{"id":196,"date":"2023-08-15T19:24:18","date_gmt":"2023-08-15T22:24:18","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=196"},"modified":"2025-12-01T12:45:44","modified_gmt":"2025-12-01T15:45:44","slug":"o-objeto-a-como-bussola-em-tempos-de-delirios-familiares1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2023\/08\/15\/o-objeto-a-como-bussola-em-tempos-de-delirios-familiares1\/","title":{"rendered":"O objeto\u00a0a\u00a0como b\u00fassola em tempos de del\u00edrios familiares<sup>[1]<\/sup>"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong>Alejandra Glaze<em><br \/>\n<\/em><\/strong>Psicanalista<br \/>\nMembro da Escuela de Orientaci\u00f3n Lacaniana\/AMP<br \/>\n<span id=\"cloak1809f2a48e7f6d6785804e814e9e35b8\"><a href=\"mailto:aglaze@gramaediciones.com.ar\">aglaze@gramaediciones.com.ar<\/a><\/span><\/h6>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Resumo:\u00a0\u00a0<\/strong>Em sua investiga\u00e7\u00e3o sobre a particularidade dos del\u00edrios familiares atuais, a autora toma como ponta de partida a localiza\u00e7\u00e3o de um del\u00edrio ligado a um imagin\u00e1rio desenfreado que, por essa raz\u00e3o mesmo, \u00e9 profundamente uniformizante e invasivo para a crian\u00e7a. E aponta como a psican\u00e1lise pode se valer de uma outra perspectiva de reconfigura\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias tomando como refer\u00eancia o objeto\u00a0<em>a<\/em>, por natureza antin\u00f4mico aos atuais estilos de vida tra\u00e7ados com a marca do universal.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Palavras-chave:\u00a0<\/strong>del\u00edrios familiares; imagin\u00e1rio desenfreado; objeto\u00a0<em>a<\/em>.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>THE OBJECT\u00a0<i>a<\/i>\u00a0AS A COMPASS IN TIMES OF FAMILY DELUSIONS<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Abstract:\u00a0<\/strong>In her investigation into the particularity of current family delusions, the author takes as her starting point the location of a delusion linked to an unbridled imaginary that, for this very reason, is profoundly standardizing and invasive for the child. And it points out how psychoanalysis can take advantage of another perspective of reconfiguration of families, taking as reference the object\u00a0<em>a<\/em>, by nature antinomic to the current lifestyles traced with the mark of the universal<strong>.<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Keywords:\u00a0<\/strong>family delusions; unbridled imaginary; object\u00a0<em>a<\/em>.<\/p>\n<\/blockquote>\n<div id=\"attachment_197\" style=\"width: 577px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/ALEJANDRA_GLAZE.png\" data-dt-img-description=\"Imagem: Sofia Nabuco\" data-large_image_width=\"567\" data-large_image_height=\"838\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-197\" class=\"size-full wp-image-197\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/ALEJANDRA_GLAZE.png\" alt=\"\" width=\"567\" height=\"838\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/ALEJANDRA_GLAZE.png 567w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/ALEJANDRA_GLAZE-203x300.png 203w\" sizes=\"auto, (max-width: 567px) 100vw, 567px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-197\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Sofia Nabuco<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tema proposto para esta apresenta\u00e7\u00e3o me fez pensar muito, pois, para mim, era um obst\u00e1culo a ideia de que, para al\u00e9m da \u00e9poca, haveria algo de del\u00edrio nos assuntos familiares, ao menos no sentido que costumamos dar ao del\u00edrio quando dizemos \u201cTodos loucos\u201d ou \u201cTodo mundo \u00e9 louco\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Portanto, para al\u00e9m da quest\u00e3o da \u00e9poca, sabemos que cada crian\u00e7a prov\u00e9m de um del\u00edrio familiar, se pensarmos que dizer \u201ctodos delirantes\u201d nada mais \u00e9 do que afirmar que n\u00e3o h\u00e1 possibilidade de alcan\u00e7ar normas comuns. Ou seja, cada um faz obst\u00e1culo, ou mesmo, \u00e9 um obst\u00e1culo \u00e0 norma para todos. Mas n\u00e3o proponho isso considerando a via de uma despatologiza\u00e7\u00e3o (como faz hoje a cl\u00ednica moderna ligada ao DSM<sup><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/o-objeto-a-como-bussola#_edn1\" name=\"_ednref1\">[2]<\/a><\/sup>\u00a0e \u00e0s neuroci\u00eancias), mas como forma de dizer que a exce\u00e7\u00e3o n\u00e3o faz a regra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse \u00e9 o caminho atualmente aberto em dire\u00e7\u00e3o aos estilos de vida que, como disse Jacques-Alain Miller no texto de apresenta\u00e7\u00e3o do pr\u00f3ximo Congresso da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise, implica \u201cuma liberdade imprescrit\u00edvel porque \u00e9 a dos sujeitos de direito\u201d (MILLER, 2022, p. 17), quando sabemos que hoje s\u00e3o os direitos humanos que regem a subjetividade moderna.