{"id":1946,"date":"2022-07-19T06:41:42","date_gmt":"2022-07-19T09:41:42","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1946"},"modified":"2025-12-01T13:09:05","modified_gmt":"2025-12-01T16:09:05","slug":"a-infancia-e-trans-1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2022\/07\/19\/a-infancia-e-trans-1\/","title":{"rendered":"A INF\u00c2NCIA \u00c9 TRANS&#8230;[1]"},"content":{"rendered":"<h6>T\u00c2NIA MARIA LIMA ABREU<br \/>\nA.E. (2020-2023) EBP\/AMP<br \/>\n<a href=\"mailto:taniaabreu.ta@gmail.com\">taniaabreu.ta@gmail.com<\/a><\/h6>\n<blockquote><p>\n<strong>Resumo:\u00a0<\/strong>Este trabalho \u00e9 fruto de uma pesquisa que tomou como eixo o document\u00e1rio\u00a0<em>Pequena garota<\/em>\u00a0e as leituras que dele a autora pode fazer a partir de textos e v\u00eddeos com os quais dialogou.<\/p>\n<p><strong>Palavras chaves<\/strong>: inf\u00e2ncia; trans; sexua\u00e7\u00e3o; gozo.<\/p>\n<p><strong>Childhood is Trans<\/strong><\/p>\n<p><strong>Abstract:\u00a0<\/strong>This article is the result of a research that had as its guide the documentary\u00a0<em>Little Girl<\/em>\u00a0and the readings that the author could make of it through texts and videos with which she dialogued.<\/p>\n<p><strong>Keywords:\u00a0<\/strong>childhood; trans; sexuation;\u00a0<em>jouissance<\/em>.<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_1947\" style=\"width: 1290px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Tnia_Abreu_-_Encontros.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"1280\" data-large_image_height=\"853\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1947\" class=\"wp-image-1947\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Tnia_Abreu_-_Encontros-1024x682.jpg\" alt=\"\" width=\"694\" height=\"462\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1947\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Nelson de Almeida<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><br \/>\n<\/strong>Trata-se de um lindo document\u00e1rio dirigido por S\u00e9bastien Lifshitz, que chegou aos cinemas e \u00e0s plataformas digitais em dezembro de 2020. O longa emociona ao contar a hist\u00f3ria real de Sasha, uma crian\u00e7a de 7 anos que sempre soube que era uma garota, embora tivesse nascido menino, caracterizando, assim, o que no Manual Diagn\u00f3stico e Estat\u00edstico de Transtornos Mentais 6 (DSM 6) aparece como disforia de g\u00eanero. Durante um ano o diretor acompanhou a pequena Sasha e sua fam\u00edlia, que residem na Alta Fran\u00e7a (Hauts-de-France). O filme, com muita sensibilidade (o que n\u00e3o impediu de tamponar, com saber, a castra\u00e7\u00e3o), foi selecionado no Festival de Berlim e garantiu o pr\u00eamio de melhor longa-metragem internacional do Festival de Cinema Mix Brasil.<\/p>\n<p>Meu coment\u00e1rio se divide em duas partes, seguindo o que o t\u00edtulo, por mim escolhido, aponta. Assim, parto da ideia de que a inf\u00e2ncia \u00e9 trans e, depois, me dedicarei \u00e0s retic\u00eancias.