{"id":1954,"date":"2022-07-19T06:41:42","date_gmt":"2022-07-19T09:41:42","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1954"},"modified":"2025-12-01T13:10:21","modified_gmt":"2025-12-01T16:10:21","slug":"psicanalise-e-politica-uma-amizade-estrutural1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2022\/07\/19\/psicanalise-e-politica-uma-amizade-estrutural1\/","title":{"rendered":"PSICAN\u00c1LISE E POL\u00cdTICA: UMA AMIZADE ESTRUTURAL[1]"},"content":{"rendered":"<h6>GUSTAVO STIGLITZ<br \/>\nPsicanalista, AME da EOL\/AMP<br \/>\n<a href=\"mailto:stiglitz.gustavo@gmail.com\">stiglitz.gustavo@gmail.com<\/a><strong>\u00a0<\/strong><\/h6>\n<blockquote><p><strong>Resumo:\u00a0<\/strong>O autor investiga a rela\u00e7\u00e3o entre a psican\u00e1lise e a pol\u00edtica e considera que Lacan tenha operado uma invers\u00e3o na premissa freudiana. Se, para Freud, a pol\u00edtica \u00e9 o inconsciente, para Lacan, o inconsciente \u00e9 a pol\u00edtica. A partir da\u00ed, o autor delimita uma defini\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica a partir da discuss\u00e3o sobre o final de an\u00e1lise, o que o conduz a abordar a pol\u00edtica a partir de uma perspectiva n\u00e3o-toda. Por fim, se pergunta sobre qual seria a participa\u00e7\u00e3o do psicanalista no campo pol\u00edtico.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave:<\/strong>\u00a0psican\u00e1lise; pol\u00edtica; inconsciente, final de an\u00e1lise; n\u00e3o-todo.<\/p>\n<p><strong>Psychoanalysis and Politics: a structural friendship<\/strong><\/p>\n<p><strong>Abstract:\u00a0<\/strong>The author investigates the relationship between psychoanalysis and politics and proposes that Lacan operated an inversion of the freudian premise. If, for Freud, politics is the unconscious, for Lacan, the unconscious is politics. From there, the author delimits a definition of politics through the discussion of the end of analysis, which leads him to approach politics from a not-whole perspective. And finally, questions the participation of psychoanalyst&#8217;s in the political field.<\/p>\n<p><strong>Keywords:<\/strong>\u00a0psychoanalysis; politics; unconscious; end of analysis; not-whole.<\/p><\/blockquote>\n<div id=\"attachment_1955\" style=\"width: 1290px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Ceclia_Velloso_Batista_gustavo_S-1.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"1280\" data-large_image_height=\"798\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1955\" class=\"wp-image-1955 \" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Ceclia_Velloso_Batista_gustavo_S-1-1024x638.jpg\" alt=\"\" width=\"892\" height=\"556\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1955\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Cec\u00edlia Velloso Batista<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A psican\u00e1lise, desde sua origem, esteve ligada \u00e0 pol\u00edtica.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 uma causalidade que tenha nascido na Viena de Freud, cosmopolita, multirracial e multirreligiosa, na qual o reinado do pai come\u00e7ava a se rachar e onde o social prescrevia a repress\u00e3o da sexualidade.<\/p>\n<p>Freud estabeleceu a rela\u00e7\u00e3o entre psican\u00e1lise e pol\u00edtica nos primeiros par\u00e1grafos de \u201cPsicologia de grupo e a an\u00e1lise do ego\u201d, ao afirmar que \u201ca psicologia individual \u00e9, ao mesmo tempo, tamb\u00e9m psicologia social\u201d, j\u00e1 que \u201cAlgo mais est\u00e1 envolvido na vida mental do indiv\u00edduo, como um modelo, um objeto, um auxiliar, um oponente\u201d (FREUD, 1921\/1996, p. 81).<\/p>\n<p>Para Freud, portanto, a pol\u00edtica \u00e9 o inconsciente no sentido de que ambos respondem \u00e0 mesma estrutura e causa. Lacan, por sua vez, foi imprimindo sua pr\u00f3pria marca a essa rela\u00e7\u00e3o at\u00e9 invert\u00ea-la.