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para chegar r\u00e1pido ao ponto, esse del\u00edrio familiar que voc\u00eas localizam como uma quest\u00e3o de \u00e9poca, no caso da neurose, ele descreve mais um imagin\u00e1rio, de certo modo, um tanto desenfreado. Considero que esta \u00e9 a quest\u00e3o da \u00e9poca: um del\u00edrio ligado a um imagin\u00e1rio desenfreado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vou ler uma cita\u00e7\u00e3o de Laurent, retirada de seu artigo \u201cResponder al ni\u00f1o de ma\u00f1ana\u201d, referente \u00e0 narrativa p\u00f3s-moderna sobre a crian\u00e7a:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\">A crian\u00e7a e o adolescente se veem submersos em uma produ\u00e7\u00e3o industrial de fic\u00e7\u00f5es romanceadas que os ocupam enormemente, pois temos que contar as horas de televis\u00e3o, de fic\u00e7\u00e3o televisiva, para sonhar sua vida frente a uma tela. Se somarmos a isso os videogames e os jogos de encena\u00e7\u00f5es, vemos que a crian\u00e7a est\u00e1 ligada a toda uma trama ficcional, narrativa, romanceada, que invade a sua vida como nunca. Ela lhe proporciona, amplificando, todos os elementos que a fic\u00e7\u00e3o ed\u00edpica n\u00e3o pode transmitir. (LAURENT, 2001, p. 98)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isto \u00e9 o que podemos chamar de\u00a0<em>imagin\u00e1rio desenfreado<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora o del\u00edrio familiar seja o pr\u00f3prio \u00c9dipo, devemos nos perguntar sobre a particularidade de nossa \u00e9poca para esse del\u00edrio familiar, que nada mais \u00e9 do que a multiplica\u00e7\u00e3o deslocalizada do n\u00facleo familiar e dispersa no tecido do mundo ao qual a crian\u00e7a chega. \u00c9 assim que eu respondo o porqu\u00ea de voc\u00eas localizarem o del\u00edrio familiar em nossa \u00e9poca. Nessa deslocaliza\u00e7\u00e3o. E isso tem suas consequ\u00eancias subjetivas e cl\u00ednicas. Um imagin\u00e1rio que, muitas vezes, \u00e9 profundamente invasivo, no qual a crian\u00e7a \u00e9 aprisionada e de onde \u00e9 dif\u00edcil retir\u00e1-la.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas vamos abordar essa quest\u00e3o sob outra perspectiva: sabemos que o que deve ser feito como homem ou como mulher, o ser humano ter\u00e1 que apreender inteiramente com o Outro, pois pertence \u201cao drama, ao roteiro, que se coloca no campo do Outro\u201d, como disse Lacan (1964\/1988, p. 194) no Semin\u00e1rio 11, acrescentando que \u201co \u00c9dipo \u00e9 propriamente isso\u201d, essa captura nessa trama que vem do Outro.<em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso nos coloca diretamente no que podemos chamar de a trama do familiar, a maneira pela qual se tece aquilo que d\u00e1 forma a nossa vida, isso que nos faz sujeitos tal como o somos, embora sempre haja um resto&#8230; Resto com o qual tamb\u00e9m tecemos, nem mais nem menos, aquilo que nos define. Um modo de sermos nomeados pelo outro, de onde cai essa pe\u00e7a indiz\u00edvel como produto do que eu chamaria a opera\u00e7\u00e3o do familiar sobre cada um.\u00a0<em>O n\u00e3o familiar<\/em>, que tamb\u00e9m opera como esse lugar no qual n\u00e3o podemos nos reconhecer a partir dos bras\u00f5es que v\u00eam do outro, desde essas marcas que v\u00eam do outro familiar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas vamos por partes, porque estou lhes contando o final desse percurso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 mesmo Jacques-Alain Miller \u2013 na mesma linha de Laurent \u2013, em seu artigo \u201cEm dire\u00e7\u00e3o \u00e0 adolesc\u00eancia&#8221;, disse que<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\">A incid\u00eancia do mundo virtual [&#8230;] faz com que o saber, antes depositado nos adultos, esses seres falantes que eram os educadores, incluindo a\u00ed os pais \u2013 era necess\u00e1ria a media\u00e7\u00e3o deles para aceder ao saber \u2013, esteja agora automaticamente dispon\u00edvel mediante uma simples demanda formulada \u00e0 m\u00e1quina. O saber est\u00e1 no bolso, n\u00e3o \u00e9 mais o objeto do Outro. [E isso me parece fundamental para o tema que me propuseram para esta atividade.] Antes, o saber era um objeto que era preciso buscar no campo do Outro, era preciso extra\u00ed-lo do Outro pelas vias da sedu\u00e7\u00e3o, da obedi\u00eancia ou da exig\u00eancia, o que exigia que se passasse por uma estrat\u00e9gia com o desejo do Outro. (MILLER, 2015, p. 24.)