{"id":1958,"date":"2022-07-19T06:41:42","date_gmt":"2022-07-19T09:41:42","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1958"},"modified":"2025-12-01T13:10:46","modified_gmt":"2025-12-01T16:10:46","slug":"interpretar-o-material-humano1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2022\/07\/19\/interpretar-o-material-humano1\/","title":{"rendered":"INTERPRETAR O \u201cMATERIAL HUMANO\u201d[1]\u00a0\u00a0"},"content":{"rendered":"<h6>V\u00c9RONIQUE VORUZ<br \/>\nPsicanalista, AE da NLS e da ECF \/AMP<br \/>\n<a href=\"mailto:verovoruz@me.com\">verovoruz@me.com<\/a><\/h6>\n<blockquote><p>\n<strong>Resumo:\u00a0<\/strong>\u00a0A autora correlaciona o estatuto do falasser, reduzido a\u00a0<em>material humano<\/em>, e a interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica, na medida em que, alienado ao imperativo capitalista de consumo, o sujeito se deixa desabonar de sua honra. A autora sublinha que \u00e9 sobre isso que a interpreta\u00e7\u00e3o deve intervir, a fim de lhe restituir sua dignidade de sujeito barrado.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave:\u00a0<\/strong>material humano; interpreta\u00e7\u00e3o; vergonha; dignidade.<\/p>\n<p><strong>Interpret the human material<\/strong><\/p>\n<p><strong>Abstract:\u00a0<\/strong>The author makes a connection between the\u00a0<em>parl\u00eatre<\/em>\u00a0reduced to human material, and analytical interpretation. Trapped in the capitalist condition of unbridled consumption, the subject allows to be discredited of its honor, and this is where the analyst intervenes in order to restore the subject to its dignity as a barred subject.<\/p>\n<p><strong>Keywords:<\/strong>\u00a0human material; interpretation; honor; dignity..<\/p>\n<p><strong>Keywords:<\/strong>\u00a0human material; interpretation; honor; dignity.<\/p><\/blockquote>\n<div id=\"attachment_1959\" style=\"width: 1290px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Veronique__da_Ceclia_Velloso_Batista.jpg\" data-dt-img-description=\"Imagem: Cec\u00edlia Velloso Batista\u00a0\u00a0\" data-large_image_width=\"1280\" data-large_image_height=\"808\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1959\" class=\" wp-image-1959\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Veronique__da_Ceclia_Velloso_Batista-1024x646.jpg\" alt=\"\" width=\"732\" height=\"462\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1959\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Cec\u00edlia Velloso Batista<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Meu t\u00edtulo, interpretar o \u201cmaterial humano\u201d, resume, a meu ver, a alternativa que Lacan oferece a &#8220;revolu\u00e7\u00e3o\u201d, no\u00a0<em>Semin\u00e1rio XVII<\/em>, \u201cO avesso da psican\u00e1lise\u201d, desde que se d\u00ea \u00e0 palavra \u201cinterpretar\u201d o sentido de interven\u00e7\u00f5es, e n\u00e3o o sentido de dizer aquilo que significa o que o falante ou escritor diz. A express\u00e3o \u201cmaterial humano\u201d \u00e9 apontada por Lacan na aula II desse semin\u00e1rio nos seguintes termos:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cO sinal da verdade est\u00e1 agora em outro lugar. Ele deve ser produzido pelos que substituem o antigo escravo, isto \u00e9, pelos que s\u00e3o eles pr\u00f3prios produtos, como se diz, consum\u00edveis tanto quanto os outros. Sociedade de consumo, dizem por a\u00ed. Material humano, como se enunciou um tempo \u2014 sob os aplausos de alguns que ali viram ternura\u201d (LACAN,1969-1970\/1992, p. 30).<\/p>\n<p>Sem d\u00favida, o termo se refere a uma certa leitura<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/interpretar-humano#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a>\u00a0do s\u00e9culo XX, um s\u00e9culo confrontado com a quest\u00e3o da gest\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es, dos seres vivos, numa escala sem precedentes. \u00c9 isso que dar\u00e1 origem, a partir do final do s\u00e9culo XIX, \u00e0s pr\u00e1ticas que Foucault reunir\u00e1 sob o nome de \u201cbiopoder\u201d ao final de seu curso de 1976, \u201c\u00c9 preciso defender a sociedade\u201d. Lembremos que esse \u00e9 um curso que termina com uma an\u00e1lise cr\u00edtica dos racismos de estado no cora\u00e7\u00e3o dos totalitarismos do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 metaforiza\u00e7\u00e3o do termo \u201cinterpreta\u00e7\u00e3o\u201d pelo de \u201cinterven\u00e7\u00e3o\u201d, \u00e9 Lacan quem a opera na mesma p\u00e1gina, quando se prepara para formalizar na l\u00f3gica as &#8220;interven\u00e7\u00f5es do analista&#8221; e, certamente, n\u00e3o \u00e9 por acaso que, na p\u00e1gina 30, ele opor\u00e1 o nome de Lacan ao de Paul Ric\u0153ur, fil\u00f3sofo da hermen\u00eautica. Tanto para o t\u00edtulo, que encontrar\u00e1 m\u00faltiplas resson\u00e2ncias ao longo deste texto \u2014 e sobre o qual concluirei com refer\u00eancia ao \u00faltimo cap\u00edtulo do mesmo semin\u00e1rio, &#8220;O poder dos imposs\u00edveis&#8221; \u2014 quanto para o novo significante que Lacan introduz ali, o da vergonha, a vergonha de viver uma vida reduzida ao\u00a0<em>primum vivere<\/em>, que a sociedade de consumo oferece como \u00fanico \u201cideal\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Uma descontinuidade epist\u00eamica<\/em><\/p>\n<p>Ao reler \u201cO avesso da psican\u00e1lise\u201d no \u00faltimo ver\u00e3o, depois de um ano fazendo um semin\u00e1rio sobre \u201cRadiofonia\u201d, eu disse a mim mesma que se tratava realmente de um semin\u00e1rio sobre a interpreta\u00e7\u00e3o. De fato, mesmo que, para Lacan, a interpreta\u00e7\u00e3o nunca tivesse consistido em postular uma linguagem-objeto (aquela do analisante) que pudesse ser traduzida por meio de uma chave de decodifica\u00e7\u00e3o \u2014 a\u00a0<em>lecton<\/em><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/interpretar-humano#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a>\u00a0dos estoicos, de quem ele faz pouco caso em \u201cRadiofonia\u201d \u2014 ou de uma metalinguagem, por acr\u00e9scimo de significa\u00e7\u00e3o, o\u00a0<em>Semin\u00e1rio XVII<\/em>\u00a0introduz uma descontinuidade epist\u00eamica. \u00c9 a partir desse Semin\u00e1rio que a \u00eanfase ser\u00e1 realmente colocada por Lacan, de um lado, no tratamento do gozo e, de outro, na estrutura como distinta do sentido.