{"id":1963,"date":"2022-07-19T06:41:42","date_gmt":"2022-07-19T09:41:42","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1963"},"modified":"2025-12-01T13:11:12","modified_gmt":"2025-12-01T16:11:12","slug":"o-discurso-como-saida-do-capitalismo1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2022\/07\/19\/o-discurso-como-saida-do-capitalismo1\/","title":{"rendered":"O DISCURSO COMO SA\u00cdDA DO CAPITALISMO[1]\u00a0"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 style=\"text-align: left;\">PHILIPPE LA SAGNA<br \/>\nPsicanalista, \u00a0A.M.E. da ECF\/AMP<br \/>\n<a href=\"mailto:plasagna@free.fr\">plasagna@free.fr<\/a><\/h6>\n<blockquote><p><strong>Resumo<\/strong>: Lacan aponta uma afinidade entre o discurso capitalista e o discurso da ci\u00eancia, no qual o desenvolvimento do primeiro acompanha o segundo. Nessa alian\u00e7a, a verdade passa a ficar envolta em brumas e o saber vira um objeto de mercado. O discurso capitalista se apresenta sob a \u00e9gide do consuma-se e deixe-se consumir, sempre com um mais-de-gozo que se imp\u00f5e ao sujeito contempor\u00e2neo. O discurso anal\u00edtico tem a possibilidade de desvendar a maquinaria do mais-de-gozar e, ao fazer do objeto\u00a0<em>a<\/em>\u00a0causa de desejo, arejar os efeitos do mais-de-gozar.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: mais-de-gozar; mais-valia; mercado; discurso.<\/p>\n<p><strong>Discourse as a way out of capitalism<\/strong><\/p>\n<p><strong>Abstract:\u00a0<\/strong>Lacan points out that there is an approximation between the capitalist discourse and the discourse of science, where the development of the first follows the second. In this alliance, truth becomes surrounded by mist and knowledge becomes a market object. The capitalist discourse is presented under the mandate of consume and get consumed, always with a surplus jouissance that is imposed to the contemporary subject. The analytical discourse presents the possibility to unveil the machinery of the surplus jouissance, and freshen its effects by making the object\u00a0<em>a\u00a0<\/em>the cause of desire.<\/p>\n<p><strong>Keywords:\u00a0<\/strong>surplus jouissance; surplus value; market; discourse.<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_1964\" style=\"width: 1090px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Fred_Bandeira.jpg\" data-dt-img-description=\"Imagem: Fred Bandeira\" data-large_image_width=\"1080\" data-large_image_height=\"1349\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1964\" class=\" wp-image-1964\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Fred_Bandeira-820x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"515\" height=\"643\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1964\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Fred Bandeira<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><em>\u201cA crise consiste justamente no fato de que o antigo morre<\/em><br \/>\n<em>e que o novo n\u00e3o pode nascer: durante esse intervalo<\/em><br \/>\n<em>os mais variados fen\u00f4menos m\u00f3rbidos s\u00e3o observados.\u201d<\/em><br \/>\n<em>Antonio Gramsci,\u00a0Cadernos do c\u00e1rcere<\/em><\/p>\n<p><em>Do capitalismo de produ\u00e7\u00e3o ao discurso capitalista<strong>\u00a0<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Muito cedo, Lacan foi um leitor de\u00a0<em>O capital<\/em>, de Karl Marx. Mas ele soube tornar essa leitura \u00fatil ao longo de toda a elabora\u00e7\u00e3o de seu pensamento. Em seu\u00a0<em>Semin\u00e1rio 18<\/em>, Lacan explica como ele utilizou o \u201cgod\u00ea da mais-valia\u201d (LACAN, 1971\/2003, p. 46) para despejar nele a