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Poder\u00edamos dizer que este \u00e9 um outro modo de definir a decad\u00eancia do patriarcado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A internet \u00e9 povoada por manuais que sempre tentam, sem sucesso, e \u00e0s vezes at\u00e9 com consequ\u00eancias dram\u00e1ticas, funcionar como o Outro que define a maneira de ser homem ou mulher, de adquirir algum tipo de identidade, \u00e0s vezes baseada em ideais, mas muitas vezes tamb\u00e9m em gozos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voc\u00eas podem ver um exemplo no WikiHow, uma p\u00e1gina na qual existem diferentes manuais para adolescentes, eu apenas listo alguns:\u00a0<em>\u00a0Como agir de forma inteligente frente aos seus amigos, Como aparentar ser meiga, Como beijar um rapaz, Como pegar na m\u00e3o pela primeira vez<\/em>\u00a0(apenas para meninas),<em>\u00a0Como conseguir um namorado no ensino m\u00e9dio, Como flertar com os olhos,\u00a0 Como saber se uma garota gosta de voc\u00ea, Como abra\u00e7ar seu namorado\/namorada pela primeira vez, Como agir como uma adolescente normal, Como agir quando o cara que voc\u00ea gosta est\u00e1 por perto, Como ser uma garota perfeita<\/em>, ou at\u00e9 mesmo\u00a0<em>Como ser uma garota m\u00e1<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pois bem, os manuais, os protocolos, os costumes \u2013 mas tamb\u00e9m o \u00c9dipo como trama \u2013 v\u00eam tentar preencher esse furo que Lacan definiu com a frase:\u00a0<em>n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o que isso significa? Significa que o que faz obje\u00e7\u00e3o ao pleno dizer \u00e9 o mesmo que se op\u00f5e ao encontro harm\u00f4nico entre os sexos e prov\u00e9m da captura do ser humano na linguagem, do car\u00e1ter do inconsciente estruturado como linguagem. \u00c9 uma outra forma de enunciar a castra\u00e7\u00e3o freudiana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas sigamos com o nosso tema. Um famoso slogan dizia: \u201cPertencer tem seus privil\u00e9gios\u201d: a uma fam\u00edlia, a um grupo, a uma tribo, a uma fraternidade, a uma escola&#8230; e um longo etcetera, o que conduz ao ponto do primado do Outro do lado do amor e, por conseguinte, aos assuntos de fam\u00edlia. Pois bem, hoje em dia, em muitos casos, esse gosto pelos privil\u00e9gios que advinham do pertencimento foi perdido? J\u00e1 que isso que interpela como sendo o estranho\/o diferente, que retira da s\u00e9rie e reenvia a um lugar Outro que aquele da cena familiar, parece ser o que rege hoje a vida dos sujeitos. Qual seria a nossa pr\u00e1tica nesses casos? Todas essas s\u00e3o perguntas pertinentes aos tempos em que vivemos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra perspectiva que aponta para o mesmo: em nosso tempo, a paternidade foi substitu\u00edda pelas chamadas parentalidades, que n\u00e3o \u00e9 mais do que um outro nome para o concebido mal-entendido dos sexos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desse modo, o planejamento familiar hoje responde ao leg\u00edtimo direito ao gozo, pelo qual o sujeito contempor\u00e2neo defende seu direito de ter e formar uma fam\u00edlia segundo as suas condi\u00e7\u00f5es de gozo. Em suma, a conforma\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia continua respondendo \u00e0 deriva do sintoma como maneira de responder \u00e0 inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual para cada um. Portanto, longe de uma leitura conservadora dessas mudan\u00e7as na estrutura familiar, devemos pensar em suas consequ\u00eancias sobre os sujeitos e na cl\u00ednica que a acompanha. \u00c9 onde est\u00e1 a psican\u00e1lise. \u00c9 a de seguir pensando a resposta do sujeito como um modo de lidar com o mal-entendido entre os sexos, enfim, com