{"id":1949,"date":"2022-07-19T06:41:42","date_gmt":"2022-07-19T09:41:42","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1949"},"modified":"2025-12-01T13:09:30","modified_gmt":"2025-12-01T16:09:30","slug":"almanaque-on-line-entrevista-sergio-laia-a-m-e-da-ebp-amp","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2022\/07\/19\/almanaque-on-line-entrevista-sergio-laia-a-m-e-da-ebp-amp\/","title":{"rendered":"ALMANAQUE ON-LINE ENTREVISTA S\u00c9RGIO LAIA A.M.E. da EBP\/AMP\u00a0"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_1950\" style=\"width: 622px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Fred_Bandeira22-1.jpg\" data-dt-img-description=\"Imagem: Fred Bandeira\" data-large_image_width=\"612\" data-large_image_height=\"612\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1950\" class=\" wp-image-1950\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Fred_Bandeira22-1.jpg\" alt=\"\" width=\"501\" height=\"501\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1950\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Fred Bandeira<span style=\"color: #111111; font-family: 'normal Arial', Helvetica, sans-serif; font-size: 14px;\">\u00a0<\/span><\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Almanaque On-Line: H\u00e1\u00a0<\/strong><strong>mais de trinta anos, em seu semin<\/strong><strong>\u00e1<\/strong><strong>rio\u00a0<em>O banquete dos analistas,<\/em>\u00a0Miller convocava os psicanalistas para uma tomada de posi\u00e7\u00e3o diante do avan<\/strong><strong>\u00e7<\/strong><strong>o de um discurso cujo cerne implicava o apagamento do desejo em favor de uma injun\u00e7\u00e3o ao mais de gozar.\u00a0 Hoje, esse cen<\/strong><strong>\u00e1<\/strong><strong>rio se consolidou. Sabemos que, distintamente de um discurso que, por estrutura, faz barreira ao gozo, como vemos figurado no discurso do mestre, o discurso do capitalista, ao qual Miller se refere, possui uma configura\u00e7\u00e3o na qual o sujeito e o objeto mais de gozar gozo est\u00e3o diretamente vinculados.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Uma de suas manifesta\u00e7\u00f5es que interessa aqui isolar adv<\/strong><strong>\u00e9<\/strong><strong>m da parceria entre o discurso liberal \u2014 pr<\/strong><strong>\u00f3<\/strong><strong>prio ao capitalismo \u2014 e o saber da ci<\/strong><strong>\u00ea<\/strong><strong>ncia, que exibe como palavras de ordem a utilidade e a rentabilidade, o que significa dizer que se ampara em uma l<\/strong><strong>\u00f3<\/strong><strong>gica utilitarista que vai na contram\u00e3o da exist<\/strong><strong>\u00ea<\/strong><strong>ncia do amor, do desejo e do gozo.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Nesse contexto, a pr<\/strong><strong>\u00e1<\/strong><strong>tica anal<\/strong><strong>\u00ed<\/strong><strong>tica permanece sob a press\u00e3o de ceder a essas regras, seja, por exemplo, deixando-se incluir em sua burocracia, seja acatando o seu imperativo de efic<\/strong><strong>\u00e1<\/strong><strong>cia medido por estudos e\u00a0<\/strong><strong>c\u00e1lculos estat\u00ed<\/strong><strong>sticos. Diante dessa conjuntura, quais s\u00e3o as sa<\/strong><strong>\u00ed<\/strong><strong>das para que a psican<\/strong><strong>\u00e1<\/strong><strong>lise possa se manter como um discurso que faz obje\u00e7\u00e3o a esse empreendimento de universaliza\u00e7\u00e3o ou de massifica\u00e7\u00e3<\/strong><strong>o an<\/strong><strong>\u00f4<\/strong><strong>nima?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>S\u00e9rgio Laia:<\/strong>\u00a0Primeiramente, acho oportuno lembrar uma observa\u00e7\u00e3o feita por Jacques-Alain Miller em uma de suas recentes apresenta\u00e7\u00f5es virtuais, quando destaca que Lacan sempre se deixava tocar por uma oportunidade relativa a seu tempo, mas sem abrir m\u00e3o de ser Lacan. O exemplo evocado, nessa ocasi\u00e3o, por Jacques-Alain Miller, \u00e9 justamente o das refer\u00eancias que Lacan fez, no final dos anos 1960 e no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1970, a Marx e \u00e0 mais-valia: elas n\u00e3o deixam de se valer da import\u00e2ncia que o pensamento e a a\u00e7\u00e3o marxistas tinham, sobretudo entre os jovens comprometidos com lutas para um mundo mais justo e melhor, mas Lacan n\u00e3o se apresenta propriamente como mais um marxista ou algu\u00e9m diretamente envolvido em a\u00e7\u00f5es anti-capitalistas, tampouco se coloca como um defensor do capitalismo \u2014 ele se serve, por exemplo, da no\u00e7\u00e3o marxista de\u00a0<em>mais-valia<\/em>\u00a0para ressaltar o que passa a formular, a partir da experi\u00eancia psicanal\u00edtica, como\u00a0<em>mais-de-gozar.