<\/p>\n<p>Na vers\u00e3o em v\u00eddeo (que circulou na Lacan WEB TV), Daniel Roy (2021a), retomando Freud, nos relembra que uma desarmonia entre o que acontece no corpo e as palavras \u00e9 caracter\u00edstico da sexualidade infantil, mas, hoje, ter \u201cnascido em um corpo errado\u201d \u00e9 um \u201cpassaporte\u201d para ser enquadrado em uma transidentidade, como se as crian\u00e7as, em suas pesquisas infantis, em sua lat\u00eancia, n\u00e3o pudessem ter d\u00favidas, ambiguidades e qualquer transitoriedade. Como nos adverte Roy, \u201cn\u00e3o h\u00e1 caminho normal para a sexua\u00e7\u00e3o\u201d, tampouco uma inst\u00e2ncia interna ou externa \u00e0 crian\u00e7a que possa julgar se o pr\u00f3prio corpo \u00e9 um bom ou um mau corpo. Sigo Roy ao afirmar que nas crian\u00e7as h\u00e1 afetos e sintomas, mas dos quais s\u00f3 saberemos se as escutarmos. E por falar em sintomas, relembro Maleval (2021) que, tamb\u00e9m em v\u00eddeo da Lacan Web TV, nos sublinhou que a disforia de g\u00eanero \u2014 nomea\u00e7\u00e3o que acalma algumas crian\u00e7as, por encontrarem um lugar no discurso do Outro \u2014 nem sempre \u00e9 o problema maior, visto que pode vir acompanhada de outros sintomas, tais como anorexia, autismo ou perturba\u00e7\u00f5es de humor.<\/p>\n<p>Ainda na dire\u00e7\u00e3o da minha pesquisa nos \u00e1udios da Lacan Web TV, chamou a aten\u00e7\u00e3o o que disse H\u00e9l\u00e8ne de La Bouillerie, a prop\u00f3sito do prefixo \u201cdis\u201d: \u201cNa experi\u00eancia com crian\u00e7as, na pr\u00e1tica cl\u00ednica, \u00e9 comum encontrarmos crian\u00e7as diagnosticadas \u2018dis\u2019: dislexia, disortografia, discalculias, dispraxia&#8230;\u201d. Diagn\u00f3sticos que fazem s\u00e9rie \u00e0queles de outras letrinhas, tais como TDAH, TOC entre outros. A prop\u00f3sito disso, Roy nos diz que:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cTalvez tenhamos agora a fala e o esp\u00edrito com mais liberdade para nos confrontar com essa crian\u00e7a-terr\u00edvel, a hiperativa, os \u2018dis\u2019 (dis: elemento que significa dificuldade, problema, por exemplo: dislexia), aquele que morde, aquele que n\u00e3o dorme, e aos seus pais exasperados, aflitos ou desesperados\u201d (ROY, 2012, n\/p).<\/p>\n<p>No ano de 2005, Miller, no curso\u00a0<em>Piezas sueltas<\/em>, na aula de 19 de janeiro de 2005, segundo Roy, adverte para:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">&#8220;(&#8230;) a quest\u00e3o da continua\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise na \u00e9poca da leveza\u201d. Ele destaca que, face a esse \u2018dom\u00ednio da leveza\u2019 \u2014 que visa a conduzir o sujeito da sua particularidade ao universal \u2014 a psican\u00e1lise n\u00e3o tem que entrar \u2018em uma competi\u00e7\u00e3o de poder terap\u00eautico\u2019, uma vez que, com Lacan, ela \u00e9 a \u00fanica a levar em conta o lugar do objeto\u00a0<em>a<\/em>, tanto quanto como causa do desejo, como mais-de-gozar, mas, tamb\u00e9m, como consist\u00eancia l\u00f3gica, como um real \u2018produto do simb\u00f3lico\u2019. Ele nos encoraja a tomar um ponto de vista \u2018pragm\u00e1tico e de bricolagem\u2019, que consiste em procurar, com os sujeitos, os significantes \u2014 os S1 \u2014, que \u2018ajudam a deixar leg\u00edvel o gozo\u2019 e, portanto, \u2018ajudam a deixar leg\u00edvel a hist\u00f3ria\u2019\u201d (ROY, 2012, n\/p).<\/p>\n<p>Assim, escutem as crian\u00e7as: elas t\u00eam o que dizer, sobretudo sobre o mal-estar que lhes afeta o corpo. Posi\u00e7\u00e3o, como mencionada acima, absolutamente freudiana \u2014 um pouco mais adiante, retomarei a quest\u00e3o da bricolagem, ao dialogar com F\u00f3rum Zadig (2021).