{"id":1980,"date":"2023-08-19T06:42:44","date_gmt":"2023-08-19T09:42:44","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1980"},"modified":"2023-08-19T06:42:44","modified_gmt":"2023-08-19T09:42:44","slug":"a-experiencia-analitica-de-testemunhos-de-perda-no-hospital","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2023\/08\/19\/a-experiencia-analitica-de-testemunhos-de-perda-no-hospital\/","title":{"rendered":"A experi\u00eancia anal\u00edtica de testemunhos de perda no hospital"},"content":{"rendered":"<h6>Marina del Papa<br \/>\nPsicanalista, mestra em Estudos Psicanal\u00edticos pela UFMG e aluna do IPSM-MG<br \/>\nmarina.delpapa09@gmail.com<\/h6>\n<blockquote><p><strong>Resumo:\u00a0<\/strong>Este trabalho visa a transmitir o relato de uma experi\u00eancia cl\u00ednica orientada pela psican\u00e1lise dentro de um hospital. Parte-se da premissa de que, quando um sujeito busca uma institui\u00e7\u00e3o hospitalar, ele o faz, a princ\u00edpio, pela urg\u00eancia biol\u00f3gica e traum\u00e1tica de seu corpo; por\u00e9m, de maneira concomitante, pode-se verificar uma atualiza\u00e7\u00e3o ps\u00edquica e singular de sua rela\u00e7\u00e3o com a castra\u00e7\u00e3o e o real. A pr\u00e1tica psicanal\u00edtica passa fundamentalmente por algo desta ordem: um testemunho de perda, seja em sua constru\u00e7\u00e3o te\u00f3rico-cl\u00ednica, seja na travessia do fantasma no final de uma an\u00e1lise. Trabalhar em um hospital traz a possibilidade de n\u00e3o s\u00f3 revisitar conceitos importantes \u00e0 escuta cl\u00ednica, como tamb\u00e9m fazer ressoar a pot\u00eancia da presen\u00e7a do analista com seu corpo, enquanto via transferencial de testemunho para o sujeito.<\/p>\n<p><b>Palavras-chave:<\/b>\u00a0Psican\u00e1lise; testemunho de perda; hospital.<\/p>\n<p><b>THE PSYCHOANALYTICAL EXPERIENCE OF TESTIMONIALS OF LOSS IN THE HOSPITAL<\/b><\/p>\n<p><b>Abstract:<\/b>\u00a0This work aims to convey the report of a clinical experience guided by psychoanalysis within a hospital. It is assumed that, when a subject goes to a hospital, he does so, at first, because of the biological and traumatic urgency of his body; however, at the same time, it is possible to verify a psychic and singular update of his relationship with castration and the real. The psychoanalytic practice fundamentally passes through something of this order: a testimony of loss, whether in its theoretical-clinical construction, or in the crossing of the phantasm at the end of an analysis. Working in a hospital brings the possibility of not only revisiting important concepts for clinical listening, but also echoing the power of the psychoanalyst&#8217;s presence with his body, as a transferential path of testimony to the subject.<\/p>\n<p><b>Keywords:<\/b>\u00a0Psychoanalysis; testimony of loss; hospital.<\/p><\/blockquote>\n<div id=\"attachment_1981\" style=\"width: 379px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/DE_UMA_NOVA_GERAO_-_MARINA_DEL_PAPA-1.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"369\" data-large_image_height=\"424\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1981\" class=\"wp-image-1981\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/DE_UMA_NOVA_GERAO_-_MARINA_DEL_PAPA-1.jpg\" alt=\"\" width=\"437\" height=\"502\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1981\" class=\"wp-caption-text\">CAROLINA BOTURA. CASA PARA UM ANIMAL<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em vista das discuss\u00f5es levantadas durante o segundo per\u00edodo de forma\u00e7\u00e3o do Instituto de Psican\u00e1lise e Sa\u00fade Mental de Minas Gerais, as quais se baseavam na pr\u00e1tica do analista em institui\u00e7\u00f5es, e da tem\u00e1tica proposta para o Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, \u201cAnalista: Presente!