rela\u00e7\u00e3o de objeto de Freud. Essa homenagem a Marx \u00e9 amb\u00edgua: se ela n\u00e3o apaga a mais-valia, ela a torna um pouco antiquada ao apresentar a categoria do\u00a0<em>mais-de-gozar<\/em>. Hoje, a mais-valia, no sentido de Marx, n\u00e3o \u00e9 mais o que era. A direita liberal a considera uma no\u00e7\u00e3o obsoleta e pouco cient\u00edfica. Curiosamente, uma parte crescente da extrema-esquerda questiona a tese cl\u00e1ssica segundo a qual a apropria\u00e7\u00e3o da mais-valia representa o alfa e o \u00f4mega da for\u00e7a da explora\u00e7\u00e3o do homem pelo homem. Se considerarmos que essa explora\u00e7\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m a das mulheres ou dos colonizados, o economismo subjacente \u00e0 teoria da mais-valia marxista vacila. A constru\u00e7\u00e3o te\u00f3rica da mais-valia deve distinguir o trabalho e a for\u00e7a de trabalho e pensar esta \u00faltima atrav\u00e9s da no\u00e7\u00e3o de um trabalho abstrato. O valor do trabalho, agora abstrato, poderia ser mercantilizado sem problema algum. Mas, se Lacan, em 1968, retomou seu debate com Marx, foi tamb\u00e9m no contexto do debate entre Sartre e L\u00e9vi-Strauss sobre a a\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria e da cultura. Em 20 de novembro de 1968, durante uma sess\u00e3o de semin\u00e1rio, Lacan postula que a ideia de Marx de trabalho abstrato, necess\u00e1ria \u00e0 teoria de mais-valia, passa pela \u201cabsolutiza\u00e7\u00e3o\u201d do valor trabalho, o que n\u00e3o pode ser pensado sem um \u201cdesenvolvimento de certos efeitos de linguagem\u201d, ao qual ele acrescenta: \u201ce foi por isso que introduzimos o mais-de-gozar\u201d (LACAN, 1968-1969\/2008, p. 37). Trata-se, portanto, de pensar o capitalismo como um discurso \u2014 para aquele que dir\u00e1 \u201ceu\u201d para expressar sua frustra\u00e7\u00e3o de \u201csujeito\u201d, assujeitado, do discurso capitalista.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mercado do trabalho\/mercado do saber<\/em><\/p>\n<p>Esse discurso capitalista sup\u00f5e uma afinidade com o discurso da ci\u00eancia. O desenvolvimento do primeiro acompanha o segundo. Pouco antes, em seu texto \u201cA ci\u00eancia e a verdade\u201d, Lacan havia afirmado que a ci\u00eancia se especifica por nunca querer conhecer a verdade como uma causa. Do lado da verdade, o proletariado encarna a verdade do sistema capitalista e \u00e9 para os marxistas o instrumento de sua subvers\u00e3o e da sa\u00edda do discurso capitalista. Ora, a modernidade permitiu verificar a dificuldade que constitui o fato de que essa a\u00e7\u00e3o louv\u00e1vel sup\u00f5e uma consci\u00eancia de classe que, como mostra a hist\u00f3ria, muitas vezes n\u00e3o existe. O proletariado moderno n\u00e3o hesita em adotar os ares do narcisismo ego\u00edsta da sociedade dos indiv\u00edduos, ele sabe como oprimir sua \u201cburguesia\u201d e rejeitar, ou mesmo explorar, o colonizado; o que coloca a fun\u00e7\u00e3o despercebida da cultura na luta de classes, identificada por Gramsci.<\/p>\n<p>Lacan observa, portanto, a fun\u00e7\u00e3o despercebida por uma parte na quest\u00e3o social do saber. A novidade, para Lacan, no final dos anos sessenta, \u00e9 que o saber tem um pre\u00e7o, h\u00e1 um \u201cmercado do saber\u201d. Para Lacan, esse pre\u00e7o vem pagar uma perda: \u201ca ren\u00fancia ao gozo\u201d (LACAN, 1968-1969\/2008, p. 39), aquela que justamente sup\u00f5e o trabalho. Na \u00e9poca, Lacan vai chocar o audit\u00f3rio ao colocar que o saber n\u00e3o precisa necessariamente do trabalho para exercer seu papel no gozo! \u201cN\u00e3o \u00e9 pelo fato de o trabalho implicar na ren\u00fancia ao gozo que toda ren\u00fancia ao gozo s\u00f3 se faz pelo trabalho\u201d (LACAN, 1968-1969\/2008, p. 39).