{"id":1973,"date":"2022-07-19T06:41:42","date_gmt":"2022-07-19T09:41:42","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1973"},"modified":"2025-12-01T13:12:36","modified_gmt":"2025-12-01T16:12:36","slug":"do-no-como-suporte-do-sujeito1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2022\/07\/19\/do-no-como-suporte-do-sujeito1\/","title":{"rendered":"DO N\u00d3 COMO SUPORTE DO SUJEITO[1]\u00a0"},"content":{"rendered":"<h6>Frederico Feu de Carvalho<strong><br \/>\n<\/strong>Psicanalista. Membro da EBP-MG\/AMP<br \/>\n<a href=\"mailto:fredericofeu@uol.com.br\">fredericofeu@uol.com.br<\/a><\/h6>\n<blockquote><p><strong>Resumo:\u00a0<\/strong>A partir do terceiro cap\u00edtulo do\u00a0<em>Semin\u00e1rio 23<\/em>, de J. Lacan, o texto se prop\u00f5e a esclarecer a utiliza\u00e7\u00e3o do n\u00f3 borromeano por Lacan e algumas de suas aplica\u00e7\u00f5es \u00e0 cl\u00ednica das psicoses. Nesse contexto, confere-se privil\u00e9gio \u00e0 no\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>Sinthoma<\/em>\u00a0como suporte do sujeito.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave:\u00a0<\/strong>N\u00f3 borromeano; Sinthoma; sujeito.<\/p>\n<p><strong>From the node as support of the subject<\/strong><\/p>\n<p><strong>Abstract:\u00a0<\/strong>Through the third chapter of Lacan\u2019s 23<sup>rd<\/sup>\u00a0seminar, this essay aims to clarify Lacan\u2019s use of the Borromean knot and some of its applications in the clinic of psychosis. In this context, the notion on Sinthome as the subject\u2019s support is privileged.Through the third chapter of Lacan\u2019s 23<sup>rd<\/sup>\u00a0seminar, this essay aims to clarify Lacan\u2019s use of the Borromean knot and some of its applications in the clinic of psychosis. In this context, the notion on Sinthome as the subject\u2019s support is privileged.<\/p>\n<p><strong>Keywords:<\/strong> Borromean knot; Sinthome; Subject,<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Imagem:\u00a0Nelson de Almeida<\/p>\n<p>O t\u00edtulo desta interven\u00e7\u00e3o, \u201cDo n\u00f3 como suporte do sujeito\u201d, refere-se ao terceiro cap\u00edtulo do\u00a0<em>Semin\u00e1rio 23<\/em>, de Lacan, proferido no dia 16 de dezembro de 1975. Proponho retomar aqui essa li\u00e7\u00e3o acrescentando algumas reflex\u00f5es sobre o tema do Instituto de Psican\u00e1lise e Sa\u00fade Mental de Minas Gerais para o primeiro semestre de 2022, \u201cO acontecimento de corpo pol\u00edtico\u201d, de forma a extrair consequ\u00eancias para nossa pr\u00e1tica com as psicoses.<\/p>\n<p>A cl\u00ednica borromeana, se podemos chamar assim a cl\u00ednica pensada a partir do paradigma dos\u00a0<em>n\u00f3s<\/em>, se conforma \u00e0 psicose joyceana, assim como a cl\u00ednica estrutural se conforma \u00e0 psicose schereberiana. Mais do que abordar as formas ditas n\u00e3o desencadeadas da psicose, a cl\u00ednica borromeana nos permite pensar formas de encadeamento n\u00e3o referidas ao discurso ou \u00e0 norma social. Nesse sentido, podemos dizer que a psicose joyceana se refere \u00e0 psicose funcional, ou seja, \u00e0 psicose do ponto de vista de uma solu\u00e7\u00e3o, uma inven\u00e7\u00e3o, uma armadura singular que suporta a exist\u00eancia de um sujeito. Chamamos de\u00a0<em>sinthoma<\/em>\u00a0essa armadura singular, a ser lida como cifra de gozo. Acredito que podemos formular assim a quest\u00e3o que nos ocupa este semestre: sem d\u00favida alguma, a pol\u00edtica \u00e9 capaz de produzir acontecimento de corpo. Isso ocorre toda vez que o\u00a0<em>sinthoma<\/em>\u00a0de cada um, na medida em que ele \u00e9 suportado pelas marcas que uma cultura inscreve no corpo do falasser, \u00e9 afetado pelo acontecimento pol\u00edtico.<\/p>\n<p>&#8211; I &#8211;<\/p>\n<p>Um n\u00f3 borromeano \u00e9 um tipo de amarra\u00e7\u00e3o de tr\u00eas an\u00e9is, tra\u00e7ado de forma com que cada anel mantenha sua independ\u00eancia com rela\u00e7\u00e3o aos demais. Essa \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o borromena. O n\u00f3 borromeano, diz Lacan, \u00e9 \u201co for\u00e7amento de uma nova escrita (&#8230;) e \u00e9 tamb\u00e9m o for\u00e7amento de um novo tipo de ideia (&#8230;) que n\u00e3o floresce espontaneamente apenas devido ao que faz sentido, isto \u00e9, ao imagin\u00e1rio\u201d (LACAN, 1975\/76, p. 127). H\u00e1 diferentes formas de se conceber a amarra\u00e7\u00e3o borromeana, assim como diversas formas de reparar uma amarra\u00e7\u00e3o que apresenta um erro, como em Joyce. Uma pol\u00edtica do\u00a0<em>sinthoma<\/em>\u00a0seria aquela que se at\u00e9m a essa diversidade e condi\u00e7\u00f5es singulares. Isso implica, como diz Lacan logo no in\u00edcio dessa li\u00e7\u00e3o, \u201cque tiv\u00e9ssemos na an\u00e1lise o sentimento de um risco absoluto\u201d (LACAN, 1975\/76, p. 44). Esse risco parece condizente com a cl\u00ednica borromeana, assim como o c\u00e1lculo interpretativo parece se adequar melhor \u00e0 cl\u00ednica estrutural. Trata-se do risco inerente ao manejo dos\u00a0<em>n\u00f3s<\/em>, na medida em que o ato anal\u00edtico \u00e9 capaz de amarrar, afrouxar, apertar ou desfazer uma determinada amarra\u00e7\u00e3o\u00a0<em>sinthom\u00e1tica<\/em>\u00a0que suporta a vida de um sujeito.