do sintoma singular, mas n\u00e3o sem o Outro. A era atual gera novos significantes aos quais o indiv\u00edduo pode se identificar gerando novos modos de segrega\u00e7\u00e3o, e veremos se a psican\u00e1lise estar\u00e1 \u00e0 altura da tarefa de contrapor esses novos modos de segrega\u00e7\u00e3o a partir de seus dispositivos e de uma pol\u00edtica que permita desidentificar e colocar no horizonte o fato de que n\u00e3o h\u00e1 solu\u00e7\u00e3o total (final) que permita evitar totalmente o sofrimento.<\/p>\n<p>Por fim, pode-se concluir que em Lacan h\u00e1 um \u201crealismo\u201d (MILLER, J-A., 1999, p. 9-12) em sua concep\u00e7\u00e3o de pol\u00edtica. \u00c9 um realismo que se op\u00f5e a qualquer idealismo segregativo. O uso dos significantes mestres, que se apresentam de maneira diferente em cada \u00e9poca, pode levar, em cada ocasi\u00e3o, a novos modos de segrega\u00e7\u00e3o. Assim, a atual press\u00e3o por uma identidade que ofere\u00e7a a ilus\u00e3o da elimina\u00e7\u00e3o do sofrimento coloca os analistas diante do dever de ecoar que a sa\u00edda \u00e9, para cada sujeito, no singular e que nenhuma identidade pode resolver o mal-estar na cultura.<\/p>\n<p>Prosseguimos com uma advert\u00eancia de J. Lacan no sentido de que:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201c(&#8230;) O fato de o sintoma instituir a ordem pela qual se confirma nossa pol\u00edtica \u2014 foi esse o passo que ela deu\u00a0\u2014 implica, por outro lado, que tudo o que se articula dessa ordem \u00e9 pass\u00edvel de interpreta\u00e7\u00e3o. Por isso \u00e9 que tem toda raz\u00e3o quem p\u00f5e a psican\u00e1lise \u00e0 frente da pol\u00edtica. E poderia n\u00e3o ser nada f\u00e1cil, para o que da pol\u00edtica fez boa figura at\u00e9 aqui, se a psicanalise se revelasse mais esperta\u201d (LACAN, 2009, p. 115).<\/p>\n<p>Seguindo essas indica\u00e7\u00f5es, o sintoma, a pol\u00edtica e o direito podem ser amarrados em seu la\u00e7o com a singularidade. Que, finalmente, sup\u00f5e o direito \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o em cada sujeito que decide tomar a palavra frente a uma \u00e9poca que pretende fazer valer os supostos direitos, para eliminar o mal-estar total na identifica\u00e7\u00e3o \u00e0 literalidade de uma palavra (MILLER, 2021).<\/p>\n<p>Como dizia Lacan em &#8220;A terceira&#8221;, embora o real atravesse, &#8220;o analista tem por dever combat\u00ea-lo&#8221; (LACAN, 2015, p. 17, tradu\u00e7\u00e3o nossa). Ele poder\u00e1 fazer, em cada caso e em cada momento, a sua leitura e a sua interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>\n<strong>Tradu\u00e7\u00e3o:<\/strong>\u00a0J\u00f4natas L. Q. Cass\u00e9te<\/h6>\n<h6><strong>Revis\u00e3o:<\/strong>\u00a0Renata Mendon\u00e7a<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/h6>\n<h6>BORGES, J. L. (1940). \u201cTl\u00f6n, Uqbar, orbis Tertius\u201d.\u00a0<strong>Ficciones<\/strong>, Obras completas, Buenos Aires: Emec\u00e9, 1974.<\/h6>\n<h6>LACAN, J.\u00a0<strong>O Semin\u00e1rio, livro XI<\/strong>: os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1964) \u201cAto de funda\u00e7\u00e3o\u201d.\u00a0<strong>Outros escritos<\/strong>. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1958) \u201cA dire\u00e7\u00e3o do tratamento e os princ\u00edpios de seu poder\u201d.\u00a0<strong>Escritos<\/strong>. Rio de Janeiro, Zahar, 1998.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1975) \u201cJoyce, o Sintoma\u201d.\u00a0<strong>Outros escritos<\/strong>. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1967) \u201cProposi\u00e7\u00e3o de 9 de outubro de 1967\u201d.<strong>\u00a0Outros escritos<\/strong>. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1945) \u201cO tempo l\u00f3gico e a asser\u00e7\u00e3o de certeza antecipada\u201d.\u00a0<strong>Escritos<\/strong>. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.<\/h6>\n<h6>LACAN, J.\u00a0<strong>O semin\u00e1rio<\/strong>, livro XVIII: de um discurso que n\u00e3o fosse semblante. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1974) \u201cLa tercera\u201d.\u00a0<strong>Revista Lacaniana de Psicoan\u00e1lisis<\/strong>, n\u00ba 18. Buenos Aires: EOL-Grama, 2015.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. \u201cIluminaciones profanas\u201d, aula de 9 de setembro de 2005, in\u00e9dito.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. (1997-1998)\u00a0<strong>Pol\u00edtica lacaniana<\/strong>. Buenos Aires: Colecci\u00f3n Diva, 1999.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. (2000) \u201cTeoria de Turim: sobre o sujeito da Escola\u201d.\u00a0<strong>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana online<\/strong>, nova s\u00e9rie, ano 7, n\u00ba 21, novembro 2016. Dispon\u00edvel em: \u00a0<a href=\"http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_21\/teoria_de_turim.pdf\">http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_21\/teoria_de_turim.pdf<\/a>\u00a0(Recuperado em 20\/05\/2022).<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A.\u00a0<strong>Pol\u00eamica pol\u00edtica<\/strong>. Madrid: Gredos, 2021.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. \u201cL\u2019\u00e9coute avec et sans interpretation\u201d videoconfer\u00eancia de J.-A. Miller em Mosou, 2021. Dispon\u00edvel em Lacan Web T\u00e9l\u00e9vision: https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=F56PprU6Jmk.<\/h6>\n<h6>SARTRE, J.-P.\u00a0<strong>Entre quatro paredes<\/strong>. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2008.<\/h6>\n<h6>WEIL, S.\u00a0<strong>Sobre a supress\u00e3o geral dos partidos pol\u00edticos<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Iluminuras, 2021.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/psicanalise-politica-fabian#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a>\u00a0Publicado originalmente em\u00a0<strong>Lacan hispano<\/strong>. BRODSKY, G.; LAURENT, \u00c9.; BRIOLE, G.; compilaci\u00f3n de GLAZE, A.; MILLER, J-A. 1\u00aa. Ed. Olivos: Grama Ediciones, 2021.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>FABI\u00c1N A. NAPARSTEK Psicanalista, AME da EOL\/AMP fabiannaparstek@hotmail.com Resumo:\u00a0Neste artigo Fabi\u00e1n Naparstek parte de uma refer\u00eancia a Cervantes e Borges para, com as indica\u00e7\u00f5es de Lacan, abordar o la\u00e7o entre psican\u00e1lise e pol\u00edtica. Desse modo, o autor faz uma leitura da pol\u00edtica envolvida no la\u00e7o entre os analistas, na dire\u00e7\u00e3o do tratamento, assim como na&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57829,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[25],"tags":[],"class_list":["post-1927","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-29","category-25","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1927","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1927"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1927\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57830,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1927\/revisions\/57830"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57829"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1927"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1927"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1927"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}