<\/p>\n<p>O que \u00e9 novo, observa ent\u00e3o Lacan, \u00e9 que o saber se tornou uma mercadoria, como testemunha na \u00e9poca a crise da universidade. Podemos dizer que esse fen\u00f4meno, esse \u201cmercado do saber\u201d, assumiu uma dimens\u00e3o enorme hoje, na era dos\u00a0<em>big data<\/em>! Para Lacan, \u00e9 o efeito da ci\u00eancia ao reduzir todos os saberes a um \u00fanico mercado. Essa opera\u00e7\u00e3o, no entanto, deixa resto; h\u00e1 um saber que n\u00e3o \u00e9 pago e, portanto, obtido para nada. E a\u00ed est\u00e1 a fonte do mais-de-gozar no processo de produ\u00e7\u00e3o do saber. O mercado do saber, de um saber que serve ao gozo, produz o mais-de-gozar. Ele revela que, \u201cA partir do saber, percebe-se, enfim, que o gozo se ordena e pode se estabelecer como rebuscado e perverso\u201d (LACAN, 1968-1969\/2008, p. 40).<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><em>Coletiviza\u00e7\u00e3o da verdade<\/em><\/p>\n<p>O efeito do discurso capitalista no final do s\u00e9culo XX \u00e9, portanto, fazer deslizar o tratamento do gozo do mercado de trabalho para o gozo do mercado do saber. O que se perde nessa passagem, por causa da ci\u00eancia, \u00e9 a singularidade da verdade. Ela n\u00e3o fala mais \u201ceu\u201d. Lacan nos diz que ela se tornou \u201csocial m\u00e9dia, abstrata\u201d (LACAN, 1968-1969\/2008, p. 40). Em outros termos, ela fica suspensa no conformismo social da \u201cmultid\u00e3o solit\u00e1ria\u201d, t\u00e3o bem retratada por David Riesman. O reino do mais-de-gozar como efeito do mercado do saber anda de m\u00e3os dadas com essa \u201ccoletiviza\u00e7\u00e3o\u201d da verdade. Isso \u00e9 o que far\u00e1 Lacan dizer, a respeito da \u201ccomo\u00e7\u00e3o de maio\u201d, que a\u00ed est\u00e1 de fato a \u201cgreve da verdade\u201d (LACAN, 1968-1969\/2008, p. 41). H\u00e1 aqui um equ\u00edvoco sobre a verdade na greve: \u00e9 uma quest\u00e3o de defend\u00ea-la ou de imobiliz\u00e1-la?<\/p>\n<p>O que \u00e9 certo \u00e9 que perdemos o \u201ceu\u201d e que o grito do proletariado se perde como verdade que fala \u201ceu\u201d: 1968 ser\u00e1 um \u201cn\u00f3s\u201d no discurso! E depois teremos um \u201ctodos juntos!\u201d. A gera\u00e7\u00e3o Facebook vai levar essa coletiviza\u00e7\u00e3o da verdade a um est\u00e1gio superior, sob a forma da falsa verdade que n\u00e3o mente mais, por n\u00e3o ter chance de dizer a verdade! A internet \u00e9 o lugar da p\u00f3s-verdade e onde o \u201ceu\u201d que fala se apaga diante do sujeito que sou para os outros. Como mostrou Alain Supiot (2015) em seu livro<em>\u00a0La gouvernance par les nombres\u00a0<\/em>(<em>A governan\u00e7a pelos n\u00fameros<\/em>, em tradu\u00e7\u00e3o livre)<em>,\u00a0<\/em>isso vai bem com um retorno da fidelidade nas rela\u00e7\u00f5es sociais em detrimento da cidadania pol\u00edtica real. O Facebook \u00e9 o momento em que o \u201ceu\u201d se torna um \u201cele\u201d, aquele que sou para os outros, aos olhos dos outros. Lacan se diverte e sublinha que a greve \u201c\u00e9 justamente uma esp\u00e9cie de rela\u00e7\u00e3o que une o coletivo ao trabalho\u201d (LACAN, 1968-1969\/2008, p. 41). O sucesso da greve supre a crise do trabalho! A verdade coletiva \u00e9 tamb\u00e9m a estupidez das verdades que o Maio de 68 escreveu nos muros. Joseph Heath e Andrew Potter mostraram em seu livro\u00a0<em>R\u00e9volte consomm\u00e9e<\/em>\u00a0(<em>Revolta consumida<\/em>, em tradu\u00e7\u00e3o livre) que a contracultura produziu os estere\u00f3tipos do modo