<\/p>\n<p>Uma ideia inicial \u2014 a encontramos no Semin\u00e1rio 1 \u2014 \u00e9 a de relacionar o final da an\u00e1lise com a pol\u00edtica. Cito-o:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cUma vez realizado o n\u00famero de voltas necess\u00e1rias para que os objetos do sujeito apare\u00e7am, e sua hist\u00f3ria imagin\u00e1ria seja completada, uma vez que os desejos sucessivos, tension\u00e1rios, suspensos, angustiantes do sujeito estejam nomeados e reintegrados, nem por isso tudo est\u00e1 acabado. O que esteve inicialmente l\u00e1, em O e depois aqui em O\u2019, depois de novo em O, deve ir se reportar no sistema completado dos s\u00edmbolos. A sa\u00edda mesma da an\u00e1lise o exige. Onde deve parar esse reenvio? Ser\u00e1 que dever\u00edamos levar a interven\u00e7\u00e3o anal\u00edtica at\u00e9 di\u00e1logos fundamentais sobre a justi\u00e7a e a coragem, na grande tradi\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica?\u00a0\u00c9 uma quest\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil de resolver, porque, na verdade, o homem contempor\u00e2neo se tornou singularmente in\u00e1bil para abordar esses grandes temas. Prefere resolver as coisas em termos de conduta, de adapta\u00e7\u00e3o, de moral de grupo e outras banalidades. Donde a gravidade do problema que coloca a forma\u00e7\u00e3o humana do analista\u201d (LACAN, 1953-54\/1986, p. 229-230).<\/p>\n<p>N\u00e3o seria esse um convite para a participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do analista, ou, pelo menos, sua entrada no debate?<\/p>\n<p>\u00c9 claro, como disse Miller, que o debate fundamental de Lacan sempre foi com a civiliza\u00e7\u00e3o, na medida em que ela elimina a vergonha com o que est\u00e1 em curso na globaliza\u00e7\u00e3o (MILLER, 2002).<\/p>\n<p>\u201cNem tudo est\u00e1 acabado\u201d, como diz a cita\u00e7\u00e3o, o que faz do final de an\u00e1lise n\u00e3o um ponto de fechamento, mas sim de abertura em rela\u00e7\u00e3o a uma l\u00f3gica n\u00e3o-toda. Nesse sentido, a pergunta de Lacan \u2014 precedida por esse \u201cnem tudo est\u00e1 acabado\u201d \u2014 cont\u00e9m uma armadilha.<\/p>\n<p>A grande tradi\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica \u00e9 a que op\u00f5e tese e ant\u00edtese para chegar a uma s\u00edntese, o que fecha a quest\u00e3o em jogo; enquanto a experi\u00eancia anal\u00edtica nos confronta hoje com uma dial\u00e9tica no campo social, mas mais no estilo da \u201cdial\u00e9tica negativa\u201d de Theodor Adorno (1966), que ataca a tradi\u00e7\u00e3o libertando-a de sua natureza afirmativa e questionando qualquer totalidade.<\/p>\n<p>Hoje, teria que acrescentar, dever\u00edamos impulsionar a interven\u00e7\u00e3o anal\u00edtica para dialogar com algumas tantas novidades na civiliza\u00e7\u00e3o: com os defensores da tese neuro, que pretendem uma ci\u00eancia natural da mente e dos fundamentos neuronais do pensamento separado da linguagem; com aqueles que defendem tomar ao p\u00e9 da letra os dizeres de uma crian\u00e7a que, sem saber direito do que se trata, afirma que quer trocar de sexo; com os que acreditam que as neuroimagens permitem ver \u201co invis\u00edvel do pensamento\u201d (SANCLAY\u00a0<em>apud<\/em>\u00a0CASTENET, 2008, tradu\u00e7\u00e3o nossa.).<\/p>\n<p>Por fim, h\u00e1 um la\u00e7o entre psican\u00e1lise e pol\u00edtica \u2014 tanto a n\u00edvel de micropol\u00edtica (condu\u00e7\u00e3o de um tratamento anal\u00edtico, interven\u00e7\u00f5es anal\u00edticas em institui\u00e7\u00f5es de sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, jur\u00eddicas) como no n\u00edvel da macropol\u00edtica (impacto na elabora\u00e7\u00e3o e regula\u00e7\u00e3o das leis, a difus\u00e3o dos tratamentos, etc.) \u2014 que pode ser resumido na ideia de que os analistas t\u00eam uma responsabilidade no campo social, a de ler e interpretar as inconsist\u00eancias dos discursos atrav\u00e9s dos quais a sociedade contempor\u00e2nea se sustenta.<\/p>\n<p>Assim, \u00e0 pergunta de Lacan sobre se dever\u00edamos promover a interven\u00e7\u00e3o anal\u00edtica seguindo a tradi\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica, podemos responder \u00e0 maneira do conjunto aberto colocado pela dial\u00e9tica negativa, que se aproxima mais da ideia de resto \u2014 e de resto sintom\u00e1tico \u2014, pr\u00f3pria do ensino mais tardio de Lacan.