\u201d, vi-me interessada em escrever sobre minha experi\u00eancia de trabalho dentro de um hospital de Belo Horizonte (MG). O fragmento de caso que compartilho a seguir tornou oportuna a retomada de conceitos importantes da psican\u00e1lise, como a\u00a0<i>localiza\u00e7\u00e3o subjetiva<\/i>\u00a0e a\u00a0<i>transfer\u00eancia<\/i>, e, igualmente, abriu margem para uma reflex\u00e3o sobre a presen\u00e7a do analista como via de testemunho, posi\u00e7\u00e3o esta que torna poss\u00edvel um\u00a0<i>giro<\/i>\u00a0a partir do qual o sujeito pode avan\u00e7ar sobre seu dito e sua implica\u00e7\u00e3o com a perda.\u00a0<span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559738&quot;:120,&quot;335559740&quot;:360}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><i>O caso Rubens<\/i><\/p>\n<p>Rubens era um senhor de 76 anos para o qual foi requisitada assist\u00eancia psicol\u00f3gica devido \u00e0 ang\u00fastia da equipe m\u00e9dica que o tratava, que n\u00e3o conseguia realizar o diagn\u00f3stico de sua doen\u00e7a. O que se sabia desse paciente \u00e9 que ele sofria de algo relacionado ao p\u00e2ncreas, embora isso n\u00e3o ficasse claro nos exames tumorais.<\/p>\n<p>Esse sujeito n\u00e3o recebia visitas. Era educado com a equipe, mas bastante solit\u00e1rio. Acompanhei-o por cinco meses, at\u00e9 o momento de sua morte. Boa parte desse per\u00edodo \u2014 quatro meses exatamente \u2014 se destinou \u00e0 defini\u00e7\u00e3o de seu diagn\u00f3stico. Sempre o encontrava deitado; nisso, sentava-me a seu lado e buscava investigar sua hist\u00f3ria. Ele falava muito pouco sobre si e, por isso, pude colher apenas poucos dados: \u201cfui diagnosticado com bipolaridade muitos anos atr\u00e1s\u201d, \u201cperdi uma filha quando ela era crian\u00e7a por um c\u00e2ncer\u201d, \u201ctenho filhos, mas n\u00e3o s\u00e3o pr\u00f3ximos\u201d e \u201cum casamento perdido\u201d.<\/p>\n<p>O paciente sempre interpunha \u00e0 continua\u00e7\u00e3o de sua hist\u00f3ria queixas de dor. Revirando-se na cama, ele dizia das dores que tinha no corpo. A prop\u00f3sito, fazia uma descri\u00e7\u00e3o detalhada delas. Permaneci acompanhando-o, sentando-me ao lado de sua cama, na presen\u00e7a constante de suas queixas. Seu corpo n\u00e3o mais respondia a uma s\u00e9rie de fun\u00e7\u00f5es. Houve dias em que apenas o acompanhei em seu sil\u00eancio. Ali\u00e1s, por alguns meses, essa foi a forma de acompanhamento que pude ofertar: uma presen\u00e7a e uma disponibilidade de escuta, indo a seu leito quase diariamente.<\/p>\n<p>Depois de alguns meses, durante uma sess\u00e3o, teve in\u00edcio o\u00a0<i>giro<\/i>\u00a0do caso. Nesse dia, Rubens afirmou sentir muita dor. Ele mal conseguia se movimentar no leito, contorcendo-se agoniado e com febre, o que o fazia ter calafrios. Ele, ent\u00e3o, sorriu para mim e disse: \u201cQue profiss\u00e3ozinha ruim a sua, hein?! Vir sempre aqui para me ouvir queixar de dor\u201d. Eu o respondi dizendo: \u201cSou otimista, espero sempre que diga algo mais interessante\u201d. O paciente tremia de frio. Em vista disso, levantei-me e o cobri com o cobertor. Nesse momento, ele demonstrou espanto com meu gesto, agradecendo-me em seguida.