{"id":1995,"date":"2023-08-19T06:42:44","date_gmt":"2023-08-19T09:42:44","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1995"},"modified":"2025-12-01T12:14:16","modified_gmt":"2025-12-01T15:14:16","slug":"o-grito-silencioso-o-corpo-da-crianca-na-clinica-da-civilizacao1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2023\/08\/19\/o-grito-silencioso-o-corpo-da-crianca-na-clinica-da-civilizacao1\/","title":{"rendered":"O grito silencioso: o corpo da crian\u00e7a na cl\u00ednica da civiliza\u00e7\u00e3o1"},"content":{"rendered":"<h6><strong>Alessandra Thomaz Rocha<\/strong><br \/>\nPsicanalista, doutora em psican\u00e1lise pela UFMG, membro da EBP\/AMP<br \/>\n<span id=\"cloak32d6c9baf345e7a77671dfa0e9bc4723\"><a href=\"mailto:aless.thz@hotmail.com\">aless.thz@hotmail.com<\/a><\/span><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p><strong>Resumo:\u00a0<\/strong>O texto trata da quest\u00e3o do grito silencioso a partir do acontecimento de corpo pol\u00edtico na perspectiva da cl\u00ednica psicanal\u00edtica com crian\u00e7as. Para isso, a autora aborda a quest\u00e3o do grito em Lacan e localiza a quest\u00e3o do sil\u00eancio e sua import\u00e2ncia na psican\u00e1lise. Articula-os um ao outro e \u00e0 cl\u00ednica do falasser a partir do acontecimento de corpo pol\u00edtico, considerando que n\u00e3o h\u00e1 cl\u00ednica do sujeito sem cl\u00ednica da civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave:\u00a0<\/strong>Sil\u00eancio; grito; crian\u00e7a; acontecimento de corpo; falasser<\/p>\n<p><strong>THE SILENT SCREAM: THE CHILD&#8217;S BODY IN THE CLINIC OF CIVILIZATION<\/strong><\/p>\n<p><strong>Abstract:\u00a0<\/strong>The text deals with the silent scream issue from the point of view of the political body event from the perspective of the psychoanalytic clinic with children. For this, the author addresses the issue of screaming in Lacan and also locates the issue of silence in Lacan and its importance in psychoanalysis. She articulates them to each other and to the clinic of the\u00a0<em>parl\u00eatre<\/em>\u00a0based on the event of the political body, considering that there is no clinic of the subject without a clinic of civilization.<\/p>\n<p><strong>Key words:\u00a0<\/strong>Silence; scream; child; body event;\u00a0<em>parl\u00eatre<\/em>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n<div id=\"attachment_1996\" style=\"width: 1545px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/INCURSES__ALESSANDRA_THOMAZ.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"1535\" data-large_image_height=\"1403\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1996\" class=\"wp-image-1996\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/INCURSES__ALESSANDRA_THOMAZ-1024x936.jpg\" alt=\"\" width=\"718\" height=\"656\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1996\" class=\"wp-caption-text\">CAROLINA BOTURA. IO<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Como se articulam grito e sil\u00eancio? Qual \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a com seu corpo e o com o gozo, que dele escapa? Qual \u00e9 o lugar do corpo da crian\u00e7a na cl\u00ednica da civiliza\u00e7\u00e3o? Para tratar desse assunto, faremos inicialmente uma abordagem sobre o grito a partir de Lacan e, em seguida, sobre o sil\u00eancio, para depois articul\u00e1-lo \u00e0 cl\u00ednica do falasser a partir do acontecimento de corpo pol\u00edtico, considerando que n\u00e3o h\u00e1 cl\u00ednica do sujeito sem