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A invers\u00e3o lacaniana<\/em><\/p>\n<p>Lacan (1967) inverte a ideia freudiana das rela\u00e7\u00f5es entre psican\u00e1lise e pol\u00edtica no semin\u00e1rio \u201cA l\u00f3gica do fantasma\u201d.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio de Freud, que explica a pol\u00edtica atrav\u00e9s do recurso ao inconsciente pela identifica\u00e7\u00e3o, repress\u00e3o das representa\u00e7\u00f5es e satisfa\u00e7\u00e3o e retorno do recalcado, Lacan enuncia: \u201cn\u00e3o digo que a pol\u00edtica \u00e9 o inconsciente, digo simplesmente que o inconsciente \u00e9 a pol\u00edtica\u201d (LACAN, 1967, tradu\u00e7\u00e3o nossa). \u00c9 a invers\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o freudiana.<\/p>\n<p>No desenvolvimento de \u201cIntui\u00e7\u00f5es milanesas\u201d, Miller (2011) ressalta que o interesse de tal afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 que ela levanta a quest\u00e3o da pol\u00edtica como o que explicaria o inconsciente e encontra uma boa defini\u00e7\u00e3o \u201cinfiltrada de lacanismo\u201d na obra\u00a0<em>A democracia contra ela mesma<\/em>, de Marcel Gauchet: \u201c\u00c9 nisto que consiste especificamente a pol\u00edtica: ela \u00e9 o lugar de uma fratura da verdade\u201d (GAUCHET apud MILLER, 2011). Ou seja, a pol\u00edtica definida como um campo estruturado em torno de uma falta, que podemos escrever com o matema lacaniano S(A\/).<\/p>\n<p>Para esse autor, a democracia implica um efeito depressivo devido a um consentimento com a divis\u00e3o da verdade. E diz:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cDoravante sabemos que estamos destinados a encontrar o outro sob o signo de uma oposi\u00e7\u00e3o sem viol\u00eancia, mas tamb\u00e9m sem retorno nem rem\u00e9dio. Encontrarei sempre diante de mim n\u00e3o um inimigo que deseja minha morte, mas um contraditor. H\u00e1 qualquer coisa de metafisicamente aterrorizante nesse encontro pacificado \u2014 gosto muito dessa liga\u00e7\u00e3o entre terror e pacifica\u00e7\u00e3o \u2014 a guerra se ganha, diz ele, embora essa confronta\u00e7\u00e3o nunca tenha terminado\u201d (GAUCHET\u00a0<em>apud<\/em>\u00a0MILLER, 2011).<\/p>\n<p>Novamente encontramos uma analogia com a l\u00f3gica dos conjuntos abertos, como na dial\u00e9tica negativa de Adorno. \u00c9 uma vis\u00e3o da pol\u00edtica a partir de uma perspectiva que se op\u00f5e ao todo dos ideais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Uma perspectiva n\u00e3o toda<\/em><\/p>\n<p>Em \u201cNota italiana\u201d, Lacan afirma que o analista surge do n\u00e3o todo. H\u00e1 tamb\u00e9m um confronto que nunca termina: aquele que se d\u00e1 frente ao real do psicanalista. O que \u00e9 um psicanalista? \u00c9 a pergunta que condensa a fratura da verdade no campo da psican\u00e1lise, de onde emerge seu pr\u00f3prio real.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma esp\u00e9cie de \u201camizade estrutural\u201d entre a posi\u00e7\u00e3o do analista e a pol\u00edtica, n\u00e3o necessariamente a dos pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Pela via da orienta\u00e7\u00e3o lacaniana e com as perspectivas de Adorno sobre a dial\u00e9tica e de Gauchet sobre a pol\u00edtica, podemos sustentar que, assim como a transfer\u00eancia anal\u00edtica coloca em ato a realidade sexual do inconsciente \u2014 ou seja, a inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual \u2014, a pol\u00edtica coloca em ato a inexist\u00eancia do Outro.<\/p>\n<p>A perspectiva n\u00e3o-toda, na psican\u00e1lise e na pol\u00edtica, justifica e orienta a quest\u00e3o da incid\u00eancia pol\u00edtica da psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O corpo pol\u00edtico<\/em><\/p>\n<p>\u201cLacan fala em algum lugar de uma participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica onde o psicanalista teria o seu lugar se fosse capaz disso. Vamos tomar como um desafio e ver se podemos enfrent\u00e1-lo\u201d, disse Miller em 1997.