<\/p>\n<p>Lacan deixa no ar essa advert\u00eancia para se ocupar, em seguida, de uma exig\u00eancia derivada do que poder\u00edamos chamar de realismo nodal. Qual \u00e9 o m\u00ednimo de elos poss\u00edveis para que ocorra a propriedade borromeana? Como vimos, a propriedade borromeana pode se dar entre tr\u00eas an\u00e9is, se eles estabelecem entre si um tra\u00e7ado espec\u00edfico e se eles se amarram uns aos outros, estabelecendo uma continuidade entre eles de forma que o corte de um libera os outros dois.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/feu1.png\" alt=\"\" width=\"217\" height=\"180\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas como manter juntos tr\u00eas an\u00e9is que n\u00e3o se amarram entre si, que n\u00e3o se amarram borromeanamente, por serem descont\u00ednuos devido \u00e0 heterogeneidade entre eles, como \u00e9 o caso do Real, do Simb\u00f3lico e do Imagin\u00e1rio? Aqui \u00e9 preciso supor que Real, Simb\u00f3lico e Imagin\u00e1rio n\u00e3o se enodam espontaneamente, que o n\u00f3 borromeano n\u00e3o \u00e9 uma forma\u00e7\u00e3o natural ou uma cria\u00e7\u00e3o\u00a0<em>ex-nihilo<\/em>\u00a0e que \u00e9 necess\u00e1rio acrescentar um quarto anel para que a amarra\u00e7\u00e3o borromeana aconte\u00e7a. \u00c9 o que distingue o\u00a0<em>sinthoma<\/em>\u00a0como inven\u00e7\u00e3o de um sujeito.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/feu2.jpg\" alt=\"\" width=\"254\" height=\"236\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Vejamos o que diz Lacan no referido cap\u00edtulo do\u00a0<em>Semin\u00e1rio 23:<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cPara que alguma coisa, que \u00e9 preciso dizer que seja da ordem do sujeito \u2014 uma vez que o sujeito \u00e9 apenas suposto \u2014, encontre-se, em suma, sustentada no n\u00f3 de tr\u00eas, ser\u00e1 que basta que o n\u00f3 de tr\u00eas se enode, ele mesmo, borromeanamente a tr\u00eas? N\u00e3o nos parece que o m\u00ednimo em uma cadeia borromeana \u00e9 sempre constitu\u00eddo por um n\u00f3 de quatro?\u201d (LACAN, 1975\/76, p. 49).<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">(&#8230;) \u201c\u00c9 sempre em tr\u00eas suportes, que nesse caso chamaremos de subjetivos, isto \u00e9, pessoais, que um quarto vai se apoiar. Se voc\u00eas se lembrarem do modo com que introduzi esse quarto elemento em rela\u00e7\u00e3o aos tr\u00eas elementos, cada um deles supostamente constituindo alguma coisa de pessoal, o quarto ser\u00e1 o que enuncio este ano como o sinthoma\u201d (LACAN, 1975\/76, p. 50).<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">O quarto anel, que nomeamos\u00a0<em>sinthoma<\/em>, escrito com \u201cth\u201d, tem a propriedade de manter junto o que, por defini\u00e7\u00e3o, est\u00e1 separado (RSI). Nessa perspectiva, quando se considera que Real, Simb\u00f3lico e Imagin\u00e1rio n\u00e3o est\u00e3o amarrados borromeanamente, mas soltos, n\u00e3o tendo rela\u00e7\u00e3o um com o outro, \u00e9 o\u00a0<em>sinthoma<\/em>\u00a0que faz a amarra\u00e7\u00e3o borromeana e \u00e9 nesse sentido que ele \u00e9 suporte do sujeito.<\/p>\n<p>&#8211; II \u2013<\/p>\n<p>O que significa dizer que\u00a0<em>o n\u00f3 suporta o sujeito<\/em>? Significa que o sujeito n\u00e3o existe sem rela\u00e7\u00e3o com seu sintoma. Ou seja: ele n\u00e3o existe a n\u00e3o ser pelo sintoma que o suporta, o que faz do sintoma a unidade cl\u00ednica fundamental e irredut\u00edvel de todo falasser. Mas o sujeito desconhece o seu sintoma, que para ele pode ser um estorvo, um desarranjo, um imperativo de gozo que contraria seus ideais ou uma forma clandestina de exist\u00eancia. No melhor dos casos, o sujeito \u00e9 uma resposta ao real do sintoma. \u00c9 essa resposta do sujeito ao real do sintoma que Lacan vai escrever de forma distinta, recorrendo a uma grafia antiga, como \u201cSinthoma\u201d. Essa resposta se limita a um saber-fazer com o seu sintoma, ou sintomas, com isso que n\u00e3o se pode recusar, na medida em que o sintoma \u00e9 o que suporta um sujeito.<\/p>\n<p>Lacan cunhou, em seu \u00faltimo ensino, o termo falasser para expressar a rela\u00e7\u00e3o entre o inconsciente e o gozo cifrado do sintoma que se estabelece sobretudo nas neuroses. A abordagem estrutural das forma\u00e7\u00f5es do inconsciente, que s\u00e3o em geral fugazes e ligadas \u00e0 expressividade do desejo, \u00e9 tribut\u00e1ria da l\u00f3gica do significante e comporta mal a l\u00f3gica do sintoma, ou seja, aquilo que perdura, que insiste e resiste \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o e que parece n\u00e3o querer dizer nada a ningu\u00e9m, sendo, antes, tribut\u00e1rio do gozo do corpo. Nesse sentido, em uma an\u00e1lise, \u00e9 o sintoma que nos conduz das forma\u00e7\u00f5es do inconsciente ao real. Dito de outra forma: se o inconsciente sup\u00f5e o Outro da linguagem, sendo \u201cestruturado como uma linguagem\u201d e, portanto, interpret\u00e1vel \u2014 e mesmo infinitamente interpret\u00e1vel \u2014, o res\u00edduo do sintoma, o seu n\u00facleo duro,\u00a0<em>ex-siste<\/em>\u00a0ao inconsciente e \u00e9 nesse sentido que ele tem a ver com o real.