cl\u00ednica da civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em>O grito<\/em><\/p>\n<p>Lacan evoca o grito para falar do sil\u00eancio no\u00a0<em>Semin\u00e1rio 12:<\/em>\u00a0<em>problemas cruciais para a psican\u00e1lise<\/em>\u00a0(1964-1965, in\u00e9dito), fazendo circular na sala uma reprodu\u00e7\u00e3o do c\u00e9lebre quadro de Edward Munch &#8220;O grito&#8221; (1893). Ele comenta que n\u00e3o encontrou imagem melhor para falar do sil\u00eancio do que essa. Menciona o ser que aparece, que tem o aspecto\u00a0estranho e que n\u00e3o se pode dizer sexuado. Esse ser que<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201ctapa as orelhas, escancara a boca: ele grita. O que \u00e9 esse grito? Quem ouviria esse grito que n\u00e3o ouvimos? Se n\u00e3o que ele imp\u00f5e esse reinado do sil\u00eancio [&#8230;]. Literalmente, o grito parece provocar o sil\u00eancio e, a\u00ed se abolindo, \u00e9 sens\u00edvel que ele o causa, ele o faz surgir, ele lhe permite manter a nota. \u00c9 o grito que o sustenta, e n\u00e3o o sil\u00eancio ao grito\u201d (LACAN, 1964-65, p. 217).<\/p>\n<p>\u201cO grito \u00e9 uma pura enuncia\u00e7\u00e3o, o lugar onde os sujeitos se apreenderiam em suas perdas\u201d (LAURENT, 2016, p. 210-211). Assim, o sil\u00eancio n\u00e3o est\u00e1 fora da linguagem, j\u00e1 que n\u00e3o \u00e9 anterior ao grito, mas, ao contr\u00e1rio, \u00e9 o grito que funda o sil\u00eancio. Logo, n\u00e3o h\u00e1 sil\u00eancio sem grito, pois, como nos afirma Lacan, \u201cO grito faz o abismo onde o sil\u00eancio se aloja\u201d (LACAN, 1964-1965, p. 217). O grito \u00e9 a express\u00e3o primitiva e indiferenciada do rec\u00e9m-nascido, que, por estar fora do sentido, convoca seu outro primordial a um ato interpretativo, que s\u00f3 pode se dar na linguagem. Sob a forma de choro da crian\u00e7a, o grito \u00e9 transformado em demanda. Para Freud, a primeira experi\u00eancia de satisfa\u00e7\u00e3o, por ser in\u00e9dita, \u00e9 tamb\u00e9m irrecuper\u00e1vel enquanto tal. Ela estabelece tanto uma expectativa e uma procura por satisfa\u00e7\u00e3o quanto uma impossibilidade de reencontro do objeto dessa satisfa\u00e7\u00e3o, para sempre perdido, constituindo um vazio cont\u00ednuo e constante para o sujeito, que nenhum objeto substituto pode preencher. Lacan se refere \u00e0 pausa do sil\u00eancio na m\u00fasica como um saber fazer do m\u00fasico, que \u00e9 t\u00e3o essencial quanto uma nota sustentada, e se pergunta se s\u00f3 poder\u00edamos pensar no sil\u00eancio como suspens\u00e3o da palavra.<\/p>\n<p>\u201c<em>Taceo<\/em>\u00a0n\u00e3o \u00e9\u00a0<em>sileo<\/em>\u201d<\/p>\n<p>Ainda nesse mesmo semin\u00e1rio (1964-1965), Lacan nos remete a duas formas do sil\u00eancio, utilizando os termos em latim. Define\u00a0<em>taceo<\/em>\u00a0como a dimens\u00e3o do sil\u00eancio que \u00e9 aquela da palavra n\u00e3o-dita, enquanto\u00a0<em>sileo<\/em>\u00a0seria um sil\u00eancio fundante, estruturante, que aponta para uma aus\u00eancia essencial da palavra, isto \u00e9, um buraco de significa\u00e7\u00e3o, uma impossibilidade de simboliza\u00e7\u00e3o (LACAN, 1964-1965) que seria, em \u00faltima inst\u00e2ncia, a pr\u00f3pria morte. Roland Barthes, em\u00a0<em>O neutro\u00a0<\/em>(2003), referindo-se \u00e0 l\u00edngua cl\u00e1ssica, tamb\u00e9m faz uso desses dois termos em latim para abordar o sil\u00eancio. Define S<em>ileo<\/em>\u00a0como o que remete a uma aus\u00eancia de movimento e de ru\u00eddo, uma esp\u00e9cie de pureza atemporal das coisas que existe antes de elas nascerem ou depois de elas desaparecerem; e\u00a0<em>taceo<\/em>\u00a0como o que diz respeito a um calar-se, a um deixar de falar, isto \u00e9, um sil\u00eancio verbal.