<\/p>\n<p>\u00c9, ali\u00e1s, nesse ponto que, em \u201cRadiofonia\u201d, Lacan se distanciar\u00e1 de L\u00e9vi-Strauss e da corrente estruturalista, para a qual o sentido \u00e9 efeito do conjunto da rede significante e que desconhece a incid\u00eancia do objeto\u00a0<em>a.<\/em>\u00a0Os pontos de apoio de Lacan passar\u00e3o ent\u00e3o a ser Malinowski e Marx, dois autores que t\u00eam um lugar conceitual; o primeiro, com rela\u00e7\u00e3o ao b\u00fazio, uma concha que s\u00f3 tem valor de troca para os Argonautas do Pac\u00edfico, o outro, para a chamada mais-valia \u201cforaclu\u00edda do discurso capitalista\u201d (LACAN, 1970\/2003, p. 423). Esses dois autores abrem, assim, o campo da\u00a0<em>economia do gozo<\/em>, e o que interessar\u00e1 a Lacan a partir de agora ser\u00e1\u00a0<em>intervir<\/em>\u00a0na economia do gozo.<\/p>\n<p>Recordemos que o\u00a0<em>Semin\u00e1rio XVI<\/em>: \u201cde um Outro ao outro\u201d foi aberto sob a \u00e9gide desta frase: &#8220;a ess\u00eancia da teoria psicanal\u00edtica \u00e9 um discurso sem fala&#8221; (LACAN, 1968-69\/2008, p. 11). Dizer que\u00a0<em>a ess\u00eancia da teoria psicanal\u00edtica \u00e9 um discurso sem fala<\/em>\u00a0\u00e9 dizer adeus \u00e0 verdade que, supostamente, se revela pela palavra atrav\u00e9s das forma\u00e7\u00f5es do inconsciente e reorientar a teoria anal\u00edtica no discurso como estrutura, m\u00e1quina ou matriz, tendo um produto (encontra-se a\u00ed, portanto, o termo usado por Lacan na cita\u00e7\u00e3o inicial, os seres humanos sendo &#8220;produtos consum\u00edveis como quaisquer outros&#8221;).<\/p>\n<p>Aqui est\u00e1 o terreno pronto para se ouvir a interven\u00e7\u00e3o radical que Lacan prop\u00f5e ao seu p\u00fablico em \u201cO avesso da psican\u00e1lise\u201d: interpretar n\u00e3o \u00e9 dizer o que algu\u00e9m ou alguma coisa quer dizer \u2014 esta \u00e9 a degrada\u00e7\u00e3o aflitiva a que as pr\u00e1ticas psicoterap\u00eauticas submeteram a inven\u00e7\u00e3o freudiana e que se encontra a cada passo da vida contempor\u00e2nea \u2014 nem mesmo substituir uma verdade por uma outra, um princ\u00edpio alternativo de inteligibilidade que permite outra leitura que n\u00e3o aquela anteriormente hegem\u00f4nica (pensemos, por exemplo, nas interpreta\u00e7\u00f5es mais conhecidas de Foucault: as pris\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o uma humaniza\u00e7\u00e3o de castigo, mas uma disciplinariza\u00e7\u00e3o dos corpos; as proibi\u00e7\u00f5es sexuais n\u00e3o s\u00e3o uma censura, mas uma incita\u00e7\u00e3o a falar de sexo, etc.). A partir de ent\u00e3o, interpretar visar\u00e1, sobretudo, a extrair o ser falante do registro da verdade: \u201c\u00e9 tentador sugar o leite da verdade, mas \u00e9 t\u00f3xico\u201d (LACAN, 1969\u201370\/1992, p. 175):\u00a0<em>intervir<\/em>, portanto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Cartografia da interven\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>A partir dos elementos trazidos a t\u00edtulo de introdu\u00e7\u00e3o, v\u00e1rias modalidades de interven\u00e7\u00e3o se articulam, se desdobram, se ampliam no semin\u00e1rio, bem como no texto \u201cRadiofonia\u201d, que Lacan escreveu durante aquele ano de seu ensino em resposta a diversas quest\u00f5es, muito informadas pelo Lacan dos\u00a0<em>Escritos<\/em>, de um jornalista da RTB, Robert Georgin. Vou, portanto, desenvolver uma s\u00e9rie de pontos, que apresento aqui brevemente, antes de entrar em mais detalhes:<\/p>\n<ol>\n<li>Ato anal\u00edtico<\/li>\n<\/ol>\n<p>Em primeiro lugar, gostaria de fazer a liga\u00e7\u00e3o entre o ato anal\u00edtico tal como Lacan o havia elaborado em \u201cO ato anal\u00edtico\u201d, \u201cA l\u00f3gica da fantasia\u201d e a \u201cProposi\u00e7\u00e3o de 67\u201d, e o ato anal\u00edtico tal como ele especifica no\u00a0<em>Semin\u00e1rio XVII<\/em>.<\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li>Interpreta\u00e7\u00e3o-deslocamento<\/li>\n<\/ol>\n<p>O\u00a0<em>deslocamento\u00a0<\/em>\u00e9 destacado por Lacan em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0\u00a0<em>dial\u00e9tica<\/em>, movimento da negatividade da linguagem formalizado por Hegel visando \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o do real por sua incorpora\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica ao pensamento (<em>Aufhebung<\/em>). A dial\u00e9tica pertence ao registro da verdade, ou mesmo em seu horizonte, ao da coincid\u00eancia entre saber e verdade, enquanto o\u00a0<em>deslocamento<\/em>\u00a0\u00e9 a maneira que Lacan escolhe, a partir do\u00a0<em>Semin\u00e1rio XVI<\/em>, para operar com a linguagem a fim de produzir um efeito de interpreta\u00e7\u00e3o que n\u00e3o esteja no registro da verdade.<\/p>\n<ol start=\"3\">\n<li>Interpreta\u00e7\u00e3o e semi-dizer<\/li>\n<\/ol>\n<p>No in\u00edcio do\u00a0<em>Semin\u00e1rio XVII<\/em>, Lacan situa a modalidade de interven\u00e7\u00e3o do analista como o agente do discurso anal\u00edtico no registro do semi-dizer. Ele d\u00e1 dois exemplos: a cita\u00e7\u00e3o e o enigma, duas t\u00e9cnicas que se baseiam na dissocia\u00e7\u00e3o entre enuncia\u00e7\u00e3o e enunciado e que t\u00eam a vantagem de colocar o analisante numa posi\u00e7\u00e3o de implica\u00e7\u00e3o subjetiva.