<\/p>\n<p>Para esta conversa\u00e7\u00e3o, retomei um texto de Freud intitulado \u201cO esclarecimento sexual das crian\u00e7as\u201d (1907), uma carta aberta endere\u00e7ada ao Dr. Michael F\u00fcrst. Ali, encontrei a ferrenha defesa de Freud sobre a import\u00e2ncia de se falar \u00e0s crian\u00e7as e, consequentemente, de escut\u00e1-las em suas curiosidades sexuais. Freud argumenta que:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201c(&#8230;) certamente s\u00e3o a habitual hipocrisia e a pr\u00f3pria m\u00e1 consci\u00eancia em quest\u00f5es de sexualidade que levam os adultos a fazer mist\u00e9rio diante das crian\u00e7as; mas \u00e9 poss\u00edvel que influa nisso alguma ignor\u00e2ncia te\u00f3rica, contra a qual podemos agir mediante o esclarecimento dos adultos\u201d (FREUD, 1907\/2015, p. 221).<\/p>\n<p>Passagem que se assemelha ao segredo de fam\u00edlia, que, com Lacan, sabemos ser sempre um algo n\u00e3o dito sobre o gozo.<\/p>\n<p>Na sequ\u00eancia, Freud traz o equ\u00edvoco \u00e0 tona, reinante, \u00e0 \u00e9poca, nas fam\u00edlias, nos educadores e na sociedade, ao suporem que \u201cfalta \u00e0s crian\u00e7as o instinto sexual, que somente na puberdade ele aparece, com o amadurecimento dos \u00f3rg\u00e3os sexuais. Isso \u00e9 um erro grosseiro, de s\u00e9rias consequ\u00eancias para o conhecimento e para a pr\u00e1tica\u201d (FREUD, 1907\/2015, p.221). Ainda, para Freud:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cNa verdade, o rec\u00e9m-nascido vem ao mundo com a sexualidade, determinadas sensa\u00e7\u00f5es sexuais acompanham seu desenvolvimento no per\u00edodo da amamenta\u00e7\u00e3o e da primeira inf\u00e2ncia, e pouqu\u00edssimas crian\u00e7as deixariam de ter atividades e sensa\u00e7\u00f5es sexuais antes da puberdade\u201d (FREUD, 1907\/2015, p.221).<\/p>\n<p>O que, em termos lacanianos, quer dizer que as crian\u00e7as gozam! Pervers\u00e3o polimorfa \u00e9 gozo. Em sua argumenta\u00e7\u00e3o, Freud segue, afirmando que:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cO que a puberdade faz \u00e9 conferir aos genitais a primazia entre todas as zonas e fontes geradoras de prazer, for\u00e7ando o erotismo a p\u00f4r-se a servi\u00e7o da fun\u00e7\u00e3o reprodutiva, um processo que naturalmente pode sofrer certas inibi\u00e7\u00f5es e que em muitos indiv\u00edduos, os futuros pervertidos e neur\u00f3ticos, efetua-se apenas de modo incompleto. Por outro lado, bem antes de alcan\u00e7ar a puberdade a crian\u00e7a \u00e9 capaz da maioria das atividades ps\u00edquicas da vida amorosa (ternura, dedica\u00e7\u00e3o, ci\u00fame) e, com alguma frequ\u00eancia, a irrup\u00e7\u00e3o desses estados ps\u00edquicos vem acompanhada das sensa\u00e7\u00f5es f\u00edsicas da excita\u00e7\u00e3o sexual, de maneira que a crian\u00e7a n\u00e3o tem d\u00favida quanto \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre as duas coisas. Em suma, bem antes da puberdade, a crian\u00e7a \u00e9, tirando a capacidade de reprodu\u00e7\u00e3o, uma criatura amorosa completa &#8230; O interesse intelectual da crian\u00e7a pelos enigmas da vida sexual, sua curiosidade sexual, manifesta-se insuspeitadamente cedo, portanto\u201d (FREUD, 1907\/2015, p.221).<\/p>\n<p>H\u00e1 um ponto que n\u00e3o desenvolverei, mas que gostaria de ressaltar, por permitir atualizar o texto freudiano ao confront\u00e1-lo com o texto de Roy (2021b), uma vez que, ali, localizamos o lugar privilegiado do mal-entendido que transmite o gozo: \u201c(&#8230;) a fam\u00edlia est\u00e1, daqui em diante, mergulhada no banho de nossa civiliza\u00e7\u00e3o, onde os objetos vindos da tecnologia, os objetos mais-de-gozar, se tornaram a autoridade e fundaram a lei de todas as formas de ideal. O gozo est\u00e1 a\u00ed em primeiro lugar\u201d (ROY, 2021b).