{"id":1984,"date":"2023-08-19T06:42:44","date_gmt":"2023-08-19T09:42:44","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1984"},"modified":"2023-08-19T06:42:44","modified_gmt":"2023-08-19T09:42:44","slug":"paternidade-e-neurose-obsessiva-a-literatura-de-karl-ove-knausgard","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2023\/08\/19\/paternidade-e-neurose-obsessiva-a-literatura-de-karl-ove-knausgard\/","title":{"rendered":"Paternidade\u00a0e neurose obsessiva : a literatura de Karl Ove Knausgard"},"content":{"rendered":"<h6><strong>Wallace Faustino da Rocha Rodrigues<\/strong><br \/>\nDoutor em Ci\u00eancias Sociais, professor de Sociologia na UEMG e aluno do IPSM-MG<br \/>\n<a href=\"mailto:wallacefaustinorocha@hotmail.com\">wallacefaustinorocha@hotmail.com<\/a><\/h6>\n<blockquote><p><strong>Resumo:\u00a0<\/strong>Seguindo o Complexo de \u00c9dipo, o sujeito ante \u00e0 amea\u00e7a de castra\u00e7\u00e3o tende a ver o pai como o detentor do falo e, consequentemente, obst\u00e1culo \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de seu desejo \u2014 quadro esse que se imp\u00f5e durante toda a sua vida. Diante desse princ\u00edpio, \u00e0 luz dos tr\u00eas tempos l\u00f3gicos do \u00c9dipo propostos por Lacan, pretende-se uma reflex\u00e3o sobre a paternidade na neurose obsessiva a partir de um olhar sobre a obra do escritor Karl Ove Knausgard, de modo a proporcionar uma discuss\u00e3o mais ampla sobre a tem\u00e1tica.<\/p>\n<p><b>Palavras-chave:<\/b>\u00a0Paternidade; neurose obsessiva; Karl Ove Knausgard<\/p>\n<p><b>FATHERHOOD AND OBSESSIONAL NEUROSIS: THE LITERATURE OF KARL OVE KNAUSGARD<\/b><\/p>\n<p><b>Abstract<\/b><\/p>\n<p>Following the Oedipus Complex, the subject, faced with the threat of castration, tends to see the father as the holder of the phallus and, consequently, an obstacle to the fulfillment of his desire \u2014 a situation that imposes itself throughout his life. From this principle, in the light of the three logical stages of Oedipus proposed by Lacan, a reflection on fatherhood in obsessional neurosis is intended from a look at the work of the writer Karl Ove Knausgard in order to provide a broader discussion about the theme.<\/p>\n<p><b>Keywords:<\/b>\u00a0Fatherhood; obsessional neurosis; Karl Ove Knausgard<\/p><\/blockquote>\n<div id=\"attachment_1985\" style=\"width: 379px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/DE_UMA_NOVA_GERAO_-_WALLACE_FAUSTINO.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"369\" data-large_image_height=\"389\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1985\" class=\"wp-image-1985 \" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/DE_UMA_NOVA_GERAO_-_WALLACE_FAUSTINO.jpg\" alt=\"\" width=\"492\" height=\"519\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1985\" class=\"wp-caption-text\">CAROLINA BOTURA.\u00a0RAINHA<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><em>\u201cUma crian\u00e7a era vida, e quem gostaria de virar as costas para a vida?