<\/p>\n<ol start=\"4\">\n<li>Da met\u00e1fora e da meton\u00edmia como opera\u00e7\u00f5es sobre o gozo<\/li>\n<\/ol>\n<p>Em \u201cRadiofonia\u201d Lacan\u00a0<em>desloca<\/em>\u00a0o sentido dado a esses termos da lingu\u00edstica para torn\u00e1-los opera\u00e7\u00f5es, n\u00e3o mais sobre o sentido, mas sobre o gozo:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201c\u00c9 que n\u00e3o metaforizo a met\u00e1fora nem metonimizo a meton\u00edmia para dizer que elas equivalem \u00e0 condensa\u00e7\u00e3o e \u00e0 transposi\u00e7\u00e3o no inconsciente. Mas desloco-me com o deslocamento do real no simb\u00f3lico, e me condenso para dar peso a meus s\u00edmbolos no real, corno conv\u00e9m para seguir o inconsciente em sua pista\u201d (LACAN, 1970\/2003, p. 418).<\/p>\n<p>Observamos aqui a falta de refer\u00eancia ao imagin\u00e1rio na formula\u00e7\u00e3o de Lacan: trata-se de opera\u00e7\u00f5es sobre a estrutura.<\/p>\n<ol start=\"5\">\n<li>O\u00a0<em>seixo na po\u00e7a<\/em><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/interpretar-humano#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a>\u00a0na vergonha de viver<\/li>\n<\/ol>\n<p>O \u00faltimo cap\u00edtulo do\u00a0<em>Semin\u00e1rio XVII<\/em>\u00a0prop\u00f5e uma nova modalidade de interpreta\u00e7\u00e3o:\u00a0<em>a interpreta\u00e7\u00e3o pela introdu\u00e7\u00e3o de um significante novo<\/em>; n\u00e3o o\u00a0<em>lecton<\/em>\u00a0que permite grampear significante e significado segundo os usos em vigor, ou seja, o ponto de basta entendido sem a determina\u00e7\u00e3o que Lacan lhe pretendia dar, mas um significante que, como o medo em\u00a0<em>Athalie<\/em>, desenvolvido no\u00a0<em>Semin\u00e1rio III<\/em>, \u00e9 &#8220;seixo na po\u00e7a&#8221; que perturba o senso comum.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O ato anal\u00edtico no\u00a0<\/em>Avesso<\/p>\n<p>Nos semin\u00e1rios que precederam a \u201cProposi\u00e7\u00e3o\u201d, o ato anal\u00edtico era tratado ao n\u00edvel da passagem a analista, passagem que deveria ser demonstrada no dispositivo do passe. Na aula II de \u201cO avesso da psican\u00e1lise\u201d, ap\u00f3s sua refer\u00eancia ao material humano, Lacan passa, imediatamente, a dizer que o que nos concerne agora \u00e9 &#8220;interrogar do que se trata no ato psicanal\u00edtico&#8221; (LACAN, 1969-1970\/1992, p. 30). H\u00e1 uma liga\u00e7\u00e3o, portanto, entre o estatuto dos seres falantes reduzidos ao\u00a0<em>estatuto de material humano<\/em>\u00a0e o ato anal\u00edtico: o analista deve intervir sobre esse material humano, restituir-lhe sua dignidade de sujeito barrado, desagreg\u00e1-lo da l\u00f3gica de massa na qual est\u00e1 preso, governado pela burocracia que \u00c9ric Laurent chama, com Hegel, de &#8220;nova clericatura dos funcion\u00e1rios do universal&#8221;<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/interpretar-humano#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a>\u00a0(LAURENT, 2003, tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/p>\n<p>A refer\u00eancia impl\u00edcita de Lacan nesse cap\u00edtulo \u00e9 Alexandre Koj\u00e8ve, para quem &#8220;\u00e9 a extens\u00e3o da forma &#8216;burocracia&#8217; que \u00e9 o elemento essencial da civiliza\u00e7\u00e3o&#8221; (LAURENT, 2003, tradu\u00e7\u00e3o nossa) no p\u00f3s-guerra. \u00c9 o que Lacan vai traduzir em termos da passagem do discurso do mestre para o discurso universit\u00e1rio, ou seja, o advento do saber no lugar de agente para fins de gest\u00e3o do material humano. Reconhecemos aqui tamb\u00e9m o que Foucault denominou biopol\u00edtica em seus cursos no\u00a0<em>Coll\u00e8ge de France<\/em>\u00a0na d\u00e9cada de 1970, isto \u00e9, o governo da esp\u00e9cie humana apreendida pelo vi\u00e9s de suas caracter\u00edsticas biol\u00f3gicas, e n\u00e3o mais como indiv\u00edduos especificados, sen\u00e3o pelas categorias que os ordenam. Esse governo se d\u00e1 pelo vi\u00e9s de um saber estat\u00edstico e de c\u00e1lculos de probabilidade respaldados pela norma. De fato, se o indiv\u00edduo \u00e9 ingovern\u00e1vel, as massas n\u00e3o o s\u00e3o: a imprevisibilidade do comportamento de um determinado humano se desvanece diante da previsibilidade estat\u00edstica dos comportamentos de massa (por exemplo, n\u00e3o sabemos qual indiv\u00edduo vai se divorciar, mas sabemos que um em cada dois casamentos resulta em div\u00f3rcio).<\/p>\n<p>Eis aqui, portanto, o contexto no qual Lacan visa\u00a0<em>intervir<\/em>, e n\u00e3o\u00a0<em>interpretar<\/em>, fazendo uma an\u00e1lise cr\u00edtica de seus recursos ou desvelando a verdade de opress\u00e3o ou de rela\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o, como os marxistas faziam sem grande efeito. \u00c9 por isso que, em \u201cRadiofonia\u201d, Lacan ironizar\u00e1 o termo revolu\u00e7\u00e3o,\u00a0<em>\u00fatil<\/em>\u00a0ou\u00a0<em>f\u00fatil<\/em>, que \u00e9 sem efeito sobre a estrutura, ao contr\u00e1rio das rota\u00e7\u00f5es de discurso identificadas por Lacan e \u00e0s quais acrescenta a rota\u00e7\u00e3o realizada pelo discurso anal\u00edtico.