<\/p>\n<p><a id=\"ref1\"><\/a>Lacan salienta que \u201cO sil\u00eancio forma um la\u00e7o, um n\u00f3 fechado entre algo que \u00e9 um entendimento e algo que, falando ou n\u00e3o, \u00e9 o Outro, \u00e9 este n\u00f3 fechado que pode repercutir quando o atravessa, e talvez mesmo o cave, o grito\u201d (LACAN, 1964-1965, p. 218). Menciona que em algum lugar em Freud existe a percep\u00e7\u00e3o primordial desse buraco do grito. Afirma que \u00e9 no n\u00edvel do grito que aparece o pr\u00f3ximo, o\u00a0<em>Nebenmensch,\u00a0<\/em>o mais pr\u00f3ximo, porque \u00e9 justamente esse vazio intranspon\u00edvel, marcado no interior de n\u00f3s mesmos, e do qual podemos apenas nos aproximar. Menciona tamb\u00e9m, nessa li\u00e7\u00e3o XII, de 17\/03\/65, o excelente artigo de Robert Fliess, filho do famoso Wilhelm Fliess, o companheiro de autoan\u00e1lise de Freud, intitulado \u201c<em>Silence and Verbalization<\/em>\u201d<sup>2<\/sup>. Esclarecendo que esse sil\u00eancio a que se refere Fliess \u00e9 \u201co pr\u00f3prio lugar onde aparece o tecido sobre o qual se desenrola a mensagem do sujeito, \u00e9 a\u00ed onde o nada impresso deixa aparecer o que \u00e9 esta palavra. E o que \u00e9 dela \u00e9 precisamente, neste n\u00edvel, sua equival\u00eancia com uma certa fun\u00e7\u00e3o do objeto\u00a0<em>a<\/em>\u201d (LACAN, 1964-1965, p. 218).<\/p>\n<p>O sil\u00eancio comp\u00f5e a pr\u00f3pria fun\u00e7\u00e3o da verbaliza\u00e7\u00e3o e manifesta a presen\u00e7a do que \u00e9 indistingu\u00edvel da puls\u00e3o, ou seja, a presen\u00e7a do objeto\u00a0<em>a<\/em>. H\u00e1, portanto, uma aproxima\u00e7\u00e3o entre o sil\u00eancio das puls\u00f5es e o sil\u00eancio que comp\u00f5e a palavra e a convoca enquanto objeto\u00a0<em>a<\/em>. Isso que, na cl\u00ednica, se presentifica como o sil\u00eancio do analista. Essa \u00e9 a fun\u00e7\u00e3o crucial do sil\u00eancio na experi\u00eancia anal\u00edtica, convocar o dizer analisante, a partir da presen\u00e7a do analista como sil\u00eancio invocante, como semblante de objeto\u00a0<em>a<\/em>.<\/p>\n<p>O artigo de Robert Fliess tamb\u00e9m foi citado por Lacan em 1953, em seu texto \u201cFun\u00e7\u00e3o e campo da fala e da linguagem em psican\u00e1lise\u201d, para se referir \u00e0s palavras e \u00e0 linguagem em rela\u00e7\u00e3o ao corpo. Fliess estuda, na an\u00e1lise, a conex\u00e3o entre a palavra e o gozo atrav\u00e9s dos sil\u00eancios. Distingue tr\u00eas tipos de sil\u00eancio que observa clinicamente e diz que s\u00e3o interrup\u00e7\u00f5es de uma linguagem semelhantes \u00e0s pausas ou sil\u00eancios de uma partitura musical.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">&#8220;H\u00e1 o pequeno sil\u00eancio normal, &#8216;uretral&#8217;, no qual o paciente parece ter esquecido a regra anal\u00edtica e interrompe a fluidez das palavras. O &#8216;sil\u00eancio anal&#8217; alude aos pacientes que se calam, ret\u00eam palavras, est\u00e3o sujeitos a uma inibi\u00e7\u00e3o. O sujeito n\u00e3o consegue retomar as associa\u00e7\u00f5es. Mas o pior, segundo ele, \u00e9 o &#8216;sil\u00eancio oral&#8217;, que parece intermin\u00e1vel. \u00c9 um mutismo que d\u00e1 conta de uma impot\u00eancia para falar. Lacan menciona Fliess precisamente por essa rela\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o \u00e0 palavra que pode tomar valor de gozo segundo os diferentes estados libidinais mencionados por Freud e sinaliza que, quando o valor de gozo infiltra a palavra, e isso se repara melhor no sil\u00eancio, a puls\u00e3o a cala. No sil\u00eancio h\u00e1 a inibi\u00e7\u00e3o da satisfa\u00e7\u00e3o que o sujeito experimenta na produ\u00e7\u00e3o do fluxo de palavras\u201d (KUPERWAJS, 2021, n\/p).