de gozar mercadol\u00f3gico contempor\u00e2neo: \u201cPara que algu\u00e9m suba na hierarquia do status ou do estiloso, ou do estilo, chame-o como quiserem, \u00e9 preciso que algum outro seja rebaixado um degrau\u201d (HEATH; POTTER, 2005, p. 408, tradu\u00e7\u00e3o nossa). Os novos meios de comunica\u00e7\u00e3o tornaram exponencial a estupidez da verdade. O \u00eaxtase contempor\u00e2neo n\u00e3o chegou bruscamente. Em seu \u00faltimo livro,\u00a0<em>Il faut dire que les temps ont chang\u00e9<\/em>\u00a0(<em>\u00c9 preciso dizer que os tempos mudaram<\/em>, em tradu\u00e7\u00e3o livre), Daniel Cohen (2018) assinala que, desde os anos cinquenta do \u00faltimo s\u00e9culo, Jean Fourasti\u00e9 anunciava que ir\u00edamos passar da sociedade de produ\u00e7\u00e3o, que sucedera o mundo agr\u00edcola, para se dedicar \u00e0 mat\u00e9ria \u2014 e n\u00e3o \u00e0 terra \u2014, a uma sociedade de forma\u00e7\u00e3o onde reinaria o mercado do saber!<\/p>\n<p>Essa reviravolta foi tamb\u00e9m a da \u201csociedade do culto de si mesmo\u201d e dos indiv\u00edduos isolados em uma forma\u00e7\u00e3o cont\u00ednua do ego. Vemos, portanto, que o capitalismo, antes de se tornar mais do que um mero discurso do capitalismo, j\u00e1 era, de alguma forma, uma \u201csa\u00edda\u201d do capitalismo de produ\u00e7\u00e3o material produzida pelo capitalismo. A crise sanit\u00e1ria atual nos mostra que essa muta\u00e7\u00e3o n\u00e3o apagou a produ\u00e7\u00e3o: ela a exportou para pa\u00edses supostamente menos avan\u00e7ados, como a China.<\/p>\n<p>Para o Lacan desta \u00e9poca nos livramos da verdade, esta que insistia na palavra do \u201ceu\u201d. Nesse mundo dos ditos e dos n\u00e3o ditos, o que vai ser raridade \u00e9 o dizer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Necessidade de um novo discurso<\/em><\/p>\n<p>Em um artigo escrito para o jornal\u00a0<em>Le Monde\u00a0<\/em>e nunca publicado<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/49-almanaque17\/452-discurso-saida-sagna#_edn1\" name=\"_ednref1\">[2]<\/a>, a respeito da reforma universit\u00e1ria, Lacan acentua a clivagem entre saber e trabalho. Ele postula ainda que o saber n\u00e3o precisa de nenhum trabalho! Ele distingue tamb\u00e9m o mais-de-gozar da mais-valia marxista para dizer que ele \u00e9 a causa, e n\u00e3o o efeito do mercado. No mundo do consumo, a press\u00e3o do mais-de-gozar \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia do mercado, \u00e9 a lei do consumismo. Se o mais-de-gozar fica confinado, o mercado desaparece&#8230;<\/p>\n<p>Acontece que, para Lacan, nesse mundo do saber dispon\u00edvel e do \u201ceu\u201d dif\u00edcil, o sujeito humano deve trabalhar para se identificar. O\u00a0<em>self<\/em>\u00a0\u00e9 um permanente canteiro de obras que sup\u00f5e fazer com que o saber contribua para construir uma identidade para o sujeito com o status social que lhe conv\u00e9m. Quando o discurso do mestre reinava, ele distribu\u00eda os lugares e, portanto, as identidades, mesmo a do proletariado! Hoje, \u00e9 o discurso capitalista e o mercado do saber que perderam a necessidade da castra\u00e7\u00e3o. Resta, portanto, tentar encontrar a dimens\u00e3o da castra\u00e7\u00e3o. O mais-de-gozar capitalista ignora o limite da castra\u00e7\u00e3o, e \u00e9 nisso que ele nos apreende e torna imposs\u00edvel o amor, j\u00e1 que o amor sup\u00f5e que o gozo consente com uma perda que \u00e9 constitutiva do desejo.