<\/em><\/p>\n<p>Considero, por conseguinte, importante esclarecer que a formaliza\u00e7\u00e3o lacaniana dos discursos, embora pass\u00edvel de algum sequenciamento na hist\u00f3ria e de refer\u00eancia a certos contextos, n\u00e3o se restringe a essa historiciza\u00e7\u00e3o nem a esses referenciais. Em uma perspectiva que poderia ser qualificada de hist\u00f3rico-contextual, sabemos que o discurso do mestre foi relacionado por Lacan ao \u201croubo\u201d, ao \u201crapto\u201d e \u00e0 \u201csubtra\u00e7\u00e3o\u201d realizados pelo senhor; quanto ao \u201csaber\u201d que o escravo, particularmente na Gr\u00e9cia Antiga, derivava da pr\u00f3pria pr\u00e1tica, isso \u00e9 como um\u00a0<em>savoir-faire\u00a0<\/em>que, exceto pela opera\u00e7\u00e3o do senhor, jamais poderia ser articulado na forma de um saber valorizado e difundido como\u00a0<em>episteme<\/em>\u00a0(LACAN, 1969-1970\/1991, p. 21). Igualmente por uma contextualiza\u00e7\u00e3o e uma localiza\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, o discurso universit\u00e1rio chegou a ser associado \u00e0 universidade, que n\u00e3o mede esfor\u00e7os para coloc\u00e1-lo \u201cem posi\u00e7\u00e3o dominadora\u201d (LACAN, 1969-1970\/1991, p. 231). Em mais uma refer\u00eancia localiz\u00e1vel historicamente, Lacan ressaltou a import\u00e2ncia, para uma hist\u00e9rica, de \u201cque o outro chamado homem saiba\u201d o quanto \u201cela se torna nesse contexto de discurso\u201d um \u201cobjeto precioso\u201d (LACAN, 1969-1970\/1991, p. 37), e, certamente, no final do s\u00e9culo XIX e nas quatro primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX, Freud escutou como poucos o que suas pacientes diziam e favoreceu, com sua descoberta do inconsciente nessa experi\u00eancia singular de escuta, a formula\u00e7\u00e3o lacaniana do discurso do mestre, do discurso da hist\u00e9rica e do discurso anal\u00edtico. Todavia, com sua \u201cprodu\u00e7\u00e3o dos quatro discursos\u201d, Lacan visa dar corpo a \u201cuma estrutura&#8230; que ultrapassa bastante a fala, sempre mais ou menos ocasional\u201d (LACAN, 1969-1970\/1991, p. 11). Por essa ultrapassagem, cada um dos quatro discursos n\u00e3o se limita a ocasi\u00f5es hist\u00f3rico-contextuais, mesmo se elas s\u00e3o evocadas por uma das designa\u00e7\u00f5es que corresponde a cada um como sendo o discurso\u00a0<em>do mestre<\/em>, o discurso\u00a0<em>universit<\/em><em>\u00e1rio<\/em>, o discurso\u00a0<em>da hist\u00e9<\/em><em>rica\u00a0<\/em>e o discurso\u00a0<em>anal<\/em><em>\u00ed<\/em><em>tico<\/em>. Em cada discurso, trata-se, segundo Lacan, do que \u201csubsiste em certas rela\u00e7\u00f5es fundamentais\u201d que, \u201cliteralmente, n\u00e3o poderiam se manter sem a linguagem\u201d, mas, \u201cno interior\u201d dessas rela\u00e7\u00f5es, aborda-se tamb\u00e9m \u201calguma coisa que \u00e9 bem mais ampla e vai bem mais longe do que as enuncia\u00e7\u00f5es efetivas\u201d (LACAN, 1969-1970\/1991, p. 11).<\/p>\n<p>No que concerne \u00e0 linguagem, os matemas lacanianos dos discursos s\u00e3o compostos pelo significante-mestre (S<sub>1<\/sub>), pelo significante referente ao saber (S<sub>2<\/sub>) e por esse efeito significante que tampouco deixa de ser uma esp\u00e9cie de rasura significante, designada como sujeito barrado ou dividido (S). Contudo, essa \u201calguma coisa\u201d que, embora se amplifique e extrapole as enuncia\u00e7\u00f5es efetivas, tamb\u00e9m se encontra inscrita nos discursos, \u00e9 o que Lacan chama de\u00a0<em>mais-de-gozar<\/em>\u00a0e localiza no objeto\u00a0<em>a<\/em>. Assim, em cada discurso, considero que Lacan \u2014 sem confundi-los \u2014 procura articular e, portanto, aproximar dois tipos de elementos que, ao longo uma parte de seu ensino, eram tomados como heterog\u00eaneos: os elementos concernentes \u00e0 dimens\u00e3o significante (S<sub>1<\/sub>, S<sub>2<\/sub>, S) e aquele referente \u00e0 dimens\u00e3o do gozo (<em>a<\/em>). Essa heterogeneidade entre significante e gozo n\u00e3o deve ser confundida com uma oposi\u00e7\u00e3o na qual um excluiria necessariamente o outro impedindo-lhe a a\u00e7\u00e3o: ela tem a ver com certa dist\u00e2ncia, entre gozo e corpo, demarcada pelo impacto do significante nos corpos humanos.