<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><em>O acontecimento de corpo pol\u00edtico e a cl\u00ednica da civiliza\u00e7\u00e3o<\/em><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Partindo do tema do falasser pol\u00edtico e do acontecimento de corpo, considerando o fato de que o gozo foi elevado ao z\u00eanite na civiliza\u00e7\u00e3o, \u00c9ric Laurent, em seu livro\u00a0<em>O avesso da biopol\u00edtica<\/em>, nos lembra de que o estatuto fundamental da subjetividade de nossa \u00e9poca \u00e9 a ang\u00fastia, e que o sujeito moderno possui uma afinidade com o corte introduzido pela ang\u00fastia em tudo o que constitui o mundo. \u00c9 uma rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o corte e com o vazio que pode ser dita \u201cfora do sentido\u201d e contabilizada como a marca de um sujeito que falha (LAURENT, 2016). Ressalta que a desapari\u00e7\u00e3o do sujeito contempor\u00e2neo se produz no n\u00edvel da divis\u00e3o subjetiva, o que acarreta uma perda no n\u00edvel do desejo, e que essa perda ecoa na opera\u00e7\u00e3o da fantasia \u201cem que o sujeito se apreende como objeto no pleno (<em>plein<\/em>) de sua perda. Isso define um funcionamento da psicologia das massas distinto da identifica\u00e7\u00e3o positiva como um tra\u00e7o extra\u00eddo do Outro\u201d (LAURENT, 2016, p. 210). Ele nos indica que, na democracia, o Um da uni\u00e3o est\u00e1 sempre perdido, pois \u201ca oposi\u00e7\u00e3o entre o la\u00e7o social fundado numa identifica\u00e7\u00e3o com um tra\u00e7o un\u00e1rio, ou um bigodinho, e aquele fundado na fantasia como resposta em face da ang\u00fastia original nos permite ler de outra maneira (&#8230;)\u201d (LAURENT, 2016, p. 210) alguns dos movimentos sociais que tem surgido em resposta \u00e0 crise. Essas respostas v\u00eam sendo formuladas sob a forma de<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cmovimentos espont\u00e2neos sem palavras de ordem unificadora na Europa latina, sob o significante \u2018indignados\u2019, nos EUA e sob o de \u2018Occupy&#8230;\u2019 em pa\u00edses angl\u00f3fonos. Trata-se de ocupar um lugar mais indefinido ainda, ou seja, aquele de uma enuncia\u00e7\u00e3o em que o sujeito pode se retomar em sua desapari\u00e7\u00e3o. \u00c9 um grito do sujeito contra o Outro infernal, que o deixa sem lugar no mundo\u201d (LAURENT, 2016, p. 210).<\/p>\n<p>O grito como pura enuncia\u00e7\u00e3o \u00e9 o lugar onde os sujeitos se apreenderiam em suas perdas. Logo, \u201cem resposta \u00e0 ang\u00fastia, trata-se de\u00a0<em>escrever alguma coisa nova<\/em>, alguma coisa que demarque um lugar (<em>place<\/em>)\u201d (LAURENT, 2016, p. 211), pois \u201c\u00e9 o lugar que deixa aberto o furo no simb\u00f3lico que o sujeito tenta ocupar para se apreender\u201d (LAURENT, 2016, p. 211). Por\u00e9m, resta saber para onde se dirigem as marchas em curso desses movimentos da cultura, j\u00e1 que a suspeita da impot\u00eancia do homem pol\u00edtico contempor\u00e2neo se dissemina. Laurent questiona: esses movimentos seriam \u201ca possibilidade de uma manifesta\u00e7\u00e3o em que o sil\u00eancio trabalharia no avesso da puls\u00e3o de morte, num mal-entendido vivo que nos afastaria do ajuste final entre liberdade e seguran\u00e7a?