a aus\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual. E, nesse sentido, orientar-se em dire\u00e7\u00e3o ao real da fam\u00edlia, \u00e9 colocar \u2013 frente ao mal-entendido dos sexos \u2013 o sintoma\u00a0<em>como supl\u00eancia da n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual<\/em>. E, nessa linha, o \u00c9dipo n\u00e3o seria mais que um sintoma do sujeito. Seria sua maneira de fazer com esse mal-entendido e com o gozo, com aquele\u00a0<em>hetero<\/em>\u00a0que aparece e n\u00e3o \u00e9 dialetiz\u00e1vel, que n\u00e3o entra em nenhuma forma de troca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como aludi anteriormente, passamos da autoridade paterna para a autoridade parental. E o que emerge dessa modifica\u00e7\u00e3o \u00e9 a parentalidade que, sem d\u00favida, teve consequ\u00eancias no modo de constitui\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A parentalidade repousa sobre a exclus\u00e3o de toda combina\u00e7\u00e3o ou complementaridade de fun\u00e7\u00f5es, implicando em uma simetria e uma igualdade entre o pai e a m\u00e3e no que diz respeito \u00e0 ordem familiar. Dessa forma, a fam\u00edlia vem substituir o pai e a m\u00e3e. E o termo\u00a0<em>parentalidade\u00a0<\/em>vem para substituir o termo\u00a0<em>fam\u00edlia<\/em>. E tamb\u00e9m o do parentesco. Ele adv\u00e9m da mudan\u00e7a de autoridade no n\u00facleo da fam\u00edlia no marco da lei.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 pouco tempo, a lei argentina substituiu o conceito de\u00a0<em>patria potestad<\/em><sup><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/o-objeto-a-como-bussola#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a><\/sup>\u00a0pelo de<em>\u00a0responsabilidade parental<\/em>. A palavra\u00a0<em>potestad<\/em>\u00a0se conecta com o poder que evoca a\u00a0<em>potestad<\/em>\u00a0do direito romano, centrado na ideia da depend\u00eancia absoluta da crian\u00e7a em uma estrutura familiar hier\u00e1rquica, enquanto a\u00a0<em>responsabilidade<\/em>\u00a0\u201cimplica o exerc\u00edcio de uma fun\u00e7\u00e3o encabe\u00e7ada por ambos os progenitores, que se manifesta num conjunto de faculdades e deveres destinados, primordialmente, a satisfazer o superior interesse da crian\u00e7a ou do adolescente\u201d. (Isso na terminologia jur\u00eddica, \u00e9 claro.)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parentalidades? Claramente se trata de um neologismo cunhado h\u00e1 pouco tempo e destacado por M.-H. Brousse em 2005, que d\u00e1 conta da manifesta\u00e7\u00e3o dos efeitos sobre a ordem familiar produzidos pela muta\u00e7\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o, assinalada por Lacan a partir dos anos 70.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes se falava em guarda, agora em\u00a0<em>dever de assist\u00eancia<\/em>, e isso era decidido pelos pais com a concord\u00e2ncia de um juiz. Agora, dependendo da idade da crian\u00e7a, ela pode pedir para falar com o juiz e ter o direito de expor os seus desejos. E \u00e9 interessante o que essa mudan\u00e7a de paradigma produz no \u00e2mbito do n\u00facleo familiar. Enquanto o \u00c9dipo, baseado na autoridade do pai, marcava uma rela\u00e7\u00e3o que consistia na pregn\u00e2ncia de uma lei velando a aus\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual, a parentalidade produz uma equival\u00eancia entre m\u00e3e e pai. Mas nesse apagamento da diferen\u00e7a pai\/m\u00e3e e, por conseguinte, de suas fun\u00e7\u00f5es, vemos tamb\u00e9m que a diferen\u00e7a homem\/mulher tamb\u00e9m \u00e9 afetada, assim como todo o sistema de parentesco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ser falado pela fam\u00edlia, pelo desejo do Outro, fazer parte de um discurso familiar, \u00e9 uma tentativa de dar sentido ao segredo sobre o gozo que os une, \u00e9 cernir o real tratado por esse discurso e se encontrar com a estrutura ficcional de toda verdade. Em suma, toda fam\u00edlia \u00e9 um aparato de gozo, uma forma de salvaguardar o segredo do gozo como indiz\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ressaltemos tamb\u00e9m que o ensino de Lacan desfamiliarizou a\u00a0<em>doxa<\/em>\u00a0freudiana do \u00c9dipo, desalojando a met\u00e1fora paterna para, assim, afastar-se do mito e da determina\u00e7\u00e3o do destino, orientando nossa cl\u00ednica para al\u00e9m de \u00c9dipo. O ponto central de seu ensino foi o de localizar