\u201d<\/em><br \/>\n<em>Karl-Ove Knausgard,\u00a0Um outro amor<\/em><\/p>\n<p>Em\u00a0<i>O homem dos ratos<\/i>, Freud apresenta como a imagem do falecido pai de seu paciente \u00e9 recriada simbolicamente com a finalidade de barrar o seu desejo (FREUD, 1909\/2020). Reconstru\u00eddo na teia do imagin\u00e1rio, o Pai vigilante \u00e9 aquele por quem o neur\u00f3tico espera aprova\u00e7\u00e3o ou rejei\u00e7\u00e3o. O engano do neur\u00f3tico \u00e9 o de que o Outro cerceia o seu desejo, prendendo-se enganado em sua pr\u00f3pria trama de que, restitu\u00eddo o Pai, conseguiria a realiza\u00e7\u00e3o de seu desejo \u2014 ao mesmo tempo em que a sua restitui\u00e7\u00e3o representa o vigor da castra\u00e7\u00e3o (LACAN, 1966\/2021).<\/p>\n<p>O pai simb\u00f3lico, morto, \u00e9 agente de interdi\u00e7\u00e3o, abrindo o acesso ao desejo por sua submiss\u00e3o \u00e0 lei, unindo desejo e lei. Por sua vez, o pai imagin\u00e1rio \u00e9 aquele constru\u00eddo involuntariamente pelo neur\u00f3tico em sua vers\u00e3o idealizada ou terr\u00edvel. O obsessivo, portanto, volta-se para pagar a d\u00edvida paterna, sendo que a sua vers\u00e3o idealizada, ou terr\u00edvel, \u00e9 uma forma de encobri-la. Freud demonstra isso no relato que faz do desespero de seu paciente em pagar a d\u00edvida referente ao\u00a0<i>pince-nez<\/i>\u00a0perdido. Se n\u00e3o o paga, o falecido pai seria punido \u2014 por\u00e9m, essa d\u00edvida n\u00e3o existe (FREUD, 1909\/2020).<\/p>\n<p>O redimensionamento do Outro, que n\u00e3o est\u00e1 ali, e a permanente amea\u00e7a de castra\u00e7\u00e3o paralisa o neur\u00f3tico, tornando-o impotente na realiza\u00e7\u00e3o do desejo. Assim, questiona-se: quando a amea\u00e7a de castra\u00e7\u00e3o se torna menos evidente, a ponto de permitir maior possibilidade de o neur\u00f3tico prosseguir em dire\u00e7\u00e3o ao seu desejo? Para efeitos deste texto, a paternidade \u00e9 uma delas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><i>Paternidade e obsess\u00e3o<\/i><\/p>\n<p>Na teia do \u00c9dipo, o pai deseja a m\u00e3e, interditando-a \u00e0 crian\u00e7a, que passa a dividir o seu objeto de desejo com a figura castradora. Ambiciona, ent\u00e3o, a morte do pai para ter a exclusividade do objeto desejado.<\/p>\n<p>Em Lacan, o Nome-do-Pai est\u00e1 no discurso da m\u00e3e, sendo para onde aponta o desejo. A met\u00e1fora paterna \u00e9 uma opera\u00e7\u00e3o significante articulando o Complexo de \u00c9dipo ao de Castra\u00e7\u00e3o. Logo, o \u00c9dipo deixa a sua base evolucionista do desenvolvimento infantil ao permanecer atemporal, por se situar em uma premissa da estrutura. Desse modo s\u00e3o apresentados tr\u00eas tempos l\u00f3gicos para o \u00c9dipo (LACAN, 1957-1958\/1999).<\/p>\n<p>O primeiro est\u00e1 centrado na identifica\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a ao objeto de desejo da m\u00e3e \u2014 equival\u00eancia falo e crian\u00e7a. Ergue-se uma tr\u00edade a partir desses dois elementos: crian\u00e7a, m\u00e3e e falo. Ser falante, a m\u00e3e fica submetida \u00e0 lei simb\u00f3lica, tornando-se um Outro absoluto para a crian\u00e7a.<\/p>\n<p>No segundo tempo est\u00e1 a simboliza\u00e7\u00e3o \u2014 o\u00a0<i>fort-da<\/i>\u00a0(FREUD, 1920\/2019b). A m\u00e3e, representada pelo carretel, tamb\u00e9m o \u00e9 por palavras, enunciando a sua simboliza\u00e7\u00e3o. \u00c9 a entrada da crian\u00e7a na linguagem. Pela premissa do est\u00e1gio do espelho, ergue-se o binarismo significante S1 e S2, por onde o sujeito caminharia.