<\/p>\n<p>A identifica\u00e7\u00e3o ao\u00a0<em>sinthoma<\/em>, como destino de uma an\u00e1lise, seria ent\u00e3o uma identifica\u00e7\u00e3o a esse res\u00edduo do falasser e comporta um paradoxo, pois, se por um lado, o sujeito \u00e9 suportado pelo sintoma, se ele \u00e9 imanente e n\u00e3o transcendente em rela\u00e7\u00e3o ao sintoma, por outro lado, o sintoma \u00e9 sempre \u201cestrangeiro\u201d ao pr\u00f3prio sujeito. A identifica\u00e7\u00e3o ao\u00a0<em>sinthoma<\/em>\u00a0n\u00e3o \u00e9 uma condescend\u00eancia ao sintoma, mas uma resposta poss\u00edvel ao seu n\u00facleo real, \u00e0quilo que o ultrapassa e determina o seu modo de gozo.<\/p>\n<p>Essa identifica\u00e7\u00e3o comporta um for\u00e7amento, o advento de uma nova escrita, como a \u201cmet\u00e1fora delirante discreta\u201d do paciente B., \u201cD\u00e9f(ier D)ieu\u201d, caso relatado na\u00a0<em>Conversa\u00e7\u00e3o de Arcachon<\/em>\u00a0por de Jean-Pierre Deffieux (1998, p. 18) e debatido por n\u00f3s no N\u00facleo de Psicose. Essa escrita \u00e9 for\u00e7ada porque ela \u00e9 suportada pela letra do sintoma que podemos seguir, no relato do caso, desde a queixa inicial, \u201cfalta-me energia\u201d, at\u00e9 a \u201ccentelha de vida\u201d do la\u00e7o com o analista. Mas a letra do sintoma, que fala com o corpo, permanece como tal, fora do sentido. Ela excede toda elucubra\u00e7\u00e3o do saber. Um sintoma, isso se l\u00ea, e \u00e9 s\u00f3 a partir dessa leitura \u2014 a ser distinguida da interpreta\u00e7\u00e3o de uma forma\u00e7\u00e3o do inconsciente \u2014 que temos uma ideia do que poder\u00e1 ter sido esse acontecimento de corpo primordial que cifrou o\u00a0<em>sinthoma<\/em>. \u00c9 como um procedimento de leitura que Deffieux isola analiticamente o que faz suporte para B., tomando os elementos literais da cena traum\u00e1tica ocorrida aos 8 anos \u2014 o m\u00eas de mar\u00e7o, o bord\u00e3o, a madeira, a nudez \u2014 para verificar aquilo que o mant\u00eam amarrado \u2014 o artesanato, a preocupa\u00e7\u00e3o com o bem e o belo, o la\u00e7o paterno, o exibicionismo do corpo \u2014, mas tamb\u00e9m os pontos de ruptura que levam a novas amarra\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Vale comparar com o caso\u00a0<em>Emma<\/em>, que Freud explora no\u00a0<em>Projeto<\/em>, igualmente a partir de uma cena aos 8 anos, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 solu\u00e7\u00e3o encontrada (FREUD, 1895\/1969, p. 463-468). Em Emma, a media\u00e7\u00e3o do inconsciente resulta na constru\u00e7\u00e3o de uma fantasia, anteparo frente ao real, que se torna poss\u00edvel pela extra\u00e7\u00e3o do objeto olhar. De fato, o caminho da forma\u00e7\u00e3o do sintoma na neurose sup\u00f5e que a fantasia seja suportada pela letra do sintoma para que se possa constituir o semblante do objeto causa do desejo. Nesse fragmento freudiano, vale lembrar, a cena traum\u00e1tica se inscreve no inconsciente a partir de alguns significantes, como \u201criso\u201d, \u201croupa\u201d e \u201cloja\u201d, em torno dos quais a fantasia se constr\u00f3i. A fantasia \u00e9 uma fachada para a implica\u00e7\u00e3o do sujeito no sintoma, diz Freud, e o sintoma \u00e9 o que resta ap\u00f3s a travessia da fantasia, como \u201cgozo puro de uma escrita\u201d (MILLER\u00a0<em>apud<\/em>\u00a0LAURENT, 2016, p. 48). \u00c9 o que leva Freud a dizer que a cena traum\u00e1tica ocorrida aos oito anos de idade, que podemos equivaler, nesse caso, a um acontecimento de corpo, modula a realidade sexual de Emma, levando-a a reencontrar a mesma cena aos doze anos de idade, como uma conting\u00eancia da qual ela extrai o seu pr\u00f3prio gozo gra\u00e7as \u00e0 reversibilidade da puls\u00e3o, que faz com ela se sinta desejada e olhada ao olhar e desejar.<\/p>\n<p>Em B., de forma distinta, o exibicionismo do corpo nu, que Deffieux compara \u00e0 \u201cfun\u00e7\u00e3o da fantasia na pantomima do sujeito neur\u00f3tico\u201d (1998, p. 18), mostra que o sujeito mesmo est\u00e1 no lugar do objeto olhado, sem dele se separar. Essa pregn\u00e2ncia maior do sintoma, na falta da media\u00e7\u00e3o do desejo na fantasia, parece exigir ent\u00e3o formas suplementares de amarra\u00e7\u00e3o, como \u201ca inscri\u00e7\u00e3o sobre o corpo de um fen\u00f4meno psicossom\u00e1tico, a psor\u00edase, e uma met\u00e1fora delirante discreta\u201d (DEFFIEUX, 1998, p. 18).<\/p>\n<p>&#8211; III &#8211;<\/p>\n<p>A concep\u00e7\u00e3o do n\u00f3 borromeano de quatro an\u00e9is, \u00e0 qual Lacan se aferra no referido cap\u00edtulo do\u00a0<em>Semin\u00e1rio, Livro 23: O sinthoma,<\/em>\u00a0se refere sobretudo \u00e0s neuroses. Nela encontramos uma vincula\u00e7\u00e3o mais estreita entre o sintoma e o inconsciente do que encontramos, em geral, na psicose. O inconsciente trabalha a partir da letra do sintoma; ele \u00e9 uma elucubra\u00e7\u00e3o de saber sobre o acontecimento de corpo pol\u00edtico, no sentido que demos a essa express\u00e3o, ou seja, a radicalidade da incid\u00eancia de um gozo que afeta o corpo do falasser, a fim de que esse acontecimento, que tem lugar na\u00a0<em>p\u00f3lis<\/em>\u00a0\u2014 n\u00e3o h\u00e1 acontecimento de corpo aut\u00f3ctone, que n\u00e3o seja derivado da\u00a0<em>irrup\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0de um gozo que se apresenta como\u00a0<em>outro<\/em>\u00a0para um sujeito \u2014, seja minimamente subjetivado como sintoma. Dessa forma, o real, ou melhor, o peda\u00e7o de real que cabe a um falasser, pode ser conjugado com o imagin\u00e1rio e o simb\u00f3lico.