\u201d (LAURENT, 2016, p. 211). Seria esse grito silencioso o que poderia operar uma subvers\u00e3o a partir do lugar de uma enuncia\u00e7\u00e3o eloquente?<\/p>\n<p>Considerando que n\u00e3o h\u00e1 cl\u00ednica do sujeito sem cl\u00ednica da civiliza\u00e7\u00e3o, trata-se, na cl\u00ednica do falasser, de apostar no inconsciente como o que est\u00e1 \u2018a ser definido\u2019, segundo Miller (LAURENT, 2016, p. 201), e de acordo com Laurent, considerar que, diante da liquidez da civiliza\u00e7\u00e3o moderna, a ang\u00fastia se apresenta de forma generalizada. Por isso, Lacan nos orienta a trabalhar a partir n\u00e3o mais das defesas ligadas ao desejo, mas dos \u201carranjos e percursos dos regimes de gozo\u201d (LAURENT, 2016, p. 203), como o que se estabelece no n\u00edvel da puls\u00e3o.<\/p>\n<p>Assim, tomando a experi\u00eancia anal\u00edtica, n\u00e3o mais nomeada como cura ou tratamento, mas como uma experi\u00eancia, proposta que se apresenta a partir do \u00faltimo ensino de Lacan, trata-se, na cl\u00ednica psicanal\u00edtica, de apostar no \u201csintoma como acontecimento\u201d e no \u201cmodo de gozar como sintoma\u201d, de forma a localizar, isto \u00e9, dar lugar ao falasser pol\u00edtico como acontecimento de corpo. Tomar o Outro como corpo, e n\u00e3o como esp\u00edrito, permite inscrever nele uma marca, que vai mais al\u00e9m do tra\u00e7o un\u00e1rio. \u00c9 uma marca que permite reler a identifica\u00e7\u00e3o a partir da inscri\u00e7\u00e3o sobre o corpo, a partir do acontecimento de corpo (LAURENT, 2016). \u201cO acontecimento de corpo assinalado por Lacan \u00e9 mudo. Ou ent\u00e3o fala aos gritos, sem dire\u00e7\u00e3o precisa e fora dos c\u00f3digos: \u2018isso goza onde n\u00e3o fala, isso goza onde n\u00e3o faz sentido\u2019\u201d (BARROS, R., 2011, p. 218).<\/p>\n<p>Laurent (2016) comenta que Miller, em seu texto \u201cIntui\u00e7\u00f5es milanesas\u201d, descreve as modifica\u00e7\u00f5es da cl\u00ednica na \u00e9poca do n\u00e3o todo e da globaliza\u00e7\u00e3o, assinalando que a \u201ccl\u00ednica do n\u00e3o todo \u00e9 aquela em que florescem as patologias descritas como centradas na rela\u00e7\u00e3o com a m\u00e3e, ou [&#8230;] no narcisismo&#8221;, e que o n\u00f3 \u00e9<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">&#8220;uma maneira de responder \u00e0 estrutura do n\u00e3o todo. [&#8230;] O tern\u00e1rio RSI se distingue e se op\u00f5e ao que era a reparti\u00e7\u00e3o estanque descont\u00ednua entre neurose, pervers\u00e3o e psicose, [e] sem d\u00favida nos fornece arranjos diferentes, mas que est\u00e3o em continuidade uns com os outros&#8221; (LAURENT, 2016, p. 206).<\/p>\n<p>\u00c9 o sintoma que se torna a unidade elementar da cl\u00ednica, e n\u00e3o mais o que se chamava de estrutura cl\u00ednica, que era uma classe. \u201cNessa cl\u00ednica o absoluto, a subst\u00e2ncia, \u00e9 o gozo\u201d (LAURENT, 2016, p. 206), que no corpo faz sintoma como um acontecimento, pois \u201c\u00e9 como se fosse mais simples para o inconsciente de se servir do corpo para tratar o que n\u00e3o pode ser dito\u201d (BONNAUD, 2015, p. 11).