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s essa sess\u00e3o, ocorreram algumas mudan\u00e7as com Rubens: ele passou a se sentar na cama para os atendimentos, dando amostras de que um sujeito come\u00e7ou a se presentificar ali. Outro modo de dizer se instaurou. O paciente p\u00f4de construir uma elabora\u00e7\u00e3o sobre um momento traum\u00e1tico de sua vida, que foi a perda de sua filha: \u201cBriguei com tudo e todos\u201d. Ele considerava justa sua solid\u00e3o: \u201cFiz mal a meus filhos e minha esposa; \u00e9 natural que n\u00e3o venham. Eu causei tudo isso, fiz coisas muito erradas. \u00c9 justo que eu morra sozinho, mas n\u00e3o gostaria de morrer com dor. [&#8230;] Est\u00e1 perdido, n\u00e3o tem mais o que ser feito\u201d. Cortes, interpreta\u00e7\u00f5es, desconstru\u00e7\u00f5es e conclus\u00f5es foram sendo produzidos pelo paciente. Outra elabora\u00e7\u00e3o foi sobre como ter uma morte mais digna dentro das coisas que ele fez na vida e de outras que ele perdeu, sem possibilidade de restaura\u00e7\u00e3o. Em uma das sess\u00f5es, j\u00e1 com um sujeito instaurado, pude dizer a ele: \u201cHoje voc\u00ea trabalhou\u201d. Nisso, ele me respondeu: \u201cVoc\u00ea sempre vem aqui&#8230; \u00c9 um modo de eu retribuir seu trabalho, seu amor, e [de] voc\u00ea lembrar que est\u00e1 no lugar certo\u201d.<\/p>\n<p>Rubens veio a falecer pouco tempo depois. Como ficou acordado pela equipe m\u00e9dica ap\u00f3s o diagn\u00f3stico de c\u00e2ncer no p\u00e2ncreas, ele n\u00e3o seria submetido a tratamentos com poucas chances de \u00eaxito, tendo sido realizado apenas um paliativo. Juntamente \u00e0 equipe, foi poss\u00edvel colocar em jogo a posi\u00e7\u00e3o desse paciente: ele n\u00e3o poderia evitar a morte, mas poderia morrer sem grandes dores. Essa foi a \u00e9tica poss\u00edvel para esse sujeito, que p\u00f4de realizar algum trabalho sobre suas perdas.\u00a0<span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559738&quot;:120,&quot;335559740&quot;:360}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><i>Considera\u00e7\u00f5es iniciais<\/i><\/p>\n<p>Quando oferecemos um espa\u00e7o de escuta, como no caso de Rubens, algumas vezes nos deparamos com sujeitos em uma posi\u00e7\u00e3o apagada, posi\u00e7\u00e3o essa mais voltada \u00e0 descri\u00e7\u00e3o corporal dos sintomas e a uma verifica\u00e7\u00e3o queixosa da manifesta\u00e7\u00e3o destes. Digo\u00a0<i>algumas vezes<\/i>\u00a0porque entendo que a maioria dos casos n\u00e3o \u00e9 assim. Nesse sentido, o primeiro ponto que considero importante destacar para compreender a experi\u00eancia de um testemunho de perda \u00e9 a presen\u00e7a do analista.\u00a0<span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559738&quot;:120,&quot;335559740&quot;:360}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><i>Presen\u00e7a como testemunha<\/i><\/p>\n<p>Clotilde Leguil (2022) escreveu, no boletim extra\u00a0<i>A presen\u00e7a do psicanalista como testemunha de perda<\/i>, que a presen\u00e7a do analista \u00e9 articulada por Lacan n\u00e3o tanto a uma aus\u00eancia, mas a uma perda. O fato de o analista estar ali com seu corpo, com sua voz, com sua respira\u00e7\u00e3o no mesmo lugar em que est\u00e1 o analisante \u2014 este tamb\u00e9m com seu corpo e com sua ang\u00fastia \u2014 tem uma fun\u00e7\u00e3o decisiva. O corpo do analista em sua modalidade de presen\u00e7a exerce uma fun\u00e7\u00e3o de testemunha daquilo que se perde. O surgimento do inconsciente se produz no pr\u00f3prio modo daquilo que aparece e depois desaparece, no modo do que se d\u00e1 a conhecer e depois se deixa esquecer, no modo do que estava l\u00e1, mas que j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 mais. A autora acrescenta que o inconsciente se manifesta como o que se perde, como aquilo que apenas \u00e9 encontrado, que j\u00e1 est\u00e1 perdido, ganhando consist\u00eancia se, e somente se, houver uma testemunha de seu surgimento.