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 o que acontece, por exemplo, na paranoia.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Na medida em que um sujeito enoda a tr\u00eas o imagin\u00e1rio, o simb\u00f3lico e o real, ele \u00e9 suportado apenas pela continuidade deles. O imagin\u00e1rio, o simb\u00f3lico e o real s\u00e3o uma \u00fanica e mesma consist\u00eancia, e \u00e9 nisso que consiste a psicose paranoica (LACAN, 1975\/76, p. 52).<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/feu3.jpg\" alt=\"\" width=\"257\" height=\"235\" \/><\/p>\n<p>Lacan diz que a amarra\u00e7\u00e3o que caracteriza a paranoia \u00e9 o que define tamb\u00e9m a personalidade. \u201cParanoia e personalidade n\u00e3o t\u00eam, como tais, rela\u00e7\u00e3o, pela simples raz\u00e3o de que s\u00e3o a mesma coisa\u201d (LACAN, 1975\/76, p. 52). Como podemos entender essa igualdade? Ela sugere que personalidade e paranoia se equivalem porque, em ambas, os tr\u00eas registros n\u00e3o se distinguem, como seria o caso da consist\u00eancia, atribu\u00edda ao imagin\u00e1rio, do furo proveniente do simb\u00f3lico e da ex-sist\u00eancia pr\u00f3pria ao real, como veremos adiante. O que nos leva a concluir que a personalidade mant\u00e9m sua pr\u00f3pria coes\u00e3o a partir do artif\u00edcio que podemos definir como uma exclus\u00e3o do sujeito que seria suportado pelo sintoma. De fato, a estrutura paranoica se mostra, para todos os efeitos, impenetr\u00e1vel, como um bloco monol\u00edtico que tudo interpreta de forma r\u00edgida e especular, como reflexo da pr\u00f3pria personalidade, sem nada querer saber do sintoma que a concerne.<\/p>\n<p>Poder\u00edamos conceber ainda, a partir de outras indica\u00e7\u00f5es de Lacan para al\u00e9m do\u00a0<em>Semin\u00e1rio 23<\/em>\u00a0\u2014 embora jamais desenvolvidas por ele e, sim, por autores do Campo Freudiano, como Nieves Soria e Fabian Schejtman<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/do-no-com-suporte#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a>\u00a0\u2014, outras formas de enodamento pr\u00f3prias das psicoses, como a parafrenia, a mania e a melancolia.<\/p>\n<p>No caso da parafrenia, essa indica\u00e7\u00e3o de Lacan \u00e9 extra\u00edda de uma apresenta\u00e7\u00e3o de paciente ocorrida em 1975, portanto, contempor\u00e2nea ao\u00a0<em>Semin\u00e1rio 23.\u00a0<\/em>Trata-se da paciente conhecida como Sra. B., que Lacan identifica a uma parafrenia imaginativa pelo fato de que ela se reduz a uma \u201cpura vestimenta\u201d, ou seja, a um puro semblante, sem a menor ideia do corpo que leva sob essa vestimenta, daquilo que poderia fornecer um lastro a esse ser de puro semblante. Certamente, essa refer\u00eancia ao corpo por baixo do vestido deve ser tomada em sua\u00a0<em>ex-sist\u00eancia<\/em>\u00a0real, e n\u00e3o em sua dimens\u00e3o de consist\u00eancia imagin\u00e1ria, que seria, justamente, aquela de um corpo recoberto por um vestido. Essa configura\u00e7\u00e3o parafr\u00eanica poderia, assim, ser apresentada como uma interpenetra\u00e7\u00e3o do simb\u00f3lico e do imagin\u00e1rio que deixa solto o real.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0\u00a0<em>mania<\/em>\u00a0e \u00e0\u00a0<em>melancolia<\/em>, as indica\u00e7\u00f5es de Lacan s\u00e3o aquelas que encontramos em\u00a0<em>Televis\u00e3o<\/em>\u00a0(LACAN, 2003a), texto de 1974. Nessas estruturas cl\u00ednicas, \u00e9 o simb\u00f3lico que permanece desligado, enquanto real e imagin\u00e1rio se interpenetram. Nesse texto, no cap\u00edtulo em que Lacan analisa os afetos a partir da estrutura da linguagem, o desligamento do simb\u00f3lico foi por ele referido ao recha\u00e7o do inconsciente. Tal recha\u00e7o equivale, no plano \u00e9tico, a uma covardia moral. A diferen\u00e7a \u00e9 que, na melancolia, o real predomina e submete o imagin\u00e1rio, como \u201cpura cultura da puls\u00e3o de morte\u201d, da qual falava Freud (1923\/1969, p. 69), esmagando assim a imagem narc\u00edsica em que o Eu se sustenta, enquanto, na mania, \u00e9 o imagin\u00e1rio que se sobrep\u00f5e ao real na forma da excita\u00e7\u00e3o man\u00edaca, produzida a partir de um \u201cretorno no real daquilo que foi recha\u00e7ado da linguagem\u201d (LACAN, 2003a, p. 524).