o gozo e orientar-se para Um real que as fic\u00e7\u00f5es do mito e da lei do pai para todos pretendiam cobrir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A quest\u00e3o \u00e9 que justamente o que uma an\u00e1lise propunha como desfamiliariza\u00e7\u00e3o, uma cl\u00ednica mais al\u00e9m do gozo como separa\u00e7\u00e3o dos significantes que v\u00eam do Outro, hoje vemos isso em ato no social, de modo que talvez pud\u00e9ssemos dizer que os sujeitos chegam ao consult\u00f3rio desfamiliarizados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir do \u00faltimo ensino de Lacan, somos alertados para uma teoria que poder\u00edamos chamar de p\u00f3s-ed\u00edpica do inconsciente, que separa o modo de gozo do sujeito e do Outro, da fun\u00e7\u00e3o paterna.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 em 1970, nas Jornadas da Escola Freudiana de Paris, Lacan sustenta o decl\u00ednio do pai e desenvolve as suas consequ\u00eancias, que n\u00e3o s\u00e3o poucas. Poder\u00edamos defini-la como uma ordem de vizinhan\u00e7a, que vem romper com aquela ordem hier\u00e1rquica que implicava a autoridade \u00fanica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele postula a fragmenta\u00e7\u00e3o do Nome-do-Pai (um multiculturalismo que empuxa para modos segregativos de gozo) e, em 1974, o associa a extens\u00e3o do dom\u00ednio do real produzido pela ci\u00eancia ao desenvolvimento do poder da religi\u00e3o, um poder que n\u00e3o \u00e9 o mesmo de antes, uma vez que se tornou a religi\u00e3o dos irm\u00e3os e n\u00e3o do Pai, produzindo-se, assim, o que Brousse chama de \u201cmultirreligiosismo\u201d. O Isl\u00e3 \u00e9 o contraexemplo disso, e assim Miller diz em seu texto \u201cEm dire\u00e7\u00e3o \u00e0 adolesc\u00eancia\u201d: \u201cO Isl\u00e3 talvez seja o discurso que tem melhor em conta que a sexualidade faz um furo no real, que coagula a rela\u00e7\u00e3o sexual e que organiza o la\u00e7o social na n\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o\u201d (MILLER, 2016, p 27.). \u00c9 aquele discurso que diz exatamente o que \u00e9 ser mulher, homem, m\u00e3e, etc. Ou seja, no Isl\u00e3 n\u00e3o h\u00e1 lugar algum para o mal-entendido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 diferen\u00e7a da for\u00e7a que tem a identifica\u00e7\u00e3o com um S1, \u00e0 maneira do Isl\u00e3, na modernidade as ins\u00edgnias s\u00e3o et\u00e9reas. E assim esse neologismo das parentalidades descreve uma modifica\u00e7\u00e3o no la\u00e7o social contempor\u00e2neo que se sobrep\u00f5e \u00e0 fam\u00edlia, referindo, de alguma maneira, a um sonho de universalismo e \u00e0 fragmenta\u00e7\u00e3o do Nome-do-Pai. A parentalidade implica que o pai seja substitu\u00eddo pelos pares, e a monoparentalidade ou co-parentalidade prov\u00e9m desse princ\u00edpio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas saibamos que a previs\u00e3o de Lacan sobre a ascens\u00e3o da segrega\u00e7\u00e3o \u00e9 correlativa a esse apagamento da diferen\u00e7a em favor da semelhan\u00e7a: os mesmos com os mesmos. Deste modo, podemos dizer que \u00e9 a fam\u00edlia que vem substituir o pai e a m\u00e3e, apagando o resto real que assegurava a diferen\u00e7a. Assim, se confia \u00e0 ci\u00eancia o real da reprodu\u00e7\u00e3o, separada do simb\u00f3lico da filia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A parentalidade \u00e9 o nome que vem deslocar os significantes anteriores de autoridade, tal como eles se desprendiam de um sistema de parentesco fundado na diferen\u00e7a dos sexos e no interc\u00e2mbio de mulheres. Dessa forma, podemos considerar a parentalidade como um sintoma que surge da modifica\u00e7\u00e3o desse sistema.<em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, o segredo que cobre a estrutura familiar, seja homossexual ou heterossexual, monoparental ou n\u00e3o, \u00e9 o de velar sempre o\u00a0<em>hetero<\/em>\u00a0do gozo feminino, o gozo do Outro que habita em cada unidade familiar. Todas essas formas que hoje chamamos de parentalidades s\u00e3o forma\u00e7\u00f5es familiares que se ordenam em torno desse gozo como\u00a0<em>hetero<\/em>, como heterog\u00eaneo a qualquer ordena\u00e7\u00e3o governada pelo significante do Nome-do-Pai.