<\/p>\n<p>\u00c9, portanto, com essa finalidade de operar sobre a estrutura (cf. resposta \u00e0 pergunta IV de \u201cRadiofonia\u201d) que vem \u00e0 tona uma nova acep\u00e7\u00e3o do ato anal\u00edtico. Cito Lacan em \u201cO avesso da psican\u00e1lise\u201d:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cN\u00e3o vou consider\u00e1-lo no n\u00edvel onde eu esperara, h\u00e1 dois anos, poder fechar o circuito \u2014 que ficou interrompido \u2014 do ato em que se fundamenta<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/interpretar-humano#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a>, em que se institui como tal o psicanalista. Vou consider\u00e1-lo no n\u00edvel das interven\u00e7\u00f5es do analista, uma vez institu\u00edda a experi\u00eancia em seus limites precisos\u201d (LACAN, 1969-70\/1992, p. 30).<\/p>\n<p>O primeiro ato do analista \u00e9, portanto, \u201cinstituir a experi\u00eancia em seus limites precisos\u201d, antes mesmo de poder intervir. Aqui encontramos uma bela met\u00e1fora de Lacan sobre o S2, saber que n\u00e3o se sabe, em rela\u00e7\u00e3o com a necessidade que o analista institui a experi\u00eancia:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cEsse ventre \u00e9 aquele que d\u00e1, como um cavalo de Tr\u00f3ia monstruoso, as bases para a fantasia de um saber-totalidade. \u00c9 claro, por\u00e9m, que sua fun\u00e7\u00e3o implica que de fora venha alguma coisa bater \u00e0 porta, sem o que jamais sair\u00e1 nada dali. E Tr\u00f3ia jamais ser\u00e1 tomada\u201d (LACAN, 1969-70\/ 1992, p. 31).<\/p>\n<p>Com essa met\u00e1fora imaginada, Lacan introduz o agente-analista do discurso anal\u00edtico. Seu primeiro ato, sua primeira interven\u00e7\u00e3o, \u00e9, portanto, vir &#8220;bater \u00e0 porta&#8221;. Em que isso consiste? Nesse cap\u00edtulo, Lacan se inspira na filosofia, no qual ele acabara de dizer que ela fez com que o Discurso do Mestre fosse permutado no Discurso da Universidade: nisso ele ensina sobre que um agente pode n\u00e3o revelar uma verdade, mas introduzir uma rota\u00e7\u00e3o dos discursos e, portanto,\u00a0<em>operar n\u00e3o no sentido, mas na estrutura<\/em>. Isso nos permite fazer a liga\u00e7\u00e3o com meu segundo ponto, a\u00a0<em>interpreta\u00e7\u00e3o-deslocamento.\u00a0<\/em><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Interpreta\u00e7\u00e3o-deslocamento<\/em><\/p>\n<p>Lacan n\u00e3o explica, ele opera mostrando. O que o\u00a0<em>Semin\u00e1rio XVII<\/em>\u00a0demonstra n\u00e3o \u00e9 uma interpreta\u00e7\u00e3o do momento presente, mas o efeito do deslocamento, essa\u00a0<em>Entstellung<\/em>\u00a0freudiana \u00e0 qual Lacan d\u00e1 todo o peso ao sentido do\u00a0<em>deslocamento<\/em>\u00a0em \u201cRadiofonia\u201d:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">&#8220;Pena que, por um retorno a Freud em que gostariam de se mostrar superiores a mim, eles ignoram a passagem do Mois\u00e9s em que Freud deixa claro ser assim que entende o\u00a0<em>Entstellung,<\/em>\u00a0a saber, como deslocamento, porque, apesar de arcaico, \u00e9 esse, no dizer dele, seu sentido inicial&#8221; (LACAN, 1970\/2003, p. 418).<\/p>\n<p>Voltarei mais tarde \u00e0 frase que se segue \u00e0 passagem de \u201cRadiofonia\u201d \u2014 \u201cFazer o gozo passar para o inconsciente, isto \u00e9, para a contabilidade, \u00e9, de fato, um deslocamento danado&#8221; (LACAN, 1970\/2003, p. 418) \u2014, no meu ponto 4. Procuro aqui fazer a liga\u00e7\u00e3o entre o deslocamento e o ato do analista instituindo a experi\u00eancia. Recordemos aqui o que todos em nossa comunidade sabemos: \u201cO avesso da psican\u00e1lise\u201d \u00e9 o semin\u00e1rio em que Lacan formaliza seus quatro discursos a partir dos tr\u00eas imposs\u00edveis freudianos: governar, educar, psicanalisar, aos quais ele acrescenta o feminismo. Divididos entre impot\u00eancia (Discurso Universit\u00e1rio e Discurso Hist\u00e9rico) e imposs\u00edvel (Discurso do Mestre e Discurso Anal\u00edtico), eles d\u00e3o conta da linguagem como estrutura que inclui um efeito mais-de-gozar espec\u00edfico a cada um. O sentido n\u00e3o tem lugar a\u00ed, ou melhor, s\u00f3 tem seu lugar a\u00ed como sentido gozado.<\/p>\n<p>Dois pontos aqui:<\/p>\n<ol>\n<li>Deve-se notar que \u00e0\u00a0<em>Quest\u00e3o VII<\/em>, de Georgin, sobre os tr\u00eas imposs\u00edveis freudianos, Lacan responde distinguindo\u00a0<em>analisar<\/em>\u00a0e\u00a0<em>curar<\/em>: \u201cGovernar, educar, curar, portanto, quem sabe? (LACAN, 1970\/2003, p. 444). No que diz respeito ao Discurso Anal\u00edtico, seu objetivo, de fato, n\u00e3o \u00e9 a cura.<\/li>\n<li>O analista como agente do discurso tem a fun\u00e7\u00e3o de efetuar um\u00a0<em>deslocamento<\/em>, ou seja, introduzir uma permuta\u00e7\u00e3o que Lacan chama de &#8220;a histeriza\u00e7\u00e3o do discurso&#8221; (LACAN, 1969-70\/1992, p. 31). Por que essa histeriza\u00e7\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria? Lacan continua: \u201ca hist\u00e9rica fabrica como pode, um homem \u2014 um homem que seria animado pelo desejo de saber\u201d (LACAN, 1969-70\/1992, p. 31). Essa frase enigm\u00e1tica da p\u00e1gina 31 pode ser esclarecida \u00e0 luz do que disse Lacan em Vincennes, que se encontra no \u201cAnalyticon\u201d, na p\u00e1gina 193: &#8220;Quero um homem que saiba fazer amor&#8221;, frase que pode ser distribu\u00edda nos respectivos lugares do Discurso Hist\u00e9rico: $ = eu quero; S1 = um homem; S2 = que sabe;\u00a0<em>a<\/em>\u00a0= fazer amor. Ou ainda, a hist\u00e9rica quer que o outro produza um saber sobre aquilo que causa seu desejo. E Lacan acrescenta:<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cN\u00e3o estar\u00e1 a\u00ed, afinal, o pr\u00f3prio fundamento da experi\u00eancia anal\u00edtica? Pois digo que ela d\u00e1 ao outro, como sujeito, o lugar dominante no discurso da hist\u00e9rica, histeriza seu discurso, faz dele um sujeito a quem se solicita que abandone qualquer refer\u00eancia que n\u00e3o seja a das quatro paredes que o envolvem, e que produzam significantes que constituam a associa\u00e7\u00e3o livre soberana, em suma, do campo&#8221; (LACAN, 1969-70\/1992, p. 32).