<\/p>\n<p>Depreendo, do fragmento supracitado, a import\u00e2ncia da dimens\u00e3o da presen\u00e7a, isto \u00e9, a import\u00e2ncia de manter constantes as idas, de convocar esse sujeito a falar e, mais do que falar, de acompanhar, em meio a seu dito, as dores, as ang\u00fastias e os odores do corpo: em outras palavras, estar ao lado daquele corpo. A sess\u00e3o que ocorre como divisor de \u00e1guas, como ponto de muta\u00e7\u00e3o de um sujeito que descrevia suas dores para outro sujeito, que inicia um trabalho anal\u00edtico, \u00e9 aquela que tem como marca a constata\u00e7\u00e3o de Rubens: \u201cVir sempre aqui para me ouvir queixar de dor\u201d. Essa \u00e9 uma indica\u00e7\u00e3o pass\u00edvel de ser compreendida como testemunho? O texto de Clotilde Leguil nos leva a recordar da terminologia lacaniana\u00a0<i>testemunha<\/i>\u00a0para abarcar a presen\u00e7a do analista. Lacan (1964) ressalta que, desde o in\u00edcio da psican\u00e1lise, quando Freud trabalha a estrutura do inconsciente e instaura uma pr\u00e1tica, esse \u00e9 um campo que, por natureza, se perde. \u00c9 a\u00ed que a presen\u00e7a do analista \u00e9 irredut\u00edvel, como testemunha dessa perda.<\/p>\n<p>Compreendo, a partir disso e tendo acompanhado Rubens por quatro meses, que existe uma sustenta\u00e7\u00e3o em suportar o corpo real enquanto presen\u00e7a. Enquanto orienta\u00e7\u00e3o cl\u00ednica, aposta-se que exista um sujeito que se instaura pela perda. \u00c9 por essa orienta\u00e7\u00e3o, n\u00e3o desassociada do ato de suportar o corpo e sua ang\u00fastia, que se pode dizer: \u201cSou otimista, espero sempre que diga algo mais interessante\u201d. Dessa forma, outro elemento indispens\u00e1vel para essa reflex\u00e3o \u00e9 a\u00a0<i>transfer\u00eancia<\/i>.<\/p>\n<p>O segundo momento do fragmento, em que o paciente inicia seu trabalho e uma abertura subjetiva se instaura, ele nomeia \u201cde amor\u201d: \u201cVoc\u00ea sempre vem aqui&#8230; \u00c9 um modo de eu retribuir seu trabalho, seu amor, e [de] voc\u00ea lembrar que est\u00e1 no lugar certo\u201d. Isso demonstra que a transfer\u00eancia se instaura em uma constata\u00e7\u00e3o de localidade subjetiva com o Outro, a qual n\u00e3o seria vi\u00e1vel sem a presen\u00e7a da localidade enquanto presen\u00e7a. Assim, como encontramos na orienta\u00e7\u00e3o lacaniana, a transfer\u00eancia vinculada a uma presen\u00e7a \u00e9 necess\u00e1ria (LACAN, 1964).<\/p>\n<p>Por fim, tendo sido instaurados esses elementos para Rubens, verifica-se uma ultrapassagem do dito para um sujeito com um inconsciente, pois, quando avan\u00e7ada essa constata\u00e7\u00e3o de presen\u00e7a, o paciente se coloca a trabalhar, relacionando a perda traum\u00e1tica de sua filha, que morreu de c\u00e2ncer quando era crian\u00e7a, a um c\u00e2ncer descoberto em est\u00e1gio avan\u00e7ado, dizendo do trauma que o marcava por ter presenciado a hemorragia no corpo da menina. Rubens constata em sess\u00e3o que, ap\u00f3s a morte da filha, ele se colocou em uma posi\u00e7\u00e3o desenfreada na vida, enquanto sujeito disposto a perder todo o resto: o casamento, os filhos, o dinheiro, o emprego, nada mais lhe importava. Pr\u00f3ximo de morrer, ele p\u00f4de julgar a aus\u00eancia de algu\u00e9m.<\/p>\n<p>Sendo assim, levanto o \u00faltimo elemento da reflex\u00e3o: para que haja o testemunho do analista, \u00e9 necess\u00e1ria a localiza\u00e7\u00e3o subjetiva do sujeito com seu inconsciente; \u00e9 nesse momento que o que est\u00e1 em jogo n\u00e3o \u00e9 mais apenas um espa\u00e7o de escuta, mas, sim, uma experi\u00eancia anal\u00edtica. S\u00f3 existe um testemunho. Se existe um sujeito aberto a essa experi\u00eancia, \u00e9 necess\u00e1ria a presen\u00e7a de um analista que queira coloc\u00e1-lo a trabalho.