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seguindo Bassols (2016, s\/p), cito: \u201cse a fam\u00edlia tentava ordenar o real do gozo, o real do gozo reordena hoje a fam\u00edlia, e isso em formas t\u00e3o d\u00edspares como equivalentes entre si\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse segredo do gozo \u00e9 o umbigo do real em torno do qual giram as novas forma\u00e7\u00f5es familiares com todas as suas m\u00faltiplas varia\u00e7\u00f5es, fazendo-se e desfazendo-se em fun\u00e7\u00e3o das formas cada vez mais singulares de gozo sintom\u00e1tico. Ent\u00e3o, podemos definir a fam\u00edlia como o resultado de um mal-entendido entre os gozos, ou um mal-entendido entre os sexos, diante do qual o sintoma se coloca como supl\u00eancia da n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual. E \u00e9 assim que a instabilidade nos v\u00ednculos familiares de hoje segue a l\u00f3gica de uma equival\u00eancia entre significantes mestres que s\u00e3o trocados segundo as condi\u00e7\u00f5es de gozo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, h\u00e1 outra faceta dessa parentalidade: ela gira em torno da crian\u00e7a como objeto fundamental, definindo a nova fam\u00edlia. Uma parentalidade como sintoma, que se imp\u00f4s nas sociedades modernas, tendo a crian\u00e7a em seu centro como objeto, o que configura outro sintoma da \u00e9poca. O abuso, devido ao qual decorre essa atenta vigil\u00e2ncia em nossa \u00e9poca, pois, mais do que nunca, \u00e9 necess\u00e1rio reafirmar o tempo todo a crian\u00e7a como sujeito, frente a esse empuxo de tom\u00e1-los como meros objetos de troca, em uma encarna\u00e7\u00e3o do objeto\u00a0<em>a<\/em>, e, por conseguinte, tomados pela puls\u00e3o em seu estado puro, com suas consequ\u00eancias no corpo. Um objeto apaixonadamente desejado e rejeitado ao mesmo tempo, disse Laurent (2010) em \u201cA crian\u00e7a como real do del\u00edrio familiar\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na \u00e9poca do sujeito \u201cfamiliarizado\u201d (e digo isso um pouco comicamente), diz\u00edamos que o sujeito consultava um analista quando a determina\u00e7\u00e3o significante falhava, furava. Nessa diferen\u00e7a entre o dever ser (em geral atormentado por Ideais que vem do Outro) e o que se \u00e9. Bem, qual seria a diferen\u00e7a nessa \u00e9poca do imagin\u00e1rio desenfreado? \u00c0s vezes simplesmente se trata de desembara\u00e7ar-se dele. \u00c9ric Laurent disse muito bem:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\">\u201cDiante da falha nos semblantes, que se aprofunda, um duplo desejo vem \u00e0 luz, de acordo com a lei de ferro do superego. De um lado, um chamado invasivo \u00e0 seguran\u00e7a e seu corol\u00e1rio: a instala\u00e7\u00e3o de uma sociedade de vigil\u00e2ncia com seu pan\u00f3ptico maluco. De outro, o fasc\u00ednio de viver como uma m\u00e1quina finalmente liberta dos semblantes.\u201d (LAURENT, 2012, p. 58)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 o que Miller havia dito sobre a palavra do pai que adoece, que o pai \u00e9 traum\u00e1tico. E aqui se abre uma nova perspectiva para a \u00e9poca. O espectro de respostas \u00e9 variado \u00e9 vai desde a viol\u00eancia desencadeada at\u00e9 a cria\u00e7\u00e3o de novas formas de exist\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vejamos um exemplo. Sacha, um jovem de S\u00e3o Francisco, busca desembara\u00e7ar-se disso que vem do Outro em uma nova maneira de se vestir: saia de mulher e camisa de homem. N\u00e3o buscava provocar, sen\u00e3o mostrar que n\u00e3o se identifica nem com o sexo feminino nem com o masculino, e assegurava n\u00e3o pertencer a nenhuma condi\u00e7\u00e3o sexual. S\u00e3o v\u00e1rios os que o seguem, e um deles define sua posi\u00e7\u00e3o do seguinte modo: \u201cN\u00e3o bin\u00e1rios em um mundo bin\u00e1rio\u201d. O que destacam \u00e9 \u201cpoder tomar decis\u00f5es no seu dia a dia sem se sentirem deslocados\u201d. Que o mundo\u00a0<em>n\u00e3o se divida em \u201cpara meninos\u201d ou \u201cpara meninas\u201d<\/em>, mas que haja um leque mais amplo de possibilidades. Ou como escreve um deles: \u201cbonecas s\u00e3o para meninas, caminh\u00f5es s\u00e3o para meninos, quebra-cabe\u00e7as s\u00e3o neutros&#8230; Meu g\u00eanero \u00e9 um\u00a0<em>puzzle<\/em>\u201d.