<\/p>\n<p>Eva Illouz mostrou que, quando o amor se torna um mercado, a tend\u00eancia ao afastamento se torna muito mais forte do que o compromisso: \u201cO gozo se tornou o verdadeiro modo de desejo de uma sociedade de consumo onde os objetos, os afetos e a satisfa\u00e7\u00e3o sexual deslocam o centro moral do eu. Mas, no gozo, \u00e9 imposs\u00edvel encontrar ou constituir corretamente objetos de intera\u00e7\u00e3o, de amor e de solidariedade\u201d (ILLOUZ, 2020, p. 319, tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/p>\n<p>O mais-de-gozar \u00e9, no entanto, apenas um \u201cmais\u201d em rela\u00e7\u00e3o a uma perda de gozo, j\u00e1 que representa de algum modo a fr\u00e1gil contrapartida da perda de gozo que sup\u00f5e o saber que se torna somente \u201cmeio de gozo\u201d. Esse saber e o mais-de-gozar que o acompanha apagam, ent\u00e3o, da paisagem, o gozo que seria de uma outra natureza, que n\u00e3o a deles. O discurso capitalista ignora a castra\u00e7\u00e3o, assim como o discurso da ci\u00eancia ignora a verdade como causa. Nesse mercado, do saber que serve ao gozo, o problema ser\u00e1 ent\u00e3o de manter um desejo de saber. Lacan rapidamente identificou a aus\u00eancia do desejo de saber quando o mais-de-gozar satura o desejo, transformando-o em adi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Vemos que come\u00e7a a se desenhar a necessidade de um novo discurso que possa dar lugar, nessa paisagem, ao mesmo tempo \u00e0 castra\u00e7\u00e3o e \u00e0 verdade do desejo. Em particular, o discurso do Outro no feminino. A psican\u00e1lise, ou seja, o discurso anal\u00edtico, \u00e9 o que poder\u00e1 fazer surgir do amor de transfer\u00eancia um outro amor por um outro saber: o saber inconsciente. Um amor pelo que \u00e9 real nesse saber, real que escapa ao mercado.<\/p>\n<p>Em 1970, em seu semin\u00e1rio\u00a0<em>O avesso da psican\u00e1lise,<\/em>\u00a0Lacan retoma esse fio condutor, segundo o qual a verdade coletiva se tornou irm\u00e3 do gozo. Elas s\u00e3o irm\u00e3s em sua origem comum, que \u00e9 o mercado do saber. Ao mesmo tempo, Lacan demonstra que a linguagem, em sua meton\u00edmia, serve ao gozo e ao mais-de-gozar, por falta de uma met\u00e1fora que venha oferecer uma sa\u00edda. Lacan retoma tamb\u00e9m o fato que o capitalismo, a fim de assegurar seu desenvolvimento, deve assegurar o que era chamado na \u00e9poca de subdesenvolvimento. Hoje \u00e9 o saber cujo subdesenvolvimento asseguramos, inclusive o da ci\u00eancia que vive sob o reinado da burocracia de avalia\u00e7\u00e3o nas m\u00e3os das pot\u00eancias do mercado. A crise sanit\u00e1ria mostrou os efeitos delet\u00e9rios da burocracia sanit\u00e1ria sobre o saber cient\u00edfico e a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Os GAFA<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/49-almanaque17\/452-discurso-saida-sagna#_edn2\" name=\"_ednref2\">[3]<\/a>\u00a0est\u00e3o na vanguarda do mercado do saber e parecem destinados a comprar o conjunto dos valores do mercado. O Google o fez de tal forma que o consumidor \u00e9 tamb\u00e9m produtor de um saber, saber que lhe \u00e9 roubado e transforma aquele que o produz em produto, em mais-de-gozar invis\u00edvel. Nesse mundo que parece gratuito, o produto \u00e9 voc\u00ea! \u00c9 uma ironia da hist\u00f3ria que a civiliza\u00e7\u00e3o da difus\u00e3o esteja caindo devido \u00e0 propaga\u00e7\u00e3o de v\u00edrus invis\u00edveis. Com o Facebook, trocamos o saber produzido pelo sujeito pelo mais-de-gozar da visibilidade obtida pelo sujeito que cria, ele pr\u00f3prio, a adi\u00e7\u00e3o. Poder\u00edamos sonhar, como os trans-humanistas, que isso levar\u00e1 os corpos a se emparelharem \u00e0s m\u00e1quinas para acabarem se tornando indistintos, reduzidos a saberes incorporais recarreg\u00e1veis remotamente. Uma s\u00e9rie inglesa traz uma adolescente anor\u00e9xica decidida a n\u00e3o mais poluir o planeta ao se postar\u00a0<em>post-mortem<\/em>\u00a0na web<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/49-almanaque17\/452-discurso-saida-sagna#_edn3\" name=\"_ednref3\">[4]<\/a>.