<\/p>\n<p>Prefiro me ater, aqui, \u00e0 especificidade lacaniana da acep\u00e7\u00e3o do objeto\u00a0<em>a<\/em>\u00a0como mais-de-gozar, sem desenvolver o modo como se evoca a\u00ed, tamb\u00e9m, a no\u00e7\u00e3o marxista de\u00a0<em>mais-valia<\/em>. Assim, da pr\u00f3pria a\u00e7\u00e3o do significante nos corpos, h\u00e1 um resto imperme\u00e1vel \u00e0 mortifica\u00e7\u00e3o e Lacan \u2014 localizando-o como objeto\u00a0<em>a<\/em>\u00a0\u2014 destaca nele, a meu ver, tanto a insist\u00eancia quanto certa anula\u00e7\u00e3o do gozo, valendo-se de toda uma resson\u00e2ncia pr\u00f3pria \u00e0 l\u00edngua francesa, ao designar esse resto como\u00a0<em>plus-de-jouir.\u00a0<\/em>Na tradu\u00e7\u00e3o \u201cmais-de-gozar\u201d, perde-se essa resson\u00e2ncia e, talvez, algo dela poderia ser mantida se opt\u00e1ssemos por traduzir\u00a0<em>plus-de-jouir\u00a0<\/em>\u00a0como \u201cmais-a-gozar\u201d. Trata-se concomitantemente de insist\u00eancia e anula\u00e7\u00e3o porque, em franc\u00eas, o adv\u00e9rbio\u00a0<em>plus<\/em>\u00a0implica sempre\u00a0<em>o que\u00a0<\/em><em>\u00e9\u00a0<\/em><em>mais<\/em>\u00a0e, acompanhado da preposi\u00e7\u00e3o\u00a0<em>de<\/em>, aponta, ao contr\u00e1rio,\u00a0<em>para o que n\u00e3<\/em><em>o h<\/em><em>\u00e1\u00a0<\/em><em>mais<\/em>. Logo, como\u00a0<em>plus-de-jouir<\/em>, o objeto\u00a0<em>a<\/em>\u00a0nos discursos implica, sem cessar, um\u00a0<em>mais gozo<\/em>\u00a0que n\u00e3o deixa de ser tamb\u00e9m experimentado, embora sem que se queira saber disso, como uma\u00a0<em>aus<\/em><em>\u00ea<\/em><em>ncia<\/em>, um\u00a0<em>menos<\/em>\u00a0que, ao mesmo tempo, convoca um\u00a0<em>mais<\/em>\u00a0que, a cada vez, tampouco se alcan\u00e7a. Estimo que, na configura\u00e7\u00e3o do discurso do capitalista por Lacan, essa insist\u00eancia-anula\u00e7\u00e3o do gozo como\u00a0<em>plus-de-jouir\u00a0<\/em>ser\u00e1 levada ao extremo, e foi isso que, a meu ver, o fez se interessar pelo que tal discurso opera. Em outros termos, diferentemente de muitos envolvidos com as lutas pol\u00edticas dos anos 1960-1970, Lacan n\u00e3o me parece propriamente apostar na instaura\u00e7\u00e3o de outro modo de produ\u00e7\u00e3o avesso ao capitalismo, tampouco se coloca como um defensor desse modo de produ\u00e7\u00e3o cada vez mais dominante. Ao mesmo tempo, ao localizar esse extremo da insist\u00eancia-anula\u00e7\u00e3o do gozo como\u00a0<em>plus-de-jouir<\/em>, Lacan tamb\u00e9m vai se servir do discurso anal\u00edtico para retificar ou, retomando um termo da quest\u00e3o de voc\u00eas, para fazer obje\u00e7\u00e3o a essa forma paradoxal de o gozo se impor e se esvair dos corpos dos seres afetados pelo significante.<\/p>\n<p>Na formula\u00e7\u00e3o dos quatro discursos por Lacan no\u00a0<em>Semin\u00e1rio XVII<\/em>, h\u00e1 uma vetoriza\u00e7\u00e3o ordenada da esquerda para a direita com rela\u00e7\u00e3o ao giro dos quatro elementos (S<sub>1<\/sub>, S<sub>2<\/sub>, S,\u00a0<em>a<\/em>) por quatro lugares diferentes entre si, mas que permanecem os mesmos em cada discurso. Respondendo a uma pergunta que lhe fiz no dia 19 de outubro de 2020, por ocasi\u00e3o de um evento virtual da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, J\u00e9sus Santiago p\u00f4de destacar que, no discurso do capitalista, essa vetoriza\u00e7\u00e3o ordenada deixa de se sustentar e vetores transversais e perpendiculares se imp\u00f5em sem definir propriamente um giro dos elementos desse discurso cada vez mais dominante. O desmantelamento, no discurso do capitalista, dessa vetoriza\u00e7\u00e3o ordenada que, a princ\u00edpio, norteava os discursos, me parece tamb\u00e9m destacar que nada gira como antes, mas o significante-mestre (S<sub>1<\/sub>) insiste e impera, com sua prolifera\u00e7\u00e3o implac\u00e1vel e an\u00f4nima, no adoecimento dos corpos e na configura\u00e7\u00e3o do que j\u00e1 designei certa vez como\u00a0<em>sujeitos objetalizados<\/em>, ou seja, consumidos pelos objetos que muitas vezes eles mesmos consomem (LAIA, 2008). Por isso, o discurso do capitalista, embora seja, nos termos mesmo de Lacan, \u201co que se fez de mais