<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/feu4.png\" alt=\"\" width=\"762\" height=\"428\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A psicose de Joyce, por sua vez, pressup\u00f5e um lapso da amarra\u00e7\u00e3o RSI, como indicado no desenho abaixo, \u00e0 esquerda, do qual resulta a interpenetra\u00e7\u00e3o entre o Real e o Simb\u00f3lico que deixa solto o Imagin\u00e1rio. Essa seria a forma predominante dos enodamentos encontrados na esquizofrenia. No diagrama \u00e0 direita, esse lapso se encontra corrigido por um quarto elo, que restabelece a amarra\u00e7\u00e3o entre eles, configurando o\u00a0<em>sinthoma.<\/em><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/feu5.jpg\" alt=\"\" width=\"557\" height=\"267\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas essa corre\u00e7\u00e3o s\u00f3 realiza em parte a propriedade borromeana. De fato, podemos dizer que, dessa forma, o Imagin\u00e1rio passa a se amarrar ao Simb\u00f3lico e ao Real. Lacan identificou esse quarto elo ao Ego de Joyce, cuja consist\u00eancia \u00e9 dada por sua obra. Contudo, a independ\u00eancia entre RSI, a outra condi\u00e7\u00e3o essencial \u00e0 propriedade borromeana, n\u00e3o \u00e9 verificada. A interpenetra\u00e7\u00e3o entre o Simb\u00f3lico e o Real persiste na forma peculiar da escrita de Joyce, que Lacan comparou a uma dissolu\u00e7\u00e3o da linguagem, uma escrita que n\u00e3o diz nada a ningu\u00e9m, que n\u00e3o fala ao inconsciente de ningu\u00e9m, marcada pelo enigma e, por isso mesmo, capaz de fazer trabalharem os universit\u00e1rios. \u00c9 por isso que Lacan vai dizer que Joyce era desabonado do inconsciente.<\/p>\n<p>O paradigma Joyce abre um leque de pesquisas que torna poss\u00edvel pensar as psicoses<em>\u00a0sinthomatizadas<\/em>, ou seja, psicoses nas quais uma amarra\u00e7\u00e3o a partir de um quarto elo permite ao sujeito se sustentar pelo\u00a0<em>sinthoma<\/em>, de forma que a psicose n\u00e3o se desencadeie. Resta saber em que essa forma de psicose se distingue da pr\u00e9-psicose, aquela, por exemplo, que manteve Schreber estabilizado at\u00e9 os 50 anos de idade gra\u00e7as \u00e0s suas identifica\u00e7\u00f5es imagin\u00e1rias.<\/p>\n<p>Uma hip\u00f3tese, apontada por Nieves Soria a partir de Fabian Schejtman (SORIA, 2008, p. 69), permite fazer a seguinte distin\u00e7\u00e3o: uma psicose\u00a0<em>sinthomatizada<\/em>\u00a0seria aquela em que a corre\u00e7\u00e3o do lapso do n\u00f3, como apontou Lacan na conclus\u00e3o do\u00a0<em>Semin\u00e1rio 23<\/em>, ocorre no mesmo lugar onde ocorreu o lapso do n\u00f3. \u00c9 o caso do\u00a0<em>Ego<\/em>\u00a0de Joyce, que se sustenta justamente da natureza de seu\u00a0<em>sinthoma<\/em>. Essa solu\u00e7\u00e3o se distinguiria de outras, supostamente mais fr\u00e1geis, nas quais a corre\u00e7\u00e3o n\u00e3o incide sobre o ponto do lapso ou a solu\u00e7\u00e3o encontrada se apoiaria em identifica\u00e7\u00f5es imagin\u00e1rias que se dissolveriam frente a um apelo simb\u00f3lico ao Nome-do-Pai, como ocorreu com Schreber.<\/p>\n<p>&#8211; IV-<\/p>\n<p>Vimos que a amarra\u00e7\u00e3o borromeana pressup\u00f5e a independ\u00eancia, mas tamb\u00e9m a equival\u00eancia entre os registros Simb\u00f3lico, Imagin\u00e1rio e Real, diferentemente da cl\u00ednica estruturalista, que postulava a primazia do simb\u00f3lico sobre o imagin\u00e1rio como condi\u00e7\u00e3o para que o real fosse enquadrado. Essa efic\u00e1cia do simb\u00f3lico ser\u00e1 relativizada pela cl\u00ednica borromeana, assim como o valor da interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica, em dire\u00e7\u00e3o a uma pragm\u00e1tica que busca discernir como o sujeito se arranja, como ele se vira para se sustentar com o seu pr\u00f3prio sintoma, ou seja, como ele se vira com o que, para ele, constitui essas tr\u00eas \u201csubjetividades\u201d denominadas Real, Simb\u00f3lico e Imagin\u00e1rio, que, mesmo sendo equivalentes, n\u00e3o deixam de ser heterog\u00eaneas. Lacan caracteriza essa heterogeneidade da seguinte maneira:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cN\u00e3o \u00e9 por acaso, mas como resultado de uma concentra\u00e7\u00e3o que seja no imagin\u00e1rio que eu coloque o suporte do que \u00e9 a consist\u00eancia, assim como fa\u00e7o do furo o essencial do que diz respeito ao simb\u00f3lico e o real sustentando especialmente o que chamo de a ex-sist\u00eancia\u201d (LACAN, 1975\/76, p. 49).<\/p>\n<p>A\u00a0<em>consist\u00eancia<\/em>\u00a0atribu\u00edda ao Imagin\u00e1rio \u00e9 o que resulta da \u201cideia de si mesmo como corpo\u201d, ideia para a qual Lacan utiliza o termo \u201cEgo\u201d, o mesmo termo que ele utiliza para nomear o\u00a0<em>sinthoma<\/em>\u00a0de Joyce. Isso define uma rela\u00e7\u00e3o de propriedade do sujeito com o seu corpo. De fato, o sujeito tem um corpo; ele n\u00e3o \u00e9 um corpo. Mas isso \u00e9 apenas uma cren\u00e7a. \u201cO falasser adora seu corpo, porque cr\u00ea que o tem\u201d, diz Lacan. \u201cNa realidade, ele n\u00e3o o tem, mas seu corpo \u00e9 sua \u00fanica consist\u00eancia, consist\u00eancia mental, \u00e9 claro, pois seu corpo sai fora a todo instante\u201d (LACAN, 1975\/76, p. 64). Portanto, a consist\u00eancia imagin\u00e1ria, ou seja, \u201caquilo que mant\u00e9m junto\u201d o falasser e seu corpo, se refere a uma ideia, como a ideia de um saco, e \u00e9 sustentada por uma cren\u00e7a. A propriedade borromeana