<\/p>\n<p>Antes disso, a intermedia\u00e7\u00e3o crian\u00e7a-m\u00e3e se dava pelo falo. A linguagem passa a condicionar o posicionamento da crian\u00e7a no mundo. A m\u00e3e deixa de ser objeto primordial, passando ao de signo. Com a met\u00e1fora paterna, o desejo da m\u00e3e \u00e9 deslocado para outro lugar, n\u00e3o mais estando na crian\u00e7a.<\/p>\n<p>Significante, o Nome-do-Pai faz a m\u00e3e ser simbolizada. Se, no primeiro tempo l\u00f3gico, o Outro \u00e9 a m\u00e3e, o Nome-do-Pai barra o Outro absoluto; no segundo, a crian\u00e7a \u00e9 inserida na ordem do simb\u00f3lico. Lacan introduz o \u00c9dipo da castra\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, faz com que a identifica\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a com o falo da m\u00e3e seja recalcada e coloca a m\u00e3e no n\u00edvel significante do desejo do Outro.<\/p>\n<p>No terceiro tempo tem-se o decl\u00ednio do Complexo de \u00c9dipo, com o menino deixando de ser falo para ser algu\u00e9m com falo. \u00c9 iniciado o processo de significa\u00e7\u00e3o ao seu p\u00eanis, com o pai como identifica\u00e7\u00e3o com o ideal do eu. A matriz simb\u00f3lica \u00e9 o significante Nome-do-Pai, conferindo-lhe virilidade \u2014 j\u00e1 a menina \u00e9 posicionada como objeto de desejo masculino.<\/p>\n<p>Em sua exist\u00eancia como algu\u00e9m com falo, h\u00e1 o temor pela castra\u00e7\u00e3o. O ideal do eu, simbolizado na figura paterna, edifica-se no universo simb\u00f3lico como constru\u00e7\u00e3o sua. Entende-se a grande admira\u00e7\u00e3o ao pai em\u00a0<i>Homem dos ratos<\/i>\u00a0e explica-se, ent\u00e3o, os seus dilemas, sobretudo no tocante \u00e0 escolha do casamento, sempre \u00e0 espera da aprova\u00e7\u00e3o do pai simb\u00f3lico, adiando a realiza\u00e7\u00e3o de seu desejo. O temor pela perda do falo acompanha o de n\u00e3o corresponder \u00e0s expectativas de algu\u00e9m t\u00e3o grande (FREUD, 1909\/2020).<\/p>\n<p>Ao obsessivo, a amea\u00e7a ao falo \u00e9 constante. Ao se relacionar com um ser castrado, teme perder o falo. Diante disso, tomando os tr\u00eas tempos l\u00f3gicos acima apresentados, mostra-se como a m\u00e3e, em determinado momento, por possuir o seu pr\u00f3prio falo, deixa de ser uma amea\u00e7a castradora. Por isso que a paternidade poderia ser, para o obsessivo, o testemunho da pot\u00eancia e a possibilidade de se romper com a trama neur\u00f3tica na qual se encontra enredado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><i>Paternidade e pot\u00eancia \u2014 um caso na literatura<\/i><\/p>\n<p>Para ilustrar essa discuss\u00e3o, toma-se a obra de Karl Ove Knausgard. Em seu projeto liter\u00e1rio\u00a0<i>Minha luta<\/i>, dividido em seis volumes, o escritor noruegu\u00eas trata epis\u00f3dios de sua vida elaborando remotas lembran\u00e7as da inf\u00e2ncia at\u00e9 obscuros pensamentos e preconceitos, a ponto de promoverem um inevit\u00e1vel julgamento da parte de seus leitores.<\/p>\n<p>Para os prop\u00f3sitos do presente artigo, os dois primeiros volumes mostram-se mais significativos, contribuindo para que o elemento obsessivo seja observado na trajet\u00f3ria do escritor\/personagem. Em\u00a0<i>A morte do pai<\/i>, Knausgard centra a narrativa na figura paterna (KNAUSGARD, 2015a). Em seu relato, tem-se um homem distante, incompreens\u00edvel para os filhos e at\u00e9 mesmo para a m\u00e3e. Tir\u00e2nico, isola-se no alcoolismo. N\u00e3o h\u00e1, ao longo do livro, descri\u00e7\u00e3o de momentos agrad\u00e1veis vividos com os dois filhos \u2014 Knausgard era o ca\u00e7ula. Pelo contr\u00e1rio, pois a conviv\u00eancia m\u00fatua \u00e9 sempre relatada a partir de uma sufocante tens\u00e3o.