<\/p>\n<p>Em um dos seus \u00faltimos semin\u00e1rios, de 10 de junho de 1980 \u2014 intitulado, por Jacques-Alain Miller, \u201cO mal-entendido\u201d \u2014, Lacan extrai as consequ\u00eancias e evoca \u201c(&#8230;) dois falantes que n\u00e3o falam a mesma l\u00edngua (&#8230;), dois que se conjuram para a reprodu\u00e7\u00e3o, mas por um mal-entendido realizado (&#8230;)\u201d, dando a vida, transmitem esse mal-entendido (LACAN, 1980\/2016, p. 11). Trata-se, aqui, de um mal-entendido que se refere ao gozo, acrescenta Roy.<\/p>\n<p>A\u00ed est\u00e3o dadas as condi\u00e7\u00f5es para podermos afirmar que a inf\u00e2ncia \u00e9 trans, na acep\u00e7\u00e3o de transitar e transportar. A crian\u00e7a curiosa pergunta, investiga, hipotetiza, experimenta o seu corpo e o corpo do outro, identifica-se e, desse modo, exerce a sexualidade infantil. Identifica\u00e7\u00f5es livres, influenciadas pelo afeto e pela puls\u00e3o, mas, tamb\u00e9m, livres em sua diversidade. Identifica\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se guia tanto pelo Outro, mas pelo gozo que habita o pr\u00f3prio corpo.<\/p>\n<p>O enigma da diferen\u00e7a sexual n\u00e3o escapa a essa l\u00f3gica infantil, e, como preconiza Roy (2021a), em v\u00eddeo j\u00e1 referenciado, seguindo Freud, \u201c\u00e9 um momento no qual a crian\u00e7a est\u00e1 s\u00f3\u201d, momento de crise, no qual descobre que o Outro \u00e9 barrado, n\u00e3o possui respostas para tudo. Por outro lado, o fato de ser esse o caminho para todos, \u201ca crise \u00e9 a norma\u201d, \u201cn\u00e3o h\u00e1 um caminho padr\u00e3o para encontrar sua via para sua sexua\u00e7\u00e3o\u201d, completa. Freud nomeou essa fase de lat\u00eancia, aquela na qual o gozo, advindo do sexual, \u00e9 desviado para atividades sublimat\u00f3rias e fixa o sujeito em seu modo de gozar.<\/p>\n<p>Partamos, agora, para o que me despertou aten\u00e7\u00e3o no filme, tendo como eixo norteador Sasha, sua fam\u00edlia e, dentro dela, a rela\u00e7\u00e3o m\u00e3e-crian\u00e7a.<\/p>\n<p>Trata-se de uma fam\u00edlia de quatro filhos, sendo a mais velha uma adolescente e os outros tr\u00eas nascidos meninos. Ao longo do filme, escutamos a m\u00e3e de Sasha, em consulta com um psic\u00f3logo, dizer de seu desejo de ter uma menina durante a gravidez de Sasha \u2014 \u00fanico dos quatro filhos que possui um nome comum aos dois g\u00eaneros. \u00c9 not\u00f3rio que Sasha nasceu em uma fam\u00edlia amorosa e teve a sorte de ter uma m\u00e3e que olhava para cada filho em sua singularidade, embora tenha ficado claro o id\u00edlio amoroso que havia entre ela e Sasha, o que, por vezes, deslocava seu olhar dos outros filhos.<\/p>\n<p>O pai, aquele que s\u00f3 tem direito ao amor e ao respeito ao fazer de uma mulher objeto<em>\u00a0a<\/em>\u00a0causa do seu desejo e se ocupar dos seus produtos, como nos ensinou Lacan (1974\/1975), me pareceu bem em sua fun\u00e7\u00e3o de cuidar do produto Sasha, mas inoperante para barrar o desejo da m\u00e3e. Seu discurso \u00e9 de normalizar o que se passava com a crian\u00e7a, n\u00e3o podendo alcan\u00e7ar o sofrimento que a atingia.