atribu\u00edda ao\u00a0<em>sinthoma<\/em>, no sentido do que mant\u00e9m junto RSI, deve ser distinguida da consist\u00eancia do Imagin\u00e1rio que mant\u00e9m junto o falasser e seu corpo. Trata-se de uma considera\u00e7\u00e3o importante, especialmente se referida ao campo das psicoses, na medida em que a recomposi\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio pode vir a ser, em alguns casos, uma orienta\u00e7\u00e3o cl\u00ednica. Se tomamos o exemplo de Joyce, vimos que essa recomposi\u00e7\u00e3o se faz por meio do\u00a0<em>sinthoma<\/em>, ou seja, a escrita e a publica\u00e7\u00e3o de uma obra, o que implica tomar Joyce como um art\u00edfice de seu pr\u00f3prio\u00a0<em>sinthoma<\/em>, na medida em que isso tem efeito de supl\u00eancia do lapso que deixa solto o imagin\u00e1rio.<\/p>\n<p>O\u00a0<em>furo<\/em>\u00a0do Simb\u00f3lico, por sua vez, adv\u00e9m da caracter\u00edstica fundamental do significante, a de ser aquilo que representa um sujeito para um outro significante. Se partimos dessa defini\u00e7\u00e3o, \u00e9 o sujeito mesmo que aparece como esse furo, no sentido da sua falta-a-ser. O simb\u00f3lico, portanto, ao qual se deu primazia quando a cl\u00ednica lacaniana se orientava por uma busca da verdade, \u00e9 sem esperan\u00e7as, se quisermos nos apoiar nele para nos sustentar como sujeitos. Os obsessivos que o digam. Vale relembrar, no entanto, que Lacan distingue o furo do simb\u00f3lico, que o \u201cespecializa\u201d enquanto um sistema de linguagem marcado pelas substitui\u00e7\u00f5es metaf\u00f3ricas e deslizamentos meton\u00edmicos, do que Lacan chama de \u201co verdadeiro furo\u201d, \u023a, que ele situa fora do simb\u00f3lico, na conflu\u00eancia do real com o imagin\u00e1rio, como veremos adiante. N\u00e3o h\u00e1 Outro do Outro. Isso reduz o simb\u00f3lico ao sentido imagin\u00e1rio, mesmo quando interpretamos uma forma\u00e7\u00e3o do inconsciente seguindo as trilhas das leis do significante que herdamos de Freud. Essa condi\u00e7\u00e3o n\u00e3o nos impede de fazer ci\u00eancia, isto \u00e9, de utilizar a via l\u00f3gica para nos orientar na busca da verdade no campo da realidade, para al\u00e9m do que almejamos como a consist\u00eancia do imagin\u00e1rio que, como sabemos, nos engana o tempo todo, por ser essa cren\u00e7a sustentada por uma miragem. \u00c9 o furo do simb\u00f3lico, portanto, o que nos permite figurar a verdade dos fatos para al\u00e9m de uma cren\u00e7a subjetiva.<\/p>\n<p>A\u00a0<em>ex-sist\u00eancia<\/em>\u00a0do Real, por sua vez, deriva primeiramente do fato de que o sentido est\u00e1\u00a0<em>foraclu\u00eddo<\/em>\u00a0do Real (LACAN, 1975\/76, p. 117). Na medida em que o sentido \u00e9 o que enquadra para n\u00f3s o campo da realidade, o real n\u00e3o diz respeito \u00e0 realidade das coisas, como ocorre em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ci\u00eancia, tampouco se confunde com o que poder\u00edamos chamar de uma natureza humana, que n\u00e3o sabemos bem a que se refere, uma vez que ela \u00e9 atravessada pela linguagem. Seria o real uma pura pot\u00eancia negativa? Lacan vai dizer que o fato de o Real n\u00e3o poder ser imaginado ou pensado n\u00e3o quer dizer que o Real seja um limite da experi\u00eancia humana. Pelo contr\u00e1rio, o Real incide o tempo todo, no sentido de que ele \u00e9 uma experi\u00eancia cotidiana, a experi\u00eancia de um acontecimento de corpo. O Real tamb\u00e9m n\u00e3o se at\u00e9m ao \u023a, o furo do simb\u00f3lico, que \u00e9 o limite da imagina\u00e7\u00e3o humana. O que confere certa esperan\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao real \u00e9 ele poder ser contido pelo n\u00f3 borromeano para um sujeito. Se n\u00e3o fosse assim, n\u00e3o haveria como suport\u00e1-lo. O n\u00f3 borromeano \u00e9 o que permite ao falasser cernir um peda\u00e7o do real, para chamar de seu, podemos dizer. \u00c9 nesse sentido que Lacan (2003b) aproxima o\u00a0<em>sinthoma<\/em>\u00a0do acontecimento de corpo. \u00c9 por ser um acontecimento de corpo que o\u00a0<em>sinthoma<\/em>\u00a0tem a ver com um real, com um real que Lacan chama de \u201corient\u00e1vel\u201d, mesmo que essa orienta\u00e7\u00e3o exclua o sentido. A\u00a0<em>ex-sist\u00eancia<\/em>\u00a0\u00e9 uma forma de exist\u00eancia espec\u00edfica do n\u00f3. Vejamos o que diz Lacan sobre isso:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cAo sistir fora do Imagin\u00e1rio e do Simb\u00f3lico, o real colide, movendo-se especialmente em algo da ordem da limita\u00e7\u00e3o. A partir do momento em que ele est\u00e1 borromeanamente enodado aos outros dois, estes lhe resistem. Isso quer dizer que o real s\u00f3 tem exist\u00eancia ao encontrar pelo simb\u00f3lico e pelo imagin\u00e1rio a reten\u00e7\u00e3o\u201d (LACAN, 1975\/76, p. 49).<\/p>\n<p>&#8211; V \u2013<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/feu6.jpg\" alt=\"\" width=\"277\" height=\"279\" \/><\/p>\n<p>Lacan retoma, na quarta parte do cap\u00edtulo III do\u00a0<em>Semin\u00e1rio 23<\/em>, que estamos examinando, o esquema do n\u00f3 borromeano j\u00e1 trabalhado em seu\u00a0<em>Semin\u00e1rio 22, RSI.