<\/p>\n<p>Curioso \u00e9 que os castigos sempre esperados de um pai autorit\u00e1rio raramente se mostram presentes, denotando a explora\u00e7\u00e3o do simb\u00f3lico da parte do autor da obra. Ao contr\u00e1rio, tem-se sempre a apresenta\u00e7\u00e3o quanto ao que aconteceria se ele o descobrisse, com um excesso de cuidado para que isso n\u00e3o ocorresse \u2014 parece mais uma obsess\u00e3o pelo castigo do que a sua realidade.<\/p>\n<p>Em contrapartida, Knausgard escreve apresentando-se como um jovem repleto de frustra\u00e7\u00f5es, como as pelo seu p\u00e9ssimo desempenho como m\u00fasico da banda de rock da qual faz parte, por ser um escritor e redator med\u00edocre e descompromissado, pelo excesso de timidez e fracasso nas tentativas de relacionamento com as meninas \u2014 a perda da virgindade tarda ainda por muitos anos \u2014, pela dificuldade com amizades, entre outras. Isso se d\u00e1 principalmente quando se compara constantemente ao seu irm\u00e3o mais velho, Ingve, descrito como bastante independente. Destaca-se que nunca elogia o seu pr\u00f3prio trabalho \u2014 embora louve os de muitos outros colegas.<\/p>\n<p>Como o t\u00edtulo do primeiro volume indica, o livro \u00e9 marcado pela morte de seu pai. Em sua descri\u00e7\u00e3o, isso se d\u00e1 de forma agonizante, em decorr\u00eancia do \u00e1lcool. A sua decr\u00e9pita situa\u00e7\u00e3o \u00e9 ilustrada ainda pelo relato de um epis\u00f3dio em que seu pai, dentro de casa, quebra a perna e opta por permanecer ferido no ch\u00e3o, bebendo, a pedir por socorro.<\/p>\n<p>Nota-se como, diferentemente do que se observa em\u00a0<i>O homem dos ratos<\/i>, o pai n\u00e3o \u00e9 digno de admira\u00e7\u00e3o, mas, sim, de repulsa \u2014 algo comum na neurose obsessiva, a exist\u00eancia de algo equivalente a esse polo tirania-admira\u00e7\u00e3o. Castrador, funciona como um constante juiz, e o neur\u00f3tico, sabendo de sua condi\u00e7\u00e3o limitadora, ainda assim, em seu imagin\u00e1rio, opera sempre em busca da aprova\u00e7\u00e3o desse Outro, figura austera provida de severidade, que, certamente, n\u00e3o vir\u00e1.<\/p>\n<p><i>Um outro amor<\/i>, o segundo volume, se inicia com a descri\u00e7\u00e3o de seu div\u00f3rcio com Tonje e sua mudan\u00e7a para Estocolmo, onde conhece Linda Bostr\u00f6m, com quem viria a ter tr\u00eas filhos. \u00c9 aqui, ap\u00f3s narrar a morte do pai, que Knausgard apresenta a felicidade da paternidade, alterando o tom de sua narrativa, mesmo ao exibir as dificuldades que enfrenta na concilia\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia com o trabalho (KNAUSGARD, 2014).<\/p>\n<p>\u00c0 sua chegada \u00e0 Su\u00e9cia, tem-se um reconhecimento insignificante do trabalho como escritor, pelo qual evidencia um grande desejo outrora cerceado pela figura do Pai. No come\u00e7o do livro, antes do nascimento de sua primog\u00eanita Vanja, muitos dos pensamentos obsedantes ainda se fazem presentes, como no caso em que, no encontro com outros escritores, apaixonado por Linda, tendo dificuldades com a poss\u00edvel aproxima\u00e7\u00e3o, faz, diante do espelho, diversos cortes em seu rosto. O fato, naturalmente, chama a aten\u00e7\u00e3o dos colegas, que n\u00e3o entendem o motivo pelo qual fez aquilo.