astucioso como discurso\u201d, acaba por ser tomado pela \u201cexplos\u00e3o\u201d (<em>cr<\/em><em>\u00e9<\/em><em>vaison<\/em>) na medida em que ele \u201cse consuma (<em>se consomme<\/em>) t\u00e3o bem a ponto de consumir-se (<em>se consume<\/em>)\u201d (LACAN, 1972\/1978, p. 48). H\u00e1, no discurso capitalista e, ainda, na pr\u00f3pria dimens\u00e3o discursiva do inconsciente, uma esp\u00e9cie singular de autofagia, porque a degrada\u00e7\u00e3o e a mortifica\u00e7\u00e3o que lhe s\u00e3o concernentes colocam em perigo os corpos por ela impactados, mas tamb\u00e9m fazem desse risco sua consuma\u00e7\u00e3o, ou seja, a realiza\u00e7\u00e3o de seu pr\u00f3prio dom\u00ednio.<\/p>\n<p>A pergunta de voc\u00eas tamb\u00e9m me faz indagar sobre como enfrentar essa domina\u00e7\u00e3o sem ser pela via sem sa\u00edda da revolta, porque, nesta \u00faltima, reitera-se o imp\u00e9rio do significante-mestre (S<sub>1<\/sub>) e a prolifera\u00e7\u00e3o do mais-a-gozar (<em>a<\/em>). A via da incorpora\u00e7\u00e3o do discurso tomado pela vontade imperiosa de gozo tampouco \u00e9 uma sa\u00edda, pois \u00e9 o que j\u00e1 acontece quando \u2014 nos meandros obscuros da satisfa\u00e7\u00e3o e na escalada contempor\u00e2nea do capitalismo \u2014 passamos a ser todos capitalistas, agenciadores da linguagem do lucro, mas n\u00e3o menos segregados. Assim, o discurso do capitalista, inclusive como uma vers\u00e3o atualizada do discurso do inconsciente, \u00e9 uma prolifera\u00e7\u00e3o de mal-entendidos que mortificam todos aqueles por ele englobados. Por\u00e9m, a experi\u00eancia psicanal\u00edtica, tomando como seu\u00a0<em>princ<\/em><em>\u00edpio ativo\u00a0<\/em>o que \u00e9 segregado na dimens\u00e3o do gozo (<em>a<\/em>), endere\u00e7a ao sujeito (S barrado) algumas interpreta\u00e7\u00f5es quanto ao que o destitui de um corpo. Na escala, portanto, do discurso anal\u00edtico, \u00e9 encontrada, segundo Lacan, \u201cuma forma de mal-entendido na qual\u201d o sujeito, como hi\u00e2ncia no campo dos significantes eivada de gozo, \u201cse quita\u201d e pode \u201csubsistir\u201d (LACAN, 1972\/1978, p. 48). Importante destacar que a utiliza\u00e7\u00e3o lacaniana do verbo\u00a0<em>quitar<\/em>\u00a0me parece introduzir, para o sujeito (S), no discurso anal\u00edtico, a dimens\u00e3o do pagamento da qual tanto o capitalista-do-mercado quanto o inconsciente-capitalista insistem em se safar condenando-se, de todo modo, \u00e0 insaciabilidade do\u00a0<em>mais-a-gozar<\/em>\u00a0(<em>a<\/em>). Por sua vez, a esse sujeito que se quita e pode passar a subsistir, com sua pr\u00f3pria hi\u00e2ncia imiscu\u00edda de gozo, em uma forma de mal-entendido, outros usos do corpo se tornam vi\u00e1veis, diferentemente do que acontece na fantasia, porque esta, em um circuito mais privado que o do mercado, n\u00e3o deixa de ser pris\u00e3o no mais-a-gozar insaci\u00e1vel (<em>a<\/em>).<\/p>\n<p>A experi\u00eancia anal\u00edtica d\u00e1 acesso, ent\u00e3o, a outros modos de \u201cviver a puls\u00e3o\u201d (LACAN, 1964\/1973, p. 246), mas tamb\u00e9m o inconsciente, porque, pelo \u201cespa\u00e7o de um lapso\u201d, ou seja, de um mal-entendido, sobretudo ao fim de uma an\u00e1lise, quando o discurso anal\u00edtico toma a forma mesma do ato, o inconsciente deixa de ter qualquer \u201calcance de sentido (ou interpreta\u00e7\u00e3o)\u201d (LACAN, 1976\/2001, p. 571). Os testemunhos de passe s\u00e3o prof\u00edcuos em nos mostrar o quanto, no discurso anal\u00edtico, os significantes-mestres (S<sub>1<\/sub>) determinantes da domina\u00e7\u00e3o subjetiva pelo Outro passam a iterar de outra forma, porque n\u00e3o funcionam apenas nos lugares do agenciamento, da verdade ou do outro: eles passam a ser localizados no lugar da produ\u00e7\u00e3o-perda. Trata-se, ent\u00e3o, efetivamente de outro tipo de mal-entendido: o significante-mestre (<em>ma<\/em><em>\u00ee<\/em><em>tre<\/em>) que me faz ser (<em>m<\/em><em>\u2019\u00ea<\/em><em>tre<\/em>) e me assola como sujeito, se apresenta, pelo discurso anal\u00edtico, no lugar de produ\u00e7\u00e3o perdida e, com isso, temos \u201cum outro estilo de significante-mestre\u201d (LACAN, 1969\u20131970\/1991, p. 205).