<\/p>\n<p>Eis, ent\u00e3o, o\u00a0<em>efeito<\/em>\u00a0da permuta\u00e7\u00e3o operada pelo analista no lugar de agente no Discurso Anal\u00edtico, no in\u00edcio da experi\u00eancia anal\u00edtica:\u00a0<em>bater de fora sobre o ventre do Outro\u00a0<\/em>para que surjam os significantes-mestres, mestres do destino do sujeito sem que ele saiba.<\/p>\n<p>Mas outras interpreta\u00e7\u00f5es-deslocamentos est\u00e3o em jogo nesse semin\u00e1rio e no escrito contempor\u00e2neo que \u00e9 \u201cRadiofonia\u201d:<\/p>\n<ul>\n<li>Deslocamento radicalizado da psican\u00e1lise do imagin\u00e1rio em dire\u00e7\u00e3o ao simb\u00f3lico, esse deslocamento sendo modelado na passagem da ci\u00eancia-conhecimento (intui\u00e7\u00e3o, imagina\u00e7\u00e3o, a priori) para a ci\u00eancia-saber (f\u00f3rmulas que s\u00f3 podem ser verificadas a partir de seus produtos, como o LEM<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/interpretar-humano#_edn7\" name=\"_ednref7\">[7]<\/a>\u00a0do pouso\u00a0<em>lunar e as leis de Newton<\/em>)<em>.\u00a0<\/em>A refer\u00eancia de Lacan aqui \u00e9 ao trabalho do epistem\u00f3logo Alexandre Koyr\u00e9,\u00a0<em>Do mundo fechado ao Universo infinito<\/em>;<\/li>\n<li>Deslocamento das refer\u00eancias e disciplinas conectadas \u00e0 psican\u00e1lise das ci\u00eancias humanas (etnologia, antropologia, lingu\u00edstica) em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s ci\u00eancias duras e \u00e0 poesia, ou seja, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 estrutura e seu produto, por um lado, e em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 materialidade da linguagem, por outro \u2014 assim, a frase de \u201cRadiofonia\u201d: \u201cpois o poeta se produz por ser&#8230; devorado pelos versos\/vermes [<em>vers<\/em>] que encontram entre si o seu arranjo, sem se incomodar. Isso \u00e9 patente\u201d (LACAN, 1970\/2003, p. 420);<\/li>\n<li>Deslocamento do estatuto do corpo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 sua forma l\u00f3gica, ou seja, superf\u00edcie de inscri\u00e7\u00e3o dos significantes do Outro,\u00a0<em>corpse,<\/em>\u00a0correlacionado aos instrumentos do gozo;<\/li>\n<li>Deslocamento do inconsciente-verdade (inconsciente como dispositivo hermen\u00eautico para todos os prop\u00f3sitos) para modos de gozar formalizados pelos discursos;<\/li>\n<li>Deslocamento de Freud e sua cren\u00e7a no Pai em dire\u00e7\u00e3o a um tratamento da mat\u00e9ria linguageira e do efeito de sentido, etc.<\/li>\n<\/ul>\n<p>A interpreta\u00e7\u00e3o por deslocamento est\u00e1, portanto, no cerne desse momento do ensino de Lacan. Talvez j\u00e1 possamos ver o rastro disso na escolha que Lacan fez de associar o desejo \u00e0 meton\u00edmia, e n\u00e3o ao Nome-do-Pai, como Miller p\u00f4de comentar em um de seus coment\u00e1rios sobre o\u00a0<em>Semin\u00e1rio VI<\/em>, &#8220;Mais al\u00e9m do \u00c9dipo&#8221;<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/interpretar-humano#_edn8\" name=\"_ednref8\">[8]<\/a>. No entanto, a m\u00e1quina dos discursos, os quadr\u00edpodes, como Lacan \u00e0s vezes os chama, permite estreitar justamente a fun\u00e7\u00e3o do analista-agente, ocupando como objeto-causa o lugar que \u00e9 o do mestre no DM \u2014 \u201cEle, o analista, \u00e9 que \u00e9 o mestre. Sob que forma? (&#8230;). Por que sob a forma de\u00a0<em>a<\/em>?\u201d (LACAN, 1969\u201370\/1992, p. 33).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Interpreta\u00e7\u00e3o e semi-dizer<\/em><\/p>\n<p>Tendo introduzido o primeiro ato do analista como sendo o de produzir a rota\u00e7\u00e3o dos termos do discurso em Discurso Hist\u00e9rico nessa bela aula II, Lacan prop\u00f5e dois tipos de interpreta\u00e7\u00e3o sustent\u00e1veis analiticamente\u200b, o enigma e a cita\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o duas formas do semi-dizer. Ele introduz o enigma com muito humor, com as seguintes frases: \u201cO que \u00e9 a verdade como saber? (lembremos que, no Discurso do Analista, o saber \u00e9 produzido no lugar da verdade) Seria o caso de diz\u00ea-lo: \u2014 Como saber sem saber? \u00c9 um enigma. Esta \u00e9 a resposta \u2014 \u00e9 um enigma\u201d (LACAN, 1969-70\/1992, p. 34).<\/p>\n<p>Enigma e cita\u00e7\u00e3o t\u00eam em comum o fato de serem ditos apenas pela metade, o que \u00e9 &#8220;o pr\u00f3prio da verdade&#8221;. Lacan retoma ent\u00e3o o enigma que a Quimera coloca ao \u00c9dipo. N\u00e3o resisto em citar algumas frases do texto de Lacan:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cE a Quimera prop\u00f5e um enigma ao homem \u00c9dipo, que talvez j\u00e1 tivesse um complexo, mas n\u00e3o certamente aquele ao qual haveria de dar seu nome. Ele lhe responde de uma certa maneira, e \u00e9 assim que se toma \u00c9dipo. \u00c0 pergunta da Quimera, poderia ter dado muitas outras respostas. Por exemplo, poderia ter dito: \u2014 Duas patas, tr\u00eas patas, quatro patas, \u00e9 o esquema de Lacan. Isto teria dado um resultado completamente diferente. Tamb\u00e9m poderia ter dito: \u2014 \u00c9 um homem, um homem quando crian\u00e7a de peito. A\u00ed, come\u00e7ou com quatro patas. Prossegue com duas, retoma uma terceira e, no mesmo movimento, sai correndo como uma bala, direto para o ventre de sua m\u00e3e. Isto \u00e9 o que de fato se chama, com bons motivos, complexo de \u00c9dipo. reio que voc\u00eas v\u00eaem o que aqui quer dizer a fun\u00e7\u00e3o do enigma \u2014 \u00e9 um semi-dizer, como a Quimera faz aparecer um meio-corpo, pronto a desaparecer completamente quando se deu a solu\u00e7\u00e3o&#8221; (LACAN, 1969-70\/1992, p. 34).