<\/em>\u00a0A planifica\u00e7\u00e3o do n\u00f3 permite estabelecer tr\u00eas campos de contato, cada um sendo o resultado da articula\u00e7\u00e3o de dois registros, com a concomitante exclus\u00e3o do terceiro. O campo central, como sabemos, \u00e9 preenchido pelo\u00a0<em>objeto a<\/em>, que n\u00e3o aparece representado nesse esquema do\u00a0<em>Semin\u00e1rio 23<\/em>. Lacan observa, em primeiro lugar, que a nota\u00e7\u00e3o (\u023a) se refere ao axioma \u201cn\u00e3o h\u00e1 Outro do Outro\u201d, o que quer dizer que nada se op\u00f5e ao Simb\u00f3lico. Por conseguinte, n\u00e3o h\u00e1 tamb\u00e9m J(\u023a), o gozo do Outro do Outro (LACAN, 1975\/76, p. 54), a n\u00e3o ser no imagin\u00e1rio da paranoia, na medida em que essa estrutura cl\u00ednica identifica o gozo com o lugar do Outro. \u00c9 nesse espa\u00e7o entre Imagin\u00e1rio e Real, que se escreve como \u023a, que Lacan vai localizar, como acabamos de observar, o que ele chama, no cap\u00edtulo IX, de o verdadeiro\u00a0<em>furo<\/em>, a ser distinguido da\u00a0<em>falta<\/em>\u00a0inerente \u00e0 castra\u00e7\u00e3o, que devemos situar em um outro campo, aquele do gozo f\u00e1lico. Esse furo, ao qual n\u00e3o corresponde nenhuma ordem de exist\u00eancia, remete, por outro lado, \u00e0quilo que podemos chamar da inibi\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria do Imagin\u00e1rio em rela\u00e7\u00e3o ao Real. \u00c9 a essa inibi\u00e7\u00e3o que Lacan recorre, na elabora\u00e7\u00e3o desse semin\u00e1rio, para justificar as dificuldades e os erros cometidos por ele mesmo ao tra\u00e7ar imaginariamente os seus n\u00f3s borromeanos, o que, para ele, \u00e9 um \u00edndice do real do\u00a0<em>n\u00f3<\/em>. Embora as diversas configura\u00e7\u00f5es dos\u00a0<em>n\u00f3s<\/em>\u00a0tenham como suporte uma imagem, como essa que est\u00e1 agora diante de nossos olhos, a dificuldade de imagina\u00e7\u00e3o \u00e9 patente quando se trata de seus entrela\u00e7amentos, da mesma forma que as dificuldades de escrita dos\u00a0<em>n\u00f3s<\/em>. Nesse sentido, vemos que o n\u00f3 n\u00e3o \u00e9 o matema, essa escrita lacaniana clarificadora e reduzida \u00e0 qual podemos associar uma esp\u00e9cie de mec\u00e2nica que condensa uma s\u00e9rie de rela\u00e7\u00f5es entre o imagin\u00e1rio, o simb\u00f3lico e o real.<\/p>\n<p>O segundo termo evocado por Lacan nessa li\u00e7\u00e3o \u00e9 o\u00a0<em>sentido<\/em>, localizado por ele na conflu\u00eancia entre o imagin\u00e1rio e o simb\u00f3lico. Esse campo mostra que o sentido atribu\u00eddo ao simb\u00f3lico est\u00e1 em continuidade com o imagin\u00e1rio, e n\u00e3o em oposi\u00e7\u00e3o a ele. O m\u00e1ximo que podemos atingir pela via do sentido, como quando interpretamos, \u00e9 alguma ordem de fic\u00e7\u00e3o, uma vez que o verdadeiro, em se tratando da an\u00e1lise e n\u00e3o da ci\u00eancia, n\u00e3o pode ser dito com os instrumentos da linguagem. Disso, resulta o que Lacan chamou de\u00a0<em>juis-sens<\/em>, o gozo do sentido, que \u00e9 o gozo pr\u00f3prio da conflu\u00eancia do simb\u00f3lico com o imagin\u00e1rio ao qual podemos relacionar o modo de satisfa\u00e7\u00e3o do del\u00edrio, assim como o do trabalho do inconsciente. O que se op\u00f5e ao simb\u00f3lico n\u00e3o \u00e9, portanto, o imagin\u00e1rio, como na cl\u00ednica estrutural, mas \u023a. Por outro lado, o que se op\u00f5e ao sentido \u00e9 o real.<\/p>\n<p>Finalmente, temos o gozo dito do falo, que Lacan distingue aqui do gozo peniano:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cO gozo peniano adv\u00e9m a prop\u00f3sito do imagin\u00e1rio, isto \u00e9, do gozo do duplo, da imagem especular, do gozo do corpo. Ele constitui propriamente os diferentes objetos que ocupam as hi\u00e2ncias das quais o corpo \u00e9 o suporte imagin\u00e1rio. O gozo f\u00e1lico, em contrapartida, situa-se na conjun\u00e7\u00e3o do simb\u00f3lico com o real. Isso na medida em que, no sujeito que se sustenta no falasser, que \u00e9 o que designo como sendo o inconsciente, h\u00e1 a capacidade de conjugar a fala e o que concerne a um certo gozo, aquele dito do falo, experimentado como parasit\u00e1rio, devido a essa pr\u00f3pria fala, devido ao falasser\u201d (&#8230;)\u00a0Portanto, inscrevo aqui o gozo f\u00e1lico contrabalan\u00e7ando o que concerne ao sentido. \u00c9 o lugar do que \u00e9 em consci\u00eancia designado pelo falasser como poder\u201d (LACAN, 1975\/76, p 55.).<\/p>\n<p>Lacan n\u00e3o desenvolve, ao menos nesse cap\u00edtulo, a aproxima\u00e7\u00e3o entre o gozo f\u00e1lico e o poder, mas podemos supor que se trata de um destino poss\u00edvel a ser dado ao acontecimento de corpo pol\u00edtico pelo sintoma. De qualquer maneira, \u00e9 preciso sublinhar a distin\u00e7\u00e3o entre o gozo do sentido e o gozo pr\u00f3prio ligado \u00e0 fun\u00e7\u00e3o de fona\u00e7\u00e3o que caracteriza o gozo f\u00e1lico. O gozo f\u00e1lico participa do real por ser um gozo \u201cfora-do-corpo\u201d, na medida em que est\u00e1 associado \u00e0 fala, e \u00e9 por isso que ele n\u00e3o se refere ao gozo peniano, o gozo pr\u00f3prio do corpo que concerne ao imagin\u00e1rio.