<\/p>\n<p>Portanto, o acontecimento de corpo \u201cest\u00e1, como a ang\u00fastia, do lado do gozo, que faz desordem no simb\u00f3lico e que n\u00e3o pode encontrar a\u00ed nem seu lugar, nem seu la\u00e7o, j\u00e1 que se apresenta como irrup\u00e7\u00e3o ou emerg\u00eancia\u201d (LAURENT, 2016, p. 209). Por\u00e9m, a ang\u00fastia, como afeto que n\u00e3o engana e que \u00e9 sentido no corpo, est\u00e1 mais em rela\u00e7\u00e3o ao sexo e ao desejo do que em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 morte.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><em>O acontecimento de corpo na cl\u00ednica com crian\u00e7as como grito silencioso<\/em><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 um saber que surge da boca das crian\u00e7as como algo novo, sobre o qual \u00e9 preciso se debru\u00e7ar. \u00c9 preciso investigar, a partir do corpo como Outro, qual seria a rela\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a com o gozo que lhe escapa e que provoca desordem na fam\u00edlia. O corpo \u00e9 o lugar onde um dizer \u00e9 capturado, mas aparece como enigma de um corpo sexuado, n\u00e3o sem a ang\u00fastia como sinal. \u201cA crian\u00e7a \u00e9 feita para aprender, diz Lacan, aprender a fazer o n\u00f3 a partir do que fracassa. Com isso ele distingue a crian\u00e7a do infantil como retorno do recalcado, e atribui a ela um trabalho de constru\u00e7\u00e3o que pode ser verificado de forma singular em cada um\u201d (BARROS, M. 2011, p. 227).<\/p>\n<p>Em tempos de p\u00f3s-verdade, no qual o que importa n\u00e3o s\u00e3o mais os fatos, mas o que se diz deles, como operar com a enuncia\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a diante de um fechamento ao inconsciente? Como fazer existir o inconsciente quando a subjetividade de nossa \u00e9poca,\u00a0com sua autodenomina\u00e7\u00e3o, busca separar o corpo do ser falante e fazer da crian\u00e7a um objeto mudo, a ser escrutinado pelo saber da ci\u00eancia? Como dar lugar ao Outro do desejo e da palavra, ao falasser, quando o que surge s\u00e3o indiv\u00edduos isolados do Outro, arraigados em suas cren\u00e7as delirantes de um gozo mort\u00edfero? \u00c9 preciso buscar ler o sintoma como grito silencioso nos atos que curto-circuitam a palavra e recha\u00e7am o inconsciente.<\/p>\n<p>Cabe, portanto, ao analista se perguntar sobre o ponto de ang\u00fastia que mobiliza a crian\u00e7a e seus pais de forma a localizar o n\u00e3o dito que os permitir\u00e1 formular uma quest\u00e3o. Ao fazer-se parceiro da crian\u00e7a nesse trabalho de elabora\u00e7\u00e3o e constru\u00e7\u00e3o de uma demanda, permite-se a ela lidar com o real opaco que se apresenta de forma cada vez mais avassaladora, a partir de sua posi\u00e7\u00e3o de objeto\u00a0<em>a<\/em>, dejeto das fam\u00edlias e da civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na an\u00e1lise com crian\u00e7as, \u00e9 poss\u00edvel ler, atrav\u00e9s dos equ\u00edvocos e dos lapsos, o que se escreve a partir do corpo fora do corpo, do corpo como Outro, e que surge como acontecimento, como grito silencioso, \u00edndice, letra, que abre a possibilidade de inscri\u00e7\u00e3o de sua singularidade. \u00c9 importante localizar o \u00edndice inconsciente, a cifra que permite escrever a marca singular do gozo de cada um a partir do saber fazer com as palavras mais al\u00e9m do corpo, para poder dar lugar e nome a uma diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/h6>\n<h6>BARROS, R. Lacan e o acontecimento de corpo.\u00a0<strong>Op\u00e7\u00e3o lacaniana<\/strong>, 62, 2011. pp. 217-219.<\/h6>\n<h6>BARROS, M. Lacan e a crian\u00e7a.\u00a0<strong>Op\u00e7\u00e3o lacaniana<\/strong>, 62, 2011. pp. 227-229.