<sup><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/o-objeto-a-como-bussola#_edn3\" name=\"_ednref3\">[4]<\/a><\/sup><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa identidade\u00a0<em>puzzle<\/em>\u00a0\u00e9 o ajustamento, com a ajuda do discurso da ci\u00eancia, do homem \u201cliberado\u201d dos semblantes. Mas que, muitas vezes, se constitui tamb\u00e9m como um fantasma, na medida em que regularia o mal-estar na rela\u00e7\u00e3o sexual como uma nova forma de normativiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse sentido, \u00e9 interessante o que formula Paula Sibila em seu livro\u00a0<em>La intimidad como espect\u00e1culo<\/em>, em que diz que h\u00e1 uma permanente incita\u00e7\u00e3o \u00e0 criatividade pessoal, \u00e0 excentricidade e \u00e0 busca de diferen\u00e7as, que, sem d\u00favida, n\u00e3o cessa de produzir c\u00f3pias descart\u00e1veis do mesmo. Uma capacidade de cria\u00e7\u00e3o que se v\u00ea sempre capturada sistematicamente pelos tent\u00e1culos do mercado, desativando permanentemente essa inven\u00e7\u00e3o. Uma \u00e9poca em que qualquer demanda vinda do Outro, aparece como uma exig\u00eancia tir\u00e2nica que nem sempre \u00e9 respondida da melhor maneira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Disso tamb\u00e9m d\u00e3o conta os novos\u00a0<em>libert\u00e1rios<\/em>, um extremo liberalismo baseado na ideia de uma liberdade sem v\u00ednculos com o outro, inclusive sem responsabilidade social e recha\u00e7ando a pol\u00edtica, muito distante do liberalismo que se baseava nas liberdades individuais e que foi a pedra fundamental para a queda dos absolutismos, constituindo\u00a0<a href=\"https:\/\/humanidades.com\/buen-ciudadano\/\">cidad\u00e3os<\/a>\u00a0com direito a uma autoridade pol\u00edtica por consenso. Pois bem, hoje muitos jovens na Argentina se dizem libert\u00e1rios, e, inclusive, um de seus l\u00edderes chega a propor a venda gratuita de \u00f3rg\u00e3os (\u201cCada um \u00e9 dono do seu corpo\u201d).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, seu outro lado \u00e9 que o sujeito deve ser deixado \u201clivre\u201d em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s suas conting\u00eancias, de modo que o que eles prop\u00f5em \u00e9 um pa\u00eds sem Estado, cada um por sua conta e risco. Ou seja, algo da ordem de um mundo sem Outro em uma meritocracia levada ao extremo. Um deserto do real. \u00c0s vezes, inclusive, conduz a uma viol\u00eancia de tom reivindicativo que n\u00e3o chega a tomar a forma de um chamado ao Outro, mas como uma den\u00fancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seria realmente muito simples se houvesse uma for\u00e7a exterior que nos oprimisse, fam\u00edlia, \u00c9dipo, etc., e que, libertando-nos dela, acessar\u00edamos a um outro estatuto de exist\u00eancia. \u00c9 uma ideia determinista distante do que a psican\u00e1lise sustenta, pois por mais determinados que sejamos por nossa hist\u00f3ria, regras de fam\u00edlia, \u00c9dipo, constru\u00e7\u00e3o fantasm\u00e1tica, etc., sempre estar\u00e1 em jogo algo que est\u00e1 mais al\u00e9m das determina\u00e7\u00f5es e que \u00e9 a escolha contingente por parte do sujeito a partir de um elemento que n\u00e3o \u00e9 feito para dominar, comandar, submeter, mas para causar o desejo: o que Lacan chamou de objeto\u00a0<em>a<\/em>, que obstrui toda ordem e norma. O objeto\u00a0<em>a<\/em>\u00a0com<em>o<\/em>\u00a0causa, esse obscuro objeto do desejo, uma parte do corpo que foi cedida ao campo do Outro e que faz furo. Uma falta com a qual desejamos. Uma cess\u00e3o ao Outro que depois iremos buscar, justamente, no campo do Outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9, sem d\u00favida, a \u00fanica aposta poss\u00edvel na cl\u00ednica desse del\u00edrio generalizado, desse imagin\u00e1rio desenfreado: construir um novo la\u00e7o que aloje aquilo que se apresenta como heterog\u00eaneo a esse mesmo la\u00e7o, em uma \u00e9poca na qual o sujeito se v\u00ea obrigado a se tornar o inventor de seu pr\u00f3prio modo de ser e estar no mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para terminar, e seguindo Laurent, trata-se de propor, a partir de nossa cl\u00ednica, uma reconfigura\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias em torno daquele objeto\u00a0<em>a\u00a0<\/em>que descompleta, que n\u00e3o tem nada de universal, que \u00e9 sempre\u00a0<em>hetero<\/em>\u00a0e propor uma nova forma de abordagem do sintoma, diferente daquela cl\u00ednica que despatologiza o sujeito ancorando-o nos estilos de vida, sintagma com o qual J.