<\/p>\n<p>Resta saber em que consiste, propriamente falando, o gozo do\u00a0<em>sinthoma<\/em>. Podemos deduzir que o gozo do\u00a0<em>sinthoma<\/em>\u00a0refere-se a um saber-fazer a partir do qual o sujeito pode ligar um peda\u00e7o do real ao semblante, uma vez que o semblante que permite enquadrar a realidade onde pisamos depende da amarra\u00e7\u00e3o do real, isto \u00e9, de forma que um acontecimento de corpo, aquele que \u00e9 pr\u00f3prio a um falasser singular, possa ser concernido.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse sentido que se pode dizer que o gozo do\u00a0<em>sinthoma<\/em>\u00a0\u00e9 um gozo poss\u00edvel que resulta de um tratamento do imposs\u00edvel. A cl\u00ednica borromeana pode ser ent\u00e3o concebida a partir de uma pragm\u00e1tica que concerne ao sintoma. Em suas v\u00e1rias facetas, se considerarmos as variedades e as exig\u00eancias borromeanas das quais resulta essa possibilidade, poder\u00edamos afirmar, de acordo com essa pragm\u00e1tica, que \u201c\u00e9 de suturas e emendas que se trata na an\u00e1lise\u201d (LACAN, 1975\/76, p. 71).<\/p>\n<p>Proponho, para concluir, lembrar simplesmente em que consiste essa pragm\u00e1tica anal\u00edtica Ela diz respeito \u00e0s diferentes conex\u00f5es do falasser que o\u00a0<em>sinthoma<\/em>\u00a0busca concernir como suporte do sujeito: o corpo, o la\u00e7o social, o pensamento e o sexo.\u00a0<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>DEFFIEUX, J.-P. \u201cUm caso nem t\u00e3o raro\u201d. In:\u00a0<strong>Os casos raros, inclassific\u00e1veis, da cl\u00ednica psicanal\u00edtica<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Biblioteca Freudiana Brasileira, 1998, p. 13-18.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1895) \u201cProjeto para uma Psicologia Cient\u00edfica\u201d. In:\u00a0<strong>Obras Completas de Sigmund Freud<\/strong>. Rio de Janeiro: Ed. Imago, 1969, vol. I, p. 381-533.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1923) \u201cO eu e o id\u201d. In:\u00a0<strong>Obras Completas de Sigmund Freud<\/strong>. Rio de Janeiro: Ed. Imago, 1969, vol. XIX, p. 13-85.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1975\/76)\u00a0<strong>O Semin\u00e1rio, Livro 23<\/strong><em>:\u00a0<\/em>o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed., 2007.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. \u201cTelevis\u00e3o\u201d. In:\u00a0<strong>Outros Escritos<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed., 2003a, p. 508-542.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. \u201cJoyce, o Sintoma\u201d. In:\u00a0<strong>Outros Escritos<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed., 2003b, p. 560-565.<\/h6>\n<h6>SORIA DAFUNCHIO, N.\u00a0<strong>Confines de las psicoses<\/strong>. Buenos Aires: Del Bucle, 2008.<\/h6>\n<h6>SCHEJTMAN, F.\u00a0<strong>Las dos cl\u00ednicas de Lacan<\/strong>. Buenos Aires: Tres Haches, 2000.<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9.\u00a0<strong>O avesso da biopol\u00edtica<\/strong>. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2016.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/do-no-com-suporte#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a>\u00a0Texto apresentado no \u00a0N\u00facleo de Pesquisa em Psican\u00e1lise e Psicose da Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica \u00a0do Instituto de Psican\u00e1lise e Sa\u00fade Mental de Minas Gerais, em 29 de abril de 2022.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/do-no-com-suporte#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a>\u00a0\u00a0Conforme destacado por n\u00f3s nas refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas para este texto.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frederico Feu de Carvalho Psicanalista. Membro da EBP-MG\/AMP fredericofeu@uol.com.br Resumo:\u00a0A partir do terceiro cap\u00edtulo do\u00a0Semin\u00e1rio 23, de J. Lacan, o texto se prop\u00f5e a esclarecer a utiliza\u00e7\u00e3o do n\u00f3 borromeano por Lacan e algumas de suas aplica\u00e7\u00f5es \u00e0 cl\u00ednica das psicoses. Nesse contexto, confere-se privil\u00e9gio \u00e0 no\u00e7\u00e3o de\u00a0Sinthoma\u00a0como suporte do sujeito. Palavras-chave:\u00a0N\u00f3 borromeano; Sinthoma; sujeito.&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57847,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[25],"tags":[],"class_list":["post-1973","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-29","category-25","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1973","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1973"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1973\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57848,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1973\/revisions\/57848"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57847"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1973"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1973"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1973"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}