<\/p>\n<p><u>a<\/u><em>\u00a0\u00a0<\/em>\u00e0\u00a0\u00a0<u>\u00a0S<\/u><\/p>\n<p>S<sub>2<\/sub>\u00a0 &#8211;&gt;\u00a0\u00a0 S<sub>1<\/sub><\/p>\n<p>Como se trata, no discurso anal\u00edtico, de encontrar\u00a0<em>outro estilo<\/em>\u00a0para o significante-mestre (S<sub>1<\/sub>), me parece poss\u00edvel sustentar que h\u00e1, ent\u00e3o, pela experi\u00eancia anal\u00edtica, uma sa\u00edda do imp\u00e9rio e da insaciabilidade do discurso do capitalista, mas sem a re-volta que, conforme esclarece Lacan, tanto quanto a sujei\u00e7\u00e3o, acaba fazendo imperar o S<sub>1<\/sub>. N\u00e3o \u00e9, portanto, sem raz\u00e3o, que Lacan insistia na peculiaridade do discurso anal\u00edtico frente aos outros discursos: \u201cs\u00f3 o discurso anal\u00edtico \u00e9 exce\u00e7\u00e3o\u201d porque \u201cexclui a domina\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cnada ensina\u201d e \u201cn\u00e3o tem nada de universal\u201d (LACAN, 1978\/1979, p. 278). Mas a exce\u00e7\u00e3o concernente a esse discurso no \u00e2mbito da domina\u00e7\u00e3o se vale tamb\u00e9m do outro estilo encontrado para o S<sub>1\u00a0<\/sub>dominador, que, ainda assim, n\u00e3o deixa de ser dominador. Tamb\u00e9m a exce\u00e7\u00e3o referente ao ensino n\u00e3o se separa\u00a0 do enfrentamento do desafio de \u201ccomo fazer para ensinar o que n\u00e3o se ensina\u201d (LACAN, 1978\/1979, p. 278). Por fim, se o discurso anal\u00edtico p\u00f4de ser considerado por Lacan \u201cat\u00e9 mesmo a sa\u00edda do discurso capitalista\u201d, ele tamb\u00e9m nos alerta que essa sa\u00edda \u201cn\u00e3o constituir\u00e1 um progresso, se for apenas para alguns\u201d. Nesse contexto de um progresso que pode at\u00e9 evocar o universal, considero oportuno destacar que, para lan\u00e7ar no universo esses produtos de uma an\u00e1lise que os analistas s\u00e3o, a escala \u00e9 aquela do discurso anal\u00edtico como \u201cla\u00e7o social determinado pela pr\u00e1tica de uma an\u00e1lise\u201d, ou seja, por uma experi\u00eancia que \u00e9 \u00fanica e feita \u00e0 medida de cada um que, como analisante e como analista, a ela se dedica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A.O-L.: Em 1970,<\/strong>\u00a0<strong>no semin<\/strong><strong>\u00e1<\/strong><strong>rio\u00a0<em>O avesso da psican<\/em><\/strong><strong><em>\u00e1lise<\/em><\/strong><strong>, Lacan nos apresenta a segrega\u00e7\u00e3o como o fundamento de toda fraternidade. S<\/strong><strong>\u00f3 h\u00e1\u00a0<\/strong><strong>fraternidade\u00a0<\/strong><strong>\u201c<\/strong><strong>por estarmos isolados juntos, isolados do resto<\/strong><strong>\u201d\u00a0<\/strong><strong>(1969-70\/1992, p. 107). Nesse momento, ele aborda a fraternidade como uma no\u00e7\u00e3o referida ao discurso, ao la<\/strong><strong>\u00e7<\/strong><strong>o social como tal. Dois anos mais tarde, no\u00a0<em>Semin<\/em><\/strong><strong><em>\u00e1<\/em><\/strong><strong><em>rio 19<\/em><\/strong><strong>, &#8230;<\/strong><strong><em>ou pior<\/em><\/strong><strong>, Lacan vai retomar a refer<\/strong><strong>\u00eancia \u00e0\u00a0<\/strong><strong>fraternidade, mas, dessa vez, n\u00e3o mais sustentada no discurso, mas no corpo. Ele se refere ao racismo como algo que\u00a0<\/strong><strong>\u201c<\/strong><strong>se enra\u00ed<\/strong><strong>za no corpo, na fraternidade do corpo<\/strong><strong>\u201d (<\/strong><strong>1971-72\/2012,\u00a0<\/strong><strong>p. 226).\u00a0<\/strong><strong>\u00c9 curioso porque, no ano seguinte, Lacan definiria a ra<\/strong><strong>\u00e7<\/strong><strong>a como o que\u00a0<\/strong><strong>\u201c<\/strong><strong>se constitui pelo modo como se transmitem, pela ordem de um discurso, os lugares simb<\/strong><strong>\u00f3<\/strong><strong>licos, aqueles com que se perpetua a ra<\/strong><strong>\u00e7<\/strong><strong>a dos mestres\/senhores e igualmente dos escravos<\/strong><strong>\u201d (O<em>\u00a0aturdito<\/em>, 1973\/2003, p. 462).\u00a0<\/strong><strong>\u00c9 uma clara refer<\/strong><strong>\u00ea<\/strong><strong>ncia ao per<\/strong><strong>\u00ed<\/strong><strong>odo colonial a partir do qual no\u00e7\u00e3<\/strong><strong>o de ra\u00e7<\/strong><strong>a surgiu e se consolidou em seguida junto ao discurso nacionalista, o que desembocaria mais tarde no surgimento dos campos de concentra\u00e7\u00e3o. Considerando a atualidade, poder<\/strong><strong>\u00ed<\/strong><strong>amos dizer que a era dos mercados comuns operou uma muta\u00e7\u00e3o nessas no\u00e7\u00f5<\/strong><strong>es de ra\u00e7<\/strong><strong>a, fraternidade e racismo? O que implica para essas no\u00e7\u00f5es quando Lacan transita entre a refer<\/strong><strong>\u00ea<\/strong><strong>ncia ao discurso e ao corpo?