-A. Miller l\u00ea um tra\u00e7o da \u00e9poca; essas formas diversas, mas tamb\u00e9m unificadoras, com os quais se apresentam os estilos de vida atuais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Menos do que um mundo de desejo, este \u00e9 o mundo do gozo, uma disjun\u00e7\u00e3o que implica um empuxo para entender as muta\u00e7\u00f5es e multiplica\u00e7\u00e3o de desorienta\u00e7\u00f5es e estilos de vida, levando a graves fundamentalismos ou explos\u00f5es de viol\u00eancia, bem como ao chamado desencadeamento da quest\u00e3o de g\u00eanero.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong>Tradu\u00e7\u00e3o:<\/strong>\u00a0Patr\u00edcia Ribeiro<br \/>\n<strong>Revis\u00e3o:<\/strong>\u00a0Maria Rita Guimar\u00e3es<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">BASSOLS, M. Famulus.\u00a0\u00a0<em>Lacan XXI \u2013 Revista FAPOL Online<\/em>, ago. 2016. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/www.lacan21.com\/sitio\/famulus\/?lang=pt-br\">https:\/\/www.lacan21.com\/sitio\/famulus\/?lang=pt-br<\/a>&gt;. Acesso em: 13 jul. 2023.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">LACAN, J.\u00a0<em>O Semin\u00e1rio, livro 11<\/em>: Os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1988. (Trabalho original proferido em 1964).<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">LAURENT, \u00c9. Responder al ni\u00f1o de ma\u00f1ana.\u00a0<em>Carretel \u2013 Revista de la Diagonal Hispanohablante<\/em>, Nueva Red Cereda, n. 4, 2001.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">LAURENT, \u00c9. A crian\u00e7a como real do del\u00edrio familiar. In: KUPERWAJS, I. (org.).\u00a0<em>Psican\u00e1lise com crian\u00e7as 3. Tramar lo singular<\/em>. Grama Ediciones: Buenos Aires, 2010.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">LAURENT, \u00c9. A ordem simb\u00f3lica no s\u00e9culo XXI: consequ\u00eancias para a cura.\u00a0<em>Revista Lacaniana de Psicoan\u00e1lisis<\/em>, n. 12, 2012.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">MILLER, J.-A. Em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 adolesc\u00eancia.\u00a0<em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana: Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise<\/em>, n. 72, mar. 2016.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">MILLER, J.-A. Todo el mundo es loco.\u00a0<em>Revista Lacaniana de Psicoan\u00e1lisis<\/em>, n. 32, 2022.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/o-objeto-a-como-bussola#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a>\u00a0Texto apresentado no N\u00facleo de Pesquisa e Investiga\u00e7\u00e3o em Psican\u00e1lise e Direito do IPSM-MG, em 02 de junho de 2023.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/o-objeto-a-como-bussola#_ednref1\" name=\"_edn1\">[2]<\/a>\u00a0DSM:\u00a0<em>Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders<\/em>, ou\u00a0<em>Manual Diagn\u00f3stico e Estat\u00edstico de Transtornos Mentais<\/em>\u00a0na edi\u00e7\u00e3o em portugu\u00eas.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/o-objeto-a-como-bussola#_ednref2\" name=\"_edn2\">[3]<\/a>\u00a0<em>Patria potestad<\/em>, ou, conforme o direito brasileiro, \u00a0\u201c<em>p\u00e1tria potestade\u201d<\/em>,\u00a0\u00e9 um instituto jur\u00eddico\u00a0<a href=\"https:\/\/es.wikipedia.org\/wiki\/Emancipaci%C3%B3n\">origin\u00e1rio\u00a0<\/a><a href=\"https:\/\/es.wikipedia.org\/wiki\/Derecho\">da\u00a0<\/a><a href=\"https:\/\/es.wikipedia.org\/wiki\/Antigua_Roma\">Roma<\/a>\u00a0Antiga\u00a0e adotado por alguns pa\u00edses, com diferentes abrang\u00eancias, para regular as rela\u00e7\u00f5es entre o genitor ou genitores com seus\u00a0<a href=\"https:\/\/es.wikipedia.org\/wiki\/Hijo\">filhos<\/a>\u00a0n\u00e3o emancipados.\u00a0(PATRIA postestad. Dispon\u00edvel em: \u00a0&lt;https:\/\/es.wikipedia.org\/wiki\/Patria_potestad&gt;. Acesso em: 13 jul. 2023.)<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/o-objeto-a-como-bussola#_ednref3\" name=\"_edn3\">[4]<\/a>\u00a0N.T.: Quebra-cabe\u00e7a.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alejandra Glaze Psicanalista Membro da Escuela de Orientaci\u00f3n Lacaniana\/AMP aglaze@gramaediciones.com.ar Resumo:\u00a0\u00a0Em sua investiga\u00e7\u00e3o sobre a particularidade dos del\u00edrios familiares atuais, a autora toma como ponta de partida a localiza\u00e7\u00e3o de um del\u00edrio ligado a um imagin\u00e1rio desenfreado que, por essa raz\u00e3o mesmo, \u00e9 profundamente uniformizante e invasivo para a crian\u00e7a. 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