<\/p>\n<p>Com a paternidade, Knausgard volta-se para a organiza\u00e7\u00e3o da casa, chegando a executar trabalhos bra\u00e7ais na reforma do novo lar para receber Vanja. A procrastina\u00e7\u00e3o para a escrita aos poucos se desvanece, e at\u00e9 se isola da esposa gr\u00e1vida para confeccionar um grande trabalho, cujo prazo para envio da vers\u00e3o final expirava. Esse trabalho viria a lhe credenciar maior reconhecimento na escrita, abrindo as portas para a posterior reda\u00e7\u00e3o de\u00a0<i>Minha luta<\/i>.<\/p>\n<p>Mesmo na consuma\u00e7\u00e3o da paternidade, tra\u00e7os de sua neurose ainda se fazem presentes. Para ilustrar esse ponto, basta trazer algumas de suas posturas ante Vanja, como a obsess\u00e3o pela limpeza da filha na hora de comer \u2014 uma caracter\u00edstica de seu pai no tratamento com os filhos que o autor deixa bastante demarcado.<\/p>\n<p>Interessante como, \u00e0 leitura da obra, nota-se exatamente o preceito assinalado por Gazolla, quando enuncia o teatro do obsessivo que roteiriza, dirige, assina a cenografia, atua, ilumina e assiste ao seu pr\u00f3prio espet\u00e1culo. O Pai simb\u00f3lico de Knausgard permanece mesmo ap\u00f3s a sua morte, que, em seu primeiro livro, da maneira como foi descrita, funciona como um modo de edulcorar a sua tirania. O totem, na configura\u00e7\u00e3o enunciada por Freud, ali permanece, castrando-o. Uma castra\u00e7\u00e3o apenas amenizada pela paternidade, ao transferir a sua libido para a produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, abrindo caminho para a execu\u00e7\u00e3o da escrita. Ap\u00f3s a paternidade, at\u00e9 mesmo trabalhos julgados como enfadonhos e dif\u00edceis, como o de revis\u00e3o de tradu\u00e7\u00e3o, tornam-se toler\u00e1veis e prazerosos, segundo os dizeres do pr\u00f3prio autor.<\/p>\n<p>Diante disso, a remiss\u00e3o \u00e0 sua inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia, no terceiro volume, se d\u00e1 de uma forma muito mais amena ao permitir a aproxima\u00e7\u00e3o com a arte (KNAUSGARD, 2015b). Aqui n\u00e3o se trata mais de desabafo, tal como no primeiro volume de\u00a0<i>Minha luta<\/i>. Knausgard escreve sobre a escrita e sua vida como escritor, outrora cerceado pela figura do Pai (KNAUSGARD, 2017).<\/p>\n<p>Se, como diz Lacan (1966\/2021), o obsessivo compensa a degrada\u00e7\u00e3o do pai ao buscar preencher o buraco simb\u00f3lico por ele deixado com o mito, com a fantasia, pode-se dizer que Knausgard segue essa trilha com a sua escrita. Em\u00a0<i>Homem dos ratos<\/i>, conjuga-se a imagem narc\u00edsica com o real dif\u00edcil de suportar. O paciente de Freud fica, ent\u00e3o, preso \u00e0s circunst\u00e2ncias de sua pr\u00f3pria fantasia, em que seu pai \u00e9 sustentado em um lugar inalcan\u00e7\u00e1vel (FREUD, 1909\/2020).\u00a0<i>Minha luta\u00a0<\/i>poderia seguir o mesmo caminho se se permanecesse apenas na triste morte do pai. Entretanto, Knausgard vai por outra dire\u00e7\u00e3o por meio da paternidade. O desejo de ser pai \u00e9 manifestado em sua primeira noite com Linda, insinuando uma sa\u00edda de seu lugar de vigiado, julgado pelo Pai (KNAUSGARD, 2014, 2015a).