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><em>Sintoma e discurso do psicanalista<\/em><\/p>\n<p>A pandemia nos mostrou que o gozo continua sendo, entretanto, o gozo dos corpos! E que o mercado do saber ainda n\u00e3o apaga o objeto produzido. Mas o objeto \u00e9 desej\u00e1vel na medida em que se torna o semblante ou o caminho para um resto de saber imaterial que ele representa. Se tomamos o\u00a0<em>gadget<\/em>\u00a0como um \u201cter\u201d, \u00e9 para tentar fazer dele um parecer que nos fa\u00e7a encontrar a singularidade subjetiva perdida. Aquela que se torna o valor em um mercado coletivo que o apaga sempre mais. O objeto, no mercado do saber, n\u00e3o est\u00e1 conectado: ele nos conecta ao mercado do saber.<\/p>\n<p>Lacan, em 1971, em seu\u00a0<em>Semin\u00e1rio 18<\/em>, observa que a descoberta de Freud surge em um mundo onde o conhecimento, no sentido da singularidade da experi\u00eancia, n\u00e3o tinha mais nenhum sentido. Nesse mundo, o que permanecia, no entanto, era o sintoma. Sem d\u00favida n\u00e3o foi por acaso que Lacan se apoiou em Marx para revisar o lugar do sintoma. O sintoma indica um furo no tecido que o mercado do saber tece. As crises, econ\u00f4micas, sociais, sanit\u00e1rias, fazem parte disso. Lacan pode, portanto, dizer: \u201cA \u00fanica coisa que lhe interessa e que n\u00e3o \u00e9 um completo fiasco, que n\u00e3o \u00e9 simplesmente inepta como informa\u00e7\u00e3o, \u00e9 aquilo que tem o semblante de sintoma, isto \u00e9, em princ\u00edpio, coisas que nos d\u00e3o sinal, mas das quais n\u00e3o compreendemos nada\u201d (LACAN, 1971\/2009, p. 49). O psicanalista faz parte disso!<\/p>\n<p>Todos esses dados ser\u00e3o retomados por Lacan em Mil\u00e3o, em 12 de maio de 1972, em sua confer\u00eancia \u201cSobre o discurso psicanal\u00edtico\u201d. A It\u00e1lia foi um pa\u00eds onde a crise pol\u00edtica foi a mais forte, ao mesmo tempo crise econ\u00f4mica do capitalismo, mas tamb\u00e9m crise do comunismo e surgimento de movimentos revolucion\u00e1rios que pregavam a a\u00e7\u00e3o direta, desde o projeto de insurrei\u00e7\u00e3o do livreiro Feltrinelli at\u00e9 as Brigadas Vermelhas. Nessa confer\u00eancia, Lacan anuncia a crise do capitalismo e prev\u00ea que ele estaria \u201ccondenado a explodir\u201d<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/49-almanaque17\/452-discurso-saida-sagna#_edn4\" name=\"_ednref4\">[5]<\/a>. Esse termo de 1856 (<em>crevaison<\/em>) designa evidentemente o destino de um pneu e a morte na linguagem popular, assim como uma fadiga extrema. Lacan diz: \u201cisso funciona r\u00e1pido demais, se consome, se consome de tal forma que \u00e9 consumido\u201d<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/49-almanaque17\/452-discurso-saida-sagna#_edn5\" name=\"_ednref5\">[6]<\/a>.<\/p>\n<p>E, com efeito, a l\u00f3gica do mercado necessita de uma acelera\u00e7\u00e3o permanente, teorizada hoje por Hartmut Rosa (2013). Acrescenta-se a isso um desperd\u00edcio permanente dos recursos do planeta. Mas essa l\u00f3gica do mercado tamb\u00e9m consume na adi\u00e7\u00e3o os recursos dos corpos em dire\u00e7\u00e3o a um-mais-de-gozar obeso. Lacan via em tudo isso algo da peste!