<\/p>\n<p>Esse desafio, ao qual nos convidou formalmente em 2017, na confer\u00eancia de Madrid, com a cria\u00e7\u00e3o da rede Zadig, tem seu fundamento no fato de que o n\u00e3o todo \u2014 aquele com que se depara ao final de an\u00e1lise \u2014 se conecta com a pol\u00edtica entendida como a arte de lidar com o Outro que n\u00e3o existe (VICENS, 2018) e com os outros que, sim, existem.<\/p>\n<p>\u00c9 um desafio porque \u201co discurso pol\u00edtico, o discurso do mestre, faz da identifica\u00e7\u00e3o a chave de uma captura\u201d (LAURENT, 2018), enquanto, no n\u00edvel do corpo, temos que \u201cUm corpo \u00e9 o lugar que experimenta afetos e paix\u00f5es, tanto o corpo pol\u00edtico como individual. Paix\u00f5es pol\u00edticas novas surgem como acontecimentos de corpos pol\u00edticos novos, e logo se transformam\u201d (LAURENT, 2018).<\/p>\n<p>Sobre o que aprendemos com os movimentos sociais no Brasil em 2013, \u00c9ric Laurent afirma que, nas mobiliza\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas, se trata de<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201c[&#8230;] dois tempos da fantasia, que indicam perfeitamente um modo de la\u00e7o social que n\u00e3o passa pela identifica\u00e7\u00e3o de um tra\u00e7o comum, mas que, no entanto, funciona no registro de um corpo pol\u00edtico produzido na qualidade de exist\u00eancia l\u00f3gica, atravessado pelas paix\u00f5es fantas\u00edsticas\u201d (LAURENT, 2018).<\/p>\n<p>O primeiro tempo do fantasma \u00e9 do sujeito sem lugar,\u00a0<em>fading<\/em>; o segundo \u00e9 o \u201csurgimento da articula\u00e7\u00e3o do sujeito com o gozo\u201d (LAURENT, 2018).<\/p>\n<p>A estrutura do\u00a0<em>Witz\u00a0<\/em>pode nos auxiliar a articular o corpo pr\u00f3prio com o corpo pol\u00edtico. O\u00a0<em>Witz<\/em>\u00a0\u00e9 um processo social em que a satisfa\u00e7\u00e3o ressoa nos corpos ao mesmo tempo que produz, em cada um, uma satisfa\u00e7\u00e3o singular no momento de rir (MILLER, 2011).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O destino \u00e9 a pol\u00edtica<\/em><\/p>\n<p>O inconsciente \u00e9 a pol\u00edtica \u00e9 um ponto de chegada que abre uma s\u00e9rie de quest\u00f5es, dentre as quais destacamos a pot\u00eancia para a incid\u00eancia pol\u00edtica da psican\u00e1lise. Pot\u00eancia, que devemos dizer, n\u00e3o se efetiva como gostar\u00edamos, quest\u00e3o que, no momento, deixaremos na nossa conta, como devedores.<\/p>\n<p>\u00c9 um ponto de chegada que tem como ponto de partida a ideia de que o sujeito do inconsciente \u00e9 transindividual, como Lacan coloca em \u201cFun\u00e7\u00e3o e campo da palavra e da linguagem em psican\u00e1lise\u201d e est\u00e1 demonstrado pela estrutura do\u00a0<em>Witz<\/em>. Tamb\u00e9m \u00e9 ponto de chegada a partir de \u201cA anatomia \u00e9 o destino\u201d, de Freud (1924), que parafraseia \u201cO destino \u00e9 a pol\u00edtica\u201d, de Napole\u00e3o.<\/p>\n<p>Se substituirmos a anatomia pelo corpo que fala, no lugar do destino teremos a palavra que condiciona o gozo, que, por sua vez, pela aus\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual, condiciona seu destino a ser social, pol\u00edtico.<\/p>\n<p>O destino do ser que fala \u00e9 a pol\u00edtica, devido \u00e0 aus\u00eancia de rela\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o?<\/p>\n<p>Uma vez articulados inconsciente e pol\u00edtica, qual seria a participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da psican\u00e1lise?<\/p>\n<p>\u201cTalvez um efeito de despertar. Um despertar em rela\u00e7\u00e3o ao que \u00e9, em \u00faltima an\u00e1lise, sobre os ideais sociais\u201d (MILLER, 1997, tradu\u00e7\u00e3o nossa.), mesmo que isso seja&#8230; \u201cpouca coisa\u201d. Mas n\u00e3o importa qu\u00e3o pouco seja, n\u00e3o \u00e9 pouco, por exemplo, demonstrar e transmitir a ideia do epistem\u00f3logo Georges Canguilhem de que a sa\u00fade \u00e9 eminentemente social. Isso quer dizer que depende do discurso dominante, ou seja, para n\u00f3s, os discursos da tecnoci\u00eancia e do capitalismo.