<\/h6>\n<h6>BARTHES, R.\u00a0<strong>O neutro<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2003.<\/h6>\n<h6>BONNAUD, H.\u00a0<strong>Le corps pris au mot: Ce qu\u2019il dit, ce qu\u2019il veut<\/strong>. Paris France\u00a0: Navarin, 2015.<\/h6>\n<h6>KUPERWAJS, I. Sil\u00eancios. Texto publicado no\u00a0<strong>Boletim infamiliar do XXIII Encontro Brasileiro do campo Freudiano<\/strong>, 2021. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.encontrobrasileiro2020.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Kuperwajs-Irene-Sile%CC%82ncios.pdf\">https:\/\/www.encontrobrasileiro2020.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Kuperwajs-Irene-Sile%CC%82ncios.pdf<\/a>.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1964-1965)\u00a0<strong>O semin\u00e1rio, livro 12: problemas cruciais para a psican\u00e1lise<\/strong>. In\u00e9dito.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1953) Fun\u00e7\u00e3o e campo da fala e da linguagem em psican\u00e1lise.\u00a0<strong>Escritos<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998, pp. 238-324.<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9.\u00a0<strong>O avesso da biopol\u00edtica: uma escrita para o gozo<\/strong>. Rio de Janeiro: Contracapa, 2016.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a id=\"nota1\"><\/a><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/o-grito-silencioso#nota1_1\">1.\u00a0Texto apresentado no N\u00facleo de Investiga\u00e7\u00e3o e Pesquisa em Psican\u00e1lise com Crian\u00e7as da Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica do IPSM-MG em 06\/07\/2022.\u00a0<\/a><\/h6>\n<h6><a id=\"i\"><\/a>2<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/o-grito-silencioso#ref1\">.\u00a0<em>Silence and verbalization: A suplement to the theory of the analytic rule<\/em>\u00a0(1949). (Trad. J. D. Nasio)\u00a0<em>Le silence en psychanalyse<\/em>. Paris: Payot-Rivages, 1998. In: Lacan, J.\u00a0<em>Problemas cruciais para a psican\u00e1lise<\/em>\u00a0(1964-1965), p. 460<\/a><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/o-grito-silencioso#ref1\">.<\/a><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/o-grito-silencioso#ref1\">\u00a0<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alessandra Thomaz Rocha Psicanalista, doutora em psican\u00e1lise pela UFMG, membro da EBP\/AMP aless.thz@hotmail.com &nbsp; Resumo:\u00a0O texto trata da quest\u00e3o do grito silencioso a partir do acontecimento de corpo pol\u00edtico na perspectiva da cl\u00ednica psicanal\u00edtica com crian\u00e7as. Para isso, a autora aborda a quest\u00e3o do grito em Lacan e localiza a quest\u00e3o do sil\u00eancio e sua&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57734,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[27],"tags":[],"class_list":["post-1995","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-30","category-27","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1995","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1995"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1995\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57735,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1995\/revisions\/57735"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57734"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1995"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1995"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1995"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}