<\/p>\n<p>Essa passagem muito engra\u00e7ada de Lacan indica claramente a disciplina \u00e0 qual o analista deve se atentar para n\u00e3o virar sugest\u00e3o, para deixar para o analisante a responsabilidade de seu enunciado, para deixar o campo livre para sua implica\u00e7\u00e3o subjetiva. Com efeito, no enigma colocado ao \u00c9dipo, n\u00e3o \u00e9 a Quimera quem interpreta, mas \u00c9dipo: \u201cO enigma \u00e9 provavelmente isso, uma enuncia\u00e7\u00e3o. Encarrego voc\u00eas de convert\u00ea-lo em enunciado. Virem-se como puderem \u2014 como fez \u00c9dipo \u2014, voc\u00eas sofrer\u00e3o suas consequ\u00eancias\u201d (LACAN, 1969-70\/1992, p. 34).<\/p>\n<p>E Lacan esculpe uma defini\u00e7\u00e3o de interpreta\u00e7\u00e3o adaptada a esse momento de seu ensino: \u201cUm saber como verdade \u2014 isto define o que deve ser a estrutura do que se chama uma interpreta\u00e7\u00e3o\u201d (LACAN, 1969-70\/1992, p. 34). N\u00e3o vou retomar aqui o segundo exemplo, o da cita\u00e7\u00e3o, a n\u00e3o ser para dizer que, se no caso do enigma, a enuncia\u00e7\u00e3o est\u00e1 do lado do analista, no caso da cita\u00e7\u00e3o, ela est\u00e1 do lado do analisante, e aposta \u201cna participa\u00e7\u00e3o em um discurso pelo leitor suposto\u201d (LACAN, 1969-70\/1992, p. 35). Esses dois registros t\u00eam em comum o fato de colocar o analisante na posi\u00e7\u00e3o de ter que completar o semi-dizer por meio dos significantes produzidos por associa\u00e7\u00e3o livre, dos quais sabemos que \u201c(&#8230;) no surgimento ao acaso dos significantes \u2014 pelo pr\u00f3prio fato de tratar-se de significantes \u2014 n\u00e3o h\u00e1 nada que n\u00e3o se reporte \u00e0quele saber que n\u00e3o se sabe (&#8230;)\u201d (LACAN, 1969-70\/1992, p. 32).<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><em>Met\u00e1fora e meton\u00edmia<\/em><\/p>\n<p>Uma das quest\u00f5es que Georgin faz a Lacan visa assimilar psican\u00e1lise e lingu\u00edstica em vista do privil\u00e9gio concedido pelas duas disciplinas \u00e0 met\u00e1fora e \u00e0 meton\u00edmia. Com sua habitual m\u00e1-f\u00e9, Lacan se distancia de Jakobson ao retomar as defini\u00e7\u00f5es das duas opera\u00e7\u00f5es significantes:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201c(&#8230;) substitui\u00e7\u00e3o de um significante por outro em uma e sele\u00e7\u00e3o de um significante em sua sequ\u00eancia, na outra. Da\u00ed resulta (e somente com Jakobson, nesse aspecto; para mim, o resultado \u00e9 outro) que a substitui\u00e7\u00e3o \u00e9 feita de semelhan\u00e7as, e a sele\u00e7\u00e3o, de contiguidades\u201d (LACAN, 1970\/2003, p. 413).<\/p>\n<p>Lembramos que met\u00e1fora e meton\u00edmia foram localizadas por Lacan no princ\u00edpio das forma\u00e7\u00f5es do inconsciente: a combina\u00e7\u00e3o significante permitindo a decifra\u00e7\u00e3o do inconsciente.<\/p>\n<p>Ora, em \u201cRadiofonia\u201d, em outro deslocamento operado por Lacan, os termos se relacionam com as opera\u00e7\u00f5es freudianas de condensa\u00e7\u00e3o e deslocamento, mas na medida em que elas s\u00e3o opera\u00e7\u00f5es linguageiras sobre o gozo. Assim, vou reler para voc\u00eas esta frase j\u00e1 citada anteriormente:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201c\u00c9 que n\u00e3o metaforizo a met\u00e1fora nem metonimizo a meton\u00edmia para dizer que elas equivalem \u00e0 condensa\u00e7\u00e3o e \u00e0 transposi\u00e7\u00e3o no inconsciente. Mas desloco-me com o deslocamento do real no simb\u00f3lico, e me condenso para dar peso a meus s\u00edmbolos no real, corno conv\u00e9m para seguir o inconsciente em sua pista\u201d (LACAN, 1970\/2003, p. 413).<\/p>\n<p>Portanto, n\u00e3o \u00e9 uma met\u00e1fora dizer que a met\u00e1fora \u00e9 condensa\u00e7\u00e3o, nem uma meton\u00edmia dizer que a meton\u00edmia equivale a passar o gozo \u00e0 contabilidade. Por que Lacan insiste em eliminar esses termos da lingu\u00edstica para faz\u00ea-los \u00e0 sua maneira? Porque a psican\u00e1lise \u00e9 uma pr\u00e1tica linguageira, ainda que a significa\u00e7\u00e3o n\u00e3o tenha mais voz no cap\u00edtulo e que o sentido esteja reduzido a esse efeito de sentido gozado, que \u00e9 o objeto<em>\u00a0a.\u00a0<\/em>Esta \u00e9 a defini\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea do\u00a0<em>Semin\u00e1rio XVII<\/em>: &#8220;objeto\u00a0<em>a<\/em>, esse grande incorp\u00f3reo dos est\u00f3icos&#8221; (LACAN, 1970\/2003, p. 399). \u00c9 por essa redu\u00e7\u00e3o do sentido ao sentido gozado, ao mais-de-gozar, que \u00e9 importante preservar a possibilidade de opera\u00e7\u00f5es linguageiras sobre o gozo. Assim, a meton\u00edmia \u00e9 redefinida na p. 416 como\u00a0<em>metabolismo do gozo,<\/em>\u00a0enquanto a met\u00e1fora \u201cobt\u00e9m um efeito de sentido (n\u00e3o de significa\u00e7\u00e3o) a partir de um significante que faz-se de seixo lan\u00e7ado na po\u00e7a do significa\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A vergonha de viver<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 nessa nova defini\u00e7\u00e3o da met\u00e1fora como pedra na po\u00e7a do significado que Lacan se apoia, por analogia com o temor de Deus evocado por Racine em\u00a0<em>Athalie<\/em>, e que ele havia utilizado para introduzir o ponto de basta<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/interpretar-humano#_edn9\" name=\"_ednref9\">[9]<\/a>\u00a0em \u201cAs psicoses\u201d, para lan\u00e7ar a pedra da\u00a0<em>vergonha<\/em>\u00a0na po\u00e7a da agita\u00e7\u00e3o de maio. O ponto de basta n\u00e3o \u00e9 a significa\u00e7\u00e3o que permite decifrar a cadeia significante, mas o que Lacan \u201ccondensa para dar peso a meus s\u00edmbolos no real\u201d (LACAN, 1970\/2003, p. 418).