<\/p>\n<p>No tocante \u00e0 m\u00e3e, \u00e9 interessante como ela \u00e9 sens\u00edvel e se questiona sobre a for\u00e7a do seu desejo, mas o diretor do filme opta pela via do saber, aqui, representado pela psiquiatra infantil Anne Bargiacchi, do hospital Robert Debr\u00e9, em Paris, que, de um golpe, elimina qualquer lugar tanto para o desejo quanto para o discurso psicanal\u00edtico: n\u00e3o sabemos a causa da disforia, mas n\u00e3o \u00e9 fruto do desejo dos pais. Nesse ponto, detenho-me no v\u00eddeo que Fabian Fajnwaks (2021) gravou para a\u00a0<em>6<sup>e<\/sup>\u00a0Journ\u00e9e d&#8217;\u00e9tude de l&#8217;Institut psychanalytique de l&#8217;Enfant<\/em>, no qual observou que as diferentes teorias do g\u00eanero e dos terapeutas querem \u201cabordar a sexua\u00e7\u00e3o pelo vi\u00e9s do semblante, modo de gozo feminino ou masculino, curto-circuitando o Outro, e, como se o Outro n\u00e3o existisse, abolem o desejo (&#8230;)\u201d (tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, o que se v\u00ea \u00e9 que a psiquiatria, tal como representada no filme, n\u00e3o deixou espa\u00e7o para que o dito de uma crian\u00e7a pudesse ser escutado, o que, com o tempo e sob transfer\u00eancia, poderia ser transformado em um dizer. Afinal, Sasha afirmou que queria ser uma menina quando crescesse. A fam\u00edlia passa a travar uma cruzada contra a escola na qual estudava e nas aulas de ballet, que n\u00e3o a aceitam porque, na certid\u00e3o de nascimento, est\u00e1 registrado menino, ignorando o que recomendou Roy:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cExiste a possibilidade de uma crian\u00e7a decifrar as coordenadas do lugar que ela ocupa para seus pais como \u2018causa de seu desejo\u2019 e \u2018como dejeto de seu gozo\u2019. Esse deciframento, uma crian\u00e7a o faz com os significantes que ela retira, que tomam o valor singular do gozo pulsional que os flexibiliza. Essa \u00e9 a fun\u00e7\u00e3o privilegiada do jogo da crian\u00e7a, que enoda, em volta do objeto indiz\u00edvel, as extremidades do corpo, os fios de gozo e os fragmentos de discurso. Esse objeto \u00e9 a v\u00e1lvula que abre, entreabre ou fecha, o espa\u00e7o para uma separa\u00e7\u00e3o\u201d (ROY, 2021b).<\/p>\n<p>Para concluir a primeira parte do meu trabalho, continuo com o referido texto de Roy, mas, agora, colocando-o frente a frente com o evento Zadig, rec\u00e9m ocorrido na Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP). Nele, destaco a passagem<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cN\u00f3s partimos, pois, de um outro ponto de vista, colocando que n\u00e3o existe ser falante que n\u00e3o seja de uma fam\u00edlia, o que abre ent\u00e3o muitas perspectivas para todos aqueles que est\u00e3o numa situa\u00e7\u00e3o delicada com suas fam\u00edlias ou que se consideram \u201csem fam\u00edlia\u201d, mas tamb\u00e9m para todos os outros. Para cada crian\u00e7a, protegida ou abandonada, existem possibilidades de bricolagem. Respondendo a uma l\u00f3gica do n\u00e3o-todo (<em>pas-tout<\/em>), a institui\u00e7\u00e3o \u2018fam\u00edlia\u2019 oferece outros recursos: aqueles, para as crian\u00e7as, de serem n\u00e3o-todo (<em>pas-tout<\/em>) dependentes das identifica\u00e7\u00f5es familiares, n\u00e3o-todo (<em>pas-tout<\/em>) dependente do amor, filial e parental, quer dizer, de poder explorar as facetas menos am\u00e1veis. E isso vale tamb\u00e9m para os seus \u201cparceiros no jogo da vida\u201d, pai, m\u00e3e, padrasto, madrasta e outros \u2018familiares\u2019\u201d (ROY, 2021b).