<\/p>\n<p>Nem de longe deseja-se esgotar essa tem\u00e1tica. A ideia fundamental \u00e9 a de apresentar contribui\u00e7\u00f5es que possam direcionar a uma discuss\u00e3o mais profunda sobre a paternidade e o lugar por ela ocupado na psican\u00e1lise. Tomou-se, aqui, a neurose obsessiva como refer\u00eancia.<\/p>\n<p><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559738&quot;:120,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:360}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<hr \/>\n<h6><b>Refer\u00eancias\u00a0<\/b><\/h6>\n<h6>FREUD, Sigmund. (1924). A dissolu\u00e7\u00e3o do complexo de \u00c9dipo. In: FREUD, Sigmund.\u00a0<b>Obras completas, volume 16<\/b>. Companhia das Letras, S\u00e3o Paulo, 2018.<\/h6>\n<h6>FREUD, Sigmund. (1912-1913). Totem e tabu. In: FREUD, Sigmund.\u00a0<b>Obras completas, volume 11<\/b>. Companhia das Letras, S\u00e3o Paulo, 2019a.<\/h6>\n<h6>FREUD, Sigmund. (1920). Al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer. In: FREUD, Sigmund.\u00a0<b>Obras completas, volume 14<\/b>. Companhia das Letras, S\u00e3o Paulo, 2019b.<\/h6>\n<h6>FREUD, Sigmund. (1909). Observa\u00e7\u00f5es sobre um caso de neurose obsessiva (\u201cO homem dos ratos\u201d, 1909). In: FREUD, Sigmund.\u00a0<b>Obras completas, volume 9<\/b>. Companhia das Letras, S\u00e3o Paulo, 2020.<\/h6>\n<h6>GAZZOLA, Luiz Renato.\u00a0<b>Estrat\u00e9gias na neurose obsessiva<\/b>. Jorge Zahar, Rio de Janeiro, 2015.<\/h6>\n<h6>KNAUSGARD, Karl Ove.\u00a0<b>Um outro amor<\/b>. Companhia das Letras, S\u00e3o Paulo, 2014.<\/h6>\n<h6>KNAUSGARD, Karl Ove.\u00a0<b>A morte do pai<\/b>. Companhia das Letras, S\u00e3o Paulo, 2015a.<\/h6>\n<h6>KNAUSGARD, Karl Ove.\u00a0<b>A ilha da inf\u00e2ncia<\/b>. Companhia das Letras, S\u00e3o Paulo, 2015b.<\/h6>\n<h6>KNAUSGARD, Karl Ove.\u00a0<b>A descoberta da escrita<\/b>. Companhia das Letras, S\u00e3o Paulo, 2017.<\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques. (1957-1958). Os tr\u00eas tempos do \u00c9dipo. In: LACAN, Jacques.\u00a0<b>O semin\u00e1rio, livro 5: as forma\u00e7\u00f5es do inconsciente<\/b>. Jorge Zahar, Rio de Janeiro, 1999.<\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques. (1966). De uma quest\u00e3o preliminar a todo tratamento poss\u00edvel das psicoses. In: LACAN, Jacques.\u00a0<b>Escritos<\/b>. Jorge Zahar, Rio de Janeiro, 2021.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Wallace Faustino da Rocha Rodrigues Doutor em Ci\u00eancias Sociais, professor de Sociologia na UEMG e aluno do IPSM-MG wallacefaustinorocha@hotmail.com Resumo:\u00a0Seguindo o Complexo de \u00c9dipo, o sujeito ante \u00e0 amea\u00e7a de castra\u00e7\u00e3o tende a ver o pai como o detentor do falo e, consequentemente, obst\u00e1culo \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de seu desejo \u2014 quadro esse que se imp\u00f5e&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[27],"tags":[],"class_list":["post-1984","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-almanaque-30","category-27","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1984","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1984"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1984\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1984"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1984"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1984"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}