\u00a0<span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559738&quot;:120,&quot;335559740&quot;:360}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><i>A localiza\u00e7\u00e3o subjetiva<\/i><\/p>\n<p>O analista, como testemunha de perda, testemunha, na presen\u00e7a de um sujeito, quando este aparece ou \u00e9 convocado aparecer. O sujeito surge, como diz Lacan (1966), para al\u00e9m de seus ditos, sendo implicado pela demanda que ele apresenta. Isso equivale a um sujeito com um sintoma que ultrapassa o diagn\u00f3stico m\u00e9dico. Como mencionado por Lacan, trata-se de um sintoma como enigma para o sujeito que tem uma fantasia \u2014 essa seria uma condi\u00e7\u00e3o m\u00ednima definida como instrumento.<\/p>\n<p>Miller (1997), em\u00a0<i>Lacan elucidado<\/i>, nos orienta exatamente sobre essa diferencia\u00e7\u00e3o quando toca o m\u00e9todo lacaniano para que possa se apresentar como uma an\u00e1lise: o mecanismo dos ditos \u00e9 falso, pois este n\u00e3o vale mais que o mecanismo da psicologia do\u00a0<i>eu<\/i>. A localiza\u00e7\u00e3o subjetiva consiste em distinguir entre o dito e a posi\u00e7\u00e3o frente a ele, que \u00e9 o pr\u00f3prio sujeito. \u00c9 necess\u00e1rio sempre inscrever algo, com um \u00edndice subjetivo do dito, o que verificamos no mal-entendido, naquilo que o paciente apresenta como uma verdade absoluta ou no que \u00e9 predominantemente falso, no que ele deseja mas teme, ultrapassando o sentido de um dito.\u00a0<span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559738&quot;:120,&quot;335559740&quot;:360}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><i>Considera\u00e7\u00f5es finais<\/i><\/p>\n<p>A partir dessa experi\u00eancia, reflito sobre a import\u00e2ncia da presen\u00e7a de uma orienta\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica nas institui\u00e7\u00f5es. A presen\u00e7a e a conduta dessa orienta\u00e7\u00e3o implicam uma aposta no inconsciente e em sua abertura. Para isso, \u00e9 necess\u00e1rio fazer presen\u00e7a, \u00e0s vezes, com as palavras, outras, com o corpo, mas sempre apostando em uma possibilidade singular para cada sujeito e que este possa se ouvir e se implicar para al\u00e9m do que \u00e9 dito. Isso ultrapassa qualquer protocolo hospitalar, incluindo tempo de sess\u00e3o, quantidade de atendimentos por dia, o que o plano de sa\u00fade sugere etc. N\u00e3o se trata de nada disso. \u00c9 uma aposta em oferecer uma experi\u00eancia de testemunho, elevando o sujeito \u00e0 maior dignidade poss\u00edvel: a de ser sujeito de sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559738&quot;:120,&quot;335559740&quot;:360}\">\u00a0<\/span><b>Refer\u00eancias<\/b><\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1964).\u00a0<b>O semin\u00e1rio. Livro XI: Os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise.<\/b>\u00a0Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1966).\u00a0<b>Escritos.<\/b>\u00a0Rio de janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.<\/h6>\n<h6>LEGUIL, C. A presen\u00e7a do psicanalista como testemunha de perda. 2022. Dispon\u00edvel em: http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/presenca-do-psicanalista-como-testemunha-da-perda\/<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A.\u00a0<b>Lacan elucidado.\u00a0<\/b>Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1997.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marina del Papa Psicanalista, mestra em Estudos Psicanal\u00edticos pela UFMG e aluna do IPSM-MG marina.delpapa09@gmail.com Resumo:\u00a0Este trabalho visa a transmitir o relato de uma experi\u00eancia cl\u00ednica orientada pela psican\u00e1lise dentro de um hospital. 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