<\/p>\n<p>Do F\u00f3rum Zadig, ocorrido em 1\u00ba de julho de 2021, retiro a entrevista com Are Bolguesi, conduzida por Angelina Harari, e os ensinamentos extra\u00eddos dos dez minutos que nos concedeu, sobretudo no tocante \u00e0 rela\u00e7\u00e3o dela com a moda, que, ao vestir a pr\u00f3pria pele, a liberta.<\/p>\n<p>Sasha e Are t\u00eam, ambas, uma paix\u00e3o que, entretanto, encontrou destinos distintos. Are relata como tem sido libertador cuidar de sua pele, por interm\u00e9dio da moda. Sasha, uma crian\u00e7a cujo discurso foi, segundo Maleval (2021), tomado como \u201cdiscurso cient\u00edfico\u201d, n\u00e3o foi ouvida naquilo que a movia: a dan\u00e7a. A tristeza no olhar de Sasha poderia ter sido interpretada como a de quem n\u00e3o podia fazer o que o desejo lhe apontava? Nesse contexto, o da \u201cbricolagem\u201d acima citado, podemos questionar: Sasha poderia ter sido um \u201cmenino bailarino\u201d? Bricolagem, por esse prisma, com o que a puls\u00e3o vivificava em seu corpo, resson\u00e2ncia do eco de um dizer? Teria sido essa sua sa\u00edda\u00a0<em>sinthom\u00e1tica<\/em>, seu modo de ser mulher?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Parto, agora, para as retic\u00eancias&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 do conhecimento de todos que Jacques-Alain Miller denominou o ano de 2021 como \u201cano trans\u201d. Toda nomea\u00e7\u00e3o implica alguma fixa\u00e7\u00e3o. No campo epist\u00eamico, estamos ainda no instante de ver, de produ\u00e7\u00e3o de ideias decorrentes dessa fixa\u00e7\u00e3o, cabendo, ent\u00e3o, d\u00favidas: o que \u00e9 um trans? Bin\u00e1rio ou n\u00e3o bin\u00e1rio? O que \u00e9 sexo fluido? Necessitaremos de algum tempo para compreender o que \u00e9 um fen\u00f4meno global, atemporal e diverso: a teoria do g\u00eanero. Eric Marty (2021), entrevistado por Jacques-Alain Miller sobre seu rec\u00e9m-lan\u00e7ado livro,\u00a0<em>O sexo dos modernos<\/em>, elevou tais teorias \u00e0 categoria de \u201c\u00faltima grande mensagem ideol\u00f3gica do ocidente ao resto do mundo\u201d, destacando suas influ\u00eancias jur\u00eddicas em diversas democracias.<\/p>\n<p>Diante da diversidade que o tema imp\u00f5e \u2014 e assim deve ser tratado, a meu ver \u2014, detenho-me agora em uma pequena digress\u00e3o, contida no t\u00edtulo do meu trabalho: as retic\u00eancias, pois eles me levar\u00e3o a tratar de outra fixa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O que s\u00e3o as retic\u00eancias? Quando us\u00e1-las? Em que contexto? A sua presen\u00e7a no t\u00edtulo do meu trabalho levou-me a pesquisar as suas origens, e eis que me deparo com uma etiologia latina para os tr\u00eas pontinhos, que significam algo impl\u00edcito. O que h\u00e1 de impl\u00edcito no momento \u201ctrans\u201d, que, de uma d\u00e9cada para c\u00e1, assolou o mundo, levando as crian\u00e7as em seu movimento? Ser\u00e1 que a onda \u201ctrans\u201d do mundo adulto pode ser \u201ctransportada\u201d para o infantil que, em si, \u00e9 uma transmuta\u00e7\u00e3o por estrutura?