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 pouca coisa apontar que as investiga\u00e7\u00f5es no campo da sa\u00fade n\u00e3o come\u00e7am por evid\u00eancias, mas por decis\u00f5es de mercado. E se h\u00e1 um tema em que a participa\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise \u00e9 necess\u00e1ria e urgente \u2014 inclusive para sua pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia \u2014, \u00e9 o discurso avaliativo, e seu \u201cgrito estat\u00edstico\u201d, que tem uma longa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Nosso advers\u00e1rio constante \u00e9 a sociedade preditiva, na qual o desejo, o risco e o amor se desfazem frente \u00e0 fascina\u00e7\u00e3o do regime do todo.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de elimin\u00e1-lo, j\u00e1 que isso poderia nos eliminar, mas de mant\u00ea-lo assim, como advers\u00e1rio, porque, paradoxalmente, torna-se, desse modo, um fiador do n\u00e3o todo que pretende eliminar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><strong>Tradu\u00e7\u00e3o:\u00a0<\/strong>Bernardo Micherif<\/h6>\n<h6><strong>Revis\u00e3o:\u00a0<\/strong>Cec\u00edlia Batista<strong>\u00a0<\/strong><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>ADORNO, T.\u00a0<strong>Dial\u00e9tica negativa<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. \u201cA dissolu\u00e7\u00e3o do complexo de \u00e9dipo\u201d. In:<strong>\u00a0obras completas de Sigmund Freud:<\/strong>\u00a0o ego e o id, uma neurose demon\u00edaca do s\u00e9c. XVII e outros trabalhos. 1923-1925. Rio de Janeiro: Imago, 1996.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. \u201cPsicologia de grupo e an\u00e1lise do ego\u201d. In:\u00a0<strong>Obras completas de Sigmund Freud<\/strong>: Al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer, psicologia de grupo e outros trabalhos. 1925-1926. Rio de Janeiro: Imago, 1996.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1953-54)\u00a0<strong>O semin\u00e1rio, livro 1: os escritos t\u00e9cnicos de Freud<\/strong>. Rio de janeiro: Jorge Zahar Ed., 1986.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1966-1967)\u00a0<strong>Seminario, libro 14: la l\u00f3gica del fantasma<\/strong>.. In\u00e9dito.<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9. \u201cO traumatismo do final da pol\u00edtica das identidades\u201d.\u00a0<strong>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana online,<\/strong>\u00a0ano 9, n\u00ba 25, mar.\u2013jul. 2018. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_25\/O_traumatismo_do_final_da_politica_das_identidades.pdf\">http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_25\/O_traumatismo_do_final_da_politica_das_identidades.pdf<\/a><\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. \u201cIntui\u00e7\u00f5es Milanesas\u201d.\u00a0<strong>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana online<\/strong>, ano 2, n\u00ba 5, jul. 2011. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_5\/Intui%C3%A7%C3%B5es_milanesas.pdf\">http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_5\/Intui\u00e7\u00f5es_milanesas.pdf<\/a><\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. (1997). \u201cEl psicoan\u00e1lisis, la ciudad, las comunidades\u201d.\u00a0<strong>Revista lacaniana de psicoan\u00e1lisis<\/strong>, n\u00ba 22, Buenos Aires, EOL- Grama, 2017.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. (2002). \u201cEl desenga\u00f1o del psicoan\u00e1lisis\u201d.\u00a0<strong>Revista lacaniana de psicoan\u00e1lisis<\/strong>, n\u00ba 29, Buenos Aires, EOL- Grama, 2021.<\/h6>\n<h6>VICENS,\u00a0<strong>A. No todo es pol\u00edtica en la orientaci\u00f3n lacaniana<\/strong>. Barcelona: Gredos, 2019.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/amizade-estrutural#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a>\u00a0Texto originalmente publicado em Lacan hispano. Olivos: Grama Ediciones, 2021.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GUSTAVO STIGLITZ Psicanalista, AME da EOL\/AMP stiglitz.gustavo@gmail.com\u00a0 Resumo:\u00a0O autor investiga a rela\u00e7\u00e3o entre a psican\u00e1lise e a pol\u00edtica e considera que Lacan tenha operado uma invers\u00e3o na premissa freudiana. Se, para Freud, a pol\u00edtica \u00e9 o inconsciente, para Lacan, o inconsciente \u00e9 a pol\u00edtica. 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