<\/p>\n<p>Lacan escreve no quadro o discurso capitalista como uma variante do discurso do mestre:\u00a0<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/images\/2022\/almanaque17\/stachado2.png\" width=\"10\" height=\"12\" \/>\/S1, S2\/<em>a<\/em>. O significante-mestre n\u00e3o parece mais ser um semblante ativo, o encontramos dissimulado no lugar da verdade e, portanto, mais inapreens\u00edvel. A verdade do sujeito, por outro lado, como no discurso do mestre, desaparece. O sujeito torna-se o agente por excel\u00eancia do discurso. Vimos como esse sujeito n\u00e3o \u00e9 mais o \u201ceu\u201d que fala, \u00e9 de um outro sujeito que se trata. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 o sujeito \u201cassujeitado\u201d da pol\u00edtica. O sujeito agente do discurso capitalista \u00e9 livre, desassujeitado e desidentificado, ignorando o significante que o comanda, mas pronto a abrir m\u00e3o de sua liberdade para todas as adi\u00e7\u00f5es e todas as submiss\u00f5es. A pr\u00f3pria lei se tornou um produto econ\u00f4mico: sofremos e aplicamos a lei da economia mais forte (o d\u00f3lar!) ou da mais rent\u00e1vel (os para\u00edsos fiscais). O sujeito est\u00e1, portanto, submetido ao efeito do objeto mais-de-gozar diretamente, de um modo viciante. Por outro lado, esse sujeito n\u00e3o ter\u00e1 mais la\u00e7o com o saber, exceto ao passar por um acesso \u00e0 sua verdade no significante-mestre, que o comanda sem que ele saiba. Separado de S1 e de S2, esse sujeito que perdeu sua identidade ir\u00e1 procurar a si mesmo, seja atrav\u00e9s da transidentidade l\u00edquida, seja atrav\u00e9s de sua recusa em identidades delirantes regressivas e \u00e9tnicas que s\u00e3o t\u00e3o fixas quanto fabricadas.<\/p>\n<p>Multiculturalismo e nacionalismo iliberal tornam-se produtos de mercado! Na aus\u00eancia de um livre acesso ao saber, o sujeito dever\u00e1 aprender a ser ele mesmo atrav\u00e9s de t\u00e9cnicas de vida e de corpo (desenvolvimento pessoal) que ditam seus comportamentos com a cumplicidade do Estado. O Estado, que se tornou um grande pedagogo, quer, de fato, mudar o povo pela forma\u00e7\u00e3o\/informa\u00e7\u00e3o. \u00c9 o que est\u00e1 por tr\u00e1s do\u00a0<em>slogan<\/em>\u00a0\u201cmudar os comportamentos\u201d, ignorando o saber do povo.<\/p>\n<p>O discurso anal\u00edtico, ao colocar o objeto\u00a0<em>a<\/em>\u00a0na posi\u00e7\u00e3o de semblante, tem a possibilidade de desvendar a maquinaria do mais-de-gozar e de fazer valer o objeto\u00a0<em>a<\/em>\u00a0causa do desejo para que ele venha arejar os efeitos do mais-de-gozar. Ao produzir o S1, o discurso anal\u00edtico pode dar acesso a um sujeito que o comanda e produzir da\u00ed\u00a0o\u00a0<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/images\/2022\/almanaque17\/stachado2.png\" width=\"8\" height=\"10\" \/>,\u00a0a queda. Esse significante-mestre \u00e9 tamb\u00e9m o cora\u00e7\u00e3o do que anima seu sintoma.<\/p>\n<p>A sa\u00edda do discurso capitalista \u00e9, portanto, dupla. Enquanto tal, ele s\u00f3 pode sair de si mesmo e, ent\u00e3o, encontrar novas formas, sendo que seu discurso faz parte delas. Mas esse capitalismo de mercado permanece preso ao fato de que h\u00e1 apenas gozo dos corpos. A vida nua, a longo prazo, poderia muito bem ser o agente invis\u00edvel de sua morte.<\/p>\n<h6><strong>Tradu\u00e7\u00e3o e revis\u00e3o<\/strong>: M\u00e1rcia Bandeira e Rodrigo Almeida<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<br \/>\n<\/strong><\/h6>\n<h6>COHEN, D.\u00a0<strong>Il faut dire que les temps ont chang\u00e9<\/strong>. Paris: Albin Michel, 2018.<\/h6>\n<h6>HEATH, J.; POTTER, A.\u00a0<strong>R\u00e9volte consomm\u00e9e<\/strong>\u00a0: le mythe de la contre-culture. Les Editions l\u2019\u00c9chapp\u00e9e: Paris, 2005.<\/h6>\n<h6>ILLOUZ, E.\u00a0<strong>La fin de l\u2019amour<\/strong>. Paris: Seuil, 2020.