<\/p>\n<p>De fato, o cap\u00edtulo 13 do\u00a0<em>Semin\u00e1rio XVII<\/em>\u00a0come\u00e7a com as palavras \u201cmorrer de vergonha\u201d, depois correlaciona a vergonha n\u00e3o a um significado, mas a um signo:\u00a0\u00a0&#8220;(&#8230;) morrer de vergonha (&#8230;). Contudo, \u00e9 o \u00fanico signo cuja genealogia se pode assegurar, ou seja, ele descende<em>\u00a0de um significante&#8221;\u00a0<\/em>(LACAN, 1969-70\/1992, p. 172).<\/p>\n<p>Se lermos bem o que diz Lacan, o signo \u00e9 definido pela degenera\u00e7\u00e3o de um significante. Para compreender essa proposi\u00e7\u00e3o, volto a me referir a \u201cRadiofonia\u201d, em que o signo \u00e9 definido como signo do gozo de um ser falante (na p. 411, Lacan fala tamb\u00e9m do significante que recai no signo). Leio, ent\u00e3o, essa proposi\u00e7\u00e3o de Lacan da seguinte forma: ele imp\u00f5e, com todo seu peso, um peso que espera ser equivalente ao do temor de Deus, a<em>\u00a0vergonha<\/em>\u00a0que h\u00e1 de viver quando somente o signo de nosso gozo nos representa, e n\u00e3o mais os significantes que governam nosso destino. \u00c9 a vergonha de viver do material humano animado pelo mais-de-gozar que o capitalismo lhe imprime, preocupado unicamente com sua pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia. O\u00a0<em>primum vivere<\/em>, \u00fanica promessa da biopol\u00edtica, que se tornou bioeconomia no s\u00e9culo XXI, d\u00e1 origem ao que Lacan chama de \u201cuma fenomenal vergonha de viver\u201d (LACAN, 1969-70\/1992, p. 174). A constata\u00e7\u00e3o arrepiante do\u00a0<em>Semin\u00e1rio XVII<\/em>\u00a0\u00e9 que n\u00e3o s\u00f3 as burocracias sanit\u00e1rias reduziram os seres humanos a material humano, mas que esse material humano \u00e9, al\u00e9m disso, excessivo, sem outra fun\u00e7\u00e3o social que a de consumir para que torne sem freios o discurso capitalista, em detrimento da honra de uma vida que assumiria sua depend\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o aos significantes que a representam.<\/p>\n<p>Se Lacan joga a pedra da vergonha na po\u00e7a do marasmo contempor\u00e2neo, n\u00e3o \u00e9 para fazer ressurgir a honra, pois s\u00f3 pode haver vergonha se houver desonra? E ele est\u00e1 disposto a pagar com sua pessoa, pois se oferece, na \u00faltima linha desse magn\u00edfico semin\u00e1rio, para ser aquele que &#8220;acontece provocar-lhes vergonha&#8221; (LACAN, 1969-70\/1992, p. 184). Aqui, novamente, Lacan indica o que custa estar na posi\u00e7\u00e3o de agente do discurso anal\u00edtico: posicionando-se como\u00a0<em>a<\/em>, ou seja, como um olhar sob o qual se pode ter vergonha, ele empresta seu corpo ao deslocamento que tenta produzir para desagregar o material humano e restituir suas letras de nobreza a uma singularidade desvinculada de sua servid\u00e3o ao mais-de-gozar. O analista n\u00e3o pode estar na posi\u00e7\u00e3o de agente do discurso anal\u00edtico sem pagar com sua pessoa.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><em>Conclus\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>Para concluir, retomo minha tese inicial segundo a qual o semin\u00e1rio \u201cO avesso da psican\u00e1lise\u201d \u00e9 um semin\u00e1rio sobre a interpreta\u00e7\u00e3o, tomada nos m\u00faltiplos sentidos de\u00a0<em>i<\/em><em>nterven\u00e7\u00e3o<\/em>. Lacan, como Freud, se confronta com o mal-estar da civiliza\u00e7\u00e3o, com &#8220;os crescentes impasses da civiliza\u00e7\u00e3o&#8221;<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/interpretar-humano#_edn10\" name=\"_ednref10\">[10]<\/a>. Diante dos acontecimentos de 68, ele n\u00e3o se det\u00e9m nas interpreta\u00e7\u00f5es marxistas que atribuem o mal-estar \u00e0 opress\u00e3o ou \u00e0 domina\u00e7\u00e3o, mas problematiza a economia do gozo na era do capitalismo. \u00c9 ao n\u00edvel dessa economia que se situa o mal-estar contempor\u00e2neo a Lacan, e hoje de forma ainda mais radical. Os seres falantes s\u00e3o cada vez mais produzidos e geridos como objetos, n\u00e3o tendo outro valor al\u00e9m de seu poder de compra; os pobres s\u00e3o excedent\u00e1rios, os ricos s\u00e3o representados apenas pelo sinal de seu mais-de-gozar. O\u00a0<em>Semin\u00e1rio, livro 17<\/em>\u00a0combina os tr\u00eas tipos de interpreta\u00e7\u00e3o em psican\u00e1lise identificados por Jacques-Alain Miller em \u201cCoisas de Fineza\u201d: interpreta\u00e7\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o, interpreta\u00e7\u00e3o da teoria anal\u00edtica e interpreta\u00e7\u00e3o no \u00e2mbito do tratamento. O s\u00e9culo XX, com seu cortejo de genoc\u00eddios, sua industrializa\u00e7\u00e3o da morte, deixou pouca d\u00favida ao falasser quanto ao seu status obsoleto, substitu\u00edvel. O s\u00e9culo XXI n\u00e3o se afasta desta constata\u00e7\u00e3o: eutan\u00e1sia, gest\u00e3o dos idosos, migra\u00e7\u00f5es \u2014 clim\u00e1ticas e outras \u2014 formam nosso presente, constituir\u00e3o o nosso futuro pr\u00f3ximo. Diante dessa constata\u00e7\u00e3o, admiremos a tentativa de Lacan que, com esse significante novo que \u00e9 a vergonha, tenta devolver a honra \u00e0s vidas humanas. Verdadeiro fogo de artif\u00edcio, a teoria anal\u00edtica se renova com ferramentas operacionais que v\u00e3o da formaliza\u00e7\u00e3o do discurso anal\u00edtico ao significante novo, passando pelas figuras do semi-dizer, dando todo lugar \u00e0 implica\u00e7\u00e3o subjetiva que, por si s\u00f3, permite que um ser falante se responsabilize por sua exist\u00eancia, sem a desculpa do destino.