<\/p>\n<p>A inf\u00e2ncia \u00e9, por estrutura, \u201ctrans\u201d: transi\u00e7\u00e3o, transforma\u00e7\u00e3o, transgress\u00e3o. Mas, sobretudo, \u201ctransfix\u00e3o\u201d. Essa palavra \u00e9 dicionarizada e significa um m\u00e9todo de amputa\u00e7\u00e3o cir\u00fargica em que se transpassa o bisturi de lado a lado, dividindo os m\u00fasculos de dentro para fora, segundo o Michaelis. Qualquer semelhan\u00e7a com o que temos presenciado ao n\u00edvel do esmagamento do infantil pelo discurso do adulto n\u00e3o \u00e9 mera coincid\u00eancia. \u00c9 de \u201cfix\u00e3o\u201d que se trata quando a fic\u00e7\u00e3o infantil \u00e9 atravessada pelo discurso do Outro.<\/p>\n<p>Freud nos legou o conceito de fixa\u00e7\u00e3o, Lacan inventa a \u201cfix\u00e3o\u201d. A crian\u00e7a do s\u00e9culo XXI est\u00e1 a nos presentear, com sua divis\u00e3o desde dentro, com os efeitos em seu corpo do Discurso do Mestre, aqui representados pela Ci\u00eancia e pelas leis. Quem vem primeiro? Quem serve a quem? Isso n\u00e3o interessa ao infantil, pois, sobre ele, tombam os efeitos da\u00ed transportados. Se o m\u00fasculo se divide de dentro para fora, a crian\u00e7a se divide de fora para dentro, a partir do que v\u00ea e ouve.<\/p>\n<p>Voltemos \u00e0s retic\u00eancias, sem perder de vista que, al\u00e9m de apontarem para uma interrup\u00e7\u00e3o da frase, elas transmitem sentimentos: surpresas, d\u00favidas, suspense&#8230; Elas animam um texto! Eis o que interessa nesses pontinhos: a arte da vivifica\u00e7\u00e3o que, no nosso\u00a0<em>affaire<\/em>, tem como caminho privilegiado a pr\u00e1tica cl\u00ednica.<\/p>\n<p>O que a psican\u00e1lise pode oferecer aos sujeitos falantes que sofrem por uma inadequa\u00e7\u00e3o entre corpo e discurso? \u00c9 de leitura do sintoma que se trata: encontro de significante e corpo.<\/p>\n<p>Concluo lembrando que os significantes menina ou menino fazem eco no corpo de modo singular e o fazem gozar, uma vez que \u201cum corpo, isso se goza\u201d (LACAN, 1972\u201373\/2008, p. 29), desde que tal gozo seja corporizado de modo significante. Sasha nos demonstra que, no sexo, n\u00e3o h\u00e1 nada mais que uma quest\u00e3o de cor, como ensina Lacan: \u201cpode haver mulher cor de homem, ou homem cor de mulher\u201d (LACAN 1975\u20131976\/2005, p. 112).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>FAJNWAKS, F. Entrevista concedida a Christine Maugin, publicada em Les Z\u2019atelier 2, como atividade preparat\u00f3ria \u00e0 6<sup>e<\/sup>\u00a0Journ\u00e9e d&#8217;\u00e9tude de l&#8217;Institut psychanalytique de l&#8217;Enfant, de 13 de mar\u00e7o de 2021. Em\u00a0<a href=\"https:\/\/institut-enfant.fr\/organisation-jie6\/zatelier-video-1\/\">https:\/\/institut-enfant.fr\/organisation-jie6\/zatelier-video-1\/<\/a>. Acesso em: 10 ago. 2021<\/h6>\n<h6>FREUD, Sigmund (1907). O esclarecimento sexual das crian\u00e7as (carta aberta ao Dr. M. Furst). Trad: Paulo C\u00e9sar de Souza, In:\u00a0<strong>Obras Completas<\/strong>. RJ: Companhia das Letras, 2015 vol. 8, p. 220\/226.<\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques.\u00a0<strong>O semin\u00e1rio, livro XXIII:<\/strong>\u00a0o sinthoma. (texto estabelecido por J-A Miller) Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1975-1976\/2005, p. 112.<\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques. O mal-entendido, li\u00e7\u00e3o de 10\/06\/1980, In:<strong>\u00a0Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/strong>, n. 72. S\u00e3o Paulo, mar\u00e7o de 2016, p. 11.<\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques.\u00a0<strong>O semin\u00e1rio, livro XX:<\/strong>\u00a0mais, ainda. (texto estabelecido por J-A Miller) Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1972\/1973\/1985, p. 29.<\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques.\u00a0<strong>O semin\u00e1rio, livro XXII:<\/strong>\u00a0RSI. 1974\/1975, in\u00e9dito.<\/h6>\n<h6>MALEVAL, J-C. La r\u00e9assignation de genre chez l\u2019enfant. In: Lacan Web Tv. YouTube.com. em 12 de abril de 2021. Acesso em: 10 ago. 2021. Tradu\u00e7\u00e3o da autora.<\/h6>\n<h6>MARTY, \u00c9ric. Entrevista sobre\u00a0Le sexe des modernes, por Jacques-Alain Miller. Correio Express. 21 mar. 2021. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"about:blank\">https:\/\/www.ebp. org.br\/correio_express\/2021\/04\/14\/entrevista-sobre-le-sexe-des-modernes\/<\/a>. Acesso em: 14 de abril de 2021.<\/h6>\n<h6>MILLER, Jacques-Alain. Del objeto a al sinthome. In:\u00a0<strong>Piezas sueltas<\/strong>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2005, p. 97\/117.<\/h6>\n<h6>ROY, Daniel. \u00catre n\u00e9 dans le mauvais corps. (v\u00eddeo) In: Lacan Web TV. YouTube.com. em 28.6.2021a. Acesso em: ago. 2021. Tradu\u00e7\u00e3o da autora.<\/h6>\n<h6>ROY, Daniel. Parents exasp\u00e9r\u00e9s \u2013 Enfants Terribles. In:\u00a0<strong>Zapresse\u00a0: Lettre D\u2019Information de L\u2019Institut Psychanalitique de L\u2019Enfant<\/strong>. Universit\u00e9 Populaire Jacques Lacan.2021b. Dispon\u00edvel em\u00a0:\u00a0<a href=\"https:\/\/institut-enfant.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/PARENTS_EXASPERES.pdf\">https:\/\/institut-enfant.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/PARENTS_EXASPERES.pdf<\/a>\u00a0Acesso em: ago, 2021. Tradu\u00e7\u00e3o da autora.<br \/>\nZADIG. F\u00f3rum. Trans: Leituras. Evento da La movida Zadig Doces &amp; B\u00e1rbaros, em 1\u00ba de julho de 2021, via Plataforma Zoom.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/a-infancia-trans#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a>\u00a0Texto apresentado e debatido em forma de Conversa\u00e7\u00e3o no N\u00facleo de Pesquisa em Psican\u00e1lise com Crian\u00e7as, Se\u00e7\u00e3o-MG, em 18\/09\/2021.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>T\u00c2NIA MARIA LIMA ABREU A.E. (2020-2023) EBP\/AMP taniaabreu.ta@gmail.com Resumo:\u00a0Este trabalho \u00e9 fruto de uma pesquisa que tomou como eixo o document\u00e1rio\u00a0Pequena garota\u00a0e as leituras que dele a autora pode fazer a partir de textos e v\u00eddeos com os quais dialogou. Palavras chaves: inf\u00e2ncia; trans; sexua\u00e7\u00e3o; gozo. Childhood is Trans Abstract:\u00a0This article is the result of&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57835,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[25],"tags":[],"class_list":["post-1946","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-29","category-25","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1946","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1946"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1946\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57836,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1946\/revisions\/57836"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57835"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1946"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1946"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1946"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}