<\/h6>\n<h6>LACAN, J.\u00a0<strong>O semin\u00e1rio, livro 17<\/strong>: O avesso da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. \u201cA ci\u00eancia e a verdade\u201d. In:\u00a0<strong>Escritos<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.<\/h6>\n<h6>LACAN, J.\u00a0<strong>O semin\u00e1rio, livro 16<\/strong>: De um Outro ao outro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2008.<\/h6>\n<h6>LACAN. J.\u00a0<strong>O semin\u00e1rio, livro 18<\/strong>: De um discurso que n\u00e3o fosse semblante. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2009.<\/h6>\n<h6>ROSA, H.\u00a0<strong>Acc\u00e9l\u00e9ration<\/strong>: Une critique sociale du temps. Paris: La D\u00e9couverte, 2013.<\/h6>\n<h6>SUPIOT, A.\u00a0<strong>La gouvernance par les nombres<\/strong>. Paris: Fayard, 2015.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/49-almanaque17\/452-discurso-saida-sagna#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a>\u00a0Texto publicado originalmente em\u00a0<em>La Cause du d\u00e9sir<\/em>, 105, julho de 2020.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/49-almanaque17\/452-discurso-saida-sagna#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a>\u00a0Cf. LACAN, J. \u201cDe uma reforma em seu furo\u201d, texto publicado com a am\u00e1vel autoriza\u00e7\u00e3o de Jacques-Alain Miller em\u00a0<em>La Cause du d\u00e9sir,<\/em>\u00a0n\u00ba 98, mar\u00e7o de 2018, p. 9-13. Cf. igualmente LACAN, J.\u00a0<em>O Semin\u00e1rio, livro 17: O Avesso da psican\u00e1lise,<\/em>\u00a0texto estabelecido por J.-A. Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor Ltda, 1991, p. 196.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/49-almanaque17\/452-discurso-saida-sagna#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a>\u00a0GAFA: acr\u00f4nimo de Google, Amazon, Facebook e Apple, refere-se \u00e0s quatro maiores companhias da internet. O termo surgiu pela primeira vez na imprensa em 2012 no jornal franc\u00eas\u00a0<em>Le Monde<\/em>. Fonte:\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/GAFA\">https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/GAFA<\/a>.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/49-almanaque17\/452-discurso-saida-sagna#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a>\u00a0<em>Years and Years<\/em>, s\u00e9rie brit\u00e2nica da BBC (2019) exibida na Fran\u00e7a pelo MyCanal, dispon\u00edvel por streaming.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/49-almanaque17\/452-discurso-saida-sagna#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a>\u00a0\u201cDu discours psychanalytique. Discours \u00e0 l\u2019Universit\u00e9 de Milan, le 12 mai 1972\u201d, publicado na obra bil\u00edngue\u00a0<em>Lacan in Italia<\/em>\u00a0<em>1953-1978<\/em>.\u00a0<em>En Italie, Lacan.<\/em>\u00a0Milan: La Salamandra, 1978, p. 48.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/49-almanaque17\/452-discurso-saida-sagna#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a>\u00a0\u201cDu discours psychanalytique. Discours \u00e0 l\u2019Universit\u00e9 de Milan, le 12 mai 1972\u201d, publicado na obra bil\u00edngue\u00a0<em>Lacan in Italia<\/em>\u00a0<em>1953-1978<\/em>.\u00a0<em>En Italie, Lacan.<\/em>\u00a0Milan: La Salamandra, 1978, p. 48.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; PHILIPPE LA SAGNA Psicanalista, \u00a0A.M.E. da ECF\/AMP plasagna@free.fr Resumo: Lacan aponta uma afinidade entre o discurso capitalista e o discurso da ci\u00eancia, no qual o desenvolvimento do primeiro acompanha o segundo. 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