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1955\u201356)\u00a0<strong>O semin\u00e1rio, livro 3:\u00a0<\/strong>as psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1968\u201369)\u00a0<strong>O semin\u00e1rio, livro 16<\/strong>: de um Outro ao outro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2008.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1970\u201371)\u00a0<strong>O semin\u00e1rio, livro 17<\/strong>: o avesso da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1970) \u201cRadiofonia\u201d.\u00a0<strong>Outros Escritos<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003, p. 400-447.<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9.\u00a0<strong><em>Le dialogue Lacan-Koj\u00e8ve sur la bureaucratie et l\u2019Empire<\/em><\/strong>, 2003, dispon\u00edvel em\u00a0<a href=\"https:\/\/wapol.org\/ornicar\/articles\/lrn0059.htm\">https:\/\/wapol.org\/ornicar\/articles\/lrn0059.htm<\/a>.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/interpretar-humano#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a>\u00a0Texto in\u00e9dito gentilmente cedido pela autora.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/interpretar-humano#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a>\u00a0Por exemplo, o recente livro de Chapoutot, J.,\u00a0<em>Libres d\u00f3b\u00e9ir: Le management du nazisme \u00e0 aujord\u2019hui<\/em>, Paris: Gallimard, 2020, p. 18: &#8220;Na esteira do trabalho [sobre as ind\u00fastrias do Terceiro Reich], pudemos considerar que o manejo e a &#8216;gest\u00e3o&#8217; de &#8216;recursos humanos&#8217; tinham em si algo de criminoso&#8230; Da objetifica\u00e7\u00e3o de um ser humano, reduzido ao status de &#8216;material&#8217;, &#8216;recurso&#8217; ou &#8216;fator de produ\u00e7\u00e3o&#8217;, \u00e0 sua explora\u00e7\u00e3o, at\u00e9 a sua destrui\u00e7\u00e3o, a concatena\u00e7\u00e3o tem sua l\u00f3gica, da qual o campo de concentra\u00e7\u00e3o, lugar de destrui\u00e7\u00e3o pelo trabalho e produ\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, \u00e9 o lugar paradigm\u00e1tico\u201d (Tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/interpretar-humano#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a>\u00a0\u201cDo que torna leg\u00edvel o significado\u201d: LACAN, J. (1970\/2003) \u201cRadiofonia\u201d.\u00a0<em>In:<\/em>\u00a0<strong>Outros Escritos<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, p.\u00a0413-414).<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/interpretar-humano#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a>\u00a0Essa express\u00e3o francesa, \u201c<em>Le pav\u00ea dans la mare<\/em>\u201d, tem, em portugu\u00eas, o sentido de algo que irrompe no contexto de uma situa\u00e7\u00e3o, at\u00e9 ent\u00e3o, tranquila e que, inesperadamente, a abala, a perturba, como uma pedra atirada em uma po\u00e7a de \u00e1gua.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/interpretar-humano#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a>\u00a0LAURENT \u00c9.\u00a0<em>Le dialogue Lacan-Koj\u00e8ve sur la bureaucratie et l\u2019Empire.<\/em>\u00a0Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"https:\/\/wapol.org\/ornicar\/articles\/lrn0059.htm\">https:\/\/wapol.org\/ornicar\/articles\/lrn0059.htm<\/a>.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/interpretar-humano#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a>\u00a0Observemos que, em \u201cRadiofonia\u201d, Lacan retorna a esse elo que n\u00e3o se fecha ao acrescentar \u00e0 sua elabora\u00e7\u00e3o anterior sobre a passagem do analisante \u00e0 analista: \u201cn\u00e3o tomo como acidental que a como\u00e7\u00e3o de maio me haja impedido de ir at\u00e9 o fim\u201d, antes de acrescentar, como resultado de seu trabalho no Semin\u00e1rio, que \u201cfa\u00e7o quest\u00e3o de assinalar que algu\u00e9m s\u00f3 vem a sentar-se nesse lugar pela maneira, ou melhor, pela\u00a0<em>desmaneira\u00a0<\/em>que nele imp\u00f5e a verdade\u201d (LACAN, 1970\/2003, p. 426).<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/interpretar-humano#_ednref7\" name=\"_edn7\">[7]<\/a>\u00a0LEM: sigla para\u00a0<em>Lunar Excursion Module,<\/em>\u00a0o m\u00f3dulo lunar usado pela NASA no Projeto Apolo.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/interpretar-humano#_ednref8\" name=\"_edn8\">[8]<\/a>\u00a0A esse respeito, remetemos o leitor \u00e0 p\u00e1gina 11 do artigo\u00a0<em>Apresenta\u00e7\u00e3o do\u00a0<\/em><em>Semin\u00e1rio 6<\/em><em>:\u00a0<\/em><em>o desejo e sua interpreta\u00e7\u00e3o<\/em>, de Jacques Lacan, por Jaques-Alain Miller, publicado em Op\u00e7\u00e3o Lacaniana online nova s\u00e9rie, ano 5, n. 14, julho 2014. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_14\/Apresentacao_do_seminario_6.pdf<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/interpretar-humano#_ednref9\" name=\"_edn9\">[9]<\/a>\u00a0LAURENT, \u00c9.,\u00a0Fils de faire: intervention \u00e0 la London Society. Julho de 2020, in\u00e9dito. Nesse texto Laurent prop\u00f5e que medo e vergonha s\u00e3o hom\u00f3logos no ensino de Lacan.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/interpretar-humano#_ednref10\" name=\"_edn10\">[10]<\/a>\u00a0LACAN, J. A psican\u00e1lise. \u201cRaz\u00e3o de um fracasso\u201d.\u00a0<em>In:\u00a0<\/em><strong>Outros Escritos<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1970\/2003 p. 349.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>V\u00c9RONIQUE VORUZ Psicanalista, AE da NLS e da ECF \/AMP verovoruz@me.com Resumo:\u00a0\u00a0A autora correlaciona o estatuto do falasser, reduzido a\u00a0material humano, e a interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica, na medida em que, alienado ao imperativo capitalista de consumo, o sujeito se deixa desabonar de sua honra. 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