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>S\u00e9rgio Laia:\u00a0<\/strong>Como voc\u00eas mesmos destacam nesta segunda pergunta, Lacan conclui o\u00a0<em>Semin\u00e1rio<\/em>\u00a0<em>&#8230;ou pior<\/em>\u00a0dizendo que a revaloriza\u00e7\u00e3o da palavra \u201cirm\u00e3o\u201d implica uma \u201cfraternidade do corpo\u201d diversa dos \u201cbons sentimentos\u201d, porque nela se enra\u00edza, tamb\u00e9m, o \u201cracismo\u201d (LACAN, 1971\u20131972\/2012, p. 227). Foi seu modo de p\u00f4r em suspei\u00e7\u00e3o a no\u00e7\u00e3o de irmandade em um mundo em que cada vez mais ela se apresentava como uma solu\u00e7\u00e3o, inclusive (para usar um termo frequente daquela \u00e9poca) contra-cultural. Assim, o que afeta os corpos (como eles se satisfazem) e o que os irmana (com que se identificam) t\u00eam uma fun\u00e7\u00e3o t\u00e3o importante para a concep\u00e7\u00e3o lacaniana do racismo quanto o que os segrega.<\/p>\n<p>No que concerne \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o, sabemos que, nos corpos humanos, ela n\u00e3o segue rigorosamente um programa estabelecido pelo organismo: \u00e9 perturbada pelo que se escuta e se diz. Nossa satisfa\u00e7\u00e3o toma, portanto, trajet\u00f3rias desvairadas e, para designar e orientar essa satisfa\u00e7\u00e3o, contamos apenas com o Outro, ou seja, com um lugar do qual estamos separados e que nos referencia. Por\u00e9m, essa separa\u00e7\u00e3o e at\u00e9 muitas dessas refer\u00eancias nos s\u00e3o tamb\u00e9m insuport\u00e1veis: n\u00e3o conseguimos, segundo Lacan, \u201cdeixar esse Outro entregue a seu modo de gozo\u201d e lhe impomos \u201co nosso\u201d (LACAN, 1973\/2003, p. 533). O racismo, ent\u00e3o, se apresenta quando nosso desvairado modo de satisfa\u00e7\u00e3o procura se orientar rejeitando as formas diferentes (ou mesmo desconhecidas) de o Outro se satisfazer. Em outros termos, como esclarece-nos Laurent, o racismo sempre tem a ver, \u201cem uma comunidade humana\u201d, com \u201ca rejei\u00e7\u00e3o de um gozo inassimil\u00e1vel\u201d e que \u00e9 relacionado \u201ca uma barb\u00e1rie poss\u00edvel\u201d (LAURENT, 2013, p. 32).<\/p>\n<p>Com a \u201cglobaliza\u00e7\u00e3o\u201d \u2014 nome mais atual para o que, na pergunta de voc\u00eas, \u00e9 evocado como \u201cera dos mercados comuns\u201d \u2014, considero que o racismo se agrava porque se torna cada vez mais dif\u00edcil localizar o que faz as vezes de Outro: as diferen\u00e7as (sobretudo aquelas referentes \u00e0s alteridades) tendem a se apagar, dando lugar a uma irmandade generalizada \u2014 o termo \u201cirm\u00e3o\u201d, destacado por Lacan desde a \u00faltima li\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>&#8230;ou pior<\/em>, se desdobra hoje em \u201c<em>brother<\/em>\u201d, \u201c<em>bro<\/em>\u201d, \u201cmano\u201d, \u201cv\u00e9i\u201d, aplic\u00e1veis a todo mundo, conforme constatamos sobretudo nas falas dos jovens, mas tamb\u00e9m dos que j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o assim t\u00e3o jovens. Se o contorno do Outro j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o palp\u00e1vel, se seu corpo deixa de existir e seu modo de gozo n\u00e3o delimita mais o que nos concerne em termos de satisfa\u00e7\u00e3o e de identifica\u00e7\u00e3o, o desvario das satisfa\u00e7\u00f5es se intensifica ainda mais sem dire\u00e7\u00e3o. Os jovens, ao terem seus corpos impelidos a buscar Outros corpos para sua satisfa\u00e7\u00e3o sexual e sua identifica\u00e7\u00e3o, s\u00e3o particularmente sens\u00edveis a esse desvario e, nos nossos dias, quando todo mundo \u00e9 incitado a ser jovem, tal desorienta\u00e7\u00e3o toma propor\u00e7\u00f5es avassaladoras e efetivamente globalizadas.<\/p>\n<p>Com essa dilui\u00e7\u00e3o do campo simb\u00f3lico do Outro, com a prolifera\u00e7\u00e3o das irmandades, s\u00e3o os grupos que se tornam mais propensos, a meu ver, para fazer as vezes n\u00e3o de uma alteridade simb\u00f3lica que parece cada vez mais inapreens\u00edvel, mas de uma alteridade-corpo no qual as puls\u00f5es podem se satisfazer diretamente. Hoje, encontramos exposto o que a experi\u00eancia anal\u00edtica aborda, mais intimamente, desde os primeiros pacientes de Freud: as identifica\u00e7\u00f5es promovidas pelo Outro (e que s\u00e3o, inclusive, cada vez mais fr\u00e1geis) n\u00e3o respondem efetivamente \u00e0s exig\u00eancias de satisfa\u00e7\u00e3o; h\u00e1 discrep\u00e2ncias cada vez maiores entre o que nos satisfaz e o que nos identifica, inclusive porque as refer\u00eancias identificat\u00f3rias est\u00e3o dilu\u00eddas ou at\u00e9 ausentes.<\/p>\n<p>Para este contexto atual, a no\u00e7\u00e3o lacaniana de\u00a0<em>identifica\u00e7\u00e3o ao sintoma<\/em>\u00a0pode se apresentar, a meu ver, como um leme, pois conjuga elementos que, na cena s\u00f3cio-cultural atual, apresentam muitas vezes desarticulados, ou seja, corpo e fala, satisfa\u00e7\u00e3o e identidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A.O-L.:\u00a0<\/strong><strong>\u201c<\/strong><strong>O fato de o sintoma instituir a ordem pela qual se comprova nossa pol<\/strong><strong>\u00ed<\/strong><strong>tica implica (&#8230;) que tudo o que se articula dessa ordem seja pass<\/strong><strong>\u00edvel de interpreta<\/strong><strong>\u00e7\u00e3o. Por isso que tem toda raz\u00e3o quem p\u00f5<\/strong><strong>e a psican<\/strong><strong>\u00e1lise \u00e0\u00a0<\/strong><strong>testa da pol<\/strong><strong>\u00ed<\/strong><strong>tica<\/strong><strong>\u201d<\/strong><strong>(1971\/2003, p. 23). Nessa cita<\/strong><strong>\u00e7\u00e3o de Lacan em\u00a0<\/strong><strong><em>Lituraterra,<\/em><\/strong><strong>\u00a0podemos entender que, para ele, a pol\u00ed<\/strong><strong>tica\u00a0<\/strong><strong>\u00e9\u00a0<\/strong><strong>a do sintoma e sua interpreta<\/strong><strong>\u00e7\u00e3o. Em nossa\u00a0<\/strong><strong>\u00e9<\/strong><strong>poca, o singular do sintoma regula o sujeito e as constru\u00e7\u00f5es do la<\/strong><strong>\u00e7<\/strong><strong>o social (do individual para o coletivo). O sintoma serve para pensar o pol<\/strong><strong>\u00ed<\/strong><strong>tico?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>S\u00e9rgio Laia:<\/strong>\u00a0Estimo que j\u00e1 pude responder a essa quest\u00e3o sobre o sintoma e a dimens\u00e3o pol\u00edtica no final de minha segunda resposta, quando fa\u00e7o men\u00e7\u00e3o \u00e0 no\u00e7\u00e3o lacaniana de \u201cidentifica\u00e7\u00e3o ao sintoma\u201d e, ao longo de minha primeira resposta, quando mostro como o discurso do capitalista configurado por Lacan \u00e9 uma esp\u00e9cie de\u00a0<em>update<\/em>\u00a0do discurso do inconsciente. Ainda assim, mesmo que, a meu ver, voc\u00eas tenham dado uma conota\u00e7\u00e3o mais coloquial ao verbo \u201cpensar\u201d (ao utiliz\u00e1-lo na express\u00e3o \u201cpensar o pol\u00edtico\u201d), eu faria uma ressalva de que n\u00e3o se trata propriamente de, a partir da psican\u00e1lise,\u00a0<em>pensar<\/em>\u00a0o pol\u00edtico ou a pol\u00edtica, mas de\u00a0<em>intervir<\/em>\u00a0sobre esse campo. Essa interven\u00e7\u00e3o, no entanto, n\u00e3o seria propriamente equivalente ao que ter\u00edamos na chamada milit\u00e2ncia pol\u00edtica nem ficaria restrita \u00e0 chamada \u201cterritorialidade\u201d dos nossos consult\u00f3rios ou da cl\u00ednica. Para esclarecer os matizes dessa interven\u00e7\u00e3o, eu lhes lembraria o pr\u00f3prio modo como a psican\u00e1lise, desde Freud, se faz presente no mundo. Por um lado, desde o in\u00edcio, essa presen\u00e7a n\u00e3o se d\u00e1 sem a manifesta\u00e7\u00e3o de resist\u00eancia ao discurso anal\u00edtico (inclusive, segundo nos ensina Lacan, da parte dos pr\u00f3prios analistas) \u2014 assim, as resist\u00eancias \u00e0 psican\u00e1lise, as cr\u00edticas e os impedimentos que lhe s\u00e3o impostos t\u00eam a ver com nossa coragem de operarmos com o que Freud mesmo chamou certa vez de \u201csubst\u00e2ncias perigosas\u201d, aproximando-a da qu\u00edmica. Por outro lado, entre todas as propostas que, desde o final do s\u00e9culo XIX, se formulam com o prefixo\u00a0<em>psi<\/em>-, a psican\u00e1lise \u00e9 a \u00fanica que tem conseguido fazer passar para o uso comum, sem qualquer banaliza\u00e7\u00e3o, o que para ela tem uma caracteriza\u00e7\u00e3o muito espec\u00edfica e, como exemplo, cito-lhes o ato falho. Antes de a psican\u00e1lise existir e se difundir no mundo, n\u00e3o t\u00ednhamos essa concep\u00e7\u00e3o \u2014 hoje amplamente partilhada, inclusive por aqueles que sequer conhecem Freud \u2014 de que uma troca de palavras produzida casualmente\u00a0<em>quer dizer<\/em>\u00a0alguma coisa. A meu ver, nenhuma resist\u00eancia ou cr\u00edtica que temos sofrido como psicanalistas abala a for\u00e7a de como, por exemplo, a concep\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica do ato falho se tornou uma propriedade comum. Sabemos que Lacan, no\u00a0<em>Semin\u00e1rio 23<\/em>, aproximou a no\u00e7\u00e3o de sintoma da opera\u00e7\u00e3o de \u201cfazer entrar o nome pr\u00f3prio no \u00e2mbito do nome comum\u201d (LACAN, 1975\u20131976\/2017, p. 86) \u2014 n\u00e3o \u00e9 ela que se processa tamb\u00e9m nesse uso difundido que temos do ato falho? Logo, considero que a pol\u00edtica que cabe a um psicanalista sustentar \u00e9 diferente da milit\u00e2ncia e, mais ainda, da irmandade partid\u00e1ria, porque n\u00e3o se pauta pela instaura\u00e7\u00e3o de uma nova ordem, pela consolida\u00e7\u00e3o de um projeto, por uma revolta quanto ao estabelecido, e muito menos pelo apre\u00e7o quanto ao j\u00e1 vigente e estabelecido. Na perspectiva psicanal\u00edtica, trata-se de fazer passar o que \u00e9 pr\u00f3prio para o comum ou, como certa vez formulou \u00c9ric Laurent, procuramos desfazer o que \u00e9 recebido como unidade de significa\u00e7\u00e3o para fazer ecoar uma leitura singular do que nos \u00e9 apresentado como j\u00e1 pronto para ser usado (LAURENT, 2005).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6>LACAN, J. (1972) &#8220;<em>Du discours psychanalytique<\/em>&#8220;. ______.\u00a0<strong>Lacan in Italia<\/strong>. Mil\u00e3o: La Salamandra, 1978.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1964)\u00a0<strong>Le s\u00e9minaire, livre XI<\/strong>: les quatre concepts fondamentaux de la Psychanalyse. Paris: Seuil, 1973.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1969-1970)\u00a0<strong>Le s\u00e9minaire, livre XVII<\/strong>: L\u2019envers de la psychanalyse. Paris: Seuil, 1991.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1971-1972)\u00a0<strong>O semin\u00e1rio, livro 19<\/strong><em>:..<\/em>. ou pior. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2012.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1975-1976)\u00a0<strong>O semin\u00e1rio, livro 23<\/strong>: o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2017.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1976) &#8220;<strong>Pr\u00e9face \u00e0 l\u2019\u00e9dition anglaise du S\u00e9minaire XI<\/strong>\u00a0&#8220;. ______.\u00a0<em>Autres \u00e9crits<\/em>. Paris: Seuil, 2001.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1973) \u201cTelevis\u00e3o\u201d. In:\u00a0<strong>Outros escritos<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1978) &#8220;Transfert \u00e0 Saint Denis? Journal d\u2019<strong>Ornicar?<\/strong>\u00a0Lacan pour Vincennes!&#8221;.\u00a0<em>Ornicar?<\/em>, n. 17-18, Paris, 1979.<\/h6>\n<h6>LAIA, S. \u201cOs sujeitos objetalizados e o analista como \u2018parceiro-sintoma\u2019\u201d.\u00a0<strong>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/strong>, Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise, n. 52, S\u00e3o Paulo, setembro 2008.<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9. \u201cDa linguagem p\u00fablica \u00e0 linguagem privada, topologia da passagem\u201d.\u00a0<strong>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/strong>, Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise, n. 42, fevereiro de 2005.<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9. \u201cRacismo 2.0\u201d.\u00a0<strong>Op<\/strong><strong>\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/strong>, n. 67, 2013.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>Perguntas formuladas por Bernardo Micherif, Patr\u00edcia Ribeiro e Rodrigo Almeida.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; Almanaque On-Line: H\u00e1\u00a0mais de trinta anos, em seu semin\u00e1rio\u00a0O banquete dos analistas,\u00a0Miller convocava os psicanalistas para uma tomada de posi\u00e7\u00e3o diante do avan\u00e7o de um discurso cujo cerne implicava o apagamento do desejo